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quinta-feira, 29 de maio de 2025

A Fonte da Juventude


 Diretor peculiar e prolífico, Guy Ritchie já adentrou quase todos os gêneros desde que iniciou sua carreira com o cultuado “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”; e o mais impressionante é que ele mantém um ritmo de praticamente um filme por ano. Seria algo normal se fossem filmes ao estilo de Woody Allen (embora também nisso haja mérito), intimistas, dialogados e em baixa voltagem, no entanto, os filmes de Ritchie são cheios de energia, dinâmicos, atrevidos para com a narrativa e inconformistas para com a técnica cinematográfica.

“A Fonte da Juventude”, como tantos antes dele, vale-se da influência quintessencial de “Os Caçadores da Arca Perdida” em particular, e das aventuras de Indiana Jones em geral, para trazer uma produção elaborada em suas cenas de ação aventurescas e intrincada nas investigações arqueológicas que a norteiam. O casal de irmãos, Luke (John Krasinski, diretor e ator de “Um Lugar Silencioso”) e Charlotte Purdue (Natalie Portman) tem maneiras diferentes de honrar o legado do pai, um lendário caçador de relíquias: Enquanto Charlotte trabalha na curadoria de um museu de antiguidades –acomodação que lhe permite levar uma vida doméstica, mas não privada de aborrecimentos (como atesta seu iminente divórcio) –Luke viaja ao redor do mundo envolvendo-se em encrencas arriscadas para pôr a mão em tesouros inestimáveis em nome da História e da Ciência. O caminho dos dois se cruza quando o milionário Owen Carver (Doomnhall Gleeson) contrata Luke, sob a condição de ter também o gênio dedutivo de sua irmã, para encontrar a mítica fonte da juventude: Owen padece de câncer e a fonte, ele supõe, deve conter as propriedades curativas que haverão de salvá-lo. E Owen tem dinheiro de sobra pra financiar a empreitada com toda a sorte de bugiganga tecnológica à disposição.

E aí entra, nesse diferencial estilístico, outra característica que visa afastar um pouco a obra de Guy Ritchie da comparação um tanto constrangedora com a obra-prima de Steven Spielberg: Em “A Fonte da Juventude”, o fato da trama se situar no tempo presente está visível em cada detalhe, sobretudo, no vasto aparato digital do qual os protagonistas e seus genéricos coadjuvantes lançam mão para decifrar a quase indecifrável trilha de pistas dispostas ao redor do mundo, nas mais diversas preciosidades históricas, que levarão à dita fonte da juventude. E isso, consequentemente, aproxima o filme de “O Código Da Vinci” no desenrolar quase inverossímil de pistas absurdamente eruditas e elaboradas que se sucedem –inclusive, Luke, o protagonista vivido por John Krasinski tem, sim, muito de Indiana Jones (o desembaraço quase sobrehumano nas cenas de ação e –vá lá –o carisma do ator), mas tem muito de Robert Langdom também (o vasto conhecimento acadêmico em simbologias e relíquias antigas que convenientemente vem sempre a calhar).

Em algum momento, a fim de tornar mais interessante e conflituoso esse caminho, surge um grupo de mercenários instruídos a impedir qualquer avanço de investigadores ocasionais na aproximação da fonte da juventude, esses mercenários são liderados pela habilidosa Esme (Eiza González, de “Em Ritmo de Fuga”) que, ao longo das idas e vindas e dos percalços nada tranquilos de seu embate com Luke, vai estabelecendo com ele uma relação algo ambígua –e que já se vê posicionada para ser melhor desenvolvida nas potencialmente vindouras continuações do filme.

“A Fonte da Juventude” traz elementos de sobra para agradar aqueles que não se incomodarem tanto com sua falta de originalidade: Do início ao fim, vem adornado com o dinamismo característico de Guy Ritchie na direção, é uma produção farta na pirotecnia das cenas de ação, e seu elenco, no mais, dá conta do recado (sem falar que o foco principal em dois irmãos ao invés do usual casal romântico é bem curioso), contudo, ainda não foi dessa vez que o cinema conseguiu capturar aquela magia presente nas realizações espetaculares que Spielberg entregou nos anos 1980. E essa falha não é exclusividade dos imitadores: O próprio Indiana Jones, em sua produção mais recente, “Indiana Jones e A Relíquia do Destino”, não foi capaz de resgatar o mesmo encanto e fascínio com que fez nascer, no passado, todo um subgênero de aventura arqueológica à moda antiga.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2024


 Mal nos acostumamos com a ideia de que o frenesi de 2023 entrou em sua reta final, e já temos entre nós a lista dos indicados ao Globo de Ouro do ano que vem! O que já confirma algumas previsões para uma certa estatueta dourada; e aponta para algumas surpresas também. Eis, portanto, os indicados nas categorias de cinema:

MELHOR ANIMAÇÃO EM LONGA-METRAGEM

The Boy and The Heron

Elementos

Homem-Aranha Através do Aranhaverso

Super Mario Bros

Suzume

Wish

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA

Anatomia de uma Queda (França)

Folhas de Outono (Finlândia)

Io Capitano (Itália)

Vidas Passadas (Estados Unidos)

Society of the Snow (Espanha)

Zona de Interesse (Reino Unido/Estados Unidos)

