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sábado, 22 de fevereiro de 2025

Capitão América - Admirável Mundo Novo


 Embora persiga o tempo todo a atmosfera conspiratória do excelente “Capitão América-O Soldado Invernal”, este “Brave New World” dá continuidade realmente aos eventos mostrados em “O Incrível Hulk” (de um já longínquo 2008) e “Eternos” (de 2021). Quando reencontramos o protagonista, Sam Wilson (Anthony Mackie), ele já veste o manto de Capitão América a pelo menos quatro anos –desde que assumiu esse legado na minissérie “Falcão e O Soldado Invernal”. Sua missão é deter a negociação envolvendo um item desconhecido entre a Sociedade da Serpente, chefiada pelo inescrupuloso Coral (Giancarlo Esposito), e um comprador misterioso. Já aí, a narrativa concebida pelo diretor Julius Onah (de “The Cloverfield Paradox”) orquestra vários pontos de partida (como é de praxe, muitos deles extraídos dos quadrinhos originais) para buscar um todo mais sólido e exuberante, ainda que, ao contrário do que fizeram (e muito bem) os Irmãos Russo nos filmes predecessores, essa solidez e essa exuberância nunca cheguem, de fato, a aparecer.

Se de um lado temos Sam Wilson e seus válidos esforços em corresponder às expectativas dele esperadas como Capitão América –não apenas ao substituir a grande e inspiradora presença de Steve Rogers, mas também ao representar um herói tão icônico sendo também um homem negro a trazer consigo à reboque toda uma questão de representatividade racial –do outro, temos o General Thadeus Ross (vivido por Harrison Ford, substituindo o falecido William Hurt, intérprete anterior do personagem) cuja fama de irascível ele procura avidamente deixar de lado por conta de A) reatar os laços com a filha, Betty (Liv Tyler), em frangalhos desde que ele caçou, por anos, o Hulk, assim como outros heróis, e B) honrar seu novo cargo de presidente eleito dos EUA perante o povo norte-americano.

Para tal intento, Ross quer se aproximar de Sam Wilson, sobretudo, após a bem-sucedida missão em recuperar o tal item desconhecido (que havia sido roubado de aliados japoneses), entretanto, novas complicações tornam a afastá-los: Acontece que o Celestial petrificado em pleno oceano em “Eternos”, vem a ser constituído de um novo minério que as potências mundiais identificaram como tão resistente (ou até mais!) que o cobiçado vibranium de Wakanda, o adamantium. De olho nessa nova riqueza, vários países forjam uma tênue aliança com os EUA, mas um atentado na Casa Branca –perpetrado por Isaiah Bradley (Carl Lumbly), um ex-supersoldado veterano, ao que tudo indica sob controle mental –pode colocar tudo a perder, e deixar os EUA à beira de uma guerra.

A tarefa deste novo Capitão América em seu primeiro filme solo é, portanto, complicada: Provar a inocência de Isaiah, descobrir quem é o misterioso vilão manipulador que aparentemente está por trás de tudo isso, e deter uma crise política de proporções globais. Tudo isso, contando com a ajuda do novo Falcão, Joaquim Torres (Danny Ramirez), uma vez que o próprio Presidente Ross, como sempre, mostra-se alguém de difícil relação –em especial, por conta do segredo que o liga ao tal vilão manipulador, e que pode levar Ross a uma metamorfose inesperada como a ameaça conhecida por Hulk Vermelho –e, embora desse detalhe seja resguardado para o trecho final do filme, ele não é nenhuma surpresa, uma vez que dominou por completo o material promocional do filme nos últimos meses antes de sua estréia. Grave problema de marketing: Certamente, se a questão envolvendo o Hulk Vermelho e sua aparição no clímax de “Brave New World” tivesse sido guardado exclusivamente para ser visto nos cinemas (como foi feito com as aparições dos Homens-Aranhas, Tobey Maguire e Andrew Garfield, em “Sem Volta Para Casa”) a empolgação provocada pelo filme seria exponencialmente maior.

