Mostrando postagens com marcador Seth Rogen. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Seth Rogen. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de abril de 2023

Os Fabelmans


 Steven Spielberg cresceu em uma família amorosa ainda que disfuncional e cheia de seus próprios contratempos. Filmes como “Louca Escapada” ou “E.T. O Extraterrestre” evidenciam, em pequenos detalhes aqui e ali, as inquietações de nível pessoal que sempre o perseguiram –o distanciamento paterno; a opressão acarretada pela realidade adulta; a fuga sempre imaginativa para um refúgio de fantasia; a visão aventuresca com a qual usava o cinema para romantizar a vida. A gênese de cada uma dessas facetas pode ser contemplada e apreciada agora que Steven Spielberg pôde realizar seu filme mais pessoal, “Os Fabelmans”, no qual ele compartilha com o público um pouco de sua própria história.

Conhecemos assim o personagem que representa o próprio Spielberg, Sammy Fabelman, aos sete anos de idade, prestes a entrar num cinema pela primeira vez, junto de seus pais, Burt (Paul Dano) e Mitzi (Michelle Williams), para assistir a “O Maior Espetáculo da Terra”. Metódico, Burt explica ao pequeno Sammy toda a mecânica que envolve o cinematógrafo, enquanto que Mitzi, de uma irreprimível veia artística, enxerga ali a materialização dos sonhos; o protagonista mal sabe, mas sua índole será definida pelo ajuste emocional dessas duas influências aparentemente tão distintas.

Imediatamente capturado pela sequência onde uma colisão de trem leva vários vagões a descarrilar dos trilhos, o pequeno Fabelman pede de presente, fascinado, um trem de brinquedo, para poder reencenar várias e várias vezes aquele momento de colisão. Contudo, Burt não deseja ver o filho destruir um brinquedo que ele poupou para comprar. A saída, bolada por Mitzi, é filmar o descarrilamento de brinquedo, e tê-lo gravado em película para vê-lo e revê-lo sem parar. E é nesse detalhe, a repetição de uma memória feliz reproduzida em cores vivas e num processo tecnológico palpável, que se encontra o cerne da grande paixão do pequeno Fabelman.

Incapaz de olhar o mundo a não ser pela lente de uma câmera, Sammy (então interpretado por Gabriel LaBelle) passa o restante de sua juventude fazendo filmes caseiros, inicialmente tendo suas irmãs como protagonistas de suas produções –que variam de comédias sobre dentistas até filmes de horror com múmias feitas a partir do papel higiênico de casa (!) –e mais tarde, arregimentando até mesmo os colegas de classe e seus amigos do grupo de escoteiros.

É através do cinema que Sammy descobre uma identidade que o define, mas é também através dele que os primeiros rancores com a vida adulta são revelados: Num filme gravado aleatoriamente, Sammy flagra, sem querer, Mitzi junto de Bennie (Seth Rogen), um grande amigo de seu pai. A descoberta do adultério da mãe é um choque tamanho para Sammy que, quando a família se muda do Arizona para a Califórnia, ele decide abandonar em definitivo o hábito de filmar.

Ainda assim, o cinema persiste no caminho do jovem Fabelman: Ele tem a oportunidade de realizar um filme tradicional para o evento anual da formatura, no qual deposita toda sua habilidade e talento, mesmo que com os aspectos pessoais da vida entrando numa espécie de colapso: Mitzi, à essa altura, já não suporta mais o afastamento de Bennie e pede o divórcio à Burt, enquanto que os valentões da escola, sabendo das origens judaicas de Sammy, o acuam de todas as formas.

Se percebemos, nessa terna e delicada trajetória familiar, que o pendor artístico e o fascínio pelo processo criativo, Sammy puxou de Mitzi, notamos também que o minimalismo técnico e a obsessão profissional, ele puxou de Burt, não apenas isso, é o caminho de altos e baixos vivenciados por seu amor (pois, apesar de tudo, do início ao fim, eles nunca deixam de se amar) que define a visão pueril, ligeiramente sombria para com as harmonias familiares, que irá determinar o cineasta que ele virá a ser.

Para aqueles pouco inteirados da trajetória de Spielberg como diretor de cinema, “Os Fabelmans” significará bem pouco, e fará sentido menos ainda; esta é uma obra muito pessoal, feita para materializar uma história sobre pessoas imperfeitas que se dispuseram a construir uma família presumidamente perfeita, e no processo, moldaram um dos maiores gênios do cinema de todos os tempos.