MELHOR FILME DE DRAMA

Anatomia de Uma Queda

Assassinos da Lua das Flores

Maestro

Oppenheimer

Vidas Passadas

Zona de Interesse

MELHOR FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Air

American Fiction

Barbie

The Holdovers

Segredos de um Escândalo

Pobres Criaturas

A categoria de animação tem, em “Homem-Aranha Através do Aranhaverso”, seu maior favorito, com a boa repercussão de “Super Mario Bros” e o fascínio recente provocado por “Suzume” colocando-os logo atrás. Na categoria dos estrangeiros, curiosamente, dois filmes produzidos (e, portanto, representando) os EUA concorrem a Melhor Filme em Língua Não Inglesa, tratam-se de “Vidas Passadas”, produzido pela A4 e falado, em sua maior parte no idioma sul-coreano, e o britânico “Zona de Interesse”, dirigido por Jonathan Glazer (de “Sob A Pele”), cuja trama é toda falada em alemão. Além disso, esses dois e mais o francês “Anatomia de Uma Queda” concorrem também na categoria maior de Melhor Filme de Drama. Contudo, nessas categorias principais, apesar da presença intimidadora da grande obra de Scorsese, “Assassinos da Lua das Flores”, quem reina supremo são “Oppenheimer” (em Drama, com 8 indicações) e “Barbie” (em Comédia e Musical, com 9, o recordista!), mostrando que a dobradinha nos cinemas ocorrida no meio do ano ainda está a fascinar público e crítica. Interessante será vermos para qual deles a predileção do Oscar irá pender, uma que vez que lá os filmes concorrerão todos numa só categoria.

MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA

Bradley Cooper (Maestro)

Leonardo DiCaprio (Assassinos da Lua das Flores)

Colman Domingo (Rustin)

Barry Keoghan (Saltburn)

Cillian Murphy (Oppenheimer)

Andrew Scott (Todos Nós Desconhecidos)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA

Annette Bening (NYAD)

Lily Gladstone (Assassinos da Lua das Flores)

Sandra Hüller (Anatomia de uma Queda)

Greta Lee (Vidas Passadas)

Carey Mulligan (Maestro)

Cailee Spaeny (Priscilla)

MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Nicolas Cage (Dream Scenario)

Timothée Chalamet (Wonka)

Matt Damon (Air)

Paul Giamatti (The Holdovers)

Joaquin Phoenix (Beau Tem Medo)

Jeffrey Wright (American Fiction)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Fantasia Barrino (A Cor Púrpura)

Jennifer Lawrence (Que Horas Eu Te Pego?)

Natalie Portman (Segredos de um Escândalo)

Alma Pöysti (Folhas de Outono)

Margot Robbie (Barbie)

Emma Stone (Pobres Criaturas)

Entre os atores, até agora ninguém parece mais relacionado ao prêmio do que o irlandês Cillian Murphy, embora Cooper e Dicaprio tenham chances de crescer ao longo da temporada. Na categoria de intérprete cômico, em meio à nomes de grande estatura como o sempre amado pelo público Nicolas Cage, o ótimo Timothée Chalamet e os sempre competentes Paul Giamatti e Matt Damon, além de Joaquim Phoenix, surpreendentemente indicado pelo terror “Beau Tem Medo” (há quem lamente ele não concorrer em Ator Dramático por “Napoleão”, eu certamente não sou uma dessas pessoas), o favoritismo acabou indo para Jeffrey Wright por seu trabalho em “American Fiction”, premiado no Festival de Toronto e, recentemente, no People’s Choice Awards.

Entre as atrizes, muitos torcem por uma vitória da excelente Lily Gladstone na categoria de drama, ela que é uma das forças maiores do filme de Scorsese, a despeito da forte concorrência de Annette Bening; na categoria de comédia, podemos perceber que Jennifer Lawrence, nem fazendo uma comédia chula e vulgar consegue perder a predileção do público e da crítica (embora o seu filme também seja realmente bom), mas ela tem de enfrentar a franca favorita ao prêmio, Margot Robbie, a Barbie em pessoa!

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Willem Dafoe (Pobres Criaturas)

Robert de Niro (Assassinos da Lua das Flores)

Robert Downey Jr (Oppenheimer)

Ryan Gosling (Barbie)

Charles Melton (Segredos de um Escândalo)

Mark Ruffalo (Pobres Criaturas)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Emily Blunt (Oppenheimer)

Danielle Brooks (A Cor Púrpura)

Jodie Foster (NYAD)

Julianne Moore (Segredos de um Escândalo)

Rosamund Pike (Saltburn)

Da'vine Joy Randolph (The Holdovers)

MELHOR DIREÇÃO

Bradley Cooper (Maestro)

Greta Gerwig (Barbie)

Yorgos Lanthimos (Pobres Criaturas)

Christopher Nolan (Oppenheimer)

Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores)

Celine Song (Vidas Passadas)

MELHOR ROTEIRO

Greta Gerwig & Noah Baumbach (Barbie)

Tony McNamara (Pobres Criaturas)

Christopher Nolan (Oppenheimer)

Eric Roth & Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores)

Celine Song (Vidas Passadas)

Justine Triet & Arthur Harari (Anatomia de uma Queda)

Seria esta a grande chance de Robert Downey Jr. (inclusive para chegar ao Oscar como forte favorito)? É o que, até aqui, está parecendo. Entre as coadjuvantes mulheres, Jodie Foster parece destacar-se soberana, entretanto, os trabalhos de Julianne Moore e Da’Vine Joy Randolph (de “Cidade Perdida”) têm tempo para crescerem até a premiação.

Na categoria de diretores, temos a disputa que parece monopolizar as atenções entre Christopher Nolan e Greta Gerwig (com ligeira vantagem para Nolan em vista da natureza mais séria de seu filme), com Martin Scorsese correndo, por enquanto, por fora. É de se supor que a Imprensa Estrangeira compense, entre Nolan e Gerwig, aquele que perder em Direção com o prêmio de Roteiro.

