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sábado, 30 de julho de 2022

Quatro Casamentos e Um Funeral


 A sacada formidável –e à época algo inédita –do roteirista Richard Curtis (que, nesta obra, foi revelado como grande especialista em comédias românticas) foi estruturar, com rigor, a sua narrativa nos cinco eventos determinados em seu título (só fazendo uma exceção num único momento, um encontro breve e casual): Dentro dessa proposta, e mantendo-se leal a ela, o roteiro esbanja inventividade e inspiração, desenvolvendo ótimos personagens e valendo-se de seu formato para construir diversas sacadas espirituosas.

É, portanto, com um sorriso no rosto que acompanhamos o simpático protagonista, um inglês solteirão (Hugh Grant, perfeito no papel) que atravessa as cinco cerimônias, em todas, acompanhado dos mesmos e sarcásticos coadjuvantes.

Lá pelas tantas, porém, ele encanta-se por uma bela jovem norte-americana (Andie MacDowell, também ela perfeita ao estilo adocicado do filme), assim como ele, presença assídua em todos esses eventos.

Esta graciosa comédia romântica inglesa dos anos 1990 obteve tanto sucesso que revelou uma série de talentos britânicos como o diretor Mike Newell e o ator Hugh Grant, além do roteirista Curtis. É seguro dizer que são os grandes responsáveis –Newell por sua condução serena e inspirada; Grant por sua presença adequadíssima além de seu impecável timing para o humor; e Curtis devido ao roteiro primoroso, a jóia da coroa neste excelente filme –pelo prazer contagiante que este descontraído e despretensioso trabalho até hoje ainda provoca no expectador.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

As Viagens de Gulliver


 Em 1996, houve um esforço válido, ainda que não de todo bem sucedido, para transpor com fidelidade e minúcia, o clássico de Jonathan Swift para as telas. Estrelado pelo casal Ted Danson e Mary Steenburgen, e dirigido por Charles Sturridge (diretor inglês prolífico da TV e realizador de um dos segmentos do incompreendido “Ária”), “As Viagens de Gulliver” era uma minissérie que, aqui no Brasil, foi lançada em formato de filme numa versão integral (e quase interminável) de 179 minutos de duração.

A extensão garantiu a presença de todas as peripécias do protagonista (as quatro viagens relatadas no livro, quando a grande maioria das adaptações se restringe apenas às duas primeiras) em seus mais variados detalhes –algo que uma metragem de cinema dificilmente comportaria –entretanto, tal decisão também atribui ao filme um ritmo por vezes enfadonho de ser acompanhado.

Na primeira metade do Século XVIII, o viajante Lemuel Gulliver (Ted Danson, simpático, porém, ocasionalmente deslocado) retorna para junto de sua esposa, Mary (Mary Steenburgen, tão talentosa quanto encantadora) e do filho Tom (Tom Sturridge) que mal conheceu, após quase nove anos ausente. Nesse ínterim, a família de Gulliver viu-se sujeita à autoridade do vilanesco Dr. Bates (James Fox), bastante interessado em desposar Mary e assumir a posse da propriedade de Gulliver de uma vez por todas. Entretanto, o fato de Gulliver regressar não lhe tira os planos perversos da mente: Gulliver aparentemente voltou completamente pinel, delirando acerca de lugares absurdos e inacreditáveis que visitou –e, não raro, ostentando loucura de fato ao misturar lembranças com realidade.

Enquanto ele é mandado para um hospício, as memórias de suas viagens são descortinadas na narrativa por meio de flashbacks que se mesclam de forma um tanto confusa –e, muitas vezes, na intenção de ocultar certa limitação de orçamento da produção. Assim, testemunhamos o naufrágio (sugerido elipticamente) que leva Gulliver a ficar prisioneiro do pequeno povo de Lilliputh, para quem ele é um gigante –e cujo rei, imaturo e obtuso, é interpretado pelo grande Peter O’Toole. Ao fugir dos lilliputhianos após envolver-se em suas guerras, Gulliver novamente ganha os mares e acaba em Brobdingnag onde todos são, desta vez, gigantes (!), e ele um ser miniaturizado –neste país, a rainha surge vivida por Alfre Woodward, de “Capitão América-Guerra Civil”.

