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sábado, 18 de março de 2023

Babilônia


 Assim como em “La La Land-Cantando Estações”, o cinema vem a ser também fonte e inspiração deste trabalho de Damien Chazelle. Diferente daquele premiado filme, contudo, aqui Chazelle não retrata Hollywood e seus bastidores com fascínio e romantismo, mas sim com uma imprevista ênfase na sordidez que espreita nas sombras, nos excessos que levam rumo à derrocada. Para tanto, Chazelle e seu amplo, épico e ambicioso roteiro regressam até a década de 1920, o auge do cinema mudo, onde as câmeras arrojadas, requintadas e sofisticadas do diretor –habilidosas no manejo de cenas coletivas e em formidáveis planos sequências –capturam a trajetória intercalada de três protagonistas: Manny Torres (Diego Calva), um imigrante mexicano tentando a vida e a sorte em Los Angeles; Nelly LaRoy (Margot Robbie, estupenda) uma jovem e indomável estrela em ascensão; e Jack Conrad (Brad Pitt), um dos maiores galãs do período, colecionador de sucessos –e de relacionamentos mal-fadados.

Chazelle justapõe a jornada de ascensão e queda dos três personagens às grandes transições experimentadas pelo cinema, sobretudo, a chegada do som.

É na arrebatadora e exuberante cena que abre o filme –uma festa (ou seria orgia?) regada a sexo e drogas filmada com primor mesmerizante –onde o humilde faz-tudo Manny conhece a divertida, porém, instável Nelly LaRoy. A capacidade dela chamar espontaneamente para si todas as atenções da festa (e o coração apaixonado do pobre Manny) já deixa algo bem claro: É questão de tempo até que Nelly se torne uma estrela.

No mesmo local, encontramos o já veterano Jack Conrad às voltas com seu vícios, em geral, mulheres e bebida; e é sob o efeito de um porre que Manny o leva à sua mansão na manhã seguinte para então receber uma proposta do próprio Jack: Trabalhar no cinema, em meio ao caos das filmagens em locação da forma espartana com que eram feitas no cinema mudo. Com o tempo, o cinema em geral e Hollywood em particular embriaga cada um deles com seus sonhos –Manny galga os degraus  da indústria culminando num cargo respeitável de produtor executivo; Nelly, na descoberta de uma prodigiosa desenvoltura cênica (ela dança, sorri e chora com mais facilidade que qualquer outra atriz) logo ganha os holofotes e o tão aguardado estrelato; e Jack (personagem que reúne ecos de Eroll Flynn e Douglas Fairbanks) segue o hedonismo previsto em sua carreira praticamente trocando de esposa a cada nova produção –sendo uma delas a atriz teatral da Broadway interpretada por Katherine Waterson (de “Vício Inerente”). Paralelo aos três protagonistas, flagramos outros personagens, como o trombetista negro Sydney Palmer (Jova Adepo) que, embora experimente os altos e baixos da indústria graças ao seu talento com a música, nunca deixa de sentir as agruras acarretadas pela cor da sua pele; ou a cantora chinesa Lady May (Li Jun Li), também ela um dos muitos artistas a tentar sobreviver às esmagadoras engrenagens do sistema de então.

Ao percurso pessoal e profissional vivenciado por cada um deles, Damien Chazelle confronta com a inevitável transformação na forma de ver e fazer cinema quando a tecnologia do som foi inventada, mudando tudo. Com timbre ligeiramente estridente, e sem paciência para a complexa logística que os filmes sonoros exigiam dos atores (que agora tinham de decorar textos e declamá-los no tom de voz correto), Nelly encontra dificuldades para se adaptar e seus arroubos, somados ao temperamento festeiro lhe deixam em maus lençóis em Hollywood, a despeito dos esforços do apaixonado Manny para manter seu nome na ribalta, enquanto que Jack, já na fase outonal de sua carreira como galã, tem de aguentar as inesperadas chacotas com seu sotaque engraçado, e a chegada de novos e mais jovens pretendentes a astro vindo para substituí-lo. A realização de Chazelle, ao albergar as nuances dramáticas desse momento de transição do cinema se assemelha muito à “O Artista” e principalmente “Cantando Na Chuva” –que, embora seja uma produção dos anos 1950, é sabido que reaproveitou sua famosa música-título de algumas produções obscuras dos estúdios dos anos 1920, o que permite à Chazelle, numa cena, reutilizá-la.

