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segunda-feira, 16 de março de 2020

Ad Astra - Rumo Às Estrelas

Personagens no limiar de suas aspirações, num constante conflito entre o que sentem ser e o que o mundo à sua volta espera que sejam, num vão esforço para encontrar a si próprios. Este parece ser o mote de todos os trabalhos capitaneados pelo diretor James Gray, um raro esteta e autor a fincar uma obra de personalidade irrestritamente intimista no cinema cada vez dominado por pirotecnia dos dias atuais.
No processo de rever sua filosofia, o filme de Gray se deixa assombrar por uma infinidade de clássicos da ficção científica que o precederam. Num trabalho que muito remete à sua composição introspectiva de “Árvore da Vida”, Brad Pitt vive Roy McBride, astronauta enviado às estrelas por uma razão um tanto quanto pessoal: Décadas atrás, seu pai, Clifford (Tommy Lee Jones), também ele astronauta, foi enviado ao espaço no sigiloso Projeto Lima e, após seu paradeiro em Saturno, nunca mais voltou.
Entretanto, descargas de antimatéria originadas exatamente de Saturno –e que ameaçam de forma contundente a vida na Terra –começam a vir de onde supõem-se o Projeto Lima se perdeu. As autoridades confiam na ligação afetiva de Roy com seu pai para que ele lhe envie uma mensagem. Assim, da Terra, ele precisa ir à Lua –uma colônia povoada de diversas nacionalidades, sujeita até mesmo a atos de pirataria –e de lá para Marte, último posto avançado humano no espaço, de onde sua mensagem pode ser enviada.
Durante a lenta e atenta jornada de seu protagonista não escapa ao diretor as nuances humanas,  intelectuais e políticas que o gênero de ficção científica tão bem soube trabalhar em seus exemplares mais formidáveis (sendo “2001” e “Solaris” as referências primordiais de James Gray, além do evidente aparato técnico e visual tirado das experimentações de Cuarón em “Gravidade”), contudo, “Ad Astra” é, em seu cerne, a tentativa de resgate e de compreensão de uma problemática relação de pai e filho.
Nesse sentido, no suspense algo existencial do encontro do protagonista com a assombração de sua figura paterna, onde se pavimenta com elaborada dramaturgia todo o caminho percorrido até  tal encontro, o filme faz lembrar uma espécie de “Apocalypse Now” no espaço, inclusive com a narração de Brad Pitt se parecendo muitas vezes com os devaneios em off de Martin Sheen na sua tensa expectativa em ver-se frente a frente com o Coronel Kurtz.
O reencontro com o pai é, para Roy, a senha para rever e reavaliar todas as suas frustradas tentativas de relacionamento humano, esboçadas na totalidade de sua inadequação na relação tortuosa com a esposa (Liv Tyler), e um meio de enfim deixar de lado um luto que sempre o acompanhou na vida adulta e que, em última instância, o define –e a presença de Tommy Lee Jones nesse personagem tão falado, mas do qual temos poucos vislumbres de fato, permite à produção executar uma manobra curiosa: O tempo todo são mostradas fotos de Jones bem mais jovem usando trajes espaciais. Essas fotos são, na realidade, extraídas do filme “Os Cowboys do Espaço”, dirigido nos anos 1990 por Clint Eastwood –no elenco daquele filme, e novamente neste daqui, também está outro veterano, o ótimo Donald Sutherland.
Como toda ficção científica adulta e levada a sério que se presta –um artigo raríssimo no cinema mainstream de hoje –o filme de James Gray se lança em discussões metafísicas que passeiam pela solidão existencial da raça humana num universo vasto e silencioso às suas dúvidas, pela loucura que pode acometer o indivíduo diante de fatores tão gigantes ante sua insignificância, e pela relação que tudo isso parece ter, no final das contas, com nós mesmos, nossa própria índole, e com o modo como nos relacionamos uns com os outros.
Na improvável escolha de um conto denso e filosófico de ficção científica no lugar dos dramas urbanos e comiserativos que fez até então, James Gray perpetra um pequeno e notável paradoxo: Um olhar para cima, em direção às estrelas, que termina voltando sua conclusão para nossa própria aflição interior. 

