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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Imortais

Se existe algo que não deve ser levado em conta no cinema comercial atual –em especial o norte-americano –são as verdades históricas dos roteiros inspirados nas mitologias antigas.
Tomemos como exemplo este acelerado e visualmente funcional “Imortais”: Toda sua trama é uma distorção grotesca da mitologia grega e não corresponde a quase nada do que é ensinado nas salas de aula.
Como entretenimento, porém, o trabalho do diretor indiano Tarsem Singh Dhandwar (artesão de filmes díspares como o terror “A Cela” e o infantil “Espelho, Espelho Meu”, cujo único ponto em comum é o esmero visual) esforça-se em ser vibrante e, no que tange ao frenesi de suas cenas de ação e ao clima convencional de um grande embate do bem contra mal, até que consegue.
Vitoriosos de um confronto há muito tempo travado contra os titãs, os deuses agora obedecem uma lei que os impede de interferir no destino dos homens. Assistem, portanto, incapazes ao plano em curso do colérico rei Hipérion (Mickey Rourke), antagonista de uma amargura abissal que, indignado com os deuses, deseja libertar os titãs de sua prisão nas profundezas do Monte Tártaro, para que dêem continuidade a sua guerra. Mas os planos de Zeus (Luke Evans), o deus maior, envolvem o jovem camponês bastardo e desacreditado Teseu (Henry Cavill), que ao lado de uma linda oráculo (Freida Pinto, de "Quem Quer Ser Um Milionário"), um monge sem língua e dois ladrões foragidos, deve conduzir o exército dos heleníacos até o Monte Tártaro onde poderão tentar deter Hipérion e suas tropas.
O filme tem uma maneira muito inventiva de contornar a limitação orçamentária, valendo-se de concepções visuais inusitadas e inesperadas (e francamente funcionais). Sua grande fraqueza reside mesmo em seu roteiro, não somente rudimentar como equivocado e esquemático, e na insuficiência no tratamento de seqüências-chaves: O discurso final de Teseu em direção à guerra é simplesmente constrangedor!
Apesar das grandes liberdades poéticas em relação a mitologia grega o filme, que possui uma forte influência visual de "300", de Zack Snyder, resulta melhor que "Fúria de Titãs", de Louis Leterrier –a produção que, talvez, tenha iniciado essa reciclagem de mitologias –embora todos esses projetos tenham partido mesmo do sensacional “Fúria de Titãs” dos anos 1980.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Quem Quer Ser Um Milionário?

Quando se inicia o notável filme de Danny Boyle, Jamal (o eficiente Dev Patel), o jovem indiano crescido nas inóspitas favelas de Bombai, nem parece estar a alguns passos de se tornar um milionário no popular programa de perguntas e respostas na TV: Nós o vemos numa delegacia de polícia, amarrado ao teto pelos pulsos e sofrendo torturas por alguns relapsos policiais do lugar, a mando do inspetor (o grande Irffan Khan), titubeante quanto ao tratamento dado a ele, mas convicto de que deve encontrar ali a verdade.
Afinal de contas, ao longo de toda a sua participação no programa (descortinada pelos pontuais flashbacks que acompanham seu depoimento), Jamal demonstra um conhecimento que um "cão favelado" jamais teria, e por isso, sob suspeita de fraude, acaba duramente interrogado pela polícia.
Durante o interrogatório, ele relembra sua vida atribulada desde a infância pobre ao lado do irmão, Salim, que ao contrário dele aderiu ao crime, e de seu grande amor, a jovem e bela Latika (interpretada na fase adulta pela bela Freida Pinto). Encontrá-la, por sinal, é a grande razão pela qual Jamal está participando do programa.
Já se vê, então, nessa audaciosa estrutura um dos trunfos do qual se beneficia este trabalho eficiente, bem-acabado e divertido: Um roteiro inventivo, hábil em condensar as variadas e variantes facetas de sua trama em inteligentes idas e vindas no tempo, permitindo que a história se explique, se esclareça e se complemente de maneira envolvente para o público.
Inteiramente rodado na Índia com elenco local e amparado num estilo narrativo bastante referencial ao cinema realizado lá –a indústria cinematográfica local é conhecida como ‘Bollywood’ –este notável, e relevante vencedor do Oscar (oito estatuetas, inclusive Melhor Diretor e Melhor Filme em 2008) é uma oportunidade de conferir, com bastante evidência, o profissionalismo do versátil diretor Danny Boyle, embora ele já gozasse de considerável prestígio graças à obras de insuspeita qualidade como “Trainspotting-Sem Limites” ou “Sunshine-Alerta Solar”.
Ele assimila magnificamente as qualidades comerciais dos filmes realizados na Índia, onde as produções são notórias pelos gêneros artísticos que se alternam simultaneamente –o filme começa tenso, adquire ares de comédia e de aventura, oscila para o drama e o romance em diversos momentos, para se encerrar numa cena musical.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Planeta dos Macacos - A Origem

