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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Yesterday

Ser eternamente um cantor fracassado parece ser a sina de Jack Malik (vivido em toda glória de seu constrangimento proletário por Himesh Patel que canta e toda violão de verdade).
Os indícios desanimadores de que o sucesso nunca virá estão por toda parte –no subemprego que o aprisiona na mediocridade; na euforia inexistente de qualquer público em suas parcas e paupérrimas apresentações –somente Jack e sua entusiasmada (e pra lá de encantadora) empresária Ellie (a linda Lily James) não enxergam isso.
Ou melhor: Jack, nos desiludidos percalços mostrados no início do filme, já começa a enxergar, sim. Todavia, quando ele dá uma espécie de basta e abre mão, por fim, do sonho de fazer sucesso como cantor é que o filme dirigido por Danny Boyle e escrito por Richard Curtis dá sua fundamental guinada: Um evento absolutamente sem explicação acontece –o mundo todo fica sem eletricidade por breves doze segundos! –e então, Jack sofre um acidente (é atropelado por um ônibus).
Nada de muito anormal ocorre nos dias que se seguem. Ele se recupera e volta ao convívio com a família e os amigos. Mas, ele não deixa de notar um detalhe: Que ser humano nenhum, exceto ele, lembra-se mais da existência do grupo musical, os Beatles, e de suas músicas icônicas e consagradas.
Para Jack a equação é simples de ser feita: Ele vive um mundo que desconhece completamente o repertório de canções inesquecíveis entregues por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Star, e, na lembrança viva que guarda delas, apresentará essas composições ao mundo, como se fossem suas.
De início, os mesmos infortúnios de antes se repetem, contudo, aos poucos, um jovem dono de gravadora se interessa em produzir um CD aqui; um músico famoso (Ed Sheeran, numa participação especial) interessa-se que ele abra seu show ali; e... eis que, quando menos percebe, Jack já tem uma grande agente de Los Angeles na sua cola (Kate McKinnon, impagável) e a promessa de dinheiro e sucesso.
Entretanto, como reza a cartilha dramática dessa espécie particular de premissa desde os tempos de “A Felicidade Não Se Compra”, as realidades alternativas servem para que os protagonistas vislumbrem aquilo que perderam, mais do que aquilo que ganharam: o sucesso e o reconhecimento veem, sim, para o assombrado Jack, mas, não sem a constatação amarga de que ele usufrui tudo por meio de uma obra cuja autoria não lhe pertence –e o fantasma do embuste a ser desmascarado o persegue todo o tempo.
Ele também compreende que o sucesso e a realização não correspondem à felicidade –algo que ele já tinha, sem perceber, quando estava ao lado de Ellie, seu grande amor, contudo, sua nova vida de astro famoso requer sacrifícios, e Ellie não pode acompanhá-lo nessa trajetória.
Resta a Jack, portanto, o aplauso, não o amor.
É curioso como “Yesterday” mescla duas potências criativas cinematográficas que até então pareciam incompatíveis: De um lado, o inconformismo quase travesso, mas sempre inspirado e inteligente do diretor Boyle, dos inquietos e audaciosos “Trainspotting”, “Quem Quer Ser Um Milionário?” e “127 Horas”, do outro, o romantismo adocicado, mas não destituído de sensibilidade e da fina ironia inglesa do roteirista Richard Curtis, cujos scripts para “Quatro Casamentos e Um Funeral”, “Simplesmente Amor” e “Um Lugar Chamado Noting Hill” o elevaram, com méritos, ao status de gênio da comédia romântica.
“Yesterday”, na ode muito peculiar que faz ao legado dos Beatles, consegue unir a visão algo idealizada de um mundo  bonito, harmonioso e agridoce, característico do gênero da comédia romântica (e no qual, assim como em “Questão de Tempo”, Curtis deixa de lado maiores explicações sobre seu viés fantasioso), ao um ímpeto narrativo que define as obras de Danny Boyle.
Dessa mistura sai um produto bastante homogêneo: Uma comédia de risos contidos e lições enternecedoras, atrevida o bastante para ir até as últimas consequências na insanidade de uma premissa mirabolante que poucos realizadores conseguiriam encarar até o fim, mas apetecível o suficiente para disso tudo extrair algo que emocione o expectador, a partir dos mais básicos (e funcionais) princípios, como o valor daquilo que está a nossa frente e nem sempre notamos, a beleza transformadora da boa e genuína música e a força implacável do verdadeiro amor.

