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sexta-feira, 9 de março de 2018

Fuga de Nova York

Ao lado de “O Enigma de Outro Mundo”, este “Fuga de Nova York”, de 1981, é um dos filmes mais cultuados da parceria entre o diretor John Carpenter e o astro Kurt Russell.
Como toda ficção científica oriunda daquele fantasioso período comercial, ela hoje soa absurda em sua proposta: Em 1988 (o futuro dali a sete anos), a ilha de Manhattan, em Nova York, é convertida em uma gigantesca prisão com imensas muralhas a circundá-la. Anos depois, em 1997, o lugar é um domínio confinado de bandidos completamente isolado do resto do mundo.
Poucos têm noção das circunstâncias lá dentro, e seus muros são patrulhados ferozmente por militares impedindo qualquer tentativa de fuga.
As autoridades que vigiam esse inacreditável perímetro são pegas de surpresa quando um grupo revolucionário denominado Movimento de Libertação Nacional seqüestra o avião presidencial, o Força Aérea-1, e leva o presidente em pessoa (Donald Pleasence, outra presença habitual nos filmes de Carpenter) a cair com uma cápsula ejetora dentro da própria Manhattan. Com um refém dessa importância nas mãos dos bandidos, o chefe de segurança Bob Hauk (Lee Van Cleeff) não encontra outra opção senão recorrer aos serviços do mercenário Snake Plissken (Kurt Russell, antológico usando tapa-olho), outrora um herói de guerra, e agora sentenciado àquela mesma prisão.
O acordo feito é pouco favorável a Plissken –ele recebe uma dose de cápsulas microscópicas que irão matá-lo se não trouxer o presidente em 22 horas –mas ele aceita a missão em troca do possível perdão presidencial por seus crimes.
Em Manhattan –que ele invade pousando um planador numa das torres do World Trade Center –o perigo ronda cada esquina, e não são raras as menções feitas pelos personagens à Leningrado (esse precedente histórico parece servir constantemente de modelo para o clima que Carpenter deseja construir neste trabalho).
A medida que seu prazo avança, Plissken adquire alguns aliados inesperados naquela terra de ninguém, como o fanfarrão Cabbie (o grande Ernest Borgnine, já em fim de carreira), o bem informado, mas pouco confiável Brain (o saudoso Harry Dean Stanton) e sua ajudante/companheira Maggie (Adrienne Barbou, usando o filme todo um decote matador!).
Há ecos claros de “Mad Max”, de “Selvagens daNoite” e de “Ruas de Fogo”, todos filmes dos anos 1980 que, em comum, têm aquele clima distópico no qual o protagonista adentra um ambiente tão inóspito quanto mirabolante –e curiosamente em todos, essa hostilidade mirabolante vem calcada numa previsão pessimista, subversiva até, de uma deterioração urbana e social, como se fosse um reflexo condicionado do cinema de ação oitentista, a previsão de um futuro devastado e retrógrado em suas mazelas criminais e bárbaras.
“Fuga de Nova York” ganhou uma seqüência, um tanto tardia, em 1996, bastante beneficiada pelo culto que surgiu ao longo dos anos em torno deste filme: Com um orçamento generoso, o diretor Carpenter levou Snake Plissken à Costa Oeste em “Fuga de Los Angeles”. Toda a inspiração da premissa e de seu protagonista, entretanto, parecem mesmo terem ficado restritos à este primeiro filme.

domingo, 23 de abril de 2017

Argo

A produção dirigida por Ben Affleck é um filme primoroso nos mais diversos aspectos, mas talvez, o mais interessante deles é que promove uma junção vistosa, homogênea e relevante entre um cinema sério, de conotações sócio-políticas (e providencialmente baseado em fatos reais) com o entretenimento típico (do qual o próprio Affleck, como ator, participou de inúmeros exemplares), feito puramente para que a tensão, quando suscitada, intensifique a catarse do desenlace seguinte; e nesse aspecto, a direção de Ben Affleck é de uma perspicácia louvável.
Fim dos anos 1970. Sob enorme tensão política, a embaixada americana é invadida no Teerã. Seis de seus funcionários escapam com vida para as ruas e buscam refúgio na embaixada canadense. Sua segurança, porém, deve durar pouco. Correndo contra o tempo, o agente da CIA, especialista em extrações, Tony Mendez (Affleck em interpretação contida e minimalista), elabora uma missão das mais improváveis: Sair daquele país com a identidade de uma equipe cinematográfica canadense que foi lá atrás de locações para um filme de ficção científica intitulado "Argo" –o mundo e a cultura pop, afinal, experimentavam uma febre por filmes de ficção científica iniciada por um certo “Star Wars”!
Para viabilizar essa missão, é criada uma produtora de cinema em funcionamento (contando com os autênticos realizadores vividos por John Goodman e Alan Arkin) e todo um processo ilusório de filmagem que engana os próprios profissionais da área.
O fabuloso Vencedor do Oscar 2013 de Melhor Filme é um prodigioso trabalho do diretor Ben Affleck na construção magistral de uma atmosfera crescente, constituído de uma dosagem refinada (e calibrada à perfeição) de suspense e ritmo. “Argo” se torna fascinante justamente em sua postura, na qual coloca questões culturais, políticas e diplomáticas em segundo plano (sem, no entanto, tirar deles sua importância para com a narrativa) e elege o próprio cinema como o herói da trama e grande salvador dos personagens indefesos e encrencados.
Dentre os últimos ganhadores do Oscar é o mais assumidamente divertido em muito tempo.