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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Algumas Previsões Para O Oscar 2026

 


Die, My Love

O filme que reúne os astros Jennifer Lawrence e Robert Pattinson encontra-os num momento bastante aclamado de suas carreiras; diferente de quando foram lançados ao estrelato (ela, com “Jogos Vorazes”; ele, com “Crepúsculo”), e dirigidos pela sempre autoral Lynne Ramsay. “Die, My Love” chega com chances fortíssimas de emplacar mais uma indicação de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence e possibilitar a melhor recepção da Academia de Artes Cinematográficas, até então, para um filme de Ramsay.


O Agente Secreto

Desde antes de sua estréia, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, vinha sendo cotado para repetir com pompa e circunstância a mesma campanha belíssima feita pelo premiado “Ainda Estou Aqui” no ano passado, agora, com indições para Wagner Moura, de Melhor Ator, e novamente Melhor Filme Internacional, e até quem sabe algumas outras categorias: Muitos são os críticos apontando este como o melhor trabalho de Mendonça Filho, o quê, vindo do realizador de “Bacurau”, não é pouco!


Avatar-Fogo e Cinzas

O primeiro “Avatar”, lá de 2009, é visto hoje como um divisor de águas no cinema hollywoodiano; sua continuação, “O Caminho da Água”, pode até não ter repetido a mesma extensão de êxito, mas foi um fenômeno de bilheteria, concorreu ao Oscar de Melhor Filme e ainda saiu da cerimônia com o prêmio de Melhores Efeitos Visuais. O trailer (empolgante, diga-se) desta terceira parte promete, no mínimo, uma produção superior ao último filme.


Frankenstein

Contando pouco tempo de seu lançamento em cinema e streaming (o filme é da Netflix), a nova e suntuosa versão do diretor Guilhermo Del Toro para a obra imortal de Mary Shelley está perfeitamente posicionada para ser lembrada na cerimônia do Oscar no ano que vem. E muitos têm sido aqueles que enalteceram a realização de Del Toro como a melhor adaptação do clássico literário até hoje! –lembrando que, entre outras versões, houve até uma de Kenneth Branagh com Robert De Niro.


Pecadores

Talvez, a grande obra-prima entre os exemplares da nova vertente do terror norte-americano, “Pecadores”, de Ryan Coogler, surpreendeu o público e a crítica com uma trama que, enquanto capturava uma apaixonada referência à “Um Drink No Inferno”, de Robert Rodriguez, abordava a questão racial e a influência poderosa da música negra num espetáculo cinematográfico belo, impressionante e sangrento.


F1-O Filme

O excelente filme com Brad Pitt e dirigido por Joseph Kosinski chegou até mesmo a ser relançado nos cinemas no segundo semestre deste ano visando uma chance entre os indicados ao Oscar. As possibilidades entre as categorias principais estão diminuindo (à medida que concorrentes mais fortes e substanciais começam a ser lançados no circuito), mas a esperança ainda paira no ar –e a presença em muitas categorias técnicas é quase uma barbada visto sua incontestável competência.


Uma Batalha Após A Outra

Paul Thomas Anderson recrutou Leonardo Dicaprio para realizar um dos filmes mais ágeis e dinâmicos de sua consagrada carreira. Adaptado de um livro de Thomas Pinchon (assim como foi “Vício Inerente”), Anderson entrega uma produção sofisticada, carregada de reflexões pertinentes e atuais, concebida com apuro visual e narrativo à toda prova e adornada de brilhantes atuações. O olhar dos críticos, do público e da Academia repousa, atento, sobre ele.


Wicked-Parte 2

A “Parte 1” encantou público e crítica, chegando na última cerimônia do Oscar (de onde saiu com duas estatuetas) exigindo respeito. Esta segunda e última parte (sobretudo, depois do lançamento de seu trailer apoteótico) eleva ainda mais as apostas. Agora, retornamos ao mundo de “O Mágico de Oz” pouco antes dos eventos narrados no clássico; contudo, desta vez, a trajetória dúbia e intrigante de Elphaba e Glinda vai adentrar os acontecimentos do filme de 1939 e, por fim, se encerrar.


