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domingo, 10 de agosto de 2025

Extermínio - A Evolução


 Lançado em 2002, “Extermínio” representou algumas notáveis inovações, das quais hoje poucos o creditam –além de capitanear toda uma nova leva de filmes sobre mortos-vivos que seguem sendo feitos até hoje (ainda que os ‘mortos-vivos’ aqui sejam ‘infectados’), também foi uma das audaciosas produções a adotar a técnica da câmera digital que proporcionava às filmagens uma praticidade e uma rapidez que encontrou reflexo na criatividade e na urgência daqueles realizadores de então –e ainda foi incluído na Lista dos 100 Melhores Filmes da Década (do ano 2000 à 2010) feita pela Revista Time.

À ele seguiu-se, em 2007, uma continuação, intitulada “28 Weeks Later” –em alusão ao título original, “28 Days Later”, ou “28 Dias Depois” –não tão boa quanto, mas igualmente vibrante, interessante e certamente acima da média.

Quando muitos já achavam que a franquia não tinha mais o que oferecer, eis que o roteirista Alex Garland e o diretor Danny Boyle (que, durante esse meio-tempo ganhou 8 Oscars por “Quem Quer Ser Um Milionário?”) apareceram com este “28 Years Later” que, como o título original já diz, passa-se, num audacioso salto de tempo, vinte e oito anos depois do início da infecção ocorrida no primeiro filme –os infectados (vítimas de uma contaminação em laboratório) se proliferaram por todo o Reino Unido levando o lugar a ficar isolado do resto do mundo. Entretanto, nessas condições, as comunidades persistentes afloraram; como aquela que é retratada no filme: Um lugarejo localizado numa ilha, cujo acesso ao continente se dá por uma faixa de terra de poucos quilômetros que, durante algumas horas ao dia, se torna trafegável graças à maré baixa.

É numa dessa ocasiões que o jovem Spike (Alfie Williams), ladeado por seu pai, o rígido Jamie (Aaron Taylor Johnson), irá encarar sua primeira incursão no continente, logo, seu primeiro encontro com os temidos infectados que, nesse estágio de contaminação, já nem usam mais roupas e, ainda por cima dividem-se em duas aparentes categorias; uma, chamada ‘rastejantes’, em que são desajeitados e não conseguem andar (ainda que continuem potencialmente perigosos); e outra, os já conhecidos infectados, selvagens e implacáveis, que correm feito maratonistas atrás de suas vítimas. É entre eles que os mais desavisados podem encontrar os Alfas, infectados cujo vírus atua em seu organismo como anabolizantes, deixando-s enormes, fortes e musculosos, incapazes de serem mortos apenas pelas habituais fechas no corpo ou na cabeça.

Não basta à Spike ir uma única vez para o continente e escapar de lá por muito pouco –ele quer voltar para levar para lá sua mãe (Jodie Comer, de “Star Wars-A Ascensão Skywalker”). Acometida de algum mal que ninguém na aldeia é capaz de curar ou tratar, Spike almeja encontrar em algum lugar daquele mundo desolado, o excêntrico Dr. Kelson (Ralph Fiennes, cada vez mais sensacional), um médico especialista que afastou-se das pessoas e passou a desenvolver um comportamento, no mínimo, incomum. Com seus conhecimentos, e apesar de tudo, Spike sabe que o Dr. Kelson pode dizer qual é o problema com sua mãe –ainda que, no encalço de todos, esteja um dos temidos Alfas!

O roteiro e a direção inspirados de Garland e de Boyle provam, ao longo de todo este “A Evolução”, que eles têm ideias de sobra para ilustrar esse desigual mundo pós-apocalíptico que eles criaram para ambientar sua saga –tanto que, um outro filme, a continuar exatamente do ponto em que este abruptamente se interrompe, já está nos planos de ser lançado.

Realmente, essa sensação de ser demasiado enxuto, de possuir mais história para ser contada, e de se encerrar num momento em que nada parece se encerrar de fato (quando o roteiro enfim estabelece uma relação com o prólogo que, até então, pouco sentido havia feito) é uma das poucas ressalvas que se leva deste filme eletrizante, tenso, divertido e algo escatológico.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Cova Rasa


 Foi o suspense “Cova Rasa” –mais do que “Trainspotting”, o bem-sucedido projeto posterior a envolver praticamente toda a mesma equipe –que de fato revelou ao mundo os talentos do diretor Danny Boyle e do ator Ewan McGregor, embora sua repercussão tenha sido, realmente, bem mais modesta. Realizado à imagem e semelhança das obras quintessenciais de Alfred Hitchcook, “Cova Rasa” tratava de tentar responder a uma circunstância muito comum às tramas do mestre do suspense: O que você faria se adquirisse uma mala cheia de dinheiro?

Conhecedor nato e entusiasmado das facetas pulsantes da ganância humana –de um modo ou de outro, todos os seus filmes giravam em torno da metamorfose moral acarretada pelo dinheiro –Danny Boyle confere uma resposta exercitando seu conhecimento de cinema (no qual ainda se percebe um êxtase juvenil), o inconformismo que o tornou reconhecido (o que proporciona ao filme um teor tremendamente ácido) e uma empolgação artística que, de modo geral, contorna todos os problemas e limitações de sua obra –e, como todo trabalho inicial, ela padece de diversos lapsos que, com o tempo, ele foi aprendendo a lapidar.

