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terça-feira, 2 de setembro de 2025

Uma Equipe Muito Especial


 É até inconcebível hoje ver Tom Hanks como coadjuvante das não tão estelares Geena Davis e Lori Petty (de “Caçadores de Emoção”), menos ainda quando percebemos que ele é pouco mais que o alívio cômico do filme, mas esse é só um dos indicativos que mostram que “Uma Equipe Muito Especial” –ou "A League of Their Own", seu título original –pertence a outros tempos, afinal, Geena Davis havia acabado de fazer “Thelma & Louise” (e de ser indicada ao Oscar por isso!) enquanto que Madonna (também presente no elenco) estava recém-saída de “Dick Tracy”.

Dirigido pela saudosa Penny Marshall (que havia dirigido Hanks em “Quero Ser Grande”), o filme é consequência direta da indicação ao Oscar de Melhor Filme para “Tempo de Despertar”, em 1990, o que deu à Penny a capacidade para viabilizar o projeto que quisesse.

E o projeto que ela quis diz muito de suas inclinações morais e pessoais como contadora de histórias: A trajetória dos membros da Liga Americana de Beisebol Profissional Feminino, a AAGPBL, fundada por Philip K. Wrigley em 1943 (numa forma de não interromper os campeonatos de beisebol, tão amados pelo público norte-americano, e suprir a ausência de jogadores masculinos que estavam todos lutando na Segunda Guerra Mundial) e mantida até 1954. No filme, o fundador da Liga Feminina chama-se Walter Harvey (e é interpretado por Garry Marshall, diretor de “Uma Linda Mulher” e irmão da diretora Penny), personagem fictício criado a partir do próprio Philip K. Wrigley –é ele quem escala Ira Lowenstein (David Strathairn) para o trabalho de Relações Públicas, e chama o olheiro Ernie Capadino (Jon Lovitz) para percorrer os EUA atrás de habilidosas jogadoras.

Os testes logo revelam talentos promissores no beisebol comos as irmãs Dottie Hinson (Geena) e Kit Keller (Lori), a batedora bidestra Maria Hooch (Megan Cavanagh), a meia-campista e ex-dançarina Mae Mordabito (Madonna), a terceira defensora Doris Murphy (Rosie O’Donell), e outras. Todas seguem, de suas moradas (Dottie e Kit eram do Oregon; enquanto Mae e Doris eram de Nova York) para Chicago e, de lá, para as turnês de jogos que compõem a temporada 1943.

O personagem de Hanks é o técnico rabugento, decadente e alcóolatra Jimmy Dugan, que encara com inicial relutância a tarefa de dirigir o recém-formado time Rockford Peaches, onde todas as protagonista jogam. Pouco a pouco, o esmero e o talento das jogadoras vai não apenas conquistando a aprovação do técnico Dugan como também obtendo inesperado sucesso junto ao público que passa a acompanhar de modo cada vez mais numeroso as disputas nos gramados.

É curiosa a questão que o filme levanta em seu clímax: Na partida final, quando o Rockford Peaches encara o seu rival Racine Belles (time para o qual, de um ponto em diante da trama a descontente e desiludida Kit vai jogar, deixando a irmã Dottie no time adversário), a jogada decisiva do jogo envolve justamente as duas irmãs, Dottie e Kit, e sua constante rivalidade –um mote que atravessa todo o filme, justaposto também com o grande amor que as une. Dottie era sempre a melhor, a mais talentosa, a mais hábil e, como mulher, não tinha dificuldades em sobressair-se como a mais bela e a mais elegante, características que só ressaltavam a insegurança e a vulnerabilidade de Kit. Nesse acerto de contas final entre as duas é apenas sugerido na narrativa que, talvez, tenha sido Dottie quem terminou deixando que sua irmã (e, por consequência, o time dela) vencesse aquela partida.

Amparado em diversos expedientes básicos dos filmes esportivos –desde o técnico implicante até a gradual aceitação do time pelo público, passando pelos conflitos ora engraçados, ora dramáticos, e culminando no emocionante clímax da partida final –"A League of Their Own" traz esses elementos tão bem dispostos e conduzidos pela diretora Marshall que se torna impossível não se emocionar ou não torcer pelas personagens, em sua busca por aceitação e reconhecimento.

domingo, 29 de janeiro de 2023

Nomadland


 A princípio, pode-se perguntar a quais circunstâncias parece tentar obedecer a técnica e a estética da diretora Chloe Zhao em “Nomadland”? Provavelmente nenhuma que reserve a seu filme qualquer redundância ao drama ou ao melodrama, ainda que todos os caminhos indiquem essa finalidade à premissa. Há, assim sendo, a personagem protagonista Fern, de Frances McDormand, e sua infindável, desamparada e resignada trajetória através das facetas mais ásperas da América –aquela que Hollywood insiste em camuflar e que o cinema independente, de maneira geral, luta ao tentar expor. E falando em expor, há aqui também o acurado senso de realidade da diretora que, na escolha criteriosa da direção de fotografia, revela a vida real árdua em seu silêncio contemplativo, vasta em sofrimento e privação, árida, extensa e incontornável. O mundo parece um grande deserto no qual os personagens peregrinam sem ostentar esperanças de um dia dele escapar.