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

Jerskin Fendrix (Pobres Criaturas)

Ludwig Göransson (Oppenheimer)

Joe Hisaishi (The Boy and The Heron)

Mica Levi (Zona de Interesse)

Daniel Pemberton (Homem-Aranha Através do Aranhaverso)

Robbie Robertson (Assassinos da Lua das Flores)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"Addicted to Romance, Bruce Springsteen (She Came to Me)

"Dance the Night", Mark Ronson, Andrew Wyatt, Dua Lipa, Caroline Ailin (Barbie)

"I'm Just Ken", Mark Ronson, Andrew Wyatt (Barbie)

"Peaches", Jack Black, Aaron Horvath, Michael Jelenic, Eric Osmond, John Spiker (Super Mario Bros)

"Road to Freedom", Lenny Kravitz (Rustin)

"What Was I Made For", Billie Eilish O'Connell, Finneas O'Connell (Barbie)

CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA

Barbie

Guardiões da Galáxia Vol. 3

John Wick 4

Missão Impossível - Acerto de Contas Parte 1

Oppenheimer

Homem-Aranha Através do Aranhaverso

Super Mario Bros

Taylor Swift: The Eras Tour

A categoria Conquista Cinematográfica e de Bilheteria é uma das duas novas categorias criadas pelo Globo de Ouro para esta nova edição –e franca favorita para deixar de existir já no ano que vem... –aparentemente feita para premiar o desempenho na bilheteria de projetos que levam o público às salas nesses tempos de streaming (o que justifica a presença, entre os indicados, do show de Taylor Swift). Nesse sentido, nenhum deles merece mais a ovação do que “Barbie”, a grande bilheteria de 2023.

A entrega dos prêmios e revelação dos ganhadores será realizada no domingo, dia 7 de janeiro de 2024.

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Thor - Amor & Trovão


 Se em “Thor-Ragnarok” o diretor Taika Waititi havia encontrado o que parecia ser enfim o tom certo para as aventuras de Thor –o de uma comédia do absurdo temperada com ação épica decalcada do “Flash Gordon” dos anos 1980 –em “Thor-Amor & Trovão” tais aspirações e, sobretudo, a necessidade muito mercadológica de superá-las, ameaçam ruir sob a pressão da própria narrativa.

Como em seu antecessor, “Amor & Trovão” pulsa espirituosidade, e até mesmo uma certa originalidade na maneira com que enxerga uma forma distinta de colocar seu herói mitológico num prisma diferenciado de graça, conflitos existenciais e visual arrojado, contudo, ao procurar ir um pouco mais longe do que foi “Ragnarok”, lhe aumentando o escopo e tudo o mais, este “Amor & Trovão” acaba também expondo as limitações de Waititi. Nota-se, agora, que ele perde um pouco a noção de seu humor a partir do momento em que se defronta com situações que perigam ser repetitivas, e que sua paciência para com as cenas de ação se esgota muito facilmente.

Experimentando uma crise existencial desde que deixou a Terra ao final de “Vingadores-Ultimato” acompanhado dos Guardiões da Galáxia, Thor Odinson (Chris Hemsworth, sempre formidável) revê sua identidade como super-herói –ele mal tem ânimo, ou motivação, para participar das injustificadas batalhas ao lado de seus novos companheiros. Ainda assim, seu caminho toma um novo rumo quando parte atrás do paradeiro de Lady Sif (Jamie Alexander, numa personagem que havia sido estranhamente esquecida em “Ragnarok”) e descobre que um certo Gorr, auto-intitulado Carniceiro dos Deuses, vem fazendo das suas. Vivido pela hábil concepção minimalista do sempre talentoso Christian Bale, Gorr é um personagem trágico como toca a todo bom vilão –suas incomensuráveis aflições sofreram tamanha indiferença da parte dos deuses para quem rogou ajuda que, uma vez dotado da famigerada Espada Necromante, ele decide dar cabo de todas as divindades universo afora.

Esses percalços levam Thor de volta à terra, onde se encontra a comunidade de Nova Asgard, remanescentes da destruição promovida em seu reino no último filme, e lá, em meio à uma batalha, ele reencontra Jane Foster, uma antiga ex-paixão –leia-se: A namoradinha do super-herói nos filmes “Thor 1” e “Thor 2”.

Interpretada por Natalie Portman, que na época havia acabado de levar o Oscar de Melhor Atriz por “Cisne Negro”, Jane Foster era, até então, algo entre uma donzela em perigo e um alívio cômico. Foi Taika Waititi quem convenceu a atriz a voltar ao papel prometendo-lhe um arco narrativo que parecia ser improvável de ganhar as telas de cinema: Nas HQs, Jane se torna digna de empunhar o Mjolnir –o martelo de Thor, feito em pedaços por Hela, a Deusa da Morte, em “Ragnarok” –e com isso adquire todos os poderes do Deus do Trovão convertendo-se numa versão feminina do herói e num dos tantos exemplos de empoderamento e emancipação que afloraram na cultura pop. Mais do que transpor essa trama para o audio-visual, o que Waititi faz aqui é finalmente mostrar porque uma atriz vencedora do Oscar está a desempenhar esta personagem: Se em “Ragnarok” ele remodelou Thor dando-lhe a ênfase de protagonista que outros diretores não souberam dar, em “Amor & Trovão”, ainda que ele mantenha o foco de seu enredo em Thor, ele transforma Jane numa heroína de fato, dando-lhe um propósito e, de certa maneira, um desfecho. Uma personagem numa jornada.

É claro que, no processo, muita galhofa é mostrada o que, na soma de seus elementos, quase converte “Amor & Trovão” numa comédia romântica: Lá está, afinal, o relacionamento cheio de altor e baixos entre dois personagens feitos um para o outro (ainda que os próprios sejam os únicos que não se deem conta disso); lá estão as piadinhas (algumas bem infames) que temperam as dores de amor com um aroma agridoce; e lá também está uma idealização muito cinematográfica das complicações românticas, onde elas ganham ares de conto de fadas. Se tudo isso é descoberto na moldura muito modernosa de um filme de super-herói, é porque trata-se aparentemente de uma das propostas da Marvel Studios nesta produção. Se “Viúva Negra” era um thriller de espionagem, “Shang Chi e A Lenda dos Dez Anéis” era um épico de artes marciais e “Dr. Estranho No Multiverso da Loucura”, um filme de terror, então, “Amor & Trovão” guardadas as devidas concessões com cenas de ação, batalhas e a profusão usual e incontornável de efeitos visuais, é deveras uma comédia romântica.

