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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Twin Peaks - O Retorno


 Depois de muito tempo, em 2017, os fatores favoráveis se alinharam para que os criadores David Lynch e Mark Frost enfim dessem continuidade aos eventos misteriosos e intrigantes que encerraram a segunda temporada de “Twin Peaks” –isso tudo, para aproveitar o gancho no qual a personagem Laura Palmer (vivida por Sheryl Lee) diz ao Ag. Dale Cooper (Kyle MacLachlan) que o verá “dali há 25 anos”.

Entre esses 25 anos –tanto dentro da série como aqui, no mundo real –o criador e diretor David Lynch mudou: Se nas duas primeiras temporadas de “Twin Peaks”, ainda no início dos anos 1990 (nas quais ele dirigiu um total de seis episódios), Lynch ainda flertava com encenações imponderáveis e introduzia um surrealismo um pouco mais predisposto a se harmonizar com o formato televisivo convencional exigido pelos produtores, em 2017, Lynch já era um autor pra lá de aclamado, e ao conceber obras desafiadoras e fascinantes como a trinca “A Estrada Perdida”, “Cidade dos Sonhos” e “Império dos Sonhos” (todos eles, posteriores a “Twin Peaks”), era claro para qualquer financiador que um projeto de David Lynch não iria se render a conformismo nenhum.

E foi nessas circunstâncias que o canal Showtime viabilizou esta retomada de “Twin Peaks” que –diferente das duas temporadas originais –é integralmente dirigida por David Lynch. E nota-se isso a cada instante. A narrativa de “O Retorno” é fragmentada, nebulosa, estranha e frequentemente desconcertante. Lynch já começa quebrando expectativas levando a continuação da trama –que retoma o estranho final da segunda temporada a se fragmentar em, pelo menos, quatro ou cinco diferentes núcleos em locais distintos; e eles, à princípio, não remetem, de imediato, à cidadezinha de Twin Peaks, propriamente dita.

Descobrimos que o Ag. Cooper passou todos esses anos preso dentro do black lodge e que, em seu lugar, um doppelgänger maligno, um Bad Cooper, andou aprontando das suas –esse Bad Cooper é, também ele, vivido por Kyle MacLachlan, e trata-se do corpo de Cooper possuído pela perversa entidade Bob (Frank Silva), no fim das contas, o real assassino de Laura Palmer.

Em Nova York, testemunhamos um experimento no qual um jovem deve ficar horas observando (e filmando com um arsenal de câmeras) uma caixa de vidro aparentemente vazia –ele logo recebe a companhia da personagem da bela Madeleine Zima (da série “Californication”, também da Showtime) que inclusive aparece nua! Essa situação –surreal, como muitas saídas da mente de Lynch –será vital para a introdução do núcleo dos agentes do FBI na história: O chefe de departamento Gordon Cole (o próprio David Lynch), o Ag. Rosenfield (o saudoso Miguel Ferrer), e a novata, ainda que centrada e dedicada Tammy Preston (a cantora Chrysta Bell). Eles investigam casos pra lá de estranhos oriundos de um certo Arquivo Rosa Azul (entre os quais, uma chacina recente que houve com aquela caixa de vidro) que reacende um antigo caso, envolvendo o ex-agente Phillip Jeffries (o falecido David Bowie num personagem que apareceu no filme “Os Últimos Dias de Laura Palmer”), os leva até o encalço do Bad Cooper, e à pedir ajuda à ex-agente Diane (Laura Dern), a personagem para quem Cooper gravava as fitas nas temporadas originais –e que até então nunca tinha aparecido.

No black lodge (uma dimensão sobrenatural na qual transitam alguns dos mais enigmáticos personagens de toda a série), Cooper recebe a ajuda de Mike (Al Strobel), o guru de um braço só, para finalmente, depois de tanto tempo, voltar para a realidade, todavia, isso se dá por meio de caminhos tortuosos e pela quebra de qualquer expectativa que o público poderia elaborar: Cooper manifesta-se no lugar de um sósia, um cidadão de classe média baixa morador de Las Vegas chamado Dougie Jones –e na ocasião, em companhia da lindíssima Jade (Nafessa Williams). Dougie é casado com Janey-E (Naomi Watts) e trabalha como vendedor de seguros. Uma vez no corpo de Dougie Jones, Cooper fica preso numa persona balbuciante, monossilábica e lesada, ainda que, a partir daí, agraciada com uma sorte espantosa –mesmo que só repita as últimas palavras que ouviu da pessoa com quem fala, Dougie vai conquistando espaço e prestígio em sua empresa, felicidade e satisfação dentro de seu matrimônio, e até mesmo a afeição de dois irmãos mafiosos de bom coração (Robert Knepper e Jim Belushi) –esse personagem, o do idiota que sem querer ludibria os outros à sua volta convencendo-os de recursos e qualidades que não necessariamente tem remete a um filme que parece ser de muito apreço à David Lynch, o clássico “Muito Além do Jardim”, com Peter Sellers.

