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terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Viajantes - Instinto e Desejo


 “Voyagers” é um filme cheio de boas intenções. O que, em geral, define o cinema do diretor Neil Burger, um bom realizador de obras promissoras como “Sem Limites” e “O Ilusionista”, mas que sempre carecem de algo frequentemente incategorizável para se tornarem grande cinema de fato. Talvez seja o detalhe de que, em todos os casos (inclusive o de “Voyagers”), hajam sempre obras cinematográficas muito melhores e mais reconhecidas com as quais a comparação sempre se faz desfavorável.

“Voyagers” parte de uma premissa que lembra “Interestelar” na qual, devido às complicações de sempre, o planeta Terra não mais suporta a vida. A Humanidade, logo, deve procurar refúgio nas estrelas, e um grande êxodo, rumo a um longínquo planeta habitável tem início. A ideia é simples, ainda que espartana e, à sua maneira, cruel: Numa viagem interespacial de cerca de 80 anos, estima-se que somente a terceira geração da tripulação original estará viva para testemunhar a chegada dos humanos a esse novo lar. Ou seja, os tripulantes enviados daqui da Terra dificilmente estarão vivos para ver isso acontecer.

A partir dessas considerações, toda uma nova geração de crianças é concebida. Eles aprendem desde cedo a lidar com a tecnologia, a trabalhar em equipe, e a sentir familiaridade no ambiente recluso, impessoal e estéril de uma nave espacial. O único adulto a voluntariar-se a partir com eles é Richard (Colin Farrell). Durante algum tempo (anos, na verdade!), a viagem segue harmoniosa pelos confins siderais, até que a tripulação (que, à propósito, recebia uma deliberada receita química de inibidores para seus impulsos sexuais e comportamentais mais agressivos) atinge a idade adolescente.

Um deles, Christopher (Tye Sheridan, de “Árvore da Vida” e “Jogador Nº 1”) descobre o misterioso composto químico que lhes é servido diariamente e, junto de seu melhor amigo, Zac (Fionn Whitehead, de “Dunkirk”) decide parar de tomar a fim de ver o que irá acontecer. Logo, Christopher e Zac descobrem sua libido até então adormecida –e partilham ambos de um forte desejo por Sela (Lily Rose-Depp, filha do astro Johnny Depp com a cantora francesa Vanessa Paradis) –e têm seus instintos pessoais desenvolvidos: Christopher descobre sua predisposição para a liderança, enquanto que Zac deixa aflorar uma injustificada agressividade latente.

Quando Richard acaba morrendo em um acidente cercado de circunstâncias nebulosas (algumas apontando até para um possível envolvimento de Zac), o grupo que resta na nave (de jovens adolescentes responsáveis pela viabilidade de todo o plano até a chegada ao planeta, dentro de algumas décadas) se divide entre duas lideranças bem distintas: De um lado o comando racional e civilizado de Christopher, disposto a manter as regras estipuladas por Richard até o fim; do outro, as propostas questionadoras de Zac, cuja iniciativa seduz seus seguidores ao focar na comida (que eles controlam) e não na manutenção dos sistemas operacionais (que ele vê como um trabalho pelo qual nenhum deles teve o direito de escolha).

Christopher, portanto, representa os deveres necessários e fundamentais, e sua liderança aponta às responsabilidades nada satisfatórias, mas essenciais à sobrevivência; enquanto que Zac, é a força da natureza que conclama os demais à seguirem seus instintos, comendo quando tiveram fome, matando e agredindo quando tiverem ódio. Logo, a adesão dos membros tripulantes à um ou a outro grupo leva a uma polarização da jovem tripulação, e consequentemente, ao caos e ao enfrentamento.

Não é preciso muita perspicácia para perceber que, à partir daí, a obra de Neil Burger se mostra uma repaginação do clássico “O Senhor das Moscas”, de William Golding, já adaptado para o cinema em 1963 e 1990, com uma transposição para a ficção científica. Como naquele aclamado trabalho, o filme de Burger observa as tendências de gradual barbárie que contamina os discursos humanos a medida que as vozes mais poderosas de comando à lembrar as conveniências da ética e da moral vão minguando. Uma pena que, talvez pelo ambiente obrigatoriamente confinado, imutável e asséptico do qual o filme nunca sai, talvez pela pouca experiência dramática do elenco jovem predominante ao longo de toda a duração, o filme de Burger rapidamente se torna disperso, quase enfadonho (sequer a promessa de certo erotismo, presente exclusivamente em seus posteres promocionais, chega a se concretizar) mesmo diante da tensão que cresce conforme os ânimos se afunilam.

sexta-feira, 10 de março de 2023

Os Banshees de Inisherin


 Certo dia, o simplório Padraic (o competente Colin Farrell), morador da ilha de Inisherin, na costa oeste irlandesa, vai à casa de seu melhor amigo Colm (Brendan Gleeson), a fim de convidá-lo para a habitual rodada de bebidas no bar local. Mas, por alguma razão, tudo está diferente. Colm não quer mais ser seu amigo, nem nunca mais falar com ele. Para Padraic, a perda dessa amizade –e ainda por razões que seu intelecto não consegue entender –será uma questão insuportável. É dessa circunstância curiosa e brilhantemente calcada em notáveis personagens que se abastece a narrativa de “Os Banshees de Inisherin”, realização que o audaz Martin McDonagh sucede ao seu premiado “Três Anúncios Para Um Crime”.

