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sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Amsterdam


 Escrito e dirigido pelo mesmo David O’Russell que surpreendeu público e crítica com “O Lado Bom da Vida” e “Trapaça”, “Amsterdam” passou despercebido quando foi lançado em 2022. A intriga verborrágica, mirabolante e intrincada que ele descortina (ainda que ampara em fatos reais, a chamada Conspiração Empresarial de 1933) não caiu no gosto dos expectadores, e a condução de O’Russell –como sempre, inclinada ao fascínio por tipos disfuncionais e por uma sistemática estranheza –não ajudou a tornar mais apetecível uma obra que, em sua indefinição, parece não pertencer a gênero nenhum: Durante suas mais de duas horas de duração, “Amsterdam” reúne elementos de film noir, suspense conspiratório, drama, comédia de humor negro e thriller político, tudo numa roupagem desigual que remete à década de 1930.

O enredo cheio de melindres gira em torno de três grandes amigos: Os soldados Burt Berendsen (Christian Bale), Harold Woodman (John David Washington, de “Resistência”) e a enfermeira Valerie (Margot Robbie). Em meados de 1918, Burt e Woodman se conheceram no front da Primeira Guerra Mundial e logo foram despachados para o hospital em que Valerie servia. A amizade foi instantânea –bem como o romance entre Harold e Valerie –e os três logo fugiram para Amsterdam a fim de viver um sonho até o limite do tolerável.

Entretanto, Burt, casado com a abastada Beatrice Vandenheuvel (Andrea Riseborough), precisou voltar para a América, trazendo Harold à reboque. Quinze anos depois, os dois trabalham numa clínica médica de quinta categoria para soldados veteranos em Nova York –Burt como médico-cirurgião, Harold como advogado –quando são procurados por Elizabeth Meekins (a cantora Taylor Swift), certa de que seu pai, o Senador Meekins, não morreu de causas naturais ao voltar de uma viagem à Europa.

Durante a autópsia, perpetrada por Burt e pela enfermeira Irma St. Clair (Zoe Saldaña), eles descobrem que o Senador foi envenenado e, quando dão por si, são tragados para dentro de um furacão: Na sequência, Elizabeth é assassinada, a culpa recai sobre Burt e Harold que logo se tornam os principais suspeitos aos olhos da polícia –personificada nos paspalhos personagens de Matthias Schoenaerts e Alessandro Nivola. Ao fugirem, Burt e Harold dão início à sua própria investigação a fim de limpar seus nomes, quando reencontram novamente Valerie, e vão descobrindo uma trilha de pistas que irá levá-los até um influente político de Washington (Robert De Niro) e, por fim, à uma terrível verdade acerca de um mal inominável que começa a despontar em certos governos totalitários da Europa, como a Itália e a Alemanha, E acredite, essa é só a ponta do iceberg!

Uma sinopse descrita em características normais não dá conta das idas e vindas, da deliberada excentricidade e da atmosfera de incomum ironia que persiste durante todo o tempo no filme de O’Russell, e embora esse elemento seja certamente grande parte de seu charme e diferenciação, ele é também seu calcanhar de Aquiles –o diretor O’Russell sempre foi muito afeito à esquisitices pontuais em suas narrativas. Em alguns casos, esse gosto curioso e apurado resultou em obras que foram capazes de contornar o estranhamento para surpreender ou até emocionar seu público; em outros –sobretudo seus trabalhos de início de carreira como a bizarra comédia romântica “A Mão do Desejo”, o inconformista “Flying With Disaster” e o filme sobre e para loucos (!) “Huckabees” –o produto final acabava sendo tão distante das convenções que simplesmente não se revelava palatável ao público. É esse o caso, aqui, de “Amsterdam”.

Não é que não seja um bom trabalho (ele é), não é que seu elenco não esteja bem (Christian Bale, pra variar, se mostra excelente, e os nomes estelares da produção só mostram o quanto a reputação de O’Russell é positiva), não é que o roteiro seja ruim (muito pelo contrário, ele reúne com certa maestria elementos díspares que poderiam, com menos talento, jamais surgirem tão bem ordenados numa narrativa) e nem que a direção de O’Russell deixe a desejar (seu manejo das inúmeras facetas de gêneros que se presta a abordar é extremamente elegante e inspirado,e nunca soa forçado ou cansativo), mas o fato é que “Amsterdam”, na sua originalidade tão contundente, provavelmente, está condenado a ser um cult-movie, uma obra incompreendida que, nos anos ou décadas por vir, será redescoberta por cinéfilos e admiradores que o enaltecerão, observando nele as qualidades que não foram notadas na sua época.

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Asteroid City


 As obras de Wes Anderson flertam a todo o instante com o estranhamento. Um filme seu corresponde ao caminhar sobre uma corda bamba; o grande achado em seu cinema é o equilíbrio improvável entre a queda drástica rumo à incompreensão e à esquisitice que sempre o assombram e a continuidade de dinâmicas, premissas e dramas que se preservam interessantes, emocionantes e inteligíveis graças ao seu talento. Entretanto, num ou noutro caso pode haver um escorregão –e o exemplo mais patente disso é, na filmografia de Wes Anderson, “A Vida Marinha de Steve Sizou”. À ele junta-se agora este “Asteroid City”.

Como o fizera em “O Grande Hotel Budapeste”, Anderson começa explorando uma narrativa de metalinguagem na qual o filme a se desenrolar mais afrente é, na realidade, um peça de teatro –filmada em preto & branco, na intenção de diferenciar a encenação da trama principal –cujo autor Conrad Earp (Edward Norton) e todo seu séquito de intérpretes são introduzidos ao público pela narração algo irônica e vintage do ator Bryan Cranston.

Quando a peça se iniciar –e o filme, por conta disso, adquirir cores –irá se iniciar também sua trama principal; que, numa das ironias do projeto, tem muito pouco, ou quase nada, de teatral: Asteroid City é o nome de um lugarejo que mal pode ser definido como cidade; um apanhado de instalações (um hotelzinho; uma oficina; um restaurante; um posto militar e pouco mais que isso) que, em meados da década de 1950, cercam o local onde, anos antes, um asteróide lendário caiu. E sua cratera, com todas as ênfases turísticas, se encontra lá. A câmera de Anderson explora –com sua típica observação fria e simétrica –todo esse ambiente aberto num dos primeiros takes, indicando a propriedade hiperlativa da direção de arte e da direção de fotografia, criando juntas, em conjugação, um cenário a um só tempo irreal, impressionante e paradoxalmente autêntico que se enquadraria bem numa narrativa de Federico Fellini, não fosse a pontual e infalível modernidade de suas inserções digitais.

O elenco reunido em “Asteroid City” é vasto e espetacular, daqueles que pouquíssimos diretores tem gabarito capaz de reunir num único projeto, e eles defendem, todos, personagens capturados em suas excentricidades, perplexos diante de uma tristeza a brotar de lugares inesperados. Há, por exemplo, Augie Steenbeck, vivido por Jason Schartzman, que levou os quatro filhos (um rapazinho e três garotinhas trigêmeas) para Asteroid City a fim de finalmente revelar a eles que sua mãe (vivida por Margot Robbie, numa breve cena como a atriz que a interpretaria) faleceu à três semanas (!?). Com seu carro avariado –devido à uma pane que o incompetente mecânico local (Matt Dillon) é incapaz de consertar –eles resolvem ficar por lá, à espera de seu sogro, Stanley (Tom Hanks) que, a despeito da ligeira indisposição com Augie, segue para lá de carro para resgatá-los. Existem ainda June (Maya Hawke), jovem professora tentando administrar os interesses ocasionais de seus jovens  alunos; Midge Campbell (Scarlett Johansson) dona de casa em crise cuja relação com a filha (Grace Edwards) acentua ainda mais sua predisposição à depressão; J.J. Kellog (Liev Schreiber) um turista eventual, constantemente à beira de um ataque de nervos graças às provocações do próprio filho; além de toda fauna de estudantes, pais, professores e cientistas de uma convenção científica realizada lá (a reunir rostos como Sophia Lillis, Rupert Friend, Tlida Swinton e outros); e os militares basicamente representados pelo oficial displicente e indiferente (Jeffrey Wright) e seu subalterno (Tony Revolori).