Dotados de uma arrogância e uma petulância tipíca dos jovens, os ingleses David (Christopher Eccleston), Alex (Ewan McGregor) e Juliet (Kerry Fox, de “Um Anjo Em Minha Mesa”) moram num apartamento no subúrbio de Londres com um quarto disponível. E estão dispostos a alugá-lo àquele que se enquadrar nas exigências do trio. Leia-se, que aparente ser, no mínimo, alguém cosmopolita como eles: A sucessão de entrevistas aos candidatos que se segue é temperada com o inclemente sarcasmo que eles dedicam à tudo e à todos.

E já ali, o diretor Boyle e o roteirista John Hodge acrescentam inteligentes observações subliminares de seus três protagonistas, sejam elas individualmente (David é reservado; Alex é eufórico; e Juliet, o ponto de equilíbrio), sejam coletivamente (são, afinal, um pequeno grupo que, tal e qual qualquer jovem, se presume unido, inseparável, invencível e de lealdade eterna uns com os outros). Até que então surge, enfim o candidato ideal: Um homem poucos anos mais velho, solteiro, sofisticado, de prosa convincente e postura impressionante. Alguém que imediatamente surpreende os jovens que, em sua soberba, julgavam-se incapazes de serem surpreendidos.

O filme impiedoso de Boyle tratará de provar o oposto: Quando passa a ocupar o quarto vago, o novo inquilino mal tem tempo de conviver com seus colegas e já aparece morto de overdose (!). Junto dele, uma mala carregada de dinheiro (!!).

Os três jovens em princípio vivenciam as fases habituais dessa situação: Ficam desconfiados, ponderam as possibilidades até obviamente se decidirem por ficar com toda a grana, ao que logo se segue um momento de júbilo.

É quando, na revelação gradual de todo o ônus, Danny Boyle vai desconstruindo com certo sadismo a fachada de soberba dos jovens ingleses: O dinheiro tem, claro, uma origem criminosa e não tardam a aparecerem indivíduos suspeitos no encalço dele. A surpresa, contudo, é o inesperado ímpeto de violência com o qual David rechaça os novos inimigos.

Descoberta sua propensão à violência, David não está mais disposto à ser a mesma ponta submissa do triângulo de antes e, um tanto impelido pela paranóia, passa a apresentar um comportamento cada vez mais estranho –refugia-se no sotão, de onde faz buracos que lhe dão visão de quase todo o apartamento, inclusive dos amigos nos quais já não confia tanto –até mesmo com relação à Juliet, com quem até havia ensaiado um pequeno flerte.

A tensão resultante modifica a dinâmica tão feliz, unida e leal do trio visto no início e Boyle acrescenta ao andamento rumo ao desfecho uma inclinação pontual de violência e sanguinolência que soa perfeitamente como uma continuidade natural ao estilo de Hitchcook, redefinido para uma novo cinema inglês que emergia naqueles anos 1990.

Se não era uma obra especialmente brilhante, “Cova Rasa” foi o início promissor para uma equipe (capitaneada por Boyle) que entregaria produções cada vez mais arrojadas e cinematograficamente superiores no futuro.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

A Praia

 


Já na transição da década de 1990 para a década de 2000, a virada do milênio, a carreira de Leonardo Dicaprio sofria a chamada ‘ressaca de “Titanic”’: Parecia improvável que qualquer coisa que ele fizesse a partir dali fosse tão igualmente retumbante, e bem-sucedida quanto o épico estrondoso e megalomaníaco de James Cameron. E, com efeito, seus projetos seguintes foram redundantes (“Eclipse de Uma Paixão”, realizado três anos antes de “Titanic”, mas lançado logo depois), pouco vistos (“Celebridades”, de Woody Allen) ou simplesmente ruins mesmo (“O Homem da Máscara de Ferro”). Parecia que Dicaprio mergulharia naquela típica armadilha onde um bom ator, tornado astro por um único grande sucesso, não conseguiria igualar o mesmo feito, afundando em realizações banais.

O que acabou resguardando a responsabilidade de ser a prova de fogo –se ele era uma promessa vazia ou um astro de talento e magnetismo real –para este “A Praia”, de Danny Boyle.

Por sua vez, a situação do diretor escocês Boyle era um pouco distinta: Ele vinha de dois projetos elogiadíssimos feitos em sua Escócia-natal que pegaram o mundo de assalto (o suspense “Cova Rasa” e o hoje muito cultuado “Trainspotting-Sem Limites”) e de uma produção de bem menos repercussão (a comédia romântica de humor negro “Por Uma Vida Menos Ordinária”); em todos os três casos, Boyle reunia uma espécie de ‘família cinematográfica’, onde repetia o mesmo roteirista (John Hodge), o mesmo produtor (Andrew Macdonald) e o mesmo ator principal (Ewan McGregor).