Diretor, roteirista e produtor de suas obras –o que lhe garante total autonomia e liberdade criativa para com seu resultado final –McDonagh é um autor atento às peculiaridades insondáveis de seu personagens e, em cada filme, encontra uma chance para lapidar ainda mais um talento nato para sublinhar as diversas dualidades humanas. Aqui, ele tem dois ótimos protagonistas –Padraic e Colm, aliás, interpretados pela mesma dupla que estrelou o primeiro longa-metragem de McDonagh, “Na Mira do Chefe” –e outros tantos excelentes coadjuvantes, como Siobhan (a sensacional Kerry Condon, de “A Última Estação”), irmã de Padraic, e das poucas pessoas letradas e sensatas da rude Inisherin; ou Dominic (Barry Keoghan, de “O Sacrifício do Cervo Sagrado”), jovem com uns parafusos a menos, filho de um pai abusivo e truculento. Esses e outros personagens, todos moradores da reclusa comunidade de Inisherin –tão enclausurada em si mesma que os vestígios da guerra que se sucede no continente resumem-se à explosões e tiros banais percebidos com certa indiferença ao longe –giram em torno da amizade entre os dois protagonistas que chega ao fim.

Para Padraic, cuja vida seguia numa marcha à qual ele não almejava promover mudanças, a atitude de Colm é uma reviravolta que ele não compreende –e tão mais incompreensível lhe é, que sua busca por motivações, nos dias que se seguem, acirra ainda mais o abismo que os separa. Já, para Colm, a amizade com Padraic era um empecilho para suas reais aptidões: Numa certa idade, ele se dá conta que as vicissitudes de casa até o bar que satisfaziam o amigo não têm o mesmo efeito sobre ele. Colm quer, nessa altura da vida, deixar um legado na forma de música, e para tanto, ele toma a decisão radical de remover a distração –ou seja, Padraic –de seu dia-a-dia.

Tão radical é essa decisão e a determinação para mantê-la, que Colm promete: Toda a vez que Padraic contrariar suas bem declaradas disposições para ficarem longe um do outro, Colm haverá de mutilar um dedo da própria, até não lhe restar nenhum (!).

Habilidoso na avaliação dramatúrgica dessa premissa, o filme de Martin McDonagh revela-se prodigioso ao abordar essa questão um tanto escorregadia sem obviedades; no roteiro cheio de equilíbrio e inspiração (sempre um ponto muito forte nos trabalhos de McDonagh), no elenco magistral e homogêneo que reúne, e na junção absolutamente sublime de gêneros que realiza –do humor reticente, agridoce e peculiar ao drama incisivo e minimalista –“Os Banshees de Inisherin” é uma fábula sobre a mutação imprevista dos sentimentos nas dinâmicas mais inusitadas, e a interessante reação de terceiros a essa circunstância (algo que pode ser visto como o cerne de toda obra de McDonagh). Um trabalho de insuspeita astúcia e irrestrita propriedade, inclusive, um passo cada vez mais longe da caricatura com a qual McDonagh já foi acusado de executar suas construções dramáticas.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Os Indicados Ao Oscar 2023


 E foram anunciados então os indicados ao prêmio máximo do cinema (será que ainda é?). A premiação deste ano aparentemente parece tentar enaltecer as produções que trouxeram o público e as grandes bilheterias de volta às salas de cinema após o marasmo financeiro que foram os dois anos de pandemia. O que explica a presença de praticamente todos os grandes blockbusters do ano em muitas das categorias –com “The Batman” e “Pantera Negra-Wakanda Forever” recebendo muitas nomeações técnicas. Sem mais delongas, vamos à lista dos indicados:

FILME

“All Quiet on the Western Front”

Avatar-The Way of Water

“The Banshees of Inisherin”

“Elvis”

“Everything Everywhere All at Once”

“The Fabelmans”

“Tár”

Top Gun-Maverick

“Triangle of Sadness”

“Women Talking”

DIREÇÃO

Martin McDonagh por “The Banshees of Inisherin”

Daniel Kwan, Daniel Scheinert por “Everything Everywhere All at Once”

Steven Spielberg por “The Fabelmans”

Todd Field por “Tár”

Ruben Ostlund por “Triangle of Sadness”

A ausência de Spielberg e seu “The Fabelmans” nas indicações do SAG (o mais confiável dentre todos os termômetros do Oscar) lançou uma ligeira incerteza entre os favoritos, deixando margem para o crescimento vertiginoso do consagrado “The Banshees of Inisherin” e, sobretudo, do já icônico “Everything Everywhere All at Once” (o líder em indicações, com 11). Mas, essas considerações ficaram em segundo plano diante da inclusão de “Top Gun-Maverick” na categoria de Melhor Filme, seguindo uma tendência muito semelhante à de “Mad Max-Estrada da Fúria” em 2016: A continuação tardia de um clássico dos anos 1980, surpreendendo público e crítica com um nível assombroso e imprevisto de qualidade. Esperem por sua menção em várias categorias técnicas.

ATRIZ

Cate Blanchett por “Tár”

Ana de Armas por “Blonde”

Andrea Risenborough por "To Leslie"

Michelle Williams por “The Fabelmans”

Michelle Yeoh por “Everything Everywhere All at Once”

Um dia após “Blonde” receber uma leva considerável de indicações ao Framboesa de Ouro (os Piores do Ano), a Academia de Artes Cinematográficas decidiu honrar aquela que é, de longe, a maior qualidade do filme; sua atriz principal, a fabulosa Ana de Armas. Contudo, o nome a ser batido nesta categoria (sempre uma das mais disputadas da cerimônia) é Cate Blanchett que surge fortíssima e bem cotada por seu tour-de-force em “Tár” –há quem diga que, por conta disso, os prêmios ao filme podem se restringir apenas a esse. Ainda assim, pode haver alguma esperança para os belíssimos trabalhos das duas Michelles: a Williams, vivendo nada menos que a mãe de Steven Spielberg em “Fabelmans” e, em especial, a Yeoh, que encantou meio mundo, fazendo rir, chorar e vibrar em “Everything Everywhere All at Once”.