Noutra cidade, um homicídio tenebroso (uma mulher é morta por decapitação, no entanto, sua cabeça é encontra junto à outro corpo, de um dos personagens da série original) coloca, como principal suspeito aos olhos da polícia, o pacato diretor escolar vivido por Matthew Lillard (de “Pânico”), ao que tudo indica, mais um ato do Bad Cooper.

Os personagens de Twin Peaks, mais precisamente, começam a aparecer aos poucos revelando em alguns casos suas circunstâncias presentes, depois de todo o tempo decorrido: O xerife adjunto Hawk (Michael Horse) recebe uma orientação da clarividente Sra. do Tronco (Catherine E. Coulson) sobre uma pista (páginas perdidas do diário de Laura Palmer) que reacende a investigação e a procura pelo desaparecido Ag. Cooper, o que envolve o xerife Frank Truman (Robert Forster), irmão do Harry Truman (Michael Ontkean), xerife nas outras temporadas e o novo xerife adjunto Bobby (Dana Ashbrook), agora mais bem aproveitado pelo roteiro. Na medida do possível, o máximo de personagens são retomados, o núcleo da lanchonete e cafeteria onde trabalham Shelly (Madchen Amick) e Norma (Peggy Lipton); a situação enigmática (e sem respostas claras) de Audrey (Sherilyn Fenn) que, após um período de coma depois do fim da segunda temporada teve um filho psicopata, Richard (Eamon Farren), e o bar The Roadhouse, ponto de encontro onde vemos James Hurley (James Marshall) e outros, e onde muitos dos episódios (num total de 18) se encerram ao som espetacular de grandes convidados como Nine Inch Nails, Eddie Vedder e Rebekah Del Rio, contudo, a personagem Donna, de Lara Flynn Boyle, sequer é mencionada.

Pode-se afirmar, entretanto, que isso é somente arranhar a superfície: Além dessas e outras tramas e sub-tramas, “O Retorno” apresenta uma sucessão vertiginosa e vasta de outros personagens (alguns relevantes, outros bastante breves) onde se vê um elenco estupendo, certamente atraído pelo prestígio sem igual de David Lynch: Além de todos os já citados temos Harry Dean Stanton, Balthazar Getty, Ernie Hudson, Richard Chamberlain, Tim Roth, Jennifer Jason Leight, Ashley Jude, Ben Chaplin, Tom Sizemore, Amanda Seyfried, Caleb Landry Jones, Monica Bellucci, Michael Cera, Xolo Maridueña, David Dastmalchian, John Savage e muitos outros.

Todos representam pontas soltas que, embora até se interliguem ao longo dos episódios que se seguem, têm menos a intenção de elucidar os mistérios insolúveis que se levantam, e mais o objetivo de sedimentar o caminho percorrido como sendo uma experiência de sonho –e nisso, David Lynch é um craque sem igual. Mestre das atmosferas obscuras e do surreal empregado como fonte primitiva das mais diversas sensações humanas, Lynch nos leva do humor negro ao terror irracional, do investigativo ao experimental, do drama ao melodrama e de volta ao incategorizável, numa viagem apreensiva e fascinante que não encontra par, em toda a década, na realização audio-visual televisiva do mundo todo.

Só é um lamento constatar que –diante da perda de David Lynch, que nos deixou em 15 de janeiro de 2025 –a continuidade de “Twin Peaks” (que, pra variar, também se encerra aqui num plot misterioso prometendo possibilidades instigantes) seja algo que infelizmente não irá mais acontecer. Um filme de dezoito horas de duração, brilhantemente confuso e fascinante, construído com genialidade, e primoroso em cada um de seus inexplicáveis e eventualmente perturbadores momentos, terá que nos servir de consolo.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Sobrevivente


 Não muito tempo depois dos cinemas terem recebido “A Longa Marcha”, adaptação da primeira obra escrita por Stephen King, as telonas ganharam então este “O Sobrevivente”, também ele adaptado de um livro de King –no qual ele também utilizou o pseudônimo Richard Bachman –contudo, “O Sobrevivente” já havia sido adaptado antes, em 1987, num filme de profusa mescla entre ficção científica e pancadaria estrelado por Arnold Schwarzenegger. Nesta nova versão, ele é substituído por Glenn Powell (mas, Schwarzenegger é lembrado com sua estampa nas notas de dinheiro comercializado naquele futuro distópico!), entretanto, quem de fato dá a tônica para este novo filme é seu diretor Edgar Wright.