“A Praia” era sua estréia numa produção inteiramente hollywoodiana e, se manteve todos aqueles nomes atrás das câmeras, à frente delas, ele substituiu McGregor por Dicaprio –possivelmente para acatar uma imposição do estúdio que financiou o projeto, a Fox.

Dicaprio vive Richard, um mochileiro americano perambulando pela Tailândia, e acumulando instigantes experiências de vida. Richard, contudo, não é nenhum santo –e essas características ambíguas do personagem (como dissimulação, covardia e certa ausência de escrúpulos), além de serem essenciais aos rumos que a trama vai tomando, são recebidas e incorporadas com palpável satisfação pelo astro Dicaprio, ávido por enfim interpretar um protagonista que foge às definições de bom moço.

Pernoitando num albergue caindo aos pedaços, Richard conhece seus vizinhos de quarto: Do lado direito, o casal de franceses Françoise (a gatinha Virginie Ledoyen, de “Adeus, Minha Rainha”) e Etienne (Guillaume Canet), mochileiros como ele; do lado esquerdo, o desajustado, psicótico e atormentado Daffy (Robert Carlyle).

É Daffy quem, pouco antes de suicidar-se (!), deixa com Richard um mapa que, segundo ele, conduz a uma verdadeira lenda urbana: Uma praia paradisíaca com plantações abundantes de cannabis, de onde os afortunados turistas que encontram sua trilha não têm mais vontade de sair. Convidando Françoise e Etienne para ir com ele –e já cheio de segundas intenções para cima da moça –Richard segue pelo caminho mostrado no mapa; não sem antes passar uma cópia dele para uns camaradas maconheiros com quem confraternizou na véspera.

Após uma árdua travessia no mar, e uma alucinada perseguição na própria ilha, os três encontram a tão alardeada praia, e descobrem que lá vive uma comunidade alternativa liderada pela aparentemente sábia Sal (Tilda Swinton) cujos integrantes pouco interesse têm em visitar o mundo exterior. Richard, Françoise e Etienne são recebidos por eles e, durante algum tempo, sentem-se vivendo num paraíso.

Isso até os transtornos (alguns dos quais plantados pelo próprio Richard) virem bater-lhes à porta: Ele realiza seus desejos e separa Françoise de Etienne passando a namorar a francesinha; e ainda consegue escapar de um ataque de tubarão, embora dias depois, um colega da comunidade não tenha a mesma sorte, e o sofrimento dele (sem remédios por perto para proporcionar sua cura e aliviar sua dor) desafia a manutenção de todo o clima feliz do lugar. Entretanto, o pior mesmo é quando os tais maconheiros mencionados acima resolvem aparecer no lugar –no qual rege a lei irrevogável de que ninguém deve revelar seu segredo.

Assim, as travessuras e presepadas de Richard acabam colocando toda a comunidade na mira dos traficantes responsáveis pela vasta plantação de maconha do lugar; com quem até então mantinham uma certa trégua.

Baseado num romance de Alex Garland –que, a partir deste filme, passou a ser um roteirista regular de muitas ótimas obras de Boyle daqui para frente –“A Praia” é o tipo de filme que pode enganar expectadores desavisados numa primeira impressão: Seu visual de cartão-postal (assim como a presença de Dicaprio) podem sugerir um mero veículo comercial para um astro jovem e estabelecido, mas na verdade, Boyle faz deste um filme palpitante, equilibrando facetas de suspense, aventura e intriga num ambiente bastante inusitado, construindo uma narrativa absolutamente inspirada e inquieta (um diretor menos capaz certamente teria transformado o material em algo convencional e genérico) e proporcionando a Leonardo Dicaprio uma chance para revelar-se um ator talentoso, seguro e versátil para muito além do grande sucesso pelo qual era reconhecido.

