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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Morra, Amor


 A casa para onde o casal Jackson e Grace (Robert Pattinson e Jennifer Lawrence, ótimos) vão morar foi onde o tio dele outrora se matou. E esse elemento, o do fatalismo inerente, será um dado que irá perpassar toda a trajetória dessa vida a dois investigada com olhar aguçado pela diretora Lynne Ramsay.

Conhecedores do cinema dessa cineasta escocesa sabem que ela não se interessa por realidades felizes ou idealizadas, sabem que a autenticidade de seus personagens se revela aos poucos, gradativamente desfraldando celeumas profundas, algumas inapeláveis. E não deixa de ser algo exatamente assim que ela investiga aqui, contando desta vez com o inestimável talento da estrela Jennifer Lawrence, num papel que guarda inúmeros ecos do mesmo desempenho que ela entregou no filme “Mãe!” – como lá, temos aqui uma jovem confrontada com as difíceis e imprevistas facetas da maternidade, ao mesmo tempo que afastada de todos ao morar num local longínquo. Pois, uma vez instalados na casa – que à propósito, trata-se de uma casa isolada numa área rural de Montana – Jackson e Grace acabam tendo um filho que nasce uns meses depois, ao qual o jovem casal se decide por não dar ainda nome nenhum. Contudo, Grace aos poucos vai experimentando a negligência do marido à medida que ele se afasta cada vez mais sob a justificativa do trabalho. São pequenos, mas pertinentes, os indícios que Lynne Ramsay planta, aqui e ali, de seu distanciamento (a sequência do telefonema em que Grace percebe, pelos sons diegéticos, que ele se encontra em uma lanchonete) e de sua infidelidade (as caixas com preservativos, de existência injustificada, que ela encontra sucessivamente dentro do carro) – e é necessário também mencionar o trabalho sólido e perspicaz de Robert Pattinson numa composição despida de qualquer vaidade.

Todos esses pequenos percalços e atribulações fazem com que Grace comece a se dar conta de que ser esposa e mãe demanda alguns sentimentos de vazio, solidão e desamparo com os quais ela não estava preparada para lidar.

O isolamento – pelo menos, na ótica não muito circunspecta de Jackson – serviria para Grace, uma aspirante a romancista, escrever seu próximo livro, entretanto, o ímpeto para escrever jamais vem, substituído, em vez disso, por uma perda gradual de sua própria identidade, por um vazio que a consome nos dias e noites que se seguem.

O cinema moderno tem sido contumaz num objetivo resgate das celeumas intimistas de uma depressão pós-parto acometida às mulheres em obras mais recentes como “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” ou “Pieces Of A Woman”. A fim de executar uma sondagem de aspectos similares, Lynne Ramsay, neste seu “Die, My Love”, lança mão de circunstâncias peculiares, tão alarmantes quanto mundanas (o ambiente familiar e social onde Grace e Jackson vivem não dá muita margem para a compreensão da condição dela, sendo que os coadjuvantes mais recorrentes são sempre a mãe e o pai dele, vividos por Sissy Spacek e Nick Nolte, respectivamente), de situações incertas onde o cinema permeia aquela fronteira ambivalente entre sonho e realidade, delírio e lucidez (as sequências nebulosas e enigmáticas onde vemos um motoqueiro – a lembrar um intrigante personagem do cultMal do Século” – vivido por Lakeith Stanfield, de “Corra!”, rodeando e cercando a casa de Grace e, mais tarde, convertendo-se numa espécie de amante dela!), e de observações de ordem alegórica (o incêndio a consumir a floresta que circunda a fazenda, mostrado no início do filme e retomado já na sua cena final).

O som e a música contribuem muito para essa desestabilização dos sentidos, num reflexo do estado interior da protagonista e sua luta conta fantasmas internos – o latido de um cachorro comprado por Jackson que, ao longo dos dias, inferniza Grace sem parar; os acordes repentinos de trilha sonora, nem sempre adequada, que irrompem nas cenas apenas para remover o público de qualquer sensação de conforto.

Há um momento, quase inebriante, já perto do desfecho, em que Ramsay chega a sinalizar com a possibilidade de uma final ameno e feliz, um instante onde o amor parece capaz de prevalecer – é quando o casal, a despeito de suas crises, entoa uma mesma música que toca no rádio do carro. Poderia ser até o final do filme, e nele, os talentos de Jennifer e Robert realmente conseguem tirar leite de pedra e emocionar o expectador, mas, Ramsay (como atestam seus trabalhos contundentes e irrefreáveis) não é adepta de finais felizes abruptos. Ela conduz seu filme à já citada sequência do incêndio, justamente para que seu impacto nos faça entender que ela não está, nem de longe, brincando com coisa tão séria.

domingo, 2 de agosto de 2026

A Odisseia


 O que fazer após a consagração? Essa dúvida talvez tenha passado na mente de Christopher Nolan após ele ter arrebatado o Oscar de Melhor Filme na cerimônia de 2024 com “Oppenheimer”, e a resposta que ele encontrou foi... voltar ao início de tudo!

Como contador de histórias, Nolan sentiu que havia chegado a hora de tentar contar no cinema uma das mais antigas histórias da civilização, uma estrutura referencial para todas as jornadas arquetípicas que vieram depois – “A Odisseia”.

O próprio cinema de Christopher Nolan deve muito a esse poema ancestral de Homero: Lá estão as idas e vindas temporais (por meio de memórias sistematicamente resgatadas) que dão à narrativa um sedutor formato não linear, tal e qual Nolan fez em “Amnésia”, em “Tenet” e outras obras mais. “A Odisseia” é, em si, um modelo que sempre exerceu forte impacto sobre ele enquanto cineasta.

Logo, diante da sensação de ter chegado ao topo, Nolan se viu na necessidade de regressar (assim como Odisseu) ao ponto em que sua verve como contador de histórias floresceu. Regressar à Odisseia.

