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quarta-feira, 26 de julho de 2023

Barbie


 Se haviam ressalvas que os cinéfilos do mundo inteiro alimentavam em relação à realização de um filme estrelado pela famosa boneca Barbie, elas foram todas dissipadas quando foi anunciada, como diretora e roteirista do projeto, a pra lá de talentosa Greta Gerwig. Em suas mãos, “Barbie” é, sim, sobre a boneca mais famosa do mundo (e traz, em tal papel, uma intérprete que não poderia ser mais perfeita, a fantástica australiana Margot Robbie), mas, é também sobre todas as consequências e ramificações, positivas e negativas, acarretadas por esse legado. É sobre a eterna dicotomia entre o amor idealizado e o amor como ele é. E é, afinal de contas, sobre nós, seres humanos, e nossa dificuldade de conciliar o que é diferente.

Numa referência à “2001-Uma Odisséia No Espaço” –que já denota os altíssimos padrões assumidos pelo filme de Greta Gerwig –somos introduzidos à história da boneca Barbie cujo surgimento mudou o modo de brincar de meninas do mundo todo. Mais que isso, mudou sua mentalidade: Outrora se restringindo ao papel de mãe de suas bonecas, as meninas tiveram em Barbie um exemplo de independência e empoderamento a ser seguido. Ou pelo menos, é essa impressão que passou a reger o mundo alternativo e ligeiramente alienado conhecido como Barbieland, no qual todas as variações até hoje criadas da boneca (bem como de seu namorado, Ken) existem de verdade. Barbieland é um mundo que segue as orientações conceituais do próprio brinquedo: As inúmeras Barbies não desfazem o formato empinado de seus pés, vivem em casas transparentes e cor-de-rosas, bebem em copos vazios e vão à praias onde o mar não lhes molha. É um mundo idealizado como numa brincadeira de criança –e a brilhante direção de arte, aliada aos audazes figurinos, captura essa ideia com propriedade imediatamente notável. Tal como na aparência, também há uma espécie de alienação nos sentimentos: Ken (Ryan Gosling, extraordinário) é salva-vidas, ainda que sua ideia da ocupação seja ficar impávido e supino na areia sem jamais pisar no mar, e seu namoro com a Barbie de Margot Robbie –pois todas as habitantes de Barbieland se chamam Barbie, assim como todos se chamam Ken, salvo a exceção do deslocado Alan (Michael Cera) –jamais sai do campo da teoria. Lá, todas as noites são festivas e todos os dias são os melhores de toda vida: Barbieland e seus nada realistas habitantes refletem, portanto, a maneira com que são brincados por todas as crianças do Mundo Real.

Contudo, em algum momento, algo inesperado começa a acontecer. Barbie é assolada por súbitos pensamentos a respeito da morte e, na sequência deles, surgem celulites e seus pés começam a assentar naturalmente ao chão (!). A resposta, vinda da espirituosa Barbie Estranha (Kate McKinnon), é até simples: Em algum lugar do Mundo Real, uma menina está brincando com a Barbie dessa forma assim, diferente, causando uma anomalia que interfere em Barbieland. À sua maneira descolada, Barbie resolve partir numa viagem rumo ao Mundo Real e tentar resolver as coisas com essa menina aparentemente desiludida –levando sem querer, Ken como clandestino.

É na retratação do Mundo Real, em oposição ao imaginário lúdico de Barbieland, que o filme de Greta Gerwig poderia encontrar seu ponto fraco, mas termina revelando sua mais audaciosa inspiração, aquela que faz de “Barbie” um filme que definitivamente deixa de ser infantil para abraçar reflexões que pouco a pouco vão ganhando profundidade, complexidade e emoção –e até mesmo um pouquinho de metalinguagem! Ao chegar em Los Angeles, Barbie encontra Sasha (Ariana Greenblatt, a pequena Gamorra de “Vingadores-Guerra Infinita”) e descobre que os valores outrora representados por ela como boneca, não foram tão salutares às gerações de meninas como ela acreditava. Ken, por outro lado, toma conhecimento das ideias norte-americanas sobre o Patriarcado e por meio delas reavalia sua relação de quase submissão sentimental com Barbie, bem como de seus pares –afinal, o personagem Ken, sempre viveu e existiu em função do protagonismo de Barbie.

