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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Algumas Previsões Para O Oscar 2026

 


Die, My Love

O filme que reúne os astros Jennifer Lawrence e Robert Pattinson encontra-os num momento bastante aclamado de suas carreiras; diferente de quando foram lançados ao estrelato (ela, com “Jogos Vorazes”; ele, com “Crepúsculo”), e dirigidos pela sempre autoral Lynne Ramsay. “Die, My Love” chega com chances fortíssimas de emplacar mais uma indicação de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence e possibilitar a melhor recepção da Academia de Artes Cinematográficas, até então, para um filme de Ramsay.


O Agente Secreto

Desde antes de sua estréia, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, vinha sendo cotado para repetir com pompa e circunstância a mesma campanha belíssima feita pelo premiado “Ainda Estou Aqui” no ano passado, agora, com indições para Wagner Moura, de Melhor Ator, e novamente Melhor Filme Internacional, e até quem sabe algumas outras categorias: Muitos são os críticos apontando este como o melhor trabalho de Mendonça Filho, o quê, vindo do realizador de “Bacurau”, não é pouco!


Avatar-Fogo e Cinzas

O primeiro “Avatar”, lá de 2009, é visto hoje como um divisor de águas no cinema hollywoodiano; sua continuação, “O Caminho da Água”, pode até não ter repetido a mesma extensão de êxito, mas foi um fenômeno de bilheteria, concorreu ao Oscar de Melhor Filme e ainda saiu da cerimônia com o prêmio de Melhores Efeitos Visuais. O trailer (empolgante, diga-se) desta terceira parte promete, no mínimo, uma produção superior ao último filme.


Frankenstein

Contando pouco tempo de seu lançamento em cinema e streaming (o filme é da Netflix), a nova e suntuosa versão do diretor Guilhermo Del Toro para a obra imortal de Mary Shelley está perfeitamente posicionada para ser lembrada na cerimônia do Oscar no ano que vem. E muitos têm sido aqueles que enalteceram a realização de Del Toro como a melhor adaptação do clássico literário até hoje! –lembrando que, entre outras versões, houve até uma de Kenneth Branagh com Robert De Niro.


Pecadores

Talvez, a grande obra-prima entre os exemplares da nova vertente do terror norte-americano, “Pecadores”, de Ryan Coogler, surpreendeu o público e a crítica com uma trama que, enquanto capturava uma apaixonada referência à “Um Drink No Inferno”, de Robert Rodriguez, abordava a questão racial e a influência poderosa da música negra num espetáculo cinematográfico belo, impressionante e sangrento.


F1-O Filme

O excelente filme com Brad Pitt e dirigido por Joseph Kosinski chegou até mesmo a ser relançado nos cinemas no segundo semestre deste ano visando uma chance entre os indicados ao Oscar. As possibilidades entre as categorias principais estão diminuindo (à medida que concorrentes mais fortes e substanciais começam a ser lançados no circuito), mas a esperança ainda paira no ar –e a presença em muitas categorias técnicas é quase uma barbada visto sua incontestável competência.


Uma Batalha Após A Outra

Paul Thomas Anderson recrutou Leonardo Dicaprio para realizar um dos filmes mais ágeis e dinâmicos de sua consagrada carreira. Adaptado de um livro de Thomas Pinchon (assim como foi “Vício Inerente”), Anderson entrega uma produção sofisticada, carregada de reflexões pertinentes e atuais, concebida com apuro visual e narrativo à toda prova e adornada de brilhantes atuações. O olhar dos críticos, do público e da Academia repousa, atento, sobre ele.


Wicked-Parte 2

A “Parte 1” encantou público e crítica, chegando na última cerimônia do Oscar (de onde saiu com duas estatuetas) exigindo respeito. Esta segunda e última parte (sobretudo, depois do lançamento de seu trailer apoteótico) eleva ainda mais as apostas. Agora, retornamos ao mundo de “O Mágico de Oz” pouco antes dos eventos narrados no clássico; contudo, desta vez, a trajetória dúbia e intrigante de Elphaba e Glinda vai adentrar os acontecimentos do filme de 1939 e, por fim, se encerrar.