Levado por um gavião gigante após ficar um tempo aprisionado por lá, Gulliver acaba sendo resgatado pelos moradores de Laputa, a ilha voadora (conceito aproveitado por Hayao Myiazaki no genial “O Castelo No Céu”). Em Laputa, os moradores –todos homens –usufruem do privilégio de serem considerados gênios (embora fique claro que sejam intelectualmente desmazelados), e só pensam nas redundantes estratégias de guerra contra suas mulheres, que agora vivem em terra firme longe deles (!). Farto de ficar na insensatez desse fogo cruzado, Gulliver parte, já ávido por voltar ao lar, mas seu caminho cruza-se com o de um historiador-feiticeiro (Omar Shariff) que o mantém preso durante algum tempo para que seu sangue sirva à sua feitiçaria: Toda noite, ele embebeda Gulliver para extrair seu sangue e, com ele, trazer alguma personalidade histórica do passado por meio de seu espelho mágico e, com isso, registrar a História “direto da fonte”.

Na sua última fuga antes do regresso para casa, Gulliver ainda conhece uma comunidade de equinos inteligentes o bastante para se comunicar com ele –enquanto os humanos das redondezas são, eles sim, criaturas animalescas e irracionais.

Todos esses percalços se sucedem paralelos aos aborrecimentos presentes de Gulliver, nos quais tenta provar sua sanidade diante da vil sabotagem do Dr. Bates. O grande problema é que não há um trabalho mais esmerado no que tange ao ritmo e à narrativa desses desdobramentos assim conduzidos ao expectador, tornando quase um suplício acompanhar a sucessão aleatória e cansativa de tais sequências. Esse lapso acaba, inclusive, desperdiçando não só as pontas inúmeras do vasto e surpreendente elenco (que inclui além dos já citados, nomes como John Gielgud, Ned Beaty, Edward Fox, Geraldine Chaplin, Kristin Scott-Thomas e Warwick Davis), mas também banaliza o grande mérito da produção: A iniciativa de relatar na íntegra o livro sempre mutilado de Swift em outras ocasiões.

Por incrível que possa parecer, não são os momentos mais conhecidos –como em Lilliputh, em Brobdingnag, ou em Laputa –os mais envolventes do filme, mas sim os trechos em que Gulliver se vê em sua desventura doméstica, já que é neles que podemos apreciar a inebriante presença de Mary Steenburgen.

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Os Delírios de Consumo de Becky Bloom


 A histriônica atriz Isla Fisher conseguiu destacar-se no bem-sucedido “Penetras Bons de Bico” no incontrolável papel de uma quase ninfomaníaca. Tanto chamou a atenção que o diretor australiano P.J. Hogan (de “O Casamento de Muriel” e “O Casamento do Meu Melhor Amigo”) apostou nela para protagonizar esta adaptação do livro de Sophie Kinsella, uma ágil comédia que une “O Diabo Veste Prada” à “Rosalie Vai Às Compras”.

Num registro colorido e plural do consumismo capitalista que permeia todo o filme, conhecemos a compulsão de Rebecca Bloomwood (Isla Fisher, cujos exageros ocasionalmente comprometem sua adequação ao papel), moça nova-iorquina que vive em funções das compras –na narração dela própria, descobrimos que as próprias vitrines das lojas parecem ganhar vida e chamá-la a comprar os diversos adereços.

Por conta disso, Rebecca vive com suas finanças no vermelho. O que a leva a almejar um ofício prontamente rentável. A fim de unir suas aptidões às suas necessidades, a intenção primordial de Rebecca acaba sendo obter um cargo na prestigiada revista de moda “Alette”, já que afinal, consumista voraz. Rebecca sabe tudo sobre marcas e griffes.

Todavia, a aguardada entrevista de emprego –à qual ela comparece com uma ostensiva echarpe verde –dá errado: A sonhada vaga já foi preenchida. Resta, contudo, uma outra alternativa, comer pelas beiradas: No mesmo prédio da “Alette”, outros escritórios, de outras revistas, também funcionam, sendo assim, Rebecca ainda tem a chance de ser aceita em outro departamento e, com sorte, ir subindo de nível, até atingir seu Santo Graal na revista de moda. E a chance que aparece vem a ser uma ironia do destino: Uma vaga na revista “Economia de Sucesso” –justamente uma publicação que orienta os leitores a controlar suas finanças e não deixar-se levar por suas compulsões de consumismo.

Contra todas as possibilidades, Rebecca redige uma carta que surpreende o jovem editor-chefe, Luke Brandon (Hugh Dancy, de “Falcão Negro Em Perigo” e “Histeria”), convencendo-o de que, diferente da realidade, ela é alguém especializada em finanças e perfeitamente capaz de administrar o próprio dinheiro (e logo, ensinar leitores a fazê-lo também!).

