Mostrando postagens com marcador Mary Elizabeth Winstead. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mary Elizabeth Winstead. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Kill The Messenger

Um grande filme investigativo agraciado com uma belíssima interpretação de Jeremy Renner, este “Kill The Messenger” –genericamente traduzido como “O Mensageiro” em português –une as orientações cinematográficas que definem grandes obras do sub-gênero como o clássico “Todos Os Homens do Presidente” e o premiado “Spotlight-Segredos Revelados” a um senso de denúncia que por vezes acaba rondando circunstâncias bem reais, mas que por seu teor mirabolante e absurdo soam inacreditáveis. Nesse sentido, o trabalho do diretor Michael Cuesta se aproxima da comédia de aventura “Feito Na América”, com Tom Cruise, todavia, se aquele era um trabalho que descontraía o expectador fazendo-o divertir-se com as guinadas tortuosas de sua premissa, também baseada num fato real, aqui, a condução metódica e austera de Cuesta impõe uma densa e adulta seriedade.
Está em pauta a lógica jornalística que foi torcida diante das circunstâncias.
Jeremy Renner vive Gary Webb, repórter do jornal regional San Jose Mercury News. Na busca por uma história bombástica e na proximidade intuitiva com alguns traficantes, ele acaba conhecendo Coral Baca (a absolutamente deliciosa Paz Vega), esposa de um traficante condenado disposta a entregar a Webb um documento que veio parar por acidente em suas mãos: Um protocolo rasurado e confidencial sobre Danilo Blandon (Yul Vazquez), um agente da CIA –talvez, um informante, talvez, um infiltrado –que tinha conexões com traficantes em todo solo americano.
Até aí nada demais. Contudo, ao aprofundar suas investigações, Webb descobre que Danilo Blandon, na qualidade de agente duplo a serviço da CIA, era mais que um mero espião entre os traficantes: Ele era um dos maiores e mais expressivos fornecedores de drogas dos EUA!
Tudo leva à constatação, mais tarde corroborada por outras fontes de Webb, de que o governo dos EUA contribuiu para a circulação de drogas ilegais em certos guetos americanos desde que o dinheiro ilicitamente obtido por esse tráfico financiasse uma guerrilha destinada a provocar uma revolução na Nicarágua, ditando os rumos políticos daquele país.
Sem intimidar-se com as advertências que as fontes encontradas lhe dão (ao mesmo tempo que confirmam, extraoficialmente toda essa verdade), Webb segue em frente e escreve uma matéria que coloca o pequeno San Jose Mercury News no radar de gigantes da mídia jornalística como o Washington Post e outros.
Contudo, os grandes jornais –e, portanto, os jornalistas profissionais neles inseridos –têm ligações com a CIA e, por conta delas, sua postura é defensiva para com os orgãos do governo: Na sequência às revelações, eles procuram invalidar a descoberta de Webb e, aos poucos, em função das próprias convicções, passam a atacá-lo e desacreditá-lo.
A pressão é tamanha que se estende até os profissionais que trabalhavam com Webb, sua editora Anna Simmons (Mary Elizabeth Winstead) e o dono do jornal Jerry Ceppos (Oliver Platt); ambos intimidados e pressionados pela postura antagônica dos veículos de mídia maiores acabam por negligenciar o empenho de Webb em perseguir a verdade, afastando-o da execução do jornalismo.
Esta é, pois, uma trama sobre um “Davi contra Golias” onde os desdobramentos não obedecem sobremaneira as expectativas do público, tão acostumado a ver a verdade prevalecer, sobretudo, em âmbitos americanos nos quais essa máxima é tão defendida.
Mais do que expor uma verdade desconcertante acerca de atividades obscuras e duvidosas do governo americano, o filme coloca o íntegro e transparente Gary Webb na angustiante posição de um mártir terminando por apontar os lapsos morais quando outros profissionais da área do jornalismo priorizam fatores secundários (e de interesse pessoal) em detrimento da verdade.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Aves de Rapina ou Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa

Esquadrão Suicida”, apesar da gorda bilheteria e de um absurdo Oscar de Melhor Maquiagem, carrega a pecha de ser a mais sofrível produção dentro do Universo Cinematográfico da DC Comics, que ainda assim realizou muitas obras irregulares.
Dele, é quase unanimidade que se salva a caracterização pulsante e irrequieta da belíssima Margot Robbie como a Arlequina, namorada do vilão Coringa e que incorpora praticamente uma versão dele de saias.
Assim, a Warner Studios, disposta a afastar-se dos elementos que deram errado e trilhar um caminho focado nos elementos que deram certo, bancou este novo filme que agora coloca a Arlequina sob a mira de todos os holofotes na esperança de que ela brilhe tanto quando o fez no filme anterior –e, com isso carregue todo um filme nas costas.
Aproveitando esse ensejo, esta espécie de ‘derivado’ –pois é tão deliberadamente distanciado temática e narrativamente de “Esquadrão Suicida” que sequer pode ser chamado de ‘continuação’ –começa, portanto, com Arlequina já separada do Coringa. A explicação é fornecida num prólogo animado que contorna muito bem as dúvidas e dilemas acerca de como mostrá-lo (ou não mostrá-lo) no filme.
Irritada ao constatar o fato de que toda a fama e bajulação que usufruía vinha de seu namoro com o vilão –e de que, sendo assim, sua própria periculosidade, e seu próprio gênio criminoso nada contavam –Arlequina resolve dar um basta e dedicar-se a uma espécie de emancipação.
É quanto entram em cena as outras personagens do filme e que, ao seu jeito, representam as peças do quebra-cabeça (ao lado de sua irreprimível protagonista) daquilo que sua diretora deseja contar: Conhecida por dirigir a pérola independente “Dead Pigs”, Cathy Chan assume as rédeas da produção não apenas superando com larga margem o trabalho de coordenar a ação, divertir com a história e entreter com o resultado final entregue por David Yates em “Esquadrão Suicida”, como também realiza aqui, na ênfase exultante de suas personagens e na elaboração moral e circunstancial de suas trajetórias, o que pode ser entendido quase como um manifesto feminista.
Temos, então, a Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell, ótima) que trabalha resignada como cantora de boate e motorista de um chefão do crime tentando inibir, na maioria das vezes, sua compaixão e solidariedade pelos indefesos. Há também Renee Motoya (a veterana Rosie Perez), a policial inteligente e perspicaz cujas inteligência e perspicácia, dentro da polícia de Gothan City, só serviram para beneficiar mais os homens que parasitaram seu trabalho do que ela própria; a misteriosa Caçadora (a sensacional Mary Elizabeth Winstead) que, por razões a serem esclarecidas mais tarde (num esperto jogo de informações executado pelo roteiro) está fazendo uma verdadeira chacina em membros bastante específicos da máfia de Gothan; e, por fim, a garotinha Cassandra Cain (Ella Jay Basco), adolescente de mãos ligeiras e ladra de carteiras que, ao afanar o item errado, coloca em seu encalço toda sorte de gansgters de Gothan –além de Arlequina e toda essa trupe mencionada acima!
O roteiro de “Aves de Rapina” é extraordinariamente travesso e inconformista: Refletindo a personalidade instável e alegremente esquizofrênica da Arlequina (que narra o próprio filme e quebra seguidamente a quarta parede a exemplo de “Deadpool”), as situações, construídas com inspiração por si só, se seguem num rompimento constante da linearidade como se fossem lembranças que se atropelam fora de ordem, numa narração que as embaralha para dar um aroma de reviravolta à algumas revelações.
Nele, nenhum personagem masculino chega ao final isento de falhas de caráter e de causar, de alguma maneira, mal às protagonistas.
O resultado é um filme ebuliente e colorido, assumidamente ‘girl-power’ e ocasionalmente maniqueísta, estrelado por uma personagem tão carismática e arrebatadora quanto a atriz que a interpreta, e que, junto com “Mulher Maravilha”, “Aquaman” e “Shazam!” restabelece muito da promessa de qualidade no que podem ser feito dos personagens da DC Comics daqui para frente.
O único problema é que, tão focado em sua própria estrela ele é (e Margot Robbie está realmente brilhante!) que o filme acaba negligenciando as suas outras personagens, todas igualmente ótimas (e igualmente interpretadas por atrizes fenomenais) que não ganham, porém, tanto espaço assim –se há alguém que consegue o milagre de se sobressair tão bem quanto Margot Robbie esse alguém é Ewan McGregor, dando exaltação e personalidade ao Máscara Negra, vilão da vez do filme, e personagem notadamente genérico nos quadrinhos a quem o ator consegue conferir graça e senso de ameça genuínos, tirando leite de pedra.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Love, Death + Robots