Fern é, como tantos outros mais que ela encontrará pelo caminho, uma das incalculáveis vítimas da crise financeira de 2008. Perdeu tudo o que materialmente tinha (casa, emprego, renda), e na esteira dessa desgraça, vieram também as perdas pessoais (casamento, família, dignidade). A ela restou, portanto, uma van dentro da qual cabe todos os seus irrisórios pertences, e um mundo inteiro para percorrer em estradas desérticas, a viver de subempregos que mal dão para comprar o alimento do dia e prover uma precária manutenção ao seu automóvel –e com ele, continuar na estrada, em perpétuo estado de transição. Ao encontrar essa circunstância específica –a do desamparo inapelável –Chloe Zhao parece enfim encontrar o filme que tanto queria discorrer; e sobre ele dedica a avidez de suas lentes do início ao fim.

Acaba que “Nomadland” é, pois, no drama convicto que evoca, uma avaliação de um certo aspecto da Grande Recessão de 2008, como foi “A Grande Aposta” ou “Margin Call”, entretanto, diferente dos brilhantes filmes de Adam McKay e de J.C. Chandor, o trabalho de Chloe Zhao não mostra qualquer interesse na gênese mais ampla da questão –o do porque essa mudança do status quo se deflagrou –na postura neo-realista que adota sem concessões, Zhao quer lançar seu olhar para os despossuídos, as pessoas reais para quem importou menos as complexas razões pelas quais seu mundo ruiu, e mais os revezes muito verdadeiros que tiveram de enfrentar, os percalços de natureza quase inacreditável que a pobreza lhes impôs, o caminho de desventuras alarmantes de onde vieram e o horizonte de imponderável desesperança para onde irão. Ao buscar essa verdade, Chloe Zhao então faz de “Nomadland” uma espécie de vitrine, e tem em Frances McDormand –não à toa também creditada como produtora –sua mais poderosa aliada: Única a interpretar um personagem fictício em cena (mas, ainda assim, ostentando tamanha autenticidade que lhe foi impossível negar o Oscar 2021 de Melhor Atriz), Frances segue o filme com a câmera na mão quase a enganchar-se em seu ombro, registrando tudo o que ela vê e por onde passa (lembra também, e muito, o estilo obstinadamente realista dos Irmãos Dardenne em “Rosetta”). E com sua personagem a servir como âncora, uma vasta gama de personagens coadjuvantes extraídos da mais pura realidade vão assim aparecendo e espontaneamente fornecendo suas impressões ao filme, vividos não por atores contratados, orientados, pagos e preparados, mas por pessoas reais que experimentaram de fato cada um dos exasperos que são relatados (ou sugeridos) na cena em que se apresentam.

Seguindo a honorável e clássica escola do neo-realismo à qual pertenceram Roberto Rossellini e outros grandes realizadores, “Nomadland” é o registro pertinente e frequentemente impressionante de um recorte do Mundo e da História que, como tantos outros recortes de momentos emblemáticos da Humanidade, haverá e chocar e espantar gerações futuras que não tiveram contato com tal acontecimento. Ele traduz tudo em um viés dramático e poético de difícil apreciação para expectadores desacostumados a esse cinema menos entretedor e mais esclarecedor.

Por isso, apesar de seus pesares, ele se faz muito necessário.

sexta-feira, 25 de março de 2022

Um Beijo Roubado


 “My Blueberry Nights” é a sôfrega tentativa de Won Kar Wai transpor seu estilo preciosista para terras e linguagens norte-americanas, ou seja, falado em inglês, ambientado em solo americano e estrelado por elenco hollywoodiano.

O próprio Kar Wai, no entanto, parece esquecer que muito de suas obras surge do improviso, da percepção instintiva dos sentimentos a pairar sobre seus personagens, da forma orgânica com que estão inseridos em seu contexto, e da atenção minimalista para com pequenos dramas de natureza intimista que ali são apanhados.

Ao aceitar filmar nos EUA –e possivelmente embolsar um belo cachê por isso –Kar Wai aceita algo que não é de sua natureza: Ele pasteuriza, empacota e industrializa um produto antes feito com instinto e espontaneidade, e nesse processo, perde tudo que faz dele único.

Quando inicia-se, “My Blueberry Nights” já começa com predisposições convencionais: Após a inevitável angústia de um rompimento, a jovem Elizabeth, ou Lizzy (a cantora Norah Jones), se descobre envolvida com Jeremy (Jude Law), proprietário de um café; no processo de sedução despido de diálogos que se segue, ele rouba um beijo de Lizzy, ela aparentemente desacordada sob o balcão –a cena que não somente fornece o título nacional como também ilustra o poster original do filme, ainda que ela nunca pareça ter um peso genuíno sobre a trama.

Não há uma explicação mais evidente para a decisão posterior de Lizzy em partir numa viagem pelos EUA –reencontrar a si mesma, talvez? Descobrir novas nuances do amor que teme abraçar? –e, de repente, nem os próprios realizações tivessem intenção de responder a essa pergunta. Nessa imprecisão, infelizmente, o filme de Kar Wai segue claudicante e, como era de se esperar, em seu road movie particular Lizzy se defronta com diferentes facetas do amor e de suas consequências, algo que, na pretensão da narrativa, deveria servir de reflexo indireto do próprio amor que Lizzy pode assumir ou não com Jeremy, mas que não são mais que manobras cheias de presunção onde Kar Wai, em maior e menor grau, recria em solo americano, as celeumas sentimentais que ele soube tratar com muito mais profundidade em Hong Kong.

