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domingo, 2 de agosto de 2026

A Odisseia


 O que fazer após a consagração? Essa dúvida talvez tenha passado na mente de Christopher Nolan após ele ter arrebatado o Oscar de Melhor Filme na cerimônia de 2024 com “Oppenheimer”, e a resposta que ele encontrou foi... voltar ao início de tudo!

Como contador de histórias, Nolan sentiu que havia chegado a hora de tentar contar no cinema uma das mais antigas histórias da civilização, uma estrutura referencial para todas as jornadas arquetípicas que vieram depois – “A Odisseia”.

O próprio cinema de Christopher Nolan deve muito a esse poema ancestral de Homero: Lá estão as idas e vindas temporais (por meio de memórias sistematicamente resgatadas) que dão à narrativa um sedutor formato não linear, tal e qual Nolan fez em “Amnésia”, em “Tenet” e outras obras mais. “A Odisseia” é, em si, um modelo que sempre exerceu forte impacto sobre ele enquanto cineasta.

Logo, diante da sensação de ter chegado ao topo, Nolan se viu na necessidade de regressar (assim como Odisseu) ao ponto em que sua verve como contador de histórias floresceu. Regressar à Odisseia.

Não que não houvessem tentado adaptá-la (e muito) antes: Além de um sem-fim de tentativas de adaptação em formato longa-metragem ou minissérie (a maioria delas ostentando valores característicos de Filme B), “A Odisseia” é também a fonte e a influência para diversas outras variações narrativas no cinema como “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, dos Irmãos Coen, “Cold Mountain”, de Anthony Minghella, e (há quem diga) “Interestelar”, do próprio Nolan.

Era hora de aventurar-se a adaptar a obra original de fato e tentar dar a ela uma roupagem cinematográfica definitiva. E o resultado, como costuma ser nos melhores trabalhos de Nolan é ambicioso, abrangente, épico e assombroso.

Antiguidade. Já conta mais de uma década dos feitos cantados aos quatro ventos durante a Guerra de Tróia vencida pelas forças de Agamenon (o também diretor Ben Safdie), todavia, Odisseu (Matt Damon), o rei de Ítaca e um dos homens de confiança de Agamenon naquele longo conflito ainda não retornou para casa, nem para o leito de sua devotada esposa Penelope (Anne Hathaway). Há quem diga que perdeu-se no mar. Há quem diga que morreu. Enquanto esse impasse não se resolve, e enquanto a esperança por seu retorno se mantém inabalável em Penelope, as dezenas (quase centenas) de pretendentes à mão dela e ao trono de Ítaca se amontoam no palácio esbanjando da hospitalidade grega, entre eles, o pérfido e ardiloso Antinous (Robert Pattinson). Em algum momento, Penelope haverá de terminar o sudário que passa os dias tecendo, e quando o fizer, será o momento em que terá por obrigação escolher um deles, a despeito da injúria de Telêmaco (Tom Holland), filho de Odisseu que, como a mãe, ainda nutre esperanças pelo retorno do pai. Um pai que ele não conheceu.

É, no entanto, a conturbada jornada de Odisseu em seu esforço para voltar para casa que ocupa todo o centro da narrativa de Nolan.

Finda a Guerra de Tróia (com o episódio do Cavalo de Tróia mostrado num segmento espetacular em flashback), Odisseu junta seus homens e prepara-se para a viagem em regresso à Ítaca, entretanto, uma série de contratempos acaba comprometendo seu retorno. Farto dos desmandos de Agamenon, ele segue por uma outra rota marítima que o leva à uma ilha habitada por um gigantesco ciclope das cavernas – na primeira das inúmeras cenas que provam a desenvoltura sem igual (e até então desconhecida e inexplorada) de Christopher Nolan para moldar sequências do mais puro terror.