Não que não houvessem tentado adaptá-la (e muito) antes: Além de um sem-fim de tentativas de adaptação em formato longa-metragem ou minissérie (a maioria delas ostentando valores característicos de Filme B), “A Odisseia” é também a fonte e a influência para diversas outras variações narrativas no cinema como “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, dos Irmãos Coen, “Cold Mountain”, de Anthony Minghella, e (há quem diga) “Interestelar”, do próprio Nolan.

Era hora de aventurar-se a adaptar a obra original de fato e tentar dar a ela uma roupagem cinematográfica definitiva. E o resultado, como costuma ser nos melhores trabalhos de Nolan é ambicioso, abrangente, épico e assombroso.

Antiguidade. Já conta mais de uma década dos feitos cantados aos quatro ventos durante a Guerra de Tróia vencida pelas forças de Agamenon (o também diretor Ben Safdie), todavia, Odisseu (Matt Damon), o rei de Ítaca e um dos homens de confiança de Agamenon naquele longo conflito ainda não retornou para casa, nem para o leito de sua devotada esposa Penelope (Anne Hathaway). Há quem diga que perdeu-se no mar. Há quem diga que morreu. Enquanto esse impasse não se resolve, e enquanto a esperança por seu retorno se mantém inabalável em Penelope, as dezenas (quase centenas) de pretendentes à mão dela e ao trono de Ítaca se amontoam no palácio esbanjando da hospitalidade grega, entre eles, o pérfido e ardiloso Antinous (Robert Pattinson). Em algum momento, Penelope haverá de terminar o sudário que passa os dias tecendo, e quando o fizer, será o momento em que terá por obrigação escolher um deles, a despeito da injúria de Telêmaco (Tom Holland), filho de Odisseu que, como a mãe, ainda nutre esperanças pelo retorno do pai. Um pai que ele não conheceu.

É, no entanto, a conturbada jornada de Odisseu em seu esforço para voltar para casa que ocupa todo o centro da narrativa de Nolan.

Finda a Guerra de Tróia (com o episódio do Cavalo de Tróia mostrado num segmento espetacular em flashback), Odisseu junta seus homens e prepara-se para a viagem em regresso à Ítaca, entretanto, uma série de contratempos acaba comprometendo seu retorno. Farto dos desmandos de Agamenon, ele segue por uma outra rota marítima que o leva à uma ilha habitada por um gigantesco ciclope das cavernas – na primeira das inúmeras cenas que provam a desenvoltura sem igual (e até então desconhecida e inexplorada) de Christopher Nolan para moldar sequências do mais puro terror.

Somente com o monstro derrotado, Odisseu e seus homens se dão conta de que, como a criatura mitológica que é, ele tem como pai uma das divindades (Poseidon, no caso) que, agora, se encontra enfurecido com Odisseu e haverá de dificultar sua volta para casa. E serão esses percalços, de exaspero inacreditável que acrescentarão mais dez anos ao regresso do Odisseu – que a guerra já havia afastado por uma década de Ítaca. O confronto com os gigantes, seguido do encontro com a feiticeira Circe (Samantha Morton, ótima), a sombria sequência do reencontro com os combatentes da Guerra de Tróia, agora mortos, e a aparição de outras criaturas sobrenaturais dos mares como as sereias, o monstro que sucede o redemoinho de Poseidon e a deusa Calypso (Charlize Theron) que, em sua afeição por Odisseu, o aprisiona em sua ilha, destituído de suas lembranças, por sete longos anos.

Não há um único membro do elenco que, sob a batuta de Christopher Nolan, não esteja excelente, contudo, no campo das atuações primorosas é necessário chamar à frente Matt Damon, Tom Holland e Robert Pattinson, estupendos interpretando o trio que representa o cerne de todo o embate moral e emocional da trama – o homem em regresso ao lar em permanente conflito com as escolhas atrozes que a guerra lhe obrigou a fazer; o menino pressionado a virar homem a fim de preservar intacta a herança e a memória do pai; e o vil interesseiro oportunista a tentar valer-se de trapaça e perfídia a fim de prevalecer em vantagem sobre essas duas circunstâncias.

A obra de Homero é e sempre foi um fundamento em torno do qual os mais diversos enredos foram construídos ao longo dos séculos, Nolan recriou essa jornada monumental a partir de suas mais recentes adaptações e traduções, buscando a conciliação de uma linguagem moderna com os paradigmas inestimáveis que o poema original plantou na cultura literária do ocidente. Seu filme é uma recriação majestosa, vibrante e, em alguns momentos, até comovente do esforço de seu protagonista em se manter relevante e digno ante um mundo em transformação e suas imponderáveis provações – só o tempo dirá o quão contundente vai ser sua marca na História do Cinema, mas desde já “A Odisséia”, de Christopher Nolan, é um dos melhores e mais brilhantes filmes de 2026.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Algumas Previsões Para O Oscar 2026

 


Die, My Love

O filme que reúne os astros Jennifer Lawrence e Robert Pattinson encontra-os num momento bastante aclamado de suas carreiras; diferente de quando foram lançados ao estrelato (ela, com “Jogos Vorazes”; ele, com “Crepúsculo”), e dirigidos pela sempre autoral Lynne Ramsay. “Die, My Love” chega com chances fortíssimas de emplacar mais uma indicação de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence e possibilitar a melhor recepção da Academia de Artes Cinematográficas, até então, para um filme de Ramsay.


O Agente Secreto

Desde antes de sua estréia, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, vinha sendo cotado para repetir com pompa e circunstância a mesma campanha belíssima feita pelo premiado “Ainda Estou Aqui” no ano passado, agora, com indições para Wagner Moura, de Melhor Ator, e novamente Melhor Filme Internacional, e até quem sabe algumas outras categorias: Muitos são os críticos apontando este como o melhor trabalho de Mendonça Filho, o quê, vindo do realizador de “Bacurau”, não é pouco!


Avatar-Fogo e Cinzas

O primeiro “Avatar”, lá de 2009, é visto hoje como um divisor de águas no cinema hollywoodiano; sua continuação, “O Caminho da Água”, pode até não ter repetido a mesma extensão de êxito, mas foi um fenômeno de bilheteria, concorreu ao Oscar de Melhor Filme e ainda saiu da cerimônia com o prêmio de Melhores Efeitos Visuais. O trailer (empolgante, diga-se) desta terceira parte promete, no mínimo, uma produção superior ao último filme.