domingo, 16 de agosto de 2020

Extermínio

Ainda no início da década de 2000, o formato de câmera digital era uma técnica que começava a ser assimilada por alguns realizadores mais audazes.
Em geral, esses cineastas –como Michael Mann, David Lynch e o japonês Takashi Miike –enxergavam a compensação de uma filmagem solta, dinâmica e propícia à inventividade e ao improviso, em relação à perda de um certo esplendor visual, de uma resolução satisfatória na imagem (especialmente em relação ao espectro de luz) e de trucagens mais elaboradas de fotografia: Um sacrifício que se fazia, em prol de realizar o filme que bem entendesse.
A esse senso de novidade e urgência trazido pela câmera digital, o escocês Danny Boyle acrescentou o inusitado, levando tal estilo (empregado para emoldurar tramas urbanas de invariável apelo realista) ao sub-gênero dos mortos-vivos com “Extermínio”.
É preciso notar que, à época, os mortos-vivos ainda não eram lugar-comum na cultura pop como o são hoje –obras como a refilmagem “Madrugada dos Mortos”, a sátira “Todo Mundo Quase Morto” ou a comédia “Zumbilândia” estavam longe de serem lançadas –ou seja, a iniciativa de Boyle pulsava de originalidade.
Inclusive, seus mortos-vivos sequer são “mortos-vivos” (!), na verdade, eles são ‘infectados’, seres vivos que padecem de um vírus que nada mais é que uma versão extrema e anabolizada da raiva, levando-os a adquirir comportamento irracional e selvagem anseio por carne humana –em suma, mortos-vivos embasados pela ciência.
A origem de tudo isso se dá na primeira cena, quando ativistas ambientais invadem um laboratório londrino e tentam soltar chipanzés usados como cobaias experimentais, sem saber que neles está inoculado o vírus da raiva.
O corte escurece a tela e surge o inscrito: “28 Days Later...”
Cheio de objetividade, o filme de Boyle não apenas faz desse o seu título original, como o usa para prontamente ambientar a trama, afinal, é exatamente ’28 dias depois’ que a história se reinicia, quando o incauto entregador Jim (Cillian Murphy) desperta de um coma num hospital onde esteve desde que foi atropelado, quando o mundo ainda era normal –o ponto de partida da trama, exatamente igual ao da série de zumbis “The Walking Dead”, lançada anos depois é, até hoje, fonte de debate entre os expectadores: Se teria o escritor dos quadrinhos que inspiraram aquela série, Robert Kirkman, se baseado na ideia deste roteiro original de Alex Garland, ou vice-versa –particularmente, eu acredito que tudo foi uma grande coincidência.
Perambulando por uma Londres completamente deserta –cujas cenas de uma metrópole desolada e desabitada são tão impactantes quanto as de “Eu Sou A Lenda” –Jim encontra os sobreviventes Selena (Naomi Harris, de “Piratas do Caribe-No Fim do Mundo”) e Mark (Noah Huntley) que lhe inteiram dos fatos acerca do novo mundo em que agora vive: Uma Inglaterra de cidades evacuadas e população escassa, onde os dias são abandonados e solitários e as noites, perigosas e arriscadas, com a ameça dos infectados a espreitar a todo momento.
Não há sinal de rádio ou de TV. Nem informações acerca do que ocorre no resto do mundo. Há dias, a eletricidade e a água encanada deixaram de chegar e, cidade após cidade, tudo foi devastado. Os infectados tomaram tudo e mataram quase todos –os poucos sobreviventes devem evitar o contágio expondo-se à mordida dos infectados; descuido que Mark comete, levando-o logo em seguida a perder a vida.
Mais tarde, Jim e Selena encontram Frank (o ótimo Brendan Gleeson) e Hannah (Megan Burns), pai e filha que os acolhem num apartamento do centro, contudo, a escassez de água e a proximidade dos infectados leva-os a pegar a estrada tentando chegar num refúgio que, segundo uma transmissão de rádio, se encontra numa base miliar nas proximidades de Manchester.
Entretanto, não será lá que encontrarão abrigo ou segurança, mas, sim um tentativa truculenta e autoritária de recomeçar a civilização a partir das noções misóginas e prepotentes de seu comandante, o Major West (Christopher Eccleston).
Uma apaixonante e apaixonada homenagem ao gênero dos mortos-vivos, perpetrada com o talento singular de Danny Boyle e de sua prodigiosa equipe (além do roteirista Garland, certamente merece menção seu arrojado diretor de fotografia, Anthony Dod Mantle), “Extermínio” é composto de um arco narrativo precisamente divido em três atos que representam, em si, uma citação a cada episódio da “Trilogia dos Mortos-Vivos”, de George Romero, a cartilha do cinema moderno de zumbis: Na primeira parte, temos o protagonista às voltas com a situação básica em ambientes residenciais (a premissa de “A Noite dos Mortos-Vivos”); na segunda, com mais cenas envolvendo edifícios e a cidade grande, o apocalypse zumbi é colocado em perspectiva do próprio consumismo metafórico da modernidade (reflexão presente nas entrelinhas de “Despertar dos Mortos”, do qual “Madrugada dos Mortos”, citado acima, é refilmagem); e, por fim, na terceira parte, os personagens se vêem num confinamento militar, uma promessa de salvação que se converte num pesadelo ainda pior graças ao potencial para a crueldade, para a coerção e para o abuso inerente ao ser humano (reflexo do que termina ocorrendo também no terceiro filme, “Dia dos Mortos”).