Spielberg dirige o filme com bom humor, despido de amargura –até mesmo o personagem de Seth Rogen ganha um retrato carinhoso –e plenamente disposto a exorcizar quaisquer fantasmas de seu passado e de sua vida em família. Consegue realizar uma obra delicada e sincera sobre o poder transformador do cinema que, apropriadamente, se encerra no encontro mítico dele (Spielberg) com um dos maiores diretores norte-americanos de todos os tempos –John Ford, cujo “Depois do Vendaval” Spielberg tão bem homenageou numa cena de “E.T.” –a quem o diretor Spielberg coloca em cena interpretado por um dos grande diretores vivos da atualidade (senão o maior), o incomparável David Lynch.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Vizinhos 2


 Dois anos após “Vizinhos” ter se tornado um sucesso –sobretudo, por seu desempenho em homevideo –o ator Seth Rogen (também roteirista e produtor) e o diretor Nicholas Stoller retomaram os mesmos personagens para uma nova história. Diante do fato de que o primeiro filme quase mal se sustentava por si, a pergunta que fica é: Por que?

E “Vizinhos 2” se esforça de todas as maneiras tentando respondê-la com dignidade, reaproveitando parte do mote do filme anterior, esbanjando (em alguns momentos até demais) a inclinação de seu elenco ao improviso, e introduzindo a não tão pertinente personagem de Chloe Grace Moretz, a fim de dar um elemento representativo à trama –no caso, o respaldo feminista que faltou ao primeiro filme.

Desta vez, o casal Mac e Kelly (Seth Rogen e Rose Byrne) esperam mais um bebê. Com a segunda filha a caminho, a decisão deles é vender a casa e adquirir uma outra, melhor e mais espaçosa para o aumento da família.

Entretanto, a venda será sob o sistema de caução, ou seja, seus compradores têm trinta dias para avaliar o lugar e mudar de ideia até que o acordo seja fechado. No mesmo período, uma celeuma inesperada ocupa a casa ao lado, que no filme anterior abrigou as festas de arromba da fraternidade Delta Psi: Agora, tal casa será ocupada pela fraternidade Kappa Nu, presidida pela jovem Shelby (Chloe Grace Moretz), desejosa de criar sua própria fraternidade ao descobrir que as confrarias femininas, diferente das masculinas, não podem dar festas.

Para Shelby, é uma questão de honra que garotas tenham tanto direito de festejar quanto garotos –e de promover as festas que quiserem em seus próprios termos, sem sexualização.

O problema é que, apesar das boas intenções, Shelby e suas amigas não fazem ideia de como administrar uma fraternidade. Entra em cena então o garotão Teddy Sanders (Zac Efron) que, como referendaram os acontecimentos mostrados no primeiro filme, não evoluiu muito: Enquanto seus amigos se formaram e arrumaram empregos adultos, Teddy –cuja aptidão eram mesmo as festas espetaculares –seguiu em sub-empregos, sem muito lugar onde morar (era hóspede do amigo gay vivido por Dave Franco), numa espécie de crise de meia idade prematura. Quando seu amigo resolve se casar com o namorado, Teddy recebe um ultimato: Procurar outro lugar para morar. E é assim que seu caminho se cruza com o das garotas Kappa Nu.

Agora, como ‘consultor administrativo’ das garotas, Teddy retoma a mesma dinâmica do filme original, em que elaborava festas e mais festas de um lado, enquanto de outro, Mac e Kelly bolavam suas abiloladas sabotagens.

Tudo neste segundo filme é mais idiota, mais raso e mais irritante que no filme anterior –síndrome de sequência da qual este filme mais padece.

E todas as ideias (até que promissoras) para torná-lo melhor não encontram um resultado à altura: Caso do, digamos, idealismo igualitário da personagem de Chloe Grace Moretz, um discurso muito bonito no papel e que, em teoria, engrandeceria o filme, mas, cujo roteiro é incapaz de aprofundar essa circunstância, e a personagem Shelby, que poderia acrescentar camadas ao filme, acaba completamente desperdiçada.

O mesmo vale para a repentina homossexualidade do personagem de Dave Franco (condição inexistente no filme anterior e que aqui soa arbitrária e nada relevante) e para a discussão em torno da eterna imaturidade de Teddy, seu grande elemento de vulnerabilidade do filme anterior (e também lá um pouco negligenciado) que afasta-o do papel óbvio de vilão para lhe conferir uma química inesperada e válida com o personagem de Seth Rogen –se no primeiro filme a sensação de desperdício para com essa possibilidade interessante já assombrava o trabalho dos atores que o diga neste daqui, mais interessado nas gags sucessivas, de humor ocasionalmente grosseiro, que fracassam justamente naquilo que uma comédia não deveria fracassar: Ter graça.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Pagando Bem, Que Mal Tem?