Habituado a realizar filmes brilhantes em sucessão um após o outro, Wright é aquele raro tipo de autor que está num patamar elevado aos demais, um esteta capaz de forjar filmes tão comercialmente satisfatórios quanto primorosamente artísticos –essa seleta lista de diretores atualmente inclui, além dele, Denis Villeneuve, Alfonso Cuarón, Paul Thomas Anderson e... bem, já começa a ficar difícil lembrar mais alguém!

Para fugir da mera pecha de filme de ação que veio atrelada à produção de 1987 (ainda que as plateias daqueles tempos não se importassem nem um pouco com isso), Edgar Wright constrói em “O Sobrevivente” –ou “The Running Man” –um futuro assolado por versões turbinadas e anabolizadas de celeumas sociais e existenciais que nos assolam hoje, desenvolvendo dentro desse cenário uma narrativa de perseguição e suspense tão urgente quanto eletrizante.

No papel de Ben Richards, um operário do futuro com problemas até o pescoço, Glenn Powell imprime uma raiva reativa que define muito do personagem (e sedimenta muito do caminho que ele trilhará): Sua filhinha pequena está doente, e sem dinheiro para custear remédios e tratamento, ela pode não passar de alguns dias de vida!

Depois de ter negado seus pedidos para obter emprego –Ben não é bem visto pelos empregadores desde que denunciou a empresa por abuso trabalhista –ele precisa engolir o orgulho e ver a esposa Sheila (Jayme Lawson, de “Pecadores”) trabalhar numa boate/lanchonete para colher gorjetas o suficiente dos clientes pagantes. Indignado e desesperado com a situação, Ben segue para a tentacular emissora Gratui-TV, disposto à participar de alguns dos programas de auditório onde telespectadores participantes embolsam alguma grana. Porém, Ben, graças ao temperamento apropriadamente explosivo que demonstra na ocasião, acaba selecionado logo para o mais letal de todos: O reality show “The Running Man”.

Atingindo picos de audiência, e capaz de proporcionar aos seus concorrentes rios de dinheiro, o “The Running Man” tem como apresentador o afiado personagem de Colman Domingo (ator indicado ao Oscar pelo filme “Rustin”) e consiste de um jogo no qual três voluntários devem tentar fugir pelas ruas da cidade (e do estado, e do país, se for o caso) por um período de trinta dias. Durante esse tempo, eles serão caçados e perseguidos por grupos de elite especializados nessas operações (instruídos a fulmina-los sem dó nem piedade), e acompanhados de drones de câmeras high-tech ao vivo.

A fim de apimentar a circunstância, a rede de TV cria narrativas mentirosas onde os sobreviventes são renegados e inescrupulosos e os caçadores, galantes agentes a serviço da justiça –o que transforma, portanto, cada pessoa da rua que o reconhecer num inimigo em potencial capaz de denunciá-lo.

Quanto mais tempo o participante conseguir ficar vivo (e poucos foram os que conseguiram passar de poucos dias; e nenhum jamais totalizou um mês!), mais dinheiro ele ganha; e quanto mais atenção o participante chama para si e para sua perseguição, maior é a audiência do programa.

Ben Richards inicia assim sua jornada tentando passar despercebido, fugindo para lugares improváveis onde crê que não será encontrado. No entanto, tão logo se torna o único a sobreviver, ele percebe a facilidade com que os caçadores se valem do sistema para rapidamente rastreá-lo –e passa então a contar com algumas poucas alianças para tentar chegar aos almejados 30 dias e, quem sabe, sobreviver e voltar para sua família, entre esses inesperados aliados estão o blogueiro e ativista Bradley Throckmorton (Daniel Ezra); seu pequeno irmão; o pinel e revolucionário Elton Parrakis (Michael Cera); e a jovem Amelia Williams (Emilia Jones, do premiado “CODA-No Ritmo do Coração”), inicialmente tomada como refém por Ben, e em princípio, crédula nas narrativas vilanescas associadas a ele, mas, aos poucos, consciente da manipulação que a Gratui-TV e seu chefão maior, o produtor Dan Killian (Josh Brolin) fazem com o público.

Com um pouco menos de ação e um pouco mais de suspense do que o filme de 1987 (ainda que, quando a ação aparece ela se dá em cenas de uma sinergia assombrosa), “O Sobrevivente” pincela o fascinante, opressor e detalhado mundo em que a trama se passa com elementos poderosos de controle midiático (inclusive com as famosas alterações de filmagens feitas com IA), de desigualdade social em níveis extremos e alarmantes e da opressão exercida pelos poderosos de formas incisivas e ultrajantes –e, apesar de tudo, nem um pouco improváveis de serem perfeitamente reais!