Nessa esteira de coadjuvantes que transcorrem como atrações no palco de um show de auditório, Lizzy conhece Leslie (Natalie Portman, fabulosa), uma jogadora inveterada em Las Vegas, bem como uma mentirosa compulsiva –um reflexo desconfortável da desonestidade da própria Lizzy; o casal apaixonado Sue (Rachel Weizs) e Arnie (David Strathaim) cuja união se vê frequentemente fragmentada pelo alcoolismo dele; e muitos outros, onde temos a oportunidade de testemunhar um desfile fenomenal de grandes nomes do cinema americano, claramente atraídos pelo interesse de trabalhar com o grande diretor de “Amores Expressos”.

Um esforço do próprio Won Kar Wai em encontrar nos cenários coloquiais dos EUA um ambiente favorável para suas intrigas de amor, “My Blueberry Nights” é lindo em sua identidade visual –a direção de fotografia leva a assinatura de dois mestres da área, Darius Khondji (de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”) e Kwan Pung-Leung (de “Buenos Aires Zero Degree” e “2046-Os Segredos do Amor”) –no entanto, falha na captura de uma impressão específica no retrato de uma América perpetrada por um estrangeiro, como Win Wenders fez tão bem em “Paris, Texas”, ou Louis Malle em “Atlantic City”. Da forma como aqui se expressou, Won Kar Wai muito pouco entendeu dos EUA –e em última instância, muito pouco teve de vontade de entender –o que torna o retorno de Lizzy, ao fim do filme, para os braços de Jeremy, numa retomada da mesmíssima cena que compartilharam no início da sua jornada, uma conclusão bastante redundante acerca das vicissitudes do amor e da vida. um saldo complicado e nada promissor para uma obra que, como as demais de Won Kar Wai, se pretende avassaladoramente romântico e recompensador.

Após o engodo que foi essa experiência, Won Kar Wai voltou para sua Hong Kong natal, energizado de suas certezas tradicionais e do quanto sua identidade estava atrelada à sua própria terra. É justo, portanto, afirmar que foram os aborrecimentos vivenciados neste filme que o levaram a compor sua obra mais ambiciosa, “O Grande Mestre”.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

O Exótico Hotel Marigold 2

Reflexo condicionado da boa aceitação do primeiro filme –que encontrou seu público, adepto de comédias graciosas e inofensivas sobre as peculiaridades da meia-idade –o segundo filme, repete a fórmula de “O Exótico Hotel Marigold” dando continuidade à história de seus idosos personagens, ainda em busca do amor, da felicidade e da realização aparentemente descoberta no improvável cenário da Índia.
Todavia, a cena que abre o filme de John Madden se passa nos EUA: Nela, Sonny Kapoor (Dev Patel), o jovem proprietário do Hotel Marigold, e a Sra. Donnelly (Maggie Smith), que ao fim daquele filme tornou-se sua administradora, estão em viagem para encontrar uma junta representante de uma grande franquia de hotéis cinco estrelas –entre os quais vemos a participação especial de David Strathairn.
Tendo obtido singelo êxito com o hotel, o impulsivo e sonhador Sonny quer expandir obtendo assim uma parceria com hoteleiros de fama mundial, para construir um segundo e bem mais suntuoso Hotel Marigold.
Em regresso à Índia, e ao cenário usual do primeiro filme, ele e a Sra. Donnelly sabem que estão por receber o inspetor que avaliará se o Hotel Marigold tem condições de fazer jus à parceria –só não sabem quem esse inspetor será.
Para Sonny, não resta dúvida: Ele é certamente o escritor Guy Chambers (Richard Gere, em participação tão descontraída quanto luxuosa), e para tanto, Sonny o cobre de bajulações, embora o interesse romântico que Guy demonstre por sua mãe (Lillete Dubey) não lhe desça muito bem à garganta.
Como é significativo no formato plural do roteiro anterior, essa não é a única intriga a movimentar o filme: Além dessa questão empresarial, Sonny tem complicações com sua noiva Sunaina (Tina Desai), cujo casamento marcado para breve enfrenta alguns contratempos com a aparição de um velho amigo galante, sedutor e onipresente que lhe dá nos nervos.
E, claro, temos também o festejado elenco inglês de veteranos que, exceto por Tom Wilkinson, repetem todos os seus papéis: Evelyn (Judi Dench), que parecia ter reencontrado o amor com Douglas (Bill Nigh) no filme anterior, tem suas certezas tornadas aqui mais hesitantes e relutantes (atitude que reduz consideravelmente seu protagonismo nesta continuação), e tudo piora ainda mais quando a ex-mulher de Douglas, Jean (Penelope Wilton), retorna da Inglaterra com a filha dos dois –e um leque de histórias e conversas fiadas!
O metido a conquistador Norman (Ronaldo Pickup) encontrou na aparentemente doce Carol (Diana Hardcastle, de "Casamento de Verdade"), uma chance tardia para o amor; embora ele descubra que isso signifique submeter-se ao ônus de uma relação à dois imperfeita e inesperadamente liberal.
E, por fim, Madge (Celia Imrie) se lança à uma busca por sua cara metade; que parecem ser dois parceiros que ela persegue à bordo de um táxi, sem ter certeza de qual dos dois seguir ou  não –pela sua natureza elíptica e pouco envolvente, essa é a sub-trama mais frágil de um trabalho acometido pela complicação de sub-tramas frágeis.
Centrando muito de seu enredo desta vez no espalhafatoso Sonny –que no filme original era pouco mais que um alívio cômico –“O Exótico Hotel Marigold 2”, na tentativa de repetir o êxito até bastante inesperado do primeiro filme, retoma muitas das histórias outrora bem arrematadas dando a elas um aborrecido sabor requentado, aspecto disfarçado com a presença mais ostensiva do que pertinente de Richard Gere.
No fim das contas, uma continuação desnecessária.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Bettie Page