Bugonia

O diretor grego Yorgos Lanthimos, a despeito de seu estilo corrosivo, único e pouco usual, parece ter caído nas graças de Academia que terminou indicando (e, em alguns casos, até premiando!) a maioria de seus últimos trabalhos em categorias bastante expressivas. Sua nova audácia “Bugonia”, já desponta como um dos favoritos à estatueta dourada e à outros prêmios da temporada com a atenção voltada, especialmente, para as atuações de Emma Stone e Jesse Plemmons, intérpretes prediletos de Lanthimos.


Coração de Lutador

Dwayne ‘The Rock’ Johnson concorrendo ao Oscar de Melhor Ator? É o que muitos estão se perguntando e contemplando a possibilidade de se tornar verdade. Dirigido por Ben Safdie (diretor de “Jóias Brutas” e ator em “Oppenheimer”) e baseado na vida do lendário lutador Mark Kerr, o filme parece uma tentativa de The Rock em dar um novo rumo à sua carreira já pontuada por vários sucessos de bilheteria. Para alguns especialistas a bilheteria abaixo do esperado pode ter esfriado suas chances, mas, para outros, o filme ainda tem possibilidades reais de chegar aos indicados principais.

sexta-feira, 14 de março de 2025

Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora É Outro


 Sabe-se que o resultado final de “Tropa de Elite” foi acarretado por alguns acasos felizes. Sabe-se que o personagem do Capitão Nascimento, por exemplo, não havia sido planejado para ser o protagonista, mas, sim um coadjuvante; que os personagens principais de fato seriam os cadetes vividos por André Ramiro e pelo saudoso Caio Junqueira. No entanto, a atuação vibrante de Wagner Moura como Nascimento tornou-se tão antológica que o diretor José Padilha, aliado ao montador Daniel Rezende, valeram-se de todas as cenas adicionais possíveis para estender sua participação, além de fazê-lo onipresente no filme atribuindo-lhe uma narração em off –no plano original, a narração pertenceria ao personagem Mathias, de André Ramiro.

Na continuação, “Tropa de Elite 2-O Inimigo Agora É Outro”, o Capitão Nascimento ganha agora o protagonismo de fato e, na narrativa ainda mais mergulhada nos meandros de corrupção política e existencial dos âmbitos brasileiros, um aprofundamento ainda maior de suas características circunstanciais.

Após sofrer um atentado, o agora Tenente-Coronel Nascimento relembra os acontecimentos transcorridos quatro anos antes, quando chefiou uma operação do B.O.P.E., liderada por Mathias, onde foi contida uma rebelião no presídio de Bangu I –evento real, magnificamente bem explorado pelo roteiro objetivo, inteligente e sem firulas de Braulio Mantovani e do próprio Padilha.

Considerada catastrófica, a operação leva Nascimento a ser afastado do B.O.P.E. tornando-se subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Nesse cargo, Nascimento consegue obter, com o passar do tempo, o desbaratamento do tráfico nas favelas da Zona Oeste do Rio de Janeiro, entretanto, o sistema corrupto se adapta à nova realidade permitindo a ascensão de um novo problema: As milícias.

Passando a comandar as comunidades após a neutralização dos chefes do tráfico –e assumindo o lugar desses chefes –as milícias passam a controlar a corrupção do sistema, estendendo o controle do crime até esferas elevadas do poder.

E é aqui, neste ponto de “Tropa de Elite 2” que testemunhamos o surgimento do antagonista mais sensacional do filme –anos-luz a frente de qualquer um dos criminosos do filme anterior. Tendo participado do primeiro filme em uma única (e memorável) cena, o ator Sandro Rocha, intérprete do Major Edivan Rocha, ganha aqui uma importância absurda, tornando-se o líder da principal milícia mostrada no filme.

O curioso é que, poucos anos antes, a TV brasileira exibiu a novela de enorme sucesso “Duas Caras”, onde Antonio Fagundes interpretava Juvenal Antena, um líder de milícia que surgia como um grande e heróico protagonista. É claro o esforço do roteiro e da direção de Padilha, além da fabulosa atuação de Sandro Rocha, em mostrar o Major Rocha como uma contraparte exata de Juvenal Antena, contudo inserido no mundo real, com toda a crítica social e o verdadeiro questionamento moral a que se tem direito.

