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segunda-feira, 4 de junho de 2018

Admiradora Secreta


De início, é de se perguntar, como em qualquer caso, o quê faz de “Admiradora Secreta” um filme digno de uma menção já passados trinta e três anos de seu lançamento.
Além de ser exemplar como ótimo produto comercial típico dos anos 1980, ele passou muito bem pelo teste do tempo: No que se propõe e no que lhe compete, o filme continua eficaz, fluido e tão cheio de empatia quanto em 1985!
O elenco é povoado por rostos apontados como estrelas promissoras do período –e que se tornaram estrelas restritas aos anos 1980 mesmo –sempre presentes em projetos que envolviam o mesmo tipo de entrenimento que passou a ser relacionado com a ‘sessão da tarde’: Três anos antes, o jovem protagonista C. Thomas Howell tinha aparecido em “E.T. O Extraterrestre” (e viria a aparecer um ano depois em “A Morte Pede Carona”); além dele comparecem também Casey Siemaszko (astro do ótimo “Te Pego Lá Fora”) e, numa participação rápida, mas até que bem importante para os rumos da trama, um ainda bem jovem Corey Haim (que estrelaria, mais tarde, “Sem Licença Para Dirigir”, e viria a falecer em 2010), no papel do irmão menor do personagem principal.
A trama de “Admiradora Secreta” se desenvolve sem firulas (como tinha que ser) e demonstrando um notável senso de compreensão dos gatilhos que impulsionam uma narrativa: O adolescente Michael (Howell) recebe uma carta anônima do que tudo indica ser uma garota apaixonada por ele.
Tal garota é a sensata e carinhosa Toni (a angelical Lori Loughlin), mas tanto Michael como seus amigos otários insistem em acreditar que pode ser a garota mais linda da escola, Debbie (Kelly Preston, habitante das fantasias masculinas de toda uma geração desde sua participação em “A Primeira Transa de Jonathan”).
A questão então não passa a ser assim o mistério em torno da identidade da admiradora secreta; parte porque isso não tarda a ser revelado ao expectador mais atento, parte porque Michael e os outros personagens sequer se detêm nessa dúvida –o objetivo acaba sendo Michael tentando conquistar Debbie. Para tanto, Michael escreve, ele próprio, uma carta –e, como ele usa Toni como intermediária, ela trata de ‘reescrevê-la’ a fim de melhorá-la. E o resultado é que –a exemplo de Roxana em “Cyrano de Bergerac” –Debbie cai de amores pela expressividade romântica dedicada a ela.
As cartas, no entanto, se extraviam, indo parar nas mãos dos casais adultos dos pais, e um quiproquó tem início: George (Cliff De Young), pai de Michael, encontra tal carta e deduz que ela lhe foi entregue por Elizabeth (a bonita Leight Taylor-Young), mãe de Debbie, por sua vez, despertando as desconfianças do paranóico Lou (Fred Ward, outro ator emblemático da década de 1980), pai de Debbie, que traz para dentro do rebuliço a mãe de Michael e esposa de George, Connie (Dee Wallace Stone, que também estava no elenco de “E.T.”).
Na graça autêntica de sua comédia e no apelo verdadeiramente cativante de seu romance, “Admiradora Secreta” só não se encaixa com perfeição à pecha de obra-prima porque sua própria despretensão não o permite –na hábil condução moral que oferece de seu triângulo amoroso (Michael se dá conta que, a despeito da beleza acachapante de Debbie, é Toni quem realmente vale a pena namorar) o roteiro se esquiva até mesmo de possíveis acusações de machismo tão comum a obras dos anos 1980: O sortudo protagonista de fato se vê dividido entre duas lindas garotas, mas existem inúmeros exemplos de outros filmes que incluem até mesmo uma garota com dois rapazes apaixonados para escolher; como é o caso das sagas juvenis “Jogos Vorazes” e “Crepúsculo”.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Jovens Bruxas