Como está, “Brave New World” não é um filme ruim, longe da irrelevância maçante de “As Marvels” ou da afetação lastimável de “Thor-Amor & Trovão”, e Anthony Mackie se esforça genuinamente para ser um herói com dignidade e valor, no entanto, os predicados desta produção –leia-se, roteiro (fragmentado e mal-amarrado em muitos momentos) e direção (burocrática e incapaz de evidenciar sequências mais memoráveis) –ficam muito aquém das obras nas quais se inspira e às quais tenta a todo o custo igualar: Os excelentes filmes estrelados pelo Capitão América anterior, Steve Rogers (Chris Evans).

domingo, 19 de fevereiro de 2023

Donnie Brasco


 O filme “Donnie Brasco” foi indicado ao Oscar 1998 de Melhor Roteiro Adaptado, o qual ele perdeu para “Los Angeles-Cidade Proibida”. É bastante incisiva e elegante a forma com que o roteirista Paul Attanasio expõe os meandros e códigos de conduta mafiosos a medida que vai revelando motivações e temperamentos e seus personagens nesta adaptação de um famoso livro escrito por um ex-agente do FBI que trabalhou por anos infiltrado na Máfia de Nova York,

É final da década de 1970 quando o gangster Lefty Ruggiero (Al Pacino) acolhe o jovem joalheiro Donnie Brasco (Johnny Depp) em meio às fileiras de seu clã mafioso. Lefty, porém, a despeito de ser veterano e de gozar de relativo respeito entre os gangsters, não chega nem perto de ser um dos cabeças da Família Bonanno, que exerce poderoso controle sobre o crime organizado do Brooklyn. Ao receber Donnie e responsabilizar-se por ele, Lefty arrisca sua própria pele diante dos inclementes chefões. No entanto, Donnie Brasco é também o agente federal Joe Pistone, perito em infiltração cujo objetivo é reunir o máximo possível de provas judiciais contra a Máfia.

Enquanto ocupa seu lugar na quadrilha e ganha cada vez mais a confiança (e a amizade) de Lefty, Donnie testemunha a ascensão do violento Sonny Black (Michael Madsen) que galga meteoricamente os degraus da hierarquia rumo ao comando após a morte de um dos chefes. O trabalho, perigoso por si só, compromete o casamento do agente federal com Maggie (Anne Heche), assim como sua cada vez maior dificuldade em manter duas vidas paralelas (a de agente infiltrado e a de pai de família) sem colidirem-se. Além disso, a amizade genuína que acaba nutrindo por Lefty lhe coloca um dilema nas mãos; abandonar em definitivo seu disfarce entre os mafiosos significaria colocar deliberadamente a vida de Lefty em perigo.

Construído com austeridade à toda prova pelo diretor inglês Mike Newell –e excedendo-se justamente nessa seriedade ao fazer um filme não tão atrativo assim enquanto entretenimento –o filme não consegue fugir das comparações óbvias (e aqui até inevitáveis) com “O Poderoso Chefão” até mesmo pela reluzente presença de Al Pacino em seu elenco. Há, entretanto, que se reconhecer o belo desempenho de Pacino na composição desse personagem, longe de ser um ‘chefão’ como em seu trabalho mais icônico dentro do sub-gênero gangster, mas sim um subalterno do qual roteiro e direção têm notável inspiração em ressaltar as fragilidades e vulnerabilidades de sua ingrata posição. Ele e o jovem Johnny Depp compensam as poucas novidades que o filme de Newell oferece enquanto cinema, proporcionando um duelo de interpretações afiado no encontro de dois grandes intérpretes cinematográficos vindos de diferentes gerações.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Kill The Messenger

