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segunda-feira, 29 de junho de 2026

As Golpistas


 É provável que a estrela Jennifer Lopez nunca tenha chegado tão perto de concorrer ao Oscar quanto com a personagem que ela desempenha (e magnificamente bem) neste hábil, enérgico, febril e sensual relato de um esquema envolvendo strippers nova-iorquinas e seus incautos clientes da Bolsa de Valores, todo ele inspirado na matéria “The Hustlers At The Scores” publicada em 2015 na New York Magazine e escrita pela jornalista Jessica Pressler, cujo alter-ego aparece no filme interpretada por Julia Stiles.

2007. Destiny (Constance Wu, do sucesso “Podres de Ricos”) é uma dançarina de clubes de strip-tease em Manhattan buscando ganhar a vida e sustentar sua avó (Wai Ching Ho). No Moves Club, em meio aos contratempos de praxe, ela faz amizade com a fulgurante Ramona (Jennifer Lopez, hipnótica), a mais requisitada e bem-sucedida stripper local. Juntas, elas unem-se às demais dançarinas que conseguem manter um estilo de vida razoavelmente rentável e glamouroso, isso pelo menos, até a chegada do catastrófico ano de 2008, época da Crise Financeira da Bolsa de Valores.

Com o forte retrocesso da clientela, Destiny é obrigada a procurar outra ocupação – movida pelo fato de ter tido uma filha, a pequena Lilly – afastando-se desse universo nos próximos três anos seguintes.

Contudo, ao ser deixada pelo pai da criança, e encontrar consideráveis obstáculos para conseguir um trabalho honesto e normal, ela volta uma vez mais ao Moves, só para descobrir que algumas coisas mudaram: Novas garotas, vindas inclusive de outros países, tornam a disputa pelos clientes ainda mais ferrenha, e as circunstâncias por vezes acabavam empurrando as mais desesperadas rumo ao radicalismo da prostituição.

São nessas condições que Destiny e Ramona se reencontram, e é assim que, juntas, resolvem encontrar meios para ganhar todo o dinheiro que julgam merecer – não mais dependendo do clube para arregimentar clientes pagantes, mas indo, elas mesmas, aos bares de Wall Street para fisgar esses mesmos clientes por conta própria. Com o tempo, elas formam um grupo habilidoso e sedutor – além de Ramona e Destiny, contam também com duas amigas, a morena Mercedes (Keke Palmer, de “Não, Não Olhe!”) e a loira Annabelle (Lili Reinhart, da série “Riverdale”).

Contudo, a incerteza e a irregularidade dos clientes as levam a aprimorar suas táticas, valendo-se de um coquetel de drogas que, muito habilmente, elas colocavam no drinque dos infelizes desavisados. Com o indivíduo praticamente dopado, elas o conduziam ao Moves, obtinham acesso ao seu cartão de crédito e gastavam tudo o que queriam, garantindo a gorda comissão que as sustentava. O esquema inicialmente funciona tão bem – e elas experimentam uma elevação tamanha no seu status de vida – que logo elas precisam ‘terceirizar’ o procedimento, trazendo novas strippers para dar continuidade aos estratagemas, o que eventualmente resulta em algumas complicações.

A situação vai galgando práticas criminosas a medida que elas começam a aplicar golpes cada vez mais prejudiciais ao patrimônio de algumas de suas vítimas.

Dirigido com insuspeita competência por Lorene Scafaria (do estranho “Procura-Se Um Amigo Para O Fim do Mundo”), “As Golpistas” – ou “Hustlers”, no original – não escapa de um certo maniqueísmo (as mulheres, ainda que tomem constantemente atitudes ilícitas, são mostradas como uma grande família, dispostas a se ajudar e a sempre se perdoar; já os homens, sem uma única exceção, são retratados sempre como grosseiros, ineptos, intratáveis, misóginos, egoístas e impiedosos), ainda assim, a escrita de Scafaria (ela é também roteirista) nunca é menos que prodigiosa, amparando-se muito no estilo de escrita minimalista, carregado de humor inteligente, aguçado e antenado do roteirista Adam McKay (do já clássico “A Grande Aposta”), produtor do filme que apadrinhou este projeto desde o começo.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Não Olhe Para Cima


 Há quem se pergunte se ainda há espaço para a inteligência no atual cinema comercial moderno. Na ânsia por encontrar uma resposta positiva, o diretor e roteirista Adam McKay se firmou nos últimos anos como um autor singular, capaz de capturar complexidade, loquacidade, atualidade e urgência num caldeirão bem-humorado e contundente em refletir os percalços do mundo real. Dessa predisposição surgiu o clássico moderno “A Grande Aposta”, o engajado “Vice” e este “Não Olhe Para Cima”.