Não é nem um pouco coincidência o fato desta primorosa antologia de contos de ficção científica animados lembrar a estrutura narrativa do clássico “Heavy Metal-Universo Em Fantasia”: Durante muito tempo, os produtores, os também diretores David Fincher (“Seven”, “Clube da Luta”) e Tim Miller (“Deadpool”) cultivaram a ideia de criar uma nova versão de “Heavy Metal” para uma nova geração.
Entretanto, a visão autoral e irredutível de Fincher (cujo perfeccionismo sempre partiu da consciência de qualidade em suas obras) esbarrou na intervenção desnecessária de executivos que financiavam a produção, então nos estúdios da Paramount, o que empacou o projeto por anos, até ele ser enfim viabilizado pela Netflix, perdendo, no processo, a famosa alcunha que lhe atrelava àquele clássico da animação.
São dezoito episódios animados absolutamente fenomenais em sua temática, radicais em seus estilos completamente diferenciados (que, por conta disso, também fazem lembrar bastante “Animatrix”), e tão geniais quanto admiráveis em suas ousadias:

Quando O Iogurte Assumiu O Controle
Num tom de galhofa que até remete enganosamente ao humor das animações convencionais –dirigidas ao público infantil –descobrimos uma história na qual um produto lacticínio dotado de propriedades incomuns, um iogurte (!), adquire vida própria e com isso, passa a interferir nos assuntos políticos da humanidade.
Provando-se certo em inúmeros aspectos, o iogurte (que se comunica através de vozes emitidas em suas bolhas ou de palavras escritas em seu cereal de letrinhas!!!) vai acumulando cada vez mais poder, se tornando proprietário incondicional do Estado de Ohio (!) –que, por sua influência, torna-se uma potência imune às mazelas de outros locais do mundo.

Era do Gelo
Fundindo encenação live-action com animação computadorizada, este episódio dirigido pelo próprio Tim Miller relata o caso surreal de um casal (Mary Elizabeth Winstead e Topher Grace) que descobre uma civilização nos moldes da humana vivendo em seu congelador –e, portanto, atravessando um período similar a da Era do Gelo!
A civilização em miniatura, no entanto, é tão pequena quanto fugaz: Suas vidas transcorrem numa velocidade muito maior, o que faz com que o casal testemunhe, em questão de minutos, a sua evolução, suas descobertas tecnológicas, a propensão à guerra e, por fim, à auto-destruição quando os pequeninos descobrem, enfim, a fusão nuclear.

A Vantagem de Sonnie
Um grupo de apostadores de estranhas lutas ilegais –onde o usuário incorpora espécies de monstros de seu subconsciente, controlando-os com a mente –perscruta uma jovem competidora com fama de ser implacável; no entanto, eles a confrontam com a ordem de perder deliberadamente uma luta para que possam lucrar com sua aposta.
A jovem, porém, irá surpreendê-los com uma curiosa reviravolta.
Um ótimo episódio, enxuto, visualmente envolvente e complexo no questionamento que faz a respeito dos monstros que existem em todos nós –alguns, como aqui, literalmente!

Os Três Robôs
Num início que remete diretamente a “Exterminador do Futuro”, de James Cameron, acompanhamos um descontraído tour turístico de três robôs de inteligência artificial –um deles, divertidamente similar ao Hal-9000 de “2001-Uma Odisséia No Espaço” –por um planeta Terra completamente devastado, quando a Humanidade se encontra então extinta.
Os robôs trocam impressões, interessados por aquela tal raça humana que tanto os intrigava com suas contradições –e, nessa observação plena de inteligência, a animação permite reflexões existencialistas contundentes e inesperadas sem abrir mão do bom humor.