ATOR

Austin Butler por “Elvis”

Colin Farrell por “The Banshees of Inisherin”

Brendan Fraser por “The Whale”

Paul Mescal por “Aftersun”

Bill Nighy por “Living”

Desde antes de seu emocionante discurso quando ganhou o prêmio de Melhor Ator no Critics Choice Awards, Brendan Fraser já era certo nesta categoria, assim como seus mais fortes concorrentes, Colin Farrell e o jovem Austin Butler (arrebatando público e crítica no desafiador papel de Elvis Presley), todos eles, experimentando a primeira indicação ao Oscar de suas carreiras. Meu palpite é que a briga fique mesmo entre Brendan Fraser e Austin Butler.

EFEITOS VISUAIS

“All Quiet on the Western Front”

“Avatar: The Way of Water”

“The Batman”

“Black Panther: Wakanda Forever”

“Top Gun: Maverick”

FOTOGRAFIA

"All Quiet on the Western Front”James Friend

“Bardo-False Chronicle of a Handful of Truths” Darius Khondji

“Elvis” Mandy Walker

“Empire of Light” Roger Deakins

“Tár” Florian Hoffmeister

MONTAGEM

“The Banshees of Inisherin” Mikkel E.G. Nielsen

“Elvis” Jonathan Redmond, Matt Villa

“Everything Everywhere All at Once” Paul Rogers

“Tár” Monika Willi

“Top Gun-Maverick” Eddie Hamilton

DIREÇÃO DE ARTE

“All Quiet on the Western Front” Christian M. Goldbeck

"Avatar-The Way of Water” Dylan Cole, Ben Procter

"Babylon” Florencia Martin

"Elvis” Catherine Martin, Karen Murphy

"The Fabelmans” Rick Carter

MAQUIAGEM E CABELO

“All Quiet on the Western Front”

“The Batman”

“Black Panther-Wakanda Forever”

“Elvis”

“The Whale”

As premiações técnicas, este ano, tendem a ser mais democráticas –e não concentrarem-se num único ganhador, como ocorre em muitos outros anos –até para que a Academia possa honrar e consagrar os diversos campeões de bilheteria de 2022. Dito isso, os Efeitos Visuais provavelmente ficarão com “Avatar”; Fotografia e Montagem devem ficar com “Everything Everywhere All at Once” (mas, eu não me surpreenderia se “Top Gun-Maverick” levasse esse último); Direção de Arte parece já estar nas mãos da equipe de “Babylon” (a menos que “All Quiet on the Western Front” prove o contrário); e Maquiagem e Cabelo, embora eu aprecie também o trabalho realizado em “The Whale”, deve ficar mesmo com “The Batman”.

ANIMAÇÃO

“Guillermo del Toro’s Pinocchio”

“Marcel the Shell With Shoes On”

“Puss in Boots-The Last Wish” (DreamWorks Animation)

“Turning Red”

“The Sea Beast”

FILME INTERNACIONAL

“Argentina, 1985” (Argentina”

“Close” (Bélgica)

“All Quiet on the Western Front” (Alemanha)

“The Quiet Girl” (Irlanda)

“EO” (Polônia)

DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM

“The Elephant Whisperers”

“Haulout”

“How Do You Measure a Year?”

“The Martha Mitchell Effect”

“Stranger at the Gate”

DOCUMENTÁRIO

“All That Breathes”

“All the Beauty and the Bloodshed”

“Fire of Love”

“A House Made of Splinters”

“Navalny”

ATOR COADJUVANTE

Brendan Gleeson por “The Banshees of Inisherin”

Brian Tyree Henry por “Causeway”

Judd Hirsch por “The Fabelmans”

Barry Keoghan por “The Banshees of Inisherin”

Ke Huy Quan por “Everything Everywhere All at Once”

Não deixa de ser uma surpresa a presença de Brian Tyree Henry (de “Eternos”) entre os indicados a Coadjuvante pelo drama de guerra, “Causeway” –a atriz principal, Jennifer Lawrence, também estava cotada para concorrer na época do lançamento do filme, mas, com o tempo, perdeu consideravelmente a força. Não há dúvidas de que o grande favorito (e, de repente, o grande merecedor também) seja o extremamente carismático Ke Huy Quan que tem como grandes competidores o talento nato, exigindo reconhecimento, do jovem Barry Keoghan (que, veja só, também estava no elenco de “Eternos”) e as fortes presenças dos veteranos Brendan Gleeson e Judd Hirsch.