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Yesterday

Ser eternamente um cantor fracassado parece ser a sina de Jack Malik (vivido em toda glória de seu constrangimento proletário por Himesh Patel que canta e toda violão de verdade).
Os indícios desanimadores de que o sucesso nunca virá estão por toda parte –no subemprego que o aprisiona na mediocridade; na euforia inexistente de qualquer público em suas parcas e paupérrimas apresentações –somente Jack e sua entusiasmada (e pra lá de encantadora) empresária Ellie (a linda Lily James) não enxergam isso.
Ou melhor: Jack, nos desiludidos percalços mostrados no início do filme, já começa a enxergar, sim. Todavia, quando ele dá uma espécie de basta e abre mão, por fim, do sonho de fazer sucesso como cantor é que o filme dirigido por Danny Boyle e escrito por Richard Curtis dá sua fundamental guinada: Um evento absolutamente sem explicação acontece –o mundo todo fica sem eletricidade por breves doze segundos! –e então, Jack sofre um acidente (é atropelado por um ônibus).
Nada de muito anormal ocorre nos dias que se seguem. Ele se recupera e volta ao convívio com a família e os amigos. Mas, ele não deixa de notar um detalhe: Que ser humano nenhum, exceto ele, lembra-se mais da existência do grupo musical, os Beatles, e de suas músicas icônicas e consagradas.
Para Jack a equação é simples de ser feita: Ele vive um mundo que desconhece completamente o repertório de canções inesquecíveis entregues por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Star, e, na lembrança viva que guarda delas, apresentará essas composições ao mundo, como se fossem suas.
De início, os mesmos infortúnios de antes se repetem, contudo, aos poucos, um jovem dono de gravadora se interessa em produzir um CD aqui; um músico famoso (Ed Sheeran, numa participação especial) interessa-se que ele abra seu show ali; e... eis que, quando menos percebe, Jack já tem uma grande agente de Los Angeles na sua cola (Kate McKinnon, impagável) e a promessa de dinheiro e sucesso.
Entretanto, como reza a cartilha dramática dessa espécie particular de premissa desde os tempos de “A Felicidade Não Se Compra”, as realidades alternativas servem para que os protagonistas vislumbrem aquilo que perderam, mais do que aquilo que ganharam: o sucesso e o reconhecimento veem, sim, para o assombrado Jack, mas, não sem a constatação amarga de que ele usufrui tudo por meio de uma obra cuja autoria não lhe pertence –e o fantasma do embuste a ser desmascarado o persegue todo o tempo.
Ele também compreende que o sucesso e a realização não correspondem à felicidade –algo que ele já tinha, sem perceber, quando estava ao lado de Ellie, seu grande amor, contudo, sua nova vida de astro famoso requer sacrifícios, e Ellie não pode acompanhá-lo nessa trajetória.
Resta a Jack, portanto, o aplauso, não o amor.
É curioso como “Yesterday” mescla duas potências criativas cinematográficas que até então pareciam incompatíveis: De um lado, o inconformismo quase travesso, mas sempre inspirado e inteligente do diretor Boyle, dos inquietos e audaciosos “Trainspotting”, “Quem Quer Ser Um Milionário?” e “127 Horas”, do outro, o romantismo adocicado, mas não destituído de sensibilidade e da fina ironia inglesa do roteirista Richard Curtis, cujos scripts para “Quatro Casamentos e Um Funeral”, “Simplesmente Amor” e “Um Lugar Chamado Noting Hill” o elevaram, com méritos, ao status de gênio da comédia romântica.
“Yesterday”, na ode muito peculiar que faz ao legado dos Beatles, consegue unir a visão algo idealizada de um mundo  bonito, harmonioso e agridoce, característico do gênero da comédia romântica (e no qual, assim como em “Questão de Tempo”, Curtis deixa de lado maiores explicações sobre seu viés fantasioso), ao um ímpeto narrativo que define as obras de Danny Boyle.
Dessa mistura sai um produto bastante homogêneo: Uma comédia de risos contidos e lições enternecedoras, atrevida o bastante para ir até as últimas consequências na insanidade de uma premissa mirabolante que poucos realizadores conseguiriam encarar até o fim, mas apetecível o suficiente para disso tudo extrair algo que emocione o expectador, a partir dos mais básicos (e funcionais) princípios, como o valor daquilo que está a nossa frente e nem sempre notamos, a beleza transformadora da boa e genuína música e a força implacável do verdadeiro amor.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Quem Quer Ser Um Milionário?

Quando se inicia o notável filme de Danny Boyle, Jamal (o eficiente Dev Patel), o jovem indiano crescido nas inóspitas favelas de Bombai, nem parece estar a alguns passos de se tornar um milionário no popular programa de perguntas e respostas na TV: Nós o vemos numa delegacia de polícia, amarrado ao teto pelos pulsos e sofrendo torturas por alguns relapsos policiais do lugar, a mando do inspetor (o grande Irffan Khan), titubeante quanto ao tratamento dado a ele, mas convicto de que deve encontrar ali a verdade.
Afinal de contas, ao longo de toda a sua participação no programa (descortinada pelos pontuais flashbacks que acompanham seu depoimento), Jamal demonstra um conhecimento que um "cão favelado" jamais teria, e por isso, sob suspeita de fraude, acaba duramente interrogado pela polícia.
Durante o interrogatório, ele relembra sua vida atribulada desde a infância pobre ao lado do irmão, Salim, que ao contrário dele aderiu ao crime, e de seu grande amor, a jovem e bela Latika (interpretada na fase adulta pela bela Freida Pinto). Encontrá-la, por sinal, é a grande razão pela qual Jamal está participando do programa.
Já se vê, então, nessa audaciosa estrutura um dos trunfos do qual se beneficia este trabalho eficiente, bem-acabado e divertido: Um roteiro inventivo, hábil em condensar as variadas e variantes facetas de sua trama em inteligentes idas e vindas no tempo, permitindo que a história se explique, se esclareça e se complemente de maneira envolvente para o público.
Inteiramente rodado na Índia com elenco local e amparado num estilo narrativo bastante referencial ao cinema realizado lá –a indústria cinematográfica local é conhecida como ‘Bollywood’ –este notável, e relevante vencedor do Oscar (oito estatuetas, inclusive Melhor Diretor e Melhor Filme em 2008) é uma oportunidade de conferir, com bastante evidência, o profissionalismo do versátil diretor Danny Boyle, embora ele já gozasse de considerável prestígio graças à obras de insuspeita qualidade como “Trainspotting-Sem Limites” ou “Sunshine-Alerta Solar”.
Ele assimila magnificamente as qualidades comerciais dos filmes realizados na Índia, onde as produções são notórias pelos gêneros artísticos que se alternam simultaneamente –o filme começa tenso, adquire ares de comédia e de aventura, oscila para o drama e o romance em diversos momentos, para se encerrar numa cena musical.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

