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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Devoradores de Estrelas


 Baseado num livro de Andy Weir (o mesmo autor do livro que deu origem à “Perdido Em Marte”), Devoradores de Estrelar” – ou “Project Hail Mary” – traz o mesmo fascínio pela astronomia e pelas mais mirabolantes possibilidades científicas daquele trabalho. A diferença é que aqui o autor elevou a aposta e a ambição.

O herói de “Project Hail Mary” é Ryland Grace (Ryan Gosling, sempre sensacional), biólogo, professor primário e solitário compulsivo que, um belo dia, acorda sem memórias dentro de uma nave espacial (!). Seus companheiros de tripulação – duas pessoas, de países distintos – estão mortos (!!), só ele sobreviveu. Ele não se lembra do porque está ali, a milhares de anos-luz longe da Terra, mas os indícios indicam que é para salvar a Humanidade (!!!). Gradualmente, enquanto sua memória retrocede vamos descobrindo junto com ele os percalços que o levaram àquela aflitiva situação.

Na Terra, Ryland acabou cooptado pela especialista Eva Stratt (Sandra Huller, de “Zona de Interesse”) que não tardou a notar que ele se encaixava à perfeição para uma das especialidades de sua operação – micróbios desconhecidos da raça humana, logo intitulados ‘Astrofágicos’ estavam se “alimentando” do Sol; todos os sistemas solares por onde passaram simplesmente definharam e morreram. E algo parecido estava destinado a acontecer ao nosso Sistema Solar. Entra então a audaz operação encabeçada pela Dra. Stratt e formada por diversos especialistas nas mais vastas áreas do mundo todo, incluindo Ryland.

Em algum lugar longínquo do sistema estelar Tau Ceti, houve uma estrela cujo núcleo se manteve imune aos ‘Astrofágicos’ – a missão de uma tripulação de astronautas previamente treinados é, portanto, ir até lá (levando o tempo que levar) e encontrar o que está protegendo aquele sistema dos ‘Astrofágicos’ e enviar sondas para a Terra coma resposta, salvando assim a Humanidade.

Detalhe: A possibilidade de regresso, dadas as circunstâncias, é nula. O que faz dessa uma missão suicida.

Assim, “Devoradores de Estrelas” vai, aos poucos, esmiuçando os detalhes um tanto irônicos que fizeram Ryland ir parar naquela nave, ao passo que nos permite também acompanhar a situação atual dele: Num primeiro momento, perdido dentro de uma nave que nem tem certeza se sabe pilotar, Ryland entra em contato com uma forma de vida alienígena (!).

Um ser aparentemente feito de pedras a quem ele dá o nome de Rocky (!) (dublado e manuseado qual uma marionete por James Ortoz) e que revela ser um astronauta, vindo de seu planeta-natal com o mesmo propósito, achar um meio de salvar seu mundo dos ‘Astrofágicos’.

Empregando um linguajar técnico difícil e cheio de termos inacessíveis – mas, ainda assim, vital para os desdobramentos da trama – o filme ainda ostenta uma duração desafiadoramente longa que dividiu a opinião e a disposição de alguns expectadores. No entanto, não apenas o ator Ryan Gosling dá conta maravilhosamente bem do recado (provando a cada filme que tira de letra qualquer gênero que lhe incumbem, seja drama, comédia ou ação) como também os diretores Phil Lord e Christopher Miller (ambos da animação “Homem-Aranha No Aranhaverso”) executam um belíssimo trabalho, registrando o espaço sideral em tonalidades contrastantes de cores, numa das mais belas paletas visuais empregadas na ficção científica (a fotografia é de Greig Fraser, de “Duna – Parte 2”), e conferindo, de um ponto em diante do filme, uma inesperada importância emocional ao personagem Rocky, cuja concepção acaba atendendo diversos expedientes anteriormente engatilhados.

O resultado é uma obra que exibe o mesmo desembaraço com a ciência de “Perdido Em Parte” – também pudera, é o mesmo autor! – um repertório técnico que almeja a exuberância de “Gravidade”, uma dinâmica que constantemente faz referência a “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” – inclusive aproveitando a icônica trilha sonora – e uma jornada épica de viés sentimental que muito remete à “Interestelar”.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

O Dublê


 “The Fall Guy”, a exemplo de inúmeras produções, hoje cultuadas, dos anos 1980, ganhou sua versão cinematográfica (era antes uma série de TV) repaginada e incrementada com todos os divertidos exageros do cinema comercial atual. Ao que parece, entretanto, os funcionários das distribuidoras nacionais são jovens demais lembrar que a série “The Fall Guy”, estrelada por Lee Majors, levava aqui no Brasil o título de “Duro Na Queda” –esta versão cinematográfica chega aqui intitulada meramente como “O Dublê” (!?).

Como em muitas obras já reaproveitadas em filmes turbinados e frequentemente descerebrados, “The Fall Guy”, o filme, amplifica o conceito tímido de ação da série (que acabava um pouco disfarçado com um viés investigativo) com sequências de luta e/ou perseguições elevadas a níveis inacreditáveis. O grande trunfo deste projeto, em si, foi mesmo poder contar com a direção de David Leitch.

Outrora um requisitado coordenador de  dublês da indústria (fez, entre outros, “Clube da Luta”, “300” e “O Ultimato Bourne”), Leitch faz de “The Fall Guy” não apenas um filme pulsante, palpitante e fluído (sua especialidade como diretor), mas também um enaltecimento indelével em forma de longa-metragem de sua antiga profissão: Não faltam menções, em diversas ocasiões do roteiro, ao fato de que clássicos como “Rocky”, “Coração Valente” e “Titanic” jamais seriam realizados sem dublês, ou de que a classe, tão fundamental à indústria cinematográfica, não tem um categoria no Oscar que a prestigie.

No fim das contas, é a direção apaixonada de David Leitch que faz toda a diferença na história de Colt Seavers (Ryan Gosling, sensacional), dublê profissional –e, na maior parte do tempo, quase sempre do imaturo astro Tom Ryder (Aaron Johnson). Aposentado após um acidente num set de filmagens, Colt é convocado de volta à ativa pela produtora  Gail Meyer (Hannah Waddingham, de “Os Miseráveis”) para participar de um filme feito na Austrália e dirigido por Jody Moreno (Emily Blunt), um romance mal-resolvido de seu passado.

Contudo, as circunstâncias são mais complicadas: Gail chamou Colt porque o astro da produção (o próprio Tom Ryder), simplesmente desapareceu. Como o sumiço do ator principal pode interromper a realização do primeiro filme da carreira de Jody, Colt aceita a incumbência, dando uma de detetive nas horas vagas, enquanto atua paralelamente no filme, levando bordoadas usuais como dublê.