Um grande filme investigativo agraciado com uma belíssima interpretação de Jeremy Renner, este “Kill The Messenger” –genericamente traduzido como “O Mensageiro” em português –une as orientações cinematográficas que definem grandes obras do sub-gênero como o clássico “Todos Os Homens do Presidente” e o premiado “Spotlight-Segredos Revelados” a um senso de denúncia que por vezes acaba rondando circunstâncias bem reais, mas que por seu teor mirabolante e absurdo soam inacreditáveis. Nesse sentido, o trabalho do diretor Michael Cuesta se aproxima da comédia de aventura “Feito Na América”, com Tom Cruise, todavia, se aquele era um trabalho que descontraía o expectador fazendo-o divertir-se com as guinadas tortuosas de sua premissa, também baseada num fato real, aqui, a condução metódica e austera de Cuesta impõe uma densa e adulta seriedade.
Está em pauta a lógica jornalística que foi torcida diante das circunstâncias.
Jeremy Renner vive Gary Webb, repórter do jornal regional San Jose Mercury News. Na busca por uma história bombástica e na proximidade intuitiva com alguns traficantes, ele acaba conhecendo Coral Baca (a absolutamente deliciosa Paz Vega), esposa de um traficante condenado disposta a entregar a Webb um documento que veio parar por acidente em suas mãos: Um protocolo rasurado e confidencial sobre Danilo Blandon (Yul Vazquez), um agente da CIA –talvez, um informante, talvez, um infiltrado –que tinha conexões com traficantes em todo solo americano.
Até aí nada demais. Contudo, ao aprofundar suas investigações, Webb descobre que Danilo Blandon, na qualidade de agente duplo a serviço da CIA, era mais que um mero espião entre os traficantes: Ele era um dos maiores e mais expressivos fornecedores de drogas dos EUA!
Tudo leva à constatação, mais tarde corroborada por outras fontes de Webb, de que o governo dos EUA contribuiu para a circulação de drogas ilegais em certos guetos americanos desde que o dinheiro ilicitamente obtido por esse tráfico financiasse uma guerrilha destinada a provocar uma revolução na Nicarágua, ditando os rumos políticos daquele país.
Sem intimidar-se com as advertências que as fontes encontradas lhe dão (ao mesmo tempo que confirmam, extraoficialmente toda essa verdade), Webb segue em frente e escreve uma matéria que coloca o pequeno San Jose Mercury News no radar de gigantes da mídia jornalística como o Washington Post e outros.
Contudo, os grandes jornais –e, portanto, os jornalistas profissionais neles inseridos –têm ligações com a CIA e, por conta delas, sua postura é defensiva para com os orgãos do governo: Na sequência às revelações, eles procuram invalidar a descoberta de Webb e, aos poucos, em função das próprias convicções, passam a atacá-lo e desacreditá-lo.
A pressão é tamanha que se estende até os profissionais que trabalhavam com Webb, sua editora Anna Simmons (Mary Elizabeth Winstead) e o dono do jornal Jerry Ceppos (Oliver Platt); ambos intimidados e pressionados pela postura antagônica dos veículos de mídia maiores acabam por negligenciar o empenho de Webb em perseguir a verdade, afastando-o da execução do jornalismo.
Esta é, pois, uma trama sobre um “Davi contra Golias” onde os desdobramentos não obedecem sobremaneira as expectativas do público, tão acostumado a ver a verdade prevalecer, sobretudo, em âmbitos americanos nos quais essa máxima é tão defendida.
Mais do que expor uma verdade desconcertante acerca de atividades obscuras e duvidosas do governo americano, o filme coloca o íntegro e transparente Gary Webb na angustiante posição de um mártir terminando por apontar os lapsos morais quando outros profissionais da área do jornalismo priorizam fatores secundários (e de interesse pessoal) em detrimento da verdade.

segunda-feira, 18 de março de 2019

A Balada de Buster Scruggs

A fina ironia tão característica dos Irmãos Coen comparece com seu habitual primor nesta produção da Netflix que reúne alguns de seus mais idiossincráticos elementos.
Como em “Bravura Indômita”, estamos aqui diante de um western –e na abordagem do gênero que visitam, os Coen o evocam de forma tão romântica quanto sarcástica –como em “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, a narrativa se revela pontuada de música –que, no episódio inicial, ocasionalmente é cantada pelos próprios personagens –e como em praticamente todos os filmes sob sua assinatura, este aqui recebe dos Coen um tratamento primordial no qual a sina inapelável dos incautos seres humanos escolhidos para serem seus protagonistas ganha tanto em humor negro quanto em drama humano.