T2 - Trainspotting

Não deixa de ser um acontecimento cinematográfico o fato de Danny Boile, passados vinte anos, entregar para o mundo uma continuação de “Trainspotting”.
Disposto a honrar e respeitar tudo o que seu trabalho significou, ele não apenas trás de volta todo o elenco original, como também uma quantidade absurda de nomes na equipe técnica, desde o produtor Andrew MacDonald até o roteirista John Hodge.
E para aqueles que temiam uma possível redundância no ato de retomar trama e personagens, eis que Boyle conseguiu realizar mais uma vez uma obra sensacional: Se ela terá o mesmo status cult e a mesma relevância do filme original ainda não dá para saber, e francamente, não importa muito diante da satisfação imensa que proporciona.
É um prazer rever todos aqueles personagens: Mark Renton (Ewan McGregor) agora vive em Amsterdã, onde se estabeleceu depois que partiu com o dinheiro roubado de seus amigos. Um mal súbito, uma crise matrimonial e uma frustração profissional o levam a regressar para a cidade de Edimburgo, na Escócia, onde viveu dias tumultuados com os amigos durante a juventude –e desde o início, há uma inteligência e um arrojo singulares na forma com que Boyle registra esse regresso impregnado de alguma nostalgia e amplo vigor narrativo.
Seus amigos seguiram rumos previsíveis: Spud (Ewen Bremmer) tenta –e paulatinamente fracassa –uma reabilitação para conviver com a ex-mulher e o filho (ela uma rápida personagem em “Trainspotting”), mas a condição de viciado na qual esteve durante as últimas décadas o tornou incapaz de funcionar em sociedade; Sick Boy que atende agora pelo seu nome, Simon (Johnny Lee Miller), herdou um bar de sua família e amarga nele a baixíssima freqüência de clientes enquanto tenta ganhar por fora chantageando alguns clientes adúlteros como a ajuda de sua bela e jovem namorada Veronika (Anjela Nedyalkova); o vingativo Begbie (Robert Carlyle), que passou as últimas duas décadas sonhando em trucidar Renton, por sua vez está num presídio, onde alimenta intenções iminentes e imediatas de fuga –e que Renton se cuide quando ele o fizer!
Boyle não se esqueceu nem mesmo de Diane, a namoradinha colegial de Renton no primeiro filme (interpretada pela bela e eficiente Kelly MacDonald), que reaparece numa divertida ponta como advogada.
Assim sendo, o regresso de Renton lhe permite reatar os laços com o hesitante Simon (que de início não descarta fazê-lo vítima de uma de suas armações), e com o decadente Spud. A justaposição do passado com o presente onde a vida lhes confronta com diferentes espécies de derrocadas acaba levando os personagens a um novo rumo, que Boyle sabe muito bem tornar saboroso de acompanhar para o expectador.
Obedecendo algumas rápidas –e para muitos expectadores imperceptíveis –rimas visuais do filme anterior, Boyle valoriza, como lhe é natural, a grande esperteza presente em sua narrativa, evidenciando o quanto evoluiu como cineasta nos últimos vinte anos, mesmo já sendo ele muito bom em 1996! O retorno aos mesmos personagens lhe permite ofertar um leque amplo de emoções ao expectador: “T2” vai da divertimento genuíno e incontido à tensão inesperada e súbita, do humor estranhamente negro –e, pelo jeito, tipicamente escocês –ao improvável drama humano.
Um belo trabalho de Danny Boyle que consegue honrar um dos mais memoráveis títulos de sua filmografia.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Sunshine - Alerta Solar