Beneficiado por técnicas de cinema ainda mais arrojadas que no primeiro filme (exemplo brilhante é já o atentado de sua cena inicial, a primeira de inúmeras cenas magníficas que o filme trará), “Tropa de Elite 2” é infinitamente mais denso do que seu antecessor, na medida em que troca a euforia quase jovial da adrenalina do primeiro filme por um senso de realidade que chega às raias do angustiante ao confrontar o protagonista Nascimento (e, portanto, o próprio público) com uma impunidade criminosa tão arraigada no sistema público que leva o expectador a sentir-se de mãos atadas, indignado diante de tanta corrupção.

Nessa narrativa tão competente quanto exemplar é preciso citar a construção de personagens brilhantes: Não apenas Nascimento sobre um evolução em termos dramáticos e humanos como personagem (o que só potencializa mais a interpretação esplêndida de Wagner Moura) e seu antagonista aqui, Major Rocha, se revela um verdadeiro achado em todos os sentidos, como também somos brindados com uma participação também ampliada do Capitão Fábio Barbosa (Milhem Cortaz, brilhante); as aparições de Fortunatto (o ótimo André Mattos), um apresentador sensacionalista de TV inclinado à conluios com os poderosos; de Clara (Tainá Müller, de “Cão Sem Dono”), uma repórter na busca incauta pela verdade; e de Fraga (o também ótimo Irandhir Santos), um político opositor, mas, curiosamente um aliado de Nascimento na luta contra a corrupção do sistema.

Também desta vez, a circunstância mais infame a cercar o primeiro “Tropa de Elite” foi contornada por José Padilha: Criando toda uma estrutura de pré e pós-produção para esta aguardadíssima sequência, Padilha não permitiu que cópias clandestinas vazassem de sua realização como ocorreu anteriormente, fazendo com que este novo “Tropa de Elite” fosse um sucesso salutar de bilheterias, com seus lucros canalizados para os lugares certos, como tinha que ser.

sábado, 26 de setembro de 2020

Romance

Normalmente adepto de comédias mais rasgadas –e de resultado frequentemente hilário –o diretor Guel Arraes investe aqui, como o próprio título já deixa bem evidente, no romance. Ainda que seu filme conserve também elementos do tino irreprimível para comédia que ele tem. Há também em “Romance” a química cativante de seu casal protagonista, Wagner Moura e Letícia Sabatella, um melhor que o outro, e um olhar cheio de peculiaridade, divertida acidez e conhecimento de causa sobre as diferentes impressões experimentadas pela arte e pelo artista quando se expressa em mídias distintas, de interesses distintos como o teatro e a TV (e, no fim das contas, o cinema).
“Romance” é, portanto, nos temas que reúne e na forma como os reúne, Guel Arraes dos pés à cabeça!
Nota-se assim uma certa evolução em seu estilo, quando identificamos uma seriedade, uma maior maturidade, ao acompanhar o princípio da história de amor entre Pedro (Moura) e Ana (Letícia), dois atores (ele é também diretor) unidos em cena para uma apresentação teatral da tragédia “Tristão & Isolda” –clássico este que se mostra fundamental ao filme.
Enquanto debatem a relevância sentimental da obra em questão, influenciadora de praticamente todas as histórias de romance que vieram depois, os dois intérpretes descobrem algo alardeadamente nada incomum de acontecer: O amor encenado nos palcos migrou para a vida real.
Pedro e Ana formam assim, um casal apaixonado.
Contudo, a despeito da alegria com que encaram os desafios corriqueiros, os obstáculos refletidos em “Tristão & Isolda” não tardam a aparecer em sua relação também: Ana chama a atenção de Danilo, um produtor de TV (José Wilker, afiadíssimo), que não tarda a contratá-la e a levá-la a uma rotina na qual tem de se dividir entre gravar novela no Rio e encenar a peça em São Paulo.
E logo, ter que dividir a mulher que ama passa a ser um tormento para Pedro.
Eles terminam e o filme, como quem não quer nada, avança três anos no tempo; Ana agora já é uma grande estrela na TV. Pedro segue com a postura de artista comprometido com sua arte que é a essência do teatro.
Um reencontro, porém, se esboça: Ana, assim como sua agente Fernanda (a ótima Andrea Beltrão) querem convencer Danilo a aprovar um especial de fim-de-ano estrelado por ela, mas, dirigido –olhe só –por Pedro!
E qual é a trama? Uma adaptação nordestina (e filmada em locação!) de “Tristão & Isolda”.
Por esse caminho, o que era um romance de idas e vindas complicadas começa a se tornar um triângulo amoroso, e depois um quadrilátero (!), com a adição do personagem de Orlando (Vladimir Brichta, cujo carisma e simpatia são tantos que ele torna apetecível e encantador um personagem que, nas mãos de outro ator, poderia conquistar a raiva do público).
Acontece que Pedro almeja um ator regional para viver Tristão e ser o par de Ana; Orlando quer essa chance e assim se faz passar por um nordestino legítimo, ganhando o papel.
Entretanto, como costuma ocorrer de maneira meio ambígua entre alguns intérpretes profundamente envolvidos com as emoções de seus personagens, Ana e Orlando têm um breve envolvimento durante as filmagens; mesmo que Orlando, às escondidas de todos, mantenha lá um certo romance com Fernanda.
Assim, o que antes era uma serena e introspectiva reflexão sobre o amor, a arte e a profissão restrita à duas pessoas, se torna um imbróglio: Pedro não esconde sua vontade de reatar com Ana; já, Ana se acha dividida entre o amor não resolvido com Pedro e a recente paixão com Orlando; este, por sua vez, está dividido entre Ana e Fernanda –embora seu ego o leve à uma ligeira preferência pela primeira (ainda que ele reafirme sempre o contrário para a segunda!).
É, portanto, um ciranda de amores, abastecida pelos diálogos ágeis, e pelos comentários sempre inspirados sobre as situações complicadas da vida, abrilhantado por um elenco que funciona como uma máquina bem azeitada.
De quebra, o belo trabalho de Guel Arraes oferece as pertinentes e inevitáveis referências não só a “Tristão & Isolda”, como também à “Cyrano de Bergerac”, e outros clássicos do romantismo.