Perseguida pelos executivos da Mattel (!) –liderados pelo sempre hilário Will Ferrell –que a querem de volta à Barbieland sem provocar transtornos no Mundo Real, Barbie conhece Gloria (America Ferrera, de “Quatro Amigas e Um Jeans Viajante”), mãe de Sasha, a pessoa que, com sua nostalgia provocada pelo crescimento da filha causou as mudanças lúgubres na protagonista. Todas regressam para Barbieland, para encontrar o mundo idealizado e perfeito de Barbie agora virado de pernas pro ar: Não mais disposto a se restringir ao redundante papel de namorado, Ken instaurou as ideias do Patriarcado em Barbieland, e agora, os Ken reinam absolutos como ‘machos dominantes’ enquanto as demais Barbies sofreram uma espécie de lavagem cerebral assumindo o papel de namoradinhas ostensivas.

É ironicamente o conhecimento do papel desafiador da mulher no Mundo Real trazido por Gloria que irá devolver as coisas aos seus devidos lugares. Ou ao menos, tentar.

Crianças pequenas, seduzidas pelo visual pueril, exuberante e predominantemente rosa, do filme de Greta Gerwig haverão de se surpreender e até se ressentir da gradual concepção adulta que o filme vai adquirindo a medida que avança –sem jamais deixar de ser divertido e apropriadamente caricatural (e de contar com diversas piadas de duplo sentido), o roteiro de “Barbie” (escrito à quatro mãos por Greta e seu marido Noah Baumbach) aborda temas como o empoderamento feminino, a emancipação da mulher, as ramificações tóxicas do machismo e do feminismo e o difícil equilíbrio entre valores morais e sentimentos arrebatadores para se revelar um filme profundo, carregado de ideias inesperadas justapostas de forma clara, corajosa e inteligente. No admirável arco narrativo que se constrói do início ao fim, “Barbie” engata sucessivamente marchas imprevistas de tensão, revolução e dramaticidade, nessa mesma ordem, que levam o público à novas impressões, culminando numa cena poderosamente emocionante –quando Barbie, assolada por todas as mudanças provocadas por e sobre ela –encontra o fantasma de Ruth Handler (Rhea Perlman), sua criadora, e decide reconhecer e aceitar, por fim, sua própria humanidade.

Por tudo que é, por suas diversas qualidades e suas instigantes ideias, por seus vastos acertos e suas imprevistas emoções não se deve subestimar este grande filme de Greta Gerwig.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Uma Aventura Lego


 Existem projetos que escancaram a necessidade artística de ser realizado em animação pelo simples fato de que sua premissa –na fantasia irrestrita do processo criativo que a originou –se faz humanamente impossível. A Pixar tornou-se craque nisso; assim como o gênio Hayao Miyazaki. Seguindo essa herança, Christopher Miller e Phil Lord obedecem a mesma orientação em “Uma Aventura Lego”.

A primeira animação para cinema a abordar o universo de pequenas peças infantis que conseguem montar qualquer coisa conta a história de Emmet (voz de Chris Pratt), um feliz e genérico cidadão arremessado subitamente numa Jornada tão insana quanto inesperada.

Ao avistar (e de lambuja, ainda se apaixonar!) por uma garota nas obras da construção em que trabalha como operário civil, Emmet acaba descobrindo uma tal de “peça de resistência”.

Colado à essa peça (!), Emmet é conduzido por essa garota, Megaestilo (voz de Elizabeth Banks) até outros mundos composto de peças lego, para muito além da cidade em que sempre viveu, onde os moradores são controlados (e idiotizados) pelo todo poderoso Presidente Negócios (voz de Will Ferrell).