“O Sobrevivente”, com Arnold Schwarzenegger, é hoje um cult-movie, por sua mescla saborosa de adrenalina e futurismo (numa época em que satirizar realitys era um arrojo!), o novo filme tem até potencial para virar cult também (até porque Edgar Wright, em sua resplandecente carreira já concebeu alguns), mas sua ênfase está menos voltada para a ação e a pancadaria, e mais para a pertinente denúncia às corporações e às suas corruptíveis influências no público expectador, presente já na aflitiva obra literária de Stephen King.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Barbie


 Se haviam ressalvas que os cinéfilos do mundo inteiro alimentavam em relação à realização de um filme estrelado pela famosa boneca Barbie, elas foram todas dissipadas quando foi anunciada, como diretora e roteirista do projeto, a pra lá de talentosa Greta Gerwig. Em suas mãos, “Barbie” é, sim, sobre a boneca mais famosa do mundo (e traz, em tal papel, uma intérprete que não poderia ser mais perfeita, a fantástica australiana Margot Robbie), mas, é também sobre todas as consequências e ramificações, positivas e negativas, acarretadas por esse legado. É sobre a eterna dicotomia entre o amor idealizado e o amor como ele é. E é, afinal de contas, sobre nós, seres humanos, e nossa dificuldade de conciliar o que é diferente.

Numa referência à “2001-Uma Odisséia No Espaço” –que já denota os altíssimos padrões assumidos pelo filme de Greta Gerwig –somos introduzidos à história da boneca Barbie cujo surgimento mudou o modo de brincar de meninas do mundo todo. Mais que isso, mudou sua mentalidade: Outrora se restringindo ao papel de mãe de suas bonecas, as meninas tiveram em Barbie um exemplo de independência e empoderamento a ser seguido. Ou pelo menos, é essa impressão que passou a reger o mundo alternativo e ligeiramente alienado conhecido como Barbieland, no qual todas as variações até hoje criadas da boneca (bem como de seu namorado, Ken) existem de verdade. Barbieland é um mundo que segue as orientações conceituais do próprio brinquedo: As inúmeras Barbies não desfazem o formato empinado de seus pés, vivem em casas transparentes e cor-de-rosas, bebem em copos vazios e vão à praias onde o mar não lhes molha. É um mundo idealizado como numa brincadeira de criança –e a brilhante direção de arte, aliada aos audazes figurinos, captura essa ideia com propriedade imediatamente notável. Tal como na aparência, também há uma espécie de alienação nos sentimentos: Ken (Ryan Gosling, extraordinário) é salva-vidas, ainda que sua ideia da ocupação seja ficar impávido e supino na areia sem jamais pisar no mar, e seu namoro com a Barbie de Margot Robbie –pois todas as habitantes de Barbieland se chamam Barbie, assim como todos se chamam Ken, salvo a exceção do deslocado Alan (Michael Cera) –jamais sai do campo da teoria. Lá, todas as noites são festivas e todos os dias são os melhores de toda vida: Barbieland e seus nada realistas habitantes refletem, portanto, a maneira com que são brincados por todas as crianças do Mundo Real.

Contudo, em algum momento, algo inesperado começa a acontecer. Barbie é assolada por súbitos pensamentos a respeito da morte e, na sequência deles, surgem celulites e seus pés começam a assentar naturalmente ao chão (!). A resposta, vinda da espirituosa Barbie Estranha (Kate McKinnon), é até simples: Em algum lugar do Mundo Real, uma menina está brincando com a Barbie dessa forma assim, diferente, causando uma anomalia que interfere em Barbieland. À sua maneira descolada, Barbie resolve partir numa viagem rumo ao Mundo Real e tentar resolver as coisas com essa menina aparentemente desiludida –levando sem querer, Ken como clandestino.

É na retratação do Mundo Real, em oposição ao imaginário lúdico de Barbieland, que o filme de Greta Gerwig poderia encontrar seu ponto fraco, mas termina revelando sua mais audaciosa inspiração, aquela que faz de “Barbie” um filme que definitivamente deixa de ser infantil para abraçar reflexões que pouco a pouco vão ganhando profundidade, complexidade e emoção –e até mesmo um pouquinho de metalinguagem! Ao chegar em Los Angeles, Barbie encontra Sasha (Ariana Greenblatt, a pequena Gamorra de “Vingadores-Guerra Infinita”) e descobre que os valores outrora representados por ela como boneca, não foram tão salutares às gerações de meninas como ela acreditava. Ken, por outro lado, toma conhecimento das ideias norte-americanas sobre o Patriarcado e por meio delas reavalia sua relação de quase submissão sentimental com Barbie, bem como de seus pares –afinal, o personagem Ken, sempre viveu e existiu em função do protagonismo de Barbie.