O diretor Leitch é inteligente e inquieto na aproveitação desses expedientes –ele molda um vibrante filme de ação (aproveitando a desenvoltura fora do comum de Ryan Gosling), oscilando entre os acréscimos de detalhes investigativos de sua trama (com desenlaces até bem inesperados), inspirados lampejos de metalinguagem (o ‘filme dentro do filme’ proporciona sacadas muitas vezes hilariantes) e os altos e baixos da relação afetiva entre Colt e Jody, construída em oportunidades pouco usuais pela narrativa –e ainda se vale de um gancho muito envolvente e sedutor das obras oitentistas que ele tanto homenageia: O protagonista íntegro e valoroso, cuja integridade e valor escapa (graças ao habilidoso do roteiro) dos olhos de todos, inclusive da mocinha que ele ama, exceto dos da plateia, que por conta disso, identifica-se plenamente com ele.

Não faltam filmes fabulosos na filmografia de David Leitch, cada qual ostentando uma mescla desigual, competente e surpreendentemente funcional de filme de ação com outras variantes da narrativa cinematográfica, “The Fall Guy”, em seus acertos admiráveis (para muito além de seus eventuais lapsos) traz a perícia insuspeita para cenas de ação e pancadaria, definindo com primor a homenagem subliminar que ele faz à profissão de dublê e ao romantismo truculento e nostálgico da década de 1980.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Barbie


 Se haviam ressalvas que os cinéfilos do mundo inteiro alimentavam em relação à realização de um filme estrelado pela famosa boneca Barbie, elas foram todas dissipadas quando foi anunciada, como diretora e roteirista do projeto, a pra lá de talentosa Greta Gerwig. Em suas mãos, “Barbie” é, sim, sobre a boneca mais famosa do mundo (e traz, em tal papel, uma intérprete que não poderia ser mais perfeita, a fantástica australiana Margot Robbie), mas, é também sobre todas as consequências e ramificações, positivas e negativas, acarretadas por esse legado. É sobre a eterna dicotomia entre o amor idealizado e o amor como ele é. E é, afinal de contas, sobre nós, seres humanos, e nossa dificuldade de conciliar o que é diferente.

Numa referência à “2001-Uma Odisséia No Espaço” –que já denota os altíssimos padrões assumidos pelo filme de Greta Gerwig –somos introduzidos à história da boneca Barbie cujo surgimento mudou o modo de brincar de meninas do mundo todo. Mais que isso, mudou sua mentalidade: Outrora se restringindo ao papel de mãe de suas bonecas, as meninas tiveram em Barbie um exemplo de independência e empoderamento a ser seguido. Ou pelo menos, é essa impressão que passou a reger o mundo alternativo e ligeiramente alienado conhecido como Barbieland, no qual todas as variações até hoje criadas da boneca (bem como de seu namorado, Ken) existem de verdade. Barbieland é um mundo que segue as orientações conceituais do próprio brinquedo: As inúmeras Barbies não desfazem o formato empinado de seus pés, vivem em casas transparentes e cor-de-rosas, bebem em copos vazios e vão à praias onde o mar não lhes molha. É um mundo idealizado como numa brincadeira de criança –e a brilhante direção de arte, aliada aos audazes figurinos, captura essa ideia com propriedade imediatamente notável. Tal como na aparência, também há uma espécie de alienação nos sentimentos: Ken (Ryan Gosling, extraordinário) é salva-vidas, ainda que sua ideia da ocupação seja ficar impávido e supino na areia sem jamais pisar no mar, e seu namoro com a Barbie de Margot Robbie –pois todas as habitantes de Barbieland se chamam Barbie, assim como todos se chamam Ken, salvo a exceção do deslocado Alan (Michael Cera) –jamais sai do campo da teoria. Lá, todas as noites são festivas e todos os dias são os melhores de toda vida: Barbieland e seus nada realistas habitantes refletem, portanto, a maneira com que são brincados por todas as crianças do Mundo Real.

Contudo, em algum momento, algo inesperado começa a acontecer. Barbie é assolada por súbitos pensamentos a respeito da morte e, na sequência deles, surgem celulites e seus pés começam a assentar naturalmente ao chão (!). A resposta, vinda da espirituosa Barbie Estranha (Kate McKinnon), é até simples: Em algum lugar do Mundo Real, uma menina está brincando com a Barbie dessa forma assim, diferente, causando uma anomalia que interfere em Barbieland. À sua maneira descolada, Barbie resolve partir numa viagem rumo ao Mundo Real e tentar resolver as coisas com essa menina aparentemente desiludida –levando sem querer, Ken como clandestino.

É na retratação do Mundo Real, em oposição ao imaginário lúdico de Barbieland, que o filme de Greta Gerwig poderia encontrar seu ponto fraco, mas termina revelando sua mais audaciosa inspiração, aquela que faz de “Barbie” um filme que definitivamente deixa de ser infantil para abraçar reflexões que pouco a pouco vão ganhando profundidade, complexidade e emoção –e até mesmo um pouquinho de metalinguagem! Ao chegar em Los Angeles, Barbie encontra Sasha (Ariana Greenblatt, a pequena Gamorra de “Vingadores-Guerra Infinita”) e descobre que os valores outrora representados por ela como boneca, não foram tão salutares às gerações de meninas como ela acreditava. Ken, por outro lado, toma conhecimento das ideias norte-americanas sobre o Patriarcado e por meio delas reavalia sua relação de quase submissão sentimental com Barbie, bem como de seus pares –afinal, o personagem Ken, sempre viveu e existiu em função do protagonismo de Barbie.

Perseguida pelos executivos da Mattel (!) –liderados pelo sempre hilário Will Ferrell –que a querem de volta à Barbieland sem provocar transtornos no Mundo Real, Barbie conhece Gloria (America Ferrera, de “Quatro Amigas e Um Jeans Viajante”), mãe de Sasha, a pessoa que, com sua nostalgia provocada pelo crescimento da filha causou as mudanças lúgubres na protagonista. Todas regressam para Barbieland, para encontrar o mundo idealizado e perfeito de Barbie agora virado de pernas pro ar: Não mais disposto a se restringir ao redundante papel de namorado, Ken instaurou as ideias do Patriarcado em Barbieland, e agora, os Ken reinam absolutos como ‘machos dominantes’ enquanto as demais Barbies sofreram uma espécie de lavagem cerebral assumindo o papel de namoradinhas ostensivas.