A Testemunha
O mais sensual de todos os episódios não economiza em cenas de nudez de sua personagem protagonista, evidenciando claramente o entusiasmo dos realizadores em poder utilizar elementos como sexo e violência em animação de qualidade com proporções antes tidas como improváveis no circuito comercial.
Num cortiço de uma metrópole aparentemente oriental, uma jovem garota de programa vê, por acaso, da janela de um prédio, o assassinato de outra jovem da mesma profissão –e, para efeitos de ordem tanto alegórica quanto paradoxal, que farão maior sentido no desfecho, a jovem morta é uma duplicata exata dela!
Segue-se uma fuga desenfreada, onde a jovem tenta escapar do encalço do assassino, culminando em um ato de violência para salvar a própria vida.

Noite de Pescaria
Dois homens, um jovem e outro mais velho (pai e filho, talvez), ambos engravatados, viajam por um deserto à noite quando o carro enguiça.
Na desolada noite que se segue, eles são surpreendidos por aparições etéreas de criaturas marítimas em pleno deserto, qual miragens.
O jovem se deixa levar por essa espécie de embriaguez visual, o mais velho, porém, não deixa de perceber (um tanto quanto tarde demais) que mesmo ali espreitam perigos muito reais.

Proteção Contra Alienígenas
Uma mescla muito interessante de contemporaneidade e futurismo define este episódio –o que pode ser visto como ‘cyberpunk’, um conceito usado na grande maioria dos outros episódios.
Aqui, um fazendeiro norte-americano e sua esposa (assim como toda sua vizinhança) usam maquinários pilotáveis cujo formato são de imensos robôs –parecidíssimos com as máquinas vistas em “Aliens-O Resgate”, “Avatar” e em “Matrix Revolutions”.
Tais máquinas são empregadas em combates ferozes contra criaturas alienígenas que se materializam nas redondezas e atacam o gado. No entanto, a aparição de um portal descomunal –pelo qual passarão milhares daquelas criaturas –pode colocar toda a comunidade em perigo se três deles não conseguirem bloquear a invasão.

Sugador de Almas
Dentro de uma tumba milenar, um grupo de mercenários armados até os dentes se depara com o que um veterano arqueólogo junto deles afirma ser o próprio Conde Drácula (!).
Contudo, o retrato de Drácula aqui é absolutamente distinto dos vampiros elegantes e sedutores personificados por Bela Lugosi ou Christopher Lee: Neste episódio explosivo, vertiginoso e ininterrupto, ele é um monstro de selvageria implacável –minto, na verdade, há algo que o faz parar: Ao que parece, Drácula teme a mera presença de um gato (!).
Uma animação que curiosamente lança mão de preceito improváveis para construir uma abordagem bem desigual do mito do vampiro.

Para Além da Fenda de Áquila
Lembrando um pouco a premissa do rocambolesco e irregular “The Cloverfield Paradox”, este episódio parte da tortuosa aventura de um astronauta membro de uma tripulação que deveria permanecer em estado inanimado durante sua viagem espacial. Algo acontece durante a passagem por um portal, e o astronauta se vê diante de uma mulher bela e enigmática –quase uma versão de femme fatale no espaço sideral.
E, como tal, ela também guarda estarrecedores segredos: Revelações que farão o protagonista rever o que ele presume como sendo realidade.

Boa Caçada
Dotado de um fatalismo inerente às animações japonesas que busca evocar, este episódio acompanha a relação surgida entre um jovem caçador e inventor japonês e uma transmorfa capaz de oscilar entre as formas de uma linda mulher e de uma raposa de cauda imensa –um ser figurativamente folclórico no Japão.
Iniciada na floresta, a relação parece caminhar para uma espécie de romance proibido a medida que ele se enternece pela beleza dela e a acoberta de outros caçadores.
Mas, a guinada de sua trama chega a ser cruel: Cada qual ao seu jeito, ambos vão do campo para a cidade industrializada. Ele finalmente aderindo à sua aptidão como inventor. Ela, cedendo ao fato de que sua beleza serve de mercadoria aos homens.
Ao se reencontrar em uma noite, ela mostra que seu corpo é agora cibernético (!), pois foi drogado, mutilada e submetida a operações por um cliente doentio e abusivo –de seu corpo orgânico só restou a cabeça; tudo o mais virou máquina.
Ela, portanto, precisa da ajuda dele que, com suas habilidades mecânicas, criará um novo corpo cibernético, capaz também ele de assumir uma forma de raposa, com a qual ela poderá levar justiça às mulheres exploradas.