Esta comédia, conduzida com bastante sagacidade por P.J. Hogan, é assim aquela modalidade de farsa onde a adorável protagonista equilibra uma sucessão de mentiras –a persona gastadeira que ela oculta de todos no trabalho, onde ganha fama (na misteriosa coluna “A Garota da Echarpe Verde”) aconselhando o oposto do que realmente faz; seus hábitos caloteiros (e que colocam um implacável cobrador em seu encalço) que a levam a frequentar uma reunião de Compradores Anônimos (!); e o fato de encobrir tudo isso do razoável e envolvente Brandon, por quem ela vai se apaixonando, a despeito de todas as mentiras que conta a ele –até que a narrativa as empilha e acumula de tal maneira que todas explodem em confusões a partir de um determinado ponto do filme. O que eu vejo como ponto oscilante dessa produção é justamente o fato de Hogan ancorar isso tudo em Isla Fisher: Embora simpática e relativamente esforçada (em alguns momentos até demais!), ela não dispõe da doçura genuína de uma Sandra Bullock, nem da serenidade para o cômico e para o terno que fez de Meg Ryan uma estrela; em vez disso, ela emprega os mesmos arroubos que moldou para sua personagem em “Penetras Bons de Bico” –personagem esta de orientação completamente diferente da Rebecca Bloomwood que vemos aqui.

Uma coisa é destacar-se como coadjuvante histérica e irrequieta, outra, bem diferente, é saber dosar os momentos de maior ou menor intensidade para, como protagonista, levar todo um filme nas costas. Menos mal que, no elenco de apoio, P.J. Hogan soube escolher com muito mais primazia: Há John Goodman e Joan Cusack, sensacionais como os pais desprendidos e deselegantes da heroína; Kristin Scott-Thomas, sempre maravilhosa no papel da endeusada Alette Naylor; pontas pertinentes e precisas de John Lithgow, Leslie Bibb e Krysten Ritter (esta como a melhor amiga de Rebecca); e, sobretudo, Hugh Dancy, na medida certa de suavidade e simpatia para contrapor os desvarios de sua aloprada parceira de cena.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Sob O Luar da Primavera

Em meados de 1986, Prince estava com a bola toda: Dois anos antes havia estrelado “Purple Rain” que além do sucesso de público e crítica, lhe deu o Oscar de Melhor Trilha Sonora e cristalizou sua imagem de artista inovador dos anos 1980.
Beneficiando-se dessa boa maré, ele resolveu voltar a insistir no cinema, desta vez também estreando como diretor.
O filme que dessa intenção originou-se, este “Sob O Luar da Primavera”, não carrega tanto nas tintas dramáticas de “Purple Rain” preferindo um registro bem-humorado em tom galhofa, quase uma aventura romântica descontraída e inofensiva.
Prince, sem sombra de dúvidas, reservou para si o papel protagonista, Christopher Tracy, um crooner na boate de uma cidade litorânea da Europa. Filmado em preto & branco –por razões que nunca parecem de fato claras –esse detalhe confere, sobretudo em sua primeira aparição, uma semelhança com “Casablanca” logo no início.
Não há, porém, como comparar a grandeza da obra-prima de Michael Curtiz com o trabalho executado aqui: Se existe alguma boa ideia neste filme, é o fato do diretor ter nele imposto uma atmosfera de leveza, fazendo com que a obra nunca se leve muito a sério –do contrário, ele facilmente cairia em suas próprias armadilhas.
Aliado ao grande amigo Tricky (Jerome Benton), Christopher quer aproveitar a vida e se divertir com as tantas mulheres da região que lhe dão atenção –o que transforma o filme, do início ao fim, numa espécie de massagem de ego pessoal de Prince, insistente em cenas de sedução nas quais ele mesmo se dá mais atenção que às mulheres.
Já foi dito que Prince tinha aparência de odalisca e vontades de sultão: Se por um lado transparece seu narcisismo extremo, também se nota seu duvidoso gosto visual; ele usa adereços ostensivos, abusa de trejeitos afeminados e de muita maquiagem, e veste roupas espalhafatosas (mesmo para os padrões dos anos 1980!).
Ao entrar de penetra numa festa de aniversário promovida por uma família rica, Christopher conhece a aniversariante, a jovem Mary Sharon (Kristin Scott Thomas, belíssima estreando no cinema). De espírito rebelde, Mary, de início, se deixa irritar pelos estranhos sentimentos que aquele boêmio abusado lhe desperta –que logo ela, e o publico, irão concluir tratar-se de paixão.
O filme se ocupa do romance dos pombinhos de uma forma meio prolixa, meio superficial, com Prince cedendo ocasionalmente à vontade de fazer um grande videclip. Seu maior conflito até então é o que envolve Tricky, também ele apaixonado por Mary e ressentido dela ter escolhido Christopher.
Todavia, na sua obsessão por admirar a si próprio, Prince sucumbe ao clichê no ‘pai tirano que não deseja o amor para sua filha’ lá nos últimos quarenta minutos de filme, quando o personagem de Steven Berkoff, o pai de Mary, se impõe como grande vilão da trama –inclusive com subterfúgios abertamente criminosos e malignos.
Bebendo da fonte de todos os clichês românticos possíves (o que, definitivamente, não combina nada com Prince), o filme segue com sua historinha amena e leve até o final, quando uma concessão de última hora lhe reverte a previsibilidade trazendo algum drama ao desfecho.
No entanto, já é tarde demais.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Bons Costumes

