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quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

As Marvels


 Houve uma época, não muito tempo atrás, em que a Marvel Studios era um gigante das telas de cinema; filmes produzidos pelo estúdio e protagonizado por seus personagens eram estrondosos sucessos de bilheteria e, não raro, iam muito bem numa avaliação da crítica revelando uma capacidade notável para o estúdio compreender as dinâmicas de seus personagens e dar-lhes versões cinematográficas que conseguiam satisfazer em inúmeros aspectos.

Essa, porém, é uma época que ficou no passado –essa é a triste constatação a que se chega ao conferir “As Marvels”. Dono do nada honroso título de pior bilheteria do estúdio (isso dentre seus mais de vinte longa-metragens) o filme dirigido por Nia DaCosta não é exatamente uma obra ruim. Seu pecado é não atingir notas de intensidade que justifiquem qualquer entusiasmo do público, para o bem ou para o mal. Ele não consegue sequer ser um produto de opções controversas que despertam indignação apaixonada nos fãs como fez, por exemplo, “Batman Vs Superman”. Na ânsia de fazer um produto que errasse o mínimo possível, evitando ousar ou atrever-se em qualquer direção, a Marvel Studios realizou uma obra pasteurizada que perde cada uma das chances de se fazer memorável.

E essas chances, infelizmente, existiram.

Temos como exemplo disso o aguardado desenlace da relação entre Carol Danvers (Brie Larson) e Monica Rambeau (a belíssima Teyonah Parris), conduzido desde “Capitã Marvel”, na qual Monica se tornou adulta enquanto esperava pela concretização da promessa da ‘Tia Carol’, de voltar à Terra para rever ela e a mãe, Maria Rambeau (Lashana Lynch). Aconteceu que Carol, ocupada demais com as atribulações pesadíssimas de uma superheroína de nível cósmico por todo o universo afora, não foi capaz de regressar à Terra antes de Maria morrer de câncer e Monica acabar ganhando, também ela, poderes inusitados (explicações para isso, na série “WandaVision”) –em “As Marvels”, o momento em que enfim Monica e Carol se reencontram e têm a oportunidade para esclarecer sua relação afetiva é tão negligenciado, tratado de maneira tão desdenhosa e com tamanha falta de profundidade que dá até pra imaginar o misto de injúria e inconformismo que despertou em todos os fãs.

E essa sensação de descontentamento diante do que podia ter sido e não foi é, lamento dizer, uma constante em “As Marvels”.

Na trama, Monica e Carol têm seus poderes entrelaçados com os da terceira protagonista do filme, Khamala Khan (Iman Vellani, da série “Miss Marvel”, de longe, a melhor coisa do filme todo): Toda a vez que elas usam seus poderes em conjunto, estejam em qualquer lugar do universo que estiverem, as três trocam de lugar –o que prontamente explicada a misteriosa cena pós-créditos no final da série “Miss Marvel”...

Esse curioso efeito acaba tornando-as uma espécie de equipe involuntária, unidas contra a vilã da vez, a implacável Dar-Benn (Zawe Ashton, esposa de Tom Hiddleston, o “Loki”), uma Acusadora do antigo Império Kree (mesmo posto de Ronan, o vilão de “Guardiões da Galáxia”) cujo objetivo é juntar os dois lendários e poderosos braceletes quânticos –um dos quais, responsável pelo despertar dos poderes de Khamala –e usá-los para extrair o poder do sol, ou alguma coisa assim...

Em algum momento dessas idas e vindas, o roteiro deixa entrever numa ou noutra motivação injustificada, o crescente desprezo que os realizadores parecem sentir pelo material com o qual estão trabalhando: Não apenas as predisposições para estabelecer propósitos em seus personagens vai minguando (chegando ao cúmulo de uma constrangedora cena musical ganhar mais importância na trama do que muitas explicações plausíveis), como também inúmeras cenas que deveriam esclarecer alguns pontos de seu enredo acabam completamente ignoradas, talvez, deixadas de lado de forma displicente numa sala de edição, como a aparição sem sentido de Carol Canvers na primeira cena em que as Marvels se veem todas juntas; o destino dado ao planeta Aladna que teve todo seu oceano sugado para outro lugar; o portal que drenava a energia do sol; o destino final dos braceletes (no desfecho, só um deles é visto com Khamala) e muitos outros momentos.