No primeiro dos seis formidáveis episódios que constituem este filme, acompanhamos a inusitada figura de Buster Scruggs que não somente dá nome ao filme, mas também oferece ao sensacional Tim Blake Nelson a chance de se mostrar um intérprete singular.
Scruggs singra o velho oeste americano ciente da fama de perigoso pistoleiro que construiu –e declamando essas circunstâncias em canções cantadas a céu aberto. Onde chega, porém, não é temor que Buster Scruggs suscita: Por seus trejeitos afáveis, seu modo de falar pitoresco e suas roupas caricatas e espalhafatosas –aspectos tornados impagáveis na atuação magnífica de Blake Nelson –ele só inspira petulância em seus desafetos; que ele enfileira, na forma de um cadáver após o outro!
Mas, como ele próprio canta na assombrosamente linda canção que encerra o episódio, há um final para tudo, e mesmo o pistoleiro mais ágil encontra, um dia, alguém com o gatilho mais rápido que o seu; e mesmo a voz mais bela, uma hora ou outra, há de encontrar uma cuja afinação a supere.

Interpretado por James Franco, o assaltante de bancos que protagoniza o segundo episódio experimenta uma sucessão de infortúnios tão bizarros que só poderiam vir mesmo da imaginação dos Coen: Capturado –por um estranho adversário revestido de panelas (?!) –ele é colocado à sombra de uma árvore para ser enforcado. Na hora H, seus algozes são mortos por índios que aparecem tão rapidamente quanto somem, deixando-o com a corda presa no pescoço, montado num cavalo que pode caminhar a qualquer momento –lembra muito a cena que inicia o filme “Maverick”, com Mel Gibson.

O terceiro episódio traz uma dose de intimismo e angústia com a qual volta e meia os Coen surpreendem o público. Liam Neeson é um dos dois membros de um pequeno espetáculo itinerante que singra os ambientes desolados do Oeste.
Entre aldeias gélidas –seja no clima, seja na receptividade social –e lugarejos angustiantes e angustiados, ele e um aleijado desprovido de braços e pernas (Harry Melling) apresentam sempre o mesmo monólogo –que a cada apresentação extrai menos moedas de seus expectadores.
O Velho Oeste mostrado não como o palco para tiroteios honrados e climáticos, mas como um mundo habitado por pessoas submetidas às mais terríveis e implacáveis privações, é o mote deste episódio: O personagem de Neeson aos poucos se ressente da situação de enfermeiro particular em circunstâncias para lá de adversas –e que chegam a lembrar um pouco “Monstros”, de Todd Browning –até que uma galinha adestrada o faz descobrir um modo mais simples de ganhar a vida; para azar do pobre aleijado...

Tom Waits é o protagonista do episódio seguinte, sobre um mineiro que se estabelece num vale até então harmonioso e livre da intervenção do homem. Seu objetivo é achar um veio de ouro puro que, por meio de seus metódicos conhecimentos de mineração, ele será capaz de encontrar através do rio local.
Os Coen, no entanto, reservam uma cruel e sarcástica guinada perto do final.

O quinto episódio acompanha a desafortunada vida da jovem Alice Longabaugh (a bela Zoe Kazan, na mais expressiva personagem feminina de todo o filme). Arrastada pelo malsucedido irmão para um iminente casamento arranjado como parte de seus negócios duvidosos, ela vai parar numa caravana –no melhor estilo “Cimarron” –em direção ao Oeste Selvagem. Entretanto, o irmão dele morre de cólera durante a penosa viagem deixando-a em maus lençóis: Sem ideia de como pagar o empregado contratado, de como cuidar do cachorrinho dele, o irritante Presidente Pierce (!), e basicamente sem ter onde ficar após terminada a longa viagem.
O destino sinaliza com alguma boa-venturança quando ela cai nas graças de Billy Knapp (Bill Heck), braço-direito do capitão da caravana (Grainger Hines).
A narrativa pitoresca e contida dos Coen constrói pacientemente um ensejo de relacionamento a brotar com espontaneidade entre a brutalidade que vinham retratando, só para desferir um soco na cara –recheado de ironia cruel –perto de seu desfecho.