O Lixão
Não obstante o alto padrão de qualidade mantido aqui, em algum momento um dos episódios precisa arcar com a alcunha de ‘ponto baixo da obra’ –essa ingrata tarefa parece pairar sobre este conto sarcástico de terror mais do que sobre outros.
Um senhor vive num depósito de lixo. Com a chegada muito esparsa de um cético inspetor, ele tenta convencê-lo, sem muito sucesso, de que existe uma forma de vida potencialmente perigosa surgida dos entulhos tóxicos do lixo.
Carregado de ironia e sarcasmo, o episódio procura observar os meios inesperados que a vida tem de se manifestar e co-existir, ao mesmo tempo em que dá uma alfinetada nos procedimentos inclementes das grandes corporações.

Metamorfos
Ambientado na guerra do Oriente Médio, vemos o exército norte-americano lançar mão de um recurso inesperado, extraído inevitavelmente do terreno da fantasia: Alguns indivíduos no batalhão são lobisomens –denominados ‘metamorfos’ –e, portanto, além da força e resistência sobre-humanas, eles são capazes também de perceber armadilhas graças aos seus sentidos aguçados, sobretudo seu olfato. Apesar de tudo, é inevitável que essas criaturas –que assumem a forma humana na maior parte do tempo –sofram certa rejeição da parte dos soldados comuns.
Dois deles são parceiros numa mesma tropa lidando com essas condições quando descobrem algo preocupante: Que também existem perigosos ‘metamorfos’ atuando ao lado do Taliban!

Ajudinha
Num episódio que parece fundir as premissas de “Gravidade” e “127 Horas”, uma astronauta se vê solitária em meio à manutenção de um satélite em plena órbita terrestre. Um mero parafuso em rota de colisão, contudo, a coloca em sérios apuros: Sua ponta fura seu tanque de oxigênio, e ela se desprende do satélite e de sua nave, flutuando à deriva. Ela precisa arremessar algo para que o efeito de compensação a leve para perto da nave outra vez, mas quando acabam suas opções ela só tem uma alternativa: Se auto-mutilar (!).

13-O Número da Sorte
Numa guerra indefinida, transcorrida num futuro próximo, uma mulher, piloto de aeronave coleciona árduas missões, sempre no comando da aeronave N° 13, tida pelos demais militares como agourenta devido à sua numerologia e às fatídicas mortes de suas duas equipes anteriores.
Apesar de achar-se imune ao fator má sorte, a comandante, numa de suas últimas missões, justamente a 13ª, precisa fazer um sacrifício para salvar a si e aos soldados que deveria resgatar.

Zima Blue
Uma brilhante e profunda reflexão sobre a arte, a vida e a mortalidade. Neste conto, num futuro distante, acompanhamos a trajetória do misterioso artista Zima, pelos olhos de uma jovem jornalista que tenta compreender os propósitos de um enigmático quadro azul que surgiu timidamente em suas obras –e que depois passou a predominar sobre elas.
Logo, o próprio Zima aparece para esclarecer suas intenções e suas origens, dando à animação um rumo assombrosamente inesperado.

Ponto Cego
Uma perseguição nas estradas em um futuro distante. Embora a premissa desse mundo seja bem preenchida por detalhes pertinentes e um desenvolvimento de personagens imensamente satisfatório para sua curta duração, o episódio é pouco mais que uma grande cena de ação –e isso, de modo geral, só depõe a favor do talento dos realizadores.
Um grupo de robôs de alta tecnologia –a ponto de possuírem, inclusive, personalidades bastante singulares –persegue um comboio por uma estrada. Eles devem impedi-lo de chegar a um determinado ponto; nem que para isso precisem se sacrificar.
O final, após tanta adrenalina, reserva uma reviravolta bem interessante.

Histórias Alternativas
‘Multiversidade’ é uma espécie de sistema que oferece a oportunidade de contemplarmos multiversos onde a História conhecida seguiu rumos um pouco diferentes.
Aqui, observamos seis realidades alternativas que mostram diferentes mortes sofridas por Adolph Hitler (de forma hilária, por sinal) antes que ele tivesse chance de ascender como o Fuhrer nazista.
As consequências são muitas vezes imprevisíveis e, com frequência, debochadas.