É como se toda aquela minúcia e atenção dedicada aos detalhes que fazia de “Vingadores-Ultimato” uma obra tão brilhante e notável já não fosse qualquer prioridade aqui.

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Thor - Amor & Trovão


 Se em “Thor-Ragnarok” o diretor Taika Waititi havia encontrado o que parecia ser enfim o tom certo para as aventuras de Thor –o de uma comédia do absurdo temperada com ação épica decalcada do “Flash Gordon” dos anos 1980 –em “Thor-Amor & Trovão” tais aspirações e, sobretudo, a necessidade muito mercadológica de superá-las, ameaçam ruir sob a pressão da própria narrativa.

Como em seu antecessor, “Amor & Trovão” pulsa espirituosidade, e até mesmo uma certa originalidade na maneira com que enxerga uma forma distinta de colocar seu herói mitológico num prisma diferenciado de graça, conflitos existenciais e visual arrojado, contudo, ao procurar ir um pouco mais longe do que foi “Ragnarok”, lhe aumentando o escopo e tudo o mais, este “Amor & Trovão” acaba também expondo as limitações de Waititi. Nota-se, agora, que ele perde um pouco a noção de seu humor a partir do momento em que se defronta com situações que perigam ser repetitivas, e que sua paciência para com as cenas de ação se esgota muito facilmente.

Experimentando uma crise existencial desde que deixou a Terra ao final de “Vingadores-Ultimato” acompanhado dos Guardiões da Galáxia, Thor Odinson (Chris Hemsworth, sempre formidável) revê sua identidade como super-herói –ele mal tem ânimo, ou motivação, para participar das injustificadas batalhas ao lado de seus novos companheiros. Ainda assim, seu caminho toma um novo rumo quando parte atrás do paradeiro de Lady Sif (Jamie Alexander, numa personagem que havia sido estranhamente esquecida em “Ragnarok”) e descobre que um certo Gorr, auto-intitulado Carniceiro dos Deuses, vem fazendo das suas. Vivido pela hábil concepção minimalista do sempre talentoso Christian Bale, Gorr é um personagem trágico como toca a todo bom vilão –suas incomensuráveis aflições sofreram tamanha indiferença da parte dos deuses para quem rogou ajuda que, uma vez dotado da famigerada Espada Necromante, ele decide dar cabo de todas as divindades universo afora.

Esses percalços levam Thor de volta à terra, onde se encontra a comunidade de Nova Asgard, remanescentes da destruição promovida em seu reino no último filme, e lá, em meio à uma batalha, ele reencontra Jane Foster, uma antiga ex-paixão –leia-se: A namoradinha do super-herói nos filmes “Thor 1” e “Thor 2”.

Interpretada por Natalie Portman, que na época havia acabado de levar o Oscar de Melhor Atriz por “Cisne Negro”, Jane Foster era, até então, algo entre uma donzela em perigo e um alívio cômico. Foi Taika Waititi quem convenceu a atriz a voltar ao papel prometendo-lhe um arco narrativo que parecia ser improvável de ganhar as telas de cinema: Nas HQs, Jane se torna digna de empunhar o Mjolnir –o martelo de Thor, feito em pedaços por Hela, a Deusa da Morte, em “Ragnarok” –e com isso adquire todos os poderes do Deus do Trovão convertendo-se numa versão feminina do herói e num dos tantos exemplos de empoderamento e emancipação que afloraram na cultura pop. Mais do que transpor essa trama para o audio-visual, o que Waititi faz aqui é finalmente mostrar porque uma atriz vencedora do Oscar está a desempenhar esta personagem: Se em “Ragnarok” ele remodelou Thor dando-lhe a ênfase de protagonista que outros diretores não souberam dar, em “Amor & Trovão”, ainda que ele mantenha o foco de seu enredo em Thor, ele transforma Jane numa heroína de fato, dando-lhe um propósito e, de certa maneira, um desfecho. Uma personagem numa jornada.