Embora muitos considerem seu primeiro longa-metragem, “O Balconista”, como um cult-movie, o diretor e roteirista Kevin Smith na verdade passou toda sua carreira tentando, de alguma forma, repetir o êxito obtido em “Procura-Se Amy”, indiscutivelmente sua obra-prima.
Mais esforçado nesse sentido, “Zack And Miri Make A Porno” –ou “Pagando Bem, Que Mal Tem?” –busca mesclar a visão despojada que Smith possui dos romances modernos com as gracejos antenados e referenciais que ele tanto gosta; temperados aqui com o atrevimento inerente ao tema.
O resultado continua sendo uma comédia romântica onde os jovens apaixonados envolvidos se revelam até castos em seu amor, embora disfarce essa simplicidade com uma muralha de ousadia, vulgaridade e, por que não, metalinguagem.
Zack e Miri (Seth Rogen e Elizabeth Banks, reunidos em cena depois de fazerem juntos “O Virgem de 40 Anos”) são grandes amigos desde os tempos de colégio.
À beira dos 30 anos, eles moram juntos em Pittsburgh, e juntos vão de mal a pior: Dividem um apartamento cujas contas estão todas atrasadas, e eles, prestes a serem despejados.
É durante a reunião da classe estudantil de seu ano de formatura, onde conhecem o casal de homossexuais vivido por Brandon Routh e Justin Long (este último, um ator de filmes pornô-gay!), que Zack tem um lampejo da possível solução: Fazer um filme pornô que, na pior das hipóteses, terá como público todos aqueles que conheceram ele e Miri.
Afinal, conclui ele, se um video de celular mostrando Miri sendo espiada exibindo a calcinha tem milhares de visualizações na internet, um filme pornô protagonizado pelos dois haveria de tirá-los da penúria.
Com isso, Zack arranja um produtor –Delaney (Craig Robinson, de “Miss Março-A Garota da Capa”), seu amigo de trabalho numa cafeteria –e contrata um cameraman (Jeff Anderson) –na verdade, um colega do time de hóquei –e os atores, Lester (Jason Mewes, intérprete de Jay, parceiro de Kevin Smith na dupla Jay & Silent Bob) e Barry (Ricky Mabe), e as atrizes Bubbles e Stacey (as estrelas pornôs Tracy Lords e Katie Morgan).
A trupe arregaça as mangas para realizar a paródio-pornô “Star Whores” (!) (óbvio que, sendo o fã assumido de “Star Wars” que é, Kevin Smith não resistiria à tentação de parodiar seu monumento pop preferido), entretanto, na manhã do início das filmagens, eles perdem todo o equipamento, figurino e cenários nos quais investiram seu dinheiro: O depósito alugado pelas filmagens foi posto à baixo assim que seu locatário vigarista fugiu com a grana (!).
A saída é usar a cafeteria onde Zack e Delaney trabalham como cenário para as estripulias eróticas (!), o que inclui uma cena escrita especialmente para Zack e Miri –ou seus personagens, como quiserem... –antes da qual eles insistem, para os outros e para si mesmos, que será somente sexo e nada mais; algo que não pretendem deixar interferir na sua longeva amizade.
Contudo, é visível desde o começo que os planos no roteiro de Kevin Smith rumam na direção oposta: Zack e Miri, sim, se amam, e a circunstância um tanto insólita do pornô que resolvem produzir cria a deixa para darem um passo além na relação que, de outro modo, jamais dariam.
Como lidar com isso é pois a questão que vai tomando conta do filme quando ele já entra em seu último terço –e quando o divertido aspecto  de ‘bastidores da pornografia’ vai ficando de lado em prol do romance mais pueril e algo enfadonho dos protagonistas; em parte porque Kevin Smith já foi muito mais habilidoso e original ao escrever sobre relacionamentos em outras ocasiões, e porque Seth Rogen e Elizabeth Banks não têm a mais fervilhante das químicas.
Há certo mérito na forma graciosa e cheia de propriedade com que Smith consegue evitar que sua obra despenque para uma apologia ao erotismo –mesmo sendo, a rigor, um risco que corre do início ao fim –e na tentativa, não completamente bem-sucedida, de mesclar, já em seu desfecho, as considerações artísticas e narrativas do filme em produção, com o romance complicado entre Zack e Miri –e, portanto, com o próprio filme a que pertencem –mas, essas características admiráveis são eclipsadas pela inclinação de Smith às piadas grosseiras e imaturas que povoam todos os seus filmes, e pela comodidade de moldar sua obra em função de um redundante gênero cinematográfico, a comédia romântica.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