É ironicamente o conhecimento do papel desafiador da mulher no Mundo Real trazido por Gloria que irá devolver as coisas aos seus devidos lugares. Ou ao menos, tentar.

Crianças pequenas, seduzidas pelo visual pueril, exuberante e predominantemente rosa, do filme de Greta Gerwig haverão de se surpreender e até se ressentir da gradual concepção adulta que o filme vai adquirindo a medida que avança –sem jamais deixar de ser divertido e apropriadamente caricatural (e de contar com diversas piadas de duplo sentido), o roteiro de “Barbie” (escrito à quatro mãos por Greta e seu marido Noah Baumbach) aborda temas como o empoderamento feminino, a emancipação da mulher, as ramificações tóxicas do machismo e do feminismo e o difícil equilíbrio entre valores morais e sentimentos arrebatadores para se revelar um filme profundo, carregado de ideias inesperadas justapostas de forma clara, corajosa e inteligente. No admirável arco narrativo que se constrói do início ao fim, “Barbie” engata sucessivamente marchas imprevistas de tensão, revolução e dramaticidade, nessa mesma ordem, que levam o público à novas impressões, culminando numa cena poderosamente emocionante –quando Barbie, assolada por todas as mudanças provocadas por e sobre ela –encontra o fantasma de Ruth Handler (Rhea Perlman), sua criadora, e decide reconhecer e aceitar, por fim, sua própria humanidade.

Por tudo que é, por suas diversas qualidades e suas instigantes ideias, por seus vastos acertos e suas imprevistas emoções não se deve subestimar este grande filme de Greta Gerwig.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

A Garota Ideal

Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original em 2008 (perdendo para “Juno”), este sensível trabalho do diretor Craig Gillespie depende muita mais, em sua inusitada natureza, da competência do ator Ryan Gosling para se fazer plausível.
Depende também de alguma cumplicidade da parte do expectador; uma disposição em abraçar uma ideia bastante absurda. Como recompensa àqueles que fizerem isso, o filme oferece uma visão agridoce sobre as percepções indiretas do relacionamento e, sobretudo, uma tocante amostra de uma pequena, mas, empática comunidade num esforço conjunto para contentar seu membro mais disfuncional.
Lars –que Gosling interpreta com precisão minuciosa e enternecedora –sofre de uma timidez que chega às raias da patologia. Ele não se comunica. Seus parcos relacionamentos íntimos, familiares e profissionais não andam bem: A amorosa cunhada Karin (Emily Mortimer) precisa praticamente imobiliza-lo para convence-lo a jantar com ela e com o irmão (Paul Schneider) e as hesitantes investidas da apaixonada Margo (Kelli Garner) só o deixam ainda mais retraído.
Certo dia, inspirado talvez pelo breve diálogo com um colega do escritório, Lars faz uma encomenda misteriosa e, quando seus familiares menos esperam, chega a eles com a notícia de que apaixonou-se por uma estrangeira. E que ela está hospedada em sua casa.
A surpresa, no entanto, dá lugar ao estarrecimento quando Karin e seu marido descobrem que a tal moça, Bianca, é na verdade uma boneca comprada na internet (!).
Entretanto, todo o comportamento e as reações de Lars para com ela, pressupõe que ela seja alguém real –e tamanha é a autenticidade de sua relação com ela (tornada genuína graças à competência de Ryan Golsing) que ninguém tem coragem de contraria-lo.
Levam-no, no máximo, á uma médica (Patricia Clarkson, também ela excelente); o diagnóstico: Lars sofre de um delírio comportamental e é necessário que ele saia de sua loucura por conta própria, ou seja, até isso acontecer (se é que vai acontecer) todos à sua volta devem compactuar com seu devaneio e tratar Bianca como se fosse normal.
O delírio de Lars em torno de sua namorada ideal é elaborado: Ela é cadeirante, o que explica porque tem de carrega-la em todos os lugares. Com ela, Lars vai à igreja, às festas (em sequência primorosamente constrangedoras) e termina interagindo com as pessoas de modo muito mais intenso e satsifatório do que fazia quando era sozinho.
É uma visão tipicamente artística aquela lançada sobre esta premissa –a de que toda uma pequena cidade trabalharia em mutirão para corroborar uma maluquice dessas –a qual certamente não encontraria prosseguimento na cínica vida real. Aqui, quando muito, esse cinismo encontra tímida expressão nas injúrias ocasionais (e gradativamente mais brandas) do irmão de Lars.
É intenção do roteiro e da direção, entretanto que, ao fim, haja uma percepção geral do quão importante em termos existenciais foi Bianca na vida de Lars e, por consequência, na vida de todos que o cercavam e o queriam bem –e tal percepção, no desfecho radicalmnte simbólico, pode ser visto como um exagero por alguns expectadores, e como uma demonstração de convicção inabalável dos realizadores por outros.
Há que se reconhecer aqui o mérito de terem feito um filme muito simpático amparado num conceito dificílimo.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O Primeiro Homem

Por mais que, enquanto obra de cinema, “O Primeiro Homem” preste um devido tributo a tudo que veio antes dele na particular categoria em que se insere (a dos épicos históricos sobre viagem espacial como “Os Eleitos” e “Apollo 13”) o diretor Damien Chazelle é hábil e competente o bastante para levar o seu próprio diferencial: Ele enfatiza a visão subjetiva (e de certa forma intimista) de seu biografado, Neil Armstrong (Ryan Goslyng, sempre impecável) sobre os acontecimentos.
Essa opção pelo intimismo pode até soar inusitada numa obra do mesmo diretor que explorou os rompantes de fúria e música em “Whiplash” e extravasou a adoração pelos musicais da Era de Ouro em “La La Land-Cantando Estações”, mas “O Primeiro Homem” se ombreia neles por sua captura sensorial das impressões do protagonista acerca dos grandes eventos em que esteve: Este é um filme sobre Neil Armstrong e não sobre a primeira viagem a lua.
Em meados dos anos 1960, Armstrong era um dos muitos pilotos destemidos da Força Aérea que desafiavam as limitações técnicas de seu tempo em vôos cada vez mais audazes.
Na vida pessoal, embora casado com a amorosa e firme Janet (Claire Foy, maravilhosa), Neil vivia um drama: Sua filhinha mais nova desenvolveu um tumor que os médicos não foram capazes de curar.
A perda dela definiu a personalidade retraída e introspectiva de Neil Armstrong por toda a vida.
Mergulhando de cabeça no trabalho como forma de contornar a dor, Armstrong foi um dos voluntários para o Programa Gemini que (seguido do Programa Apollo) visava alcançar inovações tecnológicas antes dos russos a fim de obter a supremacia da Corrida Espacial e chegar primeiro ao tão almejado solo lunar.
Indo morar em Houston, nas dependências da NASA, Armstrong se torna amigo de Ed Wihte (Jason Clarke) e Elliot See (Patrick Fugit, de “Quase Famosos”), ao lado dos quais participa dos rigorosos testes impostos aos pretendentes a astronautas.
A medida que a narrativa avança, a opção ao drama fica cada vez mais nítida no trabalho de Damien Chazelle –isso se percebe no fato de que as conquistas de Armstrong no campo profissional da astronomia são pontuadas pelas perdas pessoais (como o teste de vôo em que Elliot perde a vida), e no risco onipresente de morte em cada uma das tentativas de ir além; de uma postura quase tão impassível quanto seu protagonista, o filme de Chazelle observa com igual riqueza de detalhes tanto seus sucessos quanto seus fracassos –e que resultam assombrosos também, inclusive, por sua maior ausência nos livros de História.
A meia hora final, dedicada ao pouso na lua, é construída com um zelo técnico impecável e um rigor dramático bastante sólido, embora deva frustrar expectadores que fossem esperar do filme algo mais festivo e enaltecedor –é um momento, sim, em que Neil Armstrong, no silêncio de seu luto eterno, atinge uma conquista sem precedentes na História da Humanidade, e encontra, nesse auge existencial, um tênue conforto para o sacrifício incomensurável que a vida cobrou dele.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Blade Runner 2049