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

A Outra Face da Violência

Eis um filme que prima por sua objetividade: Este “Rolling Thunder”, de John Flynn, é um conto de vingança que despe-se de maneirismos de gênero e de firulas redundantes para ir direto ao ponto.
Ele começa e termina com a belíssima canção “San Antone”, de Denny Brooks –em seu prólogo, ela acrescenta melancolia à chegada dos veteranos do Vietnam Major Charles Rane (William Devane, da série “24 Horas”) e Johnny Vohden (Tommy Lee Jones) de volta ao lar após passarem poucas e boas nas mãos dos vietcongues.
Rane foi prisioneiro de guerra por dez anos, o quê explica porque seu filho de doze sequer o conhece, e porque sua esposa lhe confidencia ter procurado por outro homem nesse período –mal está iniciando sua tentativa de readaptar-se à sociedade e Rane já tem de lidar com um divórcio.
Todavia, o filme de John Flynn não sublinha qualquer questão em torno da discriminação sofrida pelos combatentes do Vietnam como o fez “Rambo-Programado Para Matar”. Na verdade, ao chegar em sua cidadezinha, Rane é recebido bem até demais: É louvado como herói, a população o presenteia com um abono considerável em moedas de prata e até arruma uma espécie de fã nas curvas da garçonete Linda Forchet (a belíssima Linda Haynes), mais do que disposta em preencher a lacuna deixada pela esposa.
As coisas mudam de rumo quando um grupo de bandidos, tendo tomado conhecimento das moedas de prata presenteadas à Rane, invade sua casa, obrigando-o a revelar seu esconderijo. Eles não apenas roubam as moedas, como mutilam a mão direita de Rane e matam sua mulher e filho. Mas, Rane há tempos já não é um ser humano normal: A tragédia apenas aciona dentro dele um mecanismo que os horrores da guerra mantiveram devidamente azeitado e pronto para uso –tão logo se recupera, ele sequer pestaneja ou experimenta reações mais humanas como dúvida ou medo; parte direto para a procura pelos meliantes.
Muitos podem afirmar, nessa aridez emocional, que o protagonista não demonstra maiores motivações –e a atuação quase gélida de William Devane auxilia muito para isso.
Contudo, faz parte dos planos do diretor Flynn conceber e expor um personagem genuinamente casca-grossa do início ao fim, assim como também saborear cada ínfimo avanço em direção à sua vingança: “Rolling Thunder” parece não reivindicar qualquer intenção de ritmo, detendo-se em diálogos corriqueiros, até triviais, que ressaltam a difícil inadequação do ex-combatente num meio social comum e demandam algum tempo entre os momentos realmente pertinentes para o plot central, e isso não se deve porque Flynn não dispunha, na época (1977), de produções de ação mais reconhecidas para lhe servir de base; na verdade, essa parece ser mesmo a intenção da narrativa. Contar numa marcha cadenciada –nem apressada demais, nem muito hermética –as engrenagens, ora aflitivas, ora agonizantes, pelos quais podem passar os indivíduos dedicados à árdua tarefa da vingança.
Partindo desse princípio, e do fato de que ele aborda temas muito antes de filmes mais famosos que com eles trabalharam depois (como a justiça pelas próprias mãos em “Desejo de Matar”, e as neuroses do Vietnam no já citado “Rambo”), este filme de John Flynn, roteirizado com precisão por Paul Schrader, vislumbra a incapacidade de viver daqueles homens que estiveram no limiar da morte.
Na espetacular sequência final, um catártico tiroteio num prostíbulo da fronteira México/EUA, o diretor deixa bem claro que para Rane e Vohden (que mergulha na chacina ao lado dele sem titubear) a proximidade da morte e do caos explosivo da batalha lhes é até mais confortável que as constrangedoras e frustradas tentativas de viver em família mostradas atenciosamente ao longo do filme.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Entre O Céu e A Terra

A “Trilogia do Vietnam”, do diretor Oliver Stone –da qual fazem parte os contundentes e premiados “Platoon” e “Nascido Em 4 de Julho” –foi encerrada com este “Entre O Céu e A Terra”, lançado em 1993, onde Stone, aparentando uma falsa imparcialidade atribuiu neste filme o ponto de vista vietnamita.
Ledo engano: Ao contrário do que fez Clint Eastwood, muitos anos depois, concebendo dois filmes de guerra (“A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima”) que realmente se alternam em lados, impressões e sensibilidades, Stone pratica mais uma vez seu poderoso exercício de demagogia, onde impõe, com o peso esmagador de sua narrativa, o seu ponto de vista e a sua opinião ao expectador.
Jovem moradora de uma aldeia na Vietnam, Le Ly (a bastante dedicada novata Hiep Thi Le) tem seus duríssimos percalços de vida registrados desde cedo (quando é tirada, ainda adolescente, de seu vilarejo) e intensificados quando se deflagra a guerra –ela experimenta o abuso dos dois lados do conflito (tanto vietnamita, quando americano), flerta com a prostituição, se torna mãe solteira e envolve-se com um soldado norte-americano, Butler (Tommy Lee Jones) que, depois da guerra, a torna sua esposa levando-a para morar nos EUA.
O choque de sua chegada num país ocidental e capitalista (provavelmente o mais emblemático do que é o Ocidente e do que é o Capitalismo) é capturado com ênfase e um certo exagero pelas lentes cheias de maneirismos de Stone. Mas, o diretor não se interessa por deslumbre: Como um repórter sensacionalista, Stone tem sua atenção voltada ao trágico, e são as sequências dessa orientação que definem seu filme: Atormentado pelos traumas de guerra, Butler é incapaz de conviver com Le Ly ou com qualquer um.
Mesmo que incorpore inúmeras filosofias zen inerentes à autobiografia de Le Ly Hayslip, o filme acentua mesmo a obsessão pelos lapsos políticos dos anos 1960, a acidez e o rancor para as inevitabilidades da realidade, e os temas que regem toda a obra do diretor.
Grande artesão que é, Stone não se contenta com o primor no retrato massacrante que obtém; ele também reveste sua obra de um viés documental forçando sua ótica como uma verdade absoluta ao expectador.
Ao lado da competência superlativa, eis outra faceta característica à Oliver Stone: A de evidenciar e exceder para muito além do tolerável a sua própria posição.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Tempestade de Paixões


