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sábado, 30 de julho de 2022

Procura-Se Um Amigo Para O Fim do Mundo


 O mundo está para acabar. A última tentativa de impedir um asteroide de varrer a vida na terra fracassou. Sendo assim, restam três semanas para o fim do mundo. Mas a vida de Dodge vai de mal a pior. Sua esposa o largou, e ele está mais solitário do que nunca. Surge, porém, em seu caminho a jovem Penny, a estranha e descolada vizinha do andar de baixo. Agora, juntos e dispostos a amparar as aflições um do outro, ambos talvez consigam encarar o fim.

Neste bastante estranho misto de comédia, drama, romance e ficção científica prejudicado por sua indecisão de tom e gênero, pouca coisa fica clara em relação às intenções de seu diretor: Sobre o que, no final das contas, ele queria falar? O par central (Steve Carrel, não tão engraçado como de hábito e a esforçada ainda que deslocada Keira Knightley) apesar de simpático não tem entrosamento nem química. Erro grave numa história que depende do carisma deles como casal para funcionar.

domingo, 3 de julho de 2022

Agente 86


 Há tempos Hollywood tinha interesse em revisitar a bem-sucedida série dos anos 1960 “Agente 86” e, se possível, fazer dela um sucesso de público aos olhos de uma nova geração de expectadores.

A oportunidade surgiu quando a estrela do comediante Steve Carell foi revelada em “O Virgem de 40 Anos” –talentoso, de um humor afiado e de certa maneira sintonizado com o público atual (timing garantido por sua presença também numa outra série, “The Office”, versão americana de um show originalmente inglês), Carell era de fato a escolha perfeita para interpretar Maxwell Smart, o famoso Agente 86; até mesmo parecido com Don Adams, o engraçado intérprete original, ele era!

Na trama, Maxwell Smart, um mero analista e agente júnior do departamento norte-americano de contra-espionagem intitulado C.O.N.T.R.O.L. tem a chance de sua vida para provar seu valor aos olhos de seu Chefe (o ótimo Alan Arkin, que esteve ao lado de Carell em “Pequena Miss Sunshine”), e sair da sombra do superestimado Agente 23 (Dwayne ‘The Rock’ Johnson, num de seus primeiros personagens cômicos e mais distanciados dos sisudos heróis de ação): Promovido a agente de campo, quando outros mais experientes se veem expostos graças aos resultados de uma conspiração, Smart, agora com o codinome de Agente 86, deve executar uma missão tendo por companheira a também não muito experiente Agente 99 (Anne Hathaway, uma bela escalação), onde têm de despistar os perigosos integrantes da C.A.O.S., um sindicato do crime cujo líder, Siegfried (Terence Stamp), cultiva planos de dominação mundial.

Se a sinopse da produção soava genérica em relação a qualquer aventura de espionagem que se preza, isso já era sinal de que o filme dirigido por Peter Segal (de “Ajuste de Contas” e “Tratamento de Choque”) não fazia o menor esforço em seguir por um caminho diferenciado: “Agente 86” abraçava todos os reflexos condicionados e peculiaridades do gênero para, no máximo, tentar lhes atribuir uma sátira que seja original, esquecendo, contudo, que satirizar a realidade (o panorama sócio-político em foco nas premissas de espionagem, no caso) não é nem nunca foi sinal de inovação ou ineditismo. Nota-se certa pretensão em “Agente 86”: Apesar de alguns acertos em sua realização, salta aos olhos o fato de que esta é, essencialmente, uma obra ‘de origem’ –nela, os elementos que definem o protagonista e a mitologia que o cerca vão sendo agregados aos poucos, indicando, portanto, necessidade de uma continuação –e, mais que isso, o objeto central de todo um planejamento (logo à reboque de seu lançamento, foi lançado também, direto para homevideo, um spin-off, “Agente 86- Bruce & Loyd Fora de Controle”, protagonizado por dois personagens coadjuvantes, vividos por Mais Oka e Nate Torrence), o que, dada sua tímida repercussão, não materializou-se nos planos ambiciosos que o estúdio tinha.