Perseguida pelos executivos da Mattel (!) –liderados pelo sempre hilário Will Ferrell –que a querem de volta à Barbieland sem provocar transtornos no Mundo Real, Barbie conhece Gloria (America Ferrera, de “Quatro Amigas e Um Jeans Viajante”), mãe de Sasha, a pessoa que, com sua nostalgia provocada pelo crescimento da filha causou as mudanças lúgubres na protagonista. Todas regressam para Barbieland, para encontrar o mundo idealizado e perfeito de Barbie agora virado de pernas pro ar: Não mais disposto a se restringir ao redundante papel de namorado, Ken instaurou as ideias do Patriarcado em Barbieland, e agora, os Ken reinam absolutos como ‘machos dominantes’ enquanto as demais Barbies sofreram uma espécie de lavagem cerebral assumindo o papel de namoradinhas ostensivas.

É ironicamente o conhecimento do papel desafiador da mulher no Mundo Real trazido por Gloria que irá devolver as coisas aos seus devidos lugares. Ou ao menos, tentar.

Crianças pequenas, seduzidas pelo visual pueril, exuberante e predominantemente rosa, do filme de Greta Gerwig haverão de se surpreender e até se ressentir da gradual concepção adulta que o filme vai adquirindo a medida que avança –sem jamais deixar de ser divertido e apropriadamente caricatural (e de contar com diversas piadas de duplo sentido), o roteiro de “Barbie” (escrito à quatro mãos por Greta e seu marido Noah Baumbach) aborda temas como o empoderamento feminino, a emancipação da mulher, as ramificações tóxicas do machismo e do feminismo e o difícil equilíbrio entre valores morais e sentimentos arrebatadores para se revelar um filme profundo, carregado de ideias inesperadas justapostas de forma clara, corajosa e inteligente. No admirável arco narrativo que se constrói do início ao fim, “Barbie” engata sucessivamente marchas imprevistas de tensão, revolução e dramaticidade, nessa mesma ordem, que levam o público à novas impressões, culminando numa cena poderosamente emocionante –quando Barbie, assolada por todas as mudanças provocadas por e sobre ela –encontra o fantasma de Ruth Handler (Rhea Perlman), sua criadora, e decide reconhecer e aceitar, por fim, sua própria humanidade.

Por tudo que é, por suas diversas qualidades e suas instigantes ideias, por seus vastos acertos e suas imprevistas emoções não se deve subestimar este grande filme de Greta Gerwig.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

É O Fim


Eis uma comédia que, pode-se dizer, leva o absurdo de sua premissa às últimas consequências.
Numa simulação de realidade que frequentemente serve à seus propósitos cômicos, o comediante (e, aqui, tanto ator como diretor) Seth Rogen interpreta a si mesmo.
Ou seja, ele é um ator famoso –e já no início indagado do porque interpreta sempre o mesmo personagem –à espera de um amigo no aeroporto de L.A.
Esse amigo vem a ser jay Baruchel –que contracenou com Rogen em “Ligeiramente Grávidos” e faz parte, de fato, de seu círculo de amizades –e eles se reencontram depois de um longo tempo. Jay, embora também ator, é um pouco avesso ao modo de vida predominante na Califórnia. Seus planos são passar o tempo com seu amigo –e nisso o filme não tem pudores em suscitar todos os maneirismos de comédias sentimentais sobre amigos e parceiros; o quê Seth Rogen (que divide a direção com Evan Goldberg) parece prezar muito em sua filmografia.
Os planos de Jay, contudo, são frustrados: Seth não tarda a carregá-lo para uma festa promovida pelo astro James Franco em sua nova mansão. E, lá, não é somente James Franco que aparece interpretando uma versão impiedosamente caricatural e hedonista de si próprio: Vemos também a cantora Rihanna, os atores Jason Segel, Emma Watson e Michael Cera (numa versão terrivelmente irresponsável, inconsequente e promíscua do que supostamente seria o comportamento de um ator famoso), e os essenciais ao filme, Jonah Hill e Craig Robinson –todos, sem sombra de dúvidas, saídos do grupo de confiança de Rogen.
Até então, “É O Fim” não aparenta ser mais que uma comédia esquisita e um pouco ousada que flerta com as impressões da fama. Entretanto, ao acompanhar a decisão de Jay em ir a uma loja de conveniência junto de Seth, o filme entregará sua assombrosa guinada: Após um desastroso terremoto, raios azuis irrompem o céu (!) e capturam pessoas específicas entre a população. Uns são assim misteriosamente levados, outros ficam para ver a destruição que se segue por fogo e desmoronamento.
Na casa de Franco, contudo, ninguém percebeu o ocorrido (!!).
Após convencê-los –numa situação na qual a narrativa enfatiza o rídiculo da questão –alguns dos famosos citados até morrem (!) despencando num enorme buraco flamejante (nessa cena, temos também a aparição breve de Paul Rudd, o “Homem-Formiga”).
Rogen, Baruchel, Franco, Hill e Robinson têm a ideia de ficar na mansão de Franco, sobrevivendo com a água e a comida que há lá –isso até descobrirem que junto com eles está também o espaçoso e inconveniente (e, com frequência, o mais engraçado do filme) Danny McBride.
Forçados ao convívio, todos esses personagens, dotados do pouco de sensatez que têm, procuram racionalizar a situação: Ao que parece o Apocalypse Bíblico ocorreu, com o arrebatamento das almas boas e tudo o mais, e à eles, atores famosos, só restou experimentar o inferno na Terra (!).
O roteiro (do próprio Rogen) especula os desdobramentos realistas dessa situação certamente nada realista, embora explicíta a partir da definição da crença de muitas pessoas –e ainda que de certo o filme não almeje controvérsia na abordagem indireta da religião, ele sem dúvidas não a evita.
A verdade é que, em sua galhofa incontrolável, não dá para levar “É O Fim” muito à sério.
Mesmo nos momentos em que se pretende tenso, por exemplo, o filme conduz deliberadamente ao riso; um riso nervoso é bem verdade, mas riso ainda assim.
Uma mescla de comédia adolescente e debochada, referências improváveis, improvisão encorajada e solta e uma certa coragem inconsequente, este trabaho é, como outros assinados por Rogen, um exemplo do estilo muito peculir e significativo de um autor em meio à mesmice da comédia norte-americana.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Superbad - É Hoje!