Bugonia

O diretor grego Yorgos Lanthimos, a despeito de seu estilo corrosivo, único e pouco usual, parece ter caído nas graças de Academia que terminou indicando (e, em alguns casos, até premiando!) a maioria de seus últimos trabalhos em categorias bastante expressivas. Sua nova audácia “Bugonia”, já desponta como um dos favoritos à estatueta dourada e à outros prêmios da temporada com a atenção voltada, especialmente, para as atuações de Emma Stone e Jesse Plemmons, intérpretes prediletos de Lanthimos.


Coração de Lutador

Dwayne ‘The Rock’ Johnson concorrendo ao Oscar de Melhor Ator? É o que muitos estão se perguntando e contemplando a possibilidade de se tornar verdade. Dirigido por Ben Safdie (diretor de “Jóias Brutas” e ator em “Oppenheimer”) e baseado na vida do lendário lutador Mark Kerr, o filme parece uma tentativa de The Rock em dar um novo rumo à sua carreira já pontuada por vários sucessos de bilheteria. Para alguns especialistas a bilheteria abaixo do esperado pode ter esfriado suas chances, mas, para outros, o filme ainda tem possibilidades reais de chegar aos indicados principais.

domingo, 1 de junho de 2025

Pecadores


 A premissa desta brilhante obra do diretor Ryan Coogler parece claramente beber da fonte de um cultuado filme de terror dos anos 1990, dirigido por Robert Rodrigues e roteirizado (e estrelado) por Quentin Tarantino –“Um Drink No Inferno”.

Como naquele filme há, em “Pecadores”, uma dupla de irmãos (gêmeos, neste caso), cuja trajetória de crimes e mortes os leva à noite fatídica que ocupa o cerne da narrativa; e como naquele filme, há aqui também uma circunstância de cerco onde os protagonistas sobreviventes devem enfrentar perigos impronunciáveis na forma de vampiros até o sol amanhecer –perigos esses que representam um contraponto muito maior ao perigo que eles mesmo representavam.

O ano é 1932. No estado da Louisiana, na cidadezinha de Clarksdale, recém-livrada da Ku Klux Khan (ou, pelo menos, é o que parece), os gêmeos Elijah e Elias Moore, também conhecidos por Smoke e Stack (ambos interpretados, por meio de notáveis efeitos digitais de duplicação, por Michael B. Jordan), retornam ao local onde cresceram dispostos a fazer fortuna. Após um período em Chicago –onde aumentaram sua fama de implacáveis para muito além dos crimes locais –os gêmeos agora têm dinheiro para investir no sonho de um Clube de Blues, comprado de um proprietário ex-Ku Klux Khan, e para o qual almejam trazer seus conhecidos mais próximos: O comerciante chinês Bo Chow (Yao) e sua esposa Grace (Li Jun Li, de “Babilônia”) para ajudar nos preparativos; a esposa de Smoke, Annie (Wunmi Mosaku, de “Deadpool & Wolverine”), para contribuir com seu toque mágico na cozinha; o grandalhão Cornbread (Omar Miller, de “8 Mile-Rua das Ilusões”) auxiliando na segurança; e fornecendo a música aos frequentadores, o veterano e calejado pianista Slim (Delroy Lindo, de “Regras da Vida”) e o primo deles, o assombrosamente talentoso Sammie (Miles Caton); além das presenças das beldades Pearline (Jayme Lawson, de “Batman”), como cantora, e Mary (Hailee Steinfeld), como namorada de Stack.