É claro que, no processo, muita galhofa é mostrada o que, na soma de seus elementos, quase converte “Amor & Trovão” numa comédia romântica: Lá está, afinal, o relacionamento cheio de altor e baixos entre dois personagens feitos um para o outro (ainda que os próprios sejam os únicos que não se deem conta disso); lá estão as piadinhas (algumas bem infames) que temperam as dores de amor com um aroma agridoce; e lá também está uma idealização muito cinematográfica das complicações românticas, onde elas ganham ares de conto de fadas. Se tudo isso é descoberto na moldura muito modernosa de um filme de super-herói, é porque trata-se aparentemente de uma das propostas da Marvel Studios nesta produção. Se “Viúva Negra” era um thriller de espionagem, “Shang Chi e A Lenda dos Dez Anéis” era um épico de artes marciais e “Dr. Estranho No Multiverso da Loucura”, um filme de terror, então, “Amor & Trovão” guardadas as devidas concessões com cenas de ação, batalhas e a profusão usual e incontornável de efeitos visuais, é deveras uma comédia romântica.

Desde os eventos bombásticos ocasionados em “Vingadores-Ultimato” muito se pergunta qual será o caminho trilhado pela Marvel daqui para frente. Ele ainda não ficou completamente claro, mas é visto, pelo que se observou até aqui, que o estúdio está disposto a pisar no freio: Afinal, é inconcebível entregar ano após ano um evento cinematográfico da estatura de “Ultimato”.

A saida, portanto, é experimentar com novas interpretações de gênero, daí a sensação de que, diferente de todos os longa-metragens que iniciaram seu festejado universo compartilhado, todos os filmes que integraram até agora a chamada Fase 4 parecem ser obras independentes, pouco ou nada ligadas umas às outras –ainda que, nas sutilezas, as ligações continuem todas lá.

Pela confiança depositada em Taika Waititi e pela natureza mais incomum do próprio protagonista, “Thor-Amor & Trovão” é a obra mais independente de todas as demais, narrativamente falando, o que significa que o expectador pode aproveitar seu humor claudicante (ora hilário, ora constrangedor), sua emoção ocasionalmente eficiente e o exuberante colorido de suas cenas por aquilo que realmente é: Um filme vibrante, ainda que imperfeito.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Vingadores - Ultimato

