Mostrando postagens com marcador Angela Basset. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Angela Basset. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Tina - A Verdadeira História de Tina Turner


 Em 1993 o cinema norte-americano enfim prestou um tributo a uma de suas mais reluzentes cantoras – a cinebiografia da icônica Tina Turner foi lançada trazendo no papel principal (e em uma atuação vulcânica) a formidável Angela Bassett – ela foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz perdendo para Holly Hunter por “O Piano”.

Dirigido pelo inglês Brian Gibson (de “Ainda Muito Loucos” e “A Jurada”), “Tina” – ou “What’s Love Got To Do With It” – não escapa de fragilidades convencionais a um filme construído a partir de conceitos formulaicos e cuja trama, plena de sofrimento e superação, convida a uma nem sempre apropriada inclinação ao melodrama, mas há um elemento quase intrínseco que se sobressai a isso tudo em algum momento e faz desta produção uma experiência comovente.

Caso você não saiba do que o filme se trata – e com isso, pode nem ter vivido neste planeta (!?) – “Tina” conta a história de Anna Mae Bullock, neste ponto interpretada pela pequena e notável Rae’Ven Kelly, menina nascida no interior do Tennessee, abandonada pela mãe e que cresceu criada pela avó. Ela veio a conhecer a própria mãe e a irmã mais velha já quase adulta, quando a avó faleceu levando-a para junto do convívio das duas na cidade de St. Louis. Frequentando o bar no qual a irmã trabalhava como bartender, Anna toma conhecimento da festejada banda local, liderada pelo carismático Ike Turner (Laurence Fishburne, também ele indicado ao Oscar de Melhor Ator perdendo para Tom Hanks por “Philadelphia”).

Tradição do local, Ike selecionava garotas entre as frequentadoras para breve tentativa como cantora ali perante o público. Após algumas noites, Anna é escolhida e demonstra para todos a capacidade vocal que, quando criança, já chamava a atenção para si no coral da igreja.

Ike enxerga nela o talento que poderia vir finalmente a fazer sua banda de Blues, The Kings of Rythm, crescer e acontecer. Com sua lábia privilegiada, ele convence a mãe de Anna a deixar a filha fazer ininterruptas jornadas noite adentro ensaiando e gravando canções com Ike e seus músicos.

Não demora para que ela passe a participar de extenuantes turnês junto da banda, e também para que Ike faça dela sua esposa – ainda que ela ignore o fato de que, pela cama de Ike, passavam todas as mulheres que integravam a banda.

Após casada, ela adota o nome artístico de Tina Turner e, embora fique óbvio que o sucesso da banda e do próprio Ike vem exclusivamente da força e do talento de Tina nos palcos, isso não impede ela de vivenciar um verdadeiro inferno e sua vida pessoal: Ike se mostra um marido negligente e extremamente abusivo e violento, revelando seu temperamento em agressões físicas que se sucediam independente dos acontecimentos serem bons ou ruins. Em alguns momentos específicos, o filme deixa bem claro, Ike agredia Tina pelo simples recalque de perceber que era ela quem o público, os fãs e os produtores musicais queriam – e ele, posando de marido controlador e empresário autoritário, tão somente aproveitava-se da situação e do talento de sua esposa.

Todo esse calvário – que perpassa a década de 1960 e vai até o final da década de 1970 – só começa a terminar quando Tina se converte para o budismo, adquirindo discernimento o suficiente para, num dado momento, dar um basta em todo aquele abuso.

O filme mostra os primeiros passos de Tina Turner em sua carreira solo, sobretudo, o lançamento de seu primeiro álbum (mais tarde, agraciado com o Grammy Awards) onde ela trocou o Blues de suas primeiras (e sofridas) décadas como cantora pelo Rock’N Roll, estilo dentro do qual ela se tornou um ícone, quando já se adentrava os anos 1980.

“Tina” poderia tranquilamente ser uma obra dramática debruçada sobre um esforço compulsivo em denunciar a agressão doméstica e oferecer um quadro de vítima e abusador corriqueiro ao público, mas não é isso que acontece.

Amparado nos desempenhos estupendos de Angela Bassett e Laurence Fishburne, o diretor Gibson concebeu um trabalho que é muito mais que a soma de suas partes – a trajetória de quatro décadas da rainha do rhythm’n blues é uma obra feita com inteligência e sensibilidade, um filme feito de uma alegria genuína a refletir o brilho de sua maravilhosa personagem principal.

sábado, 21 de junho de 2025

Missão Impossível - Acerto Final


 Este oitavo longa-metragem da franquia cinematográfica estrelada e produzida por Tom Cruise foi alardeado como o último da série e, de fato, um elemento que se sobressai constantemente na narrativa é o senso de urgência e de encerramento que o diretor Christopher McQuarrie habilmente imprime, a todo o momento –ele faz questão de lembrar ao público que as aventuras de Ethan Hunt (o protagonista vivido por Cruise à cerca de três décadas) estão chegando ao seu fim. Com efeito, “Acerto Final” é também uma recapitulação e uma reafirmação de todo o legado deixado por essa série. Na trama sempre intrincada, concebida aqui pelo diretor McQuarrie em parceria com Erik Jendresen, encontramos referências à praticamente todos os filmes anteriores: O hoje clássico “Missão Impossível” original é lembrado na constante menção à memorável cena em que Ethan Hunt invade um escritório ultra-confidencial da CIA pendurado em cabos (inclusive, um personagem importante dessa sequência é recuperado aqui), e até mesmo no reaproveitamento de Jim Phelps (vivido por Jon Voight) relembrado por meio de uma profunda ligação com outro personagem. O misterioso elemento Pé-de-Coelho, jamais devidamente explicado em “Missão Impossível 3” ganha finalmente uma razão de ser. Tudo isso e mais diversas citações, alusões e recordações de personagens mais ou menos importantes que participaram de todos os filmes.

“Acerto Final” começa, como se esperava, pegando o gancho do filme anterior, “Acerto de Contas”, no qual Ethan Hunt e sua equipe precisavam encontrar uma Chave parte de um aparato que pode neutralizar o perigo representado por uma poderosa inteligência artificial, A Entidade. Agora, a situação se acirrou ainda mais: Valendo-se de um controle tentacular e insidioso a nível mundial, a Entidade criou conflitos ao redor de todo o mundo, mergulhando a civilização em caos. Para piorar, seu sistema começou um processo gradual onde está assumindo o controle de todo o armamento nuclear das potências militares espalhadas pelo mundo. A previsão é que a Entidade consiga acessar todas as ogivas atômicas em quatro dias –e quando o fizer, ela fará com que os países ataquem uns aos outros, provocando consequentemente a extinção da raça humana.