Com um humor negro algo pesado, o tempo todo oscilando para uma dramaticidade contundente, Chazelle conduz Manny, Nelly e Jack às consequências corrosivas dos excessos que experimentaram. Esse ambicioso arco narrativo teria um impacto maior se o roteiro fosse mais criterioso, ao invés de dispersar-se em três longas horas de duração que só não resultam completamente enfadonhas graças à habilidade comprovada do diretor e ao empenho brilhante de seu elenco que ainda conta com uma ponta inesperada (e assustadora) de Tobey Maguire.

Dizer que “Babilônia” é a grande homenagem ao cinema perpetrada por Damien Chazelle é uma afirmação aberta à discordância: Ele já havia feito tal homenagem (com mais encanto e precisão) em “La La Land”. Aqui, Chazelle parece reconhecer as arestas que preferiu ignorar naquela obra, apontando suas lentes para as facetas mais degradantes e sujas de um período no qual muitos preferem enxergar uma idealizada nostalgia –à sua maneira, seu trabalho acaba lembrando o que Ken Russel fez em “Valentino-O Ídolo, O Homem”.

Apesar disso, ao fim (no qual seu filme demora MUITO a chegar) Chazelle relembra o deslumbre sem par que o cinema pode nos proporcionar, retomando a encantadora recordação da obra maior que é “Cantando Na Chuva”.

Ele lembra, com seu filme tecnicamente perfeito e narrativamente exasperante, que o cinema sempre haverá de preservar a memória de quem foi, de quem é e de quem será, não obstante as vidas de desfechos irrefreáveis que todos temos. A luz refletida na grande tela em forma de arte é um achado humano que conecta cada uma de nossas histórias, tornando-as uma só.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Animais Fantásticos - Os Crimes de Grindelwald

Tanto J.K. Rowling (autora e, aqui, roteirista do próprio projeto) quanto o diretor David Yates não se acomodaram em completar a “”Saga Harry Potter”; passado um tempo, enveredaram por esta nova franquia que lança um pouco mais de luz ao rico universo mágico criado para ambientar aquela história –desta vez, com a atenção voltada para o passado daquele mundo bruxo. Se o primeiro, “Animais Fantásticos e Onde Habitam” se ambientava em Nova York, este segundo, passeia por Londres e Paris, dando continuidade aos eventos lá mostrados.
O ano é 1927 e, portanto, faz pouco menos de um ano que o perigoso bruxo Grindelwald (Johnny Depp, um vilão no meio do caminho entre o memorável e o medíocre) foi capturado naquele episódio turbulento nos EUA. Sua fuga, contudo, transcorre já no prólogo.
Grindelwald é terrivelmente perigoso e poderoso –tanto que o Ministério Britânico de Magia está convencido de que apenas um bruxo no mundo tem poder o bastante para enfrentá-lo: O famoso professor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Alvo Dumblodore, aqui vivido em uma versão mais jovem (ainda que igualmente excelente) por Jude Law. Contudo, Dumblodore tem uma espécie de ligação com Grindelwald que os impede de atacar um ao outro –uma manobra fundamental à história que, de certa forma, ratifica uma afirmação já antiga acerca da homossexualidade de Dumblodore.
Cientes de que são adversários e de que um deve encontrar um meio de neutralizar o outro, tanto o bruxo do bem quanto o bruxo do mal já têm lá seus estratagemas para driblar esse obstáculo: Para Grindelwald, o único indivíduo dotado de poder o bastante para sobrepujar Dumblodore é o jovem Credence (Ezra Miller) que, no filme anterior, revelou-se um obscurus –uma entidade de extremo poder destrutivo originado de uma vida de rancor –e havia sido dado como morto; não morreu, Credence ainda vive e está em Paris à procura de respostas sobre seu passado orfão, ao lado da bela Nagini (Claudia Kim), uma garota transmorfa condenada a assumir em breve a forma permanente de uma serpente gigante –certamente, a mesma serpente que aparece nos filmes de “Harry Potter” a servir o maligno Voldemort.
Já, Dumblodore enxerga no arredio Newt Scamander (Eddie Redmayne, ainda duvidoso como protagonista) a única alternativa confiável para confrontar Grindelwald sem que ele próprio se envolva; e com isso, arremessa Newt novamente na trama deste filme, primeiramente procurando pela americana Tina Goldstein (Katherine Waterston) nas ruas de Paris, ao lado do não-bruxo Jacob (Dan Fogler) e da irmã dela, Queenie (Alison Sudol), duas das presenças mais radiantes e carismáticas do filme anterior, cujas trajetórias ganham aqui grande importância junto ao plot central, além de um viés bem mais sombrio e fatalista em comparação ao seu despreocupado romance do primeiro filme.
Essa descrição não chega a esboçar por completo a trama algo rocambolesca urgida para esta obra que multiplica ainda mais seu núcleo de personagens pertinentes, em especial, ao mostrar a sempre desolada Leta Lestrange (Zoe Kravitz), personagem mencionada brevemente no filme anterior, cujo sobrenome é o mesmo da personagem Belatriz, de “Harry Potter e A Ordem da Fênix”; e o irmão do protagonista, Teseu Scamander (Callum Turner, de “Rainha & País”), sugerindo formar (ou ter formado) com Newt e Leta um relutante triângulo amoroso.
Também as auto-referências aqui se amontoam em profusão (a mais descarada delas, além da participação de Dumblodore, que deve ser maior nos próximos filmes, é a ponta até divertida de Nicolau Flameu, citado num momento de “Harry Potter e A Pedra Filosofal”), só não comprometendo o resultado final graças à aprofundada experiência que Yates e Rowling possuem junto a esse universo, fazendo a narrativa passear com suavidade pelas diversas circunstâncias mágicas desse mundo ao qual eles tornam sempre um prazer poder regressar.
“Os Crimes de Grindelwald” guarda em si a maior parte das características dos filmes de transição da “Saga Harry Potter” –sobretudo, “O Enigma do Príncipe” –nas quais seus acontecimentos obedecem uma orientação que presume-se instintivamente só terá desfecho em filmes futuros, onde nada encontra um desenlace de fato, e tudo se mantém em suspense ou em mistério (ou em ambos), e apesar de tudo isso, dessa ambígua predisposição para negar respostas, ele ainda se mostra um filme envolvente e fluido, prazeroso de ser visto.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Aconteceu Em Woodstock