Incrível como o roteiro escrito por Michael Green e Hampton Fancher (este último, um dos roteiristas do primeiro filme) consegue dar continuidade louvável à trama do cultuado “Blade Runner-O Caçadorde Andróides” sem, no entanto, cair na fácil armadilha de esclarecer alguns dos mistérios que fizeram a fama tão perene do filme original.
Dirigido por Denis Villeneuve que substitui Ridley Scott com perícia e propriedade, “Blade Runner 2049” mergulha nas questões profundas que enriqueciam e engrandeciam o filme anterior: O limite entre o que é sintético e o que é orgânico, entre o artificial e o natural, e a capacidade assombrosa e quantitativa que a tecnologia tem para apagar essas fronteiras.
Se a capacidade de sentir emoções era a diferença entre humanos e máquinas em 9 entre 10 filmes de ficção científica com esse enredo, não é no primoroso trabalho de Villeneuve: Os replicantes –andróides feitos de carne e osso que no filme original, passado em 2019, trinta anos antes deste, se rebelaram contra os criadores –já a muito desenvolveram capacidade para sentir; como é explicitado na relação de afetuosidade doméstica entre o personagem de Ryan Gosling e a inteligência artificial vivida pela absurdamente deliciosa Ana De Armas (de “Bata Antes de Entrar”), e já era mostrado também no filme original, no relacionamento relutante, porém intenso entre Deckard (Harrison Ford) e Rachel (Sean Young).
A grande diferença –ao menos, muitos presumiam –era o fato de que humanos, como todas as outras formas de vida orgânica, podem procriar.
Contudo, quando o Oficial K (Ryan Gosling, extraordinário) descobre os restos mortais de Rachel e, numa autópsia minuciosamente futurística, fica evidente que a replicante do filme anterior morreu ao dar a luz (!), descobre-se a abertura de um precedente para colocar os replicantes em pé de igualdade com os humanos (e sendo assim, confrontá-los, na possibilidade de uma devastadora guerra civil). As ordens de K dadas por sua chefe (Robin Wright) são então para consumir com todas as provas e testemunhas, incluindo aí encontrar o paradeiro do ex-blade runner Deckard, pai do filho desaparecido de Rachel.
É uma corrida contra o tempo: Atrás de Deckard e de seu segredo, por inúmeras razões existenciais e políticas, está também o inventor e milionário Niander Wallace (Jared Leto), uma espécie de herdeiro do legado da Tyrell Corporation, que coloca, no encalço de K, a fria e implacável Luv (Sylvia Hoeks, uma das grandes antagonistas do ano).
E dizer mais entra no perigoso terreno em que se entrega demais a trama cujas reviravoltas são tão geniais e inesperadas quanto a força do cinema de Villeneuve.
Eram poucos, hoje, os cineastas verdadeiramente capazes de criar uma continuidade válida para o seminal trabalho que Scott entregou em 1982 (nem o próprio Ridley Scott foi capaz de fazê-lo, pré-sequenciando seu “Alien” de maneira vulgar e insatisfatória com “Prometheus” e “Alien-Covenant”), certamente, muitos foram os que temeram o resultado.
Entretanto, Villeneuve abraça o material com a mesma tenacidade com a qual moldou em “A Chegada” uma das melhores ficções dos últimos anos: “Blade Runner 2049” amplia o escopo do fabuloso e caótico mundo futurista visto no original (agora, não só Los Angeles é vista –numa recriação e ampliação fenomenal dos cenários do primeiro filme –como também vemos os inacreditáveis escombros a perder de vista em Detroit, e o deserto radioativo e abandonado de Las Vegas), dá uma seqüência natural, inteligente e reflexiva à sua trama, honra todas as suas questões mostrando-se tão fascinante quanto e deixa, ao fim, ainda mais perguntas do que respostas –é, pois, um espécime raro no mainstream hollywoodiano, um filme que instiga, impõe questionamentos e reflexões, e nos leva a pensar acerca de nossa humanidade e de suas mais ínfimas imbricações.
Ele supera ainda o original, numa questão bastante inesperada: No afeto que Villeneuve e sua técnica prodigiosa capturam entre seus diversos personagens, nos flagrantes de vínculos que os fazem humanos e lembram, em pormenores poderosos, a importância fundamental da vida e o poder inigualável do amor.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O Lugar Onde Tudo Termina