Há, em princípio, algo de diferenciado entre este filme e os outros trabalhos da diretora Mary Harron (de obras como “Psicopata Americano”): Uma simpatia bastante genuína para com sua personagem principal, embora ainda assim, seu usual tom cáustico se mantenha.
Ao biografar a Rainha das Pin-Us, Harron aproveita para lançar um olhar cheio de ironia crítica sobre as contradições de uma época, e a forma como, no contraste com o presente, essa mesma época se mostra de traços nostálgicos tão curiosos e improváveis.
Interpretada com vigor e certeza por Gretchen Mol (que faz desta a melhor atuação de sua carreira), a protagonista Bettie Page surge já colhida no furacão de interesses ideológicos que polarizaram os EUA dos anos 1950: De um lado, o conservadorismo ferrenho de políticos que instituíram comitês para julgar atividades que eles supunham por contravenções, do outro, a liberdade de expressão (inclusive no que tange ao erotismo) buscada por profissionais e artistas que especularam os mais diversos meios de mídia, em especial, as revistas fotográficas obscuras e clandestinas, produzidas tão somente para atender a demanda de cidadãos comuns com gostos... peculiares.
Há um flashback (como há em muitos filmes com essa natureza biográfica na trama) e regressamos até os anos 1930, quando descobrimos que, desde a infância até o princípio da vida adulta, nos anos 1940, Bettie já experimentava formas diversas de abuso: Primeiro, do próprio pai, depois do marido (ponta do ator Norman Reedus, da série “The Walking Dead”) com quem teve um rápido e malfadado matrimônio, e até mesmo de desconhecidos, numa sequência particularmente desconcertante.
É notável que desde o início, o filme de Harron já deixa evidente em sua sempre inocente protagonista (apesar das várias facetas de sordidez do mundo que a cerca) um fascínio contumaz e fidedigno pelas virtudes da religião –que ela terminou abraçando no final.
Já entramos no início da década de 1950 quando Bettie decide ir morar em Nova York, inicialmente com planos de fazer um curso de interpretação teatral, ministrado pelo personagem do ator Austin Pendleton (de “Um Amor A Cada Esquina” e “Uma Mente Brilhante”).
Com seu desempenho no curso prosperando a passos de tartaruga e os parcos empregos disponíveis apenas de secretária ou garçonete, Bettie procura completar sua renda fazendo ensaios fotográficos, os quais, do início ao fim, ela encara com ingenuidade e sem qualquer malícia. Mas, não a diretora Mary Harron. Ela deixa bem clara a escala gradual que as fotos de Bettie vão galgando em direção à pornografia que a fará notória –do inicial e banal ensaio à beira de uma praia, até os ensaios pagos na agência de revistas gerenciada pelo casal Klaw (Lili Taylor e Chris Bauer) que a fotografam usando roupas de couro e botas de salto alto ao estilo ‘bondage’ até as fotos mais picantes –enfatizando o teor cada vez mais subversivo na trajetória da personagem e, ao mesmo tempo, proporcionando ao público (sobretudo, o masculino) as cenas de nudez total da esplêndida Gretchen Mol que ele tanto quer ver!
O filme –no qual até então predominava uma fotografia em preto & branco –adquire cores quando (a exemplo de “Touro Indomável”, de Martin Scorsese) mostra as cenas filmadas por câmeras Super 8, ou os ensaios fotográficos de Bettie nas revistas.
Também o filme fica colorido toda vez que Bettie viaja para Miami, onde conhece a fotógrafa Bunny Yeager (Sarah Paulson) que com ela faz alguns de seus mais notáveis ensaios, inclusive um para a ainda emergente revista Playboy.
Em algum momento, a fotogenia natural e cintilante de Bettie a faz destacar-se de todas as demais modelos e a torna famosa até para seu próprio prejuízo: Ela é reconhecida nos ensaios e nas audições para teatro, nos restaurantes e nos lugares públicos.
Até que, por fim, é intimada a depor num comitê governamental (interessante que Harron tenha escalado como um dos políticos do comitê, o ator David Strathairn, que estrelou o filme de mesmo tema, “Boa Noite e Boa Sorte”, num papel de posições opostas), onde Bettie sequer tem a chance de dar sua própria versão dos fatos depois de ser deixada em espera por 12 horas (!).
A redenção, para Bettie –o que Mary Harron torna até bastante natural –se encontra na fé.
Produzido pela HBO Films, e criticado por alguns por seu caráter seletivo dos percalços mostrados na trajetória real de Bettie Page, o filme de Mary Harron é irônico por, ao contrário das demais obras independentes que ela realizou, fazer um certo esforço para não se mostrar tão desconfortável ao expectador, função que, a despeito de alguma infidelidade factual, ela cumpre com mérito, sobretudo, graças à bela e carismática presença de Gretchen Mol.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O Mistério das Duas Irmãs


