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terça-feira, 7 de julho de 2026

A Coisa Certa


 Este “The Sure Thing” pode perfeitamente ser enxergado como uma espécie de esboço que o diretor Rob Reiner realizou antes de conceber o clássico “Harry & Sally-Feitos Um Para O Outro”, considerado a fórmula perfeita para uma comédia romântica – e, sim, o gênero comédia romântica, em si, é basicamente uma fórmula.

Em “The Sure Thing”, os ingredientes são manuseados com alguma competência, um certo senso de experimentação e, no fim, alguns resultados até que positivos: Lá está o casal protagonista, pelo menos um deles interpretado por um ator bastante visado (ou que ainda seria muito visado) dentro do gênero – John Cusack, aqui; Meg Ryan em “Harry & Sally” – lá também estão as circunstâncias que justapõem as índoles tão opostas desse casal prestes a descobrir o amor em colisão de conceitos e de personalidades – Rob Reiner gosta, pelo jeito, de criar situações de diálogos dentro de veículos e que se desdobram, de preferência, em longas viagens.

John Cusack é Walter ‘Gib’ Gibson, jovem universitário que até não corresponde totalmente àquele arquétipo do nerd fracassado no colegial, mas que certamente não vê sua vida universitária tomar o rumo de sucesso (e de satisfação sexual!) que ele imaginava. Ele estuda Inglês em uma faculdade na Costa Leste enquanto seu amigo Lance (Anthony Edwards, de “Top Gun”) aproveita as escolas hedonistas da ensolarada Califórnia. Mas, Lance é um bom amigo: Durante as férias de fim de ano, ele prepara uma festa de arromba durante a qual planeja apresentar ao amigo uma mulher espetacular (vivida pela estreante Nicollette Sheridan) que, nas suas palavras, é ‘the sure thing’ – ou também, uma ‘garota sinal verde’, numa tradução que também serviu de título nacional secundário que o filme também recebeu aqui no Brasil.

A fim de concluir a jornada até a Califórnia e até a garota dos sonhos, Gib precisa viajar de carona, e o carro que ele toma tem, como outra carona, a CDF Alison Bradbury (Daphne Zuniga, de “Garotas Modernas”) disposta a também ir para Califórnia encontrar o noivo almofadinha, à frente do carro, e cedendo essa carona, estão o casal Gary Cooper – sim, este é o nome do personagem (!) – e Mary Ann (vividos por um Tim Robbins, ainda bem jovem e por Jane Persky). Contudo, Gib e Alison não se bicam – eles mal se suportam nas aulas em que, apesar dos pesares, têm que sentar lado a lado.

Essa animosidade, no entanto, fará Gary e Mary Ann desistir da carona que ofereceram e deixa-los na estrada para juntos ter de traçar um meio para chegar ao seu destino.

“The Sure Thing” é, pois, um road movie onde acompanhamos o casal que vive às turras avançar as etapas na sua viagem através das estradas norte-americanas, pegando ônibus, carros, caminhões e outros meios para tentar chegar onde acreditam ser seu destino sentimental – o rapaz, na garota que promete ser a mulher que ele sempre quis; a moça, no jovem que ele está convencida de que é seu parceiro ideal – obedecendo, porém, aquela máxima de que o segredo está na jornada e não no seu final, Rob Reiner deixa bem claro (na verdade, claro até demais!) que Gib e Alison se amam, e que haverão de dar-se conta disso, em meio à discussões, à brigas e reconciliações que mostrarão que, mesmo diante de suas diferenças, eles podem ser complementares num nível muito mais significativo do que os outros pares que haviam elegido.

Como muitos dos chamados ‘clássicos da sessão da tarde’ dos anos 1980, “The Sure Thing” não é nem de longe tão perfeito quanto a memória afetiva que o envolve pode levar alguns a acreditar. É uma comédia com momentos forçados (Daphne Zuniga, particularmente, padece de qualquer falta de timing cômico), com um roteiro cheio de redundâncias e de tempos mortos (nesse sentido e amparado em argumento quase idêntico, John Hugues fez um trabalho muitíssimo melhor com o sensacional “Antes Só Do Que Mal Acompanhado”). John Cusack, com o passar dos anos e com o acúmulo de experiência se tornaria um ator muito melhor, e Rob Reiner, bem, ele entregaria uma das melhores comédias românticas de todos os tempos, como foi falado, o que realmente parece converter este insípido romance juvenil num esboço, um ensaio básico para a futura realização de algo melhor.