O abalo sísmico provocado por “O Segredo de Brokeback Mountain” na crítica e no público foi tamanho que, alguns anos e alguns projetos depois, o diretor Ang Lee ainda produzia sob a sombra dessa repercussão –uma espécie de necessidade de se provar e se manter naquele mesmo nível de relevância cinematográfica.
Certamente há algo disso a orientar “Aconteceu Em Woodstock”, uma realização exemplar e brilhante, mas destituída daquilo que mais supostamente teria: Espontaneidade.
Ang Lee inicia seu filme imerso num silêncio muito condizente com a cidadezinha de White Lake, no estado de Nova York, onde se ambienta a trama. Lá, todas as características típicas da pequena e deliberadamente medíocre comunidade interiorana norte-americana convergem. Até a trilha sonora que toca, portanto, soa abafada e retraída.
Sabemos, entretanto, que muito barulho virá: Elliot Tiber (Demetri Martin) é um jovem morador com tímidas pretensões artísticas. Todos os seus esforços, no entanto, são dirigidos para harmonizar a situação dos pais, Sonia (Imelda Stanton) e Jake (Henry Goodman) –imigrantes russos, proprietários de um pequeno hotel caindo aos pedaços, eles não se acertam com ninguém, exceto com o parcimonioso Elliot, que para tanto, deixou sua morada em Greenwich Village para ficar com os velhos.
Em meio ao tédio local, o máximo que Elliot se permite é organizar um pequeno festival de música todo o ano –que atrai, quando muito, uma meia dúzia de moradores...
Contudo, eis que a cidade vizinha, Wallkills, estava prestes a sediar um festival de música hippie –com atrações muito famosas daqueles idos de 1969 –e os organizadores foram, da noite para o dia, desamparados pelos proprietários locais.
Disposto a usar a oportunidade para agitar a freguesia claudicante de seu hotel, Elliot não perde tempo e liga para os organizadores com uma ideia inusitada e prática: O alvará para seu insosso e medíocre festival de música foi tirado sem problemas pelas autoridades, sendo assim ele pode usá-lo, ainda que num festival de proporções –imagina ele –um pouco maiores!
Elliot mal pode imaginar que está acendendo o estopim para uma experiência sem precedentes que marcará, de forma inapelável, toda a cultura norte-americana.
Austero como sempre em sua observação das incongruências humanas (e revelando um olhar extraordinariamente afiado sobre meandros comportamentais americanos para um cineasta taiwanês), Ang Lee tem a sensatez de desviar sua narrativa de participações famosas (como Janis Joplin ou Jimmie Hendrix) ou mesmo de facetas mais grandiosas do Woodstock em si para priorizar as pessoas comuns, Elliot e seus pais (que, de normais, não têm absolutamente nada), os moradores perplexos de White Lake (o proprietário das terras usadas para o evento, vivido por Eugene Levy, o ator-assinatura da série “American Pie”; o rabugento cidadão vivido por Jeffrey Dean Morgan e seu irmão, alucinado e veterano do Vietnam, interpretado por Emily Hirsch) e toda sorte de indivíduos inacreditáveis que o festival atrai: O travesti (!) e ex-veterano da guerra da Coréia, Vilma, personificado com brilho insólito por Liev Schreiber; o hippie Michael (Jonathan Groff), um dos responsáveis pelo festival cuja atitude sempre lisérgica parece algo fora da realidade; o doidão em LSD (Paul Dano, ótimo), e sua namorada (Kelli Garner, inebriante) que surgem no momento mais psicodélico do filme; e tantos outros.
“Aconteceu Em Woodstock” marca também a segunda incursão como roteirista de James Schamus, produtor de todos os filmes de Ang Lee, a primeira foi “Hulk” –é curioso notar que, embora de origens, procedimentos e naturezas absolutamente distintas, há alguma afinidade entre esses dois projetos, em especial, a forma com que a narrativa se vale de múltiplos quadros para dividir as cenas enfatizando, aqui, o caos gradativo presente nos preparativos e, mais tarde, a fascinante pluralidade que contaminou esse festival lendário.