A meia hora final chega a agregar um ritmo vertiginoso à mistura, o que termina potencializando muito melhor seu humor de desenho animado e a extrema adequação de Steve Carell, Anne Hathaway e Alan Arkin aos seus personagens –eles se revelam bastante inspirados na caracterização dos papéis de Adams, Barbara Feldon e Edward Platt, respectivamente. Mas, é uma constatação um pouco desfavorável que um filme promissor só venha a encontrar-se de fato em seu terço final.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Foxcatcher - Uma História Que Chocou O Mundo


 Adeptos de histórias reais –e, não raro, dramas de orientação contundente –o diretor Bennett Miller lança seu olhar para os percalços que conduziram a um crime que chocou o mundo do esporte no final da década de 1980, munido de uma percepção que, se não modifica em nada o roteiro e a possível fidelidade aos fatos, vale-se de impressões subliminares para tentar sugerir uma possível justificativa a uma atrocidade virtualmente injustificável.

Competidor olímpico de luta greco-romana, o americano Mark Schultz (Channing Tatum) vive resignado e à sombra do irmão mais velho, Dave (Mark Ruffalo), também ele medalhista da mesma modalidade: É uma rotina que, em sua subjetividade, o diretor Miller não se furta de mostrar depressiva (a exemplo do que ele já fizera em “Capote” e “O Homem Que Mudou O Jogo”): O filme que acompanha Mark é silencioso, deprimente e triste.

Se Mark é soturno, Dave é carismático e exuberante –adjetivos que parecem despertar um ressentimento no irmão mais novo (características estas que, é bom lembrar, nunca são explicitadas no roteiro, mas evidenciadas na direção).

Mark recebe um telefonema do milionário John du Pont (Steve Carrell, tão competente na seriedade quanto o é no humor) e, ao ser convidado por ele para integrar sua equipe olímpica e morar em sua mansão, introduz um novo elemento nessa estranha dinâmica.

John du Pont é o tipo de personagem difícil de despertar empatia ou identificação: Egocêntrico em sua bipolaridade e na evidente indiferença para com sentimentos alheios (exceto pela opinião nunca positiva da mãe, vivida por Vanessa Redgrave), John é rodeado de indivíduos tornados subservientes por sua riqueza.

A dinâmica entre ele e seu séquito é estabelecida com clareza no filme: John é rico e financia com seu poder todas as operações à sua volta, em troca, seus apadrinhados lhe dedicam implausível enaltecimento, e ignoram a mediocridade em seu comportamento.

Ao trazer Mark Schultz para perto de si, John somente o transforma em um desses; ainda que, em seus desengonçados discursos motivacionais, John reafirme sua intenção de honrar o sonho americano, inspirar valores e ajudar o próximo.

Mark enxerga nessa oportunidade a chance de realizar suas aspirações e encontrar um meio de brilhar sem ser ofuscado pelo irmão.

Mas, Dave também está no radar de John.

Assim, o filme de Bennett Miller se fragmenta em dois filmes distintos,  conforme as interpretações: Um, é o filme que assistimos (onde Mark e John desenvolvem uma relação de amizade quase unilateral que vai migrando para uma dinâmica mais abusiva ao sabor das personalidades de ambos e suas idiossincrasias, o que ganha contornos mais complicados e mais desequilibrados quando Dave resolve se juntar à equipe, acirrando a tensão reprimida nos relacionamentos de dominação moral assim construídos); O outro é o filme que poderia ter sido feito, e que surge nas entrelinhas não tão evidentes deixadas por Miller. O fato é que a verdade em torno de um acontecimento –sobretudo, de natureza trágica como este –é, com frequência, algo movediço e escorregadio. Compreendendo esse detalhe, e sabendo de antemão que, dentre suas fontes de depoimentos pessoais, nem Dave Schultz e nem John du Pont (falecido em 2010) podem fornecer suas versões, restando somente o taciturno, arredio e nada inteligível Mark para lhe esclarecer os detalhes minimalistas da situação, o diretor Miller montou uma narrativa que, em parte, lembra a do filme “Teoria de Tudo” –onde as opiniões do biografado estão a interferir o tempo todo na veracidade da biografia –e assim faz de Mark o protagonista calado que, essencialmente, atravessa o filme com sua dignidade aparentemente intacta.

É nas impressões subjetivas, e nada óbvias, entretanto, que Miller deposita as possíveis e verdadeiras conclusões acerca do que pode ter ocorrido: Não à toa, “Foxcatcher”, à despeito do incômodo perene que evoca no expectador, foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor, e não ao de Melhor Filme –uma dica de que é a impressão que se tem da trama, e não seus pontos factuais, o verdadeiro relato a ser apreendido.