domingo, 28 de junho de 2020

Serra Pelada

O cinema brasileiro sempre foi displicente com a própria história. Tomemos como breve exemplo o cinema norte-americano: Se os EUA, volta e meia, realizam produções as mais variadas sobre diversos episódios de sua história antiga e recente –a ponto de tornar expectadores do mundo inteiro cientes de eventos como a Guerra de Secessão, o assassinato de John Kennedy ou, mais recentemente, os atentados de 11 de setembro –o cinema brasileiro por outro lado tem duas únicas produções conhecidas a respeito do maior garimpo a céu aberto da era moderna, transcorrido em pleno território nacional e responsável por reunir uma legião tão grande de trabalhadores braçais quanto a construção das pirâmides. E essas duas produções são “OsTrapalhões Na Serra Pelada” e este “Serra Pelada”, de Heitor Dhalia.
Suas diferenças profundas e essenciais distanciam essas duas obras.
O primeiro, realizado no início da década de 1980, quando o garimpo estava em curso, capturou instantes legítimos da aglomeração humana, quase como um documentário informal –embora sua proposta fosse completamente outra –já a obra de Dhalia observa o acontecimento com olhos atuais de alguém que se volta para o passado, não apenas almejando a primorosa reconstituição que é admiravelmente obtida, mas justapondo uma reflexão moral e existencial com um distanciamento que só o tempo pode permitir.
Na abertura –uma mescla prodigiosa de cenas documentais de arquivo e recriação minuciosa dos percalços dos garimpeiros –vemos os noticiários televisivos que instigaram, em 1980, todo o Brasil: Pepitas gigantescas de ouro, encontradas com facilidade na Serra Pelada, no sudeste do estado do Pará, transformaram em milionários, do dia para a noite, os homens que as acharam.
Amigos de infância, ainda que de índoles bem distintas, o professor de escola pública Joaquim (Júlio Andrade) e o bruta-montes Juliano (o ótimo Juliano Cazarré) deixam São Paulo para se aventurar no garimpo como tantos outros. Eles testemunham, nos meses e anos que se seguem, a multiplicação insana de garimpeiros desesperados pelo ouro enquanto adquirem um barranco por escritura para poder explorar.
Logo, o traquejo para com a violência de Juliano aliado ao conhecimento numérico e organizacional de Joaquim começam a render dividendos levando a dupla a prosperar.
Ainda assim, não basta: Joaquim quer mais dinheiro para a mulher e a filha que deixou para trás; Juliano quer, cada vez mais, integrar a fauna dos poderosos da máfia regional –o que se reflete no conturbado caso que ele tem com a jovem Tereza (a belíssima Sophie Charlotte), noiva de um barão local, o Anão (Matheus Nachtergaele) que a tirou da prostituição.
Como numa boa produção épica, o filme de Dhalia equilibra com competência e zelo as facetas históricas –é mostrado o controle instaurado pelo Exército Brasileiro sobre o garimpo nos anos subsequentes, com a abolição de armas, bebidas alcoolicas e prostitutas da área dos garimpeiros –e as facetas íntimas –as trajetórias pessoais de Juliano e Joaquim, em cujas divergências enxergamos a gradual deterioração de sua amizade.
Uma manobra que em muito faz lembrar a análise de brutalidade e ambição num comprometimento dos valores morais presente em “OTesouro de Sierra Madre”.
Tal qual em “O Cheiro do Ralo”, parece suscitar profundo fascínio no diretor Heitor Dhalia essa observação do caminho que leva um protagonista relativamente puro de encontro à sordidez –daí ser nítido seu interesse maior por Juliano.
A partir do último terço, um personagem que cresce em estatura é o de Wagner Moura, o ganancioso e calculista Lindo Rico, pivô inclusive do rompimento entre os dois amigos.
“Serra Pelada” encontra nessa hábil manipulação de motes –filmes de gangsteres com conluios e tudo o mais, tiroteios quase ao estilo faroeste, e uma nunca subestimada avaliação reflexiva disso tudo –elementos de gênero que o tornam atrativo e envolvente, uma obra digna do perspicaz e hábil diretor que a realizou, preocupada, do início ao fim, com a excelência e a simetria narrativa do caminho de sofrimento, violência e aprendizado trilhado por seus personagens.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