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

“The Boy, The Mole, The Fox and The Horse”

“The Flying Sailor”

“Ice Merchants”

“My Year of Dicks”

“An Ostrich Told Me the World Is Fake and I Think I Believe It”

CURTA-METRAGEM LIVE ACTION

“An Irish Goodbye”

“Ivalu”

“Le Pupille”

“Night Ride”

“The Red Suitcase”

ROTEIRO ORIGINAL

“The Banshees of Inisherin” de Martin McDonagh

“Everything Everywhere All at Once” de Daniel Kwan, Daniel Scheinert

“The Fabelmans” de Tony Kushner, Steven Spielberg

“Tár” de Todd Field

“Triangle of Sadness” de Ruben Östlund

ROTEIRO ADAPTADO

“All Quiet on the Western Front” de Edward Berger, Lesley Paterson, Ian Stokell

“Glass Onion-A Knives Out Mystery” de Rian Johnson

“Living” de Kazuo Ishiguro

“Top Gun-Maverick” de Christopher McQuarrie, Eric Warren Singer, Ehren Kruger

“Women Talking” de Sarah Polley

O fato de “Top Gun-Maverick” concorrer ao prêmio de Roteiro já é, em si, uma grata surpresa –e ainda por cima Roteiro Adaptado (segundo as normas da Academia, o fato de ser uma continuação o habilita para essa categoria) –numa disputa que tem como favorito o engajado “Women Talking”, além da excelência sempre premiável de Rian Johnson em “Glass Onion”. Já, entre os Roteiros Originais, a briga será feia: O dramaturgo Tony Kushner surge com ligeira vantagem na semi-biografia do próprio Spielberg, mas pode ficar para trás a medida que o magnífico trabalho dos ‘Daniels’, Kwan e Scheinert –“Everything Everywhere All at Once” –adquira mais favoritismo, e o mesmo vale para “The Banshees of Inisherin” (os trabalhos de Martin McDonagh têm no roteiro suas maiores forças).

CANÇÃO

“Lift Me Up” de “Black Panther-Wakanda Forever”

“This Is A Life” de “Everything Everywhere All at Once”

“Naatu Naatu” de “RRR”

“Applause” de “Tell It like a Woman”

“Hold My Hand” de “Top Gun-Maverick”

TRILHA SONORA

“All Quiet on the Western Front”

“Babylon”

“The Banshees of Inisherin”

“Everything Everywhere All at Once”

“The Fabelmans”

FIGURINOS

“Babylon” Mary Zophres

“Black Panther-Wakanda Forever” Ruth E. Carter

“Elvis” Catherine Martin

“Everything Everywhere All at Once” Shirley Kurata

“Mrs. Harris Goes to Paris” Jenny Beavan

Parece ter tido larga aprovação a inclusão do descontraído épico indiano “RRR” na categoria de Melhor Canção –bem como o premiação deste no Globo de Ouro –o que pode roubar de “Top Gun-Maverick” uma antecipada vantagem na busca por essa estatueta. Seja como for, o prêmio de Trilha Sonora deve ficar entre “Fabelmans” –John Williams já nem deve saber mais quantos Oscars já tem na prateleira! –e “Babylon”, o favorito na categoria de Figurinos, prêmio que ele disputa diretamente com “Wakanda Foverer”, cuja figurinista, Ruth E. Carter, já levou um Oscar pelo primeiro “Pantera Negra

SOM

“All Quiet on the Western Front”

“Avatar-The Way of Water”

“The Batman”

“Elvis”

“Top Gun-Maverick”

ATRIZ COADJUVANTE

Angela Bassett por “Black Panther-Wakanda Forever”

Hong Chau por “The Whale”

Kerry Condon por “The Banshees of Inisherin”

Jamie Lee Curtis por “Everything Everywhere All at Once”

Stephanie Hsu por “Everything Everywhere All at Once”

É interessante que a mais cotada para ganhar seja a magnífica veterana Angela Bassett, justamente por seu papel num filme da Marvel Studios –ela que já amedalhou o Globo de Ouro. Entretanto, há que se prestar atenção nos trabalhos de Hong Chau (de “Pequena Grande Vida”) em “The Whale” e na forte dobradinha das coadjuvantes de “Everything Everywhere All at Once”, Stephanie Hsu e Jamie Lee Curtis, em especial, essa última.

E é isso. Os vencedores nós descobriremos no domingo, dia 12 de março de 2023, quando a entrega de todos esses prêmios for realizada.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Os Vencedores do Globo de Ouro 2023


 Assim como quem não quer nada, foi realizada a entrega do Globo de Ouro 2023 –em meio à outros acontecimentos nacionais e internacionais, foi algo que passou quase batido já que nenhum canal brasileiro transmitiu o evento –segue, portanto, a lista dos vencedores nas categorias cinematográficas:

MELHOR FILME DE DRAMA

 Os Fabelmans

MELHOR FILME DE COMÉDIA/MUSICAL

 Os Banshees de Inisherin

Na categoria drama, se de um lado havia os sucessos de bilheteria incontestes dos aclamados “Top Gun-Maverick” e “Avatar-O Caminho da Água”, do outro, havia a extraordinária aceitação de crítica dos elogiadíssimos “Elvis” e “Tár”, entretanto, nada disso foi mais impactante para o membros da Impressa Estrangeira de Hollywood do que a produção autobiográfica de Steven Spielberg.

Já entre os filmes de comédia e musical, o forte favoritismo de “Tudo Em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” –o qual se expressa na sua presença em todas as premiações até aqui –acabou dando espaço para o primor discreto ainda que indelével de “Os Banshees de Inisherin”. No cômputo geral, as duas obras têm mais chance no Oscar?

Sim e não.

Já faz algum tempo que o Golden Globe não reflete com tanta exatidão as predisposições da Academia de Artes Cinematográficas –esse mérito pertence mais aos prêmios dos Sindicatos –contudo, a premiação revelou sensata e criteriosa, laureando duas obras (sobretudo, a de Spielberg) que trazem muitas razões para seu reconhecimento, e esta é uma posição que o Oscar não deve deixar de adotar.