O sexto e último episódio remete à “No Tempo das Diligências”, de John Ford, e de certa forma, também à “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino. Ele se ambienta quase todo dentro de uma diligência designada a não parar por nada até chegar ao seu destino –no que pode ser enxergada como uma metáfora aberta a inúmeras intepretações.
Os cinco ocupantes lá dentro são pessoas de classes sociais tão distintas quanto o são seus aspectos, suas prosas e suas personalidades: Há o matuto falastrão (Chelcie Ross) de tão pouca experiência na interação social que mal se dá conta do quão tediosa e inconveniente é sua conversa; a senhora abastada (Tyne Daily) de modos mais perdulários que sua condição financeira permite; e o apostador inveterado (Saul Rubinek, de “Os Imperdoáveis”) cujo cinismo só não é maior que a covardia.
Em meio à conversação desnorteada e com frequência desregrada, os três não se dão conta de que os outros dois passageiros (Jonjo O’ Neil e Brendan Gleeson), bem mais comedidos e calados, são na realidade assassinos de aluguel –e se há algo, na concepção dos Coen, que iguala todos os seres humanos numa mesma manada de indivíduos assombrados é o medo da morte.
Dando a cada um desses notáveis episódios uma unidade narrativa que os torna únicos, os Irmãos Coen constroem uma antologia brilhante, áspera, árida e bem-humorada (apesar de tudo) da difícil vida no Oeste.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Syriana - A Indústria do Petróleo


Como em “Traffic” –o filme pelo qual venceu o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado –a estréia como diretor de Stephen Gaghan, “Syriana”, é uma trama que amplifica seu tema central por meio de três linhas narrativas fragmentadas que se ramificam e se complementam ao longo do filme.
De um lado, temos o agente da CIA Bob Barnes (George Clooney, ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, mas certamente o personagem principal do filme) cuja experiência em lidar com os meandros complexos das negociações armamentistas travadas entre células terroristas conquistou o milagre de mantê-lo vivo esses anos todos; ironicamente, sua derrocada parece vir de dentro da própria CIA quando seus superiores começam a mover um plano para torná-lo bode expiatório numa circunstância que tornou-se desfavorável.
De outro lado, acompanhamos o conselheiro financeiro norte-americano Bryan Woodman (Matt Damon), residente em Genebra, que após uma tragédia familiar consegue uma inesperada proximidade com um príncipe saudita disposto e usar de sua fortuna para melhorar as condições de vida no Oriente Médio.
A terceira trama segue o advogado Bennett Holiday (Jeffrey Wright) representante menor de uma indústria norte-americana de extração petrolífera –e cuja influência tentacular de seus diretores atinge as condições sócio-políticas dos moradores do Irã –sobre quem paira a responsabilidade de viabilizar uma autorização de extração de petróleo cercada por complicações legais que, não raro, esbarram em infrações consideráveis à lei.
Como era de se esperar neste trabalho, Gaghan honra seu passado de roteirista e executa magnificamente bem as amarras de seus núcleos dando solidez à uma trama fácil de se perder, mas ele ainda acrescenta uma direção austera e convicta (herança, talvez, de seu convívio com Steve Sodenbergh) com a qual consegue tornar minimamente palatável esta incisiva (e dada sua postura, surpreendente) crítica às extensões nocivas exercidas pelo governo norte-americano nas mazelas dos países do Oriente Médio.
Seu trabalho une a contundência e a certeza de realismo de um documentário à predisposição dramática e flexibilidade narrativa de uma ficção –o melhor de dois mundos.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?