Anunciado como a maior superprodução bancada pela Netflix até então –e tal ambição se reflete em cena com os nomes estupendos que abarrotam seu elenco estelar –o filme de McKay era, em si, uma alegoria crítica ao descaso ostentado por alguns líderes mundiais ao aquecimento global. Porém, sua produção –iniciada nos últimos meses de 2019 –precisou ser interrompida com a chegada da pandemia de 2020, sendo retomada em 2021, deixando o filme pronto para ser lançado nos últimos meses desse ano. Essas circunstâncias, é correto afirmar, modificaram de tal forma a percepção de público e crítica do filme que “Não Olhe Para Cima” se tornou algo que, em princípio, nem seu realizador previa: Uma observação pertinente, ácida e implacável das facetas mesquinhas e calculistas do negacionismo, e também, uma horripilante constatação de todas as celeumas que empurram a humanidade rumo ao seu fim.

A começar essa narrativa hilariamente angustiante, temos a jovem Dra. Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) cuja descoberta, de um cometa em rota de colisão com a Terra é compartilhada com seu professor, o Dr. Randall Mindy (Leonardo Dicaprio). Seguindo o raciocínio lógico, Randall e Kate tentam avisar as autoridades desse perigo à raça humana, entretanto, raciocínio lógico é algo que, deveras, não faz parte da cartilha de quase nenhum dos outros personagens que orbitam seus protagonistas e –o que é pior! –alguns deles habitando esferas políticas de fundamental liderança mundial. Como é o caso da presidente Janie Orlean, vivida por Meryl Streep, numa clara alusão à Donald Trump.

É desconcertante toda a sequência em que Randall e Kate tentam, à duras penas, uma audiência na Casa Branca, e são recebidos com descrédito estarrecedor e indulgência alarmante pela Chefe de Estado e seu filho, Jason (Jonah Hill que personifica bem as facetas mais assombrosamente amorais e revoltantes do nepotismo). Em suma, eis o mote em torno do qual “Não Olhe Para Cima” gira: O fato de que, mesmo estando o fim do mundo e seus indícios escancarados à sua frente, muitas são as pessoas que escolhem não crer em sua existência. Trata-se de McKay, como o genuíno autor que é, se voltando para um fenômeno bastante inusitado e preocupante nos tempos digitais de hoje; a pós-verdade –as pessoas já não ligam mais para a verdade, para os fatos e as informações, elas preferem escolher a narrativa que mais lhes agrada, com a qual mais simpatizam, e a defendem com unhas e dentes.

É assim que Randall e Kate, com a ajuda do Dr. Oglethorpe (Rob Morgan, de “Confronto No Pavilhão 99”), conseguem pouco mais que tornarem-se memes na internet (!), após tentarem, em vão, alertar a população por meio do alienado e midiático programa de TV apresentado pelos histriônicos apresentadores vividos por Tyler Perry e Cate Blanchett. A verdade só começa a ser aceita –talvez, um tanto quanto tarde demais –quando as eleições vindouras apontam um prognóstico pessimista para a reeleição de Orlean, o que a obriga, junto de todos os seus senadores e conselheiros, a recorrer a uma manobra populista, financiando uma missão para desviar a rota do cometa. E mesmo aí, no que aparenta ser o rumo natural de todo o filme-catástrofe ao estilo “Armageddon” –o que enganosamente a obra de McKay parece ser –“Não Olhe Para Cima” continua subvertendo: Surge o empresário, inovador e avoado Peter Isherwell (Mark Rylance, hábil em personagens que despertam certa injúria no público) que, na qualidade de financiador principal da campanha (leia-se, manda nela mais que a própria presidente), tem a ideia de jerico de desistir da tentativa de destruir o cometa e, ao invés disso, aproveitar o vasto contingente mineral que é a sua constituição, para com aquilo ter um estoque infinito de matéria-prima para confeccionar seus celulares.