A Guerra Secreta
Numa sequência que lembra muito os gráficos de videogames como “Medal Of Honor” ou “Gears Of War” –e que, por seu teor eletrizante, foi escolhida para encerrar esta antologia –acompanhamos uma tropa de dedicados soldados soviéticos no que parecem ser os anos 1910 ou 20. Ao contrário dos inimigos de praxe, eles combatem seres monstruosos que teriam sido convocados inadvertidamente por oficiais russos, e agora ameaçam infestar as montanhas gélidas da Sibéria e chegar até os povoados.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Scott Pilgrim Contra O Mundo

É quase impossível resistir à vontade de comparar uma obra cinematográfica com sua fonte original em quadrinhos quando é lançada uma adaptação, por mais que não seja algo aconselhável: Apesar das semelhanças significativas e, em alguns casos, fascinantes, entre as duas versões, é uma tendência natural que a versão impressa da história, devido ao seu ritmo literário subjetivo, à liberdade do autor e à amplitude do formato, seja mais detalhada e completa, dando ao filme a impressão de que ele mutilou e simplificou a história.
Embora seja dirigido com absoluto brilhantismo por Edgar Wright (realizador do magnífico “Todo Mundo Quase Morto”), essa não deixa de ser uma sensação que persegue o expectador em “Scott Pilgrim Contra O Mundo” quando se compara o filme e a HQ.
Outro problema –bem mais pessoal da minha parte –é a escolha do inadequado Michael Cera (de “Juno”) para interpretar Scott Pilgrim, um personagem irrequieto, carismático em sua falta de noção, e completamente distinto do registro abobalhado que Cera lhe dá (e que se repete, na verdade, em todas as atuações do ator): É nítido que a escolha do protagonista foi uma das poucas intervenções do estúdio nesta produção –prova disso é que todos os outros personagens são maravilhosamente bem escalados.
Jovem canadense e guitarrista de uma banda obscura, o ligeiramente desligado Scott Pilgrim conhece, um belo dia, uma garota que lhe transforma a vida: a misteriosa e linda Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead, de “Rua Cloverfield 10”, um arraso!).
Para namorá-la, contudo, Scott deve vencer um desafio; derrotar um a um os sete ex-namorados malignos que Ramona teve antes de conhecê-lo –o primeiro namoradinho, o indiano Matthew Patel (Satya Bhabha), o às do skate e astro de cinema nas horas vagas, Lucas Lee (Chris Evas, de “Capitão América”), o guitarrista e vegano metido a besta Todd Ingram (Brandon Routh, que estrelou “Superman-O Retorno”, de Bryan Singer), namorado por sua vez da belíssima Envy Adams (Brie Larson, sensacional como sempre), famosa rockstar e ex de Scott (!), a enfezada e mortífera Roxy Richter (Mae Whitman), um breve affair lésbico de Ramona (!), os gêmeos Kyle e Ken Katayanagi (Keita Saitou e Shôta Saitô), e o líder de todos, o manipulador Gideon Graves (Jason Schwartzman, impagável).
Todos têm poderes alucinantes (e inesperados para quem assiste o filme de maneira casual) e representam assim, nesta vibrante adaptação da festejada graphic-novel de Bryan O’ Malley, o originalíssimo contexto no qual a narrativa está inserida: Absorvendo elementos, premissas e circunstâncias dos jogos de videogame, o filme se estrutura em “fases” representadas pelas lutas contra cada ex-namorado/adversário, que Scott Pilgrim deve derrotar, assim como também deve, nesse processo, encontrar um meio de amadurecer, para conseguir administrar o relacionamento que conquista com Ramona a cada combate. Isso dá ao filme um dinamismo e um apelo próprio e cativante, efeito que os quadrinhos originais já causavam. É claro que nas HQs os pormenores desse relacionamento (o cerne real da obra, ao invés das lutas) e suas mínimas mudanças eram explorados com muito mais tempo e precisão, rendendo uma analogia extraordinariamente encantadora (e proporcionando uma presença muito maior e mais significativa à personagem de Knives Chau, vivida por Ellen Wong, essencial à trama e à seus desdobramentos, relegada, aqui, a uma participação infelizmente bem menor), mas o diretor Wright certamente obtém o melhor resultado possível dentro do limitado tempo de um longa-metragem.
Seu filme é cheio de sentimento e de cenas tão espantosas quando cativantes, fruto de sua técnica afiada e audaz, e do entendimento sensato do enredo, do ritmo e das motivações.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Rua Cloverfield 10