Um personagem. Um motociclista. De índole tão inconseqüente e auto-destrutiva que, de início, sabemos que ganha a vida arriscando-se em apresentações num globo da morte. Esse é o estopim narrativo que principia este trabalho do diretor Derek Cianfrance, mais ambicioso do que o elogiado “Namorados Para Sempre” –ou “Blue Valentine” –tornando aqui a trabalhar com o ator Ryan Gosling, intérprete justamente desse personagem, Handsome Luke, e dele arrancando uma notável atuação.
Na interpretação de Gosling, Luke desafia o público: Dentre os vários personagens é, de longe, aquele que mais monopoliza o expectador, apesar de tudo que ainda virá, ele obtém facilmente sua afeição, embora cometa o tempo todo atos que não o fazem merecedor.
Que o diga Romina (interpretada por Eva Mendes) uma antiga aventura que Luke descobriu carregar um filho seu.
Disposto a arcar com a paternidade, Luke entra em atrito com o então marido de Romina, Kofi (Mahershala Ali, de “Moonlight-Sob A Luz do Luar”), e termina associando-se ao escuso Robin (Ben Mendelsohn, de "Rogue One”) com quem envereda para o crime, assaltando bancos.
Por sua personalidade e por sua necessidade, esses serão atos que ele não será capaz de interromper.
Em algum momento, portanto, o caminho de Luke cruza-se com o do policial Avery Cross (Bradley Cooper, ótimo) e então o filme o abandona, por assim dizer.
Num recurso bastante inesperado, é Avery quem assume o centro da trama quando o filme já abandona seu primeiro ato e, embora os elementos do plot anterior jamais sejam esquecidos, a obra de Cianfrance, em alguns momentos, parece ter se metamorfoseado num outro filme, desta vez acerca das aflições de um jovem policial ambicioso cercado de corrupção por todos os lados.
Mais a frente, com habilidade inata, também essa premissa irá se modificar, restabelecendo o caráter humano de sua história.
Dito isso, é realmente notável como a narrativa transfere com surpreendente naturalidade o protagonismo de um personagem para o outro (primeiro, Ryan Gosling, uma lembrança que persiste por todo o filme; depois, Bradley Cooper; e, por fim, o jovem Dane Deehan) numa trama sobre culpa, destinos que se entrecruzam e conseqüências do passado, que se estende por décadas.
Neste filme, assim como no anterior “Blue Valentine” e no posterior “A Luz Entre Os Oceanos”, o diretor Derek Cianfrance demonstra grande interesse por laços familiares que se formam por caminhos tortos, bem como o sinuoso e corrosivo efeito que eles desenvolvem nas vidas dos envolvidos ao longo dos anos.
A maneira hábil com que ele consegue compreender tais desdobramentos dramáticos e a forma certeira e talentosa como os expressa em cena é o grande brilho deste filme.

sábado, 11 de março de 2017

Dois Caras Legais

O roteirista e diretor Shane Black (de “Beijos e Tiros” e “Homem de Ferro 3”) é fascinado por tramas rocambolescas, nada mais natural que investir num filme com ares detetivescos. E se ele vem acrescido de uma ambientação estilosa e sedutora como os anos 1970, tanto melhor.
Dito isso, há muitos elementos irresistíveis em “Dois Caras Legais”, a começar pela ótima dupla de protagonistas, os detetives particulares de diferentes índoles interpretados por Ryan Gosling (hilário) e Russel Crowe (ótimo como sempre). O primeiro tem lá seus princípios, mas eles batem de frente com o fato de que, no ramo competitivo em que está, sua má sorte pode, e deve, levá-lo à praticar atitudes questionáveis. O segundo, em sua truculência, está mais para leão-de-chácara do que para investigador, e isso se reflete na natureza dos casos que constantemente recebe.
Quando o personagem de Gosling é contratado para achar o misterioso paradeiro de uma garota chamada Amélia, e o de Crowe é incumbido de descobrir o quê se passou com uma atriz pornô conhecida como Misty Mountain, a trajetória dos dois colide e, aos trancos e barrancos, eles percebem que têm de se unir para elucidar um mistério que poderá esclarecer ambos os casos.
Curioso lembrar que Shane Black foi também o criador do conceito da série “Máquina Mortífera”, e realmente a exploração da dicotomia entre parcerias disfuncionais é uma constante em seus filmes, tão mais prazerosa quando se tem dois atores fantásticos como Golsing e Crowe. O filme de Black, no entanto, reserva outras maravilhas ao público: Por exemplo, a aparição de Kim Basinger, que se reencontra em cena, com Crowe, vinte anos depois de  terem protagonizado o primoroso “Los Angeles-Cidade Proibida” (uma homenagem, talvez?). E o quê dizer da jovem Angourine Rice, no papel da filha adolescente de Gosling, e que rouba praticamente todas as cenas em que aparece?
Compartilhando a ambientação e certa similaridade conceitual com um filme lançado em 2015, o bem mais autoral e denso “Vício Inerente”, de Paul Thomas Anderson, este divertido, acelerado e inquieto “Dois Caras Legais” se sobressai em meios às obras comerciais como a pequena gema que é.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Os Indicados Ao Oscar 2017

Hoje, quinta feira, 24 de Janeiro, conhecemos os filmes que disputarão o grande prêmio do cinema no próximo dia 26 de Fevereiro, numa exibição bonita que abriu mão da tradicional apresentação ao vivo.
Eis os indicados:

MELHOR FILME
"A Chegada"
"Um Limite Entre Nós"
"Até O Último Homem"
"A Qualquer Custo"
"Estrelas Além do Tempo"
"La La Land-Cantando Estações"
"Lion-Uma Jornada Para Casa"
"Manchester À Beira-Mar"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"

E "La La Land-Cantando Estações" chega pronto para fazer história com um número recorde de indicações (foram 14, somente dois filmes antes dele atingiram esta marca, sendo eles “A Malvada” e “Titanic”), podendo sair da cerimônia de entrega com um feito raro no cinema. Seus maiores concorrentes acabam sendo os elogiadíssimos “Moonlight” e “Manchester À Beira-Mar”.
Até lá, dá para lamentar um pouco a nem tão surpreendente ausência de “Deadpool” –mas, talvez, fosse pedir demais do Oscar mesmo... –e comemorar com a merecida lembrança de “A Chegada”.

DIREÇÃO
"A Chegada", Denis Villeneuve
"Até O Último Homem", Mel Gibson
"La La Land-Cantando Estações", Damien Chazelle
"Manchester À Beira-Mar", Kenneth Lonergan
"Moonlight-Sob a Luz do Luar", Barry Jenkins

Já era hora mesmo de Denis Villeneuve receber uma indicação de Melhor Diretor (que poderia ter vindo por qualquer um de seus últimos trabalhos), mas ela chega num momento em que dificilmente o prêmio escapará das mãos hábeis do jovem Damien Chazelle.
De resto é um bocado interessante ver a Academia render-se à primorosa execução de filme de guerra realizada por Mel Gibson em “Até O Último Homem”, cujas indicações soam como um reconhecimento (e uma redenção) proporcionados pela Academia. Também pudera: Comparados às denúncias de estupro de Nate Parker –outrora um potencial candidato ao Oscar por seu elogiado porém esquecido “O Nascimento de Uma Nação” –os escândalos de Mel parecem brincadeira de criança.