Numa das cenas que abrem esta continuação praticamente direta de “Vingadores-Guerra Infinita”, vemos Tony Stark gravar um melancólico monólogo diante do capacete da armadura com a qual ele foi o Homem de Ferro –cena esta vista e revista em diversos trailers.
A referência à Hamlet, de Shakespeare, é clara, bem como também é clara a similaridade entre a ambientação soturna da nave –Stark está à deriva no espaço –com a caverna onde ele construiu sua primeira armadura, dando o primeiro passo para o surgimento do que é hoje conhecido como o Universo Marvel dos cinemas.
A cena mostra assim os dois elementos primordiais que os diretores Anthony e Joe Russo tratarão de manter impecáveis ao longo das avassaladoras três horas de duração de “Vingadores-Ultimato”: A referência do mais altíssimo nível a que se pode chegar –em termos técnicos, dramáticos e artísticos, inclusive –e uma compreensão insolúvel de que o passado embutido em toda a cronologia cinematográfica da Marvel Studios deve não só ser recordado, mas também, levado em consideração, apreciado e, no fim, louvado.
Ao dar continuidade aos eventos arrebatadores de “Guerra Infinita”, “Ultimato” imbrica por um caminho que a Marvel e nenhum outro estúdio encontrou meios até então de trilhar: O de um legado composto ao longo de 11 anos de produções cinematográficas, em meio aos quais ele corajosamente percebe a importância de encontrar um fim.
Sim, porque, preservadas as surpresas que a obra reserva –e, meu Deus, elas são muitas! –“Ultimato” é, antes de mais nada, um encerramento. Um desfecho de uma história que num único empuxo narrativo se iniciou com o astro Robert Downey Jr. e seu encaixe absurdo com o personagem de Tony Stark/Homem de Ferro no primeiro filme do estúdio, e prosseguiu num expansão sem precedentes dessa mitologia nos filmes “Thor”, “Capitão América-O Primeiro Vingador” e, na junção audaciosa e vibrante dessas linhas narrativas em “Vingadores”; que, em sua cena pós-crédito, introduzia pela primeira vez o grande vilão Thanos, interpretado aqui com eficiência incontestável e empatia amedrontadora pelo ótimo Josh Brolin.
Foi em torno da promessa da vinda de Thanos que a Marvel Studios construiu assim o fio condutor a unir todos os trabalhos que se seguiram –e que oscilavam entre excelente entretenimento e diversão descompromissada –em meios aos quais não tardaram a destacar-se as obras assinadas pelos Irmãos Russo.
Pelas mãos deles, o Capitão América logo assumiu uma posição existencialmente central nesse Universo Marvel, no magnífico “Soldado Invernal” e depois no brilhante “Guerra Civil”.
A demonstração de habilidade incomum dos Russo prosseguiu com o espetacular “Guerra Infinita” e, por fim, a revelação de Thanos como o mais complexo vilão já concebido pelo estúdio. O que nos leva a este “Ultimato”.
Incapazes de lidar com o fato de que o vilão os derrotou e sobrepujou –agonia que os fãs também experimentaram durante o ano inteiro que separam estes dois filmes –os Vingadores remanescentes (e que correspondem, por sua vez, à formação original vista no primeiro filme) unem-se num plano derradeiro para tentar um contra-ataque; estimulados pela aquisição da poderosa Capitã Marvel (Brie Larson).
Este é o ponto de partida do filme e corresponde a tudo que dele se pode falar sem entrar no terreno pantanoso e arriscado das surpresas, pois sua trama é repleta de reviravoltas inesperadas, e ramificações que se mostram mais complexas do que poderia se supor num filme de orientação tão comercial, conduzindo o expectador a uma meia hora final que está entre os mais assombrosos e embasbacantes momentos do cinema comercial de todos os tempos.
O que importa, porém, é que por trás da expectativa absurda que a Marvel conseguiu gerar no público –e do filme emocionante e arrebatador que criou para correspondê-lo –“Ultimato” é, no fundo no fundo, uma declaração de amor.
Ao legado extraído de décadas de quadrinhos e transposto com apaixonada propriedade para a tela de cinema. Aos fãs, que converteram as produções da Marvel em sucessos simultâneos de bilheteria (e que certamente transformarão este num novo fenômeno). Aos personagens e seus intérpretes que se revelaram, em sua esmagadora maioria, de um acerto fenomenal –e aqui, apesar de todas as presenças esplêndidas que se seguem (com destaque para Chris Evans e Jeremy Renner) não dá para não chamar Robert Downey Jr. à frente.
Ele é o princípio de tudo. O marco zero. E é nele, mais uma vez, que se ampara a escolha para encerrar esta jornada de 22 filmes. Ele foi (e sempre será) Tony Stark, o personagem que acendeu o estopim para um legado sem precedentes no cinema comercial, e ele é aqui aquele que, num dos momentos mais superlativos e emocionantes, executa enfim sua manobra final.
“Ultimato” é cinema como aquilo que ele deveria ser: Emocional, visceral, divertido (mágico, até!), arrebatador e espantoso em níveis que a indústria (e a própria Marvel Studios) encontrarão dificuldades de igualar nestes anos por vir.
Tê-lo nas salas de cinema é um privilégio.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Aniquilação

