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segunda-feira, 28 de maio de 2018

Gilbert Grape - Aprendiz de Sonhador


Uma prova do quão tardio foi o Oscar de Melhor Ator vencido por Leonardo Dicaprio por “O Regresso” é sua atuação neste “Gilbert Grape-Aprendiz de Sonhador” que lhe valeu sua primeira indicação ao Oscar, como Melhor Ator Coadjuvante, aos quatorze anos –um trabalho surpreendente e inquestionavelmente digno do prêmio.
No papel do personagem-título, por sua vez, Johnny depp ostenta aquele carisma alternativo que fez dele um astro tão incomum nos anos 1990.
Gilbert vive numa cidadezinha chamada Endora capturada numa percepção tão intrínseca dos pormenores americanos que chega a surpreender o fato de que este é só o segundo filme feito pelo diretor sueco Lasse Halstrom nos EUA (o primeiro foi “Meu Querido Intruso”).
A família de Gilbert é uma coleção de figuras tão bizarras quanto deprimentes: Além de Arnie (Dicaprio) seu irmão deficiente mental, há também sua mãe (a inacreditável e comovente Darlene Cates) que uma série de desilusões transformou numa mulher tão obesa que sequer consegue (ou quer...) sair de dentro de casa. Sua irmã mais velha (Mary Kate Schellhardt) vive para cozinhar indefinidamente para ela, e sua irmã mais nova (Laura Harrington), na agressividade hormonal da adolescência, encena todos os clichês da apatia.
Gilbert tem relativa consciência de estar cercado por mediocridade por todos os lados, e disso não consegue escapar. Tem um caso desengonçado e nada frutífero com uma mulher casada (Mary Steenburgen, surpreendentemente sensual) e seus dois amigos (John C. Reilly e Crispin Glover) sonham cada qual em obter trabalho em uma rede de fast-food (melhor isso que os serviços redundantes a disposição) e com novas mortes entre os cidadãos (esse é funcionário na única e desolada funerária local).
O contraponto a essa falta de perspectiva do protagonista parece ser o relacionamento que aos poucos ele constrói com uma jovem forasteira (Juliette Lewis) que surge na cidade.
Mesmo isso, contudo, tem seus dias contados –seu romance só irá durar até que a avó dela encontre a peça defeituosa que fez seu trailer enguiçar para então seguir viagem.
“Gilbert Grape” nesse leque de frivolidade da vida contidiana fala sobre impressões tão universais quanto singulares; contrapõe a vergonha de Gilbert pela figura folclórica da mãe com seus esforços –quase convertidos em sacrifício –para ser um bom filho; e observa sua perplexidade contida pelo cenário idílico que o aprisiona.
Tão dispersas e volúveis parecem as temáticas do filme que se torna difícil palpitar sobre o quê Halstrom quer falar com exatidão; ele captura a rotina e os pequenos dramas familiares de Gilbert enumerando-os numa narrativa sedutora apesar de aparentar não levá-la a algum lugar –ainda que seu desfecho tenha uma concisão que amarra maravilhosamente bem os aspectos de sua premissa.
Ainda assim, é essa característica –a de ser notável, interessante e envolvente mesmo diante de imensa banalidade que ocupa seu cerne –o grande mérito deste filme.