Um competente trabalho defino por percepções e considerações subliminares, emoldurado numa climática e introspectiva realização ao estilo do drama independente norte-americano, cujo resultado, em sua deliberada imprecisão existencial, acaba sendo perturbador.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

A Feiticeira

Durante muito tempo, o público e os estúdios acarinharam um projeto de uma versão cinematográfica para o cultuado seriado “A Feiticeira” –ideia ainda mais promissora quando se tem no elenco uma atriz tão competente e adequada ao papel tornado icônico por Elizabeth Montgomery como a estrela Nicole Kidman.
Haviam outros elementos mais a favor do filme: Não só a protagonista, como também o restante do elenco era perfeito; Will Ferrell ocupando o lugar que seria de Dick York e Dick Sargent, os atores que se revezaram no papel de par da feiticeira ao longo das temporadas da série; e Shirley MacLane, como a mãe dela, também dotada de magia –além das presenças de Michael Caine, Steve Carell, Jason Schwartzman, e outros. Para completar, a realizadora escolhida para o projeto (Nora Ephron, sucesso de bilheterias com as comédias românticas “Sintonia de Amor” e “Mensagem Para Você”) teve uma ideia até que bastante esperta para a transposição para cinema –no contexto em que o filme se passa, “A Feiticeira”, a série, existe realmente no mundo real. E é de interesse às redes de televisão que seja feito um revival com novos atores. Logo, a ganância de agentes e produtores dá novo rumo ao projeto; a ideia é fazer dele um veículo para o esnobe e arrogante astro Jack Wyatt (que o humor peculiar de Will Ferrell transforma num bufão egocêntrico, megalomaníaco e irreal).
As audições em busca de uma intérprete para o desafiador papel de feiticeira começam e logo esbarram na doce e ingênua Isabel (cujos trejeitos, Nicole Kidman, sempre compenetrada, consegue igualar à perfeição com os de Elizabeth Montgomery).
Entretanto, Jack e todos os demais à sua volta estão por demais preocupados em enaltecer o astro que não notam um detalhe inusitado –que Isabel é, realmente, uma feiticeira (!), daí seu encaixe tremendamente intuitivo com a personagem (!).
Fascinada com o ator famoso que Jack é, ela aceita o papel na série, tornando-se uma espécie de escada para ele. Contudo, os meses de convívio com seu insuportável narcisismo irritam de tal maneira Isabel que ela não tarda a usar de seus poderes para dar a ele o troco.
E entre uma rusga e outra, não só Jack descobre a verdade acerca de Isabel, como também encontra um sentimento novo, de interesse por outro alguém que não ele próprio.
Com uma premissa que, em si, rumava na direção daquilo em que Nora Ephron é especialista –uma comédia romântica –era de se presumir que, com tal elenco, e com uma ideia tão promissora, “A Feiticeira” resultasse, senão notável, ao menos, gracioso, divertido e encantador (características que bastam para comédias românticas se tornarem fenômenos de bilheteria), todavia, não é bem isso que ocorre.
Repetitivo em muitos cacoetes que entregou com mais brilho no passado, Will Ferrell tem um desempenho que lembra muito seu machista e narcisista personagem em “O Âncora-A Lenda de Ron Borgondy”, e sem um roteiro inteligente para contextualizá-lo, ele soa como tudo aquilo que é de fato: Um personagem desprezível, mimado e grosseiro cujas manhas desmesuradas não têm qualquer graça.
A própria Nicole Kidman, habituada a personagens densas e desafiadoras, parece um pouco apagada aqui, numa protagonista excessivamente inocente, romântica e banal, mesmo a ligeira mudança que ela experimenta no decorrer do filme pouco acrescenta no sentido de oportunidades para a atriz se impor.
No final das contas, a interessante premissa de metalinguagem que dava o ponto de partida para esta versão cinematográfica de “A Feiticeira” acabava levando a um equívoco que condenou todo o filme: Ao reafirmar a série como um produto de ficção (e não a fantasia cativante que capturou a atenção do público), a trama seguiu em direções completamente distintas daquelas que faziam o divertimento dos episódios da série.
Um grande desperdício.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Uma Noite Fora de Série