Nos créditos iniciais coloridos e animados, nas músicas que tocam no início e no final e até mesmo na natureza sugestiva de seu título original, “Superbad” já deixa clara a referência à blaxploitation que estranhamente o domina.
É curiosa essa opção do diretor Greg Mottola, já que, na superfície, uma coisa nada tem a ver com a outra.
Lançado praticamente junto com “Ligeiramente Grávidos” e “O Virgem de 40 Anos” –filmes que serviram como uma espécie de revelação para Judd Apatow, sua equipe e seu astro, Seth Rogen –“Superbad” foi tomado pela crítica erroneamente como um outro exemplar do humor de Apatow.
Ledo engano: Embora assuma a produção deste trabalho, o humor bem mais ácido e anárquico de “Superbad” espelha muito mais o estilo do próprio Seth Rogen (que assume as funções de roteirista –a trama é parcialmente inspirada num episódio de sua própria juventude –de produtor executivo e ainda atua num dos papéis coadjuvantes).
Com efeito, os dois jovens protagonistas são Seth e Evan (Evan Golberg, também roteirista e produtor executivo do filme).
Interpretados respectivamente por Jonah Hill e Michael Cera (o primeiro um pouco irritante, o segundo ligeiramente disperso), eles são dois adolescentes às voltas com os dilemas juvenis dos últimos dias de ensino médio: Querem por que querem ter suas primeiras experiências sexuais; aí então, poderão orgulhar-se de não ter chegado virgens na faculdade (!).
A oportunidade dos sonhos, para ambos, parece surgir na festa ocorrida na casa de Jules (Emma Stone, num de seus primeiros papéis no cinema) –afinal, Seth há algum tempo tem interesse nela; assim como Evan na amiga dela, Becca (Martha MacIsaac).
Durante a festa, eles poderão embebedá-las e, com isso, ter o quê querem.
Detalhe importante: Seth e Evan são incumbidos por Jules de levar as tais bebidas alcoólicas para a festa. E, sendo todo esse pessoal menor de idade, a única maneira de obter essas bebidas é usando a identidade falsa de Fogell (Christopher Mintz-Plasse, de “Kick Ass”, no personagem que praticamente o tornou objeto de culto), segundo a qual ele tem o ostensivo nome de ‘McLovin’ (!).
Dessa forma, lá vão Seth, Evan e McLovin atrás das bebidas, numa missão que inicialmente parece simples, mas que os expedientes tão comuns às comédias tornarão movediça e recheada de confusões: A loja de conveniência é assaltada durante a compra e os policias chamados para a ocorrência (Bill Hader e o próprio Rogen, impagáveis), imaturos e enrolados, só complicam ainda mais as coisas para o perplexo McLovin.
Enquanto isso, Seth e Evan acabam indo à uma outra festa, essa promovida e comparecida por adultos, de onde têm a arriscada idéia de levar as bebidas.
Na elaboração das situações que remetem até a uma agridoce nostalgia, não obstante o teor de besteirol e os impropérios abundantes, “Superbad” remete à um tipo de comédia muito comum nos anos 1980, embora suas referências cinematográficas mais paulatinas sejam mesmo, como dito, os blaxploitation dos anos 1970 –e no fim, ele não esconda o fato de ambientar-se, afinal, nos anos 2000; como atestam os usos de celulares em cena.
É um caldeirão de influências anacrônicas que Greg Mottola faz para dali extrair um novo tipo de comédia: No desfecho, quando as situações parecem seguir um rumo normal e certamente previsível, o roteiro de Rogen e Goldberg agrega um inesperado viés humano e afetivo.
As garotas, Jules e Becca, não são, afinal, conquistas sem importância e, por isso, os detalhes mais picantes e sexuais de seu flerte são deixados de lado pela narrativa.
Assim como a amizade entre Seth e Evan é colocada num curioso outro prisma no trecho final –que pode ser visto como engraçado por alguns expectadores, ou até absurdo por outros –eis aí, porém, um detalhe bastante comum que se observa no trabalho de Rogen: A ênfase na genuína e amorosa amizade que pode surgir entre os homens.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Scott Pilgrim Contra O Mundo

