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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Morra, Amor


 A casa para onde o casal Jackson e Grace (Robert Pattinson e Jennifer Lawrence, ótimos) vão morar foi onde o tio dele outrora se matou. E esse elemento, o do fatalismo inerente, será um dado que irá perpassar toda a trajetória dessa vida a dois investigada com olhar aguçado pela diretora Lynne Ramsay.

Conhecedores do cinema dessa cineasta escocesa sabem que ela não se interessa por realidades felizes ou idealizadas, sabem que a autenticidade de seus personagens se revela aos poucos, gradativamente desfraldando celeumas profundas, algumas inapeláveis. E não deixa de ser algo exatamente assim que ela investiga aqui, contando desta vez com o inestimável talento da estrela Jennifer Lawrence, num papel que guarda inúmeros ecos do mesmo desempenho que ela entregou no filme “Mãe!” – como lá, temos aqui uma jovem confrontada com as difíceis e imprevistas facetas da maternidade, ao mesmo tempo que afastada de todos ao morar num local longínquo. Pois, uma vez instalados na casa – que à propósito, trata-se de uma casa isolada numa área rural de Montana – Jackson e Grace acabam tendo um filho que nasce uns meses depois, ao qual o jovem casal se decide por não dar ainda nome nenhum. Contudo, Grace aos poucos vai experimentando a negligência do marido à medida que ele se afasta cada vez mais sob a justificativa do trabalho. São pequenos, mas pertinentes, os indícios que Lynne Ramsay planta, aqui e ali, de seu distanciamento (a sequência do telefonema em que Grace percebe, pelos sons diegéticos, que ele se encontra em uma lanchonete) e de sua infidelidade (as caixas com preservativos, de existência injustificada, que ela encontra sucessivamente dentro do carro) – e é necessário também mencionar o trabalho sólido e perspicaz de Robert Pattinson numa composição despida de qualquer vaidade.

Todos esses pequenos percalços e atribulações fazem com que Grace comece a se dar conta de que ser esposa e mãe demanda alguns sentimentos de vazio, solidão e desamparo com os quais ela não estava preparada para lidar.

O isolamento – pelo menos, na ótica não muito circunspecta de Jackson – serviria para Grace, uma aspirante a romancista, escrever seu próximo livro, entretanto, o ímpeto para escrever jamais vem, substituído, em vez disso, por uma perda gradual de sua própria identidade, por um vazio que a consome nos dias e noites que se seguem.

O cinema moderno tem sido contumaz num objetivo resgate das celeumas intimistas de uma depressão pós-parto acometida às mulheres em obras mais recentes como “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” ou “Pieces Of A Woman”. A fim de executar uma sondagem de aspectos similares, Lynne Ramsay, neste seu “Die, My Love”, lança mão de circunstâncias peculiares, tão alarmantes quanto mundanas (o ambiente familiar e social onde Grace e Jackson vivem não dá muita margem para a compreensão da condição dela, sendo que os coadjuvantes mais recorrentes são sempre a mãe e o pai dele, vividos por Sissy Spacek e Nick Nolte, respectivamente), de situações incertas onde o cinema permeia aquela fronteira ambivalente entre sonho e realidade, delírio e lucidez (as sequências nebulosas e enigmáticas onde vemos um motoqueiro – a lembrar um intrigante personagem do cult “Mal do Século” – vivido por Lakeith Stanfield, de “Corra!”, rodeando e cercando a casa de Grace e, mais tarde, convertendo-se numa espécie de amante dela!), e de observações de ordem alegórica (o incêndio a consumir a floresta que circunda a fazenda, mostrado no início do filme e retomado já na sua cena final).

O som e a música contribuem muito para essa desestabilização dos sentidos, num reflexo do estado interior da protagonista e sua luta conta fantasmas internos – o latido de um cachorro comprado por Jackson que, ao longo dos dias, inferniza Grace sem parar; os acordes repentinos de trilha sonora, nem sempre adequada, que irrompem nas cenas apenas para remover o público de qualquer sensação de conforto.