O vazio existencial estranhamente cômico de cada um desses personagens ganha um novo viés quando Asteroid City é visitada por um alienígena (Jeff Goldblum) –cuja aparição converte brevemente o filme numa animação, outra área de atuação do diretor Wes Anderson, vide o maravilhoso “Ilha dos Cachorros” –e o governo ordena que seja imposta uma quarentena. Confinados naquele espaço, todos os personagens estabelecem uma rotina por meio da qual não apenas convivem uns com os outros, mas também com suas próprias idiossincrasias –material que faz muito o gosto do diretor –sem que aquilo jamais gere, na realidade, um microcosmos: O trabalho de Wes Anderson, bem como sua visão particular de cinema e de mundo, terminam sendo pessoais e peculiares demais para que se possa estabelecer algum tipo de analogia. E quando cai a pergunta “Então sobre o quê exatamente versa o filme?” é quando os problemas de “Asteroid City” começam a se acumular de verdade.

Diferente de outros trabalhos de Wes Anderson nos quais sua sensibilidade conseguiu alcançar o público, emocionando-o ou levando-o a refletir (ou ambos), em “Asteroid City” há um distanciamento resultante, tal é a sensação de alienação que a situação mirabolante e os personagens idiossincráticos, somados, passam ao expectador. “Asteroid City” poderia ser sobre a paranóia atômica de outros tempos, numa curiosa equação com o presente, mas é deveras gaiato e caricatural para isso; poderia ser sobre a pluralidade norte-americana e de como mentalidades e posicionamentos mais nos afastam do que nos aproximam, mas é inacessível em sua insistência no alternativo. Termina sendo um trabalho modorrento e desafiador para os expectadores menos pacientes, capaz de agradar aos fãs incondicionais do diretor, e somente a eles.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

O Escândalo


 Se em princípio Jay Roach foi um realizador de comédias compromissadas tão somente com o objetivo de fazer rir (como atestam os hilariamente ácidos exemplares da série “Entrando Numa Fria”), aos poucos, filme após filme, ele conseguiu migrar para o cinema uma capacidade que já demonstrava em obras televisivas: Uma percepção desigual e afiada para registrar com urgência sublime e relevância maiúscula as arestas sociais e comportamentais de certos aspectos da modernidade na política norte-americana, como atestam os formidáveis “Virada de Jogo” (feito para TV) e “Trumbo” (lançado em cinema). Neste magnífico “Bombshell”, Roach mantêm suas câmeras aguçadas no panorama político da América (sua trama abrange o período das eleições presidenciais norte-americanas de 2015-16), ao mesmo tempo que joga luz sobre um tema cada vez mais necessário: A cultura do assédio.

Ainda no ano de 2015, a âncora Megyn Kelly (Charlize Theron, espetacular) foi escolhida pelo canal de notícias Fox News para mediar os debates presidenciais entre os pré-candidatos republicanos, entre eles, aquele que terminaria ganhando a preferência –e, no ano seguinte, as próprias eleições –Donald Trump. Embora ferrenha defensora dos ideais ultra-conservadores de direita, Megyn foi fiel ao perfil combativo com o qual era vista na mídia e confrontou Trump com perguntas incisivas sobre sua alardeada misoginia.

O episódio gerou um impasse delicado na Fox News: Ao mesmo tempo em que a rede jornalística representava um dos maiores apoios à candidatura republicana –e Megyn beneficiava-se de relativa confiança do todo-poderoso presidente do canal Roger Ailes (John Lithgow, sordidamente convertido por quilos de maquiagem) –a jornalista comprou uma briga informal contra o candidato que passou a retuitar em mídia nacional várias ofensas contra ela.

Essa transformação forçada de paradigmas de Megyn coincidiu com outro acontecimento, também ressonante, nos corredores da Fox News; transferida de um programa do horário nobre para outro na ingrata programação da tarde (por não suportar o sexismo predominante de seus colegas de cena), a apresentadora Gretchen Carlson (Nicole Kidman, ótima) abriu um processo por antigos abusos sexuais contra o próprio Roger Ailes tão logo é, por fim, demitida.

Hábil e astuta, Gretchen tinha algumas cartas na manga, como a previsível atitude de sua demissão por parte de seu patrão manipulador, mas contava com a aparição, logo após sua iniciativa, de outras mulheres que também foram assediadas. É Megyn, inesperadamente, uma delas, entretanto, ela estava longe de ser a única: Também ganha bastante espaço na narrativa a circunstância de Kayla Pospisil (Margot Robbie, em corajosa e brilhante atuação), jovem produtora em ascensão profissional dentro da Fox News que é coagida, naquela que é de longe a cena mais aflitiva de todo o filme, por Roger Ailes em pessoa à levantar sua saia até que sua calcinha fique visível. Dentre todas essas personagens, somente  a de Kayla não é precisamente real –trata-se de um amálgama de pelo menos duas dezenas de mulheres que prestaram depoimento ao roteirista do filme, Charles Randolph (de “A Grande Aposta”).

Impressionante, entre outras coisas, é também o retrato que o filme de Roach faz do clima que surge, logo em seguida, nos corredores da Fox News: Com seu presidente sendo acoado por questões imprevistas de natureza procedural, a rede move seus recursos tentando provar o contrário, que Ailes era respeitador e inofensivo (funcionárias são obrigadas a vestir uma camisa em apoio ao chefe processado e depoimentos positivos são exigidos de praticamente todas as mulheres da empresa), que provas para quaisquer acusações eram inexistentes (uma severa operação de pente-fino, inclusive com o uso de escutas telefônicas, é adotada), e que a ex-contratada do canal, Gretchen Carlson, não era alguém confiável (todo o arsenal midiático da Fox News é subitamente voltado contra a reputação pessoal e profissional dela).

Contudo, as trajetórias íntimas de cada uma dessas três protagonistas, Megyn, Kayla e Gretchen, haverá de expor os caminhos tortuosos por meio dos quais, felizmente, a verdade se fez prevalecer, levando Ailes, após uma avalanche repentina de inúmeras acusações de assédio, a ser demitido pelo próprio dono da corporação, o magnata Rupert Murdoch (uma ponta de Malcolm McDowell).

Realizado com um brilhantismo à toda prova, “Bombshell” parece confrontar o expectador com uma difícil questão: Por meio de quais engrenagens nocivas, uma série de mulheres empoderadas, em plena década de 2010, são levadas à compactuar com o abuso sexual? Parte efetiva e crucial de um movimento que chegou até tardiamente ao entretenimento (o de obras que registram e confrontam esse comportamento tóxico), o filme de Jay Roach oferece um panorama primorosamente cristalino e bem construído dessas circunstâncias, para deixar que a conclusão fique inteiramente à cargo do público.

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Os Últimos Na Terra


 Há uma visão que persegue inúmeros autores no sub-gênero da ficção científica distópica e pós-apocalíptica: Nessa visão persistem, num conflito moral e existencial, três protagonistas (um negro, um branco e uma mulher) a lidarem com os esmagadores sentimentos que a solidão e a obliteração da civilização lhes impôs. O encontro de tais personagens, aparentemente, ressuscita o microcosmos de intolerância que sempre norteou as instintivas ações do ser humano.

Pode parecer uma hipérbole, mas, em torno dessas circunstâncias se construíram obras como o neo-zelandês “Terra Tranquila” e o clássico “O Diabo, A Carne e o Mundo”. Cada um desses –e mais o livro homônimo “Z for Zachariah”, de Robert C. O’Brien –serve de base para o argumento, escrito por Nissar Modi, deste filme. Seu início –e, por que não, todo o desenvolvimento do resto... –segue uma linha à qual a ficção científica já habituou seus expectadores: As cenas iniciais mostram cidades norte-americanas abandonadas em sua exuberante desolação, qual as cenas já famosas do ótimo “Eu Sou A Lenda”. A personagem vestida e isolada dos pés à cabeça que perambula esses escombros, logo descobriremos, é a jovem Ann (Margot Robbie, então conhecida apenas por sua participação em “O Lobo de Wall Street”). Descobrimos também que é a radiação o grande mal que selou o destino da maior parte dos seres humanos. Habitante de regiões interioranas deste antes da tragédia, Ann mora numa fazenda localizada em um vale montanhoso, e lá, por uma série de favoráveis circunstâncias geográficas, ela se manteve segura. E solitária.

Suas incursões no mundo colapsado e sem vida à qual a civilização foi reduzida se dão em busca de comida (cada vez mais escassa) e mediante todas as devidas precauções –os sobreviventes, se é que existem, são pessoas contaminadas, doentes e desesperadas, que podem atacá-la. Em algum lugar, ela acredita, pode estar seu irmão mais novo, que saiu de casa pouco antes de tudo acontecer. Certo dia, contudo, outro sobrevivente cruza o caminho de Ann: O engenheiro pesquisador John Loomis (Chiwetel Ejiofor), depois de uma árdua caminhada dentro de um exaustivo traje de proteção, encontra o caminho até o vale e se banha nas águas do riacho próximo.