Somente com o monstro derrotado, Odisseu e seus homens se dão conta de que, como a criatura mitológica que é, ele tem como pai uma das divindades (Poseidon, no caso) que, agora, se encontra enfurecido com Odisseu e haverá de dificultar sua volta para casa. E serão esses percalços, de exaspero inacreditável que acrescentarão mais dez anos ao regresso do Odisseu – que a guerra já havia afastado por uma década de Ítaca. O confronto com os gigantes, seguido do encontro com a feiticeira Circe (Samantha Morton, ótima), a sombria sequência do reencontro com os combatentes da Guerra de Tróia, agora mortos, e a aparição de outras criaturas sobrenaturais dos mares como as sereias, o monstro que sucede o redemoinho de Poseidon e a deusa Calypso (Charlize Theron) que, em sua afeição por Odisseu, o aprisiona em sua ilha, destituído de suas lembranças, por sete longos anos.

Não há um único membro do elenco que, sob a batuta de Christopher Nolan, não esteja excelente, contudo, no campo das atuações primorosas é necessário chamar à frente Matt Damon, Tom Holland e Robert Pattinson, estupendos interpretando o trio que representa o cerne de todo o embate moral e emocional da trama – o homem em regresso ao lar em permanente conflito com as escolhas atrozes que a guerra lhe obrigou a fazer; o menino pressionado a virar homem a fim de preservar intacta a herança e a memória do pai; e o vil interesseiro oportunista a tentar valer-se de trapaça e perfídia a fim de prevalecer em vantagem sobre essas duas circunstâncias.

A obra de Homero é e sempre foi um fundamento em torno do qual os mais diversos enredos foram construídos ao longo dos séculos, Nolan recriou essa jornada monumental a partir de suas mais recentes adaptações e traduções, buscando a conciliação de uma linguagem moderna com os paradigmas inestimáveis que o poema original plantou na cultura literária do ocidente. Seu filme é uma recriação majestosa, vibrante e, em alguns momentos, até comovente do esforço de seu protagonista em se manter relevante e digno ante um mundo em transformação e suas imponderáveis provações – só o tempo dirá o quão contundente vai ser sua marca na História do Cinema, mas desde já “A Odisséia”, de Christopher Nolan, é um dos melhores e mais brilhantes filmes de 2026.

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Robô Selvagem


 Poucos estúdios têm o atrevimento de peitar a Disney naquilo que eles mais amplamente se consagraram: As animações. No entanto, já desde as últimas duas décadas (mais precisamente, desde 2001, lançamento de seu primeiro longa animado, “Shrek”), o estúdio da Dreamworks (fundado por Jeffrey Katzenberg, outrora um bem-sucedido produtor da própria Disney), tem trilhado um caminho próprio, onde forjou um estilo e uma identidade visual, sem imitar seu honorável concorrente, concebendo no processo o que hoje pode ser visto como uma belíssima filmografia de animações notáveis –de lá, saíram “Kung Fu Panda”, “Como Treinar Seu Dragão”, “Megamente” e muitos outros.

Sua nova obra, “Robô Selvagem” –dirigido pelo mesmo Chris Sanders que entregou a beleza pura a contagiante de “Como Treinar Seu Dragão” e a diversão alegremente transgressiva de “Lilo & Stitch”, na Disney –é um sopro de renovação fulgurante no que muitos críticos têm apontado como uma mesmice temática e criativa prejudicial para as animações recentes.

Ele conta a história de Rozzum 7134 (voz de Lupita Nyong’o), um robô doméstica de programação muito objetiva –uma vez acionado e designado à uma tarefa, ele só irá parar até que tal tarefa esteja absolutamente realizada. Porém, o robô, ainda dentro de seu caixote, naufraga numa ilha inóspita, junto com muito da carga do navio em que era transportado. Acionado por acaso por uma das lontras do lugar –lá, é abundante a vida selvagem –o robô procura inicialmente por uma tarefa, não encontrando nenhum humano que lhe atribua uma.

No entanto, como no livro de Peter Brown no qual se baseia, o robô –que logo se presta a ser chamada por Rozz –descobre como comunicar-se com a ocasionalmente agressiva fauna da ilha e, num interlúdio desastroso com um urso, o animal mais perigoso de lá, acaba sem querer destruindo o ninho de uma família de gansos, matando todos no processo, exceto um dos novos que logo se choca.