Bons diretores possuem uma técnica tão notável e envolvente que são capazes de tornar atrativo até mesmo um enredo pontuado por eventos banais. É o que o inglês Mike Figgis faz aqui ao registrar alguns personagens de caráter quase marginal em suas linhas particulares de causa e efeito sendo entrecruzadas por ocorrências, na maior parte das vezes, corriqueiras, e ainda assim impondo à condução disso tudo um charme noir.
“Tempestade de Paixões” –que no Brasil também recebeu o título de “Dia Fatal” –conta com a inebriante presença de Melanie Griffith, então em estado de graça (naquele mesmo ano, 1988, ela estrelou o melhor trabalho de sua carreira, “Uma Secretária de Futuro”), vivendo com encanto, sensualidade e primor a jovem norte-americana Kate obrigada a se revezar entre o trabalho árduo de garçonete e o de eventual acompanhante para políticos sob orientação do influente Cosmo (Tommy Lee Jones) que almeja tornar-se a figura mais poderosa em uma cidadezinha portuária da Inglaterra –um ciclo vicioso da qual ela não consegue sair.
Também há Sean Bean, ainda bem jovem, como Brendan, um rapaz irlandês que obtêm trabalho com Sr. Finney (o cantor Sting), o dono de um clube prestigiado daquelas redondezas, para quem passa a fazer serviços diversos como servir de motorista para músicos eventualmente contratados –até um lance inesperado torna-lo cada vez mais importante e leal aos olhos do patrão.
Em algum momento, Kate e Brendan terão seus caminhos cruzados (primeiro numa constrangedora trombada em um shopping, depois, no restaurante em que ela trabalha), no que o amor encontrará seus atalhos para se expressar em meio ao pessimismo e à desilusão.
Também terão caminhos cruzados o Sr. Cosmo e o Sr. Finney, os quais a narrativa irá mostrar como similares em termos de obsessão por controle, e opostos no que pretendem no final das contas: O primeiro, um americano empreendedor cuja aparência afável e o discurso liberal escondem uma avidez de poder e uma disposição inescrupulosa para atingi-lo; o segundo, um empresário no domínio de seu território, absolutamente avesso à novidades externas, e hostil feito fera acuada em relação à tudo que perturba a harmonia de seu lugarejo.
Aos poucos vamos percebendo que Cosmo é essa perturbação.
No entanto, o diretor (e também roteirista) Figgis não conduz esse antagonismo em direção a um embate explosivo –ele prefere adotar o ponto de vista de Kate e Brendan, o mais próximo de pessoas normais na trama, e observa detalhadamente o caminho tortuoso que ambos percorrem, em meio ao fogo cruzado de duas personalidades poderosas, para ficarem juntos.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

JFK - A Pergunta Que Não Quer Calar

A década de 1960 não foi somente um período marcante de mudanças e transformações para os EUA e o mundo; foi também uma época a qual aparentemente, o diretor Oliver Stone custou a conseguir deixar de lado. A maior parte dos grandes títulos de sua filmografia, ao menos durante as suas duas primeiras décadas de atividade como cineasta, se dedicam a falar sobre episódios essenciais desse trecho da história americana.
Se a Guerra do Vietnam é uma parte indissociável do contexto de “Platoon” e “Nascido em 4 de Julho”, em “JFK”, ele lança seu olhar parcial, paranóico e imbuído de uma tendenciosa maestria cinematográfica sobre os percalços e conseqüências do assassinato do então presidente americano John F. Kennedy, cometido –acredita-se –pelo atirador Lee Oswald (aqui interpretado com peculiaridade por Gary Oldman). A base para esse olhar, Stone encontra na teoria controversa do promotor Jim Garrison –personificado com segundas intenções da parte de seu diretor pelo astro Kevin Costner: Na época, devido à sua participação no aclamado épico “Dança Com Lobos” e em outros sucessos de bilheteria como “Robin Hood-O Príncipe dos Ladrões”, Costner era enxergado como uma espécie de herói americano, o tipo de intérprete escolhido a dedo para se colocar num personagem do qual o diretor não deseja que a platéia duvide.
Desde a utilização brilhante do famoso e vídeo amador de Zapruder –uma prática habitual no cinema de Oliver Stone –ao emprego de uma riqueza documental e informativa incomum para qualquer superprodução (por tais valores, “JFK” levou os Oscars de Melhor Fotografia e Montagem) e o uso pontual de participações notáveis de um elenco diverso e estelar, todas as exuberantes facetas deste filme são administradas por seu diretor na imposição demagógica de sua própria ideologia e ponto de vista –provavelmente a grande ressalva em toda a filmografia fascinante de Stone.
Garrison acreditava numa possibilidade bem diferente daquela ventilada pela imprensa. Para ele, Oswald era um mero bode expiatório para toda uma conspiração que envolvia inúmeros interessados em dar cabo de Kennedy –e para tanto, um de seus argumentos é de que a sucessão de tiros obtida unicamente por Oswald naquele atentado seria humanamente impossível para um atirador sozinho executar.
A partir daí, subjetivada nas investigações de Garrison, a narrativa de Stone desfralda uma conspiração que ganha ares assombrosos e aterradores ao longo das três horas de duração do filme.
E Stone o faz com uma mescla assombrosa de tensão e intensidade, deixando entrever, apenas em alguns rápidos momentos de seu último terço a pecaminosa tendência do diretor em alterar obviedades históricas apenas para salientar seu próprio ponto de vista.
Um grande filme de um diretor tendencioso que soube empregar como poucos as ferramentas do cinema com perversa astúcia.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1994