Ann o adverte a tempo de que as águas veem de fora do vale e, portanto, estão contaminadas com radiação. Ele se salva por muito pouco, adoece, e acaba padecendo por dias a fio antes de se curar. Durante todo esse tempo, Ann, que era filha do pastor local, reza pela sua melhora, ávida que estava por um mínimo de companhia humana.

John, porém, é mais arredio que ela. Sua aproximação é hesitante, cautelosa e bem pouco afetiva, para desânimo dos expectadores que esperarem uma expressão maior de romance –o que torna a escalação da lindíssima Margot Robbie algo um tanto contraditório e absurdo em relação à essa marcha engatada pela narrativa. Em grande medida, a justificativa para essa relutância sentimental é porque John é negro, e Ann, é branca.

É o terceiro vértice desse triângulo que trará sentimentos mais urgentes à relação: Lá pelas tantas aparece, como quem não quer nada, o matuto Caleb (Chris Pine). Embora abertamente obsequioso e pretensamente humilde, Caleb é voluntarioso, cheio de charme, e partilha com Ann, várias características que a diferenciam de John: Foi morador da mesma região quando menino, é devoto da mesma religião e das mesmas orações que Ann (enquanto que John só consegue esboçar seu desconforto com a fé da moça) e, para complicar, é branco!

Diante dessas questões, e da desvantagem clara, John até tenta abrir mão da mal-esboçada relação que construíra antes com Ann, mas a chegada de Caleb só evidenciou o quanto a jovem se tornou importante para ele.

Pouco interessado nas questões que levaram o mundo à uma derrocada, o filme dirigido com contenção e contemplação por Craig Zobel prefere se concentrar nas pequenas tensões, oriundas dos mínimos detalhes, a nascer entre esses personagens, todos eles, apresentando índoles distintas que conduzem à disputas, embates e discussões de natureza íntima, ancorando essa premissa no profissionalismo dos três atores em cena –dentre os quais, facilmente se destaca Margot Robbie. Algo dessa introspecção remete ao excelente “A Estrada”, de John Hilcoat, na maneira com que justapõe o comportamento e a moralidade do ser humano com a consciência de um mundo, e uma civilização, portanto, que não existem mais.

O desfecho de “Z For Zachariah” para suas celeumas intimistas e dramáticas é apropriadamente elíptico sugerindo a barbárie germinando na índole mais improvável, impelida por todas as condições favoráveis; há uma diferença, afinal, entre viver e sobreviver.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Barbie


 Se haviam ressalvas que os cinéfilos do mundo inteiro alimentavam em relação à realização de um filme estrelado pela famosa boneca Barbie, elas foram todas dissipadas quando foi anunciada, como diretora e roteirista do projeto, a pra lá de talentosa Greta Gerwig. Em suas mãos, “Barbie” é, sim, sobre a boneca mais famosa do mundo (e traz, em tal papel, uma intérprete que não poderia ser mais perfeita, a fantástica australiana Margot Robbie), mas, é também sobre todas as consequências e ramificações, positivas e negativas, acarretadas por esse legado. É sobre a eterna dicotomia entre o amor idealizado e o amor como ele é. E é, afinal de contas, sobre nós, seres humanos, e nossa dificuldade de conciliar o que é diferente.

Numa referência à “2001-Uma Odisséia No Espaço” –que já denota os altíssimos padrões assumidos pelo filme de Greta Gerwig –somos introduzidos à história da boneca Barbie cujo surgimento mudou o modo de brincar de meninas do mundo todo. Mais que isso, mudou sua mentalidade: Outrora se restringindo ao papel de mãe de suas bonecas, as meninas tiveram em Barbie um exemplo de independência e empoderamento a ser seguido. Ou pelo menos, é essa impressão que passou a reger o mundo alternativo e ligeiramente alienado conhecido como Barbieland, no qual todas as variações até hoje criadas da boneca (bem como de seu namorado, Ken) existem de verdade. Barbieland é um mundo que segue as orientações conceituais do próprio brinquedo: As inúmeras Barbies não desfazem o formato empinado de seus pés, vivem em casas transparentes e cor-de-rosas, bebem em copos vazios e vão à praias onde o mar não lhes molha. É um mundo idealizado como numa brincadeira de criança –e a brilhante direção de arte, aliada aos audazes figurinos, captura essa ideia com propriedade imediatamente notável. Tal como na aparência, também há uma espécie de alienação nos sentimentos: Ken (Ryan Gosling, extraordinário) é salva-vidas, ainda que sua ideia da ocupação seja ficar impávido e supino na areia sem jamais pisar no mar, e seu namoro com a Barbie de Margot Robbie –pois todas as habitantes de Barbieland se chamam Barbie, assim como todos se chamam Ken, salvo a exceção do deslocado Alan (Michael Cera) –jamais sai do campo da teoria. Lá, todas as noites são festivas e todos os dias são os melhores de toda vida: Barbieland e seus nada realistas habitantes refletem, portanto, a maneira com que são brincados por todas as crianças do Mundo Real.

Contudo, em algum momento, algo inesperado começa a acontecer. Barbie é assolada por súbitos pensamentos a respeito da morte e, na sequência deles, surgem celulites e seus pés começam a assentar naturalmente ao chão (!). A resposta, vinda da espirituosa Barbie Estranha (Kate McKinnon), é até simples: Em algum lugar do Mundo Real, uma menina está brincando com a Barbie dessa forma assim, diferente, causando uma anomalia que interfere em Barbieland. À sua maneira descolada, Barbie resolve partir numa viagem rumo ao Mundo Real e tentar resolver as coisas com essa menina aparentemente desiludida –levando sem querer, Ken como clandestino.

É na retratação do Mundo Real, em oposição ao imaginário lúdico de Barbieland, que o filme de Greta Gerwig poderia encontrar seu ponto fraco, mas termina revelando sua mais audaciosa inspiração, aquela que faz de “Barbie” um filme que definitivamente deixa de ser infantil para abraçar reflexões que pouco a pouco vão ganhando profundidade, complexidade e emoção –e até mesmo um pouquinho de metalinguagem! Ao chegar em Los Angeles, Barbie encontra Sasha (Ariana Greenblatt, a pequena Gamorra de “Vingadores-Guerra Infinita”) e descobre que os valores outrora representados por ela como boneca, não foram tão salutares às gerações de meninas como ela acreditava. Ken, por outro lado, toma conhecimento das ideias norte-americanas sobre o Patriarcado e por meio delas reavalia sua relação de quase submissão sentimental com Barbie, bem como de seus pares –afinal, o personagem Ken, sempre viveu e existiu em função do protagonismo de Barbie.

Perseguida pelos executivos da Mattel (!) –liderados pelo sempre hilário Will Ferrell –que a querem de volta à Barbieland sem provocar transtornos no Mundo Real, Barbie conhece Gloria (America Ferrera, de “Quatro Amigas e Um Jeans Viajante”), mãe de Sasha, a pessoa que, com sua nostalgia provocada pelo crescimento da filha causou as mudanças lúgubres na protagonista. Todas regressam para Barbieland, para encontrar o mundo idealizado e perfeito de Barbie agora virado de pernas pro ar: Não mais disposto a se restringir ao redundante papel de namorado, Ken instaurou as ideias do Patriarcado em Barbieland, e agora, os Ken reinam absolutos como ‘machos dominantes’ enquanto as demais Barbies sofreram uma espécie de lavagem cerebral assumindo o papel de namoradinhas ostensivas.

É ironicamente o conhecimento do papel desafiador da mulher no Mundo Real trazido por Gloria que irá devolver as coisas aos seus devidos lugares. Ou ao menos, tentar.

Crianças pequenas, seduzidas pelo visual pueril, exuberante e predominantemente rosa, do filme de Greta Gerwig haverão de se surpreender e até se ressentir da gradual concepção adulta que o filme vai adquirindo a medida que avança –sem jamais deixar de ser divertido e apropriadamente caricatural (e de contar com diversas piadas de duplo sentido), o roteiro de “Barbie” (escrito à quatro mãos por Greta e seu marido Noah Baumbach) aborda temas como o empoderamento feminino, a emancipação da mulher, as ramificações tóxicas do machismo e do feminismo e o difícil equilíbrio entre valores morais e sentimentos arrebatadores para se revelar um filme profundo, carregado de ideias inesperadas justapostas de forma clara, corajosa e inteligente. No admirável arco narrativo que se constrói do início ao fim, “Barbie” engata sucessivamente marchas imprevistas de tensão, revolução e dramaticidade, nessa mesma ordem, que levam o público à novas impressões, culminando numa cena poderosamente emocionante –quando Barbie, assolada por todas as mudanças provocadas por e sobre ela –encontra o fantasma de Ruth Handler (Rhea Perlman), sua criadora, e decide reconhecer e aceitar, por fim, sua própria humanidade.