Tal e qual (de novo) “Um Drink No Inferno”, a trama de “Pecadores” se desdobra em uma única noite. Durante o seu breve prólogo, uma narração em off nos explica que existem pessoas cujo talento musical consegue evocar a música do passado e do futuro, tal habilidade, é explicado também, desperta a atenção e o interesse de alguns seres das trevas, capazes de perceber essa importância sobrenatural.

É a música de Sammie (cujo alcance e a influência através dos tempos são ilustrados numa cena absolutamente memorável) que acaba atraindo as criaturas que, de um ponto em diante, darão um novo rumo ao filme.

Ao contrário da obra de Rodrigues e Tarantino –criticada, à época de seu lançamento, por trazer uma guinada tão abrupta para o gênero de vampiros na metade de sua duração que praticamente contrastava com a parte anterior do filme –este trabalho de Coogler nunca perde sua harmonia, sua solidez ou sua coerência. Na maneira como justapõe os revezes raciais como continuidade trivial de um horror ainda maior a espreitar nas sombras, “Pecadores” se assemelha ao também excelente trabalho desempenhado na série “Entrevista Com O Vampiro”, cuja primeira temporada também trazia essa mesma postura alegórica.

Assim como tantas obras igualmente geniais a ganhar a ribalta, o filme de Coogler se apropria de um difundido conceito de terror para discutir temas sempre em voga, reflexões de ordem social e humana, enquanto deixa sua própria marca dentro de um gênero popular e inesgotável.

E neste caso, ele o faz com um trabalho vibrante e impecável –“Pecadores” é uma jóia preciosa dentre as inúmeras obras cheias de brilhantismo, inteligência e ímpeto renovador que afloraram através do gênero de terror nas temporadas 2024 e 2025, como “Entrevista Com O Demônio”, “A Substância”, “Nosferatu”, “Presença”, “Acompanhante Perfeita” e vários outros, sinalizando uma fabulosa onda crescente de um novo e revitalizado terror concebido em terras norte-americanas.

sábado, 12 de novembro de 2022

Pantera Negra - Wakanda Para Sempre


 O processo de dar continuidade a filmes de sucesso é uma fina arte que se exerce ao sabor de muitos acontecimentos da vida real. Quem não lembra do falecimento de Heath Ledger, um ano antes dele tomar o planeta de assalto com sua impecável personificação de Coringa em “O Cavaleiro das Trevas”? Certamente, o capítulo final daquela trilogia de Christopher Nolan viu-se comprometido, em seus planos originais, pela morte do insubstituível intérprete do antagonista principal. É, por assim dizer, com algo um pouco parecido que se depararam os realizadores deste “Wakanda Para Sempre”: Tendo o diretor Ryan Coogler levado seu “Pantera Negra” a tornar-se o primeiro filme de super-heróis a concorrer ao Oscar de Melhor Filme, uma fatalidade mudou os planos gloriosos que ele e a Marvel Studios certamente tinham para a continuação, a morte do protagonista Chadwick Boseman, em 28 de agosto de 2020, vitimado por um câncer.

A decisão da Marvel, guiada por um sentimento de luto que dominou também os fãs pelo mundo todo, foi também matar o personagem que ele interpretava, T’Challa, fazendo com que o legado do herói se encerrasse junto com o grande ator que o interpretava. Embora exalasse respeito, a decisão não deixou de impactar alguns fãs que se opuseram a essa escolha.

Contudo, todos –os que compactuaram com a manobra e os que dela discordaram –tiveram que conferir em “Pantera Negra-Wakanda Para Sempre”, os efeitos dessa decisão e as consequências dela para os coadjuvantes e para todo o Universo Marvel daqui para frente.

Imaginar o que teria sido o filme se Chadwick Boseman tivesse permanecido vivo é um gesto tão doloroso quanto irrelevante, o que importa é a obra plena de emoção e comoção que assim chegou aos cinemas.

É Ryan Coogler, Kevin Feigi e todo o elenco e equipe técnica unidos em preparar a melhor despedida possível para um amigo. É também o filme mais emocionante da Fase 4 da Marvel.