Frankenstein

Contando pouco tempo de seu lançamento em cinema e streaming (o filme é da Netflix), a nova e suntuosa versão do diretor Guilhermo Del Toro para a obra imortal de Mary Shelley está perfeitamente posicionada para ser lembrada na cerimônia do Oscar no ano que vem. E muitos têm sido aqueles que enalteceram a realização de Del Toro como a melhor adaptação do clássico literário até hoje! –lembrando que, entre outras versões, houve até uma de Kenneth Branagh com Robert De Niro.


Pecadores

Talvez, a grande obra-prima entre os exemplares da nova vertente do terror norte-americano, “Pecadores”, de Ryan Coogler, surpreendeu o público e a crítica com uma trama que, enquanto capturava uma apaixonada referência à “Um Drink No Inferno”, de Robert Rodriguez, abordava a questão racial e a influência poderosa da música negra num espetáculo cinematográfico belo, impressionante e sangrento.


F1-O Filme

O excelente filme com Brad Pitt e dirigido por Joseph Kosinski chegou até mesmo a ser relançado nos cinemas no segundo semestre deste ano visando uma chance entre os indicados ao Oscar. As possibilidades entre as categorias principais estão diminuindo (à medida que concorrentes mais fortes e substanciais começam a ser lançados no circuito), mas a esperança ainda paira no ar –e a presença em muitas categorias técnicas é quase uma barbada visto sua incontestável competência.


Uma Batalha Após A Outra

Paul Thomas Anderson recrutou Leonardo Dicaprio para realizar um dos filmes mais ágeis e dinâmicos de sua consagrada carreira. Adaptado de um livro de Thomas Pinchon (assim como foi “Vício Inerente”), Anderson entrega uma produção sofisticada, carregada de reflexões pertinentes e atuais, concebida com apuro visual e narrativo à toda prova e adornada de brilhantes atuações. O olhar dos críticos, do público e da Academia repousa, atento, sobre ele.


Wicked-Parte 2

A “Parte 1” encantou público e crítica, chegando na última cerimônia do Oscar (de onde saiu com duas estatuetas) exigindo respeito. Esta segunda e última parte (sobretudo, depois do lançamento de seu trailer apoteótico) eleva ainda mais as apostas. Agora, retornamos ao mundo de “O Mágico de Oz” pouco antes dos eventos narrados no clássico; contudo, desta vez, a trajetória dúbia e intrigante de Elphaba e Glinda vai adentrar os acontecimentos do filme de 1939 e, por fim, se encerrar.


Bugonia

O diretor grego Yorgos Lanthimos, a despeito de seu estilo corrosivo, único e pouco usual, parece ter caído nas graças de Academia que terminou indicando (e, em alguns casos, até premiando!) a maioria de seus últimos trabalhos em categorias bastante expressivas. Sua nova audácia “Bugonia”, já desponta como um dos favoritos à estatueta dourada e à outros prêmios da temporada com a atenção voltada, especialmente, para as atuações de Emma Stone e Jesse Plemmons, intérpretes prediletos de Lanthimos.


Coração de Lutador

Dwayne ‘The Rock’ Johnson concorrendo ao Oscar de Melhor Ator? É o que muitos estão se perguntando e contemplando a possibilidade de se tornar verdade. Dirigido por Ben Safdie (diretor de “Jóias Brutas” e ator em “Oppenheimer”) e baseado na vida do lendário lutador Mark Kerr, o filme parece uma tentativa de The Rock em dar um novo rumo à sua carreira já pontuada por vários sucessos de bilheteria. Para alguns especialistas a bilheteria abaixo do esperado pode ter esfriado suas chances, mas, para outros, o filme ainda tem possibilidades reais de chegar aos indicados principais.

quarta-feira, 2 de março de 2022

The Batman


 O milagre operado pelo diretor Matt Reeves neste novo e empolgante filme estrelado pelo Cavaleiro das Trevas tem uma explicação bastante simples: Diretor sensato e competente, Reeves pegou todas as predisposições cinematográficas que deram certo nas obras anteriores com o Batman –a ambientação singular e sedutora de Tim Burton; o viés brutal e realista de Christopher Nolan; a percepção de quadrinhos adultos evocada por Zack Snyder –e delas extraiu uma mescla tão aprimorada, tão sagaz em sua realização que, embora seja esta a décima produção a contar com o personagem no cinema (outras ainda estão a sair com outros atores interpretando-o), o trabalho do diretor consegue fazê-lo parecer algo absolutamente novo.

Muitos são os filmes que orientam “The Batman”, sejam eles na construção de seus personagens (algo que ele faz com brilho singular), sejam na concepção e condução da própria história –que aqui, diferente das realizações anteriores prima menos pela ação (embora ela exista em profusão inteligente e bem calibrada) e mais por nuances de ordem investigativa. Com efeito, Reeves vai de encontro a anseios que somente fãs aficcionados do herói dos quadrinhos almejavam do personagem, o seu lado detetive.

“The Batman” deixa de lado toda e qualquer necessidade de refazer a origem do protagonista (relatada pelo menos umas três vezes, nos filmes anteriores) para encontrá-lo exatamente no ponto em que contam já dois anos de sua intensa atividade como vigilante noturno nas noites violentas de Gothan City. Nesse papel, Robert Pattinson entrega um Batman imponente, elegante e dotado de inesperada empatia, unindo o senso interpretativo de Michael Keaton, o fulgor sombrio de Christian Bale e a ferocidade senciente de Ben Affleck. Batman ainda é uma figura estranha e recente nas ruas apinhadas de criminalidade de Gothan, entretanto, já conquistou ao menos um bom aliado nas trincheiras da guerra contra o crime, o Capitão James Gordon (Jeffrey Wright). Ao ser chamado por ele para a avaliação de uma cena de crime –o assassinato audacioso e chocante do próprio prefeito de Gothan em pessoa –Batman se defronta com pistas que o levam a um inimigo meticuloso, perigoso e astuto, o Charada (cuja grande interpretação de Paul Dano mescla elementos do assassino real do “Zodíaco” à características do psicopata de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”).