Mais um grande trabalho do roteirista tornado diretor Alex Garland, uma vez mais discorrendo com brilho sobre um tema de ficção científica, a exemplo do que ele fez em sua obra anterior, “Ex-MachinaInstinto Artificial”.
“Aniquiliação” –que ao invés do cinema foi direto para o Netflix –estreita ainda mais as proximidades de sua realização com um cinema hermético, menos interessado na ação e na pirotecnia e mais em inquietações de ordem intima. E isso se nota, antes de tudo, na influência maior que este filme tem (e, com certeza, também o livro de onde foi adaptado) que é indisfarçavelmente “Stalker”, de Andrei Tarkovski.
Como naquela obra primorosa e desafiadora, surge na Terra um lugar cercado de mistério e de possibilidades frequentemente ilimitadas.
Se em “Stalker” esse lugar era ‘A Zona’ –personificada nos escombros de Chernobyl –em “Aniquilação”, tal região fica em algum lugar do litoral norte-americano onde um asteróide caiu, transformando desde então todo o ambiente. A região passou a ser designada como ‘Área X’ e a estranha e etérea nódoa que surgiu no lugar, chamada ‘O Brilho’, não deixa muitas dúvidas de que lá operam energias alienígenas.
Três anos depois, a ‘Área X’ continua um incômodo mistério para os cientistas da Terra.
A bióloga Lena (Natalie Portman, ótima) também nutre suas aflições relativas ao lugar, mas dizem respeito a outro detalhe: Seu marido, Kane (Oscar Isaacs) foi enviado para lá em uma operação militar a um ano, sem mandar notícias.
Quando Kane reaparece, todos os indícios que ele apresenta indicam que não é mais o mesmo –o tenso e nebuloso diálogo na mesa da cozinha já dá a referência-mor do filme com um close em um copo cheio de água (o elemento onipresente na encenação de “Stalker”).
Lena consegue tirar muito pouco dele: Logo, Kane está agonizando em um hospital militar, sofrendo de falência múltipla de órgãos.
O quê aconteceu a ele durante todo o tempo em que esteve na ‘Área X’? Por que ele foi, dentre todos, o único que voltou?
São as perguntas que a Dra. Ventress (Jennifer Jason Leight), ao lado de Lena, mais quer responder.
A narrativa de Garland (que leu o livro há muitos anos atrás, e não o releu para escrever o roteiro o quê dá ao filme uma atmosfera dúbia e inconclusa de sonho) já antecipa algumas perspectivas ao expectador: Quando o filme se inicia, Lena presta um depoimento a uma equipe de cientistas (entre eles, Benedict Wong, de “Doutor Estranho”); ela foi a única (assim como Kane) a regressar da ‘Área X’. Pressupõe-se assim que algo ocorreu às outras que, descobriremos mais à frente, integram uma equipe de cinco e são –além de Lena e a Dra. Ventress –as pesquisadoras Josie Radek (Tessa Thompson, de “Thor-Ragnarok”) e Cass Sheppard (Tuva Novotny), e a militar Anya Thorensen (Gina Rodriguez).
Desprovido da pressa e da urgência impaciente que impregna tantas outras produções norte-americanas, o filme acompanha, quase a adentrar seu segundo terço, o grupo de cinco mulheres invadir a ‘Área X’ e, nos dias estranhos que se seguem, testemunhar as conseqüências e os efeitos que o lugar passa a lhes infligir.
De início, o tempo transcorre de maneira imprevista. Mais a frente, a fauna do lugar começa a fornecer pistas mais contundentes (e preocupantes) de que uma força irreversível está operando naquele lugar; e, com efeito, ela se traduz em perigos que vão tragando-as uma a uma. Quando fica evidente um certo perigo, voltar ou prosseguir são alternativas que, dada a situação delas, não fazem muita diferença à suas perspectivas de sobrevivência.
Em “Stalker”, Tarkovski impõe uma reflexão de ordem metafísica esmagadoramente intimista em relação aos propósitos e desdobramentos do poder que se supõe existir lá, já em “Aniquilação”, o diretor Garland habilmente abre espaço aos efeitos visuais e a outros valores de produção para que se crie, com incontornável densidade, a sensação de se estar entrando num lugar de implicações imprevisíveis.
Mas, ele nunca esquece Tarkovski: Na atmosfera que se cria (e que se mantém até o fim) cujo estranhamento e a desolação quase sufocam o expectador, na umidade que ele reitera ocasionalmente e na decisão corajosa de jamais se render a um gênero fácil –ação, suspense ou mesmo terror –ele concebe uma obra feita para acompanhar o expectador, muito tempo depois que a trama tiver se acabado.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Thor - Ragnarok