domingo, 18 de setembro de 2022

Na Roda da Fortuna


 Desigual, como aliás, é desigual toda a filmografia dos Irmãos Coen, “Na Roda da Fortuna”, lançado em 1993, vinha na sequência de obras como “Barton Fink-Delírios de Hollywood”, “Ajuste Final” e “Arizona Nunca Mais”; isto é, os Coen chegavam num ponto da carreira em que, ao mesmo tempo que testavam novas formas de contar uma história abordando gêneros novos e desconhecidos, começavam a experimentar algum tipo de aclamação, com prêmios como a Palma de Ouro por “Barton Fink”.

“Na Roda da Fortuna” é a reafirmação dos Coen por um cinema instintivo onde construíam seus filmes a partir de impressões que, proposital ou não, pouca vontade tinham para ir de encontro às expectativas de público ou crítica. É também uma espécie de retorno às raízes ao firmarem aqui uma improvável colaboração com Ram Saimi que aparece como co-roteirista em numa participação especial (Raimi, ainda atrelado às trincheiras dos filmes de terror de baixo orçamento, havia escrito seu escatológico “Dois Heróis Bem Trapalhões” com a ajuda dos Coen), e uma referência e reverência ao cinema de Frank Capra, no qual, os esmagadores interesses industriais e corporativos estavam sempre fadados a serem sobrepujados pelo inocência e pelas boas intenções.

Como já tinham reputação de serem brilhantes cineastas (e isso, para minha profunda admiração, eles nunca deixaram de ser), os Coen já eram capazes de atrair grandes nomes para seu elenco: Aqui, na trinca de personagens principais, eles contam com Tim Robbins (então aclamado por “O Jogador”, de Robert Altman, e por “Bob Roberts”, também sua estréia como diretor), Jennifer Jason Leight (atriz talentosa que, a despeito de seus papéis sexualmente pesados, conseguira se impor como a grande intérprete que é) e o astro veterano Paul Newman (a cereja no topo do bolo, que coroava os Coen como realizadores capazes de despertar o interesse dos maiores de Hollywood).

O título original de “Na Roda da Fortuna”, “Hudsucker Proxy” –uma brincadeira referencial dos autores com um termo que aparece tanto em “Evil Dead”, de Saimi, como também em “Arizona Nunca Mais”, dos Coen –é, na verdade, o título de uma empresa fabricante da Nova York de 1958. Após o suicídio (mostrado com toda a galhofa pouco usual e o arrojo técnico e artístico que tornara os Coen notórios) de seu presidente-fundador, o executivo-chefe Sidney J. Mussberger (Paul Newman, se divertindo a valer) põe em prática um plano ardiloso: Nomear em seu lugar o substituto mais paspalho possível a fim de que o preço das ações despenque. O escolhido vem a ser o ingênuo e sonhador Norville Barnes (Tim Robbins), recém-chegado do interior à Grande Maçã. Entusiasmo com sua boa sorte, Norville promove a execução de suas ideias –inclusive a quase pueril iniciativa de produzir bambolês em larga escala (!) –enquanto a aguçada e destemida repórter Amy Archer (Jennifer Jason Leight, numa personagem que emula brilhantemente os trejeitos da Rosalind Russell de “Jejum de Amor”) fareja, nessa improvável história, um escândalo escondido, destinado a ilustrar as manchetes dos jornais.

Os rumos inesperados (mas, nem tanto) desse enredo são o sucesso repentino dos bambolês de Norville entre as crianças –o que gero um efeito inverso às expectativas vilanescas de Mussberger –e o enlace romântico entre Norville e Amy, fatores que levam Mussberger a revelar, por fim, suas facetas perversas e manipuladoras.