Há um momento, quase inebriante, já perto do desfecho, em que Ramsay chega a sinalizar com a possibilidade de uma final ameno e feliz, um instante onde o amor parece capaz de prevalecer – é quando o casal, a despeito de suas crises, entoa uma mesma música que toca no rádio do carro. Poderia ser até o final do filme, e nele, os talentos de Jennifer e Robert realmente conseguem tirar leite de pedra e emocionar o expectador, mas, Ramsay (como atestam seus trabalhos contundentes e irrefreáveis) não é adepta de finais felizes abruptos. Ela conduz seu filme à já citada sequência do incêndio, justamente para que seu impacto nos faça entender que ela não está, nem de longe, brincando com coisa tão séria.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Algumas Previsões Para O Oscar 2026

 


Die, My Love

O filme que reúne os astros Jennifer Lawrence e Robert Pattinson encontra-os num momento bastante aclamado de suas carreiras; diferente de quando foram lançados ao estrelato (ela, com “Jogos Vorazes”; ele, com “Crepúsculo”), e dirigidos pela sempre autoral Lynne Ramsay. “Die, My Love” chega com chances fortíssimas de emplacar mais uma indicação de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence e possibilitar a melhor recepção da Academia de Artes Cinematográficas, até então, para um filme de Ramsay.


O Agente Secreto

Desde antes de sua estréia, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, vinha sendo cotado para repetir com pompa e circunstância a mesma campanha belíssima feita pelo premiado “Ainda Estou Aqui” no ano passado, agora, com indições para Wagner Moura, de Melhor Ator, e novamente Melhor Filme Internacional, e até quem sabe algumas outras categorias: Muitos são os críticos apontando este como o melhor trabalho de Mendonça Filho, o quê, vindo do realizador de “Bacurau”, não é pouco!


Avatar-Fogo e Cinzas

O primeiro “Avatar”, lá de 2009, é visto hoje como um divisor de águas no cinema hollywoodiano; sua continuação, “O Caminho da Água”, pode até não ter repetido a mesma extensão de êxito, mas foi um fenômeno de bilheteria, concorreu ao Oscar de Melhor Filme e ainda saiu da cerimônia com o prêmio de Melhores Efeitos Visuais. O trailer (empolgante, diga-se) desta terceira parte promete, no mínimo, uma produção superior ao último filme.


Frankenstein

Contando pouco tempo de seu lançamento em cinema e streaming (o filme é da Netflix), a nova e suntuosa versão do diretor Guilhermo Del Toro para a obra imortal de Mary Shelley está perfeitamente posicionada para ser lembrada na cerimônia do Oscar no ano que vem. E muitos têm sido aqueles que enalteceram a realização de Del Toro como a melhor adaptação do clássico literário até hoje! –lembrando que, entre outras versões, houve até uma de Kenneth Branagh com Robert De Niro.


Pecadores

Talvez, a grande obra-prima entre os exemplares da nova vertente do terror norte-americano, “Pecadores”, de Ryan Coogler, surpreendeu o público e a crítica com uma trama que, enquanto capturava uma apaixonada referência à “Um Drink No Inferno”, de Robert Rodriguez, abordava a questão racial e a influência poderosa da música negra num espetáculo cinematográfico belo, impressionante e sangrento.


F1-O Filme

O excelente filme com Brad Pitt e dirigido por Joseph Kosinski chegou até mesmo a ser relançado nos cinemas no segundo semestre deste ano visando uma chance entre os indicados ao Oscar. As possibilidades entre as categorias principais estão diminuindo (à medida que concorrentes mais fortes e substanciais começam a ser lançados no circuito), mas a esperança ainda paira no ar –e a presença em muitas categorias técnicas é quase uma barbada visto sua incontestável competência.


Uma Batalha Após A Outra

Paul Thomas Anderson recrutou Leonardo Dicaprio para realizar um dos filmes mais ágeis e dinâmicos de sua consagrada carreira. Adaptado de um livro de Thomas Pinchon (assim como foi “Vício Inerente”), Anderson entrega uma produção sofisticada, carregada de reflexões pertinentes e atuais, concebida com apuro visual e narrativo à toda prova e adornada de brilhantes atuações. O olhar dos críticos, do público e da Academia repousa, atento, sobre ele.