Na tentativa de decifrar o emaranhado de pistas deixadas pelo Charada –cuja elucidação, essencial à espinha dorsal da narrativa, adorna o filme com uma atmosfera de filme noir do início ao fim –Batman vai encontrando outros notáveis personagens de sua galeria dos quadrinhos, que acrescentam novas camadas à trama e contribuem com magníficas transposições para cinema, como Selina Kyle, a Mulher Gato (vivida pela bela Zoe Kravitz, numa química espetacular com Pattinson), o mafioso Pinguim (Colin Farrell, tornado irreconhecível pela maquiagem que evoca, em sua persona, o Al Capone de Robert De Niro em “Os Intocáveis”) e Carmine Falcone (John Turturro, se divertindo a valer).

Quase atingindo nada modestas três horas de duração, “The Batman”, de Matt Reeves, passa muito longe de qualquer reflexo da infantilidade proposta pelo “Batman”, de Tim Burton, num longínquo 1991, ao invés disso, o personagem dos quadrinhos surge aqui numa obra cheia de orientações muito adultas –não são raros os momentos em que compreendemos que, fosse o protagonista um detetive particular e não um herói encapuzado, esta seria uma autêntica produção nos moldes de “Fuga do Passado” ou “A Morte Num Beijo” –onde, inclusive, a construção dos personagens, seus momentos intimistas e as intrigas que avançam a história ganham muito mais prioridade do que qualquer cena de ação (ainda que elas também estejam lá, fotogênicas e impactantes).

Ao entregar um filme de realismo invejável enraizado na mitologia do herói assim reapresentado e rejuvenescido –este novo Batman, à princípio, todo independente do Universo Compartilhado da DC Comics onde é vivido por outros intérpretes, traz Robert Pattison, numa das mais sensacionais personificações de Batman/Bruce Wayne já concebidas –Matt Reeves criou, com propriedades fascinantes e rigor técnico arrebatador, uma das melhores adaptações de histórias em quadrinhos do cinema.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

O Farol

 


Como em seu anterior “A Bruxa”, o diretor Robert Eggers não se contenta em realizar um filme de terror simplesmente primoroso; para ele, ramificações reflexivas podem e devem amplificar ainda mais os resultados de tal experiência, alçando-a no processo à condição de arte.

Filmado em amedrontador preto & branco, e razão de aspecto em 1.19:1 (o trabalho de Jarin Blaschke foi indicado ao Oscar de Melhor Fotografia), “O Farol” começa tipicamente bucólico, linear e austero: Em meados do Século XIX, uma enevoada ilha da Nova Inglaterra recebe uma dupla de novos faroleiros em sua troca de guarda. São o jovem Emphraim Wislow (Robert Pattinson) e o veterano Thomas Wake (Willem Dafoe). Há de pronto uma dinâmica conflituosa capturada em meio à rotina que se repete indefinidamente; Thomas é autoritário e vale-se de artifícios de psicologia para impor seus mandos e desmandos ao novato. Wislow se submete; aceita brindar toda a noite com bebida alcoólica mesmo não querendo beber; assume as árduas tarefas braçais enquanto deixa Thomas ser o único a subir no trecho superior do farol –local que ele deseja manter exclusivo para sua presença, numa espécie de adoração à luz –e aguenta, submisso, suas intermináveis conversas fiadas.

Única fonte de informação de Wislow naquele ambiente espartano, Thomas –mesmo que não confiável –relata que seu ajudante anterior sucumbiu à loucura. Como num reflexo desses temores, é justamente a loucura que parece então se abater sobre o perplexo Wislow: Ele avista, nas encostas dos recifes, o que parece ser uma sereia (ou seria só mais uma alucinação?).

No decorrer dos dias e noites incertos que passam por lá –e que caminham, a passos de tartaruga em direção à data em que deixarão a ilha para voltar para casa –coisas estranhas se sucedem (Wislow flagra momentos repulsivos da parte de Thomas; além de estranhas ocorrências sucedidas no instante em que ele se acha literalmente em êxtase a contemplar a luz do farol; gaivotas que parecem investir deliberadamente contra Wislow; lendas locais que dão as caras em delírios aqui e ali; ambos cedem cada vez mais para o alcoolismo), enquanto a relação de Wislow e Thomas vai se tornando cada vez mais problemática, oscilando no humor dos dois indivíduos entre a camaradagem, o ressentimento hierárquico e a franca animosidade. Por conta dessa proximidade, revelações aparecem: Wislow revela ter ido trabalhar lá, longe de tudo e todos, pelo remorso de ter quase praticado um assassinato, enquanto que as bravatas de Thomas se sucedem com tal intensidade que passam a ser contraditórias.

Tão hábil na construção desta atmosfera quanto em seu hoje aclamado longa de estréia, Robert Eggers dedica tempo e zelo aos seus dois protagonistas –os únicos atores em cena –e acompanha com atenciosidade mórbida a degradação de sua já pouco estável relação.

Ao fim, “O Farol” pode ser visto como um estudo cheio de simbolismos e devaneios da personalidade humana diante de circunstâncias de extremo isolamento; na cinematografia de Eggers, essas facetas da opressão à qual os homens impõem a si mesmos –seja por força de suas ideologias, seja por necessidade prática ou senso de dever –podem representar portais para o interior obscuro de seus mais terríveis pesadelos.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Tenet


 Existem meios distintos de se abordar “Tenet”: Para a maioria, ele é visto como o filme de Christopher Nolan que finalmente fracassou (tendo sido lançado nos cinemas em meio ao desafortunado cenário da pandemia de 2020) culminando num rumo inevitável pavimentado por sua ambição, pretensão e megalomania.

Entretanto, há algo de ranzinza, invejoso e até rancoroso nessa avaliação: “Tenet” padece de todas as características positivas e negativas do cinema de Nolan, mas é um gesto de deliberada má vontade não reconhecer o fascínio provocado por sua exuberância, nem o assombro acarretado pelo manejo espetacular de seu vasto aparato técnico.