Após uma extensa e frutífera carreira no disputado cinema comercial hollywoodiano, eis que, na cerimônia realizada em 1994, a Academia de Artes Cinematográficas enfim prestou seu reconhecimento a um dos grandes artesãos do nosso tempo: Steven Spielberg.
E o filme que ele entregou foi na medida: Historicamente relevante, poderoso, forte e contundente sem, no entanto, ser gratuito, realizado com primor e interpretado com vigor.
Houve também a consagração unânime de Tom Hanks por sua corajosa interpretação de um advogado aidético e homossexual –hoje, esse trabalho nem soa tão ousado assim –a primeira de duas históricas vitórias consecutivas no Oscar.
As intérpretes de “O Piano” confirmaram seu favoritismo vencendo as categorias de Melhor Atriz, para Holly Hunter, e Melhor Atriz Coadjuvante, para Anna Paquin –se bem que essa última foi um surpresa, visto que à época, ela tinha somente treze anos de idade!
E a presença mais inusitada entre os indicados a Melhor Filme, a aventura de ação “O Fugitivo”, acabou levando o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante justamente conferido à Tommy Lee Jones.

MELHOR FILME

MELHOR DIREÇÃO
"A Lista de Schindler", Steven Spielberg

MELHOR ATRIZ
Holly Hunter, "O Piano"

MELHOR ATOR
Tom Hanks, "Philadelphia"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Anna Paquin, "O Piano"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Tommy Lee Jones, "O Fugitivo"

MELHOR FOTOGRAFIA
"A Lista de Schindler"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"I Am A Promisse: The Children Of Stanton Elementary School"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Defending Our Lives"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Sedução" (Espanha)

MELHORES EFEITOS SONOROS

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Jurassic Park"

MELHOR MAQUIAGEM
"Uma Babá Quase Perfeita"

MELHOR FIGURINO
"A Época da Inocência"

MELHOR SOM
"Jurassic Park"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"A Lista de Schindler"

MELHOR TRILHA SONORA
“A Lista de Schindler"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Streets of Philadelphia", de "Philadelphia"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"O Piano"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"A Lista de Schindler"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"The Wrong Trousers"

MELHOR MONTAGEM
"A Lista de Schindler"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Black Rider”

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O Fugitivo

A ação primordialmente bem conduzida pelo diretor Andrew Davis se vale de uma série de escolhas inteligentes para funcionar: A montagem dinâmica e perspicaz, o ritmo espontâneo e informativo imposto pelo roteiro, enquadramentos inesperados em resposta aos panoramas americanos convencionais que, mais tarde, foram devidamente assimilados pela indústria.
Richard Kimble (Harrison Ford, fantástico no papel) é um homem injustiçado: No mesmo incidente em que teve a esposa assassinada (“foi um homem de um braço só” terminou virando um bordão na época da série em que este filme se baseia), ele também terminou condenado por seu homicídio.
Nos primeiros minutos, o diretor Davis já promove a reviravolta fenomenal que irá engatilhar o filme: O espetacular acidente sofrido pelo ônibus que conduziria Kimble a uma penitenciária –e que o permite fugir para encontrar uma forma de tentar provar sua inocência nos anos por vir, enquanto busca escapar do encalço obstinado do agente federal Gerard (Tommy Lee Jones, extraordinário no personagem que lhe deu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante).

Além da condução prodigiosa, Andrew Davis não só demonstra habilidade ao ressaltar os predicados de seu roteiro e a astúcia de seus intérpretes, com freqüência perfeitos em seus papéis (além de Ford e Lee Jones, há Jeroen Krabbé, vilanesco como sempre, a participação da bela Sela Ward, como a esposa e até uma ponta sensacional e infelizmente muito pequena de uma ainda desconhecida Julianne Moore), como também enfileira uma cena antológica atrás da outra: O salto intrépido de Ford nas águas de um rio após uma aflitiva e labiríntica perseguição pelos túneis de um aqueduto; a fuga (por um triz) através de uma porta automática com vidro à prova de balas; o trecho em que a narrativa sugere um final iminente para então seguir por outro caminho; a inteligente e bem amarrada solução final.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Assassinos Por Natureza