O humor excessivamente norte-americano dos comediantes Steve Carell e Tina Fey é baseado na circunstância da ‘saia justa’, da vergonha alheia. Quando acertam, eles conseguem extrair pérolas cômicas de algumas situações. Quando não, o constrangimento passa facilmente para quem assiste.
Dirigido por Shawn Levy, um especialista em musicais, comédias e filmes inofensivos, “Uma Noite Fora de Série” oscila entre esses dois extremos qualitativos.
É na totalidade de sua duração um programa familiar, com uma ligeira intervenção de situações um pouco mais escabrosas que deixam a dúvida se os realizadores optaram por esse humor mais pesado momentaneamente ou se foi um lapso.
Tina e Carell são Phil e Claire Foster, um casal suburbano de meia idade enfrentando uma crise de monotonia que acomete várias relações; paira sobre eles, o fantasma da separação de um casal de amigos (vividos por Mark Ruffalo e Kristen Wiig, as primeiras das inúmeras participações estelares que estão por vir) e o medo de que tal desfecho pode ocorrer a eles também.
Dispostos e ter uma noite revigorante de sexta-feira, eles vão a um badalado restaurante e, enfastiados da lista de espera para uma mesa, resolvem se passar por um outro casal que fez reserva perante a recepcionista (Olivia Munn) –e a partir dessa artimanha gaiata, a premissa dá seu ponto de partida.
Como numa caricatura de Hitchcock, eles são confundidos com misterioso casal (que descobrem ser, mais tarde, James Franco e Mila Kunis) cuja identidade travessamente resolveram assumir. Entretanto, como logo descobrirão, esse casal está sendo perseguido por policiais corruptos (Common e Jimmi Simpson) a serviço da máfia (o gangster maioral é ninguém menos que Ray Liotta) por conta de revelações comprometedoras.
Além disso, cruzam-se com a policial honesta vivida por Taraji P. Henson e com o casal interpretado por Mark Wahlberg e uma Gal Gadot “pré-Mulher Maravilha”.
Eu mencionei Alfred Hitchcock, mas na verdade, tão logo as confusões começam a se empilhar uma após a outra levando o desafortunado casal a uma noite infernal, é outra referência que acaba vindo à mente: “Depois de Horas”, de Martin Scorsese.
Como naquele filme, os protagonistas se vêem tão aturdidos quanto o expectador, mergulhados numa trama que nem eles mesmos entendem, impedidos, situação após situação de simplesmente voltar para casa –e ainda por cima, com o ostensivo cenário da noite nova-iorquina como pano de fundo.
Contudo, se o filme de Scorsese tinha na comédia uma salutar reflexão sobre valores e solidão, o filme com Steve Carell e Tina Fey só tem a intenção de extrair algumas risadas do expectador –saldo que, mesmo despretensioso, quase acaba no vermelho.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy


“O Âncora”, no estilo que adota, é um filme quase esquizofrênico. Tem um tipo de humor muito particular e norte-americano. E, por vezes, corre o sério risco de ser mal interpretado. Ainda assim é uma das grandes comédias da década de 2000-2010.
Em meados da década de 1970 (reconstituída com inspirada percepção nos figurinos), o âncora do maior telejornal de San Diego, Ron Burgundy reina absoluto (e na atuação irreprimível do gênio da comédia Will Ferrel, essa majestade não é à toa).
Ao lado de seus companheiros de notícias, Brian Fantana (Paul Rudd), Champion Kind (David Koechner) e Brick Tamland (Steve Carell, genial), ocupam o primeiro lugar nos índices de audiência.
Os tempos, entretanto, estão mudando. O machismo antes impune das circunstâncias trabalhistas está dando lugar à diversidade e à oportunidade igualitária às mulheres –e a rede logo recebe uma nova e determinada jornalista, Veronica Corningstone (Christina Applegate, de afiado timing cômico).
Esperta e obstinada, Veronica está acostumada aos obstáculos corriqueiros que uma mulher enfrenta num ambiente profissional –observações estas que o roteiro hábil escrito por Ferrel e pelo diretor Adam McKay encontra estratégicas brechas no humor implacável e quase ininterrupto para se inserir –e segue em frente com seu sonho de virar uma âncora de telejornal, mesmo diante da atração (logo tornada romance) entre ela e Burgundy.
É na ascensão e queda de Burgundy que a trama se concentra, usando do romance com Veronica como ponto de equilíbrio (ou desequilíbrio). O curioso, no entanto, é a forma com que o filme de Adam McKay se coloca diante dessa premissa: Tudo em cena reflete a absoluta falta de noção de seu machista personagem principal, conferindo ao filme um tom de comédia abilolada que encontra fácil correspondente naqueles exemplares de besteirol –aos quais parte do público inclusive deve relacionar Will Ferrel.
Embora tenha lá seus tópicos amparados em perspicazes observações do mundo real –a emancipação da mulher sendo o mais pertinente –o filme não faz um único esforço na direção de ser realista. Muito pelo contrário, não faltam cenas onde predomina um deliberado nonsense: Talvez as mais gritantes (em meio à tantas outras) sejam a apresentação com flauta de jazz feita pelo próprio Burngundy num clube noturno, pontuada pela canastrice saborosa de Ferrel; a batalha brutal, violenta e ridícula entre vários grupos de repórteres de emissoras rivais, a lembrar um confronto inconsequente de gangues, onde se chocam o time de Burgundy, mais os recalcados segundo colocados (liderados por Vince Vaughn), o pessoal que ficou em terceiro lugar (que têm à frente Tim Robbins), a emissora dos retardatários (com Luke Wilson) e os repórteres do canal latino (representados por Ben Stiller); além também da sequência final, contra um bando de ursos selvagens num zoológico (!).
Um peculiar exercício de humor realizado por mentes geniais incompreendidas que às vezes fingem nada compreender.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Pequena Miss Sunshine