MELHOR ATOR DE DRAMA

 Austin Butler (Elvis)

MELHOR ATRIZ DE DRAMA

 Cate Blanchett (TÁR)

MELHOR ATOR DE COMÉDIA/MUSICAL

 Colin Farrell (Os Banshees de Inisherin)

MELHOR ATRIZ DE COMÉDIA/MUSICAL

 Michelle Yeoh (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

 Ke Huy Quan (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

 Angela Bassett (Pantera Negra-Wakanda Para Sempre)

O jovem Austin Butler confirmou o que muitas previsões vinham indicando e, após esta vitória, segue fortíssimo ao Oscar, ainda que a presença, na mesma categoria de Brendan Fraser por “The Whale” não deva ser ignorada; e Colin Farrell vence pela segunda vez um Globo de Ouro de Melhor Ator num filme de Martin McDonagh (a primeira foi por “Na Mira do Chefe” em 2009).

Entre as atrizes, a competição, embora acirrada, permanece se afunilando entre as agora premiadas no Golden Globes Cate Balnchett e Michelle Yeoh –ao que tudo indica, com certa vantagem para a primeira. Concorrentes capazes de ombreá-las seriam Viola Davis (por “A Mulher-Rei”) e Michelle Williams (por “The Fabelmans”); embora esteja perdendo rapidamente sua força, eu ainda torço por uma lembrança de Ana De Armas e sua corajosa composição em “Blonde”.

É entre os coadjuvantes que a coisa fica curiosa: Se Ke Huy Quan já vinha a muito sendo prestigiado por seu trabalho –e penso que ele e seus outros concorrentes na categoria não devem encontrar dificuldades em chegar ao Oscar, em especiel Brendan Gleeson e Barry Keoghan, ambos por “Banshees de Inisherin” –a vencedora entre as atrizes foi uma relativa surpresa; é a primeira vez que um prêmio principal, de relativa expressão, contempla um filme da Marvel Studios, premiando a literalmente majestosa Angela Basset quando todas as apostas pareciam se inclinar para a disputa entre Jamie Lee Curtis (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo) e Kerry Condon (Banshees de Inisherin).

MELHOR DIREÇÃO

 Steven Spielberg (Os Fabelmans)

MELHOR ROTEIRO

 Os Banshees de Inisherin (Martin McDonagh)

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

 Babilônia (Justin Hurwitz)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

 RRR: Revolta, Rebelião, Revolução ("Naatu Naatu") de M.M. Keeravani, Kaala Bhairava e Rahul Sipligunj.

MELHOR FILME INTERNACIONAL

 Argentina, 1985 (Argentina)

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO

 Pinóquio (Guillermo del Toro e Mark Gustafson)

Os prêmios de Direção e Roteiro enfatizaram a predileção de “Fabelmans” e “Inisherin” certamente fortes competidores daqui para frente –embora hajam filmes que devem ser lembrados por outras premiações –surpreendeu a vitória do épico indiano “RRR” na categoria de Melhor Canção onde o favorito era “Top Gun” e a música composta por Lady Gaga.

Houve algo de inesperado em alguns dos escolhidos do Golden Globe 2023, não há dúvida, mas é muito provável que essas surpresas acabem se tornando atitude isoladas do que tendências as serem adotadas na temporada de premiações que ainda virá.

quarta-feira, 2 de março de 2022

The Batman


 O milagre operado pelo diretor Matt Reeves neste novo e empolgante filme estrelado pelo Cavaleiro das Trevas tem uma explicação bastante simples: Diretor sensato e competente, Reeves pegou todas as predisposições cinematográficas que deram certo nas obras anteriores com o Batman –a ambientação singular e sedutora de Tim Burton; o viés brutal e realista de Christopher Nolan; a percepção de quadrinhos adultos evocada por Zack Snyder –e delas extraiu uma mescla tão aprimorada, tão sagaz em sua realização que, embora seja esta a décima produção a contar com o personagem no cinema (outras ainda estão a sair com outros atores interpretando-o), o trabalho do diretor consegue fazê-lo parecer algo absolutamente novo.

Muitos são os filmes que orientam “The Batman”, sejam eles na construção de seus personagens (algo que ele faz com brilho singular), sejam na concepção e condução da própria história –que aqui, diferente das realizações anteriores prima menos pela ação (embora ela exista em profusão inteligente e bem calibrada) e mais por nuances de ordem investigativa. Com efeito, Reeves vai de encontro a anseios que somente fãs aficcionados do herói dos quadrinhos almejavam do personagem, o seu lado detetive.

“The Batman” deixa de lado toda e qualquer necessidade de refazer a origem do protagonista (relatada pelo menos umas três vezes, nos filmes anteriores) para encontrá-lo exatamente no ponto em que contam já dois anos de sua intensa atividade como vigilante noturno nas noites violentas de Gothan City. Nesse papel, Robert Pattinson entrega um Batman imponente, elegante e dotado de inesperada empatia, unindo o senso interpretativo de Michael Keaton, o fulgor sombrio de Christian Bale e a ferocidade senciente de Ben Affleck. Batman ainda é uma figura estranha e recente nas ruas apinhadas de criminalidade de Gothan, entretanto, já conquistou ao menos um bom aliado nas trincheiras da guerra contra o crime, o Capitão James Gordon (Jeffrey Wright). Ao ser chamado por ele para a avaliação de uma cena de crime –o assassinato audacioso e chocante do próprio prefeito de Gothan em pessoa –Batman se defronta com pistas que o levam a um inimigo meticuloso, perigoso e astuto, o Charada (cuja grande interpretação de Paul Dano mescla elementos do assassino real do “Zodíaco” à características do psicopata de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”).