Do ovo sai um filhote, apelidado de Brightbill (voz de Kit Connor), que toma Rozz como sua mãe e passa a segui-la por todos os cantos –a robô, portanto, achou uma tarefa; ensinar o pequeno ganso a se alimentar, a nadar nos lagos do local e, até que chegue o inverno, a voar com as próprias asas, para que junto de outros iguais, ele possa migrar para outros lugares quentes, onde não morrerá.

A fim de cumprir sua tarefa e realizar outras ações improváveis (como saber lidar com as peculiaridades de cada animal selvagem da ilha), Rozz conta com a ajuda um tanto carregada de segundas intenções da raposa Fink (voz de Pedro Pascal), com quem irá aprender os percalços de se viver naquele ambiente belo, porém, sempre rigoroso e perigoso.

Adornado de uma beleza pictória ímpar, convertendo as cenas na ilha, absolutamente predominantes no filme, numa imersão em um quadro de cores vibrantes, “Robô Selvagem” é uma prova inconteste da capacidade da Dreamworks em ombrear e, de vez em quando como aqui, talvez até superar sua concorrente no campo que supostamente eles mais entendem. A história de Rozz é sobre os perigos da natureza, mesmo aqueles disfarçados na beleza inconteste, é sobre as imprevisibilidades do destino, e sobre as responsabilidade da vida em coletivo, mas é, acima de tudo, sobre as inesperadas percepções da maternidade –Rozz, a fenomenal protagonista desta obra tem um primoroso arco narrativo no qual, sem dar-se conta, adquire humanidade pelo simples fato de arcar com as obrigações de criar um filhote, estabelecendo um vínculo que a transforma e transforma a todos à sua volta.

Uma lição de empatia e humanismo que transforma “Robô Selvagem” numa das grandes animações de 2024.

sábado, 13 de julho de 2024

Um Lugar Silencioso - Dia Um


 Uma das franquias mais honestas e eficientes do cinema moderno, dentro daquilo que se propõe, é “Um Lugar Silencioso”, iniciada com o modesto e objetivo sucesso-surpresa dirigido por John Krasinski e estrelado por Emily Blunt. A ideia é um tanto quanto simples e, por isso mesmo, sucinta: Num mundo dominado por monstros cegos, dotados de apurado senso auditivo, manter-se em silêncio total é manter-se vivo.

Dois filmes depois, a saga (que, tudo indica, ganhará dentro em breve um terceiro longa-metragem) volta no tempo para contar, neste prequel, como se desdobrou, de modo geral, os acontecimentos do primeiro dia, durante a invasão alienígena; este, ou mesmo os filmes anteriores, muito pouco mergulham em questões de onde as criaturas vieram ou porque, limitando-se a mostrá-los como meteoritos que caem do céu, longo percorrendo perigosamente as ruas atrás de carne humana.

Na verdade, o segundo filme, “Um Lugar Silencioso-Parte 2” possui um prólogo com cerca de 15 minutos onde testemunhamos os protagonistas em sua breve vida comum da forma como ela era minutos antes da invasão –é esse prólogo que serve de modelo à todo este filme agora concebido pelo diretor Michael Sarnoski (do surpreendente “Pig”, com Nicolas Cage). Entretanto, agora nos desvencilhamos dos protagonistas anteriores (Emily Blunt e sua família) para nos focar na trajetória de outros personagens, descobrindo como tudo se desenrolou numa metrópole como Nova York.

Ex-poetisa assolada pelo câncer, Sammy (Lupita Nyong’o, sempre excelente) amarga seus dias numa clínica até que seu enfermeiro, Reuben (Alex Wolff, de “Hereditário” e “O Dia do Atentado”), organiza um passeio em Manhattan para assistir um show de marionetes. Convencida pela promessa de comer uma pizza (!), Sammy se deixa levar junto de seu gato, Frodo, mesmo sabendo que o programa a deixará enfastiada. Contudo, enquanto estão lá, algo acontece: Meteoritos (ou algo assim) caem do céu, trazendo criaturas monstruosas que atacam vorazmente todos os transeuntes que encontram pela rua.