Quando “Wakanda Para Sempre” começa, somos apresentados a uma cena construída com vibração elíptica, onde de pronto, o personagem de T’Challa acaba partindo, por razões que o filme escolhe deixar em aberto. Segue-se um momento fúnebre –já vislumbrado nos trailers da produção –e a energia de luto e de despedida que se levanta a partir dali permeia todo o filme, sendo ocasionalmente atenuada pela urgência da trama que é contada.

Em suas facetas mais práticas, “Wakanda Para Sempre” lida também com a circunstância política acarretada pela decisão tomada ao final do primeiro “Pantera Negra”, no qual a nação africana e ultra-tecnológica de Wakanda revela todos os seus vastos recursos ao mundo. As Nações Unidas, agora, têm um ávido interesse no precioso metal que permite todo esse avanço à Wakanda, a raridade absoluta conhecida como vibranium.

Embora fosse presumido que o vibranium era de exclusividade de Wakanda, algumas pesquisas capitaneadas pelos EUA descobrem que há, sim, vibranium em outra parte do mundo. Mais precisamente nas profundezas do Oceano Atlântico. Entretanto, também lá, o precioso metal tem seus donos: O reino aquático de Talokan, oriundo de uma ancestral cultura asteca, e governado com protecionismo implacável pelo poderoso mutante Namor (Tenoch Huerta, fabuloso no personagem).

Estrategista feroz, Namor procura a rainha Ramonda (Angela Basset, maravilhosa) e Shuri (Letitia Wright), respectivamente, a mãe e a irmã, ainda enlutadas de T’Challa, para pedir-lhes um gesto de boa vontade, da parte de Wakanda, para Talokan: Encontrar e entregar-lhe o gênio responsável pela invenção da prodigiosa máquina que possibilitou aos americanos detectar o vibranium no fundo do mar. No entanto, a decisão não se revela fácil: O gênio em questão é a adolescente Riri Williams (Dominique Thorne, uma excelente aquisição ao Universo Marvel) cuja empatia e inteligência espelha muito as de Tony Stark –o super-herói inaugural desse mesmo universo.

Será esse e outros impasses que colocarão as forças de Talokan em rota de colisão com as de Wakanda, o que faz do filme formidável perpetrado por Ryan Coogler, um épico de guerra, adornado por todo o viés político que as obras mais profundas e circunspectas dessa orientação costumam ter.

É claro que “Wakanda Para Sempre” carrega em si o fardo de ser inúmeras outras coisas também: Um trabalho que resgate aos olhos do público a excelência da Marvel Studios, dispersa em projetos, televisivos e cinematográficos, que, desde o descomunal “Vingadores-Ultimato” não chegaram a empolgar como deveriam; uma profusão habitual de efeitos visuais e ação constante à qual a Marvel já acostumou seus expectadores; uma introdução, fervilhante em representatividade de Namor e toda a mitologia (diferenciada das HQs) que o cerca, na qual o reino submarino de Talokan (diferente da Atlântida vista em “Aquaman”, por exemplo) ganha caracterizações que remetem à cultura mezomericana, numa manobra radical mas, bastante interessante da parte dos realizadores; uma passagem de bastão, do falecido T’Challa para Shuri (a protagonista de fato deste filme); uma cuidadosa preparação para muitos conceitos que haverão de definir o Universo Marvel daqui para frente –com a adição, não só de Namor (aqui contextualizado como um antagonista, mas, perfeitamente capaz de ser um herói extremamente complexo e fascinante em projetos vindouros), como também de Riri Williams (herdeira de Stark e do “Homem de Ferro” cuja série própria, “Ironheart”, já está prevista no Disney Plus) e até da Condessa Valentina Allegra de La Fontaine (a ótima Julia Louis-Dreyfuss), personagem que deve ganhar tremenda importância num futuro próximo –e, acima de tudo, uma homenagem ao legado deixado por Chadwick Boseman.