Existem filmes que são verdadeiras assombrações para aqueles que desejam aventurar-se em algum gênero cinematográfico específico.
Quando o versátil diretor escocês Danny Boyle –vindo da ótima reformulação de filmes de zumbi, “Extermínio" –resolveu enveredar pelo terreno da ficção científica, certamente, os fantasmas com os quais ele se deparou foram “Alien”, de Ridley Scott, “2001-Uma Odisséia NoEspaço”, de Stanley Kubrick e “Solaris”, de Andrei Tarkovski; obras essenciais e passíveis de comparação para qualquer filme cujo cenário é uma espaçonave.
À esses títulos é possível também incluir mais um: “O Enigma do Horizonte”, de Paul Anderson, cuja trama guarda algumas grandes semelhanças com esta daqui.
O grande diferencial de “Sunshine”, pode-se dizer, é o próprio Danny Boyle –sua direção inteligente, elegante e paulatinamente compenetrada jamais deixa que a premissa (ocasionalmente absurda) despenque para suas facetas mais banais e redundantes.
A trama se passa no futuro.
Longe do planeta Terra, a bordo da nave Icarus 2.
Após a missão fracassada da Icarus 1, essa segunda nave parte em direção ao sol deixando para trás um planeta terra a beira de um inverno solar. O astro-rei está morrendo, sua energia se acabando (numa probabilidade científica real vislumbrada pelo roteiro) e quando isso terminar por acontecer todo o sistema solar morrerá, engolido por uma supernova.
Para deter isso, a tripulação da Icarus 2 leva consigo uma bomba nuclear que ao ser detonada, supõe-se, reacenderá o sol e salvará a humanidade da extinção.
O grupo reunido a bordo da nave é, ele próprio, um conjunto bastante interessante de personagens e interpretes: Robert Capa, o especialista em fusão atômica –e protagonista –interpretado por Cillian Murphy (que protagonizou também “Extermínio”); o piloto Mace (Chris Evans, num papel sensacional bem antes do Capitão América); o honrado capitão Kaneda (o ótimo Hiroyuki Sanada, de “O Samurai do Entardecer”); a botânica Corazon (Michelle Yeoh, de "O Tigre e O Dragão"); a cientista Cassie (Rose Byrne); o psicólogo Searle (Cliff Curtis), e ainda os astronautas vividos por Troy Garity e Benedict Wong.
Até que todos eles cheguem lá, partindo do princípio surreal de que uma nave tripulada seja capaz de ir em direção ao sol (ainda que isso seja tratado, na narrativa, com verossimilhança e seriedade), a tripulação da Icarus 2 descobrirá as conseqüências imprevisíveis que o ser humano pode sofrer ao tentar se opor a sua própria extinção.
Danny Boyle não perde o pulso em nenhum momento sequer neste instigante conto de ficção científica amparado em conceitos existenciais tal qual "Solaris" de Tarkovski, mas com ritmo e acabamento de filme comercial.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Trainspotting - Sem Limites

As influências sempre exerceram efeito particular nas obras de Danny Boyle de maneira individual: Em sua estréia, “Cova Rasa”, sua fonte era Alfred Hitchcock, na ficção “Sunshine-Alerta Solar”, eram as obras de Kubrick (“2001”) e Tarkoviski (“Solaris”), no filme que lhe deu o Oscar, “Quem Quer Ser Um Milionário?”, eram as produções indianas de “Bollywood”.
Na época de seu lançamento, 1996, até se alardeou que uma das influências de Boyle para “Trainspotting” seria “Laranja Mecânica”, de Kubrick, mas essa é uma afirmação redundante, não apenas pela considerável diferença entre a proposta desses dois filmes, como também pela originalidade salutar e a fascinante diversidade de idéias que há para se perceber na obra de Boyle, um retrato até então sem precedentes do universo dos viciados em drogas –talvez, a obra cinematográfica que tenha chegado mais perto de uma observação tão apurada e estilizada quanto a deste filme tenha sido somente (e olhe lá...) o audacioso “Drugstore Cowboy”, de Gus Van Sant, de 1989.
Passado nos anos 1990, “Trainspotting” acompanha a rotina de jovens drogados dos subúrbios da Escócia, com ênfase no ponto de vista do protagonista, Mark Renton (um inspirado Ewan McGregor). A turma de Renton é impagável: o mala-sem-alça e fã passional de Sean Connery, Sick Boy (Johnny Lee Miller); o esquisito, irrequieto e simpático Spud (Ewen Bremmer); o certinho Tommy (Kevin McKidd) e o psicótico Begbie (Robert Carlyle).
A trama inicia-se numa das muitas e inúteis tentativas de Renton em largar seu vício, mas ele só passa a levar tal atitude a sério quando tragédia irreversíveis de fato começam a pesar sobre ele e sobre seus amigos.
Um das grandes sacadas de Boyle e do roteiro de John Hodge foi isentar-se de julgamentos morais e retratar a condição do vício inicialmente de forma bastante subjetiva –há um momento em que Renton relata que o êxtase provocado pela droga é “melhor do que mil orgasmos!” –vale dizer que isso provocou enorme controvérsia quando do lançamento deste filme nos EUA. O que os moralistas conservadores não perceberam foi a diferença entre as ideologias do protagonista e do autor: Conforme avança sua narrativa sobre a vida de Renton, Danny Boyle desconstrói sua fascinação pelas drogas e sua convicção no êxtase feliz que elas proporcionam imprimindo uma espiral de tormento e dor de tal forma impiedosa e irônica que só encontra paralelo no inteligente senso de humor que ele aproveita para destilar –este foi, em inúmeros aspectos, um filme bem a frente de seu tempo.
É curioso perceber que, por isso mesmo, pouco a pouco “Transpotting” se firma também como um formidável registro do comportamento e da mentalidade geracional da década de 1990.