É desafiador apreender “Tenet” numa mera sinopse ou explicação: Nolan ampara sua narrativa em percepções do cinema comercial, em arquétipos que nada mais são do que portais para um de seus mais imponderáveis projetos.

Se existem dois trabalhos pregressos de Nolan que assombram “Tenet” o tempo todo, eles provavelmente são “Amnésia” e “A Origem”: Do primeiro, Nolan pega seu insistente objetivo de inverter a percepção do tempo, e dessa inversão fazer a fonte de sua narrativa. Do segundo, ele extrai a estética, a roupagem, o estilo aventuresco de ação épica e global com traços de filme de espionagem, e possivelmente a intenção de repetir um fenômeno bastante singular entre público e crítica.

Os delírios de Nolan se iniciam numa já estupenda cena do que aparenta ser um atentado na Ópera de Kiev: Agentes interferem na ação de uma espécie de grupo terrorista, entre esses homens misteriosos está o protagonista anônimo vivido por John David Washington (de “Infiltrado Na Klan”). A missão –de resgatar um agente duplo cuja captura o atentado serviria para acobertar –dá errado e ele... morre?!

Talvez sim, talvez não; Ele acorda afirmando que “as pílulas suicidas não funcionaram”... mas, mesmo isso é uma informação incerta –o que poderia indicar que o filme todo pode ou não se passar num pós-morte! A partir daí, as coisas não facilitam. O sacrifício dele o qualifica para subir de nível no ofício de agente secreto que aparentemente desempenhava –instrução recebida numa breve aparição de Martin Donovan, ator que Nolan usou em “Insônia”. Ele –vamos chamá-lo de O Protagonista –é então designado para algo insólito: Um armamento de características improváveis é rastreado pela CIA; tratam-se de projéteis de balas que, ao invés de se chocarem contra um pedaço de muro, retrocedem (inclusive, revertendo também o dano feito ao concreto!). São peças e acessórios encontrados cuja radiação inverte seu fluxo do tempo, sua entropia. A teoria: Tais utensílios veem do futuro, com sua inversão do tempo realizada por alguma tecnologia, e são indícios de uma guerra –talvez, a Terceira Guerra Mundial! –que o Protagonista tem como missão impedir.

A pista dessa inusitada munição o leva à enigmática Priya (Dimple Kapacia), uma traficante internacional de armas na Índia, e depois, a Sator (Kenneth Branagh, espantosamente ameaçador), um perigoso traficante armamentista soviético de quem ele se aproxima por meio da torturada esposa dele, Kat (a interessantíssima Elizabeth Debicki, de “Guardiões da Galáxia-Vol. II”).

Contudo, tal descrição não chega nem perto de ilustrar a complexidade pulsante que predomina na narrativa, ou na trama fragmentada e mirabolante ou mesmo na execução densa e tecnicamente arrojada de “Tenet”: Christopher Nolan, como roteirista e como diretor, desenvolve um conceito onde não apenas as pistas e informações nunca bastam para esclarecer os acontecimentos intrincados por completo, como também, usa de expedientes presentes no próprio enredo para alterar o fluxo do tempo e dos acontecimentos.

Vamos ver se é possível explicar: Dentro de “Tenet” existem personagens que, irradiados por essa tecnologia, têm sua entropia alterada, e vivenciam o tempo em ordem oposta –assim, enquanto alguns personagens agem e fazem as coisas normalmente, outros, paralelos a eles, estão experimentando tudo em ordem invertida (e para eles é a realidade que transcorre de trás para frente!). Lá pelas tantas, na sucessão dessa trama já não muito simples de ser acompanhada, eis que os personagens do Protagonista, Kat e Neil (Robert Patinson, ótimo) usam dessa tecnologia e passam a vivenciar o tempo invertido; e todos os eventos do filme até então vão transcorrendo para eles ao inverso, passando por cenas do filme que testemunhamos desde o começo, até regressar em dias e chegar a situações que surgiram aqui e ali como flashbacks. Parece confuso? Sim, e é muito! É necessário força de vontade para compreender essa estripulia narrativa de Nolan, e quase nunca isso é possível, restando ao expectador somente desencanar e acompanhar o turbilhão de acontecimentos na esperança de que, se nós, como público, nos perdemos, ao menos Nolan, como realizador, não se perca.

Felizmente, ele retribui a atenção que dedicamos à essa sua obra até o final com uma construção primorosa de cenas onde se evidencia os valores elevadíssimos da direção de fotografia (a cargo do talentoso Hoyte Van Hoytema), da montagem prodigiosa de Jennifer Lame (editar todas aquelas sequências caóticas de ação, com trechos convencionais e invertidos e ainda torná-los inteligíveis, resultou num trabalho que isoladamente por ser chamado de obra-prima!) e dos nunca menos que assombrosos efeitos visuais.

Os críticos mais ferrenhos e sisudos insistem que Christopher Nolan, aqui, deu um salto demasiadamente avançado em direção à mescla de cinema cerebral, mas de propensões comerciais, com a qual ele vinha moldando suas obras. E isso pode, de fato, soar elitista, narcisista até, mas o cinema de Nolan não tem um pingo de comodismo nem de conformidade e esse é seu mérito mais salutar: Enxergar, mesmo em meio ao intoxicante ambiente de convencionalismo hollywoodiano, engrenagens pelas quais a luz refletida na tela pode ainda alcançar áreas inexploradas de nossas mentes e de nossos sonhos, e lá nos surpreender.