Um Parto de Viagem


Com uma premissa parecida com a de um filme dos anos 1980, "Antes Só Do Que Mal Acompanhado" de John Hugues, o ator Zach Galifianakis e o diretor Todd Phillips, repetem a parceria do hilariante "Se Beber Não Case" –que também se valia do expediente de reaproveitar o enredo de outras comédias pregressas.
Como ambos estavam a frente de uma das mais festejadas e bem-sucedidas comédias dos últimos tempos, eles aqui podem contar com um acréscimo de luxo: Robert Downey Jr. cuja colaboração com a Marvel Studios tornou o astro mais bem pago de Hollywood.
E, de fato, é a versatilidade de Downey, inclusive para a comédia (outrora ele foi membro fixo de uma das temporadas do humorístico “Saturday Night Live”), que valoriza “Um Parto de Viagem”, mais até do que a presença de Galifianakis ou a técnica de Todd Phillips.
Seu personagem é um arquiteto que inicia a trama na Costa Leste dos EUA. Com a esposa (Michelle Monaghan, com quem Downey Jr. já havia feito par em “Beijos e Tiros”) prestes a dar a luz em Los Angeles, ele precisa cruzar o país para encontrá-la e estar presente no nascimento do primeiro filho.
Um mal-entendido no aeroporto, porém, o impede de ir de avião, e ele se vê na desastrosa companhia do mesmo sujeito que havia começado toda a confusão: Um aspirante a ator (Zach Galifianakis, que o roteiro transforma no agente de todo o caos), cheio de manias e esquisitices que sonha em ir para Hollywood.
Embora não seja tão bom quanto “Se Beber Não Case” –e não consiga esconder opções e tendências formulaicas de gênero que definem sua estrutura –este filme ainda possui graça e ritmo o suficiente para manter a atenção do expectador até o fim.
Isso sem falar das ótimas participações que ele ostenta que, além do sensacional Robert Downey Jr. e da sempre encantadora Michelle Monaghan, incluem também o oscarizado Jamie Foxx e Juliette Lewis.
São presenças que terminam valorizando a sucessão episódica de contratempos que constituem seu enredo, ainda que, no final, seja de fato Downey Jr. quem consegue carregar a obra nas costas: Seu timing cômico é muito mais impecável que o do próprio Galifianakis, o pretenso comediante do filme.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Dias Incríveis


Dirigido por Todd Philips (que depois sagrou-se com “Se Beber Não Case”), “Dias Incríveis” é uma das mais divertidas comédias da década de 2000, exatamente por remeter com propriedade ao estilo besteirol que predominou no gênero durante os anos 1980.
De fato, os protagonistas trintões, Mitch (Luke Wilson), Beanie (Vince Vaughn, afiadíssimo) e Frank ‘The Tank’ (Will Ferrell, ladrão absoluto das cenas) eram adolescentes no mesmo período em que filmes como “Porky’s-A Casa do Riso e do Amor” e “O Último Americano Virgem” eram adorados pela juventude.
A possibilidade de resgatar essa liberdade ou, melhor dizendo, essa libertinagem (mesmo que ela nunca tivesse existido de fato, estando só no campo das fantasias) é a motivação que os impulsiona.
E tudo começa quando Mitch, ao flagrar a esposa (Juliette Lewis, uma ponta relâmpago) na cama com outro, se desilude com as mulheres.
Beanie e Frank seus dois melhores amigos (casados, sendo que esse último vivencia as primeiras experiências do convívio matrimonial) não permitem que fique muito tempo na desilusão: Eles tiram proveito do fato de que Mitch vai morar numa casa localizada na república de um campus universitário para promover as maiores festas de arromba com direito a mulheres maravilhosas (entre elas estudantes) que até tiram a roupa lá pelas tantas –afinal, como todo bom entendedor sabe, a nudez gratuita é pré-requisito tão fundamental a esses filmes quanto os impropérios verbais e as piadas de baixo calão.
Eis que os três –sempre sob a ameaça de uma crise de meia idade –têm agora um novíssimo e extravagante estilo de vida para usufruir, como adorados mentores (e veteranos) de uma irmandade a qual os candidatos se estapeiam pela oportunidade de ingressar –e a fauna reunida em torno dos protagonistas é tão engraçada quanto eles próprios: Com destaque para o velhinho Blue (Patrick Cranshaw); as intervenções dele ao lado de Frank são as melhores piadas do filme!
Os mesmos atores –Vince Vaughn, Will Ferrel, Luke Wilson, além de Ben Stiller e Owen Wilson, irmão de Luke –se reuniram esporadicamente ao longo de uma série de filmes de comédia ao longo das duas últimas décadas (como “Penetras Bons de Bico”, “Starsky & Hutch” e outras), mas é quase certo que “Dias Incríveis” conseguiu manter-se como o melhor de todos.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Estranhos Prazeres