É quase impossível resistir à vontade de comparar uma obra cinematográfica com sua fonte original em quadrinhos quando é lançada uma adaptação, por mais que não seja algo aconselhável: Apesar das semelhanças significativas e, em alguns casos, fascinantes, entre as duas versões, é uma tendência natural que a versão impressa da história, devido ao seu ritmo literário subjetivo, à liberdade do autor e à amplitude do formato, seja mais detalhada e completa, dando ao filme a impressão de que ele mutilou e simplificou a história.
Embora seja dirigido com absoluto brilhantismo por Edgar Wright (realizador do magnífico “Todo Mundo Quase Morto”), essa não deixa de ser uma sensação que persegue o expectador em “Scott Pilgrim Contra O Mundo” quando se compara o filme e a HQ.
Outro problema –bem mais pessoal da minha parte –é a escolha do inadequado Michael Cera (de “Juno”) para interpretar Scott Pilgrim, um personagem irrequieto, carismático em sua falta de noção, e completamente distinto do registro abobalhado que Cera lhe dá (e que se repete, na verdade, em todas as atuações do ator): É nítido que a escolha do protagonista foi uma das poucas intervenções do estúdio nesta produção –prova disso é que todos os outros personagens são maravilhosamente bem escalados.
Jovem canadense e guitarrista de uma banda obscura, o ligeiramente desligado Scott Pilgrim conhece, um belo dia, uma garota que lhe transforma a vida: a misteriosa e linda Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead, de “Rua Cloverfield 10”, um arraso!).
Para namorá-la, contudo, Scott deve vencer um desafio; derrotar um a um os sete ex-namorados malignos que Ramona teve antes de conhecê-lo –o primeiro namoradinho, o indiano Matthew Patel (Satya Bhabha), o às do skate e astro de cinema nas horas vagas, Lucas Lee (Chris Evas, de “Capitão América”), o guitarrista e vegano metido a besta Todd Ingram (Brandon Routh, que estrelou “Superman-O Retorno”, de Bryan Singer), namorado por sua vez da belíssima Envy Adams (Brie Larson, sensacional como sempre), famosa rockstar e ex de Scott (!), a enfezada e mortífera Roxy Richter (Mae Whitman), um breve affair lésbico de Ramona (!), os gêmeos Kyle e Ken Katayanagi (Keita Saitou e Shôta Saitô), e o líder de todos, o manipulador Gideon Graves (Jason Schwartzman, impagável).
Todos têm poderes alucinantes (e inesperados para quem assiste o filme de maneira casual) e representam assim, nesta vibrante adaptação da festejada graphic-novel de Bryan O’ Malley, o originalíssimo contexto no qual a narrativa está inserida: Absorvendo elementos, premissas e circunstâncias dos jogos de videogame, o filme se estrutura em “fases” representadas pelas lutas contra cada ex-namorado/adversário, que Scott Pilgrim deve derrotar, assim como também deve, nesse processo, encontrar um meio de amadurecer, para conseguir administrar o relacionamento que conquista com Ramona a cada combate. Isso dá ao filme um dinamismo e um apelo próprio e cativante, efeito que os quadrinhos originais já causavam. É claro que nas HQs os pormenores desse relacionamento (o cerne real da obra, ao invés das lutas) e suas mínimas mudanças eram explorados com muito mais tempo e precisão, rendendo uma analogia extraordinariamente encantadora (e proporcionando uma presença muito maior e mais significativa à personagem de Knives Chau, vivida por Ellen Wong, essencial à trama e à seus desdobramentos, relegada, aqui, a uma participação infelizmente bem menor), mas o diretor Wright certamente obtém o melhor resultado possível dentro do limitado tempo de um longa-metragem.
Seu filme é cheio de sentimento e de cenas tão espantosas quando cativantes, fruto de sua técnica afiada e audaz, e do entendimento sensato do enredo, do ritmo e das motivações.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Lego - Batman, O Filme