Os filmes de Oliver Stone são normalmente compostos por uma alta voltagem de euforia narrativa que não raro se expressa na forma de indignação, seja pelas circunstâncias perniciosamente políticas que deseja denunciar, seja pelo ultraje absurdo de um momento histórico que reconstitui (e a veracidade com que se dá essa reconstituição é, em geral, uma pauta sempre levantada em seus trabalhos).
O próprio Oliver Stone certamente tem consciência da imensa habilidade com que consegue empregar sua técnica na construção do ritmo e atmosfera de seus trabalhos que muitos preferem taxar de sensacionalistas ao invés de realistas.
Talvez, seja um exemplo disso, esta obra  ácida e palpitante feita nos anos 1990 que investiga a psicopatia das maneiras mais escandalosas possíveis: A partir de um roteiro inicialmente esboçado por Quentin Tarantino (que, como Stone, nunca foi um autor que primou pela sutileza), este filme acompanha os passos de um casal de serial killers nos moldes de Bonnie e Clyde, e de Kit Carruthers e Holly Sargis (casal protagonista do filme “Terra de Ninguém”, de Terrence Malick).
Mickey (Woody Harrelson) e Mallory Knox (Juliette Lewis, quase sempre surtada) são dois jovens apaixonados que, em seu furor homicida, deixam um rastro de cadáveres por onde passam no meio-oeste americano. Não apenas a atenção da polícia (cujo detetive personificado por Tom Sizemore lhes persegue), suas ações ganham também o interesse crescente da mídia e do público (materializados na figura do repórter sensacionalista interpretado por Robert Downey Jr.), fascinados por sua rebeldia e pela maneira inconseqüente com que deflagram as maiores atrocidades.
E Stone aponta a preocupante escalada dessa fascinação na sinergia corrupta que surge entre o personagem de Downey Jr. e o diretor do manicômio vivido por Tommy Lee Jones.
O registro executado por Stone (num de seus trabalhos mais esquizofrênicos) parece impor uma reflexão do próprio olhar: Não apenas o casal de assassinos tem a filosofia de preservar viva uma testemunha ocular de cada ato, como também são eles, os protagonistas algo conscientes de uma orgia visual na qual a realidade se transfigurou, e o diretor Stone ratifica isso proporcionando ao seu filme uma série diversificada de estilos de filmagem que nunca se conforma com um registro ameno e parcimonioso –“Assassinos Por Natureza” vai do preto & branco à sépia, da filmagem digital ao 35 mm, passando pelo 16 mm e a super-8, vai de um sem fim de formas de capturar a imagem à outras linguagens narrativas (há um momento, em que o filme ganha até aspectos de uma sitcom, onde são introduzidos sons de risada nos instantes mais sádicos), num turbilhão que soa quase enlouquecido; daí, talvez, a sanha psicopata que contamina a maioria dos personagens em seu escatológico terço final.

domingo, 23 de abril de 2017

Batman no Cinema

Batman
Por muito tempo, o cinema tateou na busca por uma conciliação narrativa com a linguagem dos quadrinhos. Essa busca é bastante ilustrativa quando olhamos a seqüência de filmes protagonizados pelo Batman, que ganhou, na opinião de muitos, sua personificação cinematográfica definitiva com Christian Bale, na Trilogia do Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan.
Bem antes disso, o público e a crítica (na verdade, bem mais o público do que a crítica) deixou-se encantar pela primeira versão cinematográfica do herói, concebida por Tim Burton e estrelada por Michael Keaton.
De um estilo peculiar e personalíssimo, Burton tinha uma visão eclética do projeto conceitual: Ao mesmo tempo em que ele via uma apropriada atmosfera sombria a relacionar-se diretamente com o personagem e o mundo que o cerca (a obscura e corrupta Gotham City) o que passou a influenciar até mesmo os quadrinhos dali por diante, embora o próprio filme de Burton deva muito à reformulação do personagem promovida na graphic novel “Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller –ele também tinha uma certa displicência para com a figura do próprio herói (visto como nitidamente desinteressante em sua narrativa) o que priorizou, neste primeiro filme, o antagonista Coringa interpretado com som e fúria por Jack Nicholson.
O vigilante sombrio e amargurado Batman (cuja origem acaba sendo pouco mais que uma recordação, longe do trabalho cuidadoso feito em "Batman Begins") torna-se quase um detalhe em meio à trama que acompanha Jack Napier (Nicholson) e a traição sofrida por seu mentor, o líder do crime organizado de Gotham City, Carl Grisson (Jack Palance), o quê leva Napier à mergulhar acidentalmente num tonel de ácido, de onde emerge já transformado no maluco homicida Coringa.
Para o Coringa, depois de matar Grisson, o controle de Gotham agora só encontra obstáculo mesmo no Batman, cuja identidade secreta, o milionário Bruce Wayne, está às voltas de um relutante romance com a repórter Vicky Vale (Kim Basinger, esplêndida), dedicada, por sua vez, a descobrir a real identidade do herói mascarado.
Um sucesso exorbitante, menos por seus valores cinematográficos e mais por sua campanha maciça de marketing, “Batman” revelou o inesperado pendor comercial de Tim Burton e uma sutil predisposição dele em deixar de lado os aspectos mais marcantes de seu estilo em função de uma colaboração com um produto de estúdio, o quê ele voltaria a fazer, anos mais tarde, na refilmagem/reinvenção de “Planeta dos Macacos”, de 2001.

Batman-O Retorno
O êxito arrebatador do filme de Burton deixava claro que, à ele, brevemente uma continuação se seguiria. Se teria Tim Burton mais uma vez na direção, aí a história era outra (Burton não ficou satisfeito com o controle criativo limitado que teve no primeiro filme, e o diretor de arte, Anton Furst, ganhador do único Oscar recebido pelo filme, era muito cotado para assumir a direção da seqüência, antes de falecer).
O estúdio terminou concluindo que não valia a pena mudar a equipe e manteve Burton dirigindo o novo filme e Michael Keaton o estrelando –embora muitos questionassem sua adequação ao papel.
Tal e qual o primeiro “Batman”, neste novo filme Burton tornou a manifestar seu fascínio pelos desajustados e seu indisfarçável carinho pelo monstruoso –ou seja, pelos vilões –centrando todo o interesse da narrativa desta vez, na origem pontuada por abandono e detalhes grotescos de Oswald Cobblepot, ou melhor, o Pingüim (Danny De Vito, irreconhecível debaixo da densa maquiagem) e, principalmente, na trajetória envolvente de Celina Kyle, secretária do empresário Max Shreck (Christopher Walken, num personagem cujo nome remete ao ator célebre por interpretar o vampiro no clássico “Nosferatu”, de Murnau) cuja descoberta dos negócios ilícitos do patrão leva Celina a uma transformação radical, tornando-se a ambígua e sensacional Mulher-Gato (que ganhou, nas formas e nas expressões de Michelle Pfeifer uma personificação considerada, até hoje, imbatível).
Batman, como se pode perceber, é um mero coadjuvante diante de personagens tão exuberantes.