sábado, 2 de setembro de 2017

Alien - Covenant

Desde que se aventurou a revisitar (e a pré-sequenciar) sua obra-prima “Alien”, de 1979, com “Prometheus”, de 2012, e este “Alien-Covenant”, Ridley Scott tem buscado nas mais altas inspirações uma forma de ramificar sua criação com exemplares à altura do inspirado trabalho que ele mesmo entregou.
Até agora, porém, isso não deu certo.
Se “Prometheus” e seu roteiro multifacetado e equivocadamente desconexo se aproveitavam de elementos extraídos do livro “As Montanhas da Loucura”, de H.P. Lovecraft (que sem dúvida, também inspirou o próprio “Alien”), este novo trabalho parece ser influenciado diretamente por “A Ilha do Dr. Moreau”, de H.G. Wells.
É quase como numa versão do Dr. Moreau daquele livro –alguém que, na concepção de grandeza que atribui a si mesmo e na disponibilidade de recursos que obteve, tenta brincar de Deus –que reencontramos o andróide David, interpretado por Michael Fassbender, remanescente de “Prometheus” e a maior conexão, por assim dizer, deste filme com aquele.
O outro andróide da trama, Walter, é também ele vivido por Michael Fassbender e integra, por sua vez, a tripulação da nave Covenant, destinada a cruzar o espaço sideral até um planeta a ser colonizado.
Algo, porém, muda os rumos da missão de maneira trágica –complicações que terminam tirando a vida de seu capitão (uma ponta não creditada de James Franco) e despertando o restante da tripulação (que inclui nomes como Demien Bichir e Danny McBride) do hipersono do qual só acordariam em uns sete anos.
E o filme, assim, já começa errado: Dando uma justificativa cheia de meandros desnecessariamente complicados para o seu ponto de partida e estabelecendo uma motivação (a morte de seu marido, o personagem de Franco) para a protagonista Daniels (Katherine Waterston, de “Vício Inerente” e “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, chorona e apática) que pouco afeta o público ainda nesse início.
A liderança da nave Covenant passa assim para Oram (Billy Crudup, canastrão) que deixa-se intrigar pelas mensagens de rádio vindas de outro planeta desconhecido e toma a precipitada decisão de rumar para lá averiguar.
É a partir daí que o filme de Scott introduz o personagem do andróide David, retomando-o uma década depois dos acontecimentos do filme anterior, desta vez, tentando atrelar a si mesmo o papel de criador, e não de criatura, enquanto se vale das circunstâncias a disposição para dar vida à monstros, iniciando assim as conexões narrativas deste “Covenant” com “Prometheus” e, na intenção vaga dos realizadores, com o restante da franquia “Alien” –isso porque, sim, o monstrengo aparece aqui, indo de encontro a uma das questões frustrantes do filme anterior, mas ele não faz muito mais do que isso (simplesmente aparecer) no que diz respeito a honrar toda mitologia que se criou em torno daquele grande filme.
Marcado por cacoetes de filmes de terror –entre os quais a criação de personagens estabanados, condenados a tomar sempre a decisão errada que sela seu destino, e outros visivelmente feitos somente para morrer, diálogos constrangedores e cenas gratuitas que precedem mortes sangrentas, como o providencial banho no chuveiro com nudez –o difícil é ignorar o fato de que o próprio Ridley Scott está vulgarizando o conceito que ele mesmo criou.
Mas, claro, há uma produção milionária que garante excelência e beleza a todo o aparato técnico.
Ridley Scott tentou consertar, é verdade, os equívocos de “Prometheus” conseguindo, no processo tão somente cometer equívocos novos e se distanciando ainda mais daquele primor que em “Alien” ele pareceu executar com tanta facilidade.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Animais Fantásticos e Onde Habitam