Na tentativa de decifrar o emaranhado de pistas deixadas pelo Charada –cuja elucidação, essencial à espinha dorsal da narrativa, adorna o filme com uma atmosfera de filme noir do início ao fim –Batman vai encontrando outros notáveis personagens de sua galeria dos quadrinhos, que acrescentam novas camadas à trama e contribuem com magníficas transposições para cinema, como Selina Kyle, a Mulher Gato (vivida pela bela Zoe Kravitz, numa química espetacular com Pattinson), o mafioso Pinguim (Colin Farrell, tornado irreconhecível pela maquiagem que evoca, em sua persona, o Al Capone de Robert De Niro em “Os Intocáveis”) e Carmine Falcone (John Turturro, se divertindo a valer).

Quase atingindo nada modestas três horas de duração, “The Batman”, de Matt Reeves, passa muito longe de qualquer reflexo da infantilidade proposta pelo “Batman”, de Tim Burton, num longínquo 1991, ao invés disso, o personagem dos quadrinhos surge aqui numa obra cheia de orientações muito adultas –não são raros os momentos em que compreendemos que, fosse o protagonista um detetive particular e não um herói encapuzado, esta seria uma autêntica produção nos moldes de “Fuga do Passado” ou “A Morte Num Beijo” –onde, inclusive, a construção dos personagens, seus momentos intimistas e as intrigas que avançam a história ganham muito mais prioridade do que qualquer cena de ação (ainda que elas também estejam lá, fotogênicas e impactantes).

Ao entregar um filme de realismo invejável enraizado na mitologia do herói assim reapresentado e rejuvenescido –este novo Batman, à princípio, todo independente do Universo Compartilhado da DC Comics onde é vivido por outros intérpretes, traz Robert Pattison, numa das mais sensacionais personificações de Batman/Bruce Wayne já concebidas –Matt Reeves criou, com propriedades fascinantes e rigor técnico arrebatador, uma das melhores adaptações de histórias em quadrinhos do cinema.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

O Sacrifício do Cervo Sagrado


 Como alguns autores a despontar no panorama cinematográfico do novo milênio, o grego Yorgos Lanthimos não foge do bizarro –ele o abraça com satisfação –seus trabalhos são, com frequência, inclassificáveis, flutuam entre gêneros incomuns e supostamente inconciliáveis, e ele pouco parece se importar em fornecer uma experiência compreensível ao público.

Dentre suas tantas obras, “O Sacrifício do Cervo Sagrado”, premiado com a Palma de Melhor Roteiro no Festival de Cannes de 2017, é a que mais reforça o tema da punição, presente com mais ou menos ênfase em toda sua filmografia. Contudo, é aquele tipo de filme que se desvenda aos poucos diante do expectador –se é que tal coisa chega, de fato, a acontecer...

Vivido por Colin Farrell –que trabalhou com Lanthimos no anterior (e igualmente estranho) “O Lagosta” –o protagonista chama-se Dr. Steven Murphy, e trata-se de um cirurgião cardiologista. Na cena desconcertante que abre o filme, é mostrado em foco um coração humano real, batendo num peito aberto, durante uma cirurgia –certamente, uma imagem extraída de uma cirurgia verdadeira.

Não sabemos ainda, mas essa imagem guarda uma informação crucial.

A rotina do Dr. Murphy é um confortável dia-a-dia de classe média-alta, salpicada de pequenas perversidades mal-esclarecidas: Ele goza de prestígio no hospital em que trabalha, enquanto acompanhamos, com certa intriga, os encontros um tanto suspeitos dele com um jovem –seria seu filho fora do casamento? Ou um amante num caso inapropriado?

A narrativa de Lanthimos deixa que essas questões brotem na mente do público ao negar informações mais específicas de imediato. Em casa, o Dr. Murphy tem a esposa, Anne (Nicole Kidman, sempre maravilhosa), com quem compartilha, na cama, algumas fantasias sexuais um tanto bizarras (ela submete-se a ele fingindo estar completamente anestesiada, qual a jovem protagonista de “Beleza Adormecida”).

Pouco a pouco descobrimos que o jovem com quem o Dr. Murphy se encontra, Martin (vivido por Barry Keoghan, de “Dunkirk”), é na realidade filho de um paciente seu que morreu na mesa de operações; a cena que abre o filme, lembra?

Impelido pela culpa, Murphy não consegue evitar que Martin acabe se envolvendo com sua família, que além de Anne inclui também seus filhos, a jovem Kim (Raffey Cassidy, de “Branca de Neve e O Caçador”) e o pequeno Bob (Sunny Suljic). O próprio Martin também arrasta Murphy para sua casa, na qual a mãe dele (Alicia Silverstone aparecendo em uma única cena) tenta um mal-sucedido flerte extra-conjugal.

Entretanto, o filme de Lanthimos, que já era aflitivo em sua narrativa tétrica durante essas passagens aparentemente corriqueiras, mas tratadas num clima de absoluta obscuridade, se torna francamente perturbador quando males inexplicáveis começam a se abater sobre os filhos do casal Murphy: Primeiro, Bob perde a mobilidade das pernas; logo seguido por Kim. Ambos não conseguem comer nada e isso vai tornando-os cada vez mais fracos.

Mesmo cercando-os de médicos e especialistas, ninguém consegue dar um diagnóstico do que está a assolar as duas crianças. E o desespero passa a consumir os pais.

Na verdade, há uma explicação, que reside mais em uma natureza intuitiva do que prática: Num diálogo bastante rápido, encenado para ser quase indiscernível, Martin revela à Murphy que trata-se de uma espécie de justiça cósmica; Murphy matou alguém (o pai dele, já que aos poucos vão surgindo indícios de que ele foi negligente na operação), e assim, ele perderá alguém de sua família –e uma vez que esse alguém não vai ser escolhido pelo próprio Murphy, todos os seus entes queridos irão definhar até a morte.