“Quem Quer Ser Um Milionário?” pode ter lhe dado o Oscar de Melhor Diretor, e ele pode ter feito muitos ótimos filmes depois disso, mas ainda é “Trainspotting” o grande trabalho da carreira de Danny Boyle.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

127 Horas

A história real e impressionante de Aaron Ralston (que o ator James Franco vive com insuspeita propriedade), um jovem montanhista americano que durante a exploração de um cânion no município de Utah, vê-se preso pelo braço direito, esmagado por uma rocha contra a parede montanhosa. Segue-se então uma agonia de cinco dias (as exatas 127 horas) em que ele tenta de tudo para se manter vivo, enquanto grava depoimentos aos seus entes queridos que vão de uma inesperada euforia à uma triste resignação diante da própria morte.
Até perceber que para sobreviver ele terá de juntar forças e tomar uma decisão radical: Amputar o próprio braço perdido para a pedra, sem anestesias, sem maiores recursos a não ser o gasto e pequeno canivete que por ventura ele trazia consigo; e a cena em questão é de um impacto que somente um mestre em pleno domínio de seu ofício como Danny Boyle seria capaz de conceber na tela.
Nesta poderosa história real de superação filmada com emoção e todo o requinte visual que lhe é típico pelo diretor Boyle, do premiado "Quem Quer Ser Um Milionário?", os recursos cinematográficos à que ele tem disposição (e que Boyle emprega com austeridade e conhecimento exemplares) servem para ilustrar os vastos lampejos de pensamentos, devaneios, delírios, humores e conclusões à que chega o seu protagonista enquanto experimenta as mais distintas emoções diante de sua vontade de viver em oposição ao que parece ser um fim amargo.
Sua âncora é, como não poderia deixar de ser, a extraordinária atuação de James Franco, revelando aqui uma compreensão de todas as facetas da angustiante experiência vivida pelo personagem.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Steve Jobs

  
   Há um filme anterior feito sobre o fundador da Apple, com Ashton Kutcher, e que resulta lamentável.
   Neste caso aqui, com a direção de Danny Boyle (realizador de ótimos e variados filmes como “Quem Quer Ser Um Milionário?”, “127 Horas” e “Trainspotting”) e com roteiro de Aaron Sorkin (mesmo roteirista do arrojado “A Rede Social”), era improvável que o filme não fosse, pelo menos, satisfatório.
Estabelecendo uma considerável relação com o filme escrito por Sorkin (que, por sua vez, contava a trajetória de Mark Zuckenberg, o criador do Facebbok), como não poderia deixar de ser em vista das muitas similaridades do projeto, quase não se percebe o estilo de Boyle aqui, ainda que seu ritmo ágil e sua encenação inventiva estejam lá presentes.
   Ao contrário do filme com Ashton Kutcher, o roteiro de Sorkin não se prende a uma biografia com começo meio e fim, mas à três momentos específicos da trajetória de Jobs (um espetacular Michael Fassbender) que, esmiuçados e colocados em perspectiva, formam um curioso painel das transformações que envolveram a vida do personagem retratado e de todos aqueles que o orbitaram.
   Acompanhamos, assim, o lançamento do Mac, em 1984, quando somos introduzidos à vida já tumultuada de Jobs, à interpretação irrequieta e ao mesmo tempo ponderada de Fassbender, e aos bem escolhidos coadjuvantes à sua volta (a consultora-assistente vivida por Kate Winslet, o melhor amigo interpretado por Seth Rogen, o mentor personificado por Jeff Daniels e o colega vivido por Michael Sthulbach), que ganham diálogos inspiradíssimos e afiados.
   Somos levados a perceber, acima de tudo, as duas facetas absolutamente incompatíveis de Jobs: O admirável empreendedor de pensamento rápido e de privilegiado senso de administração, em contraponto ao ser humano arrogante, vaidoso e não raro, imaturo.
Mal dá tempo de processar o turbilhão de informações desse primeiro ato, e já somos arremessados no tempo, em 1990, época do lançamento do NeXT, circunstância por meio da qual o roteiro de Sorkin oferece prontas respostas em relação a muitos dos eventos antes esboçados. E é aí que o filme como um todo começa a mostrar a quê veio.
   A lembrança e as transformações nas relações ocasionadas pelo tempo, e por vezes transfiguradas pelo rancor, pelas expectativas e até pela indiferenças são colocadas em pauta o tempo todo, usando como cerne dramático justamente (e ironicamente) um personagem que luta para fingir para todo o mundo que não liga para essas coisas.
   Ao chegarmos na apresentação do iPod, em 2001, e por conseqüência, ao trecho final do filme, a grande atuação de Fassbender (e a bem da verdade de todo o ótimo elenco), assim como a exemplar condução de Boyle, já nos deixou perplexos diante desse personagem que nos leva aos extremos da empatia e da injúria, mas que ainda assim nos flagramos torcendo para que ele perceba as coisas importantes que estão passando por sua frente.
   Antes que seja tarde demais.