Ele às vezes se envaidece com o próprio arrojo, mas eu ainda aplaudo Christopher Nolan.

terça-feira, 9 de junho de 2020

A Saga Crepúsculo

Crepúsculo
Em algum momento da década 2000 os estúdios promoveram uma corrida para se tentar emplacar uma série nos moldes de “Harry Potter” –da mesma maneira que hoje os estúdios tentam repetir o feito do Universo Marvel Cinematográfico –em parte, consequência do surgimento de inúmeras séries, drasticamente oscilantes em qualidade, vindas da literatura que, capitaneadas pelo bruxinho criado por J.K. Rowling, deram origem à categoria conhecida como “young adults”.
Dentre essas séries logo destacou-se a saga romântica escrita por Stephenie Meyers, “Crepúsculo”, uma das primeiras a tentar seguir os passos de “Harry Potter” no cinema.
Entretanto, se “Harry Potter” fascinava pela qualidade insuspeita de seu texto e, depois, pelos valores legítimos de suas adaptações, “Crepúsculo” se tornou conhecido por razões um tanto... tortas.
Uma mescla peculiar de romance, intriga adolescente e revisão da mitologia dos vampiros, “Crepúsculo”, ainda na literatura já dividia opiniões: Uns identificavam no estilo pouco original de Meyers a inclinação de pretensões mercadológicas de sua escolha, além de uma série de elementos pontuais de gosto muito duvidoso (como veremos mais a frente). Outros, porém (em geral, um fã-clube ferrenho de adoradoras brutais que a série ganhou no mundo todo), só tinham olhos para os personagens protagonistas e sua história de amor deslavada com alto investimento nos aspectos mais rebuscados do romantismo –e esse aspecto também, com o tempo, passou a ser imitado.
Para conduzir a adaptação do primeiro livro, “Crepúsculo”, os executivos da produtora Summit Enterteinment recrutaram Catherine Hardwicke, que havia chamado atenção da crítica e do público dirigindo o drama juvenil “Aos Treze”, após uma carreira como designer de produção de filmes como “Vanilla Sky”.
O raciocínio tinha lá seu sentido: Uma diretora aparentemente capaz, de profundo conhecimento estético e autora de um louvável trabalho ao capturar nuances de uma idade em transformação como a adolescência –um mote poderosamente presente na obra de Meyers.
Contudo, ao assistirmos “Crepúsculo” a impressão que temos é de que a direção de Hardwicke mais plantou os elementos que determinaram a perene controvérsia qualitativa da saga e menos soube inicia-la com a necessária excelência.
Bella é uma garota tímida e deslocada (e é com essas características, empregadas sem restrição, que Kristen Stewart a interpreta). De Phoenix, nos EUA, onde morava com a mãe (Sarah Clarke, da série “24 Horas”), ela muda-se para o Canadá, na nublada e chuvosa Forks onde passa a viver na casa do pai (Billy Burke).
Segue-se o período habitual de adaptação à nova escola, onde Bella identifica os altamente populares Cullen, entre os quais o notoriamente charmoso Edward (Robert Pattinson, vindo diretamente de sua participação em “Harry Potter e O Cálice de Fogo”, no papel que o tornou um astro para o bem e para o mal).
Ela também faz amizade com Jacob (Taylor Lautner), um dos rapazes indígenas moradores da reserva –e que, por conta disso, não pode acompanhar Bella na escola.
Pouco a pouco, Bella vai descobrindo, contudo, que Edward e toda sua família são, na realidade, vampiros (!). Mas, não vampiros como o cinema e a literatura, entre tantos títulos honoráveis, nos levaram a conhecer: Primeiramente, eles não atacam seres humanos, vivendo em vez disso de uma dieta de sangue de animais; algo como um vegano entre os humanos (e talvez isso explique a cara de vento que Edward ostenta todo o tempo, passivo diante de presas que seu instinto selvagem ordena atacar). Eles também não são vampiros que queimam na luz do sol, mas, em vez disso revelam a pele brilhante e cintilante (numa manobra que fez a série virar chacota no mundo todo); daí a escolha deles morarem em Forks onde o sol quase nunca aparece no tempo coberto.
O apelo do filme –e de toda a saga –vem a ser o fato de Edward apaixonar-se por Bella: Mais do que um vampiro apaixonar-se por uma mortal, a fantasia romântica que capturou a imaginação de plateias femininas do mundo todo, mostra uma variação de príncipe encantado, dotado de poderes (Edward é comparado com super-heróis por Bella em dado momento), de popularidade e de evidente sex-appeal, um ser lendário, caindo de amores por uma jovem absolutamente comum e que, justamente por sua insistente normalidade ganha plena identificação do público.
Lua Nova
Na aguardada sequência, agora dirigida por Chris Weitz (de “Um Grande Garoto” e “A Bússola de Ouro”) os rumos dramáticos levam a um inesperado rompimento de Bella e Edward –ele chega à conclusão de que sua proximidade pode fazer mal a ela, algo que Edward não consegue tolerar.
Longe de seu amado, e desesperada por conta disso –faceta da personagem que irritou muitos detratores na época pela forma com que foi mostrada –Bella se arrisca em várias situações perigosas ao perceber que, nesses momentos, uma espécie de imagem fantasmagórica de Edward surge para adverti-la.
No entanto, o solícito amigo Jacob aparece para confortá-la, e eis que ele tem também seus segredos: Jacob é um lobisomem, ou um transmorfo que assume a forma de um lobo gigantesco, tal e qual todo o restante de sua tribo a partir de determinada idade.
Aqui se constrói então o triângulo amoroso que definirá muito da saga até seu quase final –Bella (na qual muitos não enxergam tanto atrativo assim) dividida entre duas criaturas emblemáticas do gênero horror por ela apaixonadas; Edward, o vampiro, e Jacob, o lobisomem. Na realidade, triângulo amoroso é um termo talvez até desonesto para se referir à circunstância morna da trama. Nunca existem dúvidas de que, por livre iniciativa da protagonista, ela deixaria de escolher Edward, o que relega Jacob a um injusto posto de coadjuvante fadado à derrota –não fossem alguns momentos verdadeiramente inspirados em que seu intérprete, Taylor Lautner, consegue sobrepujar em cena o insosso Robert Pattinson.
Apesar dos pesares, “Lua Nova”, no frigir dos ovos, é provavelmente o mais bem dirigido dentre os capítulos da “Saga Crepúsculo”: É nele que está alguns dos momentos considerados os mais pertinentes de toda a saga, ou nele estão sugeridos com mais propriedade os tópicos que iráo norteá-la até o final.
E tem o mérito de possuir ao menos uma cena bastante bem feita e memorável: Bella, em sua desolação, está em seu quarto de coração partido vendo o tempo passar, e sem tirá-la de foco, a câmera executa várias vezes um movimento em 360° ao seu redor enquanto a paisagem de fora de suas janelas vai mostrando a gradativa passagem dos meses e das estações climáticas.
Eclipse
Para dirigir a terceira parte da saga, então já polarizada entre seus fãs (ou seria melhor dizer, SUAS fãs) que enalteciam a série e idolatravam seus intérpretes e todo o resto do mundo que simplesmente não tinha paciência para o resultado afetado, medíocre e esquisito que era obtido filme a filme, foi incumbido o diretor David Slade que em “30 Dias de Noite” havia feito um brilhante trabalho ao lidar com essa outra mitologia de vampiros –e, por conta disso, imaginava-se a possibilidade de “Eclipse” trazer uma reviravolta qualitativa à série, elevando-a num nível maior e melhor de cinematografia, talvez refletindo o que Alfonso Cuarón havia feito em “Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban”, também a terceira parte daquela saga.
A grande surpresa foi que não.
O material simplesmente não saiu do lugar em termos de validez cinematográfica.
Jurada de morte, Bella agora precisa ser protegida pelos membros da Família Cullen, pelos lobisomens liderados por Jacob e por outros vampiros que marcarão presença.
O motivo: Um grupo de vampiros, capitaneados por Victoria (vivida por Rachelle Lefevre anteriormente, aqui substituída por Bryce Dallas Howard), desejosa de vingança desde que o romance entre Bella e Edward acarretou a morte de seu amado James (Cam Gigandet, de “Quebrando Regras”) lá atrás no finalzinho de “Crepúsculo”, está seguindo na direção de Forks para promover um massacre.
Amanhecer-Parte Um
Quando “Amanhecer”, o último livro, foi escrito, a autora Stephenie Meyers já convivia com o curioso fenômeno que veio a se tornar a saga em sua versão cinematográfica. É interessante notar como os excessos e esquisitices decorridos na adaptação para cinema terminaram influenciando elementos no capítulo final que, para variar, seguiu os passos de “Harry Potter e As Relíquias da Morte” e também dividiu o último livro em dois filmes, atitude também tomada pelo posterior, e mais acertado, “Jogos Vorazes”.
Na hora de escolher o novo e derradeiro diretor para os dois capítulos finais, os produtores ainda tentando rechaçar os detratores que jamais deram desconto para a saga optaram pelo conceituado Bill Condon, que dirigiu-se os elogiados “Deuses e Monstros”, “Kinsey-Vamos Falar de Sexo” e “Dreamgirls-Em Busca de Um Sonho”.
Como seus antecessores, Bill Condon faz o que pode para emprestar alguma dignidade ao material, mas sua tarefa é dura: Na trama que se ocupa da primeira metade do último livro, Bella e Edward se casam e vão passar sua lua-de-mel em Paraty, no Brasil –isso mesmo, não bastasse a propaganda onipresente em todas as cópias do DVD lançado por sua distribuidora em terras nacionais, a Paris Filmes, a tal pousada de Paraty conseguiu aparecer no próprio filme!
É ali que, na tentativa louvável de tentar conferir alguma relevância visual numa das sacadas mais bizarras e radicais do livro, Bella engravida de Edward (!), e o embrião, um misto de humano e vampiro, a está consumindo por dentro (!!), o que exige que Edward transforme Bella numa vampira de uma vez por todas, antes que morra –coisa que ela pede praticamente desde o primeiro filme!
Amanhecer-Parte Dois
Durante o final todo floreado –mas, certamente previsível –da “Parte 1”, Bella se transformou em vampira, se descobrindo toda poderosa nessa nova condição; o que, inclusive, rende uma cena bastante calhorda da parte da personagem em relação à Jacob ainda no começo...
Ela e Edward tiveram uma filha, Renesmee, que cresce rapidamente (em poucos meses, é quase uma pré-adolescente), e é interpretada, na breve fase bebê por uma versão digital que forneceu ainda mais munição aos críticos detratores da saga, e na fase um pouco maior por Mackenzie Foy (de “Interestelar”). O problema é que Renesmee é considerada um ser anti-natural, nem humano, nem vampiro, que aos olhos do poderoso Clã Volturi –a casta dominante de vampiros que apareceu em “Lua Nova”, liderados por Aro (Michael Sheen) –não deveria existir. E por isso, eles conduzem um verdadeiro exército de vampiros que atacará Forks a fim de capturar Renesmee.
Essa alardeada batalha final reúne os vampiros do lado de Bella e Edward e os lobisomens do lado de Jacob –e praticamente, todos os personagens da saga –numa sequência-clímax que, sob justificativas de se fazer surpreendente, sofre uma terrível negligência da parte de seus realizadores ao ser banalizada por uma estranha reviravolta.
A “Saga Crepúsculo” assim se encerra tão polêmica quanto começou, incapaz de ostentar qualidades que harmonizem as opiniões daqueles que a odeiam de forma intolerante e aqueles que a adoram de maneira embriagada –curioso é notar que, na predileção por romances de natureza ligeiramente distorcida que revelou do público, “Crepúsculo” tenha antecedido, seja na literatura, seja no cinema, o fênomeno erótico “Cinquenta Tons de Cinza” –cujos protagonistas foram, declaradamente inspirados em Bella e Edward –afinal de contas, as adolescentes que foram obcecadas pela saga de Stephenie Meyers, passados uns anos, já tinham idade para assistir histórias de amor bem mais picantes.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Harry Potter e O Cálice de Fogo