Equacionando seu enredo pra lá de macabro com o Mito grego de Efigênia (no qual seu pai Agamennon, é obrigado a ver a filha morrer como castigo por matar um cervo sagrado), este trabalho deliberadamente indigesto, corrosivo e fatalista de Yorgos Lanthimos parece unir as influências tanto de Michael Haneke quanto de Stanley Kubrick (seja na técnica perfeccionista e assimétrica, seja no teor frio, opressivo e implacável da premissa) oferecendo poucas respostas e ainda menos soluções fáceis, resultando num trabalho que normalmente exacerba o público.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Demolidor - O Homem Sem Medo


 Estrelado por Ben Affleck e por Jennifer Garner antes de terem se tornado um casal (e depois se separado...), “Demolidor-O Homem Sem Medo”, apesar de lançado num não tão longínquo 2003, é um filme que, pode-se dizer, pertence a uma outra época. Não havia ainda a Marvel Studios e seu universo compartilhado –o todo poderoso produtor da Marvel hoje, Kevin Feigi, comparece numa modesta função de produtor executivo –e certamente, não havia a aclamada série da Netflix, “Demolidor”, estrelada por Charlie Cox, com a qual o personagem é mais merecidamente relacionado. Mais até: Não existia ainda uma fórmula específica para adaptar histórias em quadrinhos para o cinema com garantia de êxito e integridade artística; haviam sido lançados, poucos anos antes, o “X-Men” de Brian Singer, e o “Homem-Aranha”, de Sam Raimi; “X-Men 2” e “Hulk”, de Ang Lee, seriam lançados naquele mesmo ano.

Por sinal, é o primeiro filme do Homem-Aranha de Raimi que exerce curiosa influência sobre este trabalho do diretor Mark Steven Johnson (de “Quando Em Roma”): Bastante relacionado com o aracnídeo nos quadrinhos por também possuir virtudes acrobáticas, o Demolidor ganhou, depois do imenso sucesso do filme estrelado por Tobey Maguire, uma injeção de orçamento dos Estúdios Fox para que fossem turbinados seus efeitos especiais onde era visto balançando pelos prédios de Nova York, além de um upgrade nas lutas de artes marciais cuja influência, por sua vez, vinha de “Matrix” e de “O Tigre e O Dragão” –até então, o projeto era encarado como uma produção de baixo-orçamento e, por conta disso, dotada de uma classificação mais flexível que o fazia propício a ter doses mais generosas de violência.

O resultado é que “Demolidor”, inclusive por conta do amadorismo vez ou outra flagrante de seu diretor, mal se equilibra entre a obra mais transgressiva que queria ser e a realização mais pretensiosa que passou a almejar.

Nessas condições somos apresentados a Matt Murdock, rapaz que, num breve flashback que domina os primeiros trinta minutos de filme, é visto perdendo a visão num acidente radioativo ainda criança (interpretado então por Scott Terra, de “Malditas Aranhas”). Entretanto, ele ganha, no processo, habilidades sobre-humanas: Sentidos ampliados que o permitem compensar a cegueira com uma percepção sem igual, onde pode até mesmo ler as emoções alheias ao ouvir os batimentos cardíacos (!).

Com a morte de seu pai, um boxeador do bairro nova-iorquino de Hell’s Kitchen, pelas mãos de gangsters inescrupulosos, Murdock divide sua vida adulta em duas ocupações: Como advogado formado, ele atende de dia clientes oprimidos pelos empresários à frente de sua firma onde tem como sócio o fanfarrão Foggy Nelson (vivido por Jon Favreau, o diretor do primeiro “Homem de Ferro” alguns anos depois). Já à noite, Murdock (que, à propósito, ostenta a musculatura e a pose de galã de Ben Affleck) esconde sua identidade por trás da máscara do vigilante Demolidor, para caçar os bandidos que a justiça meramente não foi capaz de punir, valendo-se de suas habilidades incomuns.

Em algum momento, tanto Matt Murdock, o advogado, quanto Demolidor, o vigilante, chamam a atenção do insidioso Wilson Fisk, o Rei do Crime (interpretado pelo saudoso Michael Clarke Duncan, chapa de Ben Affleck desde que fizeram juntos “Armaggedon”) que coloca no encalço deles –sem inicialmente saber que são a mesma pessoa –o assassino de aluguel conhecido como Mercenário (o ótimo Colin Farrell, então começando a chamar a atenção de Hollywood).

Contudo, o que vira mesmo o mundo do Demolidor de ponta-cabeça é quando Murdock se envolve com a instável Elektra Natchos (Jennifer Garner, recém-saída da série “Aliás-Codinome Perigo”) que, embora enamorada dele nutre um desejo de vingança por seu alter-ego, Demolidor, crente de que foi ele quem matou seu pai.

Ávido por adaptar diversos pontos antológicos da trajetória do Demolidor dos quadrinhos, todos concebidos pela mente genial do roteirista Frank Miller –e, de fato, essas passagens estão todas lá! –o filme de Mark Steven Johnson exibe um roteiro precipitado, inclinado a várias redundâncias que alcançam os momentos almejados sem no entanto elaborá-los com mais primazia; exatamente o oposto do que os quadrinhos conseguiam fazer.