Desde os eventos bombásticos ocasionados em “Vingadores-Ultimato” muito se pergunta qual será o caminho trilhado pela Marvel daqui para frente. Ele ainda não ficou completamente claro, mas é visto, pelo que se observou até aqui, que o estúdio está disposto a pisar no freio: Afinal, é inconcebível entregar ano após ano um evento cinematográfico da estatura de “Ultimato”.

A saida, portanto, é experimentar com novas interpretações de gênero, daí a sensação de que, diferente de todos os longa-metragens que iniciaram seu festejado universo compartilhado, todos os filmes que integraram até agora a chamada Fase 4 parecem ser obras independentes, pouco ou nada ligadas umas às outras –ainda que, nas sutilezas, as ligações continuem todas lá.

Pela confiança depositada em Taika Waititi e pela natureza mais incomum do próprio protagonista, “Thor-Amor & Trovão” é a obra mais independente de todas as demais, narrativamente falando, o que significa que o expectador pode aproveitar seu humor claudicante (ora hilário, ora constrangedor), sua emoção ocasionalmente eficiente e o exuberante colorido de suas cenas por aquilo que realmente é: Um filme vibrante, ainda que imperfeito.

sexta-feira, 25 de março de 2022

Um Beijo Roubado


 “My Blueberry Nights” é a sôfrega tentativa de Won Kar Wai transpor seu estilo preciosista para terras e linguagens norte-americanas, ou seja, falado em inglês, ambientado em solo americano e estrelado por elenco hollywoodiano.

O próprio Kar Wai, no entanto, parece esquecer que muito de suas obras surge do improviso, da percepção instintiva dos sentimentos a pairar sobre seus personagens, da forma orgânica com que estão inseridos em seu contexto, e da atenção minimalista para com pequenos dramas de natureza intimista que ali são apanhados.

Ao aceitar filmar nos EUA –e possivelmente embolsar um belo cachê por isso –Kar Wai aceita algo que não é de sua natureza: Ele pasteuriza, empacota e industrializa um produto antes feito com instinto e espontaneidade, e nesse processo, perde tudo que faz dele único.

Quando inicia-se, “My Blueberry Nights” já começa com predisposições convencionais: Após a inevitável angústia de um rompimento, a jovem Elizabeth, ou Lizzy (a cantora Norah Jones), se descobre envolvida com Jeremy (Jude Law), proprietário de um café; no processo de sedução despido de diálogos que se segue, ele rouba um beijo de Lizzy, ela aparentemente desacordada sob o balcão –a cena que não somente fornece o título nacional como também ilustra o poster original do filme, ainda que ela nunca pareça ter um peso genuíno sobre a trama.

Não há uma explicação mais evidente para a decisão posterior de Lizzy em partir numa viagem pelos EUA –reencontrar a si mesma, talvez? Descobrir novas nuances do amor que teme abraçar? –e, de repente, nem os próprios realizações tivessem intenção de responder a essa pergunta. Nessa imprecisão, infelizmente, o filme de Kar Wai segue claudicante e, como era de se esperar, em seu road movie particular Lizzy se defronta com diferentes facetas do amor e de suas consequências, algo que, na pretensão da narrativa, deveria servir de reflexo indireto do próprio amor que Lizzy pode assumir ou não com Jeremy, mas que não são mais que manobras cheias de presunção onde Kar Wai, em maior e menor grau, recria em solo americano, as celeumas sentimentais que ele soube tratar com muito mais profundidade em Hong Kong.

Nessa esteira de coadjuvantes que transcorrem como atrações no palco de um show de auditório, Lizzy conhece Leslie (Natalie Portman, fabulosa), uma jogadora inveterada em Las Vegas, bem como uma mentirosa compulsiva –um reflexo desconfortável da desonestidade da própria Lizzy; o casal apaixonado Sue (Rachel Weizs) e Arnie (David Strathaim) cuja união se vê frequentemente fragmentada pelo alcoolismo dele; e muitos outros, onde temos a oportunidade de testemunhar um desfile fenomenal de grandes nomes do cinema americano, claramente atraídos pelo interesse de trabalhar com o grande diretor de “Amores Expressos”.

Um esforço do próprio Won Kar Wai em encontrar nos cenários coloquiais dos EUA um ambiente favorável para suas intrigas de amor, “My Blueberry Nights” é lindo em sua identidade visual –a direção de fotografia leva a assinatura de dois mestres da área, Darius Khondji (de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”) e Kwan Pung-Leung (de “Buenos Aires Zero Degree” e “2046-Os Segredos do Amor”) –no entanto, falha na captura de uma impressão específica no retrato de uma América perpetrada por um estrangeiro, como Win Wenders fez tão bem em “Paris, Texas”, ou Louis Malle em “Atlantic City”. Da forma como aqui se expressou, Won Kar Wai muito pouco entendeu dos EUA –e em última instância, muito pouco teve de vontade de entender –o que torna o retorno de Lizzy, ao fim do filme, para os braços de Jeremy, numa retomada da mesmíssima cena que compartilharam no início da sua jornada, uma conclusão bastante redundante acerca das vicissitudes do amor e da vida. um saldo complicado e nada promissor para uma obra que, como as demais de Won Kar Wai, se pretende avassaladoramente romântico e recompensador.