São inúmeros os absurdos que “Não Olhe Para Cima” enfileira, um após o outro, dentro do contexto que se propõe, e eles só não espantam mais do que o fato de que, em grande medida, tudo reflete, e com bastante exatidão, ideologias em voga nos tempos polarizados de hoje. A alfinetada ao conservadorismo, à extrema-direita e ao escrutínio midiático culturalmente questionável é bastante evidente –e certamente Mckay valeu-se do intervalo forçado da pandemia para aproximar seu roteiro ainda mais da deplorável condição política da atualidade –mas, “Não Olhe Para Cima” se propõe a uma reflexão muito mais relevante e válida: Do quanto se perdeu, em compreensão e empatia, nas nossas relações humanas com a chegada de ferramentas digitais que só fizeram nos alienar ainda mais enquanto sociedade.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Algumas previsões para o Oscar 2022...

 No dia 8 de fevereiro de 2022 serão anunciados os indicados aos Oscar, e no dia 27 de março, dentre esses indicados, serão anunciados, por fim, os vencedores, as obras nomeadas pela Academia de Artes Cinematográficas como as melhores do ano. Sendo assim, é justo afirmar que, neste presente momento em que você lê estas linhas, a temporada de prêmios já se iniciou. Como na temporada anterior, as circunstâncias da pandemia tornam mais nebulosas as chances de palpites certeiros, com filmes podendo serem adiados e/ou lançados a qualquer momento –inclusive nas plataformas de streaming, de onde obras muito premiadas dos últimos anos andaram saindo. A imprevisibilidade dessas novas condições torna mais desafiador apontar prováveis eleitos e favoritos reais, mas, vamos tentar.


 A Crônica Francesa

Cada nova obra de Wes Anderson é um deleite. Diretor desigual, de um estilo que se aprimora a cada projeto, ele acrescenta, neste “A Crônica Francesa” um tom engajado e reflexivo ao primor narrativo de sempre e à excelência técnica que seus filmes já costumam oferecer. O elenco extenso e estelar é um convite à premiações, e dificilmente a Academia deixará este filme passar despercebido.


 Não Olhe Para Cima

A maior produção da Netflix até então, “Não Olhe Para Cima” é extraordinariamente ambicioso: Além de colocar encabeçando seu fenomenal elenco a dupla Leonardo Dicaprio e Jennifer Lawrence (provavelmente os dois maiores astros da atualidade), o filme tem direção e roteiro do aclamado Adam McKay, autor de dois filmes audazes, perspicazes e inteligentes que causaram rebuliço nos últimos anos, “A Grande Aposta” e “Vice”. Não obstante, as primeira críticas apontam uma obra brilhantemente equilibrada entre a sátira política e a competência cinematográfica, um “Dr. Fantástico” dos novos tempos.


 Amor Sublime Amor

O simples fato de ser um filme de Steven Spielberg já lança imediata luz sobre este projeto, agendado para estrear no fim do ano passado, mas adiado em um ano, assim como tantos outros. No entanto, “Amor, Sublime Amor” é também a audaz refilmagem de um filme, em princípio, impossível de se refilmar: O clássico tido como intocável de 1961, dirigido por Robert Wise e Jerome Robbins, ganhador de nada menos do que 10 prêmios Oscar! Ao mesmo tempo, Spielberg realiza aqui um sonho: O de enfim dirigir um filme musical; desejo que ele só chegou perto de realizar na cena de abertura de “Indiana Jones e O Templo da Perdição”. Não apenas o nome de um dos maiores diretores de cinema da atualidade (senão O maior) destaca este filme, como o fato de que todos os trabalhos de Spielberg recebem grande atenção no Oscar –e, com efeito, são obras excelentes.


 Duna-Primeira Parte

O clássico literário “Duna”, de Frank Herbert, transcorreu um longo e tortuoso caminho até ganhar uma adaptação digna e satisfatória para cinema. “Duna”, de Denis Vileneuve –que se incumbe de transpor a primeira parte do livro para as telas –segue percalços muito semelhantes à “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel”, de Peter Jackson, passando inclusive pelo belo desempenho de bilheteria e pela aclamação praticamente unânime da crítica. Além disso, a Academia adora quando Vileneuve se aventura com êxito no terreno da ficção científica, vide o reconhecimento caloroso dado à seus projetos anteriores, “A Chegada” e “Blade Runner 2019”.