Nas horas que se seguem, Sammy e os poucos que têm a chance de sobreviver (entre eles, o personagem de Djimon Hounsou, que aparece na “Parte 2” também) descobrem o básico para escapar da sanha implacável das criaturas: Que devem fazer silêncio absoluto (as criaturas não têm olhos, então, se baseiam num aparato auditivo e atacam ao menor ruído) e que, se possível, precisam se refugiar próximos da água (as criaturas evitam os rios, incapazes de nadar neles).

No entanto, Sammy tem outros planos; ela logo deixa o grupo formado nas dependências agora desoladas do teatro de marionetes e resolve encontrar, com seu gato, o caminho para o Harlem. O motivo: Ciente dos dias escassos de que dispõe por conta de sua condição médica, Sammy quer, nesse cenário apocalíptico, saborear um último instante de vida normal e encontrar um restaurante no bairro onde cresceu que, talvez, possua uma última fatia de pizza (!). Nesse percurso melancólico, Sammy se depara com o jovem Eric (o inglês Joseph Quinn, o futuro Tocha Humana no vindouro “Quarteto Fantástico” da Marvel Studios), um rapaz aparentemente sem rumo, que decide acompanhá-la nessa cruzada final.

A despeito dessas motivações não apresentarem maior profundidade ou força (embora a dramaturgia embutida nelas, devido aos talentos envolvidos, seja convincente e funcional), o filme de Sarnoski se impõe graças ao registro extremamente bem realizado do perigo que espreita a cada esquina –concebido com as mesmas orientações dos dois ótimos trabalhos anteriores, “Dia Um” revela-se impecável na atmosfera sufocante de terror, na qual cada suspiro pode atrair os monstrengos ensandecidos. Ainda que menos econômica e sugestiva do que a direção de John Krasinski, a direção de Michael Sarnoski, a exemplo dele, potencializa toda a urgência e a aflição da narrativa nos ombros de uma grande atriz (lá, Emily Blunt; aqui, Lupita Nyong’o) transformando cada instante de tensão num exercício poderoso de suspense, e fazendo valer, na sua inédita predisposição ao drama humano dos personagens, cada minuto de sua jornada.

sábado, 12 de novembro de 2022

Pantera Negra - Wakanda Para Sempre


 O processo de dar continuidade a filmes de sucesso é uma fina arte que se exerce ao sabor de muitos acontecimentos da vida real. Quem não lembra do falecimento de Heath Ledger, um ano antes dele tomar o planeta de assalto com sua impecável personificação de Coringa em “O Cavaleiro das Trevas”? Certamente, o capítulo final daquela trilogia de Christopher Nolan viu-se comprometido, em seus planos originais, pela morte do insubstituível intérprete do antagonista principal. É, por assim dizer, com algo um pouco parecido que se depararam os realizadores deste “Wakanda Para Sempre”: Tendo o diretor Ryan Coogler levado seu “Pantera Negra” a tornar-se o primeiro filme de super-heróis a concorrer ao Oscar de Melhor Filme, uma fatalidade mudou os planos gloriosos que ele e a Marvel Studios certamente tinham para a continuação, a morte do protagonista Chadwick Boseman, em 28 de agosto de 2020, vitimado por um câncer.

A decisão da Marvel, guiada por um sentimento de luto que dominou também os fãs pelo mundo todo, foi também matar o personagem que ele interpretava, T’Challa, fazendo com que o legado do herói se encerrasse junto com o grande ator que o interpretava. Embora exalasse respeito, a decisão não deixou de impactar alguns fãs que se opuseram a essa escolha.

Contudo, todos –os que compactuaram com a manobra e os que dela discordaram –tiveram que conferir em “Pantera Negra-Wakanda Para Sempre”, os efeitos dessa decisão e as consequências dela para os coadjuvantes e para todo o Universo Marvel daqui para frente.

Imaginar o que teria sido o filme se Chadwick Boseman tivesse permanecido vivo é um gesto tão doloroso quanto irrelevante, o que importa é a obra plena de emoção e comoção que assim chegou aos cinemas.