Wicked-Parte 2

A “Parte 1” encantou público e crítica, chegando na última cerimônia do Oscar (de onde saiu com duas estatuetas) exigindo respeito. Esta segunda e última parte (sobretudo, depois do lançamento de seu trailer apoteótico) eleva ainda mais as apostas. Agora, retornamos ao mundo de “O Mágico de Oz” pouco antes dos eventos narrados no clássico; contudo, desta vez, a trajetória dúbia e intrigante de Elphaba e Glinda vai adentrar os acontecimentos do filme de 1939 e, por fim, se encerrar.


Bugonia

O diretor grego Yorgos Lanthimos, a despeito de seu estilo corrosivo, único e pouco usual, parece ter caído nas graças de Academia que terminou indicando (e, em alguns casos, até premiando!) a maioria de seus últimos trabalhos em categorias bastante expressivas. Sua nova audácia “Bugonia”, já desponta como um dos favoritos à estatueta dourada e à outros prêmios da temporada com a atenção voltada, especialmente, para as atuações de Emma Stone e Jesse Plemmons, intérpretes prediletos de Lanthimos.


Coração de Lutador

Dwayne ‘The Rock’ Johnson concorrendo ao Oscar de Melhor Ator? É o que muitos estão se perguntando e contemplando a possibilidade de se tornar verdade. Dirigido por Ben Safdie (diretor de “Jóias Brutas” e ator em “Oppenheimer”) e baseado na vida do lendário lutador Mark Kerr, o filme parece uma tentativa de The Rock em dar um novo rumo à sua carreira já pontuada por vários sucessos de bilheteria. Para alguns especialistas a bilheteria abaixo do esperado pode ter esfriado suas chances, mas, para outros, o filme ainda tem possibilidades reais de chegar aos indicados principais.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

O Lixo e O Sonho

 


Há algo de indiscutivelmente neo-realista no longa-metragem de estréia da diretora escocesa Lynne Ramsay (de “Precisamos Falar Sobre O Kevin”); assim com havia algo de neo-realista no clássico inglês “Kes”, de Ken Loach, o filme que o trabalho de Ramsay mais parece emular: O aparente afinco no registro de uma realizade nua e crua em contraponto à redefinição artística dessa mesma realidade, e a postura questionadora para com a própria dramaturgia que a retrata. “O Lixo e O Sonho” versa sobre os subúrbios pobres, úmidos e desolados de Glasgow, na Escócia do fim dos anos 1970.

O fio narrativo que representa o ponto de partida desse olhar é enganador ao dar a atenção ao personagem de um garotinho que morre afogado no imundo canal das redondezas logo nas primeiras cenas; o verdeiro protagonista, descobriremos, é James Gillespie (o jovem William Eadie), o menino que, sem querer, terminar por afogar o coleguinha durante uma brincadeira mais rude. Tormento que assombrará o personagem principal durante todo filme, a morte mostrada no início é um simbolismo da atmosfera sombria que permeia toda aquela vizinhança do início ao fim da obra. Os coletores de lixo estão em greve, por isso, a periferia imerge em pilhas de sacolas de lixo, toneladas de entulho e poluição, convertendo a área num cenário triste, sujo e desagradável. Lá, James mora com seu pai (Tommy Flanagan, de “Gladiador” e “Guardiões da Galáxia Vol. 2”), sua mãe (Mandy Matthews), sua irmã mais velha e a caçula. Lá, ele também convive com os outros moradores; jovens que como ele experimentam a falta de perspectiva do proletariado da classe-baixa, que derramam assim suas neuroses precoces em bullying indiscriminado contra os menores e os mais indefesos.

Um desses indivíduos mais indefesos é Margaret (Leanne Mullen), garota cuja ausência dos óculos –tirados dela e logo extraviados nas águas do canal –a tornam quase cega.