O Artista do Desastre

Não havia como James Franco interpretar Tommy Wiseau nesta reconstituição apaixonante, apaixonada e heróica dos bastidores do filme “The Room” (hoje dono do infame título de pior filme de todos os tempos) se ele também não viesse a dirigir a produção. Como também não haveria como ele dirigir esta produção se não viesse também a interpretar, ele próprio, o seu protagonista: A personalidade de Wiseau (ou ao menos aquela inacreditável faceta que ele permitiu revelar ao mundo) é indissociável da fauna curiosa e, não raro, perplexa que ele reuniu ao seu redor, da iniciativa inconseqüente e destrambelhada de se lançar como cineasta e do filme absurdamente bizarro que disso tudo resultou.
O grande brilho deste trabalho é, portanto, a compreensão incondicional que James Franco possui dos estranhos impulsos de vaidade que acometeram seu protagonista e que foram interpretados pelo público em geral como cacoetes bisonhos de alguém sem noção. Da mesma forma que sua atuação emula uma admiração salutar, sua narrativa reconhece algo mais onde todo o resto enxergou só galhofa: Uma vontade genuína de expor seus sentimentos por meio da arte.
Do início ao fim os olhos da plateia –porque Wiseau é um personagem deveras singular para isso –o hesitante candidato a ator Greg Sestero (Dave Franco, irmão de James) só consegue superar suas inibições no palco graças ao incentivo um tanto estranho vindo do mais estranho ainda Tommy, que James Franco interpreta com o primor equilibrado e imersivo que lhe valeu o Globo de Ouro 2018 de Melhor Ator em Comédia ou Musical.
Esquisito num nível quase irreal, Tommy Wiseau é aquele tipo de personagem que seria completamente inacreditável se não existisse de fato: Fala com um sotaque bisonho e frequentemente indiscernível, tem um comportamento completamente fora da realidade e preserva um mistério em torno de si mesmo (e de como ele conseguiu ter tanto dinheiro) que torna tudo ainda mais intrigante –ele conta para todos que veio de Nova Orleans, crente de que alguém acredita nesse papo furado!
Justamente por conta dessa alienação extrema experimentada por ele, Wiseau transforma o melhor amigo Greg no foco central de seus planos de vida e juntos os dois vão morar em Los Angeles, tentar a sorte como atores profissionais.
Os primeiros anos –o filme se inicia no fim da década de 1990 –os confrontam com diversos infortúnios e rejeições e, sem conseguir emprego, eles têm a ideia de fazer, eles mesmos, um filme para que possam estrelar como atores.
Tommy, o dono afinal de todo o dinheiro que vai bancar a maluquice, escreve o roteiro que ele mesmo estrela, dirige e produz, com Greg como seu principal coadjuvante.
“O Artista do Desastre” se incumbe assim de todo o non-sense que rondou de ponta a ponta as filmagens de “The Room”, desde cenários desnecessariamente confeccionados em estúdio, até presepadas inacreditáveis (todas elas, claro, protagonizadas, por Wiseau), algumas inclusive que podem ser conferidas no próprio filme que acabou realizado, uma das obras mais absurdas e sem pé nem cabeça da história do cinema –e, por isso mesmo, um fenômeno cult como atestam os depoimentos reais no começo de Kevin Smith, J.J. Abrahams, Lizzy Caplan, Adam Scott e muitos outros..
Embora houvesse material para tanto, o que James Franco realiza não é uma comédia escrachada, mas um esforço conciliatório de chamar o público a compreender a quase sempre incompreensível personalidade de Wiseau, aproximar-se dele, vencer as barreiras de sua esquisitice e vê-lo como um pessoa de verdade.
Na interpretação minuciosa com a qual consegue replicar sem afetação os trejeitos de seu protagonista (e isso, em si, é quase um milagre) e na condução algo estóica do cinema independente em gestação que registra, o filme realizado por Franco pulsa de admiração e bem-querer, seguindo pelo caminho das pedras para ser nem tanto uma comédia de riso frouxo, mas, um belo trabalho sobre cinema e para cinema onde está em foco uma das mais fascinantes, patéticas e tocantes personalidades a aparecer nas telonas.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Vizinhos