“Harry Potter” rendeu muito dinheiro. Por mais que a integridade artística da criadora, J.K. Roling a levasse a dizer que a história estava encerrada, era bastante claro que o estúdio, e os produtores envolvidos em algum momento iriam encontrar um modo de retomar o filão. Fosse por meio de um derivado, ou de uma continuação direta ou indireta.
É assim, então, que chegamos a este “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, que se passa cronologicamente algumas décadas antes das aventuras do bruxinho na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts –nunca ficou muito claro em que época se passavam as histórias de Harry Potter, mas podemos presumir, por este daqui, que isso se dava no presente –e foca sua atenção em Newt Scamander (Eddie Redmayne, de “A Teoria de Tudo” numa atuação arredia, acanhada e titubeante), escritor bruxo, autor do livro que dá nome à este novo filme –e que, à título de informação, era um livro utilizado nas aulas das crianças em Hogwarts.
Newt chega à Nova York em meados da década de 1950, e o filme (em seu esplendor visual estonteante) vale-se justamente desse detalhe –ambientar-se nos EUA –para elaborar infindáveis cenas de encher os olhos (afinal, os outros filmes todos se passam exclusivamente na Inglaterra). Ele tem uma missão específica, que nunca ganha a devida importância na narrativa: Isso porque tão logo chega às ruas de N.Y., Newt arruma uma enorme confusão quando alguns dos animais mágicos que ele carrega em sua maleta (!), começam a escapar graças às confusões envolvendo o humano normal Jacob (Dan Fogler, construindo um personagem com zelo e sensibilidade) que depois se torna seu amigo.
Todas essas confusões atraem a atenção da ex-investigadora Tina (Katherine Waterston, de “Vício Inerente”, aparentando inadequação no papel de mocinha desajeitada e tímida) que, assim como muitos bruxos de N.Y. está atrás de uma criatura mágica que tem provocado caos e destruição nas ruas, e que pode estar relacionada ao inspetor vivido por Colin Farrel (o desfecho guarda uma surpresa interessante envolvendo este personagem), ou ao jovem estranho interpretado por Ezra Miller, membro do misterioso culto de uma mulher alienada e ameaçadora (Emily Watson).
O diretor David Yates parece ter nascido para dirigir as obras ambientadas neste universo mágico (ele é o realizador dos quatro últimos filmes da franquia, sendo de longe o diretor que mais trabalhou com os filmes de Harry Potter): Sua condução é mais do que apenas exemplar e envolvente, ela é apaixonada, dando ênfase aos vários detalhes que compõe a narrativa, abrilhantando aspectos, conduzindo-os com apreço e interesse. Seu amor por aquele universo e aqueles (numerosos) personagens e conceitos é perfeitamente visível e impregnado em cada frame, o seu outro filme lançado em 2016, “A Lenda de Tarzan”, nem chega perto de demonstrar a mesma perícia e desenvoltura.
Outro acerto feliz do filme é o fato de ser roteirizado pela própria criadora J.K. Rowling, o quê dá ao filme unidade, incipiência narrativa, equilíbrio e solidez, as mesmas características que ela soube levar à prosa das versões literárias.
Se há um problema em “Animais Fantásticos”, eles são seus protagonistas. Vencedor do Oscar de Melhor Ator em 2015, Eddie Redmayne emprega em Newt Scamander inúmeras características de outros personagens que interpretou, fazendo dele um apanhado de tiques e hesitações que não casam com um protagonista à frente de uma produção dessa envergadura. De certa maneira o mesmo vale para Katherine Waterston, que demora quase toda a primeira metade do filme para convencer o expectador.
Mas, se os dois protagonistas são hesitantes, os dois coadjuvantes que os acompanham são maravilhosos: Tanto Dan Fogler, quando a bela e encantadora Alison Sudol, no papel de Queenie, irmã de Tina, são sensacionais e cativantes –desde já torço para que ambos estejam na continuação.
O diretor Yates parece compreender e perceber isso, jogando sobre os dois toda a atenção na bonita e singela cena final.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Vício Inerente