A belíssima e interessante Jessica Biel diminuiu consideravelmente seu ritmo de trabalho após o casamento com o ator e cantor Justin Timberlake, uma pena já que em ocasionais obras como este “Bons Costumes”, ela se mostra luminosa.
Diretor do cult “Priscilla-A Rainha do Deserto”, o australiano Stephan Elliott, ao adaptar uma peça de Noel Coward, compõe uma obra tão rara e refinada para os padrões de hoje que causa completo mistério a sua ausência entre os indicados ao Oscar do ano de seu lançamento.
Em meados da década de 1930, o jovem inglês John (Ben Barnes, de “Crônicas de Nárnia-O Príncipe Caspian”) chega à aristocrática propriedade de sua família para apresentar sua imprevista esposa, a norte-americana Larita (Jessica Biel, sensacional).
Passado o choque inicial, Larita se descobre num ninho de cobras: As duas irmãs de John (Katherine Parkinson e Kimberley Nixon), obtusas em relação ao amor e à vida, vão gradativamente nutrindo cada vez mais antipatia pela cunhada. Mas, nada se compara à sogra; arredia, esnobe e prepotente Veronica (Kristin Scott Thomas, impecável) procura abertamente em cada detalhe, cada gesto, cada situação, justificativa para hostilizar a nora –e, não raro, meios para manipular o tolo e imaturo John para se manter conivente nesse seu jogo de rancor.
Alheio e desiludido à todas essas picuinhas desde os aborrecimentos acarretados com a guerra, o sogro Jim (Colin Firth, sempre fabuloso) por sua vez passa a admirar profundamente a maneira astuta, desprendida e sagaz com que Larita busca se desvencilhar as armadilhas domésticas que armam em seu caminho.
Tanto a verve do texto quanto o modo com o qual no filme ele é mantido são improváveis no circuito comercial da atualidade; o que só lhe enfatiza ainda mais o valor.
O diretor Stephan Elliott prima por um requinte e uma elegância nos diálogos e na narrativa que evidenciam a maestria com que o elenco é conduzido, vislumbrando detalhes e minúcias que pontuam sua comédia de costumes com formidável riqueza e loquacidade. A cada nova circunstância, a cada nova ocasião ele intensifica seu ritmo, elabora ainda mais a acidez de sua farsa, torna ainda mais contundente suas farpas afiadas, levando tudo num crescendo divertido, envolvente e espetacular.
Uma primorosa fogueira das vaidades aristocratas que não poupa ninguém de suas chamas.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Tomb Raider - A Origem