Mais um exemplar do humor particular e idiossincrático de Seth Rogen –que atua como produtor –“Vizinhos” é uma de suas empreitadas mais bem-sucedidas, dirigido por Nicholas Stoller que também realizou “Ressaca de Amor” e “Sim, Senhor”, com Jim Carrey.
Seu tema gira em torno das lendárias festas das irmandades universitárias norte-americanas que também serviam ao mote de “Dias Incríveis” e de incontáveis comédias adolescentes dos anos 1980, como “A Vingança dos Nerds” e afins.
Seth Rogen interpreta Mac, um cidadão comum que ao lado da esposa Kelly (a bela Rose Byrne) busca convencer a si mesmo que é um homem realizado e feliz, naquele discurso motivacional de reafirmação que os americanos empurram goela abaixo uns dos outros.
A crise de meia-idade de Mac –e a nostalgia natural dos tempos de farra –ganham, dessa forma, uma personificação viva quando muda-se para a casa ao lado uma irmandade universitária presidida pelo jovem Teddy (Zac Efron), um líder atlético, carismático, descontraído e festeiro –tudo o que Mac não é, ou em última instância, o que ele reprimiu dentro de si em prol da vida adulta.
Entretanto, a reflexão no filme de Stoller não se estende para tanto: O que Teddy proporciona aos seus vizinhos (após o trivial período da adaptação onde tentativas de conciliação são tentadas e superadas) são noites mal dormidas e aborrecimentos com o som alto que logo progridem para incômodos ainda mais diretos.
De sua parte, o casal de adultos não se esforça para ser mais responsável: Mac e Kelly inventam os planos mais mirabolantes para minar a credibilidade de Teddy, inclusive, uma tentativa de fazê-lo romper os laços com seu braço direito e melhor amigo, Pete (Dave Franco).
É quando o filme revela uma imprevista compreensão de seus personagens: Se a primeira parte explorava as incongruências crescentes entre os jovens e os (um pouco) mais velhos, sob o prisma de uma sufocada crise de meia idade, na segunda, são as inseguranças de Teddy que ganham expressão na narrativa, ao descobrirmos que, em sua inaptidão intelectual, ela busca se fazer imprescindível através das festas de arromba que promove, enquanto é obrigado a ver, um amigo seguido do outro, se afastar rumo a uma vida adulta que para ele parece inacessível.
O lapso neste filme, contudo, é possuir esse detalhe sempre proeminente em sua premissa (o de uma profundidade inesperada em seus personagens assim revelada), mas nunca dele tirar o devido proveito.
O diretor Stoller –que, em “Ressaca de Amor” soube tão bem trabalhar as inseguranças masculinas com seriedade e ternura em contraste com um humor beirando ao chulo –aqui parece se contentar com as gafes e confusões eventuais de estratagemas sucessivos engendrados por meros antagonistas declarados. Acaba que até mesmo a química e a camaradagem genuína que se percebe entre os personagens de Rogen e Efron –que leva o expectador a deduzir que eventualmente ficarão amigos –não se mostra devidamente explorada na trama, que segue por um desfecho abrupto, banal e pouco memorável.
Ainda assim, “Vizinhos” fez lá seu sucesso graças aos improvisos constantes –uma característica de Seth Rogen e sua turma –que nele geraram um humor desigual e as impagáveis situações construídas nas tais festas universitárias que o cinema americano sempre soube mostrar num viés folclórico que certamente não corresponde à realidade.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy


“O Âncora”, no estilo que adota, é um filme quase esquizofrênico. Tem um tipo de humor muito particular e norte-americano. E, por vezes, corre o sério risco de ser mal interpretado. Ainda assim é uma das grandes comédias da década de 2000-2010.
Em meados da década de 1970 (reconstituída com inspirada percepção nos figurinos), o âncora do maior telejornal de San Diego, Ron Burgundy reina absoluto (e na atuação irreprimível do gênio da comédia Will Ferrel, essa majestade não é à toa).
Ao lado de seus companheiros de notícias, Brian Fantana (Paul Rudd), Champion Kind (David Koechner) e Brick Tamland (Steve Carell, genial), ocupam o primeiro lugar nos índices de audiência.
Os tempos, entretanto, estão mudando. O machismo antes impune das circunstâncias trabalhistas está dando lugar à diversidade e à oportunidade igualitária às mulheres –e a rede logo recebe uma nova e determinada jornalista, Veronica Corningstone (Christina Applegate, de afiado timing cômico).
Esperta e obstinada, Veronica está acostumada aos obstáculos corriqueiros que uma mulher enfrenta num ambiente profissional –observações estas que o roteiro hábil escrito por Ferrel e pelo diretor Adam McKay encontra estratégicas brechas no humor implacável e quase ininterrupto para se inserir –e segue em frente com seu sonho de virar uma âncora de telejornal, mesmo diante da atração (logo tornada romance) entre ela e Burgundy.
É na ascensão e queda de Burgundy que a trama se concentra, usando do romance com Veronica como ponto de equilíbrio (ou desequilíbrio). O curioso, no entanto, é a forma com que o filme de Adam McKay se coloca diante dessa premissa: Tudo em cena reflete a absoluta falta de noção de seu machista personagem principal, conferindo ao filme um tom de comédia abilolada que encontra fácil correspondente naqueles exemplares de besteirol –aos quais parte do público inclusive deve relacionar Will Ferrel.
Embora tenha lá seus tópicos amparados em perspicazes observações do mundo real –a emancipação da mulher sendo o mais pertinente –o filme não faz um único esforço na direção de ser realista. Muito pelo contrário, não faltam cenas onde predomina um deliberado nonsense: Talvez as mais gritantes (em meio à tantas outras) sejam a apresentação com flauta de jazz feita pelo próprio Burngundy num clube noturno, pontuada pela canastrice saborosa de Ferrel; a batalha brutal, violenta e ridícula entre vários grupos de repórteres de emissoras rivais, a lembrar um confronto inconsequente de gangues, onde se chocam o time de Burgundy, mais os recalcados segundo colocados (liderados por Vince Vaughn), o pessoal que ficou em terceiro lugar (que têm à frente Tim Robbins), a emissora dos retardatários (com Luke Wilson) e os repórteres do canal latino (representados por Ben Stiller); além também da sequência final, contra um bando de ursos selvagens num zoológico (!).
Um peculiar exercício de humor realizado por mentes geniais incompreendidas que às vezes fingem nada compreender.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Ligeiramente Grávidos