Lançada no ano de 1995, e amparada numa trama que imaginava as conseqüências futuristas da transição do ano 1999 para 2000, a ficção científica “Estranhos Prazeres”, devido à sua curta validade, é um caso de filme que rapidamente se tornou datado. O quê não envelheceu, contudo, foi a condução hábil, convicta e objetiva e a noção prodigiosa de ritmo que sempre marcaram os trabalhos da diretora Kathryn Bigelow –e que acabaram levando-a à consagração junto ao Oscar de “Guerra Ao Terror” –aqui em colaboração com seu ex-marido James Cameron, produtor e roteirista; e, de fato, a visão futurista de Cameron, normalmente voltada para as preocupações essenciais e práticas da sinergia entre o homem e a tecnologia (como em “Exterminador do Futuro”) surge aqui dando contexto, minúcia e circunstância à narrativa.
Ela gira em torno de Lenny Nero (Ralph Fiennes, num papel mais afável que o de costume), ex-policial que trabalha em um novo nicho de mercado negro: A comercialização de lembranças –os usuários pagam para experimentarem (no caso, verem, sentirem e vivenciarem) um momento específico da vida de outra pessoa (seja ela uma transa, uma tentativa de assalto ou qualquer situação que envolva emoção e adrenalina) da mesma forma que consumiriam alguma droga ou entorpecente.
A memória alheia é, portanto, o vício do novo século.
Como o personagem pária e marginal que é, Lenny está até o pescoço de problemas: Vive um romance mal resolvido com a cantora Faith (Juliette Lewis, de certa forma, a femme fatalle deste noir pós-moderno) que largou dele e se envolveu com o perigoso gangster da indústria musical Philo (Michael Wincott, um vilão padrão); vê sua melhor amiga Mace (a charmosa Ângela Bassett) sempre às turras com suas encrencas –ainda que, lá no fundo, ela nutra por ele algum sentimento –e, para piorar, lhe pede ajuda uma prostituta (Brigitte Bako) cujas lembranças devidamente gravadas contêm informações que podem deflagrar um caos em Los Angeles. Tudo isso se passando durante os dois últimos dias de 1999, quando as comemorações da chegada do novo milênio tornam a cidade ainda mais frenética peculiar do que normalmente ela já é.
São, então, duas mentes de primazia genial que convergem na realização deste trabalho um tanto quanto esquecido dos anos 1990, mas, igualmente, um de seus exemplares mais notáveis: A visão cheia de capacidade e de austeridade cinematográfica de Kathryn Bigelow –e a maneira com que ela controla as facetas distintas de ação, film noir investigativo, ficção científica, elementos raciais, alegoria política e múltiplas tramas e múltiplos personagens exige mesmo uma direção de prodigiosa mão firme –e o senso de observação impecável de James Cameron, atento às nuances fragmentadas da analogia e intrinsecamente conhecedor da estrutura do cinema enquanto entretenimento. “Estranhos Prazeres”, na trama que vai se descortinando em seu terço final, reflete mazelas muito reais da sociedade americana naqueles anos 1990, em especial, o chocante vídeo do espancamento de Rodney King que chacoalhou a Costa Oeste em revoltas raciais –a sub-trama sobre a morte do rapper Jeriko One (Glenn Plummer, de “Velocidade Máxima”) surge esporádica na primeira parte do filme, para então revelar-se crucial em um dado momento, quando o roteiro de Cameron e a direção de Bigelow avaliam a política embutida nas justificativas que levam ao caos, justapõe a responsabilidade e o dever da polícia em contraponto aos revezes sórdidos da corrupção e da impunidade e ainda arrematam magnificamente o protagonismo de Ângela Bassett.
Um grande filme estranhamente anacrônico, politicamente válido, maravilhosamente bem concebido, e digno de urgentes revisões.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Assassinos Por Natureza