domingo, 13 de maio de 2018

O Destino de Uma Nação



Prova do talento cada vez mais evidente do diretor Joe Wright (que realizou o não muito reconhecido, porém, maravilhoso “Orgulho e Preconceito”) é a maneira brilhante e cheia de estilo que ele encontra para desvencilhar este notável recorte dos primeiros percalços de Winston Churchill como Primeiro-Ministro da Inglaterra na Segunda Guerra Mundial de suas contrapartes cinematográficas, sejam as mais redundantes (o vencedor do Oscar de Melhor Filme –ainda que longe de ser merecedor –“O Discurso do Rei”), sejam as mais primordiais (o grande trabalho de Spielberg em “Lincoln”).
Sem medo de mergulhar nos meandros políticos de seu roteiro –aos quais o filme se dedica integralmente –mas, mantendo uma narrativa sempre dinâmica e envolvente, mergulhamos no caos político do Parlamento Inglês às vésperas da invasão da França pelas tropas alemãs.
Uma guerra sem precedentes ameaça a Europa e o então Primeiro-Ministro Chamberlain, afirmam seus opositores, não tem o perfil adequado para liderar o país em tempos de guerra. O partido assim se vê obrigado a indicar um novo nome para o cargo; e o único que parece ser politicamente viável é aquele eles menos querem: O explosivo e intransigente Winston Churchill (Gary Oldman) lembrado pelo lamentável episódio envolvendo o exército britânico em Galipoli.
Churchill aceita o cargo oferecido pelo rei George VI (Ben Mendelsohn, vivendo o mesmo personagem retratado em “O Discurso do Rei”) já com todas as armadilhas políticas de seus adversários prontas para tirá-lo de cena: Seus correligionários querem se isentar da guerra fazendo um acordo de paz com a Alemanha e a Itália.
Suas justificativas são as derrocadas quase consolidadas da Bélgica, da França e da Holanda, bem como a periclitante situação do contingente britânico na cidade francesa de Dunkirk (o quê estabelece entre a premissa deste filme e a de “Dunkirk”, de Christopher Nolan, um diálogo rico em informação histórica), na qual foi encurralada praticamente toda a infantaria do Reino Unido.
Sob pretextos pacifistas, os partidários desejam, portanto, uma rendição.
Mas, Churchill é um osso duro de roer e, em sua beligerância, não deseja render-se tão fácil; e, em função disso, a caracterização de Gary Oldman encontra uma precisão singular –o Oscar de Melhor Ator que ele finalmente recebeu veio assim a coroar o trabalho mais formidável numa carreira cheia de trabalhos formidáveis.
Com efeito, a narrativa do diretor Wright, parece acompanhar outros personagens no conseqüente reflexo em espantar-se com tal presença –o principal deles sendo a secretária Miss Layton, vivida pela bela Lilly James (de “Em Ritmo de Fuga”).
O quê conduz à seqüência em que Churchill, ao seguir um conselho dado pelo rei (“Ouça o povo!”) resolve andar de metrô pela primeira vez na vida (!) e, no processo, descobre a opinião dos cidadãos ingleses acerca de Hitler e da guerra; o filme de Joe Wright caminha assim na direção de sua maior e mais emocionante cena (ciente de que tem um enorme trunfo na fenomenal atuação de Oldman) quando Churchill faz seu famoso discurso diante do Parlamento e reitera, de uma vez por todas, a sua posição (e a da Inglaterra) diante do conflito injetando, num país abalado pela baixa moral, fôlego e ânimo suficientes para que o Reino Unido se mantivesse firme contra os nazistas por mais uns bons anos até que o ataque à Pearl Harbor levasse os EUA enfim a ingressar na Segunda Guerra Mundial.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Em Ritmo de Fuga