Após o engodo que foi essa experiência, Won Kar Wai voltou para sua Hong Kong natal, energizado de suas certezas tradicionais e do quanto sua identidade estava atrelada à sua própria terra. É justo, portanto, afirmar que foram os aborrecimentos vivenciados neste filme que o levaram a compor sua obra mais ambiciosa, “O Grande Mestre”.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Jackie


 Sempre interessado em personalidades reais capturadas em determinado ponto de uma trajetória singular, o diretor chileno Pablo Larraín (do fantástico “No”) debruçou-se, em sua estréia hollywoodiana, a desvendar as circunstâncias humanas, dramáticas e filosóficas que rondaram Jaqueline Kennedy durante os quatro dias após presenciar o marido –o presidente John F. Kennedy –ser assassinado no fatídico atentado de 22 de novembro de 1963 até o momento de seu funeral e enterro encenado, sob orientação da própria Jackie (como era chamada), de forma a tornar aquele um instante antológico na memória do povo norte-americano.

É notável a compreensão de Larraín, enquanto cineasta estrangeiro, para elementos que presumimos tão próprios dos EUA, como sua História pregressa (os pormenores íntimos que a câmera captura são de um brilho ímpar), seus detalhes mais ínfimos e suas impressões.

Munido de todas as artimanhas que o grande cinema é capaz de proporcionar, o filme de Larraín acompanha sua protagonista (vivida com maturidade e astúcia por Natalie Portman, num desempenho, ouso dizer, talvez até melhor que seu oscarizado trabalho em “Cisne Negro”) em diferentes ocasiões ao longo daquelas horas: São flagradas as discussões com assessores e outras figuras (entre elas o irmão, Bobby Kennedy, vivido por Peter Sarsgaard), muitos ainda incapazes de entender o efeito contundente daquele momento na História; os diálogos entre Jackie e um sacerdote (o saudoso John Hurt), carregados de esforço em busca de um significado diante da ensurdecedora tragédia, bem como flashs de lembranças Jackie em sua árdua adaptação à rotina na Casabranca, aos olhares atentos de todo povo americano (que logo adquiriu uma certa obsessão por ela), e na manutenção de sua relação com John Kennedy e com o peso de ser Primeira-Dama.

O trecho final acrescenta à esse repertório de instantâneos pessoais as sequências francamente memoráveis do enterro de Kennedy, no qual Jackie foi obstinada em recriar as características do enterro do próprio Abraham Lincoln, também ele, um presidente americano vítima de assassinato.

Ao contemplar tal história, tal protagonista, nessa situação específica, Larraín não quer lançar-se numa audaciosa tentativa de emular o subconsciente norte-americano sob o prisma de uma tragédia mundialmente conhecida, ele quer, sim, derrubar fronteiras, vislumbrando Jackie Kennedy e todos os perplexos coadjuvantes que a orbitaram como seres humanos colhidos num momento aterrador e arrebatador do Século XX.

Nessa meticulosa observação, é a própria Jackie quem facilmente salta à frente de todos os outros: Na atuação hipnótica, estudada e respeitosa de Natalie Portman, no contexto assim esboçado, na conjunção reflexiva das informações de ordem intimista dispostas no roteiro, “Jackie” fala sobre a tenacidade sobre-humana de uma grande mulher, a primeira a compreender o significado daquele trágico momento histórico em que estava inserida, quando todos os outros se achavam anestesiados pelo luto, prestando atenção somente no grande homem que havia partido.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Viagem A Darjeeling


 Uma vez mais voltando um olhar carinhoso ao exótico, o diretor e roteirista Wes Anderson emoldura este tragicômico drama familiar com as cores berrantes da cultura indiana onde ele ambientou sua trama numa manobra que em princípio parece aleatória.

No entanto, no aprofundamento dos conceitos de renascimento pessoal encontrados em sua premissa e na ideia universal de trajetórias individuais escritas pelas divindades a conectar os seres humanos podemos compreender então o quão deliberada é a relação que o diretor estabelece entre sua obra e a cultura que retrata.

Não que seu filme supere a barreira do elitismo que as vezes assola o cinema alternativo: Manhoso em suas expressões dramáticas e narrativas, “Viagem A Darjeeling” resulta numa das obras menos acessíveis de um diretor com grande pendor artístico, é verdade, mas cujos maiores méritos costumam ser a forma com que suas incursões no estranho e no absurdo cativam de imediato o expectador.

Não aqui: Separados por uma variedade de incompatibilidades pessoais, emocionais e triviais, três irmãos, Peter, Francis e Jack (Adrien Brody, Owen Wilson e Jason Schwartzman, respectivamente) se veem, por uma série de casualidades, lado a lado numa viagem empreendida através da Índia, num trem, logo após deixarem uma cerimônia de casamento –prólogo revelado durante um flashback.

Cada um se vê martirizado por um fator diferente: Peter chafurda na futilidade em que se refugiou a fim de proteger-se da influência dos familiares; Francis reflete os transtornos de sua alma nos ferimentos físicos muitos reais que carrega (e que o levam a ostentar bandagens no cabeça durante todo o filme); e Jack não é capaz de sentir-se vivo se não houver, em seus discursos lamuriosos, uma mulher pela qual choramingar.

Nesse trajetória geográfica –e, portanto, física –esses três irmãos, três almas torturadas pelas próprias escolhas, irão perpetrar uma busca espiritual –e, portanto, metafísica –atrás da expiação de suas neuroses, o que os leva assim, ao reencontro carregado de expectativa e preenchimento, com a mãe, vivida por Anjelica Huston, em tese, a gênese indireta de todas as neuroses que exibem na vida adulta.

Diretor e roteirista, Wes Anderson vislumbra as fissuras emocionais de uma família disfuncional através de um filme deliberadamente desigual, onde as cenas obedecem bem menos à orientação de um melodrama convencional, e muito mais ao absurdo alegórico de um cinema alternativo feito de sarcasmo e linguagem avidamente simbólica.