Os filmes de Oliver Stone são normalmente compostos por uma alta voltagem de euforia narrativa que não raro se expressa na forma de indignação, seja pelas circunstâncias perniciosamente políticas que deseja denunciar, seja pelo ultraje absurdo de um momento histórico que reconstitui (e a veracidade com que se dá essa reconstituição é, em geral, uma pauta sempre levantada em seus trabalhos).
O próprio Oliver Stone certamente tem consciência da imensa habilidade com que consegue empregar sua técnica na construção do ritmo e atmosfera de seus trabalhos que muitos preferem taxar de sensacionalistas ao invés de realistas.
Talvez, seja um exemplo disso, esta obra  ácida e palpitante feita nos anos 1990 que investiga a psicopatia das maneiras mais escandalosas possíveis: A partir de um roteiro inicialmente esboçado por Quentin Tarantino (que, como Stone, nunca foi um autor que primou pela sutileza), este filme acompanha os passos de um casal de serial killers nos moldes de Bonnie e Clyde, e de Kit Carruthers e Holly Sargis (casal protagonista do filme “Terra de Ninguém”, de Terrence Malick).
Mickey (Woody Harrelson) e Mallory Knox (Juliette Lewis, quase sempre surtada) são dois jovens apaixonados que, em seu furor homicida, deixam um rastro de cadáveres por onde passam no meio-oeste americano. Não apenas a atenção da polícia (cujo detetive personificado por Tom Sizemore lhes persegue), suas ações ganham também o interesse crescente da mídia e do público (materializados na figura do repórter sensacionalista interpretado por Robert Downey Jr.), fascinados por sua rebeldia e pela maneira inconseqüente com que deflagram as maiores atrocidades.
E Stone aponta a preocupante escalada dessa fascinação na sinergia corrupta que surge entre o personagem de Downey Jr. e o diretor do manicômio vivido por Tommy Lee Jones.
O registro executado por Stone (num de seus trabalhos mais esquizofrênicos) parece impor uma reflexão do próprio olhar: Não apenas o casal de assassinos tem a filosofia de preservar viva uma testemunha ocular de cada ato, como também são eles, os protagonistas algo conscientes de uma orgia visual na qual a realidade se transfigurou, e o diretor Stone ratifica isso proporcionando ao seu filme uma série diversificada de estilos de filmagem que nunca se conforma com um registro ameno e parcimonioso –“Assassinos Por Natureza” vai do preto & branco à sépia, da filmagem digital ao 35 mm, passando pelo 16 mm e a super-8, vai de um sem fim de formas de capturar a imagem à outras linguagens narrativas (há um momento, em que o filme ganha até aspectos de uma sitcom, onde são introduzidos sons de risada nos instantes mais sádicos), num turbilhão que soa quase enlouquecido; daí, talvez, a sanha psicopata que contamina a maioria dos personagens em seu escatológico terço final.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Um Drink No Inferno

Foi provavelmente na amizade com Robert Rodrigues que Quentin Tarantino achou –e identificou-se com –a verve mais popularesca do cinema que vinha realizando (e que, nas obras de então, “Cães de Aluguel” e “Pulp Fiction-Tempo de Violência”, encontrava uma vibração mais autoral e elitista com referências à Antonioni, Fellini e Godard), o que culminou, mais tarde, em obras que flertavam com as produções cultuadas dos anos 1970 e 1980 que ambos tanto amaram quando mais jovens, como “Kill Bill” e o projeto “Grindhouse”.
O primeiro passo nessa direção foi possivelmente este “Um Drink No Inferno” que, embora não seja um exemplar dos mais competentes e hábeis de cinema, é muito mais significativo dos rumos artísticos que Tarantino e Rodrigues tomariam daqui para frente.
O roteiro, a cargo que Quentin Tarantino, acompanha dois irmãos criminosos (Tarantino e George Clooney, então um galã televisivo do seriado “Plantão Médico”) que, nas estradas do Texas até o México, vão provocando um rastro de roubos e assassinatos.
Sua primeira metade parece fazer alusão aos filmes sarcásticos, politicamente incorretos e sangrentos da exploitation dos anos 1970, ao acompanhar psicopatas inescrupulosos num rastro implacável de crimes o que também remete à “Assassinos Por Natureza”, de Oliver Stone, roteirizado (veja só) pelo próprio Tarantino.
A segunda parte, contudo, dá uma guinada brutal, quase se tornando outro filme, ao centrar seus acontecimentos numa taverna de beira de estrada, aonde os dois protagonistas e outros incautos personagens vão parar (um padre, vivido por Harvey Keitel, uma família, entre os quais, uma garota interpretada por Juliette Lewis). O lugar vem a ser um reduto de vampiros –um de suas mais emblemáticas figuras é a stripper vampira Satanico Pandemonium (Salma Hayek, no auge da formosura) –e a espera até o sol nascer será, para todos eles, um verdadeiro pesadelo.
A combinação do roteiro referencial e detalhadamente ácido de Tarantino com a direção efervescente de Rodrigues gerou um filme incomum, vibrante, sangrento e vulgar, tão asqueroso quanto divertido e, apesar de franco candidato a cult-movie, um prato cheio também para os eventuais detratores dos dois cineastas.