É Ryan Coogler, Kevin Feigi e todo o elenco e equipe técnica unidos em preparar a melhor despedida possível para um amigo. É também o filme mais emocionante da Fase 4 da Marvel.

Quando “Wakanda Para Sempre” começa, somos apresentados a uma cena construída com vibração elíptica, onde de pronto, o personagem de T’Challa acaba partindo, por razões que o filme escolhe deixar em aberto. Segue-se um momento fúnebre –já vislumbrado nos trailers da produção –e a energia de luto e de despedida que se levanta a partir dali permeia todo o filme, sendo ocasionalmente atenuada pela urgência da trama que é contada.

Em suas facetas mais práticas, “Wakanda Para Sempre” lida também com a circunstância política acarretada pela decisão tomada ao final do primeiro “Pantera Negra”, no qual a nação africana e ultra-tecnológica de Wakanda revela todos os seus vastos recursos ao mundo. As Nações Unidas, agora, têm um ávido interesse no precioso metal que permite todo esse avanço à Wakanda, a raridade absoluta conhecida como vibranium.

Embora fosse presumido que o vibranium era de exclusividade de Wakanda, algumas pesquisas capitaneadas pelos EUA descobrem que há, sim, vibranium em outra parte do mundo. Mais precisamente nas profundezas do Oceano Atlântico. Entretanto, também lá, o precioso metal tem seus donos: O reino aquático de Talokan, oriundo de uma ancestral cultura asteca, e governado com protecionismo implacável pelo poderoso mutante Namor (Tenoch Huerta, fabuloso no personagem).

Estrategista feroz, Namor procura a rainha Ramonda (Angela Basset, maravilhosa) e Shuri (Letitia Wright), respectivamente, a mãe e a irmã, ainda enlutadas de T’Challa, para pedir-lhes um gesto de boa vontade, da parte de Wakanda, para Talokan: Encontrar e entregar-lhe o gênio responsável pela invenção da prodigiosa máquina que possibilitou aos americanos detectar o vibranium no fundo do mar. No entanto, a decisão não se revela fácil: O gênio em questão é a adolescente Riri Williams (Dominique Thorne, uma excelente aquisição ao Universo Marvel) cuja empatia e inteligência espelha muito as de Tony Stark –o super-herói inaugural desse mesmo universo.

Será esse e outros impasses que colocarão as forças de Talokan em rota de colisão com as de Wakanda, o que faz do filme formidável perpetrado por Ryan Coogler, um épico de guerra, adornado por todo o viés político que as obras mais profundas e circunspectas dessa orientação costumam ter.

É claro que “Wakanda Para Sempre” carrega em si o fardo de ser inúmeras outras coisas também: Um trabalho que resgate aos olhos do público a excelência da Marvel Studios, dispersa em projetos, televisivos e cinematográficos, que, desde o descomunal “Vingadores-Ultimato” não chegaram a empolgar como deveriam; uma profusão habitual de efeitos visuais e ação constante à qual a Marvel já acostumou seus expectadores; uma introdução, fervilhante em representatividade de Namor e toda a mitologia (diferenciada das HQs) que o cerca, na qual o reino submarino de Talokan (diferente da Atlântida vista em “Aquaman”, por exemplo) ganha caracterizações que remetem à cultura mezomericana, numa manobra radical mas, bastante interessante da parte dos realizadores; uma passagem de bastão, do falecido T’Challa para Shuri (a protagonista de fato deste filme); uma cuidadosa preparação para muitos conceitos que haverão de definir o Universo Marvel daqui para frente –com a adição, não só de Namor (aqui contextualizado como um antagonista, mas, perfeitamente capaz de ser um herói extremamente complexo e fascinante em projetos vindouros), como também de Riri Williams (herdeira de Stark e do “Homem de Ferro” cuja série própria, “Ironheart”, já está prevista no Disney Plus) e até da Condessa Valentina Allegra de La Fontaine (a ótima Julia Louis-Dreyfuss), personagem que deve ganhar tremenda importância num futuro próximo –e, acima de tudo, uma homenagem ao legado deixado por Chadwick Boseman.