VIPs

Não obstante ser inspirado numa história real, o filme de Toniko Melo guarda fortes semelhanças com “Prenda-Me Se For Capaz”, de Steven Spielberg, no retrato surpreendente e carismático que traça de um farsante, na curiosa relação entre essa atitude e a paixão pela aviação, e também no gatilho emocional sugerido em uma corruptível presença paterna (este sim, um artifício narrativo que busca uma aproximação mais escancaradamente proposital com o filme de Spielberg).
Marcelo Nascimento da Rocha (Wagner Moura, esbaldando-se com o personagem) era um rapaz reprimido e pouco confortável consigo mesmo na cidade onde cresceu –o retrato de sua mãe (Gisele Fróes), visto e revisto ao longo do filme, é um curioso e interessantíssimo código cinematográfico para suas dualidades internas.
Partindo de casa, ele usa o instinto natural de enganador que tem para obter aulas de piloto, o que acaba levando-o para o Paraguay onde assume o nome de Carrera e passa a fazer viagens aéreas para traficantes.
Numa ocasião em que é preso, ele inventa uma história para os policiais acerca dessa figura, Carrera, e com isso cria uma trama tão convincente que mais tarde, quando é ‘aposentado’ pelos traficantes e enviado de volta para o Brasil, descobre que sua mentira tão bem contada se imbricou na realidade quando acabaram prendendo outro piloto que terminou levando toda a fama germinada em sua história.
Talvez tenha sido isso que deu a Marcelo a motivação para realizar seu mais conhecido e audacioso golpe: Passar-se pelo próprio herdeiro da famosa empresa de aviação Gol, Henrique Constantino, durante as festas de Carnaval do Recife realizadas no próprio resort de propriedade da família Constantino e, amparado nesse status, conseguir financiar um camarote milionário onde monopolizou celebridades e milionários –até mesmo o apresentador de TV Amaury Jr. (interpretando a si mesmo) chegou a entrevistá-lo em rede nacional e ao vivo (!).
É a partir daí que a narrativa vai deixando claro que havia um lapso psicológico em Marcelo: As identidades que assumia não eram apenas disfarces superficiais, mas encenações com as quais ele convencia a si próprio, personificações nas quais por vezes mergulhava de tal maneira irreversível que corria o risco de não emergir delas novamente.
Assim é o que nos leva a deduzir o epílogo (o filme termina um tanto abrupto e rápido demais) onde ele torna a assumir outra persona –desta vez na cadeia, em plena revolta dos presos comandada pelo PCC –e nela se descobre tão convicto que chega a assumir o controle da rebelião.
Talvez pelo orçamento sempre homeopático com os quais têm de contar as realizações brasileiras, o filme de Toniko Melo não vai mais além do que poderia na história de seu protagonista: Se houveram outras idas e vindas da prisão (e houveram!), o filme não se incumbe delas, bastando-se no registro aprofundado de um único episódio.
Menos mal que o trabalho de Toniko Melo faz o que se propõe a fazer com propriedade, sempre envolvente, sempre instigante, administrando com competência a similaridade que essa realização encontra também com “Zelig”, de Woody Allen –no sentido de que a característica do protagonista em transmutar-se de um papel para outro era menos uma dissimulação bem empregada e mais um reflexo psicológico inerente a ele mesmo –e privilegiando o público com uma magnífica atuação de Wagner Moura, tão versátil quanto seu camaleônico personagem.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Tropa de Elite