Não há como negar que existe uma fórmula para se fazer certos filmes dentro do cinema independente norte-americano, por meio da qual alguns realizadores visam um apelo específico junto ao público, uma atenção da crítica obtida em geral pelo caminho mais fácil, e normalmente uma identificação com obras já consagradas que preservem inadvertido carinho junto à seus cultuadores.
O exemplo máximo dessa fórmula costuma sempre ser o saboroso “Pequena Miss Sunshine”.
Misto de roteiro espirituoso, acertos inquestionáveis de elenco e fôlego narrativo, ele se assume como aquele misto de comédia e drama, centrado numa família disfuncional e que, para todos os efeitos, é um retrato simpático dos fracassados da América, os desiludidos sonhadores da classe média baixa que se escondem à sombra do “american way of life”.
A tal família em questão (e que reúne diversos personagens carregados idiossincrasias e peculiaridades) embarca numa kombi para, todos juntos, fazer uma verdadeira migração até outra cidade onde será realizado o concurso de beleza mirim "pequena miss sunshine",do qual a caçula da família, a pequena Olívia (Abigail Breslin, uma graça), deseja ardentemente participar. A família de Olivia é, como não podia deixar de ser, uma coleção de figuras desajustadas: seu pai (Gregg Kinnear), um homem assombrado pela ideia do fracasso e viciado no programa de auto-ajuda que ele mesmo criou; seu avô (o oscarizado Alan Arkin), homem rabugento e lascivo, ainda que cativante; seu tio (Steve Carell), um homossexual depressivo e suicida; seu irmão (Paul Dano), um jovem esquisito que fez voto de silêncio para ingressar na academia militar; e sua mãe (Toni Collette) que se ilude ao tentar assumir o papel de ponto de equilíbrio de todos eles. A precária viagem que farão servirá para todos entenderem melhor a si mesmos.
É uma espécie de tendência surgida no cinema independente (e como toda tendência tem uma conseqüência nociva) surgida justamente a partir da consagração deste filme, ganhador dos Oscar (merecidos) de Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Original.
De fato, o equilíbrio de gêneros e humores atende a quase todas as fatias de público, e sua postura algo alternativa garante interesse dos mais intelectuais: É, por assim sim, uma receita de como fazer um filme que todo mundo irá gostar.
O único problema é quando isso afeta uma das mais prolíficas vertentes do cinema norte-americano, já bastante judiado pelas imposições dos blockbusters de estúdios.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A Grande Aposta

A linguagem técnica pesada de “A Grande Aposta” o torna um corpo estranho no circuito comercial. Um indicado ao Oscar, do gênero comédia, mas com um inusitado pé na seriedade, também por relatar de forma perplexa um fato real e, não raro, fazer com que seu magnífico elenco oscile entre humor e drama.
Por volta de 2006, o analista Michael Burry (o sempre compenetrado Christian Bale), descobre, após exaustiva pesquisa, uma bolha iminente no mercado imobiliário norte-americano, e prevê com isso a quebra do sistema econômico mundial. De início desacreditado, ele tenta encontrar meios de obter algum benefício com essa descoberta. Isso acaba levando a informação à outros personagens como o escorregadio Jared Vennett (o brilhante Ryan Gosling) e o corretor Mark Baum (Steve Carell, ótimo), que descobrirá nesse processo o conflito que se dá entre a ética e a imunidade.

O diretor e roteirista Adam McKay, especializado em comédias (fez “O Âncora-A Lenda de Ron Burgundy” e sua continuação “Tudo Por Um Furo”) cria seu projeto mais difícil e audacioso, lançando mão de uma narrativa dinâmica e loquaz onde ocasionalmente precisa parar para esclarecer os termos complexos que saem da boca de seus personagens o tempo todo: E são providenciais, portanto, as participações especiais de Margot Robbie ou de Selena Gomez.