Por tudo que é, por suas diversas qualidades e suas instigantes ideias, por seus vastos acertos e suas imprevistas emoções não se deve subestimar este grande filme de Greta Gerwig.

sábado, 18 de março de 2023

Babilônia


 Assim como em “La La Land-Cantando Estações”, o cinema vem a ser também fonte e inspiração deste trabalho de Damien Chazelle. Diferente daquele premiado filme, contudo, aqui Chazelle não retrata Hollywood e seus bastidores com fascínio e romantismo, mas sim com uma imprevista ênfase na sordidez que espreita nas sombras, nos excessos que levam rumo à derrocada. Para tanto, Chazelle e seu amplo, épico e ambicioso roteiro regressam até a década de 1920, o auge do cinema mudo, onde as câmeras arrojadas, requintadas e sofisticadas do diretor –habilidosas no manejo de cenas coletivas e em formidáveis planos sequências –capturam a trajetória intercalada de três protagonistas: Manny Torres (Diego Calva), um imigrante mexicano tentando a vida e a sorte em Los Angeles; Nelly LaRoy (Margot Robbie, estupenda) uma jovem e indomável estrela em ascensão; e Jack Conrad (Brad Pitt), um dos maiores galãs do período, colecionador de sucessos –e de relacionamentos mal-fadados.

Chazelle justapõe a jornada de ascensão e queda dos três personagens às grandes transições experimentadas pelo cinema, sobretudo, a chegada do som.

É na arrebatadora e exuberante cena que abre o filme –uma festa (ou seria orgia?) regada a sexo e drogas filmada com primor mesmerizante –onde o humilde faz-tudo Manny conhece a divertida, porém, instável Nelly LaRoy. A capacidade dela chamar espontaneamente para si todas as atenções da festa (e o coração apaixonado do pobre Manny) já deixa algo bem claro: É questão de tempo até que Nelly se torne uma estrela.

No mesmo local, encontramos o já veterano Jack Conrad às voltas com seu vícios, em geral, mulheres e bebida; e é sob o efeito de um porre que Manny o leva à sua mansão na manhã seguinte para então receber uma proposta do próprio Jack: Trabalhar no cinema, em meio ao caos das filmagens em locação da forma espartana com que eram feitas no cinema mudo. Com o tempo, o cinema em geral e Hollywood em particular embriaga cada um deles com seus sonhos –Manny galga os degraus  da indústria culminando num cargo respeitável de produtor executivo; Nelly, na descoberta de uma prodigiosa desenvoltura cênica (ela dança, sorri e chora com mais facilidade que qualquer outra atriz) logo ganha os holofotes e o tão aguardado estrelato; e Jack (personagem que reúne ecos de Eroll Flynn e Douglas Fairbanks) segue o hedonismo previsto em sua carreira praticamente trocando de esposa a cada nova produção –sendo uma delas a atriz teatral da Broadway interpretada por Katherine Waterson (de “Vício Inerente”). Paralelo aos três protagonistas, flagramos outros personagens, como o trombetista negro Sydney Palmer (Jova Adepo) que, embora experimente os altos e baixos da indústria graças ao seu talento com a música, nunca deixa de sentir as agruras acarretadas pela cor da sua pele; ou a cantora chinesa Lady May (Li Jun Li), também ela um dos muitos artistas a tentar sobreviver às esmagadoras engrenagens do sistema de então.

Ao percurso pessoal e profissional vivenciado por cada um deles, Damien Chazelle confronta com a inevitável transformação na forma de ver e fazer cinema quando a tecnologia do som foi inventada, mudando tudo. Com timbre ligeiramente estridente, e sem paciência para a complexa logística que os filmes sonoros exigiam dos atores (que agora tinham de decorar textos e declamá-los no tom de voz correto), Nelly encontra dificuldades para se adaptar e seus arroubos, somados ao temperamento festeiro lhe deixam em maus lençóis em Hollywood, a despeito dos esforços do apaixonado Manny para manter seu nome na ribalta, enquanto que Jack, já na fase outonal de sua carreira como galã, tem de aguentar as inesperadas chacotas com seu sotaque engraçado, e a chegada de novos e mais jovens pretendentes a astro vindo para substituí-lo. A realização de Chazelle, ao albergar as nuances dramáticas desse momento de transição do cinema se assemelha muito à “O Artista” e principalmente “Cantando Na Chuva” –que, embora seja uma produção dos anos 1950, é sabido que reaproveitou sua famosa música-título de algumas produções obscuras dos estúdios dos anos 1920, o que permite à Chazelle, numa cena, reutilizá-la.

Com um humor negro algo pesado, o tempo todo oscilando para uma dramaticidade contundente, Chazelle conduz Manny, Nelly e Jack às consequências corrosivas dos excessos que experimentaram. Esse ambicioso arco narrativo teria um impacto maior se o roteiro fosse mais criterioso, ao invés de dispersar-se em três longas horas de duração que só não resultam completamente enfadonhas graças à habilidade comprovada do diretor e ao empenho brilhante de seu elenco que ainda conta com uma ponta inesperada (e assustadora) de Tobey Maguire.

Dizer que “Babilônia” é a grande homenagem ao cinema perpetrada por Damien Chazelle é uma afirmação aberta à discordância: Ele já havia feito tal homenagem (com mais encanto e precisão) em “La La Land”. Aqui, Chazelle parece reconhecer as arestas que preferiu ignorar naquela obra, apontando suas lentes para as facetas mais degradantes e sujas de um período no qual muitos preferem enxergar uma idealizada nostalgia –à sua maneira, seu trabalho acaba lembrando o que Ken Russel fez em “Valentino-O Ídolo, O Homem”.

Apesar disso, ao fim (no qual seu filme demora MUITO a chegar) Chazelle relembra o deslumbre sem par que o cinema pode nos proporcionar, retomando a encantadora recordação da obra maior que é “Cantando Na Chuva”.

Ele lembra, com seu filme tecnicamente perfeito e narrativamente exasperante, que o cinema sempre haverá de preservar a memória de quem foi, de quem é e de quem será, não obstante as vidas de desfechos irrefreáveis que todos temos. A luz refletida na grande tela em forma de arte é um achado humano que conecta cada uma de nossas histórias, tornando-as uma só.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

O Esquadrão Suicida


 Os percalços que levaram às telas esta nova versão de O Esquadrão Suicida são um exemplo das voltas que o mundo dá: Sucesso de público e fracasso de crítica (um fenômeno muito mais comum do que pode parecer), “Esquadrão Suicida”, dirigido por David Ayer, foi um dos muitos filmes que comprometeram a viabilidade do Universo Compartilhado da DC Comics almejado pela Warner Studios.

Era consenso geral que o trabalho de Ayer foi incapaz de capturar o sarcasmo necessário aos personagens –um grupo de heróis formado por vilões –o que transformou o filme numa sucessão de incoerências e frustrações, longe da intenção inicial de fazer dele uma espécie “Guardiões da Galáxia” da Distinta Concorrência. Contudo, quis o destino que James Gunn, justamente o cérebro por trás da originalidade palpitante daquele filme da Marvel Studios, ficasse em maus lençóis com os executivos da Disney devido ao aparecimento de twits polêmicos que ele escrevera muitos anos atrás. Demitido (por pouco tempo, já que foi recontratado), James Gunn ficou assim disponível para ser recrutado pela própria Warner Bros, que não pestanejou diante da oportunidade de ciscar no terreno do vizinho.

E assim, Gunn incumbiu-se de dirigir e roteirizar um novo “Esquadrão Suicida” que a um só tempo é continuação, reinvenção, derivado e reformulação do filme anterior (a única modificação no título é o acréscimo do artigo “O”). Sob muitos aspectos, ele deixa aquele filme completamente de lado para alçar voo próprio diante das possibilidades instigantes que descobre. Roteirista e diretor brilhante (anos-luz à frente de David Ayer, diga-se), James Gunn é um conhecedor intrínseco de histórias em quadrinhos, logo, ele compreende o contexto, a proposta e a dinâmica dos personagens reunidos em “O Esquadrão Suicida” de uma forma que David Ayer jamais conseguirá. E, como diretor, possuir também uma apurada percepção de cinema também ajuda muito.