Nesta refilmagem do sul-coerano “Medo”, imbuída de toda a redundância que o cinema americano volta e meia consegue evocar, é possível adivinhar, com alguma atenção, o grande plot-twist do filme já nos seus primeiros minutos: É praticamente a mesma reviravolta que ocorre, por exemplo, no clímax de “Boa Noite, Mamãe”.
Diante disso, o suspense e a tensão engendrados pela narrativa disputam uma batalha desde sempre perdida.
Anna (Emily Browning, de “Sucker Punch” e “Desventuras Em Série”) volta para casa após uma temporada num hospital psiquiátrico; o motivo logo é descortinado: A morte trágica de sua adoentada e combalida mãe em um incêndio.
Ao chegar e reunir-se com sua irmã Alex (a bonitinha Arielle Kebbel, de “Todas Contra John” e “American Pie-Tocando A Maior Zona”), Anna descobre que seu pai (David Strathairn) seguiu em frente e enamorou-se de Rachel (Elizabeth Banks), a própria enfermeira de sua mãe –o que deixa as duas irmãs com um gosto amargo na boca em relação a esse relacionamento.
Elas aproveitam seu tempo livre para reunir indícios, um tanto subjetivos (e não saber ocultar isso é um dos pecados da narrativa), de que Rachel pode não ser a pessoa confiável que aparenta.
Enquanto isso, Anna é frequentemente assediada por aparições que parecem ser espíritos mortos –o de sua mãe e outras vítimas que se incluem em sua investigação.
Uma vez que não assisti, eu não sei dizer até que ponto a trama deste filme corresponde à do filme original (que é considerado superior com unanimidade acachapante, e eu não duvido disso), mas o trabalho na direção dos estreantes The Guard Brothers, Charles (marido da atriz Felicity Jones) e Thomas, de certa forma negligencia a clareza de sua premissa sobrenatural –que eles próprios parecem desdenhar –para seguir um estilo que estranhamente se aproxima da abordagem de Stanley Kubrick em “O Iluminado” –a de que os fantasmas não passam de tormentos da mente –lembrando que essa postura ia contra o que o próprio autor Stephen King imaginava.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Memphis Belle - A Fortaleza Voadora


O diretor inglês Michael Caton-Jones sempre deixou que a irregularidade prevalecesse em sua obra. Uma irregularidade que contaminava suas escolhas estilísticas (nota-se em sua filmografia inclinações diversas para todos os tipos de posturas e gêneros) e as características de seus filmes em geral –houveram muitos diretores que optaram por filmes radicalmente diferentes uns dos outros, mas cuja personalidade manifestava-se na realização tornando similares obras que aparentavam extrema diferença.
Não é o caso de Caton-Jones: De filmes como a comédia rasteira “Dr. Hollywood-Uma Receita de Amor” e o drama “O Despertar de Um Jovem” à aventura “Rob Roy-A Saga de Uma Paixão” e a continuação pseudo-erótica de “Instinto Selvagem”, sua direção parece se adaptar à vontade de seus produtores, como o mais dócil dos operários.
Nesse contexto, o drama de guerra “Memphis Belle-A Fortaleza Voadora” é um de seus melhores trabalhos (talvez, com a honrosa exceção do thriller “Escândalo”).
Como em todos, nele prevalece as vontades e as intenções do produtor que, neste caso, é David Puttman que, desde a década de 1980, gozava de relativo prestígio tendo conquistado um improvável Oscar de Melhor Filme com “Carruagens de Fogo” (um dos grandes azarões do Oscar) e assinando ao menos uma obra inquestionavelmente cult, a mais peculiar e autoral de todas as versões de Tarzan, “Greystoke”.
Ambientado na Segunda Guerra Mundial e lançado muitos anos antes de “O Resgate do Soldado Ryan” –e, portanto, destituído do fulgor energético para com as cenas de batalha que o filme de Spielberg obrigou praticamente todos os filmes de guerra a ter depois dele –o enredo de “Memphis Belle” se inicia em 1943.
Há uma comoção à pairar na atmosfera daquela base aérea norte-americana ambientada na Inglaterra: Uma de suas tripulações (justamente a do B-17 nomeado Memphis Belle) está prestes a completar a inédita marca de vinte e cinco missões completas, o que fará dela a primeira equipe a conseguir completar suas tarefas e voltar para casa.
A derradeira missão é carregada de expectativa da parte dos soldados –que se dividem entre empolgação pela conquista iminente e medo da morte provável –e de seus oficiais, entre os quais o humanista e paternalista Capitão Dennis Dearborn (Matthew Modine, de outro belo drama de guerra, “Nascido Para Matar”, de Stanley Kubrick).
No percurso dessa missão (que consiste num arriscado bombardeio à cidade de Bremem, na Alemanha), e no suspense que ela suscita, o filme explora, numa narrativa embriagada da nostalgia do cinema à moda antiga que parece buscar, os anseios e reflexões muitos humanos de seus integrantes, abrindo espaço para um elenco masculino homogêneo e dedicado: O sensível e austero Danny (Eric Stolz); o impulsivo e sem-noção Rascal (Sean Astin); o boa-praça Clay (Harry Connick Jr. cuja verve de cantor é aproveitada numa das mais famosas cenas); o auto-declarado médico Val (Billy Zane); o tremendamente abalado Phil (D.B. Sweeney); o irrequieto e voluntarioso Luke (Tate Donovan); o resignado Virgil (Reed Diamond); o supersticioso Eugene (Courtney Gains); e o taciturno e sério Jack (Neil Giuntoli).
Nem tanto uma obra debruçada sobre o espetáculo da guerra quando à exaltação de bons sentimentos (embora a sequência final prime por realismo e intensidade), este filme abre mão de atos heroicos individuais para entregar a história de um emocionante e sincero esforço conjunto.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Godzilla