Na sua tentativa de abraçar tantos objetivos, “Wakanda Para Sempre” naturalmente cede à pressão –até porque não resulta numa obra de cinema tão perfeita quanto a produção anterior –contudo, ao voltar-se, no seu desfecho, aos seus fãs, e ao investimento emocional e incontornável da dor pela partida de seu astro na vida real, o filme entrega um sentimento muito genuíno ao público, elevando sua experiência sensorial para além da adrenalina palpitante de suas cenas de ação.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Fruitvale Station - A Última Parada

Antes de entregar um derivado de qualidade inconteste da série “Rocky”, em “Creed”, antes de realizar um dos melhores filmes da Marvel Studios, obtendo a histórica primeira indicação ao Oscar de Melhor Filme para uma adaptação de histórias em quadrinhos, em “Pantera Negra”, o diretor Ryan Coogler mostrou a que veio neste drama independente, uma austera e emotiva reconstituição das últimas horas de vida do americano Oscar Grant, cujo assassinato, pelas mãos ineptas e despreparadas de policiais truculentos na Estação Bart Fruitvale, em Los Angeles, ocorrido na manhã de 1º de janeiro de 2009, deu início a uma série de protestos raciais nos EUA –um filme que, pelas pertinentes circunstâncias que o cercam, dialoga muito com o presente, e a indignação suscitada pela morte de George Floyd, em condições parecidas.
O filme se inicia com uma gravação documentada numa câmera de celular, mostrando a cena que chocou milhares de pessoas, onde um cidadão negro é alvejado sem justificativa por policiais que o prenderam, e a seus amigos, sem qualquer acusação.
A história começa pouco menos de 24 horas antes. Oscar (o formidável Michael B. Jordan) está tentando dar estabilidade ao relacionamento com a namorada Sophina (Melonie Diaz, de “Os Reis de Dogtown”) com quem tem uma filha, a pequena Tatiana (Ariana Neal). Com sua habilidade dramática, o diretor Coogler consegue mostrar em poucas cenas o contexto mundano de dramas e agonias cotidianas do casal: Além do fantasma de uma traição a assombrá-los, Oscar perdeu o emprego e tem lá suas conexões com a criminalidade para atormentá-lo –possibilidades corruptíveis que sempre parecem seduzir quando ele se encontra no desespero do desemprego e da impossibilidade de cuidar da própria mulher e filha.
É o dia 30 de dezembro de 2008. E é também o aniversário de sua mãe, Wanda, vivida pela sempre magnífica Octavia Spencer.
Na vicissitude de uma vida comum, Oscar vai ao mercado fazer comprar –onde precisa praticamente implorar, sem muitos resultados, para tentar recuperar o emprego que perdeu –roda com o carro por L.A., e até mesmo cogita vender droga para ter algum dinheiro no bolso; opção da qual as amargas lembranças de sua prisão, anos antes, o fazem desistir.
Numa cena particularmente notável, ele procura, em vão, ajudar um cachorro, atropelado por um motorista inconsequente –o sofrimento do animal, a aflição de Oscar e a absoluta ausência de quaisquer outras pessoas em cena, simbolizam com contundência a denúncia do diretor Coogler para a nociva falta de empatia que os seres humanos tiveram por hábito cultivar em sociedade nas últimas décadas.
À noite, Oscar e Sophina vão à casa de Wanda comemorar seu aniversário –e, de novo, surpreende o expectador, a maneira com que a condução serena e impecável de Coogler consegue arrancar espontaneidade do elenco em interação.
“Fruitvale Station” é um registro de uma comunidade em particular, seus ritos, seus hábitos, suas vidas e suas turbulências, seus humores e seus contratempos; o porque deles falarem como falam, agirem como agem e se vestirem como se vestem, e do porque têm o direito de não serem julgados por isso.
A cena fatídica na Estação Bart Fruitvale se aproxima calma e dolorosamente –porque até lá, o diretor já nos tornou próximos de Oscar, já fez dele alguém que conhecemos e por quem nos importamos; e nos fez saber, desde o princípio, que seu fim será amargo.
O retrato do momento em que toda a tragédia se deflagrou –reconstituído em justaposição á cena verdadeira vista no começo do filme –é de uma execução primordial, tamanho seu minimalismo, sua precisão e, em contraponto, a capacidade peculiar do diretor em encontrar mesmo ali uma emoção sincera, absolutamente despida de sentimentalismos e manipulações romantizadas.
“Fruitvale Station” levanta questões que sempre haverão de nos importar enquanto sociedade, exige respeito e admiração pela realização profissional e brilhante da parte de todos os envolvidos a frente e atrás das câmeras, e consegue comover com a preciosidade do retrato humano e próximo que faz de seres humanos como eu e você.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Pantera Negra