O filme responsável por revelar o ator Seth Rogen, o talentoso diretor de comédias Judd Apatow –tão mais notável pela rara demanda de talentos genuínos para esse gênero que Hollywood possui –e por promover uma aparentemente auspiciosa transição (que não se concretizou) da bela atriz Katherine Keigl da TV (onde fazia o seriado “Grey’s Anatomy”) para o cinema é, com mérito, considerado um dos melhores da década de 2000-2010.
Ilustra com propriedade a máxima de que a mais simples história pode adquirir ares notáveis desde que realizada com habilidade.
No caso, não existe qualquer intenção de inovação na trama que une romance e comédia, a respeito de dois indivíduos incompatíveis, mas cujos caminhos se cruzam num enlace afetivo –uma comédia romântica, veja só!; Ben (Rogen, extremamente carismático) é um maconheiro de 23 anos que mal se dá conta de que deixou a adolescência.
Alisson (Heigl, linda e interessante) é funcionária de uma rede de TV, bela, ambiciosa e não raro com olhos só para o trabalho.
Após uma noite de bebedeira onde ela comemora uma aguardada promoção e ele, junto dos amigos alienados, faz o de sempre, esse improvável casal descobre que tem pelo menos uma coisa em comum: Eles terão juntos um filho!
Nos hilários nove meses que se seguem à gestação, eles irão descobrir cada qual as responsabilidades da paternidade, os contra-tempos da vida a dois, e encontrarão, inesperadamente, carinho e companheirismo um no outro.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

É O Fim


Eis uma comédia que, pode-se dizer, leva o absurdo de sua premissa às últimas consequências.
Numa simulação de realidade que frequentemente serve à seus propósitos cômicos, o comediante (e, aqui, tanto ator como diretor) Seth Rogen interpreta a si mesmo.
Ou seja, ele é um ator famoso –e já no início indagado do porque interpreta sempre o mesmo personagem –à espera de um amigo no aeroporto de L.A.
Esse amigo vem a ser jay Baruchel –que contracenou com Rogen em “Ligeiramente Grávidos” e faz parte, de fato, de seu círculo de amizades –e eles se reencontram depois de um longo tempo. Jay, embora também ator, é um pouco avesso ao modo de vida predominante na Califórnia. Seus planos são passar o tempo com seu amigo –e nisso o filme não tem pudores em suscitar todos os maneirismos de comédias sentimentais sobre amigos e parceiros; o quê Seth Rogen (que divide a direção com Evan Goldberg) parece prezar muito em sua filmografia.
Os planos de Jay, contudo, são frustrados: Seth não tarda a carregá-lo para uma festa promovida pelo astro James Franco em sua nova mansão. E, lá, não é somente James Franco que aparece interpretando uma versão impiedosamente caricatural e hedonista de si próprio: Vemos também a cantora Rihanna, os atores Jason Segel, Emma Watson e Michael Cera (numa versão terrivelmente irresponsável, inconsequente e promíscua do que supostamente seria o comportamento de um ator famoso), e os essenciais ao filme, Jonah Hill e Craig Robinson –todos, sem sombra de dúvidas, saídos do grupo de confiança de Rogen.
Até então, “É O Fim” não aparenta ser mais que uma comédia esquisita e um pouco ousada que flerta com as impressões da fama. Entretanto, ao acompanhar a decisão de Jay em ir a uma loja de conveniência junto de Seth, o filme entregará sua assombrosa guinada: Após um desastroso terremoto, raios azuis irrompem o céu (!) e capturam pessoas específicas entre a população. Uns são assim misteriosamente levados, outros ficam para ver a destruição que se segue por fogo e desmoronamento.
Na casa de Franco, contudo, ninguém percebeu o ocorrido (!!).
Após convencê-los –numa situação na qual a narrativa enfatiza o rídiculo da questão –alguns dos famosos citados até morrem (!) despencando num enorme buraco flamejante (nessa cena, temos também a aparição breve de Paul Rudd, o “Homem-Formiga”).
Rogen, Baruchel, Franco, Hill e Robinson têm a ideia de ficar na mansão de Franco, sobrevivendo com a água e a comida que há lá –isso até descobrirem que junto com eles está também o espaçoso e inconveniente (e, com frequência, o mais engraçado do filme) Danny McBride.
Forçados ao convívio, todos esses personagens, dotados do pouco de sensatez que têm, procuram racionalizar a situação: Ao que parece o Apocalypse Bíblico ocorreu, com o arrebatamento das almas boas e tudo o mais, e à eles, atores famosos, só restou experimentar o inferno na Terra (!).
O roteiro (do próprio Rogen) especula os desdobramentos realistas dessa situação certamente nada realista, embora explicíta a partir da definição da crença de muitas pessoas –e ainda que de certo o filme não almeje controvérsia na abordagem indireta da religião, ele sem dúvidas não a evita.
A verdade é que, em sua galhofa incontrolável, não dá para levar “É O Fim” muito à sério.
Mesmo nos momentos em que se pretende tenso, por exemplo, o filme conduz deliberadamente ao riso; um riso nervoso é bem verdade, mas riso ainda assim.
Uma mescla de comédia adolescente e debochada, referências improváveis, improvisão encorajada e solta e uma certa coragem inconsequente, este trabaho é, como outros assinados por Rogen, um exemplo do estilo muito peculir e significativo de um autor em meio à mesmice da comédia norte-americana.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Superbad - É Hoje!