Tal vilão, de posse de uma arma conhecida apenas como “gluca” pretende escravizar todos os mundos lego que existem –mesmo aqueles para além de seu alcance –a “peça de resistência”, ao que parece, é a única coisa capaz de impedi-lo, e o indivíduo preso a ela (o pobre Emmett) está predestinado a ser o “especial”, o único herói capaz de salvar a todos. Para isso, Emmett deve encontrar outros mentores em sua jornada –entre eles participações (na versão lego) de Gandalf (de “O Senhor dos Anéis”), Dumbledore (de “Harry Potter”), Batman (personagem tão sensacional que originou o longa-metragem derivado “Lego-Batman”) e até mesmo Han Solo e Chewbacca (de “Star Wars”) –e com eles aprender a ser um “mestre construdor”, ou seja, ter a habilidade de montar, com as pecinhas lego à disposição nos vastos mundos que visita, qualquer coisa que quiser.

Essa sinopse não dá conta de toda a inventividade de “Uma Aventura Lego”, uma vez que seus realizadores valem-se do formato para experimentar as mais variadas peripécias narrativas chegando, em seu clímax, a trazer seu protagonista para o nosso mundo real (!), onde ele é, deveras, um bonequinho lego, um brinquedo a fazer parte das brincadeiras imaginadas por um garotinho.

Uma gratificante aventura em animação cujas alternativas não parecem ter limites para seus intrépidos criadores.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Um Duende Em Nova York

Certamente, Will Ferrel é o sol cuja luz ilumina a razão de ser deste projeto –é em sua figura marcante, em sua energia cênica, e em seu humor convicto que se ampara toda a narrativa. Todavia, há que se dar, também, o devido crédito ao diretor Jon Favreau que, compreendendo esses aspectos, soube jogar luz ao seu protagonista, dando a ele palco amplo para suas peripécias mesmo que em detrimento de outros coadjuvantes.
No caso de alguém como Will Ferrel é assim que tem de ser: Tão catalizadora é sua presença, tão escancaradamente caricata é sua comédia que não soa apropriado tratar uma protagonista assim como alguém normal –ou mesmo, real –e, para tanto, a trama de “Um Duende Em Nova York” dosa o non-sense com perfeição.
Ferrel é Buddie, uma criança humana que, ainda bebê, encontrou inadvertidamente no saco do Papai Noel na noite de Natal (!), e terminou indo parar no Pólo Norte onde foi adotado por elfos.
Anos depois, apesar de sua desproporção evidente para com os demais, o ingênuo Buddie, mesmo adulto, ainda não se deu conta de que foi adotado (!).
Ao descobrir o fato, seu impulso é o de natural conhecer seu genitor –cuja pista ele tem uma foto –e que o próprio Papai Noel já informou que se encontra na lista dos ‘meninos maus’.
Seu pai é, na verdade, o empresário Walter (James Caan, sempre ótimo), para quem a ambição pesa muito mais que o altruísmo –e nota-se aí, na dinâmica pai e filho que se estabelece, a similaridade que o roteiro espertamente encontra com o clássico “Um Conto de Natal”, de Charles Dickens; o personagem do pai é, sob diversos ângulos, um réplica, portanto, de Ebenezer Scrooge e, como tal, terá seu cinismo e seu materialismo transfigurados ao longo da história, na descoberta de seu próprio espírito natalino e, aqui, de sua proximidade com o filho.
Sem pressa para percorrer esse arco nítido, e até previsível, mas não menos envolvente e válido, a direção de Jon Favreau aproveita para se esbaldar com o que o filme tem de mais original: Seu protagonista irreprimível, que Will Ferrel transforma num elemento desestabilizador em cada uma das cenas, em cada encontro com um novo personagem, como a jovem que potencialmente será seu interesse romântico (Zooey Deschanel); ou a madrasta que consegue ser mais terna e benevolente que o próprio pai (Mary Steenburgen).
Uma singela produção natalina e, ao mesmo tempo, um veículo para o estrelato do genial cômico Will Ferrel –ainda que seu humor seja com frequência peculiar –este filme beneficiou todos os envolvidos com um expressivo sucesso de bilheteria, o que possibilitou ao diretor Jon Favreau, mais tarde, assumir as rédeas da aventura “Zathura” (a tardia continuação de “Jumanji”) e em seguida de um projeto intitulado “Homem de Ferro”.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