A Marvel Studios sempre naquela rotina de entregar ótimos filmes de entretenimento baseados em seus heróis de histórias em quadrinhos vive em um tênue equilíbrio. De um lado os detratores afirmam que sua escala de produção impede que diretores mais autorais expressem sua personalidade nas obras, do outro –quando a própria Marvel busca corresponder a essas críticas –eles reclamam que os filmes descaracterizam seus heróis; ataque dirigido, por exemplo, à “Homem de Ferro 3”.
É bem provável que este sensacional “Thor-Ragnarok” encontre ressalvas desse tipo, visto que ele de fato promove uma desconstrução do personagem Thor.
Carregando a alguns anos a ingrata pecha de protagonista de alguns dos mais fracos filmes da Marvel Studios –e, realmente, tanto “Thor”, de Kenneth Brannagh, quando “Thor-O Mundo Sombrio”, de Alan Taylor, estão entre os mais formulaicos –isso se refletiu fazendo de Thor, em meio às reuniões de todos os heróis nos filmes dos Vingadores, um dos personagens cujos elementos e cujo intérprete (o eficiente Chris Hemsworth) foram menos explorados.
Mas, a Marvel tinha plena consciência de que estava mudando as coisas quando chamou Taika Waititi para a direção deste terceiro filme solo do personagem.
Esperto, objetivo, capaz e perspicaz, Waititi de início –de início mesmo, já nos quinze primeiros minutos! –estabelece algumas mudanças profundas na abordagem que diferem seu filme dos anteriores. A primeira delas e mais pertinente, que define o filme a partir daqui: Na qualidade de protagonista, Thor é também tornado pelo roteiro e pela direção o personagem mais interessante em cena (Tom Hiddleston, como Loki, continua excelente, mas ele já não mais rouba a cena, pelo simples fato de que ele não é central à premissa).
A segunda: O humor –dono de um senso de humor tão irresistível quanto peculiar, Waititi encoraja o improviso e a descontração de seu elenco, evidenciando com isso o impecável timing cômico até então não aproveitado de Chris Hemsworth, e aproximando o tom de seu filme muito daquela deliciosa e divertida sensação de matinê que James Gunn soube imprimir ao seu “Guardiõesda Galáxia”. Até mesmo a concepção visual desses dois filmes, a partir de um determinado momento ganha similaridades.
A terceira diz respeito à própria habilidade de Waititi como diretor, e ela surge em momentos nos quais muitos o subestimavam, como as magníficas seqüências de ação já no início, quando vemos Thor, numa espécie de cruzada investigativa pelo universo, desde que ele se prestou a essa tarefa no final de “Vingadores-A Era de Ultron”.
Isso explica porque ele se manteve tanto tempo ausente de Asgard. Quando retorna o que ele encontra –como pôde ser visto ao fim de “Mundo Sombrio” –é Loki comandando Asgard no lugar que seria de Odin (Anthony Hopkins).
Uma rápida vinda à Terra (que abre espaço para uma participação sensacional de Benedict Cumberbath como “Doutor Estranho”) e eles encontram Odin exilado, temeroso do retorno de Hella, a deusa da morte (a bela e veemente Cate Blanchett), o quê pode deflagrar o Ragnarok, ou fim do mundo, em Asgard.
Em seu primeiro embate com Hella, Thor é exilado no planeta Sakar, de onde passará boa parte do filme tentando partir. E aí começam os esforços de Waititi em promover a tal da desconstrução do personagem. Thor perde seu poderoso martelo Mjolnir (isso não é spoiler, pois já é visto num dos trailers), tem suas longas madeixas cortadas e seu figurino radicalmente alterado, e isso não é nada perto do que se passará em Asgard até o final do filme –até chegar lá, todas as características do personagem que em muito o definiam (e tidas antes por intransformáveis) assim como sua mitologia de modo geral, terão sido chacoalhadas de modo irreversível por Waititi.
Como o grande diretor que é, ele aproveita cada instante desse processo para moldar cenas antológicas: Em Asgard, uma divertidíssima encenação teatral de eventos de “O Mundo Sombrio” coloca numa mesma participação Matt Damon e Sam Neil (!). Em Sakar, após ser capturado por Valkiria (a fabulosa Tessa Thompson), Thor deve se provar valoroso como gladiador aos olhos do Grão Mestre (Jeff Goldblum, impagável) e derrotar seu campeão que é, ninguém mais ninguém menos do que o Hulk –que recebe uma breve e eficiente explicação para seu desfecho nebuloso em “A Era de Ultron”.
A participação do Hulk –assim como de Bruce Banner que Mark Ruffalo interpreta de forma igualmente brilhante –é das mais suculentas em todos os filmes da Marvel: O gigante verde é essencial à narrativa contribuindo não só para as espetaculares cenas de ação, mas para a trama também, e ainda protagoniza a primeira cena de nudez da Marvel Studios (!).
Em outras palavras, eis um filme que exemplifica com propriedade a disposição da Marvel em criar cinema de verdade e entretenimento de primeira a partir de seus produtos.
Divertido, espetacular e, por que não, mágico.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Creed - Nascido Para Lutar