Nos créditos iniciais coloridos e animados, nas músicas que tocam no início e no final e até mesmo na natureza sugestiva de seu título original, “Superbad” já deixa clara a referência à blaxploitation que estranhamente o domina.
É curiosa essa opção do diretor Greg Mottola, já que, na superfície, uma coisa nada tem a ver com a outra.
Lançado praticamente junto com “Ligeiramente Grávidos” e “O Virgem de 40 Anos” –filmes que serviram como uma espécie de revelação para Judd Apatow, sua equipe e seu astro, Seth Rogen –“Superbad” foi tomado pela crítica erroneamente como um outro exemplar do humor de Apatow.
Ledo engano: Embora assuma a produção deste trabalho, o humor bem mais ácido e anárquico de “Superbad” espelha muito mais o estilo do próprio Seth Rogen (que assume as funções de roteirista –a trama é parcialmente inspirada num episódio de sua própria juventude –de produtor executivo e ainda atua num dos papéis coadjuvantes).
Com efeito, os dois jovens protagonistas são Seth e Evan (Evan Golberg, também roteirista e produtor executivo do filme).
Interpretados respectivamente por Jonah Hill e Michael Cera (o primeiro um pouco irritante, o segundo ligeiramente disperso), eles são dois adolescentes às voltas com os dilemas juvenis dos últimos dias de ensino médio: Querem por que querem ter suas primeiras experiências sexuais; aí então, poderão orgulhar-se de não ter chegado virgens na faculdade (!).
A oportunidade dos sonhos, para ambos, parece surgir na festa ocorrida na casa de Jules (Emma Stone, num de seus primeiros papéis no cinema) –afinal, Seth há algum tempo tem interesse nela; assim como Evan na amiga dela, Becca (Martha MacIsaac).
Durante a festa, eles poderão embebedá-las e, com isso, ter o quê querem.
Detalhe importante: Seth e Evan são incumbidos por Jules de levar as tais bebidas alcoólicas para a festa. E, sendo todo esse pessoal menor de idade, a única maneira de obter essas bebidas é usando a identidade falsa de Fogell (Christopher Mintz-Plasse, de “Kick Ass”, no personagem que praticamente o tornou objeto de culto), segundo a qual ele tem o ostensivo nome de ‘McLovin’ (!).
Dessa forma, lá vão Seth, Evan e McLovin atrás das bebidas, numa missão que inicialmente parece simples, mas que os expedientes tão comuns às comédias tornarão movediça e recheada de confusões: A loja de conveniência é assaltada durante a compra e os policias chamados para a ocorrência (Bill Hader e o próprio Rogen, impagáveis), imaturos e enrolados, só complicam ainda mais as coisas para o perplexo McLovin.
Enquanto isso, Seth e Evan acabam indo à uma outra festa, essa promovida e comparecida por adultos, de onde têm a arriscada idéia de levar as bebidas.
Na elaboração das situações que remetem até a uma agridoce nostalgia, não obstante o teor de besteirol e os impropérios abundantes, “Superbad” remete à um tipo de comédia muito comum nos anos 1980, embora suas referências cinematográficas mais paulatinas sejam mesmo, como dito, os blaxploitation dos anos 1970 –e no fim, ele não esconda o fato de ambientar-se, afinal, nos anos 2000; como atestam os usos de celulares em cena.
É um caldeirão de influências anacrônicas que Greg Mottola faz para dali extrair um novo tipo de comédia: No desfecho, quando as situações parecem seguir um rumo normal e certamente previsível, o roteiro de Rogen e Goldberg agrega um inesperado viés humano e afetivo.
As garotas, Jules e Becca, não são, afinal, conquistas sem importância e, por isso, os detalhes mais picantes e sexuais de seu flerte são deixados de lado pela narrativa.
Assim como a amizade entre Seth e Evan é colocada num curioso outro prisma no trecho final –que pode ser visto como engraçado por alguns expectadores, ou até absurdo por outros –eis aí, porém, um detalhe bastante comum que se observa no trabalho de Rogen: A ênfase na genuína e amorosa amizade que pode surgir entre os homens.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Festa da Salsicha