Lançado em meados de 1994 e 95, quando o gênero de terror vivia uma reformulação comercial impulsionada pelo sucesso adolescente "Pânico", de Wes Craven –conduzindo o gênero a um miasma de produções juvenis que predominaram naquela década –este filme reflete a fórmula seguida então, contando inclusive com a nada interessante Neve Campbell e o apagado galã Skeet Ulrich, ambos protagonistas daquele filme.
Se “Pânico” se valia de alguma criatividade para trabalhar uma metalinguagem auto-irônica sobre o tema dos slasher-movies, “Jovens Bruxas” reveste o ocultismo de registros ancestrais com uma compulsiva modernidade inerente às personagens colegiais que protagonizam sua premissa, em especial, Sarah (Robin Tunney), uma jovem recém-instalada em Los Angeles que, como toda recém-chegada, experimenta a sensação inicial de inadequação. Qualquer drama humano que daí poderia sair se faz breve nessa primeira parte, uma vez que ela logo faz amizade com um grupo de garotas desajustadas, junto das quais não tarda em brincar com o que não se deve: Magia negra.
Em princípio, elas se beneficiam, eufóricas, de seus novos, digamos, poderes.
Contudo, aos poucos elas começam a perder o controle, revelando-se inconseqüentes e ameaçando a vida de outras pessoas. Cabe a novata perceber que talvez seja ela quem deva colocar um freio nisso e confrontar a líder de suas amigas, a impetuosa Nancy (em contraponto a insossa protagonista Robin Tunney, a da vilãzinha Fairuza Balk ostenta uma forte presença em cena).
Clichês bastante óbvios se sucedem neste filme feito, como era de se imaginar, com todas as preocupações protocolares para não exigir e não pressionar seu público-alvo, os adolescentes, que em geral se irritam com tramas muito elaboradas.
“Jovens Bruxas” é assim um exemplar de uma fase muito específica do cinema comercial norte-americano dos anos 1990; não é bom o suficiente para constar numa lista de seus mais representativos títulos, mas está longe de ser ruim o bastante para merecer o esquecimento –até uma caprichada edição em DVD ele ganhou!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Livre

Como produtora, a atriz Reese Wintherspoon interessou-se na adaptação cinematográfica do best-seller “Garota Exemplar”, almejando resguardar para si o atrativo papel principal.
Entretanto, o diretor daquele projeto, o perspicaz David Fincher gastou alguns meses convencendo-a de que não era a intérprete ideal para o papel, que exigia uma atriz de aspectos mais frios, capaz de trabalhar as nuances de auto-imagem que essa persona exigia: A atriz escolhida, após do declínio de Reese, foi Rosamund Pike, que ocorreu ao Oscar de Melhor Atriz naquele ano.
Curiosamente, a própria Reese, aproveitando a disponibilidade surgida com a desistência do papel, marcou presença em outro projeto, a adaptação do best-seller “Livre”, de Cheryl Strayed, e foi também ela indicada ao prêmio, ao lado de Rosamund Pike; ambas acabaram perdendo para Cate Blanchett, por “Blue Jasmine”.
Mas, o que realmente importa é que duas obras espetaculares –as duas amparadas na atuação irrepreensível de suas protagonistas –ganharam assim a luz do dia.
Na trama enxuta e até bastante emotiva de “Livre”, Cheryl Strayed (Reese Wintherspoon), após o falecimento de sua mãe (Laura Dern, brilhante), cai num limbo que ameaça tragar toda a sua vida: passa a consumir drogas, torna-se promíscua destruindo seu até então sólido casamento, abandona emprego e estudos. Quando se encontra no fundo do poço ela toma uma decisão radical: decide submeter-se à experiência extrema de trilhar toda a Pacific Crest Trail (um deserto de 1.100 quilômetros selvagens de extensão), para ao fim reconstruir os cacos de sua vida.
Sua jornada em meio às paisagens naturais será do mais puro exaspero físico.
O que testemunhamos então é Reese Whiterspoon se expor de maneira visceral neste que é, de longe, seu melhor trabalho, num filme emocionante, brilhantemente dirigido por Jean-Marc Vallé, o mesmo realizador dos excepcionais "Jovem Rainha Vitória" e “Clube de Compras Dallas" –e, ao que parece, exímio em extrair performances esplêndidas de seus atores.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Tempo de Glória