Deveriam dar a direção do filme da Liga da Justiça aos realizadores desta animação já que eles conseguiram fazer deste um dos melhores filmes do Batman: “Lego-Batman” respeita e considera o legado do personagem em todas as versões já concebidas; inclusive aí a normalmente constrangedora série de TV dos anos 1960 estrelada por Adam West (deixada de fora da maioria das personificações do herói, mas lembrada com muita espirituosidade por este roteiro).
Empregado como um coadjuvante na divertidíssima animação “Uma Aventura Lego”, o personagem do Batman, da forma como foi tratado, roubava muitas cenas: a conseqüência disso foi dar a ele o seu próprio longa-metragem animado.
A cidade de Gothan City, a despeito de ser declaradamente a cidade de maior índice de criminalidade do mundo (!), é protegida pelo vigilante conhecido como Batman (na voz hilária de Will Arnett). Ao contrário de suas torturadas versões para cinema –e não só interpretadas por atores reais, mas, também comprometidas com certa seriedade –este Batman é satisfeito com sua rotina frenética de super-herói em Gothan e orgulhoso com a persona sombria, viril e vistosa que criou, tanto que isso o permite usufruir da adoração das massas, enquanto brinca solitariamente com suas bugigangas na ostensiva Bat-caverna.
Mas, a nova comissária de polícia da cidade, substituta do aposentado Jim Gordon, e que vem a ser justamente a sua filha, Bárbara Gordon (voz de Rosário Dawson), deseja mudar as coisas.
Logo na seqüência da nomeação dela, porém, o Coringa (voz de Zach Galifianakis) e todos os outros vilões da cidade se entregam para a polícia, num plano mirabolante para tirar a credibilidade do Batman –afinal, o quê é um herói sem vilões para combater?
Seguindo a mesma premissa de “Uma Aventura Lego”, de execução engraçada e inusitadamente original, esta animação parece recriar, em seus pequenos detalhes narrativos, a sensação de uma brincadeira de criança, com os personagens nitidamente representados por pequeninos brinquedinhos (o som dos disparos das armas de fogo são onomatopéias pronunciadas pelos dubladores com a boca!), ainda que a exuberância da ambientação seja impraticável: “Lego-Batman” é, do início ao fim, uma sucessão inapreensível à primeira vista de informações visuais que encanta e impressiona os olhos.
Um exemplo? Ainda disposto a pôr um fim nos planos do Coringa, o Batman, com a ajuda do novo assistente Robin (voz de Michael Cera) –ou seria filho adotivo mesmo? –resolve ir à Fortaleza da Solidão e roubar o projetor de Zona Fantasma do próprio Superman (!) –a cena em que ele chega à tal Fortaleza e descobre que toda a Liga da Justiça está fazendo uma festa lá e não o convidaram é de rachar o bico!
Pois bem, Batman consegue arremessar o Coringa para dentro da Zona Fantasma; o quê só dá continuidade aos planos do vilão: Ele arregimenta todos os vilões que encontra lá dentro e retorna para instalar o caos em Gothan City. E como a Warner Bros. é detentora dos direitos de diversos personagens além dos super-heróis da DC Comics, a galhofa do filme permite a versão Lego de diversos vilões vindos de outras produções do estúdio como Sauron (de “O Senhor dos Anéis”), Voldemort (de “Harry Potter”), a Bruxa do Oeste e os macacos com asas (de “O Mágico de Oz”), King Kong, os Gremlins e muitos outros.
Uma grande brincadeira que, exatamente por isso, é muito eficiente em divertir o expectador.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Juno

Juno McGuff é uma adolescente do subúrbio norte-americano com um problema que não é tão incomum para garotas na sua idade: Juno engravidou de seu melhor amigo, e está prontamente decidida a entregar o bebê para a adoção já que percebeu (numa cena tão admirável quanto espirituosa) que é incapaz de realizar um aborto. Para tanto, Juno tem o apoio de seu pai, de sua compreensiva madrasta, sua melhor amiga e do jovem casal disposto a ficar com seu bebê. Mas as coisas nunca são tão simples.
Lançado em 2008, este filme independente virou mania entre os jovens norte-americanos, principalmente as meninas que se identificaram de imediato com a personagem Juno (interpretada com primor irreprimível pela ótima Ellen Page). Trata-se de uma comédia esperta com doses equilibradas de drama e seriedade, e um característico ar alternativo oriundo do cinema independente, mas cujos elementos que o compõem são maravilhosamente bem trabalhados pelo diretor Jason Reitman (filho de Ivan Reitman, o realizador de “Os Caça-Fantasmas”).

Não deixa de ser um exemplar cuja semelhança (e, por isso mesmo, uso da fórmula) com “Pequena Miss Sunshine”, lançado no ano anterior, acaba incomodando um pouco, embora certamente seja muito agradável de se assistir, como ele, “Juno” venceu, naquele ano, um merecidíssimo Oscar de Melhor Roteiro Original, entregue à Diablo Cody, sua roteirista que soube equilibrar personagens bem construídos, e situações –muitas extraídas de suas próprias memórias –entrelaçadas numa carpintaria narrativa que privilegia apenas o que de fato importa para a trama avançar.