Na sua tentativa de abraçar tantos objetivos, “Wakanda Para Sempre” naturalmente cede à pressão –até porque não resulta numa obra de cinema tão perfeita quanto a produção anterior –contudo, ao voltar-se, no seu desfecho, aos seus fãs, e ao investimento emocional e incontornável da dor pela partida de seu astro na vida real, o filme entrega um sentimento muito genuíno ao público, elevando sua experiência sensorial para além da adrenalina palpitante de suas cenas de ação.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Nós

Artisticamente, Jordan Peele não parece nem um pouco interessado em deixar de lado o gênero no qual se consagrou graças ao brilhante “Corra!”: O terror impregnado de crítica social, em especial, voltado para a questão racial.
“Nós” é seu trabalho subsequente à sua obra consagrada (e, por isso, mesmo vem embalado numa auto-consciência do quanto tem de se provar enquanto realização cinematográfica), e é também uma renovação muito pessoal das convicções criativas e morais que norteiam o processo de Jordan Peele como contador de histórias.
Nota-se que Peele tem apreço em resgatar considerações do expediente de terror que não estão mais em voga –“Corra!”, guardadas as devidas proporções, evocava muito daquelas premissas de ‘cientista maluco’ sobre trocas mirabolantes de corpos e mentes. Já, “Nós” versa obre o mito do Doppelgänger –a duplicata maligna que supostamente cada um nós possui.
O filme abre com um texto afirmando a existência de linhas subterrâneas cortando o subsolo de todos os EUA; uma informação até corriqueira para o filme que se seguirá, mas indicativa do zelo autoral de seu realizador.
Ainda no ano de 1986, a pequena Adelaide tem um episódio assustador e traumático num parque de diversões à beira de uma praia, quando se perde por alguns momentos de seus pais.
Anos mais tarde (e agora interpretada pela sensacional Lupita Nyong’o), Adelaide é uma mulher adulta, casada com Gabe (Winston Duke, que assim como Lupita estava no elenco de “Pantera Negra”) e mãe de dois filhos, Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex).
Eles saem de férias como uma família normal, mas ao chegar na praia onde encontram o casal Josh (Tim Heidecker) e Kitty (Elizabeth Moss, das séries “Mad Men” e “The Handmaid’s Tale”), Adelaide se descobre aflita ao identificar elementos coincidentes que relacionam esse passeio com aquele sinistro ocorrido da sua infância, como a menção à passagem bíblica ‘Jeremias 11:11’ –“Portanto, assim diz Jeová: ‘Estou trazendo sobre eles uma calamidade da qual não poderão escapar. Quando clamarem a mim por socorro, eu não os escutarei’.”
E não deixa de ser uma calamidade, jogada sobre a humanidade (ou sobre os EUA), o que logo mais se segue.
Os temores impronunciáveis de Adelaide parecem se concretizar à noite, quando uma família de réplicas bizarras deles mesmos (e magistralmente interpretados pelos mesmos atores) surge à sua porta.
Variações defeituosas deles próprios –e envoltos numa atmosfera francamente amedrontadora –os assim chamados Acorrentados tentam dar cabo dos seus outros pares.
Escapando por pouco ilesos dessa circunstância tão perigosa quanto absurda, Adelaide e sua família veem a descobrir que o que vivenciaram está a se passar em todo o país: Outrora habitantes de uma sociedade subterrânea que, de alguma forma, passou despercebida da nossa, e integrada por criaturas que espelham cada indivíduo na superfície, essa sociedade decidiu dar um basta e sairam todos ao céu aberto dispostos a reclamar seu lugar no mundo e dar cabo daqueles que ocuparam sua posição, seus gêmeos da superfície.
Esse é um resumo muito superficial diante da variedade de percepções, sensibilidades e, sobretudo, reflexões, que Jordan Peele consegue suscitar com seu roteiro notável e sua direção rica em hábeis manejos do gênero.
Na sua concepção, a ironia macabra de um Doppelgänger é tanto uma providência divina perante nossa arrogância e pretensão (as frivolidades do capitalismo praticamente dominavam os diálogos antes da ameaça dar as caras), quanto um castigo à presunção norte-americana (por consequência, também um retrato de sua convulsiva paranóia) e um questionamento existencial acerca do que define aquilo que somos; e o que não somos –observação com a qual a espetacular reviravolta final vem confrontar o expectador que estiver achando que um filme de Jordan Peele é só mais um terror para se consumir.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Pantera Negra