Diferente de outros projetos seus, não foi desta vez que o talento de Anderson foi capaz de tornar adorável e envolvente uma mistura tão esquisita e improvável.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

V de Vingança

 


“Ele era meu pai, e minha mãe. Ele era meu irmão, meu amigo. Ele era eu, e era você. Ele era todos nós.”

Em tempos de uma nociva polarização de ideologias políticas é interessante rever “V de Vingança” e perceber o quanto ele é brilhantemente conciliatório em seu subtexto, sugerindo apesar de tudo que o objetivo conquistado pelo alto preço da liberdade está, sem sombra de dúvida, no equilíbrio e na moderação.

Graphic novel criada pela mente fervilhante do escritor Alan Moore (que, marrento que só, exigiu que seu nome não constasse nos créditos deste filme) e pelos traços do ilustrador David Lloyd, “V de Vingança”, a HQ, inspirava-se na gestão britânica da dama de ferro Margaret Thatcher durante os anos 1980 para moldar uma distopia complexa e multifacetada sobre o totalitarismo; no roteiro austero e inteligente das Irmãs Wachowsky –com o qual presentearam seu diretor de segunda unidade em “Matrix”, James McTeigue, para que fizesse sua estréia como diretor –a mesma trama intrincada, desafiadora e vasta em detalhes inacabáveis é condensada com esperteza e desenvoltura cinematográfica em seus elementos mais pontuais e memoráveis; e que dizem respeito, sobretudo, à relação entre o revolucionário V (Hugo Weaving, fazendo milagres com um personagem mascarado o tempo todo) e a jovem Evey (Natalie Portman, fabulosa).

O prólogo do filme remonta a história real de Guy Fawkes que, no início do Século XVII, num dia 5 de novembro, tentou explodir o prédio do Parlamento inglês num atentado mal-sucedido conhecido como a Conspiração da Pólvora. Esse trecho não só serve para explicar o porque de seu misterioso protagonista usar uma máscara de Guy Fawkes todo o filme (máscara esta que, depois deste filme, tornou-se uma espécie de indumentária para revolucionários em geral na cultura pop), mas também para expor a percepção muito humana de sua personagem principal e narradora do filme (e indiretamente, dos próprios realizadores): A de que ideias podem, sim, transformar o mundo, mas são com as pessoas que as expressam que nos conectamos emocionalmente.

Assim, somos então levados à essa Inglaterra algo futurista, totalitária, controlada pelo governo com uma mão-de-ferro que costuma ser tão assim intransigente e esmagadora nas mais variadas traduções que o cinema oferece de tal conceito (e existem inúmeras). Nela, Evey é uma jovem salva repentinamente numa noite pelo mascarado V, da sanha impune dos chamados Finger-Man (agentes violentos que atuam para o governo e nos quais, já ali, se identifica uma perigosa corrupção moral). Na sequência, Evey testemunha o início dos planos de V: Ele explode, ao soar da meia-noite (quando começa o dia 5 de novembro), o prédio Old Bailey, alarmando as autoridades.

É, literalmente, apenas o começo: Horas mais tarde, V invade a emissora de TV onde Evey coincidentemente trabalha e, ao sequestrar toda uma equipe televisiva, faz um anúncio; dentro de um ano, exatamente no dia 5 de novembro, ele explodirá o prédio do Parlamento como um ato simbólico de um inconformismo que ele sente (e que o povo deveria sentir) pelos atos do governo. Na ocasião, Evey retribui seu salvamento ajudando-o a escapar da polícia, e com isso, acaba indo parar no refúgio onde V se esconde das autoridades.

Assim, iniciam-se as investigações para encontrar o terrorista V, conduzidas pelo inspetor Eric Finch (Stephen Rea), antes que a data-limite chegue. Contudo, o que Finch descobre, aos poucos, menos o leva em direção à identidade de V, e mais a uma série de projetos obscuros perpetrados pelo governo destinados a levar ao poder o maquiavélico Adam Sutler (John Hurt, cuja presença ecoa o referencial “1984 de Orwell”) e que levam à trágica origem de V, e do porque ele possuir uma lista muito específica de alvos dos quais, ao longo desse ano, dará cabo, um a um: Começando pelo presunçoso Prothero (Roger Allam), comunicador de TV oficial do governo conhecido como a Voz de Londres, o sórdido e abusivo Bispo Lilliman (John Standing) e culminando na cientista Delia Surridge (Sinéad Cusack).

Mas, apesar dessas fascinantes e relevantes ramificações, a trama de “V de Vingança” repousa mesmo sobre Evey, e sobre as transformações internas provocadas nela por V: De uma jovem amedrontada e alienada, ela se converte à duras penas (inclusive graças a uma questionável manobra de V lá pela metade da história) numa pessoa consciente de suas posições políticas e convicta de sua própria sensatez.

Realizado com o brilho que as Wachowsky, até então, só demonstraram mesmo em sua “Trilogia Matrix”, e dirigido por McTeigue com ferrenha e promissora habilidade, “V de Vingança” é possivelmente a mais bem feita e acertada de todas as adaptações das dificílimas obras de Alan Moore para o cinema: Nela, se percebe a genialidade inconteste para urgir tramas mirabolantes e complexas num único fluxo narrativo cheio de significado, e a capacidade para, mesmo diante desse turbilhão de informações, deixar espaço para as considerações éticas e as genuínas emoções –talvez, a grande qualidade de “V de Vingança”, o filme, seja então ter conseguido manter isso tudo em sua belíssima e envolvente transposição para o cinema.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Jane Got A Gun