É visto que os filmes da Marvel Studios vêem atrelados a uma narrativa que os interliga aos outros filmes do estúdio. “Pantera Negra”, por exemplo, é conectado aos acontecimentos de “Capitão América-Guerra Civil” –onde o herói, T’ Challa foi apresentado pela primeira vez –e não restam dúvidas se conectará também, por conta de inúmeros detalhes, à “Vingadores-Guerra Infinita”.
Ainda assim, tal e qual os mais hábeis artesãos que a Marvel recruta, o diretor Ryan Coogler é astuto o suficiente para fazer deste filme solo um espetáculo inteligente, instigante, envolvente e eletrizante por si só, independente das demais produções: “Pantera Negra” ombreia em qualidade e primor –assim como em temática e austeridade narrativa –a um dos melhores trabalhos do estúdio, o magnífico “Capitão América-Soldado Invernal”.
Extremamente talentoso (como ficou comprovado nos ótimos “Fruitvale Station-A Última Parada” e “Creed-Nascido Para Lutar), Coogler conta a história de seu protagonista, T’ Challa (que Chadwick Boseman interpreta com solidez e propriedade) a partir dos desdobramentos do ocorrido em “Guerra Civil”, no caso, o assassinato por atentado de seu pai T’ Chaka, o que faz dele, por sucessão, o rei de Wakanda (uma nação sul-africana evoluída, futurista e absolutamente secreta) e também seu lendário protetor, o Pantera Negra.
Para acompanhá-lo na ritualística cerimônia de coroação, T’ Challa faz questão da presença da mulher que ama, a cativante, mas nem por isso menos enérgica Nakia (vivida com carisma, vigor e encanto pela linda Lupita Nyong’o, de “12 Anos de Escravidão”), que além de tudo é uma espécie de agente secreto a serviço de Wakanda, monitorando as outras nações do mundo e tentando auxiliar os dissidentes wakanianos no processo.
O roteiro de Coogler, contudo, não se acomoda na inércia dos eventos que transcorrem com naturalidade: Já no começo, ele introduz um flashback envolvendo o rei T’ Chaka ainda em sua juventude –ele próprio como Pantera Negra –que somente a medida que a trama evolui vamos nos dando conta de seu primor.
É quando essas duas linhas narrativas se fundem (T’ Challa assumindo as funções e responsabilidades de rei; e o segredo envolvendo um erro do passado cometido por seu pai) que o filme de Coogler evoluiu do ótimo para o excelente: Eis que T’ Challa descobre que o aliado do contrabandista Ulisses Klaus (Andy Serkis, ótimo), o misterioso Killmonger (Michael B. Jordan, um vilão vibrante e espetacular), é na realidade um membro renegado de sua própria família real e, portanto, digno de desafiá-lo numa luta pelo trono de Wakanda.
Reunindo um dos mais sensacionais e bem empregados elencos da Marvel Studios –além dos atores já mencionados, “Pantera Negra” tem também Danai Gurira (da série “The Walking Dead”) como a líder das Dora Milaje, a arrojada e eficaz guarda real de Wakanda constituída de mulheres guerreiras; o grande Forest Whitaker como Sully, o curandeiro responsável pelo segredo que concebe poderes ao herói (e pivô do grande segredo do filme); a veterana Angela Basset como a rainha, mãe do herói; o britânico Martin Freeman (da trilogia “O Hobbit” e da série “Sherlock”); o indicado ao Oscar Daniel Kaluuya (por “Corra!”); e a notável Letitia Wright, como aquela que deve ser a mais divertida personagem do filme, a inventora e irmã do herói, Shuri –o filme de Coogler guarda desdobramentos radicais, surpreendentes e pertinentes em sua trama, na medida em que se beneficia do fato deste ótimo personagem não ser tão conhecido assim do grande público (o que permite ao realizador surpreender os expectadores com certos lances em sua trajetória) e entrega, na forma de um trabalho extraordinário, um dos mais perfeitos, politizados e válidos manifestos do cinema comercial em prol da diversidade: Um filme de super-herói com um elenco majoritariamente negro, e que ainda por cima é facilmente incluso entre os melhores que a Marvel já produziu