O clássico “Planeta dos Macacos” estrelado por Charlton Heston e lançado no ano de1968 (um ano antes, portanto, de Kubrick chacoalhar o cinema e o gênero de ficção científica com seu “2001-Uma OdisséiaNo Espaço”), já estava distante o bastante para que Hollywood tivesse ambiciosos lampejos de reinvenção.
É notória a tentativa de recomeçar tudo de novo, em 2001 (ironias...), com uma nova versão da mesma trama com Charlton Heston, desta vez estrelada por Mark Whalberg, e dirigida por Tim Burton, entretanto, exceto pelo capricho na maquiagem, a nova produção era, em tudo e por tudo, inferior ao marcante filme dos anos 1960.
Uma década depois, Hollywood (mais especificamente, os estúdios da Fox) continuaram tentando, agora, com a idéia de uma reinvenção de fato. E mais: Com mérito genuíno.
Se o clássico tinha algo de francamente inovador, à época, na maquiagem símia criada para seus atores incorporar macacos desenvolvidos, então, supôs o perspicaz diretor Rupert Wyatt, era necessário que o legado de “Planeta dos Macacos” fosse respeitado seguindo essa busca por inovação –“A Origem”, esse novo filme, agora possuía, não atores primorosamente maquiados, mas todo um elenco convertido em macacos virtualmente reais, graças à tecnologia de captura de performance, apresentada por Peter Jackson em “O Senhor dos Anéis”, nas cenas que envolviam o personagem digital Gollum, e por James Cameron no revolucionário “Avatar” e aqui, por sua vez, elevada à um novo nível.
A trama também não cometia do erro do filme de Tim Burton, em tentar refazer o clássico, mas o complementava: Tratava-se, na realidade de um prólogo, revelando como a Terra, do mundo civilizado atual, converteu-se na distopia dominada por uma raça avançada de macacos como visto no clássico.
E o ponto de partida para essa mudança se origina no personagem de James Franco (recém-saído de uma indicação ao Oscar por “127 Horas”), um jovem cientista determinado a encontrar a cura do Mal de Alzheimer que acomete seu pai (o veterano John Lithgow). Ele realiza uma experiência clandestina numa fêmea chimpanzé, o que gera, mais tarde, um filhote de prodigiosa inteligência: César –interpretado pelo grande especialista em atuação na captura de performance do cinema, Andy Serkis, que também foi responsável pela extraordinária presença de Gollum (muito legal notar que James Franco assume aqui o papel de coadjuvante de um personagem digital com um bocado de dignidade).
Com o tempo, César (personificado de modo assombroso pelos movimentos e pela técnica de Andy Serkis) adquire consciência de quem é e acaba levado e encarcerado num zoológico para macacos, onde junto de outros símios, sofre maus tratos nas mãos de humanos cruéis –representados, entre outros, por Brian Cox e Tom Felton, habituados a papéis de vilões. Logo, César percebe que, na condição de líder de sua raça, deve valer-se do quê sabe e compreende para conduzir os da sua espécime à uma rebelião sem precedentes, que deverá levá-los à liberdade, para bem longe do julgo dos humanos.
O modo com que a direção de Rupert Wyatt conduz a trama, o amadurecimento de César (com estupendo desenvolvimento dele enquanto personagem, e brilhante observação na ascensão de sua liderança) e o desenrolar de todas as facetas fundamentais às características presentes no filme clássico é de um primor estupendo; tornando até mesmo redundantes referências mais convencionais como as falas “Isto aqui é um hospício!” ou “Tire suas patas de mim, seu macaco imundo!”.
Todas essas bem elaboradas características conduzem harmoniosamente ao segmento final, onde vemos a arrepiante insurreição dos animais contra os seres humanos (é curioso como, em suas motivações muito bem estipuladas no roteiro, o filme consegue colocar de maneira convincente, os humanos –ou seja, nós mesmos! –como os detestáveis vilões), uma sucessão fantástica de cenas que mesclam ação, eficácia narrativa e o brilho de efeitos visuais empregados em favor da história que eleva a produção num outro nível, capaz de fazer dele uma obra tão icônica quanto o clássico que busca honrar.