Na fábula que aqui concretizam, os Coen não se furtam de promover seu final feliz valendo-se das concessões indubitáveis e inevitáveis de Hollywood –esta produção, é bom lembrar, foi seu primeiro filme bancado com um orçamento mais vultuoso de um grande estúdio –mas, o fazem com um sinceridade imprevista e desconcertante: Os fatores sobrenaturais a determinar o rumo de sua conclusão são representados por um curioso e nada celestial anjo vivenciado pelo próprio suicida Waring Hudsucker (Charles Durning). Os Coen colocam na mesma salada Frank Capra e as mazelas da Grande Depressão sob um viés de humor negro, não sem antes, garantir também um molho especial com o sabor de seu próprio e inconfundível cinema.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Lanterna Verde


 O cinema comercial é um mar melindroso de se navegar, mais ainda se o seu objetivo vai além do sucesso propriamente dito de um único filme, mas almeja plantar uma semente que leve a toda uma franquia. O público em geral tem um paladar que pede por fórmulas confortáveis, mas que não se prendam à repetição mecânica, sendo temperadas com alguma ousadia e contravenção para se fazer minimamente surpreendente em algum momento.

A Marvel Studios fez escola, e sucesso estrondoso, sabendo administrar esse cardápio.

Muitos foram os que tentaram e não conseguiram. Nesse sentido, uma das primeiras tentativas da DC Comics –que, pelo seu catálogo vasto de conhecidos super-heróis, era a aposta mais óbvia à seguir os passos da Marvel –foi esta produção de 2011 que, pelo perfil dos envolvidos (era dirigida por Martin Campbell, que quatro anos antes entregou o fenomenal “Cassino Royale”; e estrelada por Ryan Reynolds, então um astro em potencial), pelo apelo de seu personagem (uma criação uma bocado original que, nos quadrinhos, ombreia em relevância tanto com Superman quanto com Batman), e pelos indícios inicialmente demonstrados pelo próprio filme (cujas primeiras imagens e trailers apontavam para uma realização visualmente caprichada, com ação e personalidade), prometia acender o estopim que poderia colocar os heróis da DC no cinema.

Se tudo parecia no lugar –e, de certa maneira, realmente estava –“Lanterna Verde” tornou-se uma prova de que, se há um elemento que garante a qualidade (ou falta dela) em um projeto desde sua gênese, este é o roteiro: Escrito pelo quinteto Greg Berlanti, Marc Guggenheim, John Broome, Michael Greenberg e Michael Goldenberg, “Lanterna Verde” desperdiça as facetas épicas embutidas na origem do herói (da qual este filme se incumbe sem maiores entusiasmos) para tentar fazer uma comédia inapropriada na maior parte do tempo –e isso acaba contaminando o bom diretor Campbell que, se consegue imprimir sua experiência na execução de cenas flúidas e bem filmadas, equivoca-se ao optar por um estilo diferenciado de edição onde sequências distintas, como lembranças, se sobrepõem à outras cenas sem um propósito narrativo que as entrelaçasse e sem uma emoção que as fizesse válidas.

Em meio à todo esse equívoco, Ryan Reynolds interpreta o piloto Hal Jordan, cujo destino, ele mal sabe, é tornar-se um super-herói: Nos confins da galáxia, a criatura Paralax, um mal constituído de medo (ou, ao menos, essa é a pífia definição que ele recebe...) inicia o seu trajeto para consumir mundos. A Tropa dos Lanternas Verdes, guardiões de vários setores da galáxia, é enviada para detê-lo, mas Abin Sur (Temuera Morrison, de “Aquaman”), o lanterna verde do setor onde está a Terra, é atingido e cai, moribundo, em nosso planeta. Seguindo o protocolo, ele envia seu poderoso anel mágico para procurar uma alma corajosa e benevolente, digna de substituí-lo, e eis que ele escolhe Hal Jordan.

Dotados desses novos poderes –que, como é de se supor, vai gradativamente aprendendo a usar –Jordan entra em contato com os alienígenas da Tropa de Lanternas Verdes –entre os quais Kilowog (voz de Michael Clarke Duncan), Tomar-Re (voz de Geoffrey Rush) e Sinestro (Mark Strong, num personagem que seria o possível vilão da continuação) –passa a treinar para seu iminente confronto com Paralax –no qual, é claro, ele desempenhará papel crucial! –e descobre-se o herói que jamais imaginou ser.