Enquanto esse impasse só se agrava, Ethan Hunt se encontra foragido: Tendo obtido a Chave à duras penas no filme anterior, Ethan precisou sacrificar colegas (como Ilsa, vivida por Rebecca Fergunson) e se voltar contra seus superiores da Impossible Mission Force (personafinicados no personagem de Henry Czerny, também ele oriundo do primeiro “Missão Impossível”). E agora recebe um pedido diretamente da presidente dos EUA, Erika Sloane (Angela Basset, sempre magnânima), outrora a diretora da CIA em “Efeito Fallout”

A missão de Ethan, como sempre, acaba sendo espinhosa: Ele tem o prazo desses quatro dias para convencer oficiais da marinha americana à levá-lo até os recôncavos mais longínquos da calota polar no Ártico, onde um submarino americano encalhou anos atrás (isso foi visto no prólogo de “Acerto de Contas”), lá a Entidade tratou de selar um dispositivo capaz de eliminá-la. Sem garantia nenhuma de que tal empreitada lhe oferece a chance de voltar com vida (e o roteiro astuto de McQuarrie não se cansa também de plantar sucessivos empecilhos para seu sucesso), Ethan ainda precisará rastrear seu nêmesis pessoal, Gabriel (Esai Morales) de posse de outro dispositivo que, combinado com o McGuffin obtido no submarino naufragado será capaz de pôr fim ao perigo da Entidade –no entanto, Gabriel deseja tirar de Ethan esse dispositivo a fim tentar, em vão, controlar a própria Entidade.

Para tentar concluir esse objetivo, Ethan conta com um grupo forjado meio ao acaso que inclui seu amigo Benji (Simon Pegg), a assassina francesa Paris (Pom Klementieff, de “Guardiões da Galáxia Vol. 3”), o agente Degas (Greg Tarzan Davis), e a habilidosa prestidigitadora Grace (Hayley Atwell, de “Capitão América-O Primeiro Vingador”).

Em sua quarta direção dentro da série “Missão Impossível” –que a partir de “Nação Secreta” ele praticamente ajudou a consolidar como a brilhante cinessérie que é –Christopher McQuarrie realiza um trabalho formidável dentro de um contexto que, à essas alturas, ele conhece como a palma da mão: Essa compreensão instintiva da narrativa, dos meandros da trama e dos maneirismos dos personagens resulta numa obra grandiosa, bem acabada, feita com profissionalismo e, vez ou outra, capaz até de emocionar.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Um Tira No Jardim de Infância


 No documentário da Netflix, “Arnold”, sobre sua vida e carreira, Arnold Schwarzenegger conta que depois do surpreendente desempenho de público e crítica de “Irmãos Gêmeos”, ele e o diretor Ivan Reitman estavam ávidos por retomar a parceria e explorar novas possibilidades da então recém-descoberta veia cômica do astro. E um roteiro apropriado para isso até que não tardou a aparecer: Entre “Irmãos Gêmeos” e este “Um Tira No Jardim de Infância” (escrito por Murray Salem, Herschel Weingrod e Timothy Harris) passaram-se módicos dois anos.

Grandalhão, truculento e absolutamente adequado a sua profissão de policial em Nova York, John Kimble (Schwarzenegger) persegue a anos o traficante de drogas Cullen Crip (Richard Tyson, de “Te Pego Lá Fora” e “Falcão Negro em Perigo”). A oportunidade finalmente surge quando Crip é visto assassinando um informante que teria lhe passado a localização de seu filho e sua ex-esposa. Com Crisp atrás das grades aguardando julgamento, Kimble e a policial O’Hara (a divertida Pamela Reed, de “Os Eleitos-Onde O FuturoComeça” e “Melvin & Howard”) precisam rastrear a ex-esposa dele para que possa testemunhar no tribunal e condená-lo de uma vez por todas.

A mulher –que, ao que tudo indica, mudou de identidade para fugir do bandido, talvez, até com algum dinheiro dele –está em algum lugar da cidade de Astoria, estado de Oregon, junto com seu filho pequeno. A fim de descobrir quem são, o plano é Kimble acompanhar O’Hara que irá se disfarçar de professora (sua antiga ocupação) e encontrar o filho de Crisp entre as crianças pequenas da Astoria Elementary School. No entanto, durante a viagem, O’Hara fica doente e indisposta, obrigando Kimble, ao chegarem, a tomar o seu lugar. O grandalhão agora terá de se passar como professor de jardim de infância –e essa ideia simples responde por todo o apelo em cima do qual o filme foi construído.

Entretanto, como toca a muitas obras dos anos 1980 (ainda que este filme seja de 1990), a construção resulta impecável: Munido de seu inabalável carisma, Schwarzenegger realmente diverte estabelecendo um contraponto contrastante e hilariante com a fauna de baixinhos com a qual tem de lidar –entre essas crianças, presenças ainda bem pequenas do filho do diretor, Jason Reitman (que também viria a tornar-se diretor, em filmes como “Juno”) e da bela Odette Yustman (de “Cloverfield-Monstro” e “Alma Perdida”). E o diretor Reitman, se não chega a ostentar nenhuma genialidade, compreende perfeitamente isso: Ao explorar a dinâmica que surge entre o gigantesco protagonista e seus pequenos coadjuvantes (inicialmente conturbada, mas depois pouco a pouco harmoniosa e, ao fim, carregada de empatia), assim como a circunstância da farsa em si (a qual garante interesse do início ao fim para o expectador que fica intrigado como tudo se resolverá), ele constrói um filme delicioso de se acompanhar.

Embora estranhamente arrematado, no início e no desfecho, por dois tiroteios que impõem uma atmosfera de tensão e sanguinolência inadequada para o entretenimento familiar que em geral ele parece conceber, o filme de Reitman é bastante simpático, engraçado e leve, entregando até mesmo momentos em que Arnold protagoniza situações românticas, junto da bela e sempre competente Penelope Ann Miller; aliás, todo o elenco feminino –complementado com as participações de Linda Hunt (ganhadora do Oscar 1984 de Melhor Atriz Coadjuvante por “O Ano Que Vivemos Em Perigo”) como a diretora da escola e de Carroll Baker como a mãe igualmente maligna e criminosa do vilão –é brilhante, exigindo uma presença um pouco mais sofisticada da parte do pouco desafiado Arnold Schwarzenegger, normalmente tão a vontade em obras de ação, mas aqui, provando com certa inteligência que tem alguma versatilidade para experimentar alguns gêneros mais distintos.

quarta-feira, 20 de março de 2024

Donzela


 Certamente, uma das maiores estrelas da nova geração de atrizes de Hollywood, a jovem Milly Bobby Brown praticamente cresceu em frente às câmeras desde sua auspiciosa revelação como a personagem Eleven na série da Netflix “Stranger Things”. De lá pra cá, além das quatro temporadas da série, ela fez, entre outros trabalhos, o infanto-juvenil “Enola Holmes” e sua continuação, também eles, produções da Netflix. Agora, ela torna a reaparecer numa produção da Netflix, este “Donzela” –ou, no original, “Damzel” –que procura claramente se afastar do tom infantil de seus trabalhos anteriores mirando num público mais adulto e amplo. Vale lembrar que, além de protagonista, Milly Bobby Brown atua também como produtora.