Os Irmãos Coen já fizeram de quase tudo: Homenagens ao cinema (“Barton Fink-Delírios de Hollywood” e recentemente “Ave, César”); homenagens à gêneros muito específicos (o filme gangster com “Acerto Final”, o film noir com “Gosto de Sangue”, o faroeste com “Bravura Indômita”); cult-movies (“O Grande Lebowski”); ganhadores do Oscar (“Fargo” e, sobretudo “Onde Os Fracos Não Têm Vez”) e até mesmo obras inclassificáveis (“Queime Depois de Ler” e “Um Homem Sério”).
Mas, eis que nessa ânsia por renovação e por jamais se prender numa fórmula, eles decidiram fazer também uma versão moderna do clássico conto da Grécia Antiga “A Odisséia”, assim como também uma produção musical: Tudo num só filme!
Além de ser isso tudo, “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?” é, de certa maneira, também uma homenagem ao cinema, como será possível perceber mais a frente.
Durante o período da Grande Depressão norte-americana (década de 1930), o presidiário Everett Ulisses McGill (George Clooney, em espetacular paródia do astro antigo Clark Gable), junto de seus dois amigos, Delmar (Tim Blake Nelson, sensacional) e Pete (John Turturro), resolve fugir dos trabalhos forçados da prisão estadual e toma a longa estrada para casa, disposto a voltar para os braços de sua relutante mulher, Penny (Holly Hunter) –no quê já fica perfeitamente perceptível a transposição de “A Odisséia” de Omero (cujo protagonista se chama Ulisses!) para esta versão bem-humorada e deliciosamente desmiolada que se vale dessa ambientação inusitadamente norte-americana dessa saga mitológica para fazer uma esperta sondagem das raízes provincianas em muitas das características, positivas e negativas, dos EUA.
Como vem a afirmar as palavras proféticas de um senhor no começo do filme, a viagem dos três será repleta de contratempos e distrações, além da constante perseguição da polícia –na forma de uma presença espectral e diabólica que parece ter um dom sobrenatural para encontrá-los.
Eles encontrarão Tommy Johnson (Chris Thomas King), um jovem tocador de banjo –numa referência ao filme “A Encruzilhada”, talvez? –que afirma ter vendido a alma ao diabo em troca de talento ao dedilhar o instrumento (junto dele, eles cantam uma música numa rádio local que, no percurso de sua fuga, vai se tornar uma das mais tocadas da estação!); como o próprio Ulisses, encontrarão sereias –ou melhor, lavadeiras de rio! –cuja voz melodiosa será capaz de enfeitiçá-los; além de um ciclope (John Goodman) que os conduzirá à encrencas envolvendo a Ku Klux Khan (numa seqüência musical que se atreve a estabelecer analogias propositais ou não entre as manifestações nazistas e os grandes musicais da Antiga Hollywood) e até mesmo a folclórica e torturada figura do ladrão de bancos Baby Face Nelson (Michael Badalucco).
Tirando de letra a difícil tarefa estabelecida pelo conceito desafiador de conceber um musical em termos tão inusitados (não só a trilha sonora é inebriante como o elenco arrasa nas seqüências cantadas), este belo trabalho dos sempre talentosos irmãos Coen marca a primeira dentre as inúmeras colaborações frutíferas com o igualmente talentoso astro George Clooney, que se mostra extremamente à vontade (ele chegou a ganhar o Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical) trabalhando ao lado de seus já habituais colaboradores: Holly Hunter, John Goodman, John Turturro e Charles Durning, todos já fizeram filmes com os Coen antes.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Colossal

Não é, de modo algum, casual o fato de que os ataques do monstro mostrado neste filme se sucedem na cidade de Seul, capital da Coréia do Sul: O filme do diretor Nacho Vigalondo é, sobre diversos aspectos, fortemente influenciado pelo cinema incomum e vigoroso praticado pelos cineastas de lá.
Herda deles, por exemplo, uma premissa insana e surreal: A nova-iorquina Gloria (Anne Hathaway, recuperando um pouco do brilho perdido nos últimos anos), devido à sua incapacidade de lidar com suas bebedeiras, foi praticamente expulsa de seu apartamento pelo namorado Tim (Dan Stevens, da série “Downton Abbey”) e agora não tem outra opção senão voltar a morar na casa onde cresceu. O reencontro com antigos amigos de juventude é inevitável; e quem ela encontra é Oscar (Jason Sudeikis, uma presença bem menos cômica do que se poderia esperar) que por ela parece nutrir um desejo ainda não resolvido e lhe oferece emprego de garçonete no bar suburbano herdado do pai –logo ela, que precisava de distância das bebidas para refazer sua vida!
Com o tempo, Gloria estabelece um círculo de amizades: Além do prestativo Oscar –que não tardará, também, a revelar um intempestivo lado negro –seus companheiros de bebedeira são o filosófico e viciado Garth (Tim Blake Nelson, de “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”) e o jovem Joel (Austin Stowell).
Ah, sim, existe o detalhe essencial que acrescenta insanidade e surrealismo ao enredo: Paralelo à esse colapso em que anda sua vida surge, lá na Coréia do Sul, um monstro misterioso levando destruição e medo à população.
Tal monstro é a própria Gloria (!): Ao pisar na área de um parquinho próximo de sua casa num determinado horário (e a explicação para esse fenômeno, ainda que previsivelmente mirabolante e até redundante, vem perto de seu final), o monstro se materializa em Seul, e realiza exatamente os mesmos movimentos que ela também faz (!).
O temor dela em machucar inadvertidamente pessoas do outro lado do mundo é ampliado quando o próprio Oscar descobre que, assim como ela, também pode se materializar em Seul –por sua vez, como um robô gigante (!). A partir daí, Oscar dá vazão a todos os seus ressentimentos por Gloria demonstrar atração por Joel e não por ele, o quê compromete a segurança dos sul-coreanos, e dá a Oscar um meio de chantagear e controlar a vida de Gloria.
A saída que ela encontra para esse desenlace é até bastante inventiva e inesperada.