Arrojado que só, “O Esquadrão Suicida” já começa num enquadramento de câmera absolutamente audacioso, mostrando Savant (Michael Rooker), um prisioneiro que, nos moldes dos personagens do filme anterior, é recrutado pela impiedosa Amanda Waller (Viola Davis que aqui não rouba a cena porque simplesmente todos estão sensacionais) para integrar o Esquadrão Suicida –um grupo de força-tarefa cujos membros, na falta de heróis superpoderosos, são escolhidos entre os vilões mesmo.

Único personagem minimamente nobre entre eles é o Coronel Rick Flag (Joel Kinnaman), oriundo do filme anterior –também são de lá o ardiloso Capitão Bumerangue (Jai Courtney) e, claro, a doce e psicótica Arlequina, personagem que, à essa altura, a australiana Margot Robbie já tornou tão antológica quanto indissociável dela própria.

O grupo é despachado para a republiqueta sul-americana de Corto Maltese (nome que, em si, já representa uma das muitas e sensacionais referências plantadas por Gunn na trama) para um missão algo nebulosa e, logo na chegada, são atacados. E eis que a obra de Gunn revela, já aí, toda a coragem, habilidade e excelência que faltou no outro filme: Salvo Rick Flag e Arlequina todos os outros personagens acabam mortos –até mesmo o personagem de Michael Rooker, até então sugerido pela narrativa como os olhos do público!

É só o começo, literalmente –tudo isso ocorre antes mesmo dos créditos iniciais!

Em “O Esquadrão Suicida”, mais que qualquer coisa, James Gunn exercita sua capacidade de se fazer imprevisível. O andamento da trama, as mortes que se sucederão ou não, e a guinada de roteiro seguinte são elementos que dificilmente os expectadores serão capazes de prever.

Um pouco longe dali, um segundo grupo também foi recrutado e enviado, grupo este composto pelo Sanguinário (o ótimo Idris Elba), o Pacificador (John Cena, de "Bumblebee", cada vez melhor), o Homem-Bolinhas (David Dastmalchian, de “Homem-Formiga”), a Caça-Ratos 2 (Daniela Melchior) e o simultaneamente fofo e amedrontador Tubarão-Rei (voz de Sylvester Stallone).

Com habilidade insuspeita, o diretor James Gunn conduz a trama alternando esses dois grupos a medida que vai revelando algumas surpresas referentes à missão incumbida. Isso permite à Gunn explorar o termo ‘suicida’ presente em seu título –o desapego com que o diretor descarta muitos personagens ao longo do filme acrescenta um toque inesperado de suspense às situações de perigo –e operar com uma liberdade que não usufruía nem mesmo na Marvel Studios –produtora de filmes bem comportados, para todos os públicos, muito diferentes deste daqui onde Gunn enche a boca de seus personagens com impropérios e palavrões, pisa no acelerador no quesito da violência e emprega sanguinolência num nível similar somente ao que ele havia feito na produtora Troma em seu início de carreira.

De fato, “O Esquadrão Suicida” tem tudo isso; ação, violência, pancadaria, tiros e mortes, mas, é também um filme cheio de poesia: Na concepção irretocável em termos de um maior requinte cinematográfico, na escolha sublime e primordial das músicas que integram a trilha sonora (milagre que ele já havia executado em “Guardões da Galáxia”), na construção finalmente apropriada, ácida e vibrante dos personagens politicamente incorretos que tem em mãos, James Gunn finalmente mostra como fazer um filme de verdade com o Esquadrão Suicida, e de quebra entrega uma das melhores produções baseadas em histórias em quadrinhos de todos os tempos.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Adeus, Christopher Robin

Num fenômeno mais comum do que pode parecer, dois filmes chegaram aos cinemas, em meados de 2017-18, trazendo o mesmo assunto, uma versão cinematográfica da vida real de Christopher Robin, o garotinho parcialmente retratado no livro “Winnie The Pooh”.
Um deles foi “Christopher Robin-Um Reencontro Inesquecível” produzido pelos Estúdios Disney –que, como o planeta inteiro sabe, adaptaram o famoso livro numa clássica animação de 1977, “As Aventuras do Ursinho Pooh” –e estrelado por Ewan McGregor, o outro foi este “Adeus, Christopher Robin”, dirigido por Simon Curtis (do ótimo “Sete Dias Com Marilyn”).
Focando mais na infância de Christopher Robin –e, portanto, na gênese criativa do livro –o filme toma um caminho bem diferente da outra produção, muito mais fantasiosa.
Ele começa, esbanjando uma demasiada parcimônia que pode desagradar certos públicos, contando a história do pai, A.A. Milne, ou Blue (Domhnall Gleeson), como era chamado, e suas trágicas experiências durante a Primeira Guerra Mundial.
De volta do campo de batalha, Blue não consegue viver harmoniosamente com a esposa Daphn (Margot Robbie) em Londres, insistindo numa mudança para Sussex, no interior, onde desejava escrever um livro anti-belicista. No meio do caminho, os dois resolvem ter uma criança, e assim nasce o pequeno Christopher Robin, logo apelidado de Billy Moon, desde muito novo, refém das abissais neuroses dos pais: De Daph, ele recebia desprezo e pouquíssimas demonstrações de carinho porque ela, fria e recriminadora, se ressentia por ter tido um menino (queria uma menina sob o pretexto de que meninos quando cresciam iam para a guerra morrer!); de Blue, que nunca recuperou-se integralmente do stress pós-traumático adquirido na guerra, ele teve de acostumar-se à indiferença de alguém embrutecido e transtornado.
O pequeno Billy Moon (vivido pelo garoto Will Tilston) tem assim somente o afeto da babá Olive (Kelly MacDonald, de “Onde Os Fracos Não Têm Vez” e “Trainspotting”) para se refugiar.
Entretanto, quando Billy tinha por volta de seus sete anos, as circunstâncias contribuíram para que tanto Daphn (que num surto de egocentrismo resolveu, de última hora, ir para Londres comprar papéis de parede!) quanto Olive (que teve de ir cuidar da mãe adoentada) se ausentassem de casa, deixando Blue e Billy sozinhos um com o outro pela primeira vez.
Iniciado com alguns atritos –comuns entre um adulto sem o menor jeito com crianças e um garotinho criado pela babá com zelo metódico –o relacionamento entre pai e filho encontra um ponto de equilíbrio na imaginação (Blue era, afinal de contas, escritor), e com isso, os dois descobrem um mundo imaginado em comum nos bosques da propriedade da família, povoado pelos personagens que nada mais eram do que os brinquedos que Billy já tinha.
Primeiramente, isso rende um poema de autoria de Blue, “Vespers”, que logo é publicado com largo sucesso; mas, nada os prepararia para o que viria a seguir: Convocando seu grande amigo Ernest Shepard (Stephen Campbell Moore) como ilustrador, Blue cria todo um livro baseado do conceito do mundo lúdico imaginado por Billy –e ainda o coloca no livro com seu nome verdadeiro, Christopher Robin –criando a obra “Winnie The Pooh” que, de pronto, experimenta um sucesso esmagador; fenômeno mostrado no filme de maneira um tanto abrupta e rasteira.
A narrativa concentra-se mesmo no depois: O sucesso acaba cobrando um alto preço de Billy. Tornado famoso pelo livro no qual foi incluído, o menino se torna uma espécie de estrela com quem todos queriam tirar fotos. Os pais, embriagados pela adoração pública, submetem o garoto à massacrantes rotinas de entrevistas, ensaios fotográficos e matérias jornalísticas, negligenciando-lhe o direito à infância.
Ao ser matriculado num colégio interno, o bullying sofrido por Billy tem, assim, um tema todo particular.
Já mais velho (e interpretado por Alex Lawther, de “O Jogo da Imitação”), Billy toma a decisão de alistar-se no exército para lutar na Segunda Guerra Mundial –e a pressuposição de sua morte em combate parece finalmente fazer seus pais valorizarem o filho que tinham.
Nem sempre perfeito na construção de sua dramaturgia, o filme de Simon Curtis, se encontra momentos nos quais consegue atingir o expectador com sua emoção deve esse bom resultado ao ótimo elenco, onde certamente se sobressaem –em níveis oscilantes de eficiência –o trio principal, Donhnall Gleeson, Margot Robbie e Kelly MacDonald.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Eu, Tonya