É visto que os filmes da Marvel Studios vêem atrelados a uma narrativa que os interliga aos outros filmes do estúdio. “Pantera Negra”, por exemplo, é conectado aos acontecimentos de “Capitão América-Guerra Civil” –onde o herói, T’ Challa foi apresentado pela primeira vez –e não restam dúvidas se conectará também, por conta de inúmeros detalhes, à “Vingadores-Guerra Infinita”.
Ainda assim, tal e qual os mais hábeis artesãos que a Marvel recruta, o diretor Ryan Coogler é astuto o suficiente para fazer deste filme solo um espetáculo inteligente, instigante, envolvente e eletrizante por si só, independente das demais produções: “Pantera Negra” ombreia em qualidade e primor –assim como em temática e austeridade narrativa –a um dos melhores trabalhos do estúdio, o magnífico “Capitão América-Soldado Invernal”.
Extremamente talentoso (como ficou comprovado nos ótimos “Fruitvale Station-A Última Parada” e “Creed-Nascido Para Lutar), Coogler conta a história de seu protagonista, T’ Challa (que Chadwick Boseman interpreta com solidez e propriedade) a partir dos desdobramentos do ocorrido em “Guerra Civil”, no caso, o assassinato por atentado de seu pai T’ Chaka, o que faz dele, por sucessão, o rei de Wakanda (uma nação sul-africana evoluída, futurista e absolutamente secreta) e também seu lendário protetor, o Pantera Negra.
Para acompanhá-lo na ritualística cerimônia de coroação, T’ Challa faz questão da presença da mulher que ama, a cativante, mas nem por isso menos enérgica Nakia (vivida com carisma, vigor e encanto pela linda Lupita Nyong’o, de “12 Anos de Escravidão”), que além de tudo é uma espécie de agente secreto a serviço de Wakanda, monitorando as outras nações do mundo e tentando auxiliar os dissidentes wakanianos no processo.
O roteiro de Coogler, contudo, não se acomoda na inércia dos eventos que transcorrem com naturalidade: Já no começo, ele introduz um flashback envolvendo o rei T’ Chaka ainda em sua juventude –ele próprio como Pantera Negra –que somente a medida que a trama evolui vamos nos dando conta de seu primor.
É quando essas duas linhas narrativas se fundem (T’ Challa assumindo as funções e responsabilidades de rei; e o segredo envolvendo um erro do passado cometido por seu pai) que o filme de Coogler evoluiu do ótimo para o excelente: Eis que T’ Challa descobre que o aliado do contrabandista Ulisses Klaus (Andy Serkis, ótimo), o misterioso Killmonger (Michael B. Jordan, um vilão vibrante e espetacular), é na realidade um membro renegado de sua própria família real e, portanto, digno de desafiá-lo numa luta pelo trono de Wakanda.
Reunindo um dos mais sensacionais e bem empregados elencos da Marvel Studios –além dos atores já mencionados, “Pantera Negra” tem também Danai Gurira (da série “The Walking Dead”) como a líder das Dora Milaje, a arrojada e eficaz guarda real de Wakanda constituída de mulheres guerreiras; o grande Forest Whitaker como Sully, o curandeiro responsável pelo segredo que concebe poderes ao herói (e pivô do grande segredo do filme); a veterana Angela Basset como a rainha, mãe do herói; o britânico Martin Freeman (da trilogia “O Hobbit” e da série “Sherlock”); o indicado ao Oscar Daniel Kaluuya (por “Corra!”); e a notável Letitia Wright, como aquela que deve ser a mais divertida personagem do filme, a inventora e irmã do herói, Shuri –o filme de Coogler guarda desdobramentos radicais, surpreendentes e pertinentes em sua trama, na medida em que se beneficia do fato deste ótimo personagem não ser tão conhecido assim do grande público (o que permite ao realizador surpreender os expectadores com certos lances em sua trajetória) e entrega, na forma de um trabalho extraordinário, um dos mais perfeitos, politizados e válidos manifestos do cinema comercial em prol da diversidade: Um filme de super-herói com um elenco majoritariamente negro, e que ainda por cima é facilmente incluso entre os melhores que a Marvel já produziu