A tradição dos filmes de monstros do cinema comercial é antiga e ampla, envolvendo exemplares como o clássico “King Kong”, e suas várias versões e reformulações, o suspense em found-footage “Cloverfield-Monstro”, o famoso “Godzilla” –protagonista de incontáveis produções –e diversos outros títulos que passeiam por superproduções e pérolas do cinema trash. À essa vasta coleção, Vigalondo acrescenta um de seus mais desiguais espécimes: Um filme de monstro que é, também, um drama psicológico sobre as frustrações acarretadas pela falta de amadurecimento, no qual as facetas de cinema fantástico, embora inseridas com um mínimo de plausibilidade na trama, são também metáforas sobre a dinâmica abusiva nos relacionamentos desfigurados pelo rancor e pela mágoa.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O Incrível Hulk

Em 2008, a Marvel Studios, com “Homem de Ferro”, iniciou seu projeto em longo prazo que consolidar um universo cinematográfico com as mesmas propostas de sinergia e interação que já regia o seu universo dos quadrinhos, apinhado de super-heróis clássicos.
Poucos meses depois, o estúdio entregou este novo filme do Incrível Hulk, dando continuidade ao seu plano de conectividade (trazia uma ponta ilustre de Robert Downey Jr., o Homem de Ferro em pessoa, deixando claro que tudo se passava num mesmo universo) e apagando toda e qualquer relação com o longa anterior do personagem, dirigido poucos anos antes por Ang Lee e, embora dotado de méritos, bastante incompreendido por público e crítica.
Nota-se que o filme de Lee, e sua dramaturgia complexa e abordagem desigual, serviram como uma espécie de contra-exemplo à este filme: Em todos os sentidos, a Marvel tentou evitar as mesmas armadilhas nas quais o filme de Lee caiu, e pelo qual foi amplamente malhado.
O filme era lento? Pois eis que entra o diretor francês Louis Leterrier (do acelerado “Cão de Briga”, com Jett Li) vindo da escola de filmes de ação de Luc Besson.
Os expectadores não gostaram da estética do CG translúcido escolhido para retratar o Hulk? Pois aqui, os efeitos especiais (bastante eficientes, por sinal, mas não perfeitos) tratam de concretizar um Hulk cheio de renderizações e texturas que simulam sujeira, sombras e marcas tornando-o bastante real e palpável.
O público achou um absurdo aqueles saltos descomunais e quilométricos que o Hulk de Ang Lee dava (e que, por sinal, propiciaram cenas muitos belas e interessantes e que, à propósito, eram bastante fiéis com o que se passa nos quadrinhos)? Pois aqui, os realizadores foram bastante sutis ao mostrar os saltos do Hulk: Ele ainda salta, cobrindo vastas distâncias, mas isso quase não é mostrado, ficando mais no plano da sugestão.
Outra decisão envolveu afastar-se um pouco do material das HQs, e concentrar-se um pouco numa percepção mais geral que os expectadores tinham do personagem, o quê incluía assim aproveitar muitos elementos também da clássica série de TV protagonizada por Bill Bixby e Lou Ferrigno (este inclusive, fazendo uma participação especial).
Na nova versão do monstro verde da Marvel para os cinemas o ator Eric Bana é, portanto, substituído por Edward Norton, no papel já bastante icônico de Bruce Banner/Hulk (mais tarde, a própria Marvel promoveria outra substituição colocando Mark Ruffalo no lugar de Norton, obtendo finalmente o ator ideal para o papel), já no lugar da maravilhosa Jennifer Connelly como Betty Ross entrou Liv Tyler, bastante festejada na época por sua participação como Arwen na trilogia “O Senhor dos Anéis”, e para o papel do General Ross (brilhantemente personificado por Sam Elliot) foi chamado o sempre eficiente William Hurt, compondo um Ross muito mais vilanesco e menos humano.
Percebe-se também o empenho da Marvel em evitar mais uma vez girar em torno da origem do personagem, resumida na breve cena inicial dos créditos.
A partir daí, o filme concentra-se em Bruce Banner que, na condição de fugitivo do exército norte-americano, refugia-se à princípio nas favelas do Rio de Janeiro a fim de buscar uma cura para sua constante transformação no monstro denominado Hulk (o cenário brasileiro permite, inclusive, uma ponta da linda atriz Débora Nascimento, dos poucos membros do elenco a falar um português fluente e não afetado no filme). Descoberto, Banner prossegue em sua fuga terminando por chegar aos EUA, onde reencontra sua antiga paixão, Betty Ross, filha do homem que o persegue obstinadamente, o General Ross.