Parecia (e, de fato, era) uma tarefa difícil reinventar “Tomb Raider” e sua icônica protagonista, Lara Croft, tornada tão marcante por Angelina Jolie em sua versão cinematográfica.
Os produtores dessa nova empreitada tinham na própria gênese da franquia –os videogames –uma inspiração: Lara Corft e todo o conceito de “Tomb Raider” haviam ganhado, anos antes, uma bem-sucedida reformulação ao aproximar da realidade os elementos de aventura que norteavam a série.
A intenção lógica dos produtores foi seguir em cinema esse mesmo caminho, e chegamos dessa forma a este “Tomb Raider-A Origem” que deleta os dois filmes estrelados por Angelina Jolie, deixando de lado aquele estilo espalhafatoso de ação escapista e descerebrada, e optando por mais austeridade, mais realismo e menos fantasia –uma abordagem que virou moda em algumas franquias hollywoodianas depois que Christopher Nolan fez muito bonito agregando essas características em “Batman Begins”.
Vivida pela jovem ganhadora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, Alicia Vikander, a heroína Lara Croft surge algo desmistificada no princípio do filme: Trabalha como entregadora; mora com amigos e treina numa academia de quinta. Longe daquela Lara cheia de glamour e altivez que vimos nos outros filmes (ou nos primeiros jogos de videogame).
Logo descobrimos que essa vida proletária é uma espécie de opção: Richard (Dominic West), o pai de Lar desapareceu a sete anos atrás. Embora aguarde por ela uma herança milionária, Lara só a terá quando declarar legalmente que seu pai morreu –e isso é algo que a jovem não está pronta para aceitar.
Ela quase cede a sua tutora Ana (Kristin Scott-Thomas, num papel certamente plantado para futuras continuações), mas desiste em cima da hora quando descobre uma pista que pode, enfim, leva-la ao seu paradeiro: Ao que parece, o pai de Lara partiu para uma ilha misteriosa no mar do Japão e nunca mais foi visto.
Tendo herdado a astúcia do pai para seguir pistas indiscerníveis para todos os outros, Lara enxerga a trilha e assim a segue mar adentro, levando consigo Lu Ren (Daniel Wu), filho do mesmo capitão de barco que também acompanhou seu pai.
A ilha em questão –de acesso dificílimo –esconde um terrível segredo: Os restos mortais da princesa Himiko, considerada em tempos imemoriais dotada de um poder mortal que poderia devastar o mundo; razão pela qual foi exilada na ilha.
Segundo indícios deixados a ela por Richard, uma misteriosa organização, a Trindade (liderada aqui pelo vilão padrão vivido por Walton Goggins), estaria tentando colocar as mãos nesse poder –e, portanto, é dever de Lara impedir que eles consigam.
Toda essa trajetória é pontuada por constantes cenas de ação que enfatizam o físico obstinadamente treinado da estrela Alicia Vikander, e a inclinação realista de sua narrativa –todas as cenas de ação e de luta primam por um aspecto esportivo, sem os artifícios mirabolantes dos filmes com Angelina Jolie.
E de fato, é o contraste entre os dois estilos interpretativos distintos das duas estrelas o grande diferencial de um filme para outro –ou ao menos aquele que mais se destaca: Angelina compunha uma Lara melindrosa, atrevida e sarcasticamente artificial, dentro da proposta do filme escapista que estrelava. Já, a sueca Alicia Vikander (cujo físico, diferente de Jolie, é mais esbelto e atlético) faz valer suas credenciais dramáticas numa Lara Croft mais naturalista e repaginada que –desde a fonte dos games –se inspira em influência mais distintas que incluem “Jogos Vorazes”; até um arco e flecha ela manuseia em dado momento!
Se Angelina Jolie ganhava mais em diversão e menos em sisudez, a Lara de Alicia Vikander protagoniza um filme que padece menos de seus excessos e que goza, no mínimo, do mérito de basear-se num material mais válido e interessante.
O grande problema é que, para os adeptos do videogame, o filme –como ocorre em todas as tentativas de adaptar videgames para cinema até então –perde de lavada para a trama e a ação que são desenvolvidos nos jogos, relegando este “Tomb Raider” a uma cotação entre o medíocre e o vagamente satisfatório.

domingo, 13 de maio de 2018

O Destino de Uma Nação



Prova do talento cada vez mais evidente do diretor Joe Wright (que realizou o não muito reconhecido, porém, maravilhoso “Orgulho e Preconceito”) é a maneira brilhante e cheia de estilo que ele encontra para desvencilhar este notável recorte dos primeiros percalços de Winston Churchill como Primeiro-Ministro da Inglaterra na Segunda Guerra Mundial de suas contrapartes cinematográficas, sejam as mais redundantes (o vencedor do Oscar de Melhor Filme –ainda que longe de ser merecedor –“O Discurso do Rei”), sejam as mais primordiais (o grande trabalho de Spielberg em “Lincoln”).
Sem medo de mergulhar nos meandros políticos de seu roteiro –aos quais o filme se dedica integralmente –mas, mantendo uma narrativa sempre dinâmica e envolvente, mergulhamos no caos político do Parlamento Inglês às vésperas da invasão da França pelas tropas alemãs.
Uma guerra sem precedentes ameaça a Europa e o então Primeiro-Ministro Chamberlain, afirmam seus opositores, não tem o perfil adequado para liderar o país em tempos de guerra. O partido assim se vê obrigado a indicar um novo nome para o cargo; e o único que parece ser politicamente viável é aquele eles menos querem: O explosivo e intransigente Winston Churchill (Gary Oldman) lembrado pelo lamentável episódio envolvendo o exército britânico em Galipoli.
Churchill aceita o cargo oferecido pelo rei George VI (Ben Mendelsohn, vivendo o mesmo personagem retratado em “O Discurso do Rei”) já com todas as armadilhas políticas de seus adversários prontas para tirá-lo de cena: Seus correligionários querem se isentar da guerra fazendo um acordo de paz com a Alemanha e a Itália.
Suas justificativas são as derrocadas quase consolidadas da Bélgica, da França e da Holanda, bem como a periclitante situação do contingente britânico na cidade francesa de Dunkirk (o quê estabelece entre a premissa deste filme e a de “Dunkirk”, de Christopher Nolan, um diálogo rico em informação histórica), na qual foi encurralada praticamente toda a infantaria do Reino Unido.
Sob pretextos pacifistas, os partidários desejam, portanto, uma rendição.
Mas, Churchill é um osso duro de roer e, em sua beligerância, não deseja render-se tão fácil; e, em função disso, a caracterização de Gary Oldman encontra uma precisão singular –o Oscar de Melhor Ator que ele finalmente recebeu veio assim a coroar o trabalho mais formidável numa carreira cheia de trabalhos formidáveis.
Com efeito, a narrativa do diretor Wright, parece acompanhar outros personagens no conseqüente reflexo em espantar-se com tal presença –o principal deles sendo a secretária Miss Layton, vivida pela bela Lilly James (de “Em Ritmo de Fuga”).
O quê conduz à seqüência em que Churchill, ao seguir um conselho dado pelo rei (“Ouça o povo!”) resolve andar de metrô pela primeira vez na vida (!) e, no processo, descobre a opinião dos cidadãos ingleses acerca de Hitler e da guerra; o filme de Joe Wright caminha assim na direção de sua maior e mais emocionante cena (ciente de que tem um enorme trunfo na fenomenal atuação de Oldman) quando Churchill faz seu famoso discurso diante do Parlamento e reitera, de uma vez por todas, a sua posição (e a da Inglaterra) diante do conflito injetando, num país abalado pela baixa moral, fôlego e ânimo suficientes para que o Reino Unido se mantivesse firme contra os nazistas por mais uns bons anos até que o ataque à Pearl Harbor levasse os EUA enfim a ingressar na Segunda Guerra Mundial.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Há Tanto Tempo Que Te Amo