A Feiticeira

Durante muito tempo, o público e os estúdios acarinharam um projeto de uma versão cinematográfica para o cultuado seriado “A Feiticeira” –ideia ainda mais promissora quando se tem no elenco uma atriz tão competente e adequada ao papel tornado icônico por Elizabeth Montgomery como a estrela Nicole Kidman.
Haviam outros elementos mais a favor do filme: Não só a protagonista, como também o restante do elenco era perfeito; Will Ferrell ocupando o lugar que seria de Dick York e Dick Sargent, os atores que se revezaram no papel de par da feiticeira ao longo das temporadas da série; e Shirley MacLane, como a mãe dela, também dotada de magia –além das presenças de Michael Caine, Steve Carell, Jason Schwartzman, e outros. Para completar, a realizadora escolhida para o projeto (Nora Ephron, sucesso de bilheterias com as comédias românticas “Sintonia de Amor” e “Mensagem Para Você”) teve uma ideia até que bastante esperta para a transposição para cinema –no contexto em que o filme se passa, “A Feiticeira”, a série, existe realmente no mundo real. E é de interesse às redes de televisão que seja feito um revival com novos atores. Logo, a ganância de agentes e produtores dá novo rumo ao projeto; a ideia é fazer dele um veículo para o esnobe e arrogante astro Jack Wyatt (que o humor peculiar de Will Ferrell transforma num bufão egocêntrico, megalomaníaco e irreal).
As audições em busca de uma intérprete para o desafiador papel de feiticeira começam e logo esbarram na doce e ingênua Isabel (cujos trejeitos, Nicole Kidman, sempre compenetrada, consegue igualar à perfeição com os de Elizabeth Montgomery).
Entretanto, Jack e todos os demais à sua volta estão por demais preocupados em enaltecer o astro que não notam um detalhe inusitado –que Isabel é, realmente, uma feiticeira (!), daí seu encaixe tremendamente intuitivo com a personagem (!).
Fascinada com o ator famoso que Jack é, ela aceita o papel na série, tornando-se uma espécie de escada para ele. Contudo, os meses de convívio com seu insuportável narcisismo irritam de tal maneira Isabel que ela não tarda a usar de seus poderes para dar a ele o troco.
E entre uma rusga e outra, não só Jack descobre a verdade acerca de Isabel, como também encontra um sentimento novo, de interesse por outro alguém que não ele próprio.
Com uma premissa que, em si, rumava na direção daquilo em que Nora Ephron é especialista –uma comédia romântica –era de se presumir que, com tal elenco, e com uma ideia tão promissora, “A Feiticeira” resultasse, senão notável, ao menos, gracioso, divertido e encantador (características que bastam para comédias românticas se tornarem fenômenos de bilheteria), todavia, não é bem isso que ocorre.
Repetitivo em muitos cacoetes que entregou com mais brilho no passado, Will Ferrell tem um desempenho que lembra muito seu machista e narcisista personagem em “O Âncora-A Lenda de Ron Borgondy”, e sem um roteiro inteligente para contextualizá-lo, ele soa como tudo aquilo que é de fato: Um personagem desprezível, mimado e grosseiro cujas manhas desmesuradas não têm qualquer graça.
A própria Nicole Kidman, habituada a personagens densas e desafiadoras, parece um pouco apagada aqui, numa protagonista excessivamente inocente, romântica e banal, mesmo a ligeira mudança que ela experimenta no decorrer do filme pouco acrescenta no sentido de oportunidades para a atriz se impor.
No final das contas, a interessante premissa de metalinguagem que dava o ponto de partida para esta versão cinematográfica de “A Feiticeira” acabava levando a um equívoco que condenou todo o filme: Ao reafirmar a série como um produto de ficção (e não a fantasia cativante que capturou a atenção do público), a trama seguiu em direções completamente distintas daquelas que faziam o divertimento dos episódios da série.
Um grande desperdício.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Megamente