Batman Eternamente
Para Tim Burton, dois filmes bastaram. Após “Batman-O Retorno”, o máximo que ele se dispôs a aproximar-se do novo projeto envolvendo o personagem foi na função de produtor executivo. O diretor escolhido para substituí-lo, sabe-se lá porque, foi Joel Schumacher: Talvez tenha sido o estilo rebuscado e sombrio que ele demonstrou em “Linha Mortal”, similar ao de Burton (embora, Schumacher nunca tenha preservado qualquer estilo ao longo de seus filmes), ou o fato de ser um típico de diretor padrão, ideal para trabalhar sob contrato.
Com ele no comando, o filme imediatamente ganhou nova roupagem e um novo intérprete: Val Kilmer, cujo excesso de sisudez e as madeixas castanhas claras não ajudaram muito a ser visto como uma escolha melhor do que Keaton.
Também o orçamento inflado da nova produção deixava claro o quanto Batman, enquanto produto corporativo, significava para o estúdio: Não foram poupadas despesas, inclusive no que diz respeito ao elenco milionário –Nicole Kidman (começando uma auspiciosa escalada ao estrelato graças ao lançamento de “Um Sonho Sem Limites” naquele mesmo ano) como o par romântico do herói (sendo que as menções às anteriores Vicky Vale e Mulher-Gato foram completamente ignoradas); Tommy Lee Jones como o pra lá de caricato vilão Duas-Caras (chega a ser covarde e absurdo comparar esta versão ao bem construído Duas-Caras de “Batman-O Cavaleiro das Trevas”); Jim Carey como Charada (papel que ele tirou do anteriormente cotado Robin Willians); e Chris O’ Donnell surgindo pela primeira vez como Robin, o parceiro do herói deixado de lado nos dois filmes anteriores.
Aqui, Batman se vê diante do desafio de um novo chefão do crime, o antigo promotor Harvey Dent transformado no vilão Duas-Caras. Paralelo ao surgimento de um novo vilão, o Charada, o acrobata Dick Graysson perde toda sua família, encontrando um lar na mansão Wayne onde passa a auxiliar Bruce Wayne, o Batman, como seu fiel parceiro, o Robin.

Batman & Robin
E foi assim, com o relativo êxito do filme anterior que chegamos no quarto e famigerado filme do Batman, o segundo sob o comando de Joel Schumacher, onde ele teve liberdade para fazer a “sua” visão do Batman, deixando de lado qualquer realismo ou interiorização sombria, e com isso soterrando a série no cinema, até que a reformulação radical de Nolan viesse para salvar o personagem.
A trama acompanha o surgimento dos vilões Sr. Frio (Arnold Schwarzenegger) e Hera Venenosa (uma deslocadíssima Uma Thurman) –há também a aparição de Bane “interpretado” pelo brutamontes insípido e inexpressivo Jeep Swenson, o que reduz o personagem à um mordomo truculento, longe do significado imposto por Tom Hardy ao personagem em “Batman-O Cavaleirodas Trevas Ressurge” enquanto pequenas desavenças minam o relacionamento entre Batman (agora George Clooney no lugar de Val Kilmer...) e Robin (Chris O’ Donnell, cada vez mais irritante no papel), dando oportunidade para a origem de uma nova heroína, Batgirl (Alicia Silverstone, inadequada como atriz, num personagem absolutamente disfuncional, desnecessário, redundante e introduzido de forma descuidada).
O fato de não manter Val Kilmer como Batman/Bruce Wayne em seu filme seguinte já indicava uma certa irregularidade da parte de Schumacher na forma com que ele via o projeto, mas ninguém imaginava que suas idéias conduziriam a uma obra tão escandalosamente catastrófica quanto foi este “Batman & Robin”, um filme tão equivocado, tão absurdo em seu desleixo e ruindade que no making of (disponível na edição em DVD do filme) pode-se conferir o próprio diretor pedindo desculpas pelo trabalho que realizou (!).
Uma sucessão de cenas absolutamente vergonhosas: Os novos e alardeados trajes dos heróis que já contavam antes com ridículos mamilos salientes, aqui ganham cores berrantes como o roxo (no caso de Batman!) e o vermelho escarlate (no caso de Robin), além de uma iluminação de neon com muito rosa, verde a alaranjado (!); o leilão pelo corpo de Hera Venenosa, onde Batman e Robin iniciam uma imatura discussão encerrada de forma patética com o ‘bat-cartão de crédito’ (“Nunca saia da caverna sem ele!”); o Sr. Frio de Arnold Schwarzenegger usando pantufas de ursinho polar e regendo um coro entre seus capangas.
É espantoso notar que o elenco, de Schwarzenegger à Clooney, passando por todos os outros atores, abraçou a proposta do diretor e assume suas presepadas sem aparentar constrangimento.
Como se não bastasse esse erro crasso de tom, o filme ainda se revela sofrível em termos cinematográficos: Dentre todos os filmes feitos sobre o Batman, este é aquele que mais o negligencia, colocando-o em segundo e até terceiro plano (e olha que essa era uma crítica freqüentemente dirigida aos títulos anteriores).