Compadecido dela, e dos abusos frequentes que ela ora aceita ora recebe forçadamente dos truculentos garotos locais, James se torna seu amigo –o que leva à uma poética cena onde os dois jovens estão nus numa banheira, lavando seus cabelos para livrarem-se do incômodo dos piolhos. Diferente de qualquer resultado se a direção coubesse à um homem, Lynne Ramsay consegue abster completamente o teor sexual dessa sequência, a despeito das obviedades e torná-la incrivelmente inocente e lúdica.

“O Lixo e O Sonho” –ou “Ratcatcher”, isto é “Catador de Ratos”, tradução bem mais honesta à realidade do filme –é uma esteira de desabonos flagrados por seu pequeno protagonista. Como na escola do neo-realismo italiano, cabe a ele ser testemunha das mazelas reproduzidas em cena, e converter-se na sua postura estóica, em uma figura representativa do drama humano assim  materializado. As relações de altos e baixos com os amigos, a pobreza intermitente, os ásperos percalços familiares, e diversas outras experiências formam o amplo expectro de comentário social que Lynne Ramsay vislumbrou a partir da força subjetiva de suas imagens. Ela confronta essa contundência com breves momentos iluminados, como quando James visita as construções de uma moradia melhor, mais limpa, digna e ensolarada, que ousa sonhar ser o próximo lar para sua família.

Há uma ligeira incerteza se esse é o final que vemos de fato, ou se nada mais é que um úlitmo sonho acometido a um James moribundo quando este se joga no rio, em busca do mesmo desfecho amargo que ele inadvertidamente deu ao inocente garotinho do começo.

São essas percepções extremamente despreocupadas com as convenções de um cinema corriqueiro para as massas que transformam a obra de Lynne Ramsay em algo tão desigual.

sábado, 10 de outubro de 2015

Precisamos Falar Sobre o Kevin

Parte de um novo movimento de cinema do Século XXI, que rompe com as restrições de um teatro filmado ou mesmo da encenação convencional do passado, esta obra da escocesa Lynne Ramsay, tal e qual os trabalhos de Steve McQueen, por exemplo, assume o cinema em seu caráter experimental e suas ferramentas narrativas como um meio de chegar à estados singulares de percepção do expectador.
"Precisamos Falar Sobre O Kevin" não esconde, do início ao fim, suas intenções de desestabilizar o público; e por vezes, nos momentos mais hiperlativos de sua premissa, nas atuações mais inspiradas de seus intérpretes, no clímax existencial de sua criação, ele consegue.
O filme fala de um tópico já investigado por psiquiatras ao redor do mundo, mas certamente fonte de perplexidade da parte do expectador comum: A história de uma criança psicopata. Desde quando era bebê havia algo de estranho em Kevin.
Eva (a primorosa Tilda Swinton), sua mãe, jamais deixou de notar (e sentir na pele) sua hostilidade e seu ódio, que ironicamente, passavam completamente despercebidos de Franklin (John C. Reily), seu pai.
É Eva quem irá testemunhar todas as terríveis atrocidades que o filho, já mais velho (e magnificamente vivido por Ezra Miller), causará, e é ela também, que carregará a culpa de suas consequências.
Ao relatar essa trama sem uma ordenação linear comum (levando o público assim a desvenda-la aos poucos gerando aflição a cada descoberta), a diretora Lynne Ramsay (do prestigiado, porém pouco conhecido "Movern Callar") consegue assombrar o expectador com uma história singular sobre a problemática de uma relação mãe-e-filho sem igual no cinema. Terminada a sessão de "Precisamos Falar Sobre O Kevin" temos a impressão de que vimos algo terrível demais, excessivo demais, para além do que poderia se considerar tolerável no cinema comercial; o que é, no mínimo, notável e curioso, visto que este trabalho não possui cenas gráficas mais chocantes.
Não é, porém, essa  sensação que ele causa: Ao fazer de seu filme uma experiência sensorial, Ramsay invade o psicológico de quem o assiste usando de elipses, códigos narrativos internos e linguagem visual subconsciente para arremessar o público a um estado perturbador de espanto e choque sem amenidades, recomendado para poucos.
Um daqueles grande filmes que não sei se terei coragem para ver uma segunda vez. 
Grandes atuações de Tilda Swinton e Ezra Miller.