A jornada de Banner acaba em Nova York, em meio a uma luta devastadora contra outro ser monstruoso, o Abominável, resultado de uma transformação sofrida pelo irascível comandante Emil Blonsky (Tim Roth, compondo um vilão bastante satisfatório no que tange às cenas de ação). 

domingo, 12 de junho de 2016

Lincoln

Daniel Day-Lewis escreveu seu nome na história do cinema como o primeiro intérprete a conquistar três Oscar de Melhor Ator na carreira: Por "Meu Pé Esquerdo", em 1989, por "Sangue Negro", em 2007, e por este "Lincoln" em 2012. O quê acaba sendo um fator que contraria a máxima de que é Robert De Niro o grande ator vivo da atualidade...
Todavia, vamos falar um pouco do filme de Steven Spielberg: Segunda colaboração sua com o roteirista e dramaturgo Tony Kushner (a primeira foi "Munique"), este trabalho ressalta a personalidade poderosa de seu escritor; mais do que Speilberg, é perceptível o olhar agudo, humano e minucioso de Kushner, e seu marcado estilo, na trama que se desenrola em ambos os filmes.
Neste, o ano é 1865. Abraham Lincoln acaba de ser reeleito para seu segundo mandato como presidente dos EUA enquanto a Guerra Civil Norte-Americana vai para seu quarto ano. Mas o presidente reeleito tem específicas ambições para sua nova gestão: não só deseja conseguir a paz de uma guerra da qual todos estão cansados, como planeja obter no Congresso a aprovação da 13ª Emenda, abolindo a escravatura de todos os Estados Unidos, uma manobra complicada, uma vez que a questão do abolicionismo é o cerne da própria guerra. O presidente Lincoln irá valer-se de sua capacidade de dissuasão e engenhosas manobras políticas para obter os votos no congresso, como os quais visa conseguir a paz e a liberdade.
A ironia captura pelo texto de Kushner, e tao bem emoldurada pelo talento superlativo de Spielberg, mostra que o presidente Lincoln, tão puro de intenções e tão imaculado na imagem que é feita dele para o mundo, lançou mão de propinas e corrupção para alcançar seu objetivo: A sequência da histórica votação no congresso da 13ª Emenda é, ela própria, uma aula de cinema em todos os ângulos que possam ser imaginados.
E aí, volta-se sempre à mesma questão, inevitável quando se fala desse filme: Daniel Day-Lewis.
O filme certamente não funcionaria se Spielberg não tivesse achado o ator ideal para o papel, e Day-Lewis faz muito mais que isso: Ele dá uma dimensão preciosa, minimalista e estudada de Lincoln, rica em detalhes e maneirismos que só são notados na segunda ou terceira vez que se assiste ao filme: Com o perdão dos dois ótimos trabalhos anteriores nos quais ele ganhou o Oscar, é este daqui onde Daniel entrega aquela que é sua obra-prima! Fica até sem graça falar do restante do elenco, todos espetaculares, em especial Tommy Lee Jones, mas cujo brilho empalidece diante de seu magnifico protagonista.
 O fato de ser excessivamente político e dialogado não lhe tira brilho algum, por sinal, este primoroso filme de Steven Spielberg, agraciado com a atuação magistral de Daniel Day-Lewis, merece ser descoberto por todo e qualquer expectador avesso à filmes políticos por pensar que são todos "chatos".