Uma sensação das mais gratificantes é perceber que os realizadores deste filme ignoraram o formato “found footage” do filme anterior –“Cloverfield-Monstro” –para conceber este na linguagem tradicional: “Rua Cloverfield 10” é, por isso mesmo, puro cinema, e isso é só uma das ótimas supresas que ele reserva.
Em primeira lugar é equivocado defini-lo como continuação do intrigante longa-metragem de 2008; está mais para uma expansão de histórias ambientadas provavelmente no mesmo universo em que ocorreram, embora as conexões entre esses dois filmes continuem extremamente tênues.
“Rua Cloverfield 10” começa sem enrolações com Michelle, a personagem da maravilhosa Mary Elizabeth Winstead, prestes a deixar o noivo, o quê ela faz em poucos segundos de filme: O roteiro é tão prático, objetivo e equilibrado que muito (ou tudo) do quê precisamos saber sobre a personagem já nos é passado nas primeiras breves cenas, e todas elas ainda prescindem da necessidade de diálogos.
Enquanto está na estrada, o carro de Michelle sofre um acidente e, ao acordar, ela se vê numa espécie de porão, presa à parede por uma corrente e deitada em um colchão.
A explicação virá ainda mais alarmante pelo próprio homem que aparentemente a salvou, o taciturno e suspeito Howard (o fantástico John Goodman): Michelle está em um bunker projetado por ele para refugiar-se de um eventual fim do mundo, que segundo o próprio Howard, ocorreu mais ou menos por volta de quando a jovem se acidentou –ele corria para lá quando a encontrou na estrada.
E, sendo portanto, este filme, parte do cânone que integra aquele filme de monstro produzido por J.J. Abrahams (que retorna como produtor aqui), podemos de início deduzir que os eventos catastróficos mencionados por Howard podem ter ligação com a criatura mostrada na outra produção. Todavia será apenas isso, deduções, que esta obra absolutamente instigantes nos reservará durante boa parte de sua duração.
Muito dessa perplexidade parte da condição subjetiva em relação à Michelle que o filme impõe ao expectador: E Mary Elizabeth Winstead faz jus à ancoragem que o filme exige dela, assumindo um protagonismo convicto e espontâneo, mesmo diante de uma  montanha de talento como Goodman.
Junto desses dois está Emmet (John Gallagher Jr.), um rapaz que ratifica a história contada por Howard, embora de início, Michelle não dê crédito a nenhum dos dois: Ela –como nós todos –deseja ver, e saber, o perigo que se espalha lá fora, e também entender a natureza desse perigo, sua origem e gênese, e descobrir afinal, em que condições ele deixou o mundo.
Essa falta de notícias parece alarmar somente a ela, que começa também a achar bastante estranho o fato de Howard encarar com indiferença o quê se passa lá fora.
Como o brilhante suspense que é, “Rua Cloverfield 10” deixa todas essas questões em aberto (O quê, de fato, ocorreu ao mundo lá fora? O cataclisma sugerido por Howard é real, ou uma mentira? E o próprio Howard, até que ponto ele é, de fato, confiável?) até a hora certa, envolvendo o público numa série de artifícios simples, e que certamente aparecem numa infinidade de outras produções, mas que, em geral, são tão raramente bem empregados, que é um motivo de júbilo o fato deste filme simples e bem acabado saber lidar tão magnificamente bem com eles.
Não parecer ser nem um pouco por acaso que um dos roteiristas creditados do projeto seja Damien Chazelle (que dirigiu e escreveu o primoroso, enxuto e essencial “Whiplash-Em Busca da Perfeição): É muito daquela precisão quase cirúrgica de ritmo e lógica narrativos que vemos transcorrer em cena.