ATRIZ
Isabelle Huppert, "Elle"
Ruth Negga, "Loving"
Natalie Portman, Jackie
Emma Stone, "La La Land-Cantando Estações"
Meryl Streep, "Florence-Quem É Essa Mulher?"

A indicação de Meryl Streep se deve em grande parte pela repercussão de seus discurso anti-Trump no Globo de Ouro. Rezamos para que isso não interfira na premiação propriamente dita, uma vez que seu trabalho é bastante fraco se comparado à suas magníficas concorrentes, sobretudo o trabalho ímpar entregue por Isabelle Huppert, em “Elle”.
Dito isso, a maior concorrente de Huppert é mesmo a apaixonante Emma Stone que pelo ovacionado “La La Land” vem ganhando diversos prêmios. Também premiada, mas perdendo considerável força com o avanço da temporada de premiações está Natalie Portman e sua atuação em “Jackie”.
Correndo por fora, o belo trabalho de Ruth Negga em “Loving” vem representar a única lembrança da Academia ao filme.

ATOR
Casey Affleck, "Manchester À Beira-Mar"
Andrew Garfield, "Até O Último Homem"
Ryan Gosling, "La La Land-Cantando Estações"
Viggo Mortensen, "Capitão Fantástico"
Denzel Washington, "Um Limite Entre Nós"

Dificilmente o prêmio escapará das mãos do mais cotado: O talentoso Casey Affleck, que já vem sendo amplamente reconhecido na temporada de prêmios. Mas as lembranças nesta categoria a tornam uma vitrine do que de melhor, em termos interpretativos, o ano de 2016 entregou: Denzel Washington, primoroso como sempre em "Um Limite Entre Nós”; o jovem Andrew Garfield superando a mal-fadada experiência como Homem-Aranha; Viggo Mortensen provando sua excelência num personagem brilhante; e Ryan Gosling, sempre ótimo, no filme-sensação da temporada.

ATRIZ COADJUVANTE
Viola Davis, "Um Limite Entre Nós"
Naomie Harris, "Moonlight-Sob a Luz do Luar"
Nicole Kidman, "Lion-Uma Jornada Para Casa"
Octavia Spencer, "Estrelas Além do Tempo"
Michelle Williams, "Manchester À Beira-Mar"

Este certamente será o ano de Viola Davis: Ao menos nesta categoria poucas (ou quase nenhuma) concorrentes têm chance contra ela.
Isso se a maré de favoritismo até lá não mudar a favor do grande trabalho de Naomi Harris em “Moonlight” (um filme que ainda pode surpreender), ou de Nicole Kidman no ainda pouco visto “Lion”.

ATOR COADJUVANTE
Mahershala Ali, "Moonlight-Sob A Luz do Luar"
Jeff Bridges, "A Qualquer Custo"
Lucas Hedges, "Manchester À Beira-Mar"
Dev Patel, "Lion-Uma Jornada Para Casa"
Michael Shannon, "Animais Noturnos"

Teimando em contrariar o Globo de Ouro, a Academia ignorou o premiado Aaron Taylor Johnson, indicando seu colega de elenco, Michael Shannon, na única menção ao elogiado filme de Tom Ford.
As chances parecem concentradas em Mahershala Ali, que tem no veterano Jeff Bridges aparentemente seu único concorrente mais forte. Mas ainda pode ser que Dev Patel, ou mesmo Lucas Hedges venham a surpreender –o olhar do SAG Awards ainda repousa sobre todos eles.

FOTOGRAFIA
"A chegada"
"La La Land-Cantando Estações"
"Lion-Uma Jornada Para Casa"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"
"Silêncio"

LONGA DOCUMENTÁRIO
"Fogo No Mar", Gianfranco Rosi
"I Am Not Your Negro", Raoul Peck
"Life, Animated", Roger Ross Williams
"O.J.-Made In America", Ezra Edelman
"A 13ª Emenda", de Ava DuVernay

CURTA DOCUMENTÁRIO
"Extremis"
"4.1 Miles"
"Joe's Violin"
"Watani-My Homeland"
"The White Helmets"

FILME ESTRANGEIRO
"Terra de Minas" (Dinamarca)
"Um Homem Chamado Ove" (Suécia)
"O Apartamento" (Irã)
"Tanna" (Austrália)
"Toni Erdmann" (Alemanha)

A França perdeu a chance de estar nesta categoria (talvez, como favorito!) ao deixar de indicar o brilhante “Elle” como representante do país. Ficou de fora, e os cinco indicados terminaram com títulos pouco significativos, não havendo nenhum favorito.
Dito isso, há alguma chance de “Um Homem Chamado Ove” prevalecer.

MIXAGEM DE SOM
"A Chegada"
"Até O Último Homem"
"La La Land-Cantando Estações"
"Rogue One-Uma História Star Wars"
"13 horas-Os Soldados Secretos de Benghazi"

EFEITOS VISUAIS
"Horizonte Profundo-Desastre No Golfo"
"Doutor Estranho"
"Mogli-O Menino Lobo"
"Kubo e As Cordas Mágicas"
"Rogue One-Uma História Star Wars"

Páreo duro. Pelo menos três dos melhores blockbusters do ano disputam ferrenhamente esta categoria, na qual ambos não apenas amparam suas narrativas, como também oferecem novas possibilidades para o emprego dos efeitos visuais.
São eles, a exuberância técnica e fascinante de “Mogli-O Menino Lobo” que recria todo um mundo ao redor do pequeno protagonista Neel Sethi; o aprimoramento e o aperfeiçoamento, um patamar além, do que “A Origem” já fez (e também do que o Universo Marvel vinha fazendo no cinema) de “Doutor Estranho”; e a recriação sem precedentes de mundos, criaturas e personagens (e seus intérpretes) realizada em “Rogue One”.
Se fosse para escolher, eu ficaria com “Rogue One”!

MAQUIAGEM
"Um Homem Chamado Ove"
"Star Trek:-Sem Fronteiras"
"Esquadrão Suicida"

O melhor trabalho de maquiagem é “Star Trek-Sem Fronteiras”. Ponto.
Resta, contudo, conferir se este não é um gesto político da Academia lembrando um filme achincalhado pela crítica de um grande estúdio (no caso, “Esquadrão Suicida”, da Warner), mas que teve grande recepção de público –o elemento, afinal, que mantém a indústria.