Uma mescla hesitante de faroeste e manifesto feminista, este projeto estrelado por Natalie Portman (também produtora) renderia uma obra certamente diferente se fosse mantida a diretora original, Lynne Ramsay de “O Romance de Movern Callar” e “Precisamos Falar Sobre OKevin”.
Ela foi substituída na última hora por Gavin O’ Connor (de “Guerreiro”, também com Joel Edgerton no elenco) e o resultado de seu trabalho –em parte pelo pouco propício fato de assumir uma realização às pressas e já em andamento –padece de originalidade, ainda que o roteiro, em sua versão básica, tenha circulado por anos em Hollywood como um dos seus grandes scripts jamais filmados.
Jane Ballard, a protagonista vivida por Natalie, é uma mulher sofrida, como normalmente o são as mulheres fadadas a viver e sobreviver no Velho Oeste. Seu marido é um certo Bill Hammond (Noah Emmerich, de “O Show de Truman”) que, já na cena inicial, chega ao seu longínquo rancho ferido por tiros de bala. Ele teve um encontro com o famigerado John Bishop (Ewan McGregor, fazendo mais uma vez um bom vilão depois do ótimo “Haywire”), cujo bando numeroso e perigoso (e que inclui participações de Rodrigo Santoro e Boyd Hoolbrook) virá logo em seu encalço.
Jane precisa, portanto, se preparar.
Ela busca auxílio com Dan Frost (Joel Edgerton, também um dos roteiristas do filme) que, de início reluta, ressentido por algo do qual ainda não temos informação, terminando mais tarde por concordar em proteger Jane.
Durante os preparativos para o conflito iminente e a consequente tensão da espera pela chegada desse momento, a narrativa é ocasionada por flashbacks designados para esclarecer os pormenores mais pessoais dessa história –e do porque Jane é central à ela: A dívida de vida e de gratidão que ela tem por Bill e que se estende para além de seu matrimônio; a intervenção sórdida e tentacular do inescrupuloso e ambicioso Bishop em seu passado;e a relação inicialmente amorosa, porém desafortunada que ela teve com Dan e que reserva, da parte de ambos, dolorosas revelações.
Há algo bastante interessante na estrutura com a qual a trama que envolve os personagens se apresenta ao expectador, com idas e vindas no tempo substituindo a linearidade tediosa por uma sucessiva e revitalizadora entrega de novas informações (incluindo uma ligeira reviravolta final), e certamente é muito curioso o manejo espirituoso do protagonismo de Jane Ballard em meio à uma trama definida por ombridade masculina e duelos irreversíveis, tal e qual clássicos insuspeitos do gênero como “Johnny Guitar” e “Era Uma Vez No Oeste”.
O grande problema de “Jane Got A Gun” –que aqui no Brasil, seguindo a orientação convencional que o filme acabou adquirindo, recebeu o título genérico de “Em Busca de Justiça” –é justamente a direção de Gavin O’ Connor, tão hábil em filmes de drama e outros gêneros, entretanto, mostrando-se aqui limitada ao absorver os códigos e as linguagens específicas do faroeste que rendeu obras notáveis nas mãos de artesões brilhantes como Quentin Tarantino (“Django Livre” e “Os Oito Odiados”) e os Irmãos Coen (“Bravura Indômita” e “A Balada de Buster Scruggs”) mas, que entregue a um talentoso operário padrão terminou um pouco aquém de sua promessa.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Aniquilação

Mais um grande trabalho do roteirista tornado diretor Alex Garland, uma vez mais discorrendo com brilho sobre um tema de ficção científica, a exemplo do que ele fez em sua obra anterior, “Ex-MachinaInstinto Artificial”.
“Aniquiliação” –que ao invés do cinema foi direto para o Netflix –estreita ainda mais as proximidades de sua realização com um cinema hermético, menos interessado na ação e na pirotecnia e mais em inquietações de ordem intima. E isso se nota, antes de tudo, na influência maior que este filme tem (e, com certeza, também o livro de onde foi adaptado) que é indisfarçavelmente “Stalker”, de Andrei Tarkovski.
Como naquela obra primorosa e desafiadora, surge na Terra um lugar cercado de mistério e de possibilidades frequentemente ilimitadas.
Se em “Stalker” esse lugar era ‘A Zona’ –personificada nos escombros de Chernobyl –em “Aniquilação”, tal região fica em algum lugar do litoral norte-americano onde um asteróide caiu, transformando desde então todo o ambiente. A região passou a ser designada como ‘Área X’ e a estranha e etérea nódoa que surgiu no lugar, chamada ‘O Brilho’, não deixa muitas dúvidas de que lá operam energias alienígenas.
Três anos depois, a ‘Área X’ continua um incômodo mistério para os cientistas da Terra.
A bióloga Lena (Natalie Portman, ótima) também nutre suas aflições relativas ao lugar, mas dizem respeito a outro detalhe: Seu marido, Kane (Oscar Isaacs) foi enviado para lá em uma operação militar a um ano, sem mandar notícias.
Quando Kane reaparece, todos os indícios que ele apresenta indicam que não é mais o mesmo –o tenso e nebuloso diálogo na mesa da cozinha já dá a referência-mor do filme com um close em um copo cheio de água (o elemento onipresente na encenação de “Stalker”).
Lena consegue tirar muito pouco dele: Logo, Kane está agonizando em um hospital militar, sofrendo de falência múltipla de órgãos.
O quê aconteceu a ele durante todo o tempo em que esteve na ‘Área X’? Por que ele foi, dentre todos, o único que voltou?
São as perguntas que a Dra. Ventress (Jennifer Jason Leight), ao lado de Lena, mais quer responder.
A narrativa de Garland (que leu o livro há muitos anos atrás, e não o releu para escrever o roteiro o quê dá ao filme uma atmosfera dúbia e inconclusa de sonho) já antecipa algumas perspectivas ao expectador: Quando o filme se inicia, Lena presta um depoimento a uma equipe de cientistas (entre eles, Benedict Wong, de “Doutor Estranho”); ela foi a única (assim como Kane) a regressar da ‘Área X’. Pressupõe-se assim que algo ocorreu às outras que, descobriremos mais à frente, integram uma equipe de cinco e são –além de Lena e a Dra. Ventress –as pesquisadoras Josie Radek (Tessa Thompson, de “Thor-Ragnarok”) e Cass Sheppard (Tuva Novotny), e a militar Anya Thorensen (Gina Rodriguez).
Desprovido da pressa e da urgência impaciente que impregna tantas outras produções norte-americanas, o filme acompanha, quase a adentrar seu segundo terço, o grupo de cinco mulheres invadir a ‘Área X’ e, nos dias estranhos que se seguem, testemunhar as conseqüências e os efeitos que o lugar passa a lhes infligir.
De início, o tempo transcorre de maneira imprevista. Mais a frente, a fauna do lugar começa a fornecer pistas mais contundentes (e preocupantes) de que uma força irreversível está operando naquele lugar; e, com efeito, ela se traduz em perigos que vão tragando-as uma a uma. Quando fica evidente um certo perigo, voltar ou prosseguir são alternativas que, dada a situação delas, não fazem muita diferença à suas perspectivas de sobrevivência.
Em “Stalker”, Tarkovski impõe uma reflexão de ordem metafísica esmagadoramente intimista em relação aos propósitos e desdobramentos do poder que se supõe existir lá, já em “Aniquilação”, o diretor Garland habilmente abre espaço aos efeitos visuais e a outros valores de produção para que se crie, com incontornável densidade, a sensação de se estar entrando num lugar de implicações imprevisíveis.
Mas, ele nunca esquece Tarkovski: Na atmosfera que se cria (e que se mantém até o fim) cujo estranhamento e a desolação quase sufocam o expectador, na umidade que ele reitera ocasionalmente e na decisão corajosa de jamais se render a um gênero fácil –ação, suspense ou mesmo terror –ele concebe uma obra feita para acompanhar o expectador, muito tempo depois que a trama tiver se acabado.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Cold Mountain