Ao som de “Belbottoms”, de Jon Spencer Blues Explosion, cujas notas a montagem calibra com primor às seqüências de ação, vemos transcorrer o primeiro e vertiginoso assalto do filme. O motorista atende pelo nome de Baby (Ansel Elgort, demonstrando pleno potencial) e sua perícia hiperlativa para piloto de fuga é construída a partir de um repertório de estranhos e curiosos hábitos –entre eles, o de ouvir música durante os assaltos.
Consta que o diretor Edgar Wright (de “Todo Mundo Quase Morto”, “Chumbo Grosso” e “Scott Pilgrim Contra O Mundo”), um mestre em unir urgência, humor e empatia em narrativas dinâmicas, assistiu ao magnífico “Drive”, de Nicolas Winding Refn, e nele se inspirou tanto que a idéia de todo um novo filme aflorou.
Deveras, há muito em comum entre “Drive” e este “Baby Driver” –o título original –mas, a graça maior está em suas diferenças.
Tudo o que Baby quer é saldar sua dívida com Doc (Kevin Spacey, ameaçador). O quê, no caso, ele não está tão longe assim de fazê-lo: Basta mais um único serviço e ele estará livre para reforçar seu compromisso com a deliciosa garçonete Debora (Lily James, infinitamente mais interessante do que em “Cinderella”), e poder cuidar de seu pai adotivo Joe, que é surdo-mudo e, por isso mesmo, um dos responsáveis indiretos pelo imenso apreço de Baby pelo som e pela música.
Tendo completado a tarefa criminosa que julgava ser a última, Baby é confrontado, dias depois, por Doc –ele o quer de novo como piloto de fuga, aliás, ele o exige de novo como piloto de fuga: O crime, como em todo conto moral, é um pântano de areia movediça que só faz tragar.
O novo assalto reúne Baby com o casal Buddy (Jon Hamm) e Darling (Eiza Gonzalez) de seu penúltimo serviço, e com o traiçoeiro e instável Bats (Jamie Foxx), do último.
Entretanto, uma série de incidentes –somados à intenção de Baby de fazer deste realmente seu derradeiro trabalho –irão operar uma curiosa e engenhosa transformação na dinâmica entre os personagens, e estreitar ainda mais os perigos que ameaçam Baby e Debora.

Com um elenco soberbo, o diretor Wright subverte as expectativas do público em relação a quem serão os verdadeiros vilões e antagonistas e adiciona novas e pertinentes surpresas a esta muito bem executada aventura criminal impulsionada por uma das melhores trilhas sonoras do ano.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Orgulho & Preconceito & Zumbis

O “mash-up” surgiu como um sub-gênero literário e logo migrou para o cinema quando suas obras começaram a ganhar adaptações.
Grande responsável por esse filão, o escritor Seth Grahame-Smith viu seu “Abraham Lincoln-Caçador de Vampiros” adaptado por Timur Bekmanbetov num filme tão alucinado e descerebrado quanto se pode imaginar. Era questão de tempo até que seu livro mais comentado virasse filme.
“Orgulho & Preconceito & Zumbis” como o seu título já leva a supor, pega a história clássica de Jane Austen e introduz enxertos de um apocalypse zumbi, temperando de gore, ação e pancadaria a trama de romance entre o contido Mr. Darcy e a sonhadora Elizabeth Bennett.
A diferença é que basicamente eles param de fazer o quê estavam fazendo para matar zumbis, e pronto!
Dizer que o livro (e por conseguinte, o filme) é uma afronta aos textos de Jane Austen é chover no molhado. A idéia é levar divertimento à quem comprar essa premissa um tanto quanto absurda.
O verdadeiro problema não é apenas o fato de que o próprio filme adaptado da obra original. “Orgulho e Preconceito”, de Joe Wright com Keira Knightley, é infinitamente melhor, mais bem acabado e mais cinematográfico do que este.
O grande problema do filme é que há um quebra brutal de ritmo e clima quando a história é interrompida para dar lugar ao contexto dos zumbis: Os personagens declamam o texto requintado de Austen às voltas com suas complicações amorosas e, de repente, sem mais nem menos, saem dando tiros, machadadas e golpes de faca em mortos-vivos que vão aparecendo. Nem mesmo o esforço do roteiro em agregar esses elementos à trama conhecida e tentar harmonizá-los soa interessante –principalmente porque ele é profundamente falho na maior parte do tempo.
Como Elizabeth Bennett, a atriz Lily James (de “Downton Abbey” e da versão live-action de “Cinderella”) é de uma beleza e carisma apropriados à personagem, mas não se compara à Keira Knightley. O mesmo se pode dizer de Sam Riley (“Control”) como Mr. Darcy, que tem um trabalho um pouco mais difícil: Não só porque o personagem de início é desafiador, como também pelos vários atores sensacionais que o interpretaram em várias outras versões –não apenas o ótimo Matthew McFadyen, no filme de Joe Wright, mas também o grande Colin Firth e até mesmo Lawrence Olivier!
Percebe-se, por aí, no quê esse filme está mexendo!

O diretor Burr Steers (de “A Morte e A Vida de Charlie”) demonstra um esforço visível fazendo o melhor que pode: Ele valoriza a produção com uma câmera bem posicionada e compõe as melhores imagens possíveis, enfatizando os aspectos técnicos bem acabados, mas isso em momento algum trás harmonia para o filme, que segue truncado e estranho, tornando difícil elucidar exatamente para qual público ele foi feito.