 Spencer

O diretor chileno, Pablo Larraín, parece ter se especializado em grandes biografias de figuras fundamentais do Século XX. Ele já havia colecionado elogios tremendos por seu excelente “Jackie”, e tudo indica que repetirá a dose com “Spencer” –e, de quebra, ainda pode obter a primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz para Kristen Stewart –que desvenda a intimidade da icônica Princesa Diana.


 Casa
Gucci

Outro diretor cujos trabalhos, adentrem o gênero que adentrarem, frequentemente monopolizam as atenções da Academia é Ridley Scott. Aqui, ele abandona os épicos de praxe para focar numa trama que remonta a história real do assassinato de um herdeiro da grife Gucci por sua ex-esposa, Patrizia Reggiani. Como a maioria dos filmes com fortes predisposições para competir ao Oscar, este tem um elenco estelar escolhido à dedo: Lady Gaga (uma atriz consumada após o sucesso de “Nasce Uma Estrela”), Adam Driver, Jared Leto, Al Pacino, Jeremy irons e Salma Hayek.


 The Tragedy Of
Macbeth

Vinte e um anos depois dos Irmãos Coen terem realizado “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, adaptando a obra de James Joyce, “Ulisses” para uma pitoresca ambientação norte-americana, eles, de certa forma, tentam algo parecido com “The Tragedy Of Macbeth”, dando sua visão ímpar, incomum e certamente magistral para a conhecida tragédia criada por William Shakespeare, contando com o magnífico par central interpretado por Denzel Washington e Frances McDormand –ela, esposa de Joel Coen, um dos diretores, e vencedora do Oscar de Melhor Atriz por “Nomadland” na última premiação.


 Cry
Macho

Já de avançada idade, cada novo filme dirigido e estrelado por Clint Eastwood parece soar como sua despedida, seu testamento. Assim pareceu ser o elogiado “A Mula”, e assim parece “Cry Macho” que, sob muitos aspectos lança uma circunspecta luz analítica sobre as facetas humanas da persona à qual o próprio Clint Eastwood foi muito relacionado em toda sua carreira. Não deixa de ser uma proposta que remete ao elogiado “Os Imperdoáveis” que deu a ele o Oscar 1992 de Melhor Filme.


 Noite Passada Em Soho

O diretor Edgar Wright é um dos mais originais e brilhantes estetas a surgir no cinema nos últimos anos. Trabalhos como “Todo Mundo Quase Morto”, “Scott Pilgrim Contra O Mundo” ou “Em Ritmo de Fuga” proporcionam experiências cinematográficas plenas e inquestionáveis  e uma sintonia fora do comum com o que há de mais arrojado na cultura pop. Há tempos pedindo por um reconhecimento, Wright entrega agora uma obra vibrante, desafiadora  e surpreendente ao acessar ecos subconscientes do elogiado cinema da década de 1970 –como o ‘giallo’ e o Novo Cinema Britânico –e ainda traz duas protagonistas maravilhosas: Thomasin McKensie (de “Jojo Rabbit”) e Anya Taylor-Joy (de “O Gambito da Rainha”).