Talvez o maior problema deste trabalho do habilidoso Anthony Minghella (vencedor do Oscar de Melhor Filme e Melhor Diretor por "O Paciente Inglês") seja o aspecto evidente de fórmula elaborada para vencer o Oscar com a qual o produtor Harvey Weinstein constrói muitas das obras sob sua supervisão. Nesse sentido, há uma névoa de superficialidade incômoda a pairar sobre a trama de "Cold Mountain" que, a partir do livro de Charles Frazier, transpõe a saga de Ulisses, "A Odisséia", para o contexto norte-americano da Guerra de Secessão –num recurso que lembra a iniciativa dos Irmãos Coen em “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, mas com resutados completamente diferentes, quase opostos.
O jovem apaixonado Inman Balis (Jude Law, revelado por Minghella em “O Talentoso Ripley”, reeditando a colaboração com bons resultados) vai cumprir seu dever defendendo o Sul do país nas trincheiras contra o Norte, enquanto deixa Ada Monroe (Nicole Kidman, no auge da beleza), a mulher que ama, o esperando. Ele sobrevive a uma sangrenta batalha em campo aberto, e decide voltar para ela, fugindo como desertor.
Sua viagem de volta é longa e penosa, enfrentando diversas adversidades e personagens inusitados que vão surgindo em seu caminho –e que resultam num desfile de nomes ilustres escolhidos a dedo para as participações especiais, incluindo Natalie Portman, Phillip Seymour Hoffman, Charlie Hunnam, Jack White, Giovanni Ribisi, Ray Winstone, Brendan Gleeson, Cilliam Murphy e muitos outros. Além da personagem rouba-cenas de Renée Zellwegger, um dos poucos quesitos genuinamente interessantes do filme (ela venceu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2004).
O diretor Minghella, talvez empolgado pelo elitismo do material, carrega nos elementos trágicos e dramáticos da história, o que faz dele um espetáculo demasiado difícil para espectadores que esperam mero entretenimento.

sábado, 14 de outubro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2011

(Todo o sábado, agora, haverá uma retrospectiva das cerimônias do Oscar de anos pregressos em ordem regressiva. Vamos ver até onde vai...)
No sábado anterior, eu comentei que a cerimônia de 2012 foi a revelação de Jessica Chastain, pois então, a cerimônia de 2011 foi, sem dúvidas, a revelação de Jennifer Lawrence, inclusive, quem se recordar das imagens da ocasião lembrará que ela estava linda em um vestido vermelho. Mas, embora no filme “Inverno da Alma” trouxesse uma interpretação 100 % digna do prêmio (e na opinião de muitos, merecedora da vitória), desde o início era claro o imbatível favoritismo de Natalie Portman.
Na categoria principal, achei particularmente frustrante ver uma das obras mais brilhantes de David Fincher perder para um filme tradicional, antiquado e redundante, quiçá o mais fraco dentre todos os indicados. Um dos grandes lapsos da história do Oscar.
Menos mal que as categorias técnicas foram generosas com os dois grandes filmes do ano: “A Rede Social” e “A Origem”.

MELHOR FILME
"O Discurso do Rei"

MELHOR DIREÇÃO
"O Discurso do Rei", Tom Hooper

MELHOR ATRIZ
Natalie Portman, "Cisne Negro"

MELHOR ATOR
Colin Firth, "O Discurso do Rei"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Melissa Leo, "O Vencedor"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Christian Bale, "O Vencedor"

MELHOR FOTOGRAFIA
"A Origem"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Trabalho Interno"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Strangers No More"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Em Um Mundo Melhor" (Dinamarca)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"A Origem"

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"A Origem"

MELHOR MAQUIAGEM
"O Lobisomem"

MELHOR FIGURINO
"Alice No País das Maravilhas"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"A Origem"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

MELHOR TRILHA SONORA
“A Rede Social"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"We Belong Together", de "Toy Story 3"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"O Discurso do Rei"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"A Rede Social"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Toy Story 3"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"The Lost Thing"

MELHOR EDIÇÃO
"A Rede Social"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"God Of Love”