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Jason Bourne

“Eu me lembro de tudo!”
Esta é a primeira frase deste filme, já deixando bem claro para o expectador as circunstância nas quais encontraremos o protagonistas, tantos anos depois do último filme, “O Ultimato Bourne”, que pensávamos ter sido o final da franquia.
Entretanto, alguns fatores levaram Matt Damon e Paul Greengrass, ator e diretor, a se reunirem para fazer este novo filme, o quarto com o personagem de Jason Bourne, criado pelo escritor Robert Lundlum, mas tornado inesquecível em sua personificação cinematográfica, graças à atuação de Damon e à direção de Greengrass, com seu estilo peculiar e documental a ressaltar as qualidades superlativas da montagem meticulosa e ágil, e a fotografia carregada de vibração e urgência –vale lembrar que há o outro filme, “O Legado Bourne”, com Jeremy Renner, e dirigido por Tony Gilroy que tentou iniciar uma série derivada sem a presença de Matt Damon.
Pois bem, agora Jason Bourne está de volta, e ele lembra de tudo! Mas, (e esse é o esperto ponto de partida por meio do qual Greengrass retoma sua franquia) lembrar não significa necessariamente saber de tudo. E Bourne descobrirá que o Projeto Treadstone (cujas circunstâncias mais ilícitas ele conseguiu tornar públicas no filme anterior) deu lugar à um novo plano da CIA, intitulado Iron Hand, com implicações técnicas que põem em risco a liberdade privada dos cidadãos comuns. Tais informações chegam até Bourne por meio de uma personagem conhecida dos outros filmes: A analista Nicky, interpretada por Julia Stiles, que surge aqui atuando contra a Agência –numa das inúmeras referências ao caso de Edward Snowden. Novamente, Bourne se vê obrigado a usar suas habilidades prodigiosamente físicas para impedir a concretização dos planos do atual diretor da CIA, o venal Robert Dewey (Tommy Lee Jones, excelente), enquanto tem contas pessoais a ajustar com um agente colocado em seu encalço (personagem de Vincent Cassell, que viveu um espião de características um pouco parecidas no filme de espionagem europeu “Agente Secreto”, ao lado de sua então esposa, Monica Bellucci).
Outra personagem –talvez, a mais relevante –a movimentar a trama, é a agente Heather Lee, interpretada com refinamento e brilho pela jovem Alicia Vikander, a ganhadora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante deste mesmo ano, por “A Garota Dinamarquesa”.
Se houver uma continuação, é muito provável que a personagem de Alicia esteja lá, tal o abalo sísmico de importância que a presença dela aqui provoca da trama da série como um todo.
Tão bem escrita e bem interpretada ela é, que corremos o risco de achar que trata-se de uma personagem ainda mais apurada e sensacional que o protagonista Bourne.
Não é: O magnífico desfecho elaborado por Greengrass trata de deixar bem claro que é o Bourne de Matt Damon, definitivamente, o grande personagem do filme.

domingo, 12 de junho de 2016

Lincoln

Daniel Day-Lewis escreveu seu nome na história do cinema como o primeiro intérprete a conquistar três Oscar de Melhor Ator na carreira: Por "Meu Pé Esquerdo", em 1989, por "Sangue Negro", em 2007, e por este "Lincoln" em 2012. O quê acaba sendo um fator que contraria a máxima de que é Robert De Niro o grande ator vivo da atualidade...
Todavia, vamos falar um pouco do filme de Steven Spielberg: Segunda colaboração sua com o roteirista e dramaturgo Tony Kushner (a primeira foi "Munique"), este trabalho ressalta a personalidade poderosa de seu escritor; mais do que Speilberg, é perceptível o olhar agudo, humano e minucioso de Kushner, e seu marcado estilo, na trama que se desenrola em ambos os filmes.
Neste, o ano é 1865. Abraham Lincoln acaba de ser reeleito para seu segundo mandato como presidente dos EUA enquanto a Guerra Civil Norte-Americana vai para seu quarto ano. Mas o presidente reeleito tem específicas ambições para sua nova gestão: não só deseja conseguir a paz de uma guerra da qual todos estão cansados, como planeja obter no Congresso a aprovação da 13ª Emenda, abolindo a escravatura de todos os Estados Unidos, uma manobra complicada, uma vez que a questão do abolicionismo é o cerne da própria guerra. O presidente Lincoln irá valer-se de sua capacidade de dissuasão e engenhosas manobras políticas para obter os votos no congresso, como os quais visa conseguir a paz e a liberdade.
A ironia captura pelo texto de Kushner, e tao bem emoldurada pelo talento superlativo de Spielberg, mostra que o presidente Lincoln, tão puro de intenções e tão imaculado na imagem que é feita dele para o mundo, lançou mão de propinas e corrupção para alcançar seu objetivo: A sequência da histórica votação no congresso da 13ª Emenda é, ela própria, uma aula de cinema em todos os ângulos que possam ser imaginados.
E aí, volta-se sempre à mesma questão, inevitável quando se fala desse filme: Daniel Day-Lewis.
O filme certamente não funcionaria se Spielberg não tivesse achado o ator ideal para o papel, e Day-Lewis faz muito mais que isso: Ele dá uma dimensão preciosa, minimalista e estudada de Lincoln, rica em detalhes e maneirismos que só são notados na segunda ou terceira vez que se assiste ao filme: Com o perdão dos dois ótimos trabalhos anteriores nos quais ele ganhou o Oscar, é este daqui onde Daniel entrega aquela que é sua obra-prima! Fica até sem graça falar do restante do elenco, todos espetaculares, em especial Tommy Lee Jones, mas cujo brilho empalidece diante de seu magnifico protagonista.
 O fato de ser excessivamente político e dialogado não lhe tira brilho algum, por sinal, este primoroso filme de Steven Spielberg, agraciado com a atuação magistral de Daniel Day-Lewis, merece ser descoberto por todo e qualquer expectador avesso à filmes políticos por pensar que são todos "chatos".