O cinema nacional sempre foi vítima do preconceito de seu próprio público. Muitas vezes, o argumento é sempre de que a qualidade do cinema brasileiro dificilmente iguala a do cinema norte-americano.
“Tropa de Elite”, de José Padilha, é uma forte objeção contra tal argumento.
Também é um triste indicativo do quão pouco interessado o povo brasileiro está em se manter leal às mídias legítimas: É notória a história de como o filme foi visto praticamente pelo país inteiro, em cópias piratas, antes mesmo de sua estréia nos cinemas.
A qualidade indiscutível do trabalho de Padilha –que em nada deve aos melhores filmes norte-americanos –contudo, foi motivo de sobra para que ele também se tornasse um sucesso oficial de bilheteria. Não é à toa: Como Fernando Meirelles em “Cidade de Deus” cerca de três anos antes, Padilha impõe uma técnica e um estilo que enfatiza cenas de ação prodigiosamente bem dirigidas, num roteiro brilhante com grandes personagens e todas as arestas narrativas devidamente aparadas.
Um atestado do quão brilhante pode ser o nosso cinema.
O ano é 1997. Roberto Nascimento (Wagner Moura, uma força da natureza), veterano capitão do B.O.P.E. é então incumbido de preparar a chegada do papa João Paulo II ao Brasil, garantindo a segurança nas favelas cariocas. Ao mesmo tempo, ele é pressionado pela esposa, grávida do primeiro filho do casal, a abandonar o batalhão e a vida extremamente perigosa de policial em favor de um cargo mais confortável e seguro de gabinete.
Para um policial genuinamente honesto e honrado, contudo, tal tarefa, no corrupto sistema brasileiro, é ingrata. Ainda assim, Nascimento sonha para seus substitutos dois jovens recrutas de temperamentos diferentes quase opostos, também eles policiais que se ressentiram com a imoralidade do meio e buscaram, na rigidez do B.O.P.E., uma maneira de cumprir seu dever adequadamente.
São esses dois recrutas, Neto (o ótimo Caio Junqueira) e Matias (André Ramiro), quem a narrativa irá acompanhar com mais ênfase, mas é o Capitão Nascimento, na atuação poderosa e fulgurante de Wagner Moura, quem irá roubar todas as cenas para si como o grande e verdadeiro protagonista do filme.
O roteiro de Bráulio Montovani e Rodrigo Pimentel e a direção de Padilha não se acomodam nas espetaculares cenas de ação e de tiroteio, concebendo uma trama absorvente pontuada pela envolvente narração em off de Wagner Moura e por uma sucessão de seqüências absolutamente antológicas: A cena tensa e vertiginosa do tiroteio na favela que abre o filme; a seleção e o treinamento dos recrutas, penoso e exaustivo –e paradoxalmente eletrizante –os flagrantes absurdos (e apesar disso, engraçados) da corrupção policial; a discussão dentro da sala de aula (onde Matias esconde de todos os colegas que é policial), e a sutil observação de Padilha em torno da inversão de valores entre bandidos e policias perpetrada pela sociedade e as inúmeras frases que se tornaram bordões populares (“Missão dada é missão cumprida”, “Pede pra sair!”, “Bota na conta do Papa.”)..
Ao conceber um retrato do Brasil despido de fragilidades técnicas e artísticas e criar uma obra de ressonância ética onde enfim a platéia é levada a torcer pelo lado certo, Padilha realizou uma obra de cinema nacional do mais altíssimo nível e de uma enorme repercussão popular.