Para o quarto filme de saga, o diretor do ótimo trabalho anterior, Alfonso Cuarón, recusou a oferta para retornar à direção. Foi chamado então o realizador Mike Newell, de “Quatro Casamentos e Um Funeral” –o primeiro inglês, por sinal, a assumir o comando da saga –o quê proporcionou aos filmes da série uma chance do público experimentar as obras que se sucediam acrescidas das sensibilidades particulares de diferentes cineastas. Chris Columbus deu aos dois primeiros um viés envolvente de aventura juvenil; Cuarón agregou ao terceiro valores cinematográficos e artísticos mais sólidos; enquanto que Newell, valendo-se da ampla experiência nos distintos gêneros que trabalhou, contribuiu com o bombástico humor inglês ao que a saga tinha de comédia, e uma refinada depuração entre o drama e o suspense para o que ela tinha de tragédia.
O resultado é que “O Cálice de Fogo” disputa, com qualquer um dos outros títulos, o posto de melhor filme de toda a saga.
No quarto ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry Potter já não é mais tão perplexo ao mundo mágico que o cerca. Suas inseguranças são agora angústias inerentes a um adolescente quase normal, que tem a peculiaridade de viver num ambiente regido por magia. Toda Hogwarts se encontra, nesse ano, em polvorosa: A escola será sede de um Torneio Tribruxo –onde Hogwarts e duas outras escolas de magia disputarão a almejada Taça dos Campeões.
Tais campeões serão selecionados pelo poderoso Cálice de Fogo cuja magia impede bruxos menores de dezessete anos de participar. Ou seja, Harry, Rony e Hermione –do alto de seus catorze anos –não podem competir. Contudo, no dia em que os competidores são anunciados, junto do nome dos usuais representantes de cada escola –Viktor Krum (Stanislav Ianevski) a representar o Instituto Durmstrang; Fleur Delacour (Clémence Poésy, de “127 Horas”) representando a Academia de Magia Beauxbatons; e Cedrico Diggory (Robert Pattinson, revelado aqui antes da “Saga Crepúsculo”) como representante de Hogwarts –o Cálice de Fogo cospe também o nome de Harry Potter (!).
Ele é aceito como competidor já que, segundo as regras do Torneio Tribruxo, os desígnios do Cálice de Fogo são onipotentes –o que significa que, na qualidade de perdedor certo, Harry terá alunos de magia mais velhos como adversários, em provas perigosas que podem perfeitamente lhe representar perigo mortal.
Ciente de que tem material de sobra para trabalhar –o livro que é aqui adaptado é um dos mais ricos e extensos de toda série –o diretor Mike Newell é admiravelmente criterioso na seleção dos momentos vultuosos e intensos que são aproveitados: Apenas aqueles que levam a história a avançar. O que sobra em “O Cálice de Fogo” é a aventura mais perfeitamente ajustada, até aqui, nas idas e vindas aflitivas de seu protagonista, absolutamente afiada nos meandros que conduzem, sem que fique claro até o instante fatídico, ao acontecimento divisor de águas para com toda a saga –é aqui, em “O Cálice de Fogo” que testemunhamos o retorno tão alardeado de Lorde Voldemort em toda sua ameaça; e ao interpretá-lo, na intensa cena do cemitério, Ralph Fiennes entrega um dos mais hipnóticos vilões dos últimos tempos, numa atuação raivosa e eletrizante que consegue fazer jus a toda preparação para sua chegada feita pelos filmes anteriores.
Por tudo isso, “Harry Potter e O Cálice de Fogo” marca uma contundente transformação na saga: A partir daqui, nada no mundo de Harry Potter será como antes –e trazer como clímax a primeira e verdadeiramente dolorosa morte de um personagem é só uma faceta dessa constatação –isso é inclusive sentido pelos próprios protagonistas na agridoce e reflexiva cena final, um sutil indício de tudo que está por vir nos excelentes filmes vindouros.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Cosmópolis