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy


“O Âncora”, no estilo que adota, é um filme quase esquizofrênico. Tem um tipo de humor muito particular e norte-americano. E, por vezes, corre o sério risco de ser mal interpretado. Ainda assim é uma das grandes comédias da década de 2000-2010.
Em meados da década de 1970 (reconstituída com inspirada percepção nos figurinos), o âncora do maior telejornal de San Diego, Ron Burgundy reina absoluto (e na atuação irreprimível do gênio da comédia Will Ferrel, essa majestade não é à toa).
Ao lado de seus companheiros de notícias, Brian Fantana (Paul Rudd), Champion Kind (David Koechner) e Brick Tamland (Steve Carell, genial), ocupam o primeiro lugar nos índices de audiência.
Os tempos, entretanto, estão mudando. O machismo antes impune das circunstâncias trabalhistas está dando lugar à diversidade e à oportunidade igualitária às mulheres –e a rede logo recebe uma nova e determinada jornalista, Veronica Corningstone (Christina Applegate, de afiado timing cômico).
Esperta e obstinada, Veronica está acostumada aos obstáculos corriqueiros que uma mulher enfrenta num ambiente profissional –observações estas que o roteiro hábil escrito por Ferrel e pelo diretor Adam McKay encontra estratégicas brechas no humor implacável e quase ininterrupto para se inserir –e segue em frente com seu sonho de virar uma âncora de telejornal, mesmo diante da atração (logo tornada romance) entre ela e Burgundy.
É na ascensão e queda de Burgundy que a trama se concentra, usando do romance com Veronica como ponto de equilíbrio (ou desequilíbrio). O curioso, no entanto, é a forma com que o filme de Adam McKay se coloca diante dessa premissa: Tudo em cena reflete a absoluta falta de noção de seu machista personagem principal, conferindo ao filme um tom de comédia abilolada que encontra fácil correspondente naqueles exemplares de besteirol –aos quais parte do público inclusive deve relacionar Will Ferrel.
Embora tenha lá seus tópicos amparados em perspicazes observações do mundo real –a emancipação da mulher sendo o mais pertinente –o filme não faz um único esforço na direção de ser realista. Muito pelo contrário, não faltam cenas onde predomina um deliberado nonsense: Talvez as mais gritantes (em meio à tantas outras) sejam a apresentação com flauta de jazz feita pelo próprio Burngundy num clube noturno, pontuada pela canastrice saborosa de Ferrel; a batalha brutal, violenta e ridícula entre vários grupos de repórteres de emissoras rivais, a lembrar um confronto inconsequente de gangues, onde se chocam o time de Burgundy, mais os recalcados segundo colocados (liderados por Vince Vaughn), o pessoal que ficou em terceiro lugar (que têm à frente Tim Robbins), a emissora dos retardatários (com Luke Wilson) e os repórteres do canal latino (representados por Ben Stiller); além também da sequência final, contra um bando de ursos selvagens num zoológico (!).
Um peculiar exercício de humor realizado por mentes geniais incompreendidas que às vezes fingem nada compreender.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Homem-Formiga e A Vespa