Os filmes concebidos pelo comediante Seth Rogen compartilham uma espécie de escatologia que os define –vide o ótimo “É O Fim!” e o petulante “A Entrevista”.
Esta animação não foge à regra sendo –pelo fato de tratar-se justamente de uma animação –um de seus trabalhos mais curiosos.
Como numa versão distorcida, corrosiva e pecaminosa de “Toy Story”, os itens (em geral, os alimentícios) das prateleiras de supermercado possuem vida. Toda manhã entoam um canto onde ovacionam os humanos consumidores (que consideram deuses) e rogam para serem escolhidos e irem para o carrinho de compras, julgando que, ao saírem pela porta do supermercado irão para o paraíso –alheios ao fato (conhecido de antemão pelo público) que serão devorados!
Um das salsichas de um pacote plastificado, o protagonista Frank cultiva um romance com uma bisnaga chamada Brenda (!), e esperam a chance de se unirem –e o roteiro não tem o menor pudor de esconder a analogia sexual que imediatamente se percebe.
(Perto do final, inclusive, há uma cena de orgia que já está entre as mais absurdas e inacreditáveis de toda a história da animação, honrando o legado de transgressão de Ralph Baskin e seu “O Gato Fritz”).
Toda a sua premissa, aliás, é um terreno fértil para a alegoria e a animação se esbalda com as possibilidades de uma classificação indicativa alta discorrendo sobre segregação, ideologias extremistas, metodologia da crença e diversidade com utilização intensa de palavrões e impropérios (a versão dublada ficou a cargo dos comediantes do “Porta dos Fundos” que fizeram questão de não atenuar em absolutamente nada a tradução).
Até o final, o roteirista Seth Rogen (que se encarrega também da voz do protagonista) irá valer-se dessa verve ácida para demolir um sem-fim de convenções, e levará a trama a conseqüências inacreditáveis, chegando ao cúmulo de uma espantosa e hilária quebra da quarta parede.
São muito saudáveis essas ocasionais expressões de questionamento como a deste filme.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Steve Jobs

  
   Há um filme anterior feito sobre o fundador da Apple, com Ashton Kutcher, e que resulta lamentável.
   Neste caso aqui, com a direção de Danny Boyle (realizador de ótimos e variados filmes como “Quem Quer Ser Um Milionário?”, “127 Horas” e “Trainspotting”) e com roteiro de Aaron Sorkin (mesmo roteirista do arrojado “A Rede Social”), era improvável que o filme não fosse, pelo menos, satisfatório.
Estabelecendo uma considerável relação com o filme escrito por Sorkin (que, por sua vez, contava a trajetória de Mark Zuckenberg, o criador do Facebbok), como não poderia deixar de ser em vista das muitas similaridades do projeto, quase não se percebe o estilo de Boyle aqui, ainda que seu ritmo ágil e sua encenação inventiva estejam lá presentes.
   Ao contrário do filme com Ashton Kutcher, o roteiro de Sorkin não se prende a uma biografia com começo meio e fim, mas à três momentos específicos da trajetória de Jobs (um espetacular Michael Fassbender) que, esmiuçados e colocados em perspectiva, formam um curioso painel das transformações que envolveram a vida do personagem retratado e de todos aqueles que o orbitaram.
   Acompanhamos, assim, o lançamento do Mac, em 1984, quando somos introduzidos à vida já tumultuada de Jobs, à interpretação irrequieta e ao mesmo tempo ponderada de Fassbender, e aos bem escolhidos coadjuvantes à sua volta (a consultora-assistente vivida por Kate Winslet, o melhor amigo interpretado por Seth Rogen, o mentor personificado por Jeff Daniels e o colega vivido por Michael Sthulbach), que ganham diálogos inspiradíssimos e afiados.
   Somos levados a perceber, acima de tudo, as duas facetas absolutamente incompatíveis de Jobs: O admirável empreendedor de pensamento rápido e de privilegiado senso de administração, em contraponto ao ser humano arrogante, vaidoso e não raro, imaturo.
Mal dá tempo de processar o turbilhão de informações desse primeiro ato, e já somos arremessados no tempo, em 1990, época do lançamento do NeXT, circunstância por meio da qual o roteiro de Sorkin oferece prontas respostas em relação a muitos dos eventos antes esboçados. E é aí que o filme como um todo começa a mostrar a quê veio.
   A lembrança e as transformações nas relações ocasionadas pelo tempo, e por vezes transfiguradas pelo rancor, pelas expectativas e até pela indiferenças são colocadas em pauta o tempo todo, usando como cerne dramático justamente (e ironicamente) um personagem que luta para fingir para todo o mundo que não liga para essas coisas.
   Ao chegarmos na apresentação do iPod, em 2001, e por conseqüência, ao trecho final do filme, a grande atuação de Fassbender (e a bem da verdade de todo o ótimo elenco), assim como a exemplar condução de Boyle, já nos deixou perplexos diante desse personagem que nos leva aos extremos da empatia e da injúria, mas que ainda assim nos flagramos torcendo para que ele perceba as coisas importantes que estão passando por sua frente.
   Antes que seja tarde demais.