A vontade do ótimo diretor Garreth Edwards em emular Steven Spielberg é tanta que ele a extrapola: As cenas que sugerem a presença do famoso monstro nas quais mais se sugere do que se mostra remetem imediatamente às cenas elaboradas em “Jurassic Park” e principalmente em “Tubarão”.
Jovem e talentoso, Edwards (cujo crédito como realizador do interessante e independente “Monstros” certamente viabilizou seu passe para este projeto) compreendeu que havia a necessidade de uma referência cinematograficamente mais salutar nesta nova versão do cultuado lagartão hipônico depois da péssima produção de 1998, dirigida por Rolland Emmerich.
E Edwards dá a cara à tapa: Honra não apenas as lições de Spielberg como também realiza uma cena inteira com a arrepiante trilha sonora de Ligety para “2001-Uma Odisséia No Espaço”, de Kubrick; confere ao seu filme um elenco povoado de rostos não só famosos, mas indiscutivelmente competentes (o japonês Ken Watanabe, a inglesa Sally Hawkins, Aaron Taylor-Johnson, Elizabeth Olsen, Bryan Cranston, Julliete Binoche); e finca o pé numa caracterização absolutamente fiel ao Godzilla no designer que ele se apresenta nos filmes originais –mesmo aqueles que padeciam de uma produção rudimentar.
Um longo prólogo (que dura mais do que o necessário) mostra os personagens de Cranston e Binoche (que infelizmente não têm tempo de tela o bastante) às voltas com uma estarrecedora descoberta dele: Após sucessivas pesquisas, uma raça desconhecida de monstros que se alimentam de radiação, os Mutos, é descoberta (e despertada) no Japão.
Anos depois do ocorrido –que a própria corporação envolvida no caso mantém cercada de mistério –e com as investigações à cargo do filho dos envolvidos naquele ocorrido (o papel de Aaron Talor-Johnson), os monstros retornam, agora nos dias atuais, novamente reanimados por radiação. E desta vez, sua sanha de destruição se revela implacável e inacobertável!
Ao mesmo tempo, surge uma criatura abissal e imensurável: o Godzilla. Rastreando esses perigos catastróficos em potencial, as autoridades norte-americanas elaboram o único plano possível: confrontá-los com suas mais poderosas armas.
Entretanto, a saída talvez esteja em permitir que o próprio Godzilla dê cabo de todos eles.
Além da luxuosa produção –que não poupa esforços ao estender a trama para diversos continentes numa notável escala global –e da sua peculiar percepção das cenas de destruição, bem como a forma pouco usual de reger o drama, que conferem sabor ao filme, o trabalho de Edwards ostenta uma nítida intenção de afastar-se às comparações com o “Godzilla” de Emmerich, e nesse esforço de se levar a sério acaba gerando uma estranha incongruência entre a sisudez de sua narrativa (e na seriedade compenetrada de seus intérpretes) e a natureza escapista do filme; Godzilla, afinal, ainda é um lagarto gigante de obras com apelo infanto-juvenil de matinê.
Se falta algum senso de humor para lembrar esse detalhe, o filme de Edwards ao menos compensa esse estoicismo com um belíssimo refinamento.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A Tempestade

William Shakespeare não era necessariamente uma novidade na filmografia de Julie Taymor (de “Across The Universe”) –muito antes ela havia se aventurado numa versão musical e lisérgica de “Titus”, com Anthony Hopkins –isso explica, talvez, o fato dela ter abordado a junção de ambições, revanches, traições e magia que compõem a trama passada numa ilha mediterrânea com um revisionismo tal que –sinal dos tempos –mudou o sexo de seu protagonista.
Se antes o personagem principal Prospero era homem (e chegou a ser interpretado por John Gielgud e Peter Fonda em outras versões), agora é convertido numa mulher, Prospera (que ganha assim a excelência de Helen Mirren).
Outrora a Duquesa de Milão, Prospera foi exilada numa ilha do mediterrâneo devido às maquinações conspiratórias de seu irmão, Antonio (Chris Cooper) e de outros membros da corte de Nápoles, como o próprio rei (David Strathairn) e seu irmão invejoso (Alan Cumming).
Ao mover sua vingança munida de forças sobrenaturais, Prospera se revela então um reflexo do próprio Shakespeare: Abandonada na ilha, junto de seus livros e da própria filha, Miranda (Felicity Jones, linda), ela desenvolve poderes com os quais controla o destino dos incautos viajantes –tal e qual o próprio escritor o faz com os personagens à disposição de sua trama.
Auxiliada pelo subserviente espírito Ariel (Ben Wisham), Prospera conjura uma tempestade com a qual consegue fazer naufragar na ilha um navio trazendo todos os seus antagonistas –e deles faz gato-sapato.
Como em “Titus”, a diretora Taymor imprime um senso visual colorido e surreal à trama, remetendo a uma artificialidade dos palcos de teatro potencializada com efeitos especiais de última geração e trucagens de câmera que buscam romper com qualquer predisposição tediosa do enredo. Nesse sentido, Julie Taymor, apesar de uma ou outra opção estética de gosto discutível, revela um entendimento de Shakespeare muito mais apurado do que, por exemplo, o jovem diretor Justin Kurzel e sua equivocada versão de “MacBeth”: Ela compreende que, vertidas para cinema, as tragédias de Shakespeare devem agregar em seu material as ferramentas que o cinema tem –o esplendor visual, a montagem inquieta e instigante, os atores capazes de hipnotizar a câmera (aqui não apenas estão as maravilhosas Helen Mirren e Felicity Jones, como também os incontroláveis Alfred Molina e Russel Brand).
Além disso, existem também as cenas de Ariel convertido aqui num ser etéreo e abstrato, na boca do qual Taymor deposita versos declamados em versões musicadas, e o monstruoso Caliban (Djimon Houson, de “A Ilha” e “Gladiador”) envolto numa maquiagem pesada e desconcertante.
Ainda que mais amena e não tão propensa ao experimentalismo e à transgressão, a versão de Julie Taymor bebe um pouco da fonte de Peter Greenaway e sua versão ultra-estilizada, “A Última Tempestade”, em suas singulares peripécias visuais e sua profusão de cores e imagens exuberantes a emoldurar o trabalho de um elenco empenhado e apaixonado.
Ótimo cinema a ser usufruído, entretanto, por públicos específicos.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Los Angeles - Cidade Proibida