A série “Rocky” já mostrou-se bastante longeva, e esse aspecto foi explorado ao máximo por seu criador e intérprete Sylvester Stallone.
Depois do ótimo “Rocky Balboa”, de 2006, parecia que a franquia tinha chegado à um final digno e condizente.
Não deixa de ser verdade.
Porém, o promissor diretor e roteirista Ryan Coogler (do notável “Fruitvale Station”) tinha outros planos: Ele almejava fazer uma espécie de derivado de “Rocky”, centrado num personagem, Adonis (vivido por Michael B. Jordan, presença recorrente nos filmes de Coogler), que seria filho de Apollo Creed (interpretado por Carl Weathers nos quatro primeiros filmes da série) e que contaria, providencialmente, com a luxuosa presença de Rocky, pela primeira vez como coadjuvante, mas um coadjuvante de peso emocional e significativo na narrativa –um daqueles casos em que o personagem, da maneira como é escrito, representa quase um presente para o ator.
A trama segue então os passos de Adonis, filho bastardo de Apollo, mas que nunca conheceu o pai –em vez disso, passou quase a infância, indo de um reformatório a outro.
Adotado pela viúva de Apollo depois que este morre (mais, precisamente, em “Rocky 4”), Adonis cresce e resolve abraçar o legado da família: As lutas de boxe.
Mas, ele tem muito o que provar antes de assumir a pesado herança do nome de seu pai. Com isso em mente, ele passa a treinar com o homem que Apollo mais confiou em vida, o campeão Rocky Balboa.
A direção de Coogler, ao mesmo tempo em que revela competência na forma com que estabelece a premissa, não busca arroubos de reinvenção, pelo contrário, sua narrativa é bastante reverente aos filmes anteriores da franquia, obedecendo sua estrutura, concebendo cenas que se sucedem com familiaridade às que vimos em praticamente todos os outros filmes e que só não caem no ingrato terreno da repetição, porque Coogler é talentoso de fato e sabe dar a elas o devido ímpeto de inovação e diferenciação.
No elenco, Jordan está muito bem –até consegue ficar parecido com Weathers em algumas cenas –assim como também está ótima a bela Tessa Thompson, no papel da mulher que ele ama (e que pode ganhar mais importância na provável continuação), já, Rocky é um caso à parte: Na atuação de Stallone, o personagem parece como uma vestimenta que nele se encaixa de modo confortável: Timing, maneirismos, trejeitos e inflexões de Rocky são características com as quais ele demonstra saber trabalhar com parcimônia e dosagem acertada, justificando a indicação para o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante que ele recebeu eu 2016 –e que, infelizmente para alguns, não concretizou-se em vitória, tendo Stallone perdido para Mark Rylance, de “Ponte dos Espiões”.