Tonya Harding, pivô de um famoso escândalo envolvendo o ataque a uma de suas concorrentes nas disputadas Olimpíadas de Inverno durante os anos 1990, era uma personagem difícil, hostil, anti-social e osso duro de roer –à essas características muito humanas, o diretor Craig Gillespie acrescenta outra: Incompreendida.
Munido do formidável roteiro de Steven Rogers e produzido pela estrela Margot Robbie (que também interpreta Tonya), Gillespie consegue encontrar, num inesperado ponto de vista desta história difundida pela imprensa de então como um conto de fadas disfuncional, um relato aflitivo, ora engraçado, ora entristecedor, sobre os papéis ingratos que a vida, o ambiente nocivo que nos cerca e as redundâncias da mídia podem nos reservar.
Por meio de depoimentos alternados (e engraçadíssimos no esmero de suas caracterizações) somos apresentados aos recortes narrativos habilmente justapostos da vida de Tonya Harding (à quem Margot Robbie empresta brilho genuíno e um encanto incomum que vem dela própria) nascida na cidade de Oregon, em Portland, que, desde muito pequena, sofreu na mão da mãe autoritária, insensível e controladora, LaVona (Allison Janney, fabulosa no papel que lhe deu o Oscar 2018 de Melhor Atriz Coadjuvante).
Embora a filha tivesse uma habilidade realmente singular para a patinação no gelo, LaVona não a incentivava da maneira certa. Em vez disso, LaVona fazia cobranças desmedidas, recriminava a filha, ainda com pouca idade, pelo dinheiro que era obrigada a gastar nos treinamentos, e impunha um controle sobre a vida dela que frequentemente se convertia em abuso.
Essa criação levou Tonya a crescer grosseira, ressentida, rancorosa e beligerante.
Quando Tonya atinge a idade adulta e conhece Jeff Gilloly (Sebastian Stan) que vem a se tornar seu marido, levando-a a sair de casa e das opressões praticadas pela mãe, ela apenas troca um abusador por outro: Instável, iletrado e ignorante, Jeff tinha brigas domésticas homéricas com Tonya (que também não era alguém fácil de lidar) que sempre culminavam em agressão.
A essa vida de infortúnios, sempre com a constante ameaça da pobreza da classe baixa americana, e a discriminação por seu estatuto social proletariado, a patinação no gelo surge como uma promessa de um amanhã melhor para a tão maltratada protagonista (vale lembrar que, embora muitas cenas sejam feitas por dublês, Margot Robbie realmente treinou arduamente para executar muitas das manobras sobre patins que vemos).
Contudo, a biografia minuciosa e bem elaborada que toma conta da primeira parte do filme serve só para contextualizá-la. A parte que interessa ao público –como a própria Tonya, em dado momento, observa sarcasticamente –vem a ser a controversa participação de Tonya nas Olimpíadas de 1994, num episódio que curiosamente ficou no subconsciente do público como se tivesse sido a própria Tonya Harding quem tivesse golpeado e quebrado o joelho da competidora Nancy Kerrigan.
E muitos são os que, estranhamente, lembram do incidente dessa maneira.
Segundo o filme, não foi assim que aconteceu.
Durante as idas e vindas na relação com Jeff, Tonya se dedicava às Olimpíadas de Inverno que tinha disputado dois anos antes, e lutava para se aperfeiçoar e recuperar a forma com a qual tinha sido capaz de executar o dificílimo Salto Axel Triplo (ela foi a única patinadora americana a realizar tal feito) ganhando o Campeonato de Patinação no Gelo do Reino Unido.
Sua meta era obter a tão sonhada medalha olímpica.
Contudo, ameaças de morte acirraram os nervos de Tonya tornando a fragilidade psicológica mais um dos obstáculos que ela teria de enfrentar ainda durante o Campeonato Regional do Noroeste do Pacífico. Jeff, seu marido, numa amostra de burrice profunda, tem a ‘brilhante’ ideia de enviar cartas ameaçando de morte também a competidora de Tonya, Nancy Kerrigan (Caitlin Carver, de “Cidades de Papel”), para, na opinião dele, “igualar o jogo” –nessa empreitada estúpida, ele tem o auxílio e o incentivo do mais estúpido ainda Shawn (Paul Walter Hauser, de “O Caso Richard Jewell” e “Infiltrado Na Klan”), que afirmava atuar como guarda-costas de Tonya, quando na verdade não trabalhava com coisa alguma, enquanto morava com sua mãe e dizia para todo mundo que era perito em Contra-Espionagem e Contra-Terrorismo –é um daqueles personagens tão absurdos e non-sense que só é crível por tratar-se de um ser oriundo da vida real mesmo!
Nesse ponto do filme, por sinal, a quantidade de personagens absurdos e non-sense aumenta quando entram em cena os dois estabanados comparsas que deveriam entregar a carta de ameaça à Nancy, mas, em vez disso, são instruídos por Shawn a invadir sorrateiramente o ginásio de treinamento e quebrar-lhe a perna (!). Ocorrência que põe o FBI atrás de todos.
Para tentar elucidar uma circunstância cheia de meandros confusos –e que, à época confundiu a opinião pública –Gillespie lança mão de uma série de subterfúgios, de depoimentos subjetivos  de revelações e informações, em meio aos quais deixa claro o papel nada inocente, mas definitivamente, longe de ser o principal culpado de Tonya Harding naquilo tudo. Infelizmente, o que ocorreu, no fim das contas, é inversamente oposto: Embora Jeff e Shawn tenham sido sentenciados, Tonya foi afastada em definitivo da patinação artística a única aptidão que possuía e amava (tocante a cena –fictícia –em que ela implora ao juíz, ainda no tribunal, que não lhe tire a única coisa que sabe fazer na vida); no subconsciente do público, sua punição foi ainda mais injusta: Ela passou a ser lembrada, julgada e taxada como a grande vilã de uma história na qual entrou quase de gaiato empurrada pela má fé de outrem, pelas próprias escolhas infelizes e pelo meio tóxico em que foi criada e no qual aprendeu a viver.
É, pois, uma espécie de justiça poética que vem a lhe proporcionar este magnífico filme realizado por Graig Gillespie (uma ficção amparada em fatos reais, é sempre bom lembrar), na atuação espantosa e rica em maneirismos nada óbvios da sensacional Margot Robbie, e na tardia conscientização que provoca no público de que os EUA em particular, e o ser humano em geral, procuram, mesmo nos complicados dramas humanos como este, os estereótipos básicos e simplificados através dos quais possam amar e, sobretudo, odiar, sem maiores entendimentos.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Aves de Rapina ou Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa

“Esquadrão Suicida”, apesar da gorda bilheteria e de um absurdo Oscar de Melhor Maquiagem, carrega a pecha de ser a mais sofrível produção dentro do Universo Cinematográfico da DC Comics, que ainda assim realizou muitas obras irregulares.
Dele, é quase unanimidade que se salva a caracterização pulsante e irrequieta da belíssima Margot Robbie como a Arlequina, namorada do vilão Coringa e que incorpora praticamente uma versão dele de saias.
Assim, a Warner Studios, disposta a afastar-se dos elementos que deram errado e trilhar um caminho focado nos elementos que deram certo, bancou este novo filme que agora coloca a Arlequina sob a mira de todos os holofotes na esperança de que ela brilhe tanto quando o fez no filme anterior –e, com isso carregue todo um filme nas costas.
Aproveitando esse ensejo, esta espécie de ‘derivado’ –pois é tão deliberadamente distanciado temática e narrativamente de “Esquadrão Suicida” que sequer pode ser chamado de ‘continuação’ –começa, portanto, com Arlequina já separada do Coringa. A explicação é fornecida num prólogo animado que contorna muito bem as dúvidas e dilemas acerca de como mostrá-lo (ou não mostrá-lo) no filme.
Irritada ao constatar o fato de que toda a fama e bajulação que usufruía vinha de seu namoro com o vilão –e de que, sendo assim, sua própria periculosidade, e seu próprio gênio criminoso nada contavam –Arlequina resolve dar um basta e dedicar-se a uma espécie de emancipação.
É quanto entram em cena as outras personagens do filme e que, ao seu jeito, representam as peças do quebra-cabeça (ao lado de sua irreprimível protagonista) daquilo que sua diretora deseja contar: Conhecida por dirigir a pérola independente “Dead Pigs”, Cathy Chan assume as rédeas da produção não apenas superando com larga margem o trabalho de coordenar a ação, divertir com a história e entreter com o resultado final entregue por David Yates em “Esquadrão Suicida”, como também realiza aqui, na ênfase exultante de suas personagens e na elaboração moral e circunstancial de suas trajetórias, o que pode ser entendido quase como um manifesto feminista.
Temos, então, a Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell, ótima) que trabalha resignada como cantora de boate e motorista de um chefão do crime tentando inibir, na maioria das vezes, sua compaixão e solidariedade pelos indefesos. Há também Renee Motoya (a veterana Rosie Perez), a policial inteligente e perspicaz cujas inteligência e perspicácia, dentro da polícia de Gothan City, só serviram para beneficiar mais os homens que parasitaram seu trabalho do que ela própria; a misteriosa Caçadora (a sensacional Mary Elizabeth Winstead) que, por razões a serem esclarecidas mais tarde (num esperto jogo de informações executado pelo roteiro) está fazendo uma verdadeira chacina em membros bastante específicos da máfia de Gothan; e, por fim, a garotinha Cassandra Cain (Ella Jay Basco), adolescente de mãos ligeiras e ladra de carteiras que, ao afanar o item errado, coloca em seu encalço toda sorte de gansgters de Gothan –além de Arlequina e toda essa trupe mencionada acima!
O roteiro de “Aves de Rapina” é extraordinariamente travesso e inconformista: Refletindo a personalidade instável e alegremente esquizofrênica da Arlequina (que narra o próprio filme e quebra seguidamente a quarta parede a exemplo de “Deadpool”), as situações, construídas com inspiração por si só, se seguem num rompimento constante da linearidade como se fossem lembranças que se atropelam fora de ordem, numa narração que as embaralha para dar um aroma de reviravolta à algumas revelações.
Nele, nenhum personagem masculino chega ao final isento de falhas de caráter e de causar, de alguma maneira, mal às protagonistas.
O resultado é um filme ebuliente e colorido, assumidamente ‘girl-power’ e ocasionalmente maniqueísta, estrelado por uma personagem tão carismática e arrebatadora quanto a atriz que a interpreta, e que, junto com “Mulher Maravilha”, “Aquaman” e “Shazam!” restabelece muito da promessa de qualidade no que podem ser feito dos personagens da DC Comics daqui para frente.
O único problema é que, tão focado em sua própria estrela ele é (e Margot Robbie está realmente brilhante!) que o filme acaba negligenciando as suas outras personagens, todas igualmente ótimas (e igualmente interpretadas por atrizes fenomenais) que não ganham, porém, tanto espaço assim –se há alguém que consegue o milagre de se sobressair tão bem quanto Margot Robbie esse alguém é Ewan McGregor, dando exaltação e personalidade ao Máscara Negra, vilão da vez do filme, e personagem notadamente genérico nos quadrinhos a quem o ator consegue conferir graça e senso de ameça genuínos, tirando leite de pedra.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Era Uma Vez... Em Hollywood

Representa uma espécie de marco temático na carreira de Quentin Tarantino o épico de guerra “Bastardos Inglórios”: Ele não somente era um passo além nas tramas atrevidas e rocambolescas que ele urgia, como também representou uma prova cabal perante a indústria da qualidade de seu realizador, tão emaranhado em projetos anteriores que resgatavam a essência dos filmes B (“Kill Bill Vol. 1 e 2”, “A Prova de Morte” do “Projeto Grindhouse”) que muitos começavam a achar que eram filmes B que Tarantino passaria então a fazer.
Ao conceber aquele que promete ser um de seus últimos trabalhos antes de sua aposentadoria (ele afirma que irá parar em dez longa-metragens), Tarantino realiza aqui um compêndio de sua paixão e de sua compreensão de cinema amparado numa estrutura que, seja em sua minúcia ou em sua amplitude, remete à “Bastardos Inglórios”.
Situado no ano de 1969, “Era Uma Vez... Em Hollywood” já denota certa desconstrução daquilo que Tarantino habituou o público ao exibir um trabalho de absoluta clareza e nitidez em sua direção de fotografia (a cargo de Robert Richardson) –não é intenção dele, desta vez, recriar a impressão dos filmes feitos naquele período, como ele o fez com os filtros empoirados e envelhecidos de “A Prova de Morte”; aqui, Tarantino quer recriar a impressão de se estar naquele período, a acompanhar lado a lado a trajetória de seus três maravilhosos protagonistas, o ator Rick Dalton (Leonardo Dicaprio), o dublê Cliff Booth (Brad Pitt) e a atriz Sharon Tate (Margot Robie).
Rick foi astro de uma série televisiva de faroeste –e, desde então, seu dublê, Cliff trabalha como seu braço direito e ‘faz tudo’, inclusive como seu motorista –entretanto, ele apostou tudo numa tentativa de emplacar como astro de cinema. Algo que, num diálogo ocorrido em uma das primeiras cenas, o diretor vivido por Al Pacino deixará bem claro que está cada vez mais longe de acontecer: Como no estupendo diálogo inicial entre o Coronel Hans Landa e o fazendeiro francês em “Bastardos...”, o diálogo entre Pacino e Dicaprio começa amistoso, cheio de frivolidade, contudo, mestre da escrita que é, Tarantino usa os elementos da dinâmica para distorcer sua condução e transformar a gentileza em crueldade (sem, no entanto, fazer parecer que deixou de ser gentileza).
Para Rick Dalton, o fracasso sinaliza com os papéis de vilões a que ele parece restringido e às oportunidades, que ele considera pouco lisonjeiras, para fazer faroestes na Itália (com Sergio Corbucci!).
Nesse ínterim, Cliff acompanha o amigo, pairando com a máxima descontração possível sobre os dramas do showbuziness, sem deixar de ser ocasionalmente afetado por um ou outro: Apesar da atitude boa praça, corre o boato de Cliff ter assassinado a própria esposa (trecho que Tarantino revela num audacioso flashback dentro de um flashback), e também a famigerada história do arranca-rabo que ele arranjou com Bruce Lee em pessoa (vivido de forma assoberbadamente caricatural por Mike Moh).
Já, Sharon Tate –a única personagem real dentre os protagonistas –é um caso à parte. Ela tem pouco diálogos, e mesmo sua presença nos planos de câmera é rápida demais para podermos contemplar o suficente a adequação inebriante de Margot Robie ao papel (que, diga-se de passagem, está fabulosa). Ela paira, etérea, pelas cenas do filme como se tivesse vida demais para todo aquele restante de intriga urbana que Tarantino materializa. Sua cena mais longa é também uma das mais memoráveis do filme: Quando ela entra num cinema exibindo “Matt Helm Contra A Arma Secreta” não para ver o filme, mas para se deliciar anonimamente com as reações do público à sua participação.
“Era Uma Vez... Em Hollywood” é assim uma amostra notável desse gênio que manipula as engrenagens da narrativa cinematográfica como poucos, contudo, Tarantino não está só em sua excelência. Após ganhar um merecidíssimo Oscar de Melhor Ator por “O Regresso”, Dicaprio prova que nem por isso deixou de ser formidável –seu Rick Dalton é engraçado, passional e vulnerável, equilibrando facetas tão bem trabalhadas e estudadas como os cacoetes de quando se vê constrangido ou as inseguranças de quando se vê testado.
 Também ele sensacional (ainda que num personagem não tão complexo), Brad Pitt reina supremo em pelo menos duas das melhores cenas de todo o longa (talvez, duas das melhores cenas do ano!): A primeira, quando uma carona nada inocente a uma hippie ninfeta o leva até uma comunidade alternativa gerenciada por ninguém menos que Charles Mason. O suspense que Tarantino impõe nessa sequência é de uma execução genial no entendimento absoluto dos códigos que dilatam e comprimem a narrativa.
A segunda, se dá já no retumbante trecho final do filme, e é preciso –por conta dela –lembrar que, talvez, aqueles expectadores que entrarem no cinema ignorantes da história real envolvendo a atriz Sharon Tate e seu marido, o diretor Roman Polanski, podem não ficar tão impactados com o clímax, ou nem tampouco, entender a desconfiguração de realidade que o filme promove: Como em “Bastardos Inglórios”, Tarantino não resiste, nessa parte final, à tentação de reescrever a história. E ele o faz com tal convicção raivosa que transforma essa cena em uma catarse.
Este é um filme de detalhes que parecem aleatórios em primeira mão, mas que haverão de se mostrar –sobretudo nesse desfecho magistral –serem estratégias plantadas com astúcia quando tudo se fundir num só empuxo narrativo.
Deixem eu deslumbrar-me com “Era Uma Vez... Em Hollywood”, porque ele é um filme deslumbrante.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2018

Saíram o nome de todos os indicados ao Globo de Ouro, um dos prêmios mais importantes da temporada que pavimenta o caminho para o prêmio maior, o Oscar.
Vamos às indicações e às considerações (lembrando que aqui só serão mencionados os indicados de cinema):

Melhor filme dramático
"Me chame pelo seu nome"
"Dunkirk"
"The post"
"A forma da água"
"Três anúncios para um crime"

De imediato já se lamenta a ausência de Denis Villeneuve e seu primordial “Blade Runner 2049”. Mas os cinco indicados até que resumem bem o supra-sumo qualitativo do ano, com o elogiado filme de Guillermo Del Toro surpreendentemente superando em indicações os trabalhos de Nolan e Spielberg.