“Capitão América-Guerra Civil”, lançado em 2016, provocou desdobramentos tão contundentes no Universo Marvel Cinematográfico que praticamente todos os filmes que lhe sucederam –à exceção de “Guardiões da Galáxia Vol. 2” e “Thor-Ragnarok” –são, de uma forma ou de outra, seqüências de seus acontecimentos.
É isso o que acontece nesta segunda aventura do Homem-Formiga que, embora resgate aspectos da trama de origem do primeiro filme do herói, acaba tendo que levar em conta a importante participação dele em “Guerra Civil”.
Dois anos depois, encontramos Scott Lang (o ótimo Paul Rudd) em prisão domiciliar –com rastreador no tornozelo e tudo o mais –após ter feito um acordo quando lutou ao lado do Capitão América e acabou preso.
Ao longo desses dois anos, seus parceiros no primeiro filme, o cientista Hank Pym (Michael Douglas, esbaldando-se no personagem) e a filha Hope Van Dyne (Evangeline Lilly, fantástica), trabalharam exaustivamente em torno de uma descoberta acidental do próprio Scott: Durante sua luta contra Jaqueta Amarela –que o obrigou a arriscar-se e diminuir seu tamanho em nível subatômico –Scott teve um vislumbre do chamado Mundo Quântico; um local indeterminado ao qual se chega quando a miniaturização é tão extrema que a pessoa vai para em uma outra dimensão.
Supunha-se, portanto, que ninguém conseguia voltar do Mundo Quântico. E foi esse destino que teve Janet Van Dyne (Michelle Pfeiffer, pra variar, maravilhosa), mãe de Hope e esposa de Hank, quando, à muito tempo precisou miniaturizar-se em nível subatômico para salvar vidas: Essa notável seqüência, esboçada por alto no primeiro filme, é melhor detalhada já na abertura desta continuação.
Contudo, como Scott foi capaz de retornar de lá, as esperanças de Hope e Hank se reavivaram, e nos dois anos que se seguiram, eles estiveram projetando o Túnel Quântico que permitiria a eles adentrar tal lugar com uma nave, e de lá, com alguma sorte, trazer Janet viva.
Em algum momento, eles precisarão da ajuda de Scott –cujos dois anos de prisão domiciliar estão prestes a expirar desde que se comporte –e da experiência sem precedentes que ele teve no Mundo Quântico; isso sem falar de suas habilidades como Homem-Formiga, habilidades estas que, empregadas em conjunto ao lado de Hope (que assume, por sua vez, o codinome e o uniforme de Vespa), formam uma dupla espetacular.
Dirigido pelo mesmo Peyton Reed que desde o filme anterior deu um salto qualitativo em relação aos seus outros trabalhos, e roteirizado com excelência por Adam McKay –cujo talento foi reconhecido com o Oscar de Melhor Roteiro Original por “A Grande Aposta” –“Homem-Formiga e A Vespa” é mais do que uma mera seqüência do filme anterior (embora, claro, também o seja): A narrativa faz verdadeiros malabarismos para amarrar com eficácia e descontração aos pontas soltas de “Homem-Formiga” e “Capitão América-Guerra Civil” que vêem a determinar muitos dos rumos que este filme toma –e que ainda por cima, sabe-se, levará, de uma forma ou de outra, aos eventos de “Vingadores-Guerra Infinita”, cuja trama se passa cronologicamente depois deste filme, embora tenha sido lançado antes.
“Homem-Formiga e A Vespa” curiosamente, ao dar conta das narrativas de tantos personagens (são cerca de três núcleos bem distintos costurados habilmente pela presença em comum de Scott Lang em todos eles), e por conta disso encontrar uma de suas poucas fragilidades, é um filme de super-heróis praticamente desprovido de um vilão (!): Nem o personagem de Walton Coggins (um criminoso mais oportunista do que ameaçador), nem mesmo a perigosa Fantasma (interpretada por Hannah John-Kamen, de “Jogador Nº 1”) chegam a ocupar esse posto –uma vez que na trama e no modo como é mostrada, seu papel é mais de uma vítima do que de uma antagonista.
Na comparação com o arrebatador “Guerra Infinita”, “Homem-Formiga e A Vespa” se revela mais despretensioso e pueril –e, talvez, isso justifique certa impaciência da crítica para com ele –mas, em sua diversão plena (e na heroína formidável que finalmente entregam nas formas sensacionais de Evangeline Lilly) é mais uma bela realização da Marvel Studios.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Quase Irmãos

Não deixa de ser uma travessura do time de comediantes liderados por Judd Apatow (produtor do filme) este escracho protagonizado por Will Ferrel –ator cujos filmes fazem mais sucesso nos EUA, do que aqui no Brasil, certamente em função do seu humor muito característico e norte-americano.
Curioso notar que este é um trabalho de Adam McKay (que com Ferrel fez também o cultuado “O Âncora-A Lenda de Ron Burgundy”), antes de suas indicações ao Oscar por um filme, também de comédia, mas que revelava uma relevância impar assim como uma conscientização da atualidade que um trabalho como este jamais levaria a supor, o extraordinário “A Grande Aposta”.
Aqui, a idéia aparentemente é levar o conceito de caricatura à níveis extremos. Pois é, afinal de contas, uma caricatura o personagem Brennan, vivido por Will Ferrel que, do alto de seus quarenta anos de idade, ainda vive com a mãe, Nancy (a ainda muito bonita Mary Steenburgen). O mesmo calha de acontecer com Dale (John C. Reilly, perfeito contraponto de Ferrel), filho quarentão e infantil que ainda mora com Robert (Richard Jenkins), seu pai.
Do romance que brota do encontro entre pai de um e mãe do outro, surge a situação que coloca ambos como meio-irmãos e morando debaixo do mesmo teto.
À previsível indisposição inicial, logo se segue uma forte identificação (ocasionada pela birra em comum com o irmão mais novo de Brennan, interpretado de maneira bizarra por Adam Scott) o quê só deflagra ainda mais confusões: Dois homens inconseqüentes e imaturos, afinal, fazem o dobro de bagunça do que um só.
O diretor e roteirista McKay, no entanto, friza esses acontecimentos com ênfase num humor esculachado e adolescente, reflexo do comportamento dos protagonistas, que em nada busca atender a realidade. Deveras, não há qualquer intenção de um registro real, por exemplo, nos lampejos ninfomaníacos da cunhada de Brennan (Kathryn Hahn) para cima do desajeitado e indiferente Dale –e isso é proposital, tornando necessário que se entre no espírito para apreciar o filme.
Talvez, o grande problema seja que nem todos os atores se saiam bem com tal tipo de humor. Se Ferrel e Reilly abraçam por completo o ridículo (até mesmo grotesco) de sua situação, o mesmo não parece ocorrer com naturalidade em Kathryn Hahn ou em Adam Scott. No caso dos pais, o habitualmente ótimo Richard Jenkins nem sempre encontra em algumas cenas a serenidade ideal para reagir às presepadas dos personagens principais; por sua vez, Mary Steenburgen, mesmo que longe de qualquer rompante cômico, parece interpretar a única personagem capaz de preservar alguma coerência ao longo de todo o filme.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A Grande Aposta