sábado, 23 de setembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2014

(Todo o sábado, agora, haverá uma retrospectiva das cerimônias do Oscar de anos pregressos em ordem regressiva. Vamos ver até onde vai...)
A Academia segue firme em sua constante campanha para premiar o cinema independente, esquecendo-se da qualidade intrínseca de outras fontes e de sua própria indústria. Assim sendo, à sombra da consagração de “12 Anos de Escravidão” ficaram os excelentes “Trapaça” e “OLobo de Wall Street”.
Felizmente, o grande trabalho de direção do ano, “Gravidade”, de Alfonso Cuarón, terminou a noite como campeão em número de prêmios (foram sete!), o quê é justo e certo em relação ao campeão de prêmios técnicos do ano passado, “As Aventuras de Pi”, bastante inferior.

MELHOR FILME

MELHOR DIREÇÃO
"Gravidade", Alfonso Cuarón

MELHOR ATRIZ
Cate Blanchett, "Blue Jasmine"

MELHOR ATOR
Matthew McConaughey, "Clube deCompras Dallas"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Lupita Nyong’o, "12 Anos de Escravidão"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jared Leto, "Clube de Compras Dallas"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Gravidade"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"20 Feet From Stardom"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"The Lady In The Number 6"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"AGrande Beleza" (Itália)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"Gravidade"

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"Gravidade"

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
"Clube de Compras Dallas"

MELHOR FIGURINO
"O Grande Gatsby"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"Gravidade"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"O Grande Gatsby"

MELHOR TRILHA SONORA
“Gravidade"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Ela"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"12 Anos de Escravidão"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Frozen-Uma Aventura Congelante"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Mr. Hublot"

MELHOR EDIÇÃO
"Gravidade"

MELHOR CURTA-METRAGEM

"Hellum”

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

12 Anos de Escravidão

EUA. Segunda metade do século XIX. Durante o período vigente da escravatura, Solomon Northup, um negro nascido livre, pai de família e músico de profissão, é sequestrado e vendido para um senhor de terras como escravo. Inicia-se aí uma jornada que se estenderá por doze longos anos, onde ele passará por diferentes senhores, viverá e testemunhará toda sorte de abusos vividos pelos escravos por parte dos brancos, até conseguir encontrar um meio de escapar, e finalmente voltar para o convívio com sua família. Vencedor do Oscar 2013 de Melhor Filme é um notável exemplo da insuspeita competência artística do diretor Steve McQueen (realizador dos notáveis “Hunger” e “Shame”), cujos plamos de câmera distinguem de início este de qualquer outro filme já feito sobre este tema até então, além de uma aula de dever cívico no retrato pertinente (e raro no cinema norte-americano) que ele pinça sobre as atrocidades do dia a dia de um escravo. 
Na época de seu lançamento foram muitas as análises que observaram (com bastante propriedade) o quão pouco eram feitos filmes que abordassem o período da escravidão em solo americano, e contrapartida à filmes, por exemplo, sobre os direitos civis, estes muito mais numerosos. 
A qualidade incontornável de “12 Anos de Escravidão”, portanto, era um dado que não permitia que este filme fosse ignorado, levando à questão mais perene que obrigou o público a analisar essa postura de omissão da sociedade americana. 
É o cinema em seu papel imprescindível e fundamental de moldar opiniões saudáveis em prol da igualdade e dignidade. E melhor ainda se ele vem abrilhantado com grandes atuações de Chiwetel Ejiofor e da jovem Lupita Nyong'o.