A atriz Kristin Scott-Thomas construiu uma carreira desigual devido à trajetória inusitada que teve: No início, seu considerável talento aliado a uma beleza das mais atípicas pareciam destiná-la a ser a eterna coadjuvante em trabalhos como “Lua de Fel”, “Quatro Casamentos e Um Funeral”, “Ricardo III”, “Anjos e Insetos” e “Missão Impossível”. Uma virada ocorreu, ainda na metade dos anos 1990, com uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz por “O Paciente Inglês”; de repente, Kristin tinha um status de estrela inédito em sua carreira. Seguiram-se papéis em produções hollywoodianas ao lado de galãs maduros como “O Encantador de Cavalos” (com Robert Redford, dirigindo inclusive) e “Destinos Cruzados” (com Harrison Ford) alternados com projetos sérios, elitistas até, como “Assassinato em Gosford Park”.
É perceptível que, com o passar do tempo, Kristin deixou de lado o cinema mainstream para se concentrar em obras mais alternativas, oriundas muitas vezes da Europa –prova disso é a quantidade baixa de filmes seus que chegaram a ser lançados no Brasil.
Uma atriz interessante que soube como continuar interessante.
Dentre os filmes estrelados por ela na última década, se destacam aqueles que ela fez em parceira com o diretor Philippe Claudel.
“Há Tanto Tempo Que Te Amo” –que foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e deu a Kristin uma indicação de Melhor Atriz Dramática –surpreende de imediato ao mostrá-la falando um francês fluente e expressando muito bem, nesse outro idioma, as sutilezas dramáticas que a definem como atriz.
Quando o filme começa, Juliette, sua personagem, aguarda num aeroporto. Há uma expressão de desalento em seu rosto –não é mera impressão: Essa expressão sempre a acompanha.
Juliette voltou ao convívio com a irmã Léa (Elsa Zylberstein, até bem parecida com Kristin) que não via há anos. Léa se esforça para superar o desconforto de ambas não se conhecerem tão bem para fazer com que Juliette se sinta em casa. Léa mora com o marido Luc (Serge Hazanavicius), com as duas pequenas filhas adotadas e com o sogro, que um AVC emudeceu.
São as dúbias impressões de Juliette e Léa acerca uma da outra, porém, que a câmera intimista de Claudel quer capturar de verdade. Tais impressões vão se refletir na dinâmica da relação dela com as crianças e com o marido, mas acima de tudo, na dúvida que aos poucos a narrativa vai impor ao expectador: Mas, afinal, o que aconteceu no passado de Juliette?
As respostas dessa e de outras questões chegam aos poucos intercaladas por uma condução serena e parcimoniosa, dispersa o suficiente para dar devidamente tempo ao expectador para absorver as informações (algumas um bocado contundentes) que chegam.
Trata-se de um drama doméstico, de ambientação e vibração cotidiana, mas bem executado e bem interpretado, atento aos pequenos detalhes que a encenação vislumbra de forma tão sublime –e, por meio deles, Claudel também captura a metamorfose de Juliette, da pessoa amargurada e isolada da cena inicial, a alguém mais afetuosa e familiar.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Missão Impossível