domingo, 24 de abril de 2016

Capitão América - O Primeiro Vingador

Um dos mais saborosos filmes produzidos pela Marvel Studios é o do Sentinela da Liberdade. Há nele um charme todo especial, muito advindo da bela ambientação retrô dos anos 1940, que lhe dá um clima de filme de matinê. Some a isso o trabalho apaixonado e apropriado do diretor Joe Johnston (de "Querida, Encolhi As Crianças", "Jumanji" e "Rocketeer") que, como dá para perceber, é muito bom em resgatar esse tipo de nostalgia.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o franzino Steve Rogers (Chris Evans, ótimo no papel) pena para conseguir ser aceito no exército americano. Quando isso ocorre, ele passa a integrar um misterioso projeto que visa criar uma espécie de supersoldado: Em uma complicada experiência, seu corpo é anabolizado e ele torna-se forte e ágil.
De início usado como garoto-propaganda para os EUA, o Capitão América (como passa a ser chamado) logo integra as frentes de batalha, tornando-se fundamental na luta contra os nazista, sobretudo, contra os planos maléficos do Caveira Vermelha (Hugo Weaving, sempre fantástico interpretando vilões).
"Capitão América-O Primeiro Vingador" compõe a primeira leva de filmes da Marvel Studios, a chamada Fase 1, que culminou com o filme dos Vingadores, onde todos os heróis apresentados até então foram reunidos. Dentre todos, "Capitão América" foi o que mais demorou, e não é para menos: O estúdio sabia que um personagem como ele -em princípio, de valores tão antiquados -precisava de um cuidado todo especial para chegar às telas de cinema.
O resultado, feito com cuidado, critério e minúcia, é excelente.

sábado, 10 de outubro de 2015

Onde Os Fracos Não Têm Vez

A violência é um elemento por meio do qual os personagens nos filmes dos Irmãos Coen definem e determinam o mundo ao qual tentam se adaptar.
Dentre todos os seus filmes, talvez, aquele que recebe uma maior ênfase na violência é este “Onde Os Fracos Não Têm Vez” –ela aparece intensa e incontornável como eles não o faziam desde “Gosto de Sangue”, e este é só um dos principais elementos notáveis nesta primorosa adaptação de Cormack McCarthy.
Pouco a pouco percebemos que no meio-oeste norte-americano, um texano comum encontra por acaso uma mala cheia de dinheiro entre vários cadáveres do que parece ter sido uma negociação de drogas que deu errado. Ingenuamente ele resolve esconder o dinheiro, mas logo surgem pessoas atrás dele. Em seu encalço está um frio assassino de aluguel que deixa um rastro de morte por onde passa. Atrás de todos eles e buscando encontrar um significado por trás de tudo, está um xerife veterano em vias de se aposentar. Vencedor de 6 Oscars em 2007, incluindo os prêmios de Melhor Filme e Melhor Direção, este poderoso trabalho reafirma o talento hiperlativo dos Irmãos Coen, sua condução da trama é um dos muitos fatores que mantém um insuspeito fascínio no filme: Não acompanhamos exatamente uma história, mas uma sucessão de cenas que nos obrigam, sistematicamente, a "pescar" a história em meio ao que vai se passando.
Nesse contexto, o trabalho do elenco é de uma importância inqualificável: Josh Brolin é uma grata surpresa, e Tommy Lee Jones parece ter nascido para interpretar o veterano xerife. Porém, é necessário separar um parágrafo inclusivo para o terceiro protagonista.
No papel de Anton Chigurt, o espanhol Javier Barden compõe uma figura assustadora, ligeiramente irreal com aquele corte de cabelo que tanto remete à outras maluquices dos Coen, e que no fim serve a propósitos mais alegóricos do filme. Sendo o personagem menos humanizado é totalmente irônico que tenha sido o único premiado do elenco (Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2007, além de uma penca de outros prêmios), e algo ainda mais indicativo da imensa perícia dos Irmãos Coen que realizam aqui um estudo sobre a violência e suas sérias implicações no mundo e na sociedade, por meio do olhar cansado daquele velho xerife, numa vã tentativa de entender a inospicidade dos novos tempos.