Não é fácil encarar uma obra de Paul Thomas Anderson. Filmes como “Sangue Negro” ou “O Mestre” são herdeiros diretos da filosofia de Stanley Kubrick na qual os enredos corrosivos servem à uma sondagem impiedosa do homem e de suas pulsões.
Desde “Jogada de Risco”, Anderson dedica o olhar de sua câmera à essa dramaturgia tão particular, por meio da qual resgata valores e códigos para estudá-los até que ponto são capazes de definir seus personagens.
Para Anderson as influências mais positivas têm, ainda sim, um poder de corrupção.
Vejamos, por exemplo, o protagonista de “Vício Inerente”, o detetive particular (e maconheiro incorrigível nas horas vagas) Larry ‘Doc’ Sportello, vivido por Joaquim Phoenix. Passando mais tempo sobre o efeito do êxtase da maconha do que lúcido, Sportello se incumbe de uma investigação toda ela pontuada por princípios pessoais: A mulher que ele ama, Shasta (Katherine Waterston, vista este ano em “Animais Fantásticos e Onde Habitam”) desapareceu quase que de forma mirabolante, e esse mistério vem cercado por ocorrência nebulosas e fatos suspeitos que ligam Sportello à um violento policial com tendências homossexuais (Josh Brolin) e ao amante da jovem (Eric Roberts), um ricaço por quem ela o trocou.
Durante boa parte da lisérgica e confusa trajetória à procura de respostas –na qual, paradoxalmente, são as perguntas que mais se multiplicam –Sportello se defronta com inúmeros outros personagens bastante indicativos não só do gênero noir com o qual o filme –e certamente o dificílimo livro de Thomas Pinchon, no qual se baseou –busca uma irmanação e também uma revisão, mas também da época à qual pertencem, anos 1970, suas inusitadas posturas intelectuais e ideologias, e do estilo sempre rocambolesco, denso, desconcertante e humano imposto por seu diretor. Para tanto –e para que tal trajetória tenha um mínimo de empuxo no que concerne à narrativa –Anderson transforma as breves aparições de Katherine Waterston em instantes tão belos e surreais, quanto sensuais, quase tem-se a impressão –e Anderson é bom nisso! –que a cena seguinte ao surgimento dela será o despertar de algum sonho do protagonista.
O elenco de rostos tão talentosos quanto conhecidos que Anderson reúne para ilustrar essa via crusis onde a necessidade de inteligibilidade e dedução se colide com a indiferença e a ausência de austeridade que caracterizou aqueles tempos é de fazer inveja à qualquer superprodução: Benicio Del Toro como um advogado cheio das manias; Reese Whiterspoon como uma procuradora sujeita à algumas ‘fraquezas da carne’; Owen Wilson como um homem desaparecido que aparece em todo lugar (!); Martin Short como um dentista amoral e pernicioso.
Tudo isso molda um filme muito estranho, primoroso na forma com que seu diretor registra o drama humano que transcorre na tela, mas absolutamente disperso, perdido e tortuoso na definição do quê, afinal de contas, esse drama humano está a relatar.