Uma pena que na cerimônia do Oscar de 1997, este espetacular “Los Angeles-Cidade Proibida” tenha batido de frente com um rolo compressor chamado “Titanic”, que acabou levando 11 estatuetas. “Los Angeles...” terminou a cerimônia com duas estatuetas (de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz Coadjuvante para Kim Basinger), o quê não basta para premiar sua excelência: Em outros anos certamente seria esta produção requintadíssima a grande vencedora da noite.
Três detetives de polícia na Los Angeles dos anos 1930, o truculento e determinado Bud White (Russell Crowe, tão formidável quanto em seu filme seguinte, “Gladiador”), o recém-formado e meticuloso Ed Exley (Guy Pierce) e o ponderado e bom vivant Jack Vincennes (Kevin Spacey), se vêem, de diferentes formas, às voltas com uma conspiração criminosa que se estende até os núcleos de liderança do departamento de polícia.
Uma dissertação sobre a corrupção moldada pelo diretor Curtis Henson, travestida do mais charmoso cinema que a generosidade de um estúdio pode produzir, mas ainda assim preservada em todas as suas inflexões de intimismo e questionamento –seu protagonistas são tragados por aquilo que crêem enfrentar, como Bud White, notoriamente violento com homens que agridem mulheres, mas cujos meandros tentaculares e insidiosos da intriga em que está envolvido irão levá-lo a agredir Lynn (a personagem de Kim Basinger) por quem se apaixona.
Uma referência e uma reverência ao gênero film noir, concebida por Curtis Henson, que urge aqui sua mais perfeita obra: Em tudo e por tudo, este é um trabalho de absoluto primor cinematográfico, onde a perfeição de seu ritmo e de sua condução serve aos propósitos de um roteiro (elaborado em minúcias rocambolescas por Brian Helgeland e pelo próprio diretor Hanson) escrito com equilíbrio, desenvoltura e plena noção de atmosfera, mostrando também uma das mais prodigiosas utilizações do campo e contracampo vistas no cinema.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Boa Noite e Boa Sorte

Vez ou outra costuma acontecer de um ator (ou astro) aventurar-se atrás das câmeras e, nesse processo, revelar-se um diretor de inúmeros predicados: Até mesmo o hoje consagrado e cultuado Vittorio De Sica havia iniciado sua carreira artística como intérprete (e até galã!) antes de ir para trás das câmeras e se tornar esse gigante entre os diretores italianos, dando uma contribuição inestimável para o movimento do neo-realismo.
A Academia de Artes Cinematográficas, por sua vez, gosta de expressar sua simpatia por esse tipo de acontecimento: Entre seus ganhadores do Oscar figuram Robert Redford e sua direção em “Gente Como A Gente”, Kevin Costner em "Dança Com Lobos", Mel Gibson em “Coração Valente”, e mais recentemente, Ben Affleck em “Argo”.
Em 2007, foi a vez de George Clooney tentar a sorte e mostrar suas capacidades como diretor e roteirista tendo surpreendido em seu projeto anterior, o incomum “Confissões de Uma Mente Perigosa”.
Contudo, em comparação com aquele filme pequeno, algo simpático, cheio de vontade para com sua própria proposta, este “Boa Noite e Boa Sorte” é um salto quase inacreditável de sofisticação e arrojo.
Os eventos registrados se dão na década de 1950. Sob a amedrontadora perseguição ideológica do Senador McCarthy, que moveu a chamada "caça às bruxas"comunista nos EUA, o apresentador de televisão Edward R. Murrow (o excelente David Strathairn), decide, junto de uma brilhante e corajosa equipe de TV, mover um programa onde buscava, junto ao público norte-americano, esclarecer os fatos e quando necessário questionar a postura do Senador com relação a política de intimidação que se alastrava no país e que havia perigosamente se infiltrado, como bem havia ele percebido, nos meios de comunicação.

Mais do que o fundamental retrato de um estupendo momento da história norte-americana, em que a luta por liberdade de expressão se fez necessária, Clooney esbanjou coragem e talento em cada uma das decisões que tomou acerca da integridade artística de seu filme, concebendo assim uma obra-prima dirigida com desconcertante maestria e coragem, filmada com significativa fotografia em preto & branco.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O Ultimato Bourne