Alvo de chacota e humilhação desde quando era pequeno, o alienígena azul Megamente (voz de Will Ferrell) seguiu o caminho que se esperava dele: Tornou-se um supervilão, sempre às turras com o outro alienígena enviado à Terra, o bonitão, heróico e idolatrado Metroman (voz de Brad Pitt).
Porém, um belo dia, após uma vida inteira de planos megalomaníacos que jamais deram certo, Megamente, praticamente por acaso, derrota seu arquiinimigo.
Tendo então dominado a cidade de Metrocity, ele se descobre insatisfeito sem seu eterno adversário por perto. E “Megamente”, o longa-metragem de animação do qual é protagonista encontra seu grande enredo: De que serve, afinal, um grande vilão depois que dele é tirado aquilo que o confronta e paradoxalmente lhe dá um propósito, o grande herói?
Ao dar corpo hilário à essa questão –e um sem-fim de ramificações bem sacadas –o diretor Tom McGrath mal disfarça este exercício de imaginação onde um ‘Lex Luthor’ hipotético realiza seu sonho, dando cabo de um ‘Superman’ hipotético, para daí perceber que a existência de um alimentava a existência do outro.
Enquanto descobre-se atraído por Rosane (voz de Tina Fey), a bela repórter que até então o odiava e adorava Metro Man (e que deliberadamente tem toda a pinta de Lois Lane), Megamente decide elaborar um plano (tão mirabolante quanto todos os outros, diga-se) para criar outro super-herói. Contudo, as coisas dão errado quando, num erro de julgamento, ele dá poderes a um zé ninguém rancoroso e inconseqüente que, ao descobrir-se poderoso, não manifesta qualquer interesse em ser herói e ajudar os outros, mas sim em satisfazer as suas próprias vontades.
É quando a animação chega num ponto em que deve afrouxar sua sátira para a ela incorporar algum valor moral: Diante de um vilão de fato, Megamente, agora, tem de esforçar-se para enxergar o herói em si mesmo.
Nesse ponto, o ritmo, o frescor e a graça só não decaem porque o filme jamais abre mão de um humor contagiante e bem dosado, e porque Megamente é um personagem sempre pulsante na forma com que acredita no próprio clichê.
Tão notável quanto “Os Incríveis”, da Pixar –ou talvez até mais! –na maneira com que questiona reflexos involuntários de um gênero que com tanta empolgação abraça, e infinitamente mais interessante do que “Meu Malvado Favorito” (animação lançada no mesmo período, com tema semelhante e que rendeu desde então duas continuações), “Megamente” é um refinadíssimo conto do bem contra o mal, onde tanto o bem quanto o mal se manifestam em tópicos inesperados, permitindo às crianças uma reflexão mais profunda sobre os fatores que realmente nos definem.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy


“O Âncora”, no estilo que adota, é um filme quase esquizofrênico. Tem um tipo de humor muito particular e norte-americano. E, por vezes, corre o sério risco de ser mal interpretado. Ainda assim é uma das grandes comédias da década de 2000-2010.
Em meados da década de 1970 (reconstituída com inspirada percepção nos figurinos), o âncora do maior telejornal de San Diego, Ron Burgundy reina absoluto (e na atuação irreprimível do gênio da comédia Will Ferrel, essa majestade não é à toa).
Ao lado de seus companheiros de notícias, Brian Fantana (Paul Rudd), Champion Kind (David Koechner) e Brick Tamland (Steve Carell, genial), ocupam o primeiro lugar nos índices de audiência.
Os tempos, entretanto, estão mudando. O machismo antes impune das circunstâncias trabalhistas está dando lugar à diversidade e à oportunidade igualitária às mulheres –e a rede logo recebe uma nova e determinada jornalista, Veronica Corningstone (Christina Applegate, de afiado timing cômico).
Esperta e obstinada, Veronica está acostumada aos obstáculos corriqueiros que uma mulher enfrenta num ambiente profissional –observações estas que o roteiro hábil escrito por Ferrel e pelo diretor Adam McKay encontra estratégicas brechas no humor implacável e quase ininterrupto para se inserir –e segue em frente com seu sonho de virar uma âncora de telejornal, mesmo diante da atração (logo tornada romance) entre ela e Burgundy.
É na ascensão e queda de Burgundy que a trama se concentra, usando do romance com Veronica como ponto de equilíbrio (ou desequilíbrio). O curioso, no entanto, é a forma com que o filme de Adam McKay se coloca diante dessa premissa: Tudo em cena reflete a absoluta falta de noção de seu machista personagem principal, conferindo ao filme um tom de comédia abilolada que encontra fácil correspondente naqueles exemplares de besteirol –aos quais parte do público inclusive deve relacionar Will Ferrel.
Embora tenha lá seus tópicos amparados em perspicazes observações do mundo real –a emancipação da mulher sendo o mais pertinente –o filme não faz um único esforço na direção de ser realista. Muito pelo contrário, não faltam cenas onde predomina um deliberado nonsense: Talvez as mais gritantes (em meio à tantas outras) sejam a apresentação com flauta de jazz feita pelo próprio Burngundy num clube noturno, pontuada pela canastrice saborosa de Ferrel; a batalha brutal, violenta e ridícula entre vários grupos de repórteres de emissoras rivais, a lembrar um confronto inconsequente de gangues, onde se chocam o time de Burgundy, mais os recalcados segundo colocados (liderados por Vince Vaughn), o pessoal que ficou em terceiro lugar (que têm à frente Tim Robbins), a emissora dos retardatários (com Luke Wilson) e os repórteres do canal latino (representados por Ben Stiller); além também da sequência final, contra um bando de ursos selvagens num zoológico (!).
Um peculiar exercício de humor realizado por mentes geniais incompreendidas que às vezes fingem nada compreender.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Dias Incríveis


Dirigido por Todd Philips (que depois sagrou-se com “Se Beber Não Case”), “Dias Incríveis” é uma das mais divertidas comédias da década de 2000, exatamente por remeter com propriedade ao estilo besteirol que predominou no gênero durante os anos 1980.
De fato, os protagonistas trintões, Mitch (Luke Wilson), Beanie (Vince Vaughn, afiadíssimo) e Frank ‘The Tank’ (Will Ferrell, ladrão absoluto das cenas) eram adolescentes no mesmo período em que filmes como “Porky’s-A Casa do Riso e do Amor” e “O Último Americano Virgem” eram adorados pela juventude.
A possibilidade de resgatar essa liberdade ou, melhor dizendo, essa libertinagem (mesmo que ela nunca tivesse existido de fato, estando só no campo das fantasias) é a motivação que os impulsiona.
E tudo começa quando Mitch, ao flagrar a esposa (Juliette Lewis, uma ponta relâmpago) na cama com outro, se desilude com as mulheres.
Beanie e Frank seus dois melhores amigos (casados, sendo que esse último vivencia as primeiras experiências do convívio matrimonial) não permitem que fique muito tempo na desilusão: Eles tiram proveito do fato de que Mitch vai morar numa casa localizada na república de um campus universitário para promover as maiores festas de arromba com direito a mulheres maravilhosas (entre elas estudantes) que até tiram a roupa lá pelas tantas –afinal, como todo bom entendedor sabe, a nudez gratuita é pré-requisito tão fundamental a esses filmes quanto os impropérios verbais e as piadas de baixo calão.
Eis que os três –sempre sob a ameaça de uma crise de meia idade –têm agora um novíssimo e extravagante estilo de vida para usufruir, como adorados mentores (e veteranos) de uma irmandade a qual os candidatos se estapeiam pela oportunidade de ingressar –e a fauna reunida em torno dos protagonistas é tão engraçada quanto eles próprios: Com destaque para o velhinho Blue (Patrick Cranshaw); as intervenções dele ao lado de Frank são as melhores piadas do filme!
Os mesmos atores –Vince Vaughn, Will Ferrel, Luke Wilson, além de Ben Stiller e Owen Wilson, irmão de Luke –se reuniram esporadicamente ao longo de uma série de filmes de comédia ao longo das duas últimas décadas (como “Penetras Bons de Bico”, “Starsky & Hutch” e outras), mas é quase certo que “Dias Incríveis” conseguiu manter-se como o melhor de todos.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Quase Irmãos