A linguagem técnica pesada de “A Grande Aposta” o torna um corpo estranho no circuito comercial. Um indicado ao Oscar, do gênero comédia, mas com um inusitado pé na seriedade, também por relatar de forma perplexa um fato real e, não raro, fazer com que seu magnífico elenco oscile entre humor e drama.
Por volta de 2006, o analista Michael Burry (o sempre compenetrado Christian Bale), descobre, após exaustiva pesquisa, uma bolha iminente no mercado imobiliário norte-americano, e prevê com isso a quebra do sistema econômico mundial. De início desacreditado, ele tenta encontrar meios de obter algum benefício com essa descoberta. Isso acaba levando a informação à outros personagens como o escorregadio Jared Vennett (o brilhante Ryan Gosling) e o corretor Mark Baum (Steve Carell, ótimo), que descobrirá nesse processo o conflito que se dá entre a ética e a imunidade.

O diretor e roteirista Adam McKay, especializado em comédias (fez “O Âncora-A Lenda de Ron Burgundy” e sua continuação “Tudo Por Um Furo”) cria seu projeto mais difícil e audacioso, lançando mão de uma narrativa dinâmica e loquaz onde ocasionalmente precisa parar para esclarecer os termos complexos que saem da boca de seus personagens o tempo todo: E são providenciais, portanto, as participações especiais de Margot Robbie ou de Selena Gomez.

domingo, 26 de julho de 2015

Homem-Formiga

A Marvel se sai maravilhosamente bem naqueles filmes em que o público a subestima.
Explico: Em “Guardiões da Galáxia”, por exemplo, no qual muita gente torcia o nariz para um filme protagonizado por uma árvore que se mexia, ou por um guaximim falante, personagens nem um pouco conhecidos do grande público, eles foram lá e entregaram uma de suas melhores produções.Um sucesso esmagador de bilheteria, e de crítica, também.
Hoje, é até estranho lembrar que, antes de 2011, muita gente tinha o pé atrás em relação ao projeto de Os Vingadores.
"Tantos personagens?" "Como farão para que tudo funcione?" "Não vai ser confuso?"
O resultado, todo mundo sabe, foi um fenômeno de bilheteria, e também, um dos filmes de maior qualidade do estúdio.
Quando a Marvel lida dentro de sua zona de conforto, porém (leia-se, continuações de seus sucessos) a coisa normalmente soa um pouco preguiçosa (ainda que, até hoje, a Marvel jamais tenha entregue um filme realmente ruim): “Homem de Ferro 2” e 3, “Thor-O Mundo Sombrio”, e até mesmo o eficiente, ainda que não completamente satisfatório, “Vingadores-A Era de Ultron”.
Daí, temos este “Homem-Formiga”, que só vem reforçar essa teoria, uma vez que trata-se de um herói pouco conhecido fora do meio dos quadrinhos, mas que termina sendo um dos mais mais vibrantes e empolgantes trabalhos do estúdio.
Como em “Homem de Ferro”, a química do elenco funciona incrivelmente bem (escolhas como Paul Rudd, Evangeline Lilly e até Michael Douglas, revelam-se certeiras!), como em Vingadores, a dicotomia entre o ritmo da trama e das cenas de ação é prazeroso. E assim como em Guardiões da Galáxia, aqui, a Marvel encontra um equilíbrio entre o humor, a seriedade e a ação que torna a trama e os personagens, apaixonantes.
Seríssimo candidato a melhor do ano.