   Como quem não quer nada, a “Trilogia Bourne” estabeleceu uma nova forma de se fazer filme de ação, e de quebra elevou consideravelmente o patamar de qualidade das obras vindas desse gênero. Prova disso é a inquestionável semelhança com que a reinvenção da série 007 (não por caso, também ela, uma série de ação e espionagem) promovida por Martin Campbell em “Cassino Royale”, com Daniel Craig, possui com esta série: O James Bond de Craig, inclusive, guarda traços que o aproximam muito mais do Jason Bourne de Matt Damon que das encarnações datadas de Bond feitas por Sean Connerry, ou Roger Moore.
   Mas, vamos ao filme em questão: Quando foi lançado, “O Ultimato Bourne”, o terceiro e assim alardeado último filme da série, tinha curiosas expectativas a pesar sobre si; os dois filmes anteriores, “Identidade” e “Supremacia” foram afinal surpreendentes sucessos, nos quais não se esperava o êxito largamente obtido e ainda menos a surpreendente qualidade com o qual foram realizados.
    Para esta terceira parte, todos esses fatores estavam sendo levados em conta e era uma incógnita como o diretor Greenglass encerraria uma trilogia que ele mesmo ajudou a tornar inesquecível.
“O Ultimato Bourne” parte de algumas questões onipresentes em toda a série. Quem é Jason Bourne?     Por quê ele perdeu a memória? Por quê todos o querem morto? E delas extrai a verdade dramática que norteia seu magistral protagonista, assim como todos os coadjuvantes que, para o bem e para o mal, reagem à sua volta.
    Esta continuação direta de "A Supremacia Bourne" inicia-se não na cena final do filme anterior, mas dias antes dela. Acompanhamos Bourne atrás de suas respostas exatamente onde a perseguição de carro acabou, registrando ainda a urgência daquele momento, num trabalho de direção tão brilhante quanto perspicaz.
   A medida que a trama avança e novas revelações vão surgindo, descobrimos que o Projeto Treadstone foi extinguido, e em seu lugar foi instaurado o Projeto Blackbriar.
    Contudo, nem toda a sujeira foi varrida para baixo do tapete. Resta uma última prova viva de todos os crimes cometidos. Resta Jason Bourne. E é imperativo para certos diretores da Agência que Bourne não se encontre com a diretora Pamela Landy (a sensacional Joan Allen): E é aí que este filme primordial faz sua espetacular amarra com o capítulo anterior; “Supremacia” terminava numa cena de diálogo ao telefone, entre Bourne e Pámela, e essa cena é retomada (em um contexto absolutamente brilhante e eletrizante) a partir da metade final do filme.
    Fazendo parecer algo fácil, Greenglass concebe o melhor filme da trilogia, moldando cenas de ação tão inacreditáveis quanto empolgantes, tecendo uma trama notável que ampara todas as pontas soltas dos filmes anteriores, e centralizando Bourne (e a magnífica interpretação de Matt Damon) como o grande personagem que é: Um herói, apesar de todas as suas características prodigiosas, mais vitimizado do que defensivo, que busca corrigir todas as pendências de um passado do qual ele nem lembra.

domingo, 12 de junho de 2016

Lincoln

Daniel Day-Lewis escreveu seu nome na história do cinema como o primeiro intérprete a conquistar três Oscar de Melhor Ator na carreira: Por "Meu Pé Esquerdo", em 1989, por "Sangue Negro", em 2007, e por este "Lincoln" em 2012. O quê acaba sendo um fator que contraria a máxima de que é Robert De Niro o grande ator vivo da atualidade...
Todavia, vamos falar um pouco do filme de Steven Spielberg: Segunda colaboração sua com o roteirista e dramaturgo Tony Kushner (a primeira foi "Munique"), este trabalho ressalta a personalidade poderosa de seu escritor; mais do que Speilberg, é perceptível o olhar agudo, humano e minucioso de Kushner, e seu marcado estilo, na trama que se desenrola em ambos os filmes.
Neste, o ano é 1865. Abraham Lincoln acaba de ser reeleito para seu segundo mandato como presidente dos EUA enquanto a Guerra Civil Norte-Americana vai para seu quarto ano. Mas o presidente reeleito tem específicas ambições para sua nova gestão: não só deseja conseguir a paz de uma guerra da qual todos estão cansados, como planeja obter no Congresso a aprovação da 13ª Emenda, abolindo a escravatura de todos os Estados Unidos, uma manobra complicada, uma vez que a questão do abolicionismo é o cerne da própria guerra. O presidente Lincoln irá valer-se de sua capacidade de dissuasão e engenhosas manobras políticas para obter os votos no congresso, como os quais visa conseguir a paz e a liberdade.
A ironia captura pelo texto de Kushner, e tao bem emoldurada pelo talento superlativo de Spielberg, mostra que o presidente Lincoln, tão puro de intenções e tão imaculado na imagem que é feita dele para o mundo, lançou mão de propinas e corrupção para alcançar seu objetivo: A sequência da histórica votação no congresso da 13ª Emenda é, ela própria, uma aula de cinema em todos os ângulos que possam ser imaginados.
E aí, volta-se sempre à mesma questão, inevitável quando se fala desse filme: Daniel Day-Lewis.
O filme certamente não funcionaria se Spielberg não tivesse achado o ator ideal para o papel, e Day-Lewis faz muito mais que isso: Ele dá uma dimensão preciosa, minimalista e estudada de Lincoln, rica em detalhes e maneirismos que só são notados na segunda ou terceira vez que se assiste ao filme: Com o perdão dos dois ótimos trabalhos anteriores nos quais ele ganhou o Oscar, é este daqui onde Daniel entrega aquela que é sua obra-prima! Fica até sem graça falar do restante do elenco, todos espetaculares, em especial Tommy Lee Jones, mas cujo brilho empalidece diante de seu magnifico protagonista.
 O fato de ser excessivamente político e dialogado não lhe tira brilho algum, por sinal, este primoroso filme de Steven Spielberg, agraciado com a atuação magistral de Daniel Day-Lewis, merece ser descoberto por todo e qualquer expectador avesso à filmes políticos por pensar que são todos "chatos".