Não deixa de ser uma travessura do time de comediantes liderados por Judd Apatow (produtor do filme) este escracho protagonizado por Will Ferrel –ator cujos filmes fazem mais sucesso nos EUA, do que aqui no Brasil, certamente em função do seu humor muito característico e norte-americano.
Curioso notar que este é um trabalho de Adam McKay (que com Ferrel fez também o cultuado “O Âncora-A Lenda de Ron Burgundy”), antes de suas indicações ao Oscar por um filme, também de comédia, mas que revelava uma relevância impar assim como uma conscientização da atualidade que um trabalho como este jamais levaria a supor, o extraordinário “A Grande Aposta”.
Aqui, a idéia aparentemente é levar o conceito de caricatura à níveis extremos. Pois é, afinal de contas, uma caricatura o personagem Brennan, vivido por Will Ferrel que, do alto de seus quarenta anos de idade, ainda vive com a mãe, Nancy (a ainda muito bonita Mary Steenburgen). O mesmo calha de acontecer com Dale (John C. Reilly, perfeito contraponto de Ferrel), filho quarentão e infantil que ainda mora com Robert (Richard Jenkins), seu pai.
Do romance que brota do encontro entre pai de um e mãe do outro, surge a situação que coloca ambos como meio-irmãos e morando debaixo do mesmo teto.
À previsível indisposição inicial, logo se segue uma forte identificação (ocasionada pela birra em comum com o irmão mais novo de Brennan, interpretado de maneira bizarra por Adam Scott) o quê só deflagra ainda mais confusões: Dois homens inconseqüentes e imaturos, afinal, fazem o dobro de bagunça do que um só.
O diretor e roteirista McKay, no entanto, friza esses acontecimentos com ênfase num humor esculachado e adolescente, reflexo do comportamento dos protagonistas, que em nada busca atender a realidade. Deveras, não há qualquer intenção de um registro real, por exemplo, nos lampejos ninfomaníacos da cunhada de Brennan (Kathryn Hahn) para cima do desajeitado e indiferente Dale –e isso é proposital, tornando necessário que se entre no espírito para apreciar o filme.
Talvez, o grande problema seja que nem todos os atores se saiam bem com tal tipo de humor. Se Ferrel e Reilly abraçam por completo o ridículo (até mesmo grotesco) de sua situação, o mesmo não parece ocorrer com naturalidade em Kathryn Hahn ou em Adam Scott. No caso dos pais, o habitualmente ótimo Richard Jenkins nem sempre encontra em algumas cenas a serenidade ideal para reagir às presepadas dos personagens principais; por sua vez, Mary Steenburgen, mesmo que longe de qualquer rompante cômico, parece interpretar a única personagem capaz de preservar alguma coerência ao longo de todo o filme.