“Damzel” é dirigido pelo espanhol Juan Carlos Fresnadillo (de “Intacto” e “Extermínio 2”), mas, sequer há necessidade para que o expectador procure maiores similaridades de estilo: A direção de Fresnadillo é tão apagada, tão submetida a decisões de comitês que poderia bem ser qualquer um sentado na cadeira de direção; nenhuma personalidade autoral aparece nos cento e dez minutos de filme.

Não significa que não hajam intenções bastante pontuais a orientar o projeto –como fica perfeitamente claro, “Damzel” é uma releitura da fórmula ancestral dos contos de fantasia onde uma donzela em perigo é invariavelmente salva de um dragão por um príncipe galante. No roteiro de “Damzel” (escrito por Dan Mazeau) todas essas figuras arquetípicas (a donzela, o dragão e o príncipe, além de outras que vão aparecendo) são colocadas em questão. A começar, obviamente, pela donzela: Jovem plebéia, ainda que de uma família suficientemente abastada de seu vilarejo, a destemida Elodie (a própria Milly Bobby Brown) já deixa evidente, na primeira cena, que não planeja acomodar-se no papel de mocinha em perigo. Não que sua trama deixe de conduzi-la por tais caminhos. Incluída por seu pai (Ray Winstone, de “Noé”, “A Lenda de Beowulf” e “A Proposta”) num casamento arranjado, Elodie vai com a família –ela, seu pai, sua madrasta (Angela Basset) que, olhe só, não é malvada (!) e sua irmã mais nova (Brooke Carter) –rumo ao reino que lhe comprou o dote, livrando com isso todo o seu vilarejo da fome.

Inicialmente, tudo parece correr como o esperado. A Família Real é altiva e melindrosa, mas minimamente acolhedora, a rainha (Robin Wright) tem a dubiedade dos aristocratas; e o príncipe (Nick Robinson, de “Jurassic World”), a futilidade dos rapazes mimados da realeza. Ainda assim, Elodie é recebida bem, isso pelo menos, até o casamento se consumar. A partir daí, a verdade em torno da tradição casamenteira da Família Real é revelada: De tempos em tempos, com periodicidade alarmante, o rei e a rainha negociam a mão de uma jovem donzela de algum vilarejo pobre e, após realizar um ritual dentro da caverna (a mão da garota é cortada para que seu sangue se misture com o do príncipe), ela então é jogada lá dentro a fim de saciar o dragão que lá vive.

Elodie não foi a primeira (as ossadas e até mesmo indícios deixados pelas vítimas anteriores do labirinto de cavernas denunciam isso) e pode também não ser a última (pois, caso não baste para saciar a fome do dragão, a próxima pode vir a ser sua irmã!).

Assim, no enredo elaborado com certa descontração pela narrativa, não há ninguém para salvar Elodie do perigo, a não ser ela própria e sua capacidade de perseverança e resiliência. E esses estão longe de ser os únicos elementos em pauta nos dias atuais que aparecem empregados com imensa insistência no desenrolar do filme.

Há certamente a mensagem de empoderamento feminino a definir a trajetória da personagem principal de ponta a ponta (e com isso, perde qualquer elemento de galanteio ou de heroísmo os personagens do príncipe, este submisso à mãe, e do pai, um homem amargo, indeciso e relutante), além da questão da sororidade (a confiança e a cooperação entre mulheres) levando a personagem da madrasta, normalmente associada ao papel de vilã, a ganhar um retrato simpático e amoroso, e até mesmo o próprio dragão (que é fêmea!) a adquirir uma nova roupagem trágica, onde é pivô de um plano cruel –o dragão, por sinal, é dublado pela atriz Shohreh Aghdashloo, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “A Casa de Areia e Névoa”.

Violento e sombrio para os padrões de muitas produções da Netflix (sobretudo, aquelas estreladas por Milly Bobby Brown), “Donzela” é uma realização que, sem atingir notas muito hiperlativas, consegue satisfazer algumas expectativas ao seu respeito: A Netflix está certamente satisfeita pelo bom desempenho que o filme obteve de audiência desde sua estréia; a atriz Milly Bobby Brown conseguiu com isso provar que pode levar uma produção nas costas e ainda foi capaz de desvencilhar-se do gênero mais pueril que ameaçava engessar sua carreira; e o público tem uma obra relativamente apetecível para conferir (em especial, os fãs de Milly) com todo o engajamento feminista de muitos trabalhos atuais.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Os Indicados Ao Oscar 2023


 E foram anunciados então os indicados ao prêmio máximo do cinema (será que ainda é?). A premiação deste ano aparentemente parece tentar enaltecer as produções que trouxeram o público e as grandes bilheterias de volta às salas de cinema após o marasmo financeiro que foram os dois anos de pandemia. O que explica a presença de praticamente todos os grandes blockbusters do ano em muitas das categorias –com “The Batman” e “Pantera Negra-Wakanda Forever” recebendo muitas nomeações técnicas. Sem mais delongas, vamos à lista dos indicados:

FILME

“All Quiet on the Western Front”

“Avatar-The Way of Water”

“The Banshees of Inisherin”

“Elvis”

“Everything Everywhere All at Once”

“The Fabelmans”

“Tár”

“Top Gun-Maverick”

“Triangle of Sadness”

“Women Talking”

DIREÇÃO

Martin McDonagh por “The Banshees of Inisherin”

Daniel Kwan, Daniel Scheinert por “Everything Everywhere All at Once”

Steven Spielberg por “The Fabelmans”

Todd Field por “Tár”

Ruben Ostlund por “Triangle of Sadness”

A ausência de Spielberg e seu “The Fabelmans” nas indicações do SAG (o mais confiável dentre todos os termômetros do Oscar) lançou uma ligeira incerteza entre os favoritos, deixando margem para o crescimento vertiginoso do consagrado “The Banshees of Inisherin” e, sobretudo, do já icônico “Everything Everywhere All at Once” (o líder em indicações, com 11). Mas, essas considerações ficaram em segundo plano diante da inclusão de “Top Gun-Maverick” na categoria de Melhor Filme, seguindo uma tendência muito semelhante à de “Mad Max-Estrada da Fúria” em 2016: A continuação tardia de um clássico dos anos 1980, surpreendendo público e crítica com um nível assombroso e imprevisto de qualidade. Esperem por sua menção em várias categorias técnicas.

ATRIZ

Cate Blanchett por “Tár”

Ana de Armas por “Blonde”

Andrea Risenborough por "To Leslie"

Michelle Williams por “The Fabelmans”

Michelle Yeoh por “Everything Everywhere All at Once”

Um dia após “Blonde” receber uma leva considerável de indicações ao Framboesa de Ouro (os Piores do Ano), a Academia de Artes Cinematográficas decidiu honrar aquela que é, de longe, a maior qualidade do filme; sua atriz principal, a fabulosa Ana de Armas. Contudo, o nome a ser batido nesta categoria (sempre uma das mais disputadas da cerimônia) é Cate Blanchett que surge fortíssima e bem cotada por seu tour-de-force em “Tár” –há quem diga que, por conta disso, os prêmios ao filme podem se restringir apenas a esse. Ainda assim, pode haver alguma esperança para os belíssimos trabalhos das duas Michelles: a Williams, vivendo nada menos que a mãe de Steven Spielberg em “Fabelmans” e, em especial, a Yeoh, que encantou meio mundo, fazendo rir, chorar e vibrar em “Everything Everywhere All at Once”.

ATOR

Austin Butler por “Elvis”

Colin Farrell por “The Banshees of Inisherin”

Brendan Fraser por “The Whale”

Paul Mescal por “Aftersun”

Bill Nighy por “Living”

Desde antes de seu emocionante discurso quando ganhou o prêmio de Melhor Ator no Critics Choice Awards, Brendan Fraser já era certo nesta categoria, assim como seus mais fortes concorrentes, Colin Farrell e o jovem Austin Butler (arrebatando público e crítica no desafiador papel de Elvis Presley), todos eles, experimentando a primeira indicação ao Oscar de suas carreiras. Meu palpite é que a briga fique mesmo entre Brendan Fraser e Austin Butler.

EFEITOS VISUAIS

“All Quiet on the Western Front”

“Avatar: The Way of Water”

“The Batman”

“Black Panther: Wakanda Forever”

“Top Gun: Maverick”

FOTOGRAFIA

"All Quiet on the Western Front”James Friend

“Bardo-False Chronicle of a Handful of Truths” Darius Khondji

“Elvis” Mandy Walker

“Empire of Light” Roger Deakins

“Tár” Florian Hoffmeister

MONTAGEM

“The Banshees of Inisherin” Mikkel E.G. Nielsen

“Elvis” Jonathan Redmond, Matt Villa

“Everything Everywhere All at Once” Paul Rogers

“Tár” Monika Willi

“Top Gun-Maverick” Eddie Hamilton

DIREÇÃO DE ARTE

“All Quiet on the Western Front” Christian M. Goldbeck

"Avatar-The Way of Water” Dylan Cole, Ben Procter

"Babylon” Florencia Martin

"Elvis” Catherine Martin, Karen Murphy

"The Fabelmans” Rick Carter

MAQUIAGEM E CABELO

“All Quiet on the Western Front”

“The Batman”

“Black Panther-Wakanda Forever”

“Elvis”

“The Whale”

As premiações técnicas, este ano, tendem a ser mais democráticas –e não concentrarem-se num único ganhador, como ocorre em muitos outros anos –até para que a Academia possa honrar e consagrar os diversos campeões de bilheteria de 2022. Dito isso, os Efeitos Visuais provavelmente ficarão com “Avatar”; Fotografia e Montagem devem ficar com “Everything Everywhere All at Once” (mas, eu não me surpreenderia se “Top Gun-Maverick” levasse esse último); Direção de Arte parece já estar nas mãos da equipe de “Babylon” (a menos que “All Quiet on the Western Front” prove o contrário); e Maquiagem e Cabelo, embora eu aprecie também o trabalho realizado em “The Whale”, deve ficar mesmo com “The Batman”.

ANIMAÇÃO

“Guillermo del Toro’s Pinocchio”

“Marcel the Shell With Shoes On”

“Puss in Boots-The Last Wish” (DreamWorks Animation)

“Turning Red”

“The Sea Beast”

FILME INTERNACIONAL

“Argentina, 1985” (Argentina”

“Close” (Bélgica)

“All Quiet on the Western Front” (Alemanha)

“The Quiet Girl” (Irlanda)

“EO” (Polônia)

DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM

“The Elephant Whisperers”

“Haulout”

“How Do You Measure a Year?”

“The Martha Mitchell Effect”

“Stranger at the Gate”

DOCUMENTÁRIO

“All That Breathes”

“All the Beauty and the Bloodshed”

“Fire of Love”

“A House Made of Splinters”

“Navalny”

ATOR COADJUVANTE

Brendan Gleeson por “The Banshees of Inisherin”

Brian Tyree Henry por “Causeway”

Judd Hirsch por “The Fabelmans”

Barry Keoghan por “The Banshees of Inisherin”

Ke Huy Quan por “Everything Everywhere All at Once”

Não deixa de ser uma surpresa a presença de Brian Tyree Henry (de “Eternos”) entre os indicados a Coadjuvante pelo drama de guerra, “Causeway” –a atriz principal, Jennifer Lawrence, também estava cotada para concorrer na época do lançamento do filme, mas, com o tempo, perdeu consideravelmente a força. Não há dúvidas de que o grande favorito (e, de repente, o grande merecedor também) seja o extremamente carismático Ke Huy Quan que tem como grandes competidores o talento nato, exigindo reconhecimento, do jovem Barry Keoghan (que, veja só, também estava no elenco de “Eternos”) e as fortes presenças dos veteranos Brendan Gleeson e Judd Hirsch.

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

“The Boy, The Mole, The Fox and The Horse”

“The Flying Sailor”

“Ice Merchants”

“My Year of Dicks”

“An Ostrich Told Me the World Is Fake and I Think I Believe It”

CURTA-METRAGEM LIVE ACTION

“An Irish Goodbye”

“Ivalu”

“Le Pupille”

“Night Ride”

“The Red Suitcase”

ROTEIRO ORIGINAL

“The Banshees of Inisherin” de Martin McDonagh

“Everything Everywhere All at Once” de Daniel Kwan, Daniel Scheinert

“The Fabelmans” de Tony Kushner, Steven Spielberg

“Tár” de Todd Field

“Triangle of Sadness” de Ruben Östlund

ROTEIRO ADAPTADO

“All Quiet on the Western Front” de Edward Berger, Lesley Paterson, Ian Stokell

“Glass Onion-A Knives Out Mystery” de Rian Johnson

“Living” de Kazuo Ishiguro

“Top Gun-Maverick” de Christopher McQuarrie, Eric Warren Singer, Ehren Kruger

“Women Talking” de Sarah Polley

O fato de “Top Gun-Maverick” concorrer ao prêmio de Roteiro já é, em si, uma grata surpresa –e ainda por cima Roteiro Adaptado (segundo as normas da Academia, o fato de ser uma continuação o habilita para essa categoria) –numa disputa que tem como favorito o engajado “Women Talking”, além da excelência sempre premiável de Rian Johnson em “Glass Onion”. Já, entre os Roteiros Originais, a briga será feia: O dramaturgo Tony Kushner surge com ligeira vantagem na semi-biografia do próprio Spielberg, mas pode ficar para trás a medida que o magnífico trabalho dos ‘Daniels’, Kwan e Scheinert –“Everything Everywhere All at Once” –adquira mais favoritismo, e o mesmo vale para “The Banshees of Inisherin” (os trabalhos de Martin McDonagh têm no roteiro suas maiores forças).

CANÇÃO

“Lift Me Up” de “Black Panther-Wakanda Forever”

“This Is A Life” de “Everything Everywhere All at Once”

“Naatu Naatu” de “RRR”

“Applause” de “Tell It like a Woman”

“Hold My Hand” de “Top Gun-Maverick”

TRILHA SONORA

“All Quiet on the Western Front”

“Babylon”

“The Banshees of Inisherin”

“Everything Everywhere All at Once”

“The Fabelmans”

FIGURINOS

“Babylon” Mary Zophres

“Black Panther-Wakanda Forever” Ruth E. Carter

“Elvis” Catherine Martin

“Everything Everywhere All at Once” Shirley Kurata

“Mrs. Harris Goes to Paris” Jenny Beavan

Parece ter tido larga aprovação a inclusão do descontraído épico indiano “RRR” na categoria de Melhor Canção –bem como o premiação deste no Globo de Ouro –o que pode roubar de “Top Gun-Maverick” uma antecipada vantagem na busca por essa estatueta. Seja como for, o prêmio de Trilha Sonora deve ficar entre “Fabelmans” –John Williams já nem deve saber mais quantos Oscars já tem na prateleira! –e “Babylon”, o favorito na categoria de Figurinos, prêmio que ele disputa diretamente com “Wakanda Foverer”, cuja figurinista, Ruth E. Carter, já levou um Oscar pelo primeiro “Pantera Negra”

SOM

“All Quiet on the Western Front”

“Avatar-The Way of Water”

“The Batman”

“Elvis”

“Top Gun-Maverick”

ATRIZ COADJUVANTE

Angela Bassett por “Black Panther-Wakanda Forever”

Hong Chau por “The Whale”

Kerry Condon por “The Banshees of Inisherin”

Jamie Lee Curtis por “Everything Everywhere All at Once”

Stephanie Hsu por “Everything Everywhere All at Once”

É interessante que a mais cotada para ganhar seja a magnífica veterana Angela Bassett, justamente por seu papel num filme da Marvel Studios –ela que já amedalhou o Globo de Ouro. Entretanto, há que se prestar atenção nos trabalhos de Hong Chau (de “Pequena Grande Vida”) em “The Whale” e na forte dobradinha das coadjuvantes de “Everything Everywhere All at Once”, Stephanie Hsu e Jamie Lee Curtis, em especial, essa última.

E é isso. Os vencedores nós descobriremos no domingo, dia 12 de março de 2023, quando a entrega de todos esses prêmios for realizada.

sábado, 12 de novembro de 2022

Pantera Negra - Wakanda Para Sempre


 O processo de dar continuidade a filmes de sucesso é uma fina arte que se exerce ao sabor de muitos acontecimentos da vida real. Quem não lembra do falecimento de Heath Ledger, um ano antes dele tomar o planeta de assalto com sua impecável personificação de Coringa em “O Cavaleiro das Trevas”? Certamente, o capítulo final daquela trilogia de Christopher Nolan viu-se comprometido, em seus planos originais, pela morte do insubstituível intérprete do antagonista principal. É, por assim dizer, com algo um pouco parecido que se depararam os realizadores deste “Wakanda Para Sempre”: Tendo o diretor Ryan Coogler levado seu “Pantera Negra” a tornar-se o primeiro filme de super-heróis a concorrer ao Oscar de Melhor Filme, uma fatalidade mudou os planos gloriosos que ele e a Marvel Studios certamente tinham para a continuação, a morte do protagonista Chadwick Boseman, em 28 de agosto de 2020, vitimado por um câncer.

A decisão da Marvel, guiada por um sentimento de luto que dominou também os fãs pelo mundo todo, foi também matar o personagem que ele interpretava, T’Challa, fazendo com que o legado do herói se encerrasse junto com o grande ator que o interpretava. Embora exalasse respeito, a decisão não deixou de impactar alguns fãs que se opuseram a essa escolha.

Contudo, todos –os que compactuaram com a manobra e os que dela discordaram –tiveram que conferir em “Pantera Negra-Wakanda Para Sempre”, os efeitos dessa decisão e as consequências dela para os coadjuvantes e para todo o Universo Marvel daqui para frente.

Imaginar o que teria sido o filme se Chadwick Boseman tivesse permanecido vivo é um gesto tão doloroso quanto irrelevante, o que importa é a obra plena de emoção e comoção que assim chegou aos cinemas.

É Ryan Coogler, Kevin Feigi e todo o elenco e equipe técnica unidos em preparar a melhor despedida possível para um amigo. É também o filme mais emocionante da Fase 4 da Marvel.

Quando “Wakanda Para Sempre” começa, somos apresentados a uma cena construída com vibração elíptica, onde de pronto, o personagem de T’Challa acaba partindo, por razões que o filme escolhe deixar em aberto. Segue-se um momento fúnebre –já vislumbrado nos trailers da produção –e a energia de luto e de despedida que se levanta a partir dali permeia todo o filme, sendo ocasionalmente atenuada pela urgência da trama que é contada.

Em suas facetas mais práticas, “Wakanda Para Sempre” lida também com a circunstância política acarretada pela decisão tomada ao final do primeiro “Pantera Negra”, no qual a nação africana e ultra-tecnológica de Wakanda revela todos os seus vastos recursos ao mundo. As Nações Unidas, agora, têm um ávido interesse no precioso metal que permite todo esse avanço à Wakanda, a raridade absoluta conhecida como vibranium.

Embora fosse presumido que o vibranium era de exclusividade de Wakanda, algumas pesquisas capitaneadas pelos EUA descobrem que há, sim, vibranium em outra parte do mundo. Mais precisamente nas profundezas do Oceano Atlântico. Entretanto, também lá, o precioso metal tem seus donos: O reino aquático de Talokan, oriundo de uma ancestral cultura asteca, e governado com protecionismo implacável pelo poderoso mutante Namor (Tenoch Huerta, fabuloso no personagem).

Estrategista feroz, Namor procura a rainha Ramonda (Angela Basset, maravilhosa) e Shuri (Letitia Wright), respectivamente, a mãe e a irmã, ainda enlutadas de T’Challa, para pedir-lhes um gesto de boa vontade, da parte de Wakanda, para Talokan: Encontrar e entregar-lhe o gênio responsável pela invenção da prodigiosa máquina que possibilitou aos americanos detectar o vibranium no fundo do mar. No entanto, a decisão não se revela fácil: O gênio em questão é a adolescente Riri Williams (Dominique Thorne, uma excelente aquisição ao Universo Marvel) cuja empatia e inteligência espelha muito as de Tony Stark –o super-herói inaugural desse mesmo universo.

Será esse e outros impasses que colocarão as forças de Talokan em rota de colisão com as de Wakanda, o que faz do filme formidável perpetrado por Ryan Coogler, um épico de guerra, adornado por todo o viés político que as obras mais profundas e circunspectas dessa orientação costumam ter.

É claro que “Wakanda Para Sempre” carrega em si o fardo de ser inúmeras outras coisas também: Um trabalho que resgate aos olhos do público a excelência da Marvel Studios, dispersa em projetos, televisivos e cinematográficos, que, desde o descomunal “Vingadores-Ultimato” não chegaram a empolgar como deveriam; uma profusão habitual de efeitos visuais e ação constante à qual a Marvel já acostumou seus expectadores; uma introdução, fervilhante em representatividade de Namor e toda a mitologia (diferenciada das HQs) que o cerca, na qual o reino submarino de Talokan (diferente da Atlântida vista em “Aquaman”, por exemplo) ganha caracterizações que remetem à cultura mezomericana, numa manobra radical mas, bastante interessante da parte dos realizadores; uma passagem de bastão, do falecido T’Challa para Shuri (a protagonista de fato deste filme); uma cuidadosa preparação para muitos conceitos que haverão de definir o Universo Marvel daqui para frente –com a adição, não só de Namor (aqui contextualizado como um antagonista, mas, perfeitamente capaz de ser um herói extremamente complexo e fascinante em projetos vindouros), como também de Riri Williams (herdeira de Stark e do “Homem de Ferro” cuja série própria, “Ironheart”, já está prevista no Disney Plus) e até da Condessa Valentina Allegra de La Fontaine (a ótima Julia Louis-Dreyfuss), personagem que deve ganhar tremenda importância num futuro próximo –e, acima de tudo, uma homenagem ao legado deixado por Chadwick Boseman.

Na sua tentativa de abraçar tantos objetivos, “Wakanda Para Sempre” naturalmente cede à pressão –até porque não resulta numa obra de cinema tão perfeita quanto a produção anterior –contudo, ao voltar-se, no seu desfecho, aos seus fãs, e ao investimento emocional e incontornável da dor pela partida de seu astro na vida real, o filme entrega um sentimento muito genuíno ao público, elevando sua experiência sensorial para além da adrenalina palpitante de suas cenas de ação.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Lanterna Verde


 O cinema comercial é um mar melindroso de se navegar, mais ainda se o seu objetivo vai além do sucesso propriamente dito de um único filme, mas almeja plantar uma semente que leve a toda uma franquia. O público em geral tem um paladar que pede por fórmulas confortáveis, mas que não se prendam à repetição mecânica, sendo temperadas com alguma ousadia e contravenção para se fazer minimamente surpreendente em algum momento.

A Marvel Studios fez escola, e sucesso estrondoso, sabendo administrar esse cardápio.

Muitos foram os que tentaram e não conseguiram. Nesse sentido, uma das primeiras tentativas da DC Comics –que, pelo seu catálogo vasto de conhecidos super-heróis, era a aposta mais óbvia à seguir os passos da Marvel –foi esta produção de 2011 que, pelo perfil dos envolvidos (era dirigida por Martin Campbell, que quatro anos antes entregou o fenomenal “Cassino Royale”; e estrelada por Ryan Reynolds, então um astro em potencial), pelo apelo de seu personagem (uma criação uma bocado original que, nos quadrinhos, ombreia em relevância tanto com Superman quanto com Batman), e pelos indícios inicialmente demonstrados pelo próprio filme (cujas primeiras imagens e trailers apontavam para uma realização visualmente caprichada, com ação e personalidade), prometia acender o estopim que poderia colocar os heróis da DC no cinema.

Se tudo parecia no lugar –e, de certa maneira, realmente estava –“Lanterna Verde” tornou-se uma prova de que, se há um elemento que garante a qualidade (ou falta dela) em um projeto desde sua gênese, este é o roteiro: Escrito pelo quinteto Greg Berlanti, Marc Guggenheim, John Broome, Michael Greenberg e Michael Goldenberg, “Lanterna Verde” desperdiça as facetas épicas embutidas na origem do herói (da qual este filme se incumbe sem maiores entusiasmos) para tentar fazer uma comédia inapropriada na maior parte do tempo –e isso acaba contaminando o bom diretor Campbell que, se consegue imprimir sua experiência na execução de cenas flúidas e bem filmadas, equivoca-se ao optar por um estilo diferenciado de edição onde sequências distintas, como lembranças, se sobrepõem à outras cenas sem um propósito narrativo que as entrelaçasse e sem uma emoção que as fizesse válidas.

Em meio à todo esse equívoco, Ryan Reynolds interpreta o piloto Hal Jordan, cujo destino, ele mal sabe, é tornar-se um super-herói: Nos confins da galáxia, a criatura Paralax, um mal constituído de medo (ou, ao menos, essa é a pífia definição que ele recebe...) inicia o seu trajeto para consumir mundos. A Tropa dos Lanternas Verdes, guardiões de vários setores da galáxia, é enviada para detê-lo, mas Abin Sur (Temuera Morrison, de “Aquaman”), o lanterna verde do setor onde está a Terra, é atingido e cai, moribundo, em nosso planeta. Seguindo o protocolo, ele envia seu poderoso anel mágico para procurar uma alma corajosa e benevolente, digna de substituí-lo, e eis que ele escolhe Hal Jordan.

Dotados desses novos poderes –que, como é de se supor, vai gradativamente aprendendo a usar –Jordan entra em contato com os alienígenas da Tropa de Lanternas Verdes –entre os quais Kilowog (voz de Michael Clarke Duncan), Tomar-Re (voz de Geoffrey Rush) e Sinestro (Mark Strong, num personagem que seria o possível vilão da continuação) –passa a treinar para seu iminente confronto com Paralax –no qual, é claro, ele desempenhará papel crucial! –e descobre-se o herói que jamais imaginou ser.

Em algum momento dessa jornada, existem os desnecessários acréscimos de um núcleo humano, a dar conta de uma trama sucedida aqui na Terra, e que mostra o vilanesco Hector Hammond (Peter Sarsgaard) sendo contaminado pela matéria que gerou Paralax e virando, ele próprio, o monstrengo da vez, ameaçando com isso a vida de seu pai, o Senador Hammond (Tim Robbins) e da agente do governo Amanda Waller (Angela Bassett, num papel interpretado depois por Viola Davis em “Esquadrão Suicida”); há também a introdução do inevitável interesse romântico do herói, nas curvas sensacionais de Carol Ferris (a belíssima Blake Lively, que depois casou-se com Reynolds na vida real).

Não faltam boas intenções à “Lanterna Verde”, e nem tampouco possibilidades, sejam elas artísticas ou técnicas, que o tivessem transformado num grande filme, todavia, a ineficiência atroz de seu roteiro e sua sucessão quase inacreditável de lapsos (inclusive, alguns grotescos de inverossimilhança e continuidade) o sabotam de tal maneira que, chegando perto do fim, a sacada derradeira e patética com a qual o bem vence o mal já nem espanta mais o público, insensibilizado por um filme tão erroneamente construído.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Inocente Mordida

Existe uma certa contradição na fusão entre o ritmo ágil e divertido e o conceito incontornavelmente macabro de filme de terror presente na premissa do oitentista “Um Lobisomem Americano Em Londres” –ainda assim, tal contradição não se reverteu, no resultado final, em prejuízo para o filme: Tão memorável “Lobisomem Americano” é, e tão bem executadas foram suas facetas técnicas e artísticas que o filme logo tornou-se uma referência inconteste do gênero; além de conquistar um merecido Oscar de Melhor Maquiagem.
Exatos onze anos depois, em 1992, o mesmo diretor John Landis logrou uma realização parecida, desta vez, adentrando o terreno dos filmes de vampiros.
E o resultado de “Inocente Mordida”, embora não guarde a mesma ressonância para com a cultura pop, é igualmente inspirado. Landis prova não ser um diretor restringido aos aspectos banais da comédia ao iniciar seu filme com um travelling de câmera magnífico sobre a cidade de Nova York, e contrapô-lo, no instante seguinte, ao intimismo de um quarto de hotel ocupado pela nudez de sua deliciosa protagonista, Marie, vivida pela pra lá de charmosa Anne Parillaud (a estrela francesa de “Nikita”).
Narrando o filme em off, e por conta disso, expressando com freqüência seus pensamentos, descobrimos logo ali que Marie é uma vampira que tem lá os seus escrúpulos: Em sua rotina noturna de sair à procura de sangue, ela prioriza as pessoas más, aquelas que relativamente merecem morrer.
Certamente, em sua mira está, portanto, o sanguinário gangster Sal Macelli (Robert Loggia, esbaldando-se no papel) que tem ocupado as manchetes de jornais com seu comportamento criminoso e prepotente.
Infiltrado na quadrilha de Macelli está o policial Joe Gennaro (Anthony LaPlagia, de “Annabelle 2”) cuja identidade está por um triz de ser descoberta pelos mafiosos –ou seja, ele tem pouco tempo para incriminar e prender Macelli. Todavia, seus planos são frustrados indiretamente pela própria Marie: Ao atacar, primeiramente, um dos comparsas de Macelli (Chazz Palminteri), Marie acaba revelando Gennaro que é exposto como tira na cena do crime e vira inimigo nº 1 da quadrilha de Macelli.
Marie é uma vampira orientada por regras muito específicas: Procura nunca descuidar-se em seus ataques, por exemplo, nem deixar vestígios, garantindo que suas vítimas aparentem ter morrido de alguma outra razão que não uma mordida de vampiro.
É irônico, portanto, que quando enfim consegue atacar Macelli, ela não consiga finalizar o ato, tendo que fugir às pressas: Porque Macelli, com um arma escondida, conseguiu lhe acertar um tiro, e porque um dos homens dele se achava lá para protegê-lo.
O que se segue então é que Macelli, mais tarde, dentro do próprio necrotério para onde é levado, revive como vampiro, com todas as habilidades, poderes e sede de sangue inerentes às criaturas da noite. Une-se, como se diz, a fome com a vontade de comer: Se Macelli antes já era instável e ameaçador para todos à sua volta, a transformação em vampiro só o potencializa como um vilão de perigo impronunciável; e na consciência dessa nova e poderosa condição, Macelli já quer converter todos os seus subordinados em vampiros também!
Ciente do tremendo deslize que cometeu, Marie corre para consertá-lo; tenta, de todas as maneiras matar Macelli, antes que ele crie mais e mais vampiros. Auxiliando-a (ou, pelo menos, a tentando entender o papel dela nesse tumulto) está Gennaro que, ao longo dos dias e noites nos quais precisam rastrear o mafioso-vampiro, não deixa de ser seduzido pela atraente Marie.
Diferente de “Lobisomem Americano”, aqui, o diretor Landis trabalhava uma categoria de filmes de terror (os vampiros) com uma infinidade muito maior de clássicos a serem abordados, revistos ou reinventados –e para tanto, são inúmeras as cenas em que flagramos personagens assistindo pela TV algumas obras marcantes sobre o tema, como produções da Hammer, com Christopher Lee e Peter Cushing, “Drácula”, de Todd Browning, e muitos outros –o que explica o fato de “Inocente Mordida” não ser hoje assim tão conhecido, ainda que possa tranquilamente constar numa lista dos melhores filmes de vampiro dos anos 1990, ao lado do originalíssimo “O Vício”, de Abel Ferrara.
Seja por seu ritmo vertiginoso e envolvente, seja por seu admirável aparato técnico, por sua protagonista maravilhosa (pouco sabemos de Marie, mas graças ao carisma de Anne Parillaud, torcemos por ela sem pestanejar!) ou pelas pontas vibrantes e divertidas de grandes diretores do gênero como Sam Raimi, Tom Savini, Dario Argento e Frank Oz, o filme de John Landis é uma verdadeira pérola.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Os Donos da Rua


As vertentes pelas quais o cinema permitiu que os negros pudessem se expressar foram, em princípio, a blaxploitation, nos anos 1970 e, nos anos 1980, as realizações cheias de ironia e observações comportamentais às quais Spike Lee é, com mais frequência, relacionado.
Uma nova vertente se originou em 1991, quando o jovem John Singleton lançou “Os Donos da Rua”, que lhe valeu indicações ao Oscar de Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original (fazendo dele, aos 24 anos, o mais jovem cineasta indicado ao prêmio, com um ano de idade a menos que Orson Welles na época de “Cidadão Kane”), e mostrou por fim a história até então não contada dos jovens moradores dos violentos guetos norte-americanos.
A trama inicia-se em 1984, com o pequeno Tre, cuja mãe (vivida por Angela Basset) conclui que deve deixá-lo aos cuidados do pai Furious Styles (Laurence Fishburne, num personagem e numa dinâmica que parecem ter inspirado o trabalho de Mahershala Ali em “Moonlight-Sob A Luz do Luar”).
Tre não tem outra alternativa senão adaptar-se ao bairro onde o pai mora e assim, sete anos depois (e sendo então interpretado por Cuba Goding Jr.), ele é um jovem disposto a perseguir um futuro na universidade.
A narrativa de Singleton se ramifica assim a partir dos outros amigos de Tre, os irmãos Doughboy (o rapper Ice Cube) e Rick (Morris Chestnut), de índoles bastante opostas; ex-presidiário, Doughboy é violento e irascível, fruto do meio a que pertence, já o bom garoto Rick, pai de uma criança, almeja uma bolsa escolar valendo-se de sua aptidão esportiva.
Bastante consciente de suas próprias predisposições melodramáticas, o filme de Singleton irá mostrar, por caminhos tortuosos, que as escolhas desses personagens podem sofrer uma imprevista abreviatura acarretada pelas injustiças de seu mundo.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Pantera Negra

É visto que os filmes da Marvel Studios vêem atrelados a uma narrativa que os interliga aos outros filmes do estúdio. “Pantera Negra”, por exemplo, é conectado aos acontecimentos de “Capitão América-Guerra Civil” –onde o herói, T’ Challa foi apresentado pela primeira vez –e não restam dúvidas se conectará também, por conta de inúmeros detalhes, à “Vingadores-Guerra Infinita”.
Ainda assim, tal e qual os mais hábeis artesãos que a Marvel recruta, o diretor Ryan Coogler é astuto o suficiente para fazer deste filme solo um espetáculo inteligente, instigante, envolvente e eletrizante por si só, independente das demais produções: “Pantera Negra” ombreia em qualidade e primor –assim como em temática e austeridade narrativa –a um dos melhores trabalhos do estúdio, o magnífico “Capitão América-Soldado Invernal”.
Extremamente talentoso (como ficou comprovado nos ótimos “Fruitvale Station-A Última Parada” e “Creed-Nascido Para Lutar), Coogler conta a história de seu protagonista, T’ Challa (que Chadwick Boseman interpreta com solidez e propriedade) a partir dos desdobramentos do ocorrido em “Guerra Civil”, no caso, o assassinato por atentado de seu pai T’ Chaka, o que faz dele, por sucessão, o rei de Wakanda (uma nação sul-africana evoluída, futurista e absolutamente secreta) e também seu lendário protetor, o Pantera Negra.
Para acompanhá-lo na ritualística cerimônia de coroação, T’ Challa faz questão da presença da mulher que ama, a cativante, mas nem por isso menos enérgica Nakia (vivida com carisma, vigor e encanto pela linda Lupita Nyong’o, de “12 Anos de Escravidão”), que além de tudo é uma espécie de agente secreto a serviço de Wakanda, monitorando as outras nações do mundo e tentando auxiliar os dissidentes wakanianos no processo.
O roteiro de Coogler, contudo, não se acomoda na inércia dos eventos que transcorrem com naturalidade: Já no começo, ele introduz um flashback envolvendo o rei T’ Chaka ainda em sua juventude –ele próprio como Pantera Negra –que somente a medida que a trama evolui vamos nos dando conta de seu primor.
É quando essas duas linhas narrativas se fundem (T’ Challa assumindo as funções e responsabilidades de rei; e o segredo envolvendo um erro do passado cometido por seu pai) que o filme de Coogler evoluiu do ótimo para o excelente: Eis que T’ Challa descobre que o aliado do contrabandista Ulisses Klaus (Andy Serkis, ótimo), o misterioso Killmonger (Michael B. Jordan, um vilão vibrante e espetacular), é na realidade um membro renegado de sua própria família real e, portanto, digno de desafiá-lo numa luta pelo trono de Wakanda.
Reunindo um dos mais sensacionais e bem empregados elencos da Marvel Studios –além dos atores já mencionados, “Pantera Negra” tem também Danai Gurira (da série “The Walking Dead”) como a líder das Dora Milaje, a arrojada e eficaz guarda real de Wakanda constituída de mulheres guerreiras; o grande Forest Whitaker como Sully, o curandeiro responsável pelo segredo que concebe poderes ao herói (e pivô do grande segredo do filme); a veterana Angela Basset como a rainha, mãe do herói; o britânico Martin Freeman (da trilogia “O Hobbit” e da série “Sherlock”); o indicado ao Oscar Daniel Kaluuya (por “Corra!”); e a notável Letitia Wright, como aquela que deve ser a mais divertida personagem do filme, a inventora e irmã do herói, Shuri –o filme de Coogler guarda desdobramentos radicais, surpreendentes e pertinentes em sua trama, na medida em que se beneficia do fato deste ótimo personagem não ser tão conhecido assim do grande público (o que permite ao realizador surpreender os expectadores com certos lances em sua trajetória) e entrega, na forma de um trabalho extraordinário, um dos mais perfeitos, politizados e válidos manifestos do cinema comercial em prol da diversidade: Um filme de super-herói com um elenco majoritariamente negro, e que ainda por cima é facilmente incluso entre os melhores que a Marvel já produziu