Após uma carreira de inquestionável sucesso como um dos maiores astros de Hollywood, Tom Cruise enveredou pela carreira de produtor –e nessa, até hoje continua meio claudicante –seu projeto de estréia, cuidadosamente bem escolhido, foi esta bela e vistosa adaptação cinematográfica da famosa série de TV.
Cruise cercou-se de expressivos (e ostensivos) realizadores para incrementar a produção: O diretor Brian De Palma (naquele que deve ser seu trabalho menos autoral), o lendário e oscarizado roteirista Robert Towne (de “Chinatown") –além de vários outros que trabalharam nas versões anteriores do roteiro como Steven Zaillian e David Koepp –e, no elenco, é obvio, Tom Cruise reservou para si mesmo o papel principal, o do agente Ethan Hunt que, a medida que a narrativa segue torna-se de fato o centro da trama, em detrimento de Jim Phelps, verdadeiro oriundo da série (e interpretado por Jon Voight, outra escolha ostensiva).
Outras participações: A linda francesa Emmanuelle Beart (cuja pouca sintonia com Cruise em cena deu à sua personagem um rumo que evidentemente não estava planejado no roteiro), a inglesa Kristin Scott-Thomas (antes do reconhecimento por “O Paciente Inglês”), o francês Jean Reno, e os chapas de Cruise, Emilio Estevez e Ving Rhames (no único personagem além de Cruise que persiste em todos os filmes). Além das breves e requintadas aparições de Vanessa Redgrave e Henry Czerny.
A história já ensaia uma reformulação do conceito da série, deixando bem claro os novos caminhos almejados pela nova versão: Recrutados pelo veterano Jim Phelps (Voight), um grupo de agentes peritos em infiltração do credenciado departamento "missão impossível", entre os quais o agente de campo Ethan Hunt (Cruise), cai no que parece ser uma cilada, e tornam-se todos (os que não morreram, pelo menos) fugitivos caçados pelo Serviço Secreto, por traição –nessa primeira pretensa reviravolta do roteiro, a metade dos atores mencionados acima são já descartados.
Cabe ao próprio Ethan assim reunir um novo time, capaz de descobrir a complexa conspiração de que foram vítimas e revelar a identidade dos verdadeiros culpados –e como todo o roteiro escrito e reescrito por várias mãos (especialmente pertencentes a contadores melindrosos de histórias rocambolescas), “Missão Impossível” tem uma premissa complicada que se ramifica em várias situações que exigem atenção do expectador. Nos filmes posteriores, essa tendência foi se suavizando em prol de obras de ação mais acessíveis.
O diretor Brian De Palma confere ao filme um charmoso e sofisticado ar de thriller de espionagem europeu, graças inclusive ao seu elenco internacional, e embora obtenha um resultado plenamente satisfatório, fica muito aquém da qualidade intrínseca e sólida de “O Fugitivo”, lançado poucos anos antes, também ele adaptado de uma famosa série de TV e nitidamente a base referencial pela qual este trabalho se inspira: A condução de Brian De Palma, por incrível que possa parecer, lembra mais a do diretor Andrew Davis (realizador daquele filme) do que a sua própria.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O Paciente Inglês