FIGURINO
"Aliados"
"Animais Fantásticos e Onde Habitam"
"Florence-Quem É Essa Mulher?"
"Jackie"
"La La Land-Cantando Estações"

EDIÇÃO DE SOM
"A Chegada"
"Horizonte Profundo-Desastre No Golfo"
"Até O Último Homem"
"La La Land-Cantando Estações"
"Sully-O Heroi do Rio Hudson"

DIREÇÃO DE ARTE
"A Chegada"
"Animais Fantásticos e Onde Habitam"
"Ave, César"
"La La Land-Cantando Estações"
"Passageiros"

TRILHA SONORA
"Jackie"
“La La Land-Cantando Estações"
"Lion-Uma Jornada Para Casa"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"
"Passageiros"

A Academia aproveitou as categorias técnicas para lembrar de alguns filmes que ficaram de fora dos prêmios principais. Como o sucesso “Animais Fantásticos...”, e os esquecidos “Ave, César”, dos Irmãos Coen, e “Sully”, colaboração de Clint Eastwood e Tom Hanks.
Quem levou a melhor foi o irregular “Passageiros” cuja data de lançamento facilitou sua lembrança entre os votantes

CANÇÃO ORIGINAL
"Audition (The fools who dream)", de “La La Land-Cantando Estações"
"Can't stop the feeling", de "Trolls"
"City of stars", de "La La Land-Cantando Estações"
"The empty chair", de "Jim-The James Foley Story"
"How far I go", de "Moana-Um Mar de Aventuras"

Comparecendo com duas indicações numa mesma categoria, é improvável que “La La Land- Cantando Estações" fique sem o prêmio. Ele deve vir pela música mais mencionada e comentada do filme, “City of stars”, cantada (e muito bem) por Ryan Gosling, mas a minha preferida vai sempre continuar sendo a emocionante “Audition” na voz de Emma Stone –um dos grandes momentos do filme.
Fica até difícil para os outros concorrentes.

ROTEIRO ORIGINAL
"A Qualquer Custo"
"La La Land-Cantando Estações"
"O Lagosta"
"Manchester À Beira-Mar"
"20th Century Women"

ROTEIRO ADAPTADO
"A Chegada"
"Um Limite Entre Nós"
"Estrelas Além do Tempo"
"Lion-Uma Jornada Para Casa"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"

A Academia lembrou-se do inusitado “O Lagosta” na categoria de roteiro original, o quê pouco significa diante da força de “La La Land-Cantando Estações".
Na de roteiro adaptado, “Moonlight” e “Lion” devem disputar pau a pau o prêmio, ficando provavelmente com o primeiro. Mas, não seria nada ruim ver “A Chegada” pegando a todos de surpresa!

LONGA DE ANIMAÇÃO
"Kubo e As Cordas Mágicas"
"Moana-Um Mar de Aventuras"
"Minha Vida de Abobrinha"
"A Tartaruga Vermelha"
"Zootopia"

O fato de “Kubo e As Cordas Mágicas” ter duas indicações (além desta, a de efeitos visuais) dá uma ligeira impressão de favoritismo, mas isso se dissipa quando vemos que ali está o genial “Zootopia”, que andou levando quase todos os prêmios a que concorreu e é mesmo uma obra de animação que cresce com o tempo.
Muito legal a lembrança da Academia ao belíssimo “A Tartaruga Vermelha”.

CURTA ANIMADO
"Blind Vaysha"
"Borrowed Time"
"Pear Cider and Cigarettes"
"Pearl"
"Piper"

EDIÇÃO
"A Chegada"
"Até O Último Homem "
"A Qualquer Custo"
"La La Land-Cantando Estações"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"

CURTA-METRAGEM
"Ennemis Intérieurs", Slim Azzazi
"La Femme Et Le TGV", Timo von Gunten e Giacun Caduff
"Silent Nights", Aske Bang e Kim Magnusson
"Sing', Kristof Deak e Anna Udvardy
"Timecode", Juanjo Gimenez

No dia 26 de Fevereiro descobriremos quais favoritos se confirmarão, e quais darão espaço para inesperados vencedores.

sábado, 21 de janeiro de 2017

La La Land - Cantando Estações

Dos cineastas mais promissores a surgir nos últimos anos, o jovem Damien Chazelle pode encontrar neste “La La Land-Cantando Estações” uma precoce consagração.
Grande vencedor do último Globo de Ouro, e presença garantida em todas as maiores premiações do ano, o filme segue ganhando cada vez mais favoritismo na corrida do Oscar com uma sucessão de críticas que não apenas o colocam entre os melhores (senão O melhor) filmes do ano, mas também afirmam tratar-se de uma obra de arte de inestimável valor.
Mas, e para a pessoa que vai ao cinema atrás de qualidade, todo esse confete se confirma?
Em grande medida, sim.
O expectador que vencer o preconceito que muitos nutrem pelo gênero musical (e que não conseguem engolir uma narrativa onde os personagens saem abruptamente a cantar e a dançar) encontrará uma obra notável que fala a atualidade ao mesmo tempo que enaltece um cinema pouco empregado nos tempos cínicos de hoje, cuja intenção é aliviar os males do coração. Não há mau humor que resista ao charme cativante de Emma Stone que, no papel da sonhadora Mia, reflete muito das experiências da própria Emma Stone em seus percalços cheios de frustração e desilusão a tentar vencer como atriz na competitiva indústria do cinema (e as audições de teste que se seguem no filme são um testemunho ao brilhantismo da atriz e ao primoroso senso de observação do diretor).
A contraparte romântica dela, o pianista de jazz vivido por Ryan Gosling (fazendo par pela terceira vez com Emma) passa por revezes parecidos: Equilibra-se muito mal entre a necessidade de tocar músicas banais a fim de ganhar dinheiro para viver e o ideal de manter viva a chama do verdadeiro jazz –e impelido por isso, seu sonho é abrir um clube onde a música de qualidade possa ser executada.
Os dois sonhadores se encontram (numa sucessão de cenas compostas com admirável perícia cênica pelo diretor Chazelle –seu primeiro encontro, por exemplo, é mágico!).
Inicialmente relutante, um amor floresce, capitulado pelas quatro estações do ano.
Ao longo delas (e disposto em sensações, impressões, vivacidade e tristeza através das cenas musicais), o diretor vai tratar de justapor o amor aos transtornos da exigente vida artística e profissional, e as contradições inevitáveis que abrirão um abismo entre os dois (um tema que já surgia timidamente em seu anterior “Whiplash-Em Busca Da Perfeição”, mas que aqui ganha o centro do plot): A rotina atroz, povoada por idas e vindas mecânicas de uma coreografia sem fim registrada com fôlego e brilho no inverno; o início auspicioso, engraçado e inspirador de um sentimento novo na primavera; os sonhos de cada um dividindo espaço com ocasionais desilusões, e com o desabrochar da relação durante o verão; e as escolhas dolorosas que a vida vai obrigar a fazer no outono.
Tudo isso pontuado por propriedade, leveza, beleza, e um encanto que poucos filmes souberam obter.
O cinema recente trouxe inúmeros exemplares de musicais ao longo dos últimos anos que restauravam a lembrança desse gênero ao público: “Moulin Rouge”, “Chicago”, “Across The Universe”, “Os Miseráveis”.
“La La Land-Cantando Estações” é mais musical que todos eles, em boa parte porque não se prende à um adaptação de uma obra, ou um álbum, ou qualquer referência de um produto pop que veio antes. É, todo ele, genuíno e original.
É também herdeiro direto de musicais de apelo inesquecível como “Cantando Na Chuva”, e dele trás pelo menos um elemento essencial e inconfundível: O objetivo, alcançado com plenitude, talento e êxito, de proporcionar a mais encantadora e enternecedora experiência ao expectador, e fazê-lo sair de bem com a vida de dentro do cinema.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Vencedores do Globo de Ouro 2017

