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quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Todas As Mulheres Fazem


No princípio dos anos 1990 –e, por isso mesmo, afetado por uma série de definições estéticas datadas relativas aos anos 1980 –o famigerado diretor Tinto Brass lançou este pseudo-drama erótico nos moldes daqueles filmes que ele nunca deixou de fazer.
A despeito da fama que seu “Calígula” adquiriu, talvez tenha sido desse período as obras dele que mais conhecimento obtiveram aqui no Brasil, possivelmente por causa da ascenção do mercado de homevideo, onde assistir obras eróticas e desavergonhadas no conforto do lar era um hábito que se podia manter sem constrangimento.
É curioso como raramente há nudez completa nas filmes de Tinto Brass. Adepto de um erotismo carregado de fetiche e de pretensa classe –e muito latente aos realizadores europeus –as cenas eróticas envolvem muitas vezes mulheres usando cinta-liga, acessórios ocasionais e lingeries reveladoras; salvo uma cena de banho coletivo, Tinto Brass não trabalha com nudez total, o quê é curioso.
Sua protagonista –que compartilha muitas características em comum com todas as personagens principais de Tinto Brass –é Diana (Claudia Koll), belíssima mulher casada com um homem que, de início, aparenta ser o típico corno manso.
Mas, Paolo (Paolo Lanza) não tolera a idéia de infidelidade. Contudo, em sua auto-confiança (ou seria tolice mesmo?), essa intolerância se traduz em incredulidade: Diana até relata suas inúmeras escapadas extra-conjugais durante as transas (que, acredite, são muitas!) a fim de apimentar a relação, mas Paolo crê que são inventadas.
Quando ele acaba se convencendo da verdade –de que as traições de Diana não são inventadas, mas sim muito reais –ele tem uma crise. Revela-se incapaz de aceitar o lado insaciável da mulher que sempre esteve lá, sem que ele percebesse.
Dessa crise, seguida de inevitável separação, não vem a ser drama que o diretor Tinto Brass necessariamente extrai: É apenas mais um pretexto para mais e mais sequências eróticas onde ele enfatiza a promiscuidade de sua heroína.
As obras de Tinto Brass parecem habitar um universo moral à parte. Tão habituado ele está ao sexo e aos comportamentos lascivos que propiciam o encontro carnal que sua percepção de sociedade, nos filmes que realiza, se mostra impregnada por essa libertinagem. Festas, jantares, baladas. Todas as ocasiões mostradas no filme, sejam elas de ordem íntima ou social se mostram propensas ao erotismo –não raro com figurantes surgindo sem roupas automaticamente.
Habitante desse mundo particular onde o sexo se mostra tão possível quanto inevitável, não é de se admirar que Diana seja tão libertina –é o comportamento de Paolo e seus rompantes de moralismo repressor que não fazem o menor sentido. E, com efeito, em algum momento da previsível trama que segue, é ele quem terá de se dobrar a essa realidade.
Com uma encenação melindrosa e brega, onde o bom e o mau gosto parecem co-existir de forma desafiadora, o diretor não se mostra nem um pouco interessado em tirar qualquer reflexão dessa premissa –e se está, ele falha completamente em demonstrar –o que ele faz, com insistência compulsória, é contemplar os belos corpos, flagrar o ascender do êxtase nas posturas de seus personagens (mais até do que flagrar o sexo em si) e dissertar de modo folhetinesco e superficial sobre as razões dos comportamentos sociais e sexuais.
Na qualidade irregular com a qual trabalha o material, Tinto Brass escapa, por pouco, de realizar um pornô bem vagabundo.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Calígula


Uma das mais infames (e lendárias) produções cinematográficas de que se tem notícia, tinha mesmo que ser assinada pelo italiano Tinto Brass, que durante boa parte de sua carreira dedicou-se à criação de um “gênero”, por assim dizer, que harmonizasse o drama de costumes e o pornográfico, com uma aparente e claudicante influência de mestres maiores do cinema italiano como Píer Paolo Passolini e Luchino Visconti.

A história corresponde bastante às pretensões dos produtores, que almejavam um trabalho de tintas épicas e hollywoodianas: Em meio ao auge do Império Romano, o jovem Calígula (Malcow MacDowell, recém-saído de "Laranja Mecânica") aguarda seu momento de subir ao trono por sucessão. Entretanto, guiado pelos estratagemas da irmã Drusilla (Teresa Ann Savoy), com quem mantém uma relação incestuosa, ele termina por afundar Roma em intermináveis orgias e perversões.

Embora sejam perceptíveis no filme, as intenções de se fazer uma superprodução –como o elenco que reúne estrelas como MacDowell, Peter O Toole, John Gielgud e Helen Mirren (que chega a aparecer nua!) –o grande diferencial que destacou “Calígula” das produções dos anos 1970 (e que justifica talvez sua lembrança hoje, quase quatro décadas depois de sua realização), é a conturbada história de seus bastidores, que levou à mudança de abordagem do filme como um todo: Reza a lenda que Tinto Brass planejava um filme suntuoso e elegante, na medida do possível que o já decadente cinema italiano do período poderia arcar, visando, quem sabe, uma repercussão que elevasse seu nome ao dos grandes autores importados para trabalhar nos EUA, o quê, sabemos, acabou não acontecendo.
Temendo bancar as contas de um filme que corria o risco de tornar-se um projeto caro e megalomaníaco, o produtor Bob Guccione interferiu, transformando o filme na única espécie de produto vendável –sendo ele o criador da revista Penthouse! –que ele conhecia.
A montagem paralela que envolvia o elenco famoso (que já era, ela própria, bastante abundante no erotismo), recebeu assim inserções de cenas de sexo explícito, que o aproximaram muito de um filme pornográfico de fato. Tornando “Calígula” o filme que ele é até hoje: Uma produção picotada, onde suas duas diferentes facetas –o filme pornô e o filme de época no qual se acha o elenco famoso –quando muito só se harmonizam devido à pouca habilidade do diretor Tinto Brass cuja encenação visual, provavelmente de maneira involuntária, se aproxima mesmo da (pouca) elaboração cênica de um filme erótico.
Ainda que, eu admito, existam filmes eróticos muito mais bem produzidos do que aqueles realizados por Tinto Brass...