Numa das ironias existentes na prosa literária de Michael Ondaatje em seu aclamado livro, o ‘paciente inglês’ do título acaba sendo húngaro (!), mas ao verter o quê seria a espinha dorsal da narrativa –tida por inadaptável –para o cinema, o diretor Anthony Minghella priorizou menos os aspectos de desafiador atrevimento estrutural e mais o elemento que, em seu cinema, sempre ganhou destaque primordial, o amor.
É, portanto, um romance que ele extrai daquele livro melindroso, cheio de teorias e de possibilidades, se circunstâncias imaginadas e não concretizadas e de uma lógica mais abstrata do que cartesiana.
É o fim da Segunda Guerra Mundial. Um paciente não identificado e completamente desfigurado por queimaduras aparece num hospital militar próximo da Itália. Uma enfermeira canadense (Juliette Binoche, maravilhosa) se compadece dele e decide abandonar seu comboio para cuidar dele até seus últimos dias de vida num mosteiro da Toscana.
Aos dois juntam-se, mais tarde, uma dupla de soldados especializados em desativar minas terrestres (Kevin Whately e Naveen Andrews, que depois participou da série “Lost”) e um fugitivo misterioso (Willem Dafoe).
Paralelamente, a trágica história do assim chamado paciente inglês vai se desenhando na tela, e ficamos sabendo que ele foi um conde húngaro chamado Lazlo Almasy (Ralph Fiennes, um herói romântico brilhantemente distante da sisudez do oficial nazista de “A Lista de Schindler”). Em suas viagens de natureza cultural e intelectual por regiões do Marrocos, Lazlo se vê na companhia de um grupo obsequioso de aristocratas, entre eles, Katharine (Kristin Scott Thomas, uma escolha inesperada revelando-se linda, vulnerável e cativante), esposa de um milionário britânico (Colin Firth). Lazlo se apaixona por Katharine, e esse caso de amor acaba tendo oportunidade de se concretizar durante uma solitária empreitada a dois pelo deserto. Será o desejo cada vez mais irreprimível dos amantes em ficarem juntos e as gradativas constatações do marido de Katharine acerca do adultério que levarão ao desenlace trágico que conduzirá Lazlo quase a morte e àquele leito na Toscana.
Produzido de forma independente pelo veterano Saul Zaentz (que tem em seu currículo “Um Estranho No Ninho”, “Amadeus” e “AInsustentável Leveza do Ser”, além da animação maldita de Ralph Baski para “O Senhor dos Anéis”), a realização do diretor Minghella busca referências essenciais em obras de altíssimo nível cinematográfico, principalmente os épicos de David Lean como “Lawrence da Arábia” e os de Bernardo Bertolucci, em especial “O Céu Que Nos Protege”. Essa poderosa herança visual é colocada a serviço de uma história isenta da linearidade, narrada através de lembranças e flashbacks que embaralham os fatos e dão um novo viés a eventos cuja percepção seria diferente se contados em ordem cronológica.
O resultado disso tudo terminou agraciado com nove Oscars na cerimônia de 1997.

sábado, 17 de junho de 2017

Lua de Fel

Nas cenas iniciais deste filme de Roman Polanski parece inconcebível que um casal –pelo menos, um casal normal, nos termos afetuosos a que estamos habituados ver num filme –possa migrar de uma relação normal para aquela registrada na trama doentia elaborada neste filme; contudo, é exatamente isso que o expectador irá presenciar ao longo dos cem minutos de filme: Nesta obra que ambienta-se entre duas fases distintas de sua carreira (nos anos 1990, época de seus trabalhos mais obscuros, diferente das obras surpreendentes dos anos 1970, e das consagradas produções da década de 2000), ele se vale exclusivamente desse arco narrativo –a transformação espantosa (não raro, horripilante) de um relacionamento ardente em uma dependência sórdida beirando a tragédia –narrado em sarcástica primeira pessoa por Oscar (Peter Coyote), uma das contrapartes desse casal.
Seu ouvinte é Nigel (Hugh Grant, antes do estrelato de “Quatro Casamentos e Um Funeral), casado com Fiona (Kristin Scott-Thomas, antes do estrelato de “O Paciente Inglês”, e que também estava no elenco de “Quatro Casamentos...”), junto da qual embarcou num cruzeiro a fim de comemorar os sete anos de seu casamento, o mesmo cruzeiro onde conheceram Oscar e Micheline (Emmanuelle Seigner, esposa de Polanski, num papel audacioso, corajoso e perturbador).
Ele é cadeirante. Ela é sensual e insinuante. E Oscar sabe que Nigel pode cometer adultério com ela. Enquanto a hesitação de Nigel não se resolve, Oscar decide então relatar a ele a história de como conheceu Micheline –ou melhor, Mimi –e de como se tornaram o quê são.
Mais do que uma mera história que culmina em uma troca de casais, Polanski mergulha de maneira aterradora e irreversível nas mazelas mais profundamente contundentes da relação a dois, talvez comparável, em intensidade e despojamento, somente ao visceral “Possessão”, de Andrzej Zulawski.
Assim como Nigel, acompanhamos o princípio ardente do relacionamento entre Oscar e Mimi; o fulgor do sexo que ilustro os lascivos primeiros meses, bem como o lento e pesaroso minguar que sua relação sofreu quando o tédio e a monotonia macularam as cores que antes eram vivas –e que potencializou o egoísmo de Oscar para com Mimi quando ela ficou grávida.
A cada sessão na qual esse passado é desnudado, a obra de Polanski torna-se mais dura, mais emocionalmente insuportável: A história narrada em flashbacks por Oscar passeia pelas mais inacreditáveis facetas da obsessão, guiada com precisão pelo diretor Polanski, ostentando um raro equilíbrio entre o fatalismo macabro, a descontração desconcertante e uma fina ironia –e é frequentemente espantoso que Polanski tenha escalado, como pivô de toda essa trama claustrofóbica e mórbida a sua própria esposa!