Há potencial pleno e constante em “Demolidor”, e ele é sistematicamente sabotado pela pouca solidez de sua direção, que entrega momentos bastante simplórios, contaminados por diversas opiniões divergentes que foram moldando a produção: De um lado, os executivos da Marvel e sua intenção de preservar o personagem dos quadrinhos (e nesse sentido, a manutenção do fidelíssimo traje do herói é digna de aplausos), de outro, a limitada capacidade do diretor em manter suas convicções e a vontade dos produtores em esculpir um filme de sucesso com concessões mais genéricas de narrativa convencional. Como dito no início, “Demolidor-O Homem Sem Medo” pertence a uma outra época. É difícil hoje assisti-lo sem relacionar seu resultado mambembe e claudicante com a excelência à toda prova das três primorosas temporadas da série da Netflix –na qual não apenas Charlie Cox é um Matt Murdock/Demolidor impecável, como também Vincent D’Onofrio entrega uma atuação insuperável como Rei do Crime –e, mesmo à época, o filme não era nenhuma obra-prima sendo apreciado por uma parcela do público mais como uma espécia de ‘prazer culposo’, um trabalho imperfeito cujos lapsos descabidos acrescentavam divertimento ao todo.

Hoje, todo mundo parece ter superado “Demolidor”: O Estúdio Fox (que já nem existe mais, tendo sido comprado pela Disney) lançou uma ‘versão do diretor’ em DVD (que enfatizava aspectos mais soturnos de algumas sub-tramas e enxugava certas redundâncias) e, anos mais tarde, produziu “Elektra”, um derivado de qualidade discutível focado na personagem de Jennifer Garner; Ben Affleck, embora tivesse certa esperança de uma continuação naqueles anos, desencanou e agora é mais lembrado como intérprete do Batman no mais recente “Liga da Justiça” (embora, também isso, não tenho dado muito certo); a Marvel, agora consolidada como estúdio, tem os direitos do Demolidor mais uma vez, e os fãs aguardam a qualquer momento por uma nova adaptação, talvez estrelada pelo bom Charlie Cox; já, Mark Steven Johnson realizou depois “Motoqueiro Fantasma”, com Nicolas Cage, além do outros projetos que só confirmaram sua falta de talento.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Na Mira do Chefe

Após conquistar o Oscar 2006 de Melhor Curta-Metragem com “Six Shooter” (que também contava com Brendan Gleeson em seu elenco), o diretor e roteirista Martin McDonagh arregaçou as mangas e estreou em longa-metragens neste “In Bruges”, um trabalho fervilhante de humor negro que, com o tempo, ficou bem claro, era bastante sintomático de seu estilo e de suas nada usuais inquietações –nele, enxergamos seu fascínio por matadores de aluguel (foco de “Sete Psicopatas e Um Shi-Tzu”) e uma estranha obsessão por anões (!) (também é um anão um dos personagens fundamentais de “Três Anúncios Para Um Crime”).
“In Bruges” prova também que, como contador de histórias, McDonagh se presta a jamais desempenhar numa zona de conforto: Tão logo concluem um assassinato encomendado, o veterano Ken (Gleeson) e o novato Ray (Colin Farrel, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia) são incumbidos de refugiar-se na cidade de Bruges, na Bélgica, por duas semanas e lá esperar por notícias.
E assim, durante boa parte de sua primeira metade, o filme de McDonagh se propõe a discorrer sobre o nada (!): Embora paisagística e de apelo turístico, Bruges é uma cidade bucólica e modorrenta, despertando reações diferentes nos dois assassinos de aluguel.
Disposto a acatar as ordens de cima, Ken aceita a incumbência e tenta distrair-se com o roteiro de visitas proposto pelo hotel onde se hospedam.
Porém, mais jovem e inquieto, Ray não recebe tão bem assim a designação; Bruges é um lugar onde deveras ele não gostaria de estar –e um trágico contratempo acarretado durante sua última missão o corrói de remorso deixando-o ainda mais agitado.
Enquanto aguardam as instruções do que fazer, Ken e Ray perambulam pelo lugar, trocam ideias e vivenciam experiências corriqueiras: Ray observa as filmagens de um longa-metragem local, e fica intrigado pela presença de um anão (Jordan Prentice) no que parece ser uma espécie de referência à “Inverno de Sangue Em Veneza”.
É ali que ele conhece Chloe (Clémence Poésy, de “Harry Potter e O Cálice de Fogo”), jovem traficante local com quem acaba se envolvendo, e que lhe atrai ainda mais confusão, sobretudo, quando o violento namorado dela (Jérémie Renier, de “O Amante Duplo”) tenta roubá-lo.
O roteiro de McDonagh parece justapor exatamente isso, essa escalada da violência (do namoradinho de Chloe a coisa degringola para o próprio chefe deles, vivido por um ameaçador ainda que engraçado Ralph Fiennes) num ambiente hermético; e a partir desses desdobramentos, ele não poupa ninguém: A meia hora final submete seus protagonistas a revezes violentos e sangrentos que orgulhariam Quentin Tarantino.
Mais que isso, “In Bruges” se faz notável pelo seu encadeamento notadamente acadêmico, mas atenciosamente assimétrico e equilibrado: Os eventos que compõem seu desfecho são de uma harmonia dramática que se equaciona com os acontecimentos presentes em seu ponto de partida; curioso é o estranho contraste que a violência algo desmesurada (ainda que homeopática) e a ausência de zelo para com a integridade de seus personagens acarreta ao público quando o filme nos confronta com seu clímax: McDonagh promove um misto destemido de drama agridoce e intriga policial sangrenta, brindado com uma das mais incomuns e convictas interpretações de Colin Farrel.

sábado, 7 de março de 2020

Testemunhas de Uma Guerra

O diretor Danis Tanovic ganhou o Oscar de Melhor Filmes Estrangeiro por “Terra de Ninguém”