Melhor ator em filme dramático
Timothée Chalamet, "Me chame pelo seu nome"
Daniel Day Lewis, "Trama fantasma"
Tom Hanks, "The post: A guerra secreta"
Gary Oldman, "O destino de uma nação"
Denzel Washington, "Roman J. Israel, Esq."

Com a exceção do jovem Timothée Chalamet por "Me Chame Pelo Seu Nome", esta categoria vem dominada por veteranos: Daniel Day Lewis, no seu alardeado último filme da carreira, Tom Hanks, no que parece ser mais uma colaboração vencedora com Steven Spielberg, Denzel Washington, em mais uma costumeira amostra de seu brilhantismo. Todos já possuem mais de um Globo de Ouro debaixo do braço, o único que jamais conquistou o prêmio é Gary Oldman, espero que este seja o seu ano.

Melhor atriz de filme dramático
Jessica Chastain, "A grande jogada"
Sally Hawkins, "A forma da água"
Frances McDormand, "Três anúncios para um crime"
Meryl Streep, "The post: A guerra secreta"
Michelle Williams, "Todo o dinheiro do mundo"

Os rumores apontam um possível domínio de Frances McDormand nesta temporada: Ao que parece, seu trabalho em “Três Anúncios Para Um Crime” iguala sua premiada atuação em “Fargo”. Mas, ainda dá para torcer por Jessica Chastain, impecável como sempre no primeiro filme dirigido pelo prestigiado roteirista Aaron Sorkin, por Sally Hawkins, maravilhosa interpretando uma surda-muda na bizarra história de amor de Del Toro e até por Michelle Williams no filme de Ridley Scott.
Em meio à todas, ela, sempre ela, Meryl Streep, desta vez sob a direção de ninguém menos que Steven Spielberg, o quê deve pesar e muito na decisão de quem premiar...

Melhor diretor
Guillermo del Toro, "A forma da água"
Martin McDonagh, "Três anúncios para um crime"
Christopher Nolan, "Dunkirk"
Ridley Scott, "Todo o dinheiro do mundo"
Steven Spielberg, "The Post"

Por alguma estranha razão, as premiações revelam-se rabugentas com as obras de Christopher Nolan nesta categoria –ele aparece aqui, com a esperança de um reconhecimento pairando no ar, mas certamente terá de superar a elogiada produção de Spielberg e mais ainda, o favoritismo que parece estar se construindo em torno de Del Toro.
Curiosa também a lembrança de Ridley Scott por um filme que está sendo mais falado pelo fato de terem removido a participação de Kevin Spacey –trocado por Christopher Plummer –já durante a pós-produção, em razão de denúncias de assédio sexual.

Melhor filme de comédia ou musical
"O artista do desastre"
"Corra!"
"O rei do show"
"I, Tonya"
"Lady Bird: é hora de voar"

Uma vez que relevamos o detalhe ridículo de terem indicado numa categoria reservada para filmes de comédia uma obra de terror (o ótimo “Corra!”), dá para dizer que os filmes indicados aqui até superam os da categoria de drama.
Ao menos no fator curiosidade: Quer algo mais interessante que um filme elogiadíssimo inspirado nos bastidores do pior filme de todos os tempos (o infame “The Room”, de Tommy Wiseau), uma traquinagem notável cortesia do ator James Franco.
A cotação dos demais, “O Rei do Show”, “I, Tonya” e “Lady Bird” não poderia ser melhor.
Resta saber qual deles irá despontar como favorito. Por ora, muito se fala de “O Rei do Show”, mas minha aposta vai para James Franco e seu “O Artista do Desastre”.

Melhor atriz em filme de comédia ou musica
Judi Dench, "Victoria e Abdul: o confidente da rainha"
Helen Mirren, "The Leisure Seeker"
Margot Robbie, "I, Tonya"
Saoirse Ronan, "Lady Bird"
Emma Stone, "A guerra dos sexos"

A ganhadora do ano passado, Emma Stone surpreendeu emplacando mais uma indicação, agora por um filme muito bem avaliado dos mesmos diretores de “Pequena Miss Sunshine”. Aparentemente, suas maiores concorrentes são a linda Margot Robbie, que surpreendeu meio mundo com a força de sua atuação em “I, Tonya” e a sensacional dama inglesa Judi Dench por “Victoria e Abdul”.
Emma e Margot que me perdoem, mas minha torcida é dela!

Melhor ator em filme de comédia ou musical
Steve Carell, "A guerra dos sexos"
Ansel Elgort, "Em ritmo de fuga"
James Franco, "O artista do desastre"
Hugh Jackman, "O rei do show"
Daniel Kaluuya, "Corra!"

Adorei a indicação de Ansel Elgort –esse garoto vai longe! –como também a do sempre carismático Hugh Jackman (num papel que tem bem a cara dele, de ‘showman’) e, vá lá, a do talentoso Daniel Kaluuya (embora eu insista: O filme dele não é comédia!!!).
No entanto, por uma série de razões é James Franco, pelo já memorável “O Artista do Desastre” quem merecia a supremacia nesta temporada de prêmios.

Melhor atriz coadjuvante
Mary J. Blige, "Mudbound"
Hong Chou, "Pequena grande vila"
Allison Janney, "I, Tonya"
Laurie Metcalf, "Lady Bird: É hora de voar"
Octavia Spencer, "A forma da água"

Melhor ator coadjuvante
Willem Dafoe, "Projeto Flórida"
Armie Hammer, "Me chame pelo seu nome"
Richard Jenkins, "A forma da água"
Christopher Plummer, "Todo o dinheiro do mundo"
Sam Rockwell, "Três anúncios para um crime"

Há um comentário subliminar na indicação de Christopher Plummer por um filme no qual ele entrou aos quarenta e cinco do segundo tempo, substituindo o ator original Kevin Spacey. Mas, Plummer é um ator fenomenal e não tenho dúvidas de que merece a lembrança.
No mais há uma certa tendência em reconhecer o trabalho de Willem Dafoe que pode se sair bem na temporada de premiações, seu maior concorrente é, sem duvidas, Armie Hammer.

Melhor animação
"O Poderoso Chefinho"
"The Breadwinner"
"Viva: A vida é uma festa"
"O touro Ferdinando"
"Com amor, Van Gogh"

“Viva-A Vida É Uma Festa”, da Pixar, ainda não estreou aqui no Brasil, mas vem arrebatando público e crítica mundo afora, como é habitual do estúdio, o que já fez dele o favorito da categoria contra obras curiosas como o lírico “Com Amor, Van Gogh” ou a recriação nos tempo de hoje (leia-se, em computação gráfica) do cultuado curta animado “O Touro Ferdinando”, pelo brasileiro Carlos Saldanha.

Melhor canção original
"Home", "O touro Ferdinando"
"River", "Mudbound"
"Viva: a vida é uma festa"
"The star", "The star"
"This is me", "O rei do show"

Melhor trilha sonora
Carter Burwell, "Três anúncios para um crime"
Alexander Desplat, "A forma da água"
Johnny Greenwood, "Trama fantasma"
Hans Zimmer, "Dunkirk"
John Williams, "The post: a guerra secreta"

Melhor filme estrangeiro
"Uma mulher fantástica" (Chile)
"First they killed my father" (Camboja)
"In the fade" (Alemanha)
"Loveless" (Rússia)
"The square" (Suécia)

Por aqui, pelo menos, nada do nosso “Bingo-O Rei das Manhãs”... Dentre estes cinco, os mais falados e comentados são “First They Killed My Father”, dirigido por Angelina Jolie e com todo o engajamento que se espera dela, e “The Square”, o filme sueco estrelado por Elizabeth Moss (da série “Mad Men”) e vencedor da Palma de Ouro no último festival de Cannes.

Melhor roteiro
"A forma da água"
"Lady Bird"
"The Post: a guerra secreta"
"Três anúncios para um crime"
"A grande jogada"

Agora é só esperar e especular. Os vencedores serão anunciados na cerimônia do dia 7 de janeiro.