A trilha musical de James Horner (talvez, a mais bela e vibrante que ele fez em toda sua carreira) irrompe em cena, sem espaço para preâmbulos e introduções históricas: É um campo de soldados, notadamente ambientado –devido aos detalhes ricos do figurino e da cenografia –na Guerra Civil Norte-Americana.
Assim, o filme do diretor Edward Zwick (talvez, o melhor que ele realizou em toda sua carreira) se debruça sobre o homem comum; os soldados são flagrados em ações corriqueiras jogando beisebol, conversando, tomando café.
Conforme a cena (hipnótica como poucas) se desenrola, a trilha assume ares sombrios (a guerra, afinal, está bem próxima), românticos (a narração em off do protagonista, Matthew Broderick finalmente começa a elucidar alguns fatos, na forma de cartas que ele endereçou à própria mãe, preenchidas pelo lirismo da trilha sonora) e, por fim, épicos (quando a produção revela seu propósito e entrega as majestosas e espetaculares cenas de batalha, até hoje, as melhores reconstituições daquele conflito feitas no cinema).
É, portanto, na concepção de tirar o fôlego, dessas sequências de guerra a grande força deste filme muito louvado nos anos 1980, merecido vencedor de três Oscars: Melhor Som, Melhor Direção de Fotografia, para Freddie Francis, e Melhor Ator Coadjuvante para Denzel Washington.
Com a guerra ainda em curso, o Exército da União (representante do sul) cria o 54º Regimento de Infantaria de Massachussets, composto por ex-escravos voluntários. A idéia é usar os soldados negros –a exemplo de outros regimentos de negros daquele período –na retaguarda em trabalhos forçados e, para tanto, indicam para o seu comando o extremamente jovem Coronel Robert Gold Shaw (Broderick), cuja patente, bastante elevada para alguém de apenas 26 anos, foi obtida por sua contribuição na guerra –e, certamente, devido ao influente pai abolicionista.
O treinamento militar é árduo para o ex-escravos (que julgavam tirar a sorte grande no exército onde receberiam alojamento e comida de graça), e esses revezes são acompanhados pela ótica de um grupo em particular: O paternalista e austero Rawlins (Morgan Freeman, veemente num papel que muitos consideram inspirado em Colin Powell, nomeado Chefe das Forças Armadas dos EUA); o ponderado e alfabetizado Thomas (Andre Braugher); e o rebelde e amargurado Trip (Denzel, num trabalho de momentos realmente inspirados).
Não tarda para que o 54º Regimento demonstre uma característica bastante particular: A de querer mostrar, em campo de batalha, o seu valor e sua dignidade, o que os leva a liderar um assalto audacioso a um Forte jamais tomado na Carolina do Sul.
Há um elemento embriagante em “Tempo de Glória”, uma junção muito feliz de talentos jovens moldando um espetáculo à moda antiga: Zwick tinha um bom currículo televisivo, mas em cinema havia dirigido apenas a comédia, “Sobre Ontem A Noite” –e sua juventude posta à prova aliada ao fôlego que empresta às cenas de ação é um dos aspectos singulares desta obra –também o elenco, desde Broderick até Denzel parece ansioso para mostrar trabalho, e suas atuações resultam comprometidas e apaixonadas.
Mas, a grande questão é que “Tempo de Glória” é, acima de tudo, uma sucessão de cenas extraordinariamente maravilhosas e envolventes, em seu incomum cuidado visual e no emotivo comentário musical.
Um filme de insuspeito poder de emocionar.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Fome de Viver

Vampiros nunca saíram e jamais sairão de moda. Seu apelo junto à cultura pop é tão sedutor que não conseguem ser arruinados nem por repaginações de gosto duvidoso como a série “Crepúsculo”. Nos anos 1980, as mais famosas contribuições aos chupadores de sangue no cinema provavelmente foram “A Hora do Espanto” e este “Fome de Viver”.
Catherine Deneuve é Miriam Blaylock uma vampira que singra as ruas de Nova York em busca de sangue. Não apenas sangue, ela precisa também de uma espécie de companheiro, junto do qual o peso dos séculos que transcorrem se torna suportável. Esse companheiro até outro dia era David Bowie, ou melhor, John. Mas a juventude que até então se achava estampada em seu rosto –preservada noite após noite com o sangue de suas vítimas –começa a desvanecer: Todos os anos vividos parecem de repente querer cobrar seu preço, fazendo-o envelhecer subitamente. 
Com medo, ele procura por uma médica especializada em uma doença degenerativa (Suzan Sarandon) e tudo o que consegue é torná-la sucessora de seu lugar ao lado de Miriam, como amante. 
O tratamento que o diretor Tony Scott dá ao gênero e à figura do vampiro em si transborda elegância neste filme muitas vezes frio, mas paradoxalmente carregado de voltagem erótica, não à toa, uma de suas cenas mais lembradas é o interlúdio sexual de Suzan Sarandon e Catherine Deneuve.
Responsáveis por essa atmosfera desigual, carregada de inusitada natureza, são as escolhas que o falecido diretor Scott (à época, estreando no cinema) fez -todas inesperadas para um estreante: O elenco de presenças incomuns como Deneuve e Bowie. O tratamento formal, com estilizado uso de luz. E a trilha sonora onde se destaca a cena inicial ao som de Bela Lugosi's Death.
Com Bowie presente não dava mesmo para errar nesse quesito.