 As obras de David Cronenberg estão sempre à mercê da incompreensão, e “Cosmópolis”, após uma seqüência brilhante de filmes de uma vibração mais clássica como “Marcas da Violência”, “Senhores do Crime” e “Um Método Perigoso”, coloca-se particularmente sob esse risco uma vez que é um retorno quase radical (e provavelmente pensado) àquela antiga postura na qual Cronenberg adotava o cinema como um laboratório formal e reflexivo por onde ele moldava sua visão intransigente, peculiar e desconcertante do ser humano.
Neste filme absolutamente de difícil acessibilidade, ele promove uma sondagem quase antropológica das pulsões sociais e individuais que norteiam as relações, assim como das ideologias contraditórias, conflitantes e beligerantes que orientam os atritos decorridos, tudo isso partindo de uma encenação existencialmente restrita (a cabine de uma limusine de luxo) e de uma premissa tão inusitada, absurda até, quanto potencialmente possível.
Eric Parker (Robert Pattinson, valendo-se de um projeto absolutamente audaz para conseguir alguma relevância na carreira) é um jovem, egocêntrico e cosmopolita milionário de Nova York. À bordo de sua limusine praticamente blindada, ele roda pelas ruas da cidade atrás de um barbeiro com a singela intenção de cortar o cabelo. Tudo é complicado pelo fato de a cidade receber a visita do presidente, o quê significa ruas interditadas, engarrafamentos, e avisos cada vez mais preocupantes de atentados terroristas.
Enquanto isso, ele recebe sucessivas "visitas" dentro da limusine, conhecidos (entre eles, rostos famosos que só um diretor impar como Cronenberg é capaz de atrair para uma obra assim, como Juliette Binoche, Jay Baruchel e Samantha Morton), colegas de trabalho, mulheres, a esposa gélida e indiferente (Sarah Gadon, tão linda quanto assustadora).
Com todos eles, Eric trava diálogos por vezes incompreensíveis, ora refletindo sobre aspectos banais ou redundantes da vida, ora expondo sua aflitiva inércia quanto à existência. Essas intervenções são –como tudo o mais –meros importunes na harmonia de seu micro-cosmos, dentro do qual ele se vê protegido em sua vaidade.

Cronenberg conduz essa difícil e cerebral dissertação sobre a modernidade ressaltando a ironia em ter o astro de "Crepúsculo" como protagonista de um estudo contundente (e inacessível para as platéias que foram assisti-lo em seu filme de vampiros) sobre a amargura e a solidão inerentes ao fato de se olhar para o próprio umbigo.