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Creed - Nascido Para Lutar

A série “Rocky” já mostrou-se bastante longeva, e esse aspecto foi explorado ao máximo por seu criador e intérprete Sylvester Stallone.
Depois do ótimo “Rocky Balboa”, de 2006, parecia que a franquia tinha chegado à um final digno e condizente.
Não deixa de ser verdade.
Porém, o promissor diretor e roteirista Ryan Coogler (do notável “Fruitvale Station”) tinha outros planos: Ele almejava fazer uma espécie de derivado de “Rocky”, centrado num personagem, Adonis (vivido por Michael B. Jordan, presença recorrente nos filmes de Coogler), que seria filho de Apollo Creed (interpretado por Carl Weathers nos quatro primeiros filmes da série) e que contaria, providencialmente, com a luxuosa presença de Rocky, pela primeira vez como coadjuvante, mas um coadjuvante de peso emocional e significativo na narrativa –um daqueles casos em que o personagem, da maneira como é escrito, representa quase um presente para o ator.
A trama segue então os passos de Adonis, filho bastardo de Apollo, mas que nunca conheceu o pai –em vez disso, passou quase a infância, indo de um reformatório a outro.
Adotado pela viúva de Apollo depois que este morre (mais, precisamente, em “Rocky 4”), Adonis cresce e resolve abraçar o legado da família: As lutas de boxe.
Mas, ele tem muito o que provar antes de assumir a pesado herança do nome de seu pai. Com isso em mente, ele passa a treinar com o homem que Apollo mais confiou em vida, o campeão Rocky Balboa.
A direção de Coogler, ao mesmo tempo em que revela competência na forma com que estabelece a premissa, não busca arroubos de reinvenção, pelo contrário, sua narrativa é bastante reverente aos filmes anteriores da franquia, obedecendo sua estrutura, concebendo cenas que se sucedem com familiaridade às que vimos em praticamente todos os outros filmes e que só não caem no ingrato terreno da repetição, porque Coogler é talentoso de fato e sabe dar a elas o devido ímpeto de inovação e diferenciação.
No elenco, Jordan está muito bem –até consegue ficar parecido com Weathers em algumas cenas –assim como também está ótima a bela Tessa Thompson, no papel da mulher que ele ama (e que pode ganhar mais importância na provável continuação), já, Rocky é um caso à parte: Na atuação de Stallone, o personagem parece como uma vestimenta que nele se encaixa de modo confortável: Timing, maneirismos, trejeitos e inflexões de Rocky são características com as quais ele demonstra saber trabalhar com parcimônia e dosagem acertada, justificando a indicação para o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante que ele recebeu eu 2016 –e que, infelizmente para alguns, não concretizou-se em vitória, tendo Stallone perdido para Mark Rylance, de “Ponte dos Espiões”.