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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A Negociação

Na primeira cena de “A Negociação”, o personagem de Richard Gere discorre com austeridade sobre como sua empresa atravessou incólume a crise do sistema econômico e imobiliário de 2008. O filme de Nicholas Jarecki já começa assim com um sabor pertinente, agregando ao enredo questões muito atuais.
Robert Miller (Gere) tem, afinal, muito a perder: Sua reputação, seus negócios –em estágio de frágil negociata que podem influenciar no bem-estar de sua família –e até mesmo uma relação de respeito mútuo com seus entes queridos. Incluindo aí a filha Brooke (Britt Marling) e a esposa Ellen, de comportamento normalmente alheio (Suzan Sarandon).
Demandando um tempo considerável para ajustar esses elementos da narrativa, e deles fazer algo bem claro ao expectador, o filme de Jarecki se torna então aquilo que ele queria ser: Um suspense. Eis que Robert tem também –além das complicações de sobra –uma amante, a artista plástica Julie, vivida pela modelo francesa Laetitia Casta.
É ao lado dela que Robert está quando acidentalmente capota o carro numa estrada deserta a noite. E constata, logo em seguida, que o impacto levou Julie à morte.
Ele foge do local com a ajuda de um jovem conhecido (Nate Parker, de “O Nascimento de Uma Nação”), buscando apagar, na medida do possível, os indícios que o relacionam àquela tragédia e, nos dias que se seguem, passará alguns apuros tentando se esquivar do encalço insistente e obstinado do detetive Bryer (Tim Roth), um proletário rancoroso (ou assim retratado no filme) disposto a fazer o impossível para obter uma condenação do ricaço que aconteceu de ficar em sua mira.
O aguçado tino de negócios de Robert será fundamental para que ele consiga se desvencilhar com astúcia das circunstâncias caudalosas que o incriminam.
Ao lado de “Chicago” e “Infidelidade”, este filme é uma das produções que, nas últimas décadas, beneficiou-se de uma súbita iluminação da parte do ator Richard Gere, em empregar os mesmo maneirismos de sempre –e que fizeram dele um astro mais pelo charme desenvolto do que pela versatilidade interpretativa –para moldar um personagem crível arremessado numa situação completamente distinta das quais nos acostumamos a vê-lo. Nesse sentido, esta é uma de suas atuações mais ricas em muitos anos.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A Outra Terra

Ao escrever este roteiro em colaboração com o diretor Mike Cahill (de “O Rei da Califórnia”), a atriz Britt Marling reservou para si o papel da protagonista cuidadosamente construída em torno de dilemas de ordem dramática que os atores e atrizes tanto apreciam vivenciar.
Ela é Rhoda, uma jovem inteligente e apaixonada por astronomia –características que devem dizer mais à atriz do que à personagem visto que isso é sugerido no início e, apesar de tudo, não mais explorado ao longo do filme.
O filme mal começa e já trata de colocar Rhoda como o pivô de uma tragédia que definirá a narrativa: Voltando alcoolizada de uma festa, ela é surpreendida por uma notícia no rádio que relata a descoberta de um novo planeta escondido atrás do sol, um planeta exatamente igual à Terra –e, por isso mesmo chamado de “Terra 2”. Distraída com a visão daquele intrigante ponto azul no céu, Rhoda colide seu carro com o de uma família, matando a mãe (que estava grávida), o filho pequeno e deixando em coma o pai. Conseqüentemente, ela passa os próximos quatro anos em detenção até ganhar a liberdade, e descobrir, do lado de fora, que esses percalços lhe custaram seus sonhos de vida: Não mais uma estudante, ela agora tem de trabalhar como faxineira de escola.
Entretanto, sua maior perturbação continua a ser o erro que levou àquele acidente. Ela procura pelo sobrevivente, que nesse ínterim saiu do coma, John Burroughs (William Mapother, de “Entre Quatro Paredes” e da série “Lost”) e tenta aproximar-se inicialmente na intenção de pedir desculpas, mas, quando a coragem lhe falta, termina oferecendo-se para trabalhar como uma espécie de diarista.
Rhoda passa a conviver com ele, e se dá conta das deprimentes circunstâncias de sua vida desde o acidente. Ao mesmo tempo, a NASA planeja o envio de uma nave tripulada à Terra 2 –que, ao que todos os indícios surpreendentes parecem apontar, é uma espécie de reflexo sincronizado do nosso mundo, contendo as mesmas pessoas (!) –e Rhoda, até pela oportunidade de começar uma vida nova, é uma das candidatas a partir para esse outro planeta.
Contudo, ela e John acabam se envolvendo, sem que ela tenha qualquer chance de contar a ele toda a verdade. É a chegada desse instante iminente e inevitável de revelação –e da possível e provável reação de John a ele –que vai movendo o conflito e a tensão da narrativa até o seu final de uma sacada, verdade seja dita, até bem solucionada. Embora parte do público possa se irritar com aquela, digamos, decisão abnegada do filme e da protagonista.
Um detalhe problemático e até certo ponto bastante incontornável de “A Outra Terra” é, portanto, que a trama paralela a respeito da Terra 2 (tão mais intrigante e instigante do que o enlace trágico e, no fim das contas, convencional, que envolve Rhoda e John) só adquire relevância de fato –e afeta determinantemente a premissa –quando chegamos ao final; até lá, ela parece uma mera justificativa para diferenciar este drama independente de tantos outros.