Melhor Ator Coadjuvante
Aaron Taylor Johnson (Animais Noturnos)

A noite começou com uma vitória inesperada, que não deve se manter nas demais premiações, embora essa fosse uma maneira de lembrar do elogiado filme de Tom Ford. De qualquer forma, é interessante ver o intérprete de “Kick Ass” obter algum reconhecimento de seu talento –que ele, de fato, tem e muito!

Melhor Trilha Original
La La Land - Cantando Estações

Melhor Canção Original
"City of Stars" (La La Land - Cantando Estações)

Seria até mesmo contraditório (ainda que perfeitamente provável de que viesse a ocorrer) que um filme de tamanho favoritismo como “La La Land”, justamente um musical, ficasse sem levar os prêmios de Canção e Trilha Original (justamente as forças que o definem), mas o Globo de Ouro evitou as mancadas nessa edição, e começou, exatamente por essas categorias, a revelar a supremacia sem precedentes do filme de Damien Chazelle.

Melhor Atriz Coadjuvante
Viola Davis (Fences)

As categorias de coadjuvantes são as mais distintas do Globo de Ouro, dificilmente se repetindo no restante da temporada de premiações. Mas, seria maravilhoso ver Viola Davis obtendo um já tardio reconhecimento por seu grande trabalho.

Melhor Ator - Comédia ou Musical
Ryan Gosling (La La Land - Cantando Estações)

Uma das mais disputadas, esta categoria premiou a escolha mais justa, óbvia e válida enquanto premiação séria. É lógico que muitos foram os que lamentaram a derrota de Ryan Reynolds por sua já icônica atuação como Deadpool, mas o outro Ryan, o Gosling, mereceu plenamente o prêmio.

Melhor Filme de Animação
Zootopia

Com a concorrência bastante assídua de “Moana” –que também é da Disney e ainda se encontra nas salas de cinema –muitos apostavam numa possível injustiça da parte do Globo de Ouro, uma vez que, tendo “Zootopia” sido lançado em março do ano passado nos cinema (há quase um ano) sua lembrança poderia não estar tão fresca na mente dos votantes. Mas, confirmando os diversos acertos da premiação deste ano, o Globo de Ouro consagrou a inteligência e a sensibilidade da brilhante metáfora sobre a ideologia da diversidade criada pelos estúdios Disney.

Melhor Filme Estrangeiro
Elle

Surpresa maravilhosa. Das muitas que essa edição do Globo de Ouro proporcionou! A Associação de Imprensa Estrangeira deu de ombros para o politicamente correto que orienta as escolhas do Oscar, por exemplo (sobretudo nesta categoria), e elegeu a magnífica obra que trás o grande Paul Verhoeven de volta à ribalta. Com essa vitória, este grande filme se torna mais difícil de ser ignorado.

Melhor Roteiro
Damien Chazelle (La La Land - Cantando Estações)

Melhor Diretor
Damien Chazelle (La La Land - Cantando Estações)

Os prêmios de Roteiro e Direção, ambos concedidos ao jovem Damien Chazzele já começavam a desenhar um quadro: Não tinha pra ninguém, esta seria a grande noite de “La La Land”! O belíssimo musical vem para dar continuidade ao ímpeto de excelência que ele já ostentou no surpreendente “Whiplash-Em Busca da Perfeição” há dois anos atrás.

Melhor Atriz - Comédia ou Musical
Emma Stone (La La Land - Cantando Estações)

O prêmio foi anunciado por Matt Damon que deu um ligeiro puxão de orelha no Globo de Ouro (ele ironizou sua vitória no ano passado como Melhor Ator por Comédia ou Musical, pelo filme “Perdido em Marte”, sendo que ele não é nem comédia e nem musical!). A vencedora, como muitos apostavam e torciam, foi Emma, reprisando a consagração ocorrida no festival de Veneza, e ela estava tão linda quanto simpática.

Melhor Comédia ou Musical
La La Land - Cantando Estações

Desde a abertura (que mostrou Jimmy Fallon cantando e dançando com vários convidados especiais numa clara inspiração ao filme) já ficou bastante claro que “La La Land” seria um dos grandes vencedores da noite, mas não esperava-se que o Globo de Ouro lhe concederia todas as estatuetas às quais foi indicado. Resta saber se esse reconhecimento se estenderá aos outros prêmios da temporada.

Melhor Ator - Drama
Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)

O filme de Kenneth Lonergan recebeu o único prêmio para o qual estava mais cotado, mas a verdade é que não sobrou muita coisa para ninguém depois do furacão “La La Land”. Ao menos, o talentoso Casey Affleck recebeu um reconhecimento que já lhe era há algum tempo devido.

Melhor Atriz - Drama
Isabelle Huppert (Elle)

O grande momento da noite (talvez rivalizando com o emocionante discurso de Meryl Streep na entrega do prêmio Cecil B. DeMille em sua homenagem). Já estava na hora mesmo de surgir um reconhecimento mais amplo do trabalho inigualável que a grande Isabelle Huppert entrega aqui. Com isso, as chances de vê-la gloriosamente indicada ao Oscar de Melhor Atriz (o quê seria, por mais inacreditável que possa parecer, a primeira indicação de sua carreira!) aumentam consideravelmente.

Melhor Drama
Moonlight

A falta de obras que tivessem uma repercussão maior ajudou a vitória deste drama de forte cunho social. Seu concorrente mais forte, em termos cinematográficos, o memorável “Até o Último Homem”, recebeu uma tímida aprovação dos críticos por ser dirigido pelo polêmico Mel Gibson. Mas, “Moonlight” ainda pode surpreender na temporada de premiações.