Em algum momento dessa jornada, existem os desnecessários acréscimos de um núcleo humano, a dar conta de uma trama sucedida aqui na Terra, e que mostra o vilanesco Hector Hammond (Peter Sarsgaard) sendo contaminado pela matéria que gerou Paralax e virando, ele próprio, o monstrengo da vez, ameaçando com isso a vida de seu pai, o Senador Hammond (Tim Robbins) e da agente do governo Amanda Waller (Angela Bassett, num papel interpretado depois por Viola Davis em “Esquadrão Suicida”); há também a introdução do inevitável interesse romântico do herói, nas curvas sensacionais de Carol Ferris (a belíssima Blake Lively, que depois casou-se com Reynolds na vida real).

Não faltam boas intenções à “Lanterna Verde”, e nem tampouco possibilidades, sejam elas artísticas ou técnicas, que o tivessem transformado num grande filme, todavia, a ineficiência atroz de seu roteiro e sua sucessão quase inacreditável de lapsos (inclusive, alguns grotescos de inverossimilhança e continuidade) o sabotam de tal maneira que, chegando perto do fim, a sacada derradeira e patética com a qual o bem vence o mal já nem espanta mais o público, insensibilizado por um filme tão erroneamente construído.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Guerra dos Mundos

Foi com a clássica obra literária de H.G. Wells –já adaptada numa produção antiga de Sci-Fi em 1953, por Byron Haskin, na famosíssima transmissão radiofônica de Orson Welles em 1938 e em outros trabalhos menos expressivos –que o diretor Steven Spielberg finalmente se prestou a realizar uma refilmagem; ainda que seu filme busque se afastar (sobretudo, na predominante opção da modernização) da maior parte das comparações com os filmes já realizados a partir do texto.
Retomando a colaboração com o astro Tom Cruise, que resultou no memorável “Minority Report-A Nova Lei”, e novamente adentrando o terreno da ficção científica, Spielberg constrói uma obra que estranhamente contraria tudo o que, dentro deste tema, ele havia feito antes: Se em “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” e em “E.T. O Extraterrestre”, os alienígenas de outro mundo ocupavam uma visível (e frequentemente simbólica) posição de afeto na consideração do diretor, aqui, ele cede ao antagonismo fácil e previsível de obras como “Independence Day” –que se inspirou profundamente na obra de Wells –e, mais especialmente, “Sinais” de M. Night Shyamalan.
E tal qual em “Sinais”, é do ponto de vista de uma família norte-americana comum (e disfuncional) que Spielberg opta por observar uma invasão alienígena ao planeta Terra.
Tom Cruise é Ray Ferrier, o relapso pai de família que deve cuidar de seus filhos durante o fim de semana, o adolescente Robbie (Justin Chatwin que foi o Goku na versão live-action de “Dragon Ball”) e Rachel (a então criança-prodígio de Hollywood, Dakota Fanning).
Quando ocorre a invasão –embevecida do trajeto sem igual de Spielberg ao lidar com espetaculares efeitos visuais –a inaptidão de Ray para cuidar dos próprios filhos é colocada à prova, na faceta em que melhor enxergamos as inquietações temáticas que mais definem Spielberg: O gesto quase involuntário de sempre introduzir em suas premissas um pai ausente dividido entre o amor aos filhos e a incompetência de sua paternidade.
Tudo o mais, estranhamente, vai na contramão do que o realizador habituou seu público a esperar dele: Uma falta de criatividade que assombra diversos momentos-chaves de sua narrativa (sobretudo, no que diz respeito à tentativa de deixar de lado o personagem de Justin Chatwin), o retrato nada lisonjeiro dos invasores alienígenas e a insistente perda da inocência de Rachel diante das atrocidades diretas e indiretas acarretadas pela invasão –e que se torna mais incômoda de ser acompanhada pela interpretação histérica de Dakota Fanning.
Pai e filhos, assim, singram as paisagens transfiguradas dos EUA a fim de encontrar refúgio junto da mãe das crianças (Miranda Otto, de “O Senhor dos Anéis-As Duas Torres”), divorciada de Ray e que se encontra em outra cidade longe do conflito.
A partir da segunda metade, surge no filme o paranóico personagem de Tim Robbins que parece tentar acrescentar mais tensão ao filme e converter sua narrativa em algo mais intimista e claustrofóbico, mas na final das contas, serve apenas para encher lingüiça mesmo, resultando desimportante.
Claro que as cenas de confronto com os alienígenas e os momentos em que vislumbramos o emprego de sua superior tecnologia bélica valem plenamente o espetáculo; Spielberg não poupa esforços para construir sequências memoráveis que parecem unir ao realismo de “O Resgate do Soldado Ryan” a incredulidade assombrosa da ficção científica –no entanto, apesar  dessa esmerada (e no fim das contas, belíssima) pirotecnia, também ali se vê uma falha: Na similaridade que o projeto de Spielberg acaba encontrando com “Sinais” –onde também vemos uma família tentando sobreviver a uma invasão alienígena ao planeta Terra –as suas inúmeras cenas grandiosas, vastas em efeitos computadorizados, perdem de longe para a poderosa e instigante sugestão de ameaças que não podemos ver, mas que se encontram bem próximas, existente na narrativa de Shyamalan.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy


“O Âncora”, no estilo que adota, é um filme quase esquizofrênico. Tem um tipo de humor muito particular e norte-americano. E, por vezes, corre o sério risco de ser mal interpretado. Ainda assim é uma das grandes comédias da década de 2000-2010.
Em meados da década de 1970 (reconstituída com inspirada percepção nos figurinos), o âncora do maior telejornal de San Diego, Ron Burgundy reina absoluto (e na atuação irreprimível do gênio da comédia Will Ferrel, essa majestade não é à toa).
Ao lado de seus companheiros de notícias, Brian Fantana (Paul Rudd), Champion Kind (David Koechner) e Brick Tamland (Steve Carell, genial), ocupam o primeiro lugar nos índices de audiência.
Os tempos, entretanto, estão mudando. O machismo antes impune das circunstâncias trabalhistas está dando lugar à diversidade e à oportunidade igualitária às mulheres –e a rede logo recebe uma nova e determinada jornalista, Veronica Corningstone (Christina Applegate, de afiado timing cômico).
Esperta e obstinada, Veronica está acostumada aos obstáculos corriqueiros que uma mulher enfrenta num ambiente profissional –observações estas que o roteiro hábil escrito por Ferrel e pelo diretor Adam McKay encontra estratégicas brechas no humor implacável e quase ininterrupto para se inserir –e segue em frente com seu sonho de virar uma âncora de telejornal, mesmo diante da atração (logo tornada romance) entre ela e Burgundy.
É na ascensão e queda de Burgundy que a trama se concentra, usando do romance com Veronica como ponto de equilíbrio (ou desequilíbrio). O curioso, no entanto, é a forma com que o filme de Adam McKay se coloca diante dessa premissa: Tudo em cena reflete a absoluta falta de noção de seu machista personagem principal, conferindo ao filme um tom de comédia abilolada que encontra fácil correspondente naqueles exemplares de besteirol –aos quais parte do público inclusive deve relacionar Will Ferrel.
Embora tenha lá seus tópicos amparados em perspicazes observações do mundo real –a emancipação da mulher sendo o mais pertinente –o filme não faz um único esforço na direção de ser realista. Muito pelo contrário, não faltam cenas onde predomina um deliberado nonsense: Talvez as mais gritantes (em meio à tantas outras) sejam a apresentação com flauta de jazz feita pelo próprio Burngundy num clube noturno, pontuada pela canastrice saborosa de Ferrel; a batalha brutal, violenta e ridícula entre vários grupos de repórteres de emissoras rivais, a lembrar um confronto inconsequente de gangues, onde se chocam o time de Burgundy, mais os recalcados segundo colocados (liderados por Vince Vaughn), o pessoal que ficou em terceiro lugar (que têm à frente Tim Robbins), a emissora dos retardatários (com Luke Wilson) e os repórteres do canal latino (representados por Ben Stiller); além também da sequência final, contra um bando de ursos selvagens num zoológico (!).
Um peculiar exercício de humor realizado por mentes geniais incompreendidas que às vezes fingem nada compreender.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Os Últimos Passos de Um Homem

Assim como Mel Gibson –que em 1996, lançou seu bem-sucedido “Coração Valente”, atuando como diretor –naquele mesmo ano, o ator Tim Robbins (de “Um Sonho de Liberdade”) arriscou alguns passos atrás das câmeras.
Ao contrário de Gibson, que abraçou o cinemão comercial e suas personificações mais clássicas, Robbins deu vazão à uma conhecida faceta engajada que compartilhava com sua esposa na vida real, a atriz e protagonista deste filme Suzan Sarandon (premiada com o Oscar 1996 de Melhor Atriz) para contar a história real da Irmã Helen Prejean.
Famosa por dedicar seu caridoso ofício aos homens condenados ao corredor da morte, Helen (numa atuação brilhante de Suzan) é capturada pelas lentes de Robbins nos desdobramentos do primeiro caso de pena de morte que acompanhou, permitindo assim um comprometido estudo sobre crime, castigo e redenção –esforço que resultou numa indicação ao Oscar de Melhor Diretor para Robbins naquele ano.
Uma devotada freira de Nova Orleans, Helen atende ao pedido de Mathew Poncelet (Sean Penn, também ele indicado ao Oscar) um condenado à morte que aguarda, para os próximos dias, a sua execução por injeção letal, devido à sua participação no estupro e morte de uma jovem. No convívio com o condenado, Helen tentará reincidir sua condenação, esclarecendo melhor os fatos em torno do crime que ele cometeu e, se possível, compreender as ações praticadas em um crime atroz.
Longe de realizar um filme de simples apreciação ou mesmo de abordar uma situação de alguém injustamente condenado à pena de morte, o diretor Robbins vale-se de sua ampla experiência como ator para encenar um mergulho incisivo e implacável num lodo borbulhante de maldade –Poncelet é um registro corajoso e sem concessões de uma sombria propensão à psicose da parte de Sean Penn que, em sua contundência, nos convida a considerar o fato de que aquele personagem irascível, cruel e selvagem é, também, um ser humano.
É sugerida uma ligeira aversão à pena de morte contida na narrativa, embora Robbins sabiamente dê ênfase na relação menos política e mais humana que surge entre e o condenado à morte Poncelet e a freira Prejean (cujos sérios abalos sofridos por sua convicção durante esse caso representam o eixo de toda a trama).

O filme venceu também o Oscar de Melhor Canção para "Dead Man Walking" de Bruce Springsteen.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2004

Para nós, brasileiros, o Oscar 2004 tem uma importância a mais: O cinema nacional estava representado numa ocasião sem precedentes com as quatro indicações (Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Montagem) de “Cidade de Deus”.
Entretanto, todos sabiam –este era o ano do Peter Jackson e seu “O Senhor dos Anéis” –e a Academia reconheceu isso premiando-o com a marca histórica de 11 Oscars, igualando o recorde de “Titanic” e “Ben-Hur”.
Mas, foi um grande ano que contou com belíssimos trabalhos que inclusive não ganharam premiação, como “21 Gramas”, “OÚltimo Samurai” e “Piratas do Caribe-A Maldição do Pérola Negra”.

MELHOR FILME

MELHOR DIREÇÃO
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei", Peter Jackson

MELHOR ATRIZ
Charlize Theron, "Monster-Desejo Assassino"

MELHOR ATOR
Sean Penn, "Sobre Meninos e Lobos"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Renée Zellwegger, "Cold Mountain"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Tim Robbins, "Sobre Meninos e Lobos"

MELHOR FOTOGRAFIA

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Sob A Névoa da Guerra"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Chernobyl Heart"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

MELHOR SOM
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHOR MAQUIAGEM
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHOR FIGURINO
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"Mestre dos Mares-O Lado Distante do Mundo"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE & CENÁRIOS
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHOR TRILHA SONORA
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Into The West", de "O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Harvie Krumpet"

MELHOR MONTAGEM
"O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei"

MELHOR CURTA-METRAGEM

"Two Soldiers”

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Sobre Meninos e Lobos

Clint Eastwood não dá ponto sem nó. Seus filmes, sejam os estrelados por ele e, sobretudo, os dirigidos por ele, trazem sempre uma postura técnica, artística e moral de tal maneira firme e convicta que não restam qualquer espaço para ambigüidades em relação à reflexão que ele deseja passar.
Sob esse prisma é fascinante contemplar tudo o que se percebe em “Sobre Meninos e Lobos”.
Embora tenha conquistado o Oscar (num já longínquo 1992), por “Os Imperdoáveis”, ainda assim, ele passou a década seguinte relegado ao segundo escalão de diretores norte-americanos, mesmo que vez ou outra entregasse bons trabalhos como o divertido “Cowboys do Espaço”.
Foi necessário uma prova inconteste de talento e competência para Hollywood reconhecê-lo em definitivo como o grande diretor que é, e essa prova se deu na forma de sucessivas indicações ao Oscar entre 2004 e 2006, com grandes obras como “Sobre Meninos e Lobos”, “Menina de Ouro” (que lhe agraciou com o segundo Oscar da carreira) e o drama de guerra “Cartas de Iwo Jima”.
Essa fase extremamente frutífera e aclamada de sua carreira começou com este filme, um brilhante drama de inúmeras ressonâncias morais que só um grande diretor poderia mesmo conceber.
O grande roteiro, ganhador do Oscar, de Brian Helgeland (de “Los Angeles-Cidade Proibida”) inicia-se com um traumático acontecimento sucedido na infância envolvendo três amigos Jimmy, Sean e Dave: Um deles, Dave, é levado por um grupo de homens inescrupulosos e somente encontrado algum tempo depois, quando ficam claros os abusos que sofreu.
Agora adultos, os três vêem-se mais uma vez lado a lado ante um crime hediondo, desta vez, o assassinato brutal da filha (Emmy Rossum) de Jimmy (Sean Penn, ganhador do Oscar de Melhor Ator), um comerciante muito conhecido no bairro em que cresceram. Sean (Kevin Bacon) é também o policial agora encarregado das investigações desse mesmo crime, enquanto que Dave (Tim Robbins, ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), que nunca mais foi o mesmo após ter sido abusado no episódio passado passa a demonstrar um comportamento estranho, chegando a despertar as suspeitas de sua esposa Celeste (Márcia Gay Harden), irmã de Jimmy. Quando começa a ficar claro que a polícia pode não encontrar os culpados, o pai, junto de seus amigos, decide procurar o responsável por conta própria, levando todas as histórias paralelas a um desfecho trágico.

O aspecto verdadeiramente notável deste poderoso filme de trama policial –e que torna fascinante o fato de ser dirigido justamente por Clint Eastwood, famoso pelo personagem reacionário de Dirty Harry, de “Perseguidor Implacável” –é, portanto, a maneira poderosamente incisiva e contundente com a qual faz uma severa e instigante crítica ao ato de justiça com as próprias mãos.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Um Sonho de Liberdade

Este, um dos filmes fundamentais dos anos 1990, trata-se de uma das mais primorosas subversões de um filme de gênero já engendradas pelo cinema: A direção de Frank Darabont (no primeiro e melhor trabalho de sua carreira) rompe com as barreiras físicas e existenciais dos muros onde seus personagens estão confinados, e o filme transforma-se numa ode emocionada e emocionante sobre a esperança.
Darabont disse uma vez que, durante as filmagens de “Um Sonho de Liberdade”, ele assistia toda semana ao clássico de Scorsese, “Os Bons Companheiros” –e, portanto, percebe-se em seu trabalho muito da pulsante energia criativa que Scorsese dedica às suas obras.
As cenas de “Um Sonho de Liberdade” se completam, se unem e dialogam entre si com inteligência, com ímpeto emocional e técnico, tecendo um filme de raro primor.
É para os anos 1920 que essa magistral narrativa nos conduz, ao mostrar o infortúnio de Andy Dufresne (um inspiradíssimo Tim Robbins), injustamente condenado pelo assassinato da esposa e do amante. Ele é assim enviado com pena de prisão perpétua à penitenciária de Shawshank, no estado do Maine.
É nesse momento que as decisões de Darabont em torno da condução começam a revelar seu elevado grau de inspiração, e a transformar o filme em algo surpreendente, com cenas memoráveis e notáveis que se seguem simultaneamente: O longo e deslumbrante plano que começa no ônibus e circunda toda a penitenciária (imitado como forma de reverência absoluta em “A Última Fortaleza”) é só o primeiro deles.
Lá, confinado naquele mundo de paredes cinzentas, Andy conhece Red (e as palavras não bastam para elogiar este trabalho ímpar do ator Morgan Freeman), o prisioneiro que proporciona compras do mundo exterior para os detentos. Os dois iniciam uma amizade que irá perdurar pelas décadas seguintes, e sobreviverá à opressão e vilania do diretor do presídio, disposto a lucrar com os conhecimentos de Andy, e a um segredo que o próprio Andy guardará, fundamental para o desfecho.
Alvo de inusitada curiosidade do público, por parte de seu título original intrigante e de difícil pronúncia –“The Shawshank Redemption” –este magnífico trabalho, dentre os melhores dos anos 1990, encontra facilidade em gravar na memória em boa parte por conta de sua plena capacidade de suscitar uma emoção genuína no expectador, e pelo mérito, nunca superestimado, de que é uma das poucas produções que atingiram –em qualquer tempo –um nível de qualidade tão alto em todos os aspectos. 
É necessário, contudo, destacar a magistral atuação de seu formidável elenco masculino: Bob Gutton, e sua excelência pérfida como diretor do presídio; Clancy Brown, uma presença ameaçadora e imponente; o jovem Gill Bellows, saindo-se magnificamente bem num personagem que poderia representar  ponto fraco da narrativa; William Sadler, sensacional nas intervenções cômicas; e o veterano James Whitmore, responsável por um dos momentos mais comoventes.

É, entretanto, o primor inquestionável da dupla central, Robbins e Freeman, que mantêm o efeito afetivo perene e poderoso desta obra, uma das mais belas histórias de amizade do cinema.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Alucinações do Passado

Este filme, hoje visto como uma espécie de ‘clássico maldito’, pegou muita gente de surpresa especialmente aqueles que achavam que os trabalhos do diretor inglês Adrian Lyne se resumiriam a obras sobre os inúmeros desdobramentos do ato do adultério.
De repente, Lyne, com suas câmeras a registrar imagens escolhidas com perfeição, entregava um filme de terror, com um roteiro do à época celebrado Bruce Joel Rubin (que havia ganhado, em 1990, o Oscar da categoria por “Ghost-Do Outro Lado da Vida”) que abordava num único e exótico caldeirão, experiências militares, traumas da guerra do Vietnam, fantasmas e questionamentos metafísicos de ordem esotérica, que terminavam não se afastando muito da temática de seu mais famoso filme.
Seja de Bruce Joel Rubin, seja de Adrian Lyne, “Alucinações do Passado” é, de ambos, o melhor trabalho.
Jacob (um competente Tim Robbins) é, como percebemos na acachapante cena que dá início ao filme, um veterano da Guerra do Vietnam. Sonhos (ou lembranças) de sua experiência com a guerra lhe são recorrentes, em especial, um episódio ocorrido lá, cujos desdobramentos são nebulosos em sua memória. Atualmente, Jacob vive uma vida longe de ser a que ele tinha antes de ir para o campo de batalha: Se antes ele tinha esposa e filhos, agora ele trabalha como funcionário dos correios e vive com uma colega (Elisabeth Peña, surpreendentemente sensual). Um de seus filhos, o mais novo (interpretado pelo garotinho-sensação da época, Macaulay Culkin, de “Esqueceram de Mim”), morreu em um acidente, o quê causou seu afastamento da família. Ele sente que algo está errado, e os pesadelos constantes apenas comprovam isso. Aos poucos, aliás, esses transtornos começam a se passar em sua vida desperta, como na horripilante ocasião em que ficou preso numa estação abandonada do metrô –ou seria toda a realidade de Jacob, também ela, um pesadelo?
Sem as respostas, e passando a duvidar cada vez mais de sua sanidade, ele começa a testemunhar criaturas demoníacas tomando forma ao seu redor, nos momentos mais perplexos, e suspeita que tudo pode estar ligado à uma conspiração envolvendo um experimento químico no qual estariam incluídos o próprio Jacob e seus companheiros do Vietnam.
Ao assisti-lo, são perceptíveis os elementos que tornaram “Alucinações do Passado” uma obra memorável: Um clima soturno desigual, reforçado por reviravoltas radicais de roteiro que imprimem uma sensação de inquietação, emoldurado com primor pela fotografia de Jeffrey Kimbal que alterna enquadramentos estilisticamente panorâmicos com closes minuciosos; cenas concebidas com elevada noção de surrealismo tétrico –sendo a seqüência do hospital/hospício um dos momentos mais notáveis –e uma proposital oscilação de tom (lírico nas lembranças com o filho, árido nas cenas do Vietnam, sombrio nas cenas urbanas, predominantes no filme) imposta pelo diretor, que dá ao filme uma unidade narrativa tão absorvente quanto impactante.
Diante da excelência desta obra poderosa chega a ser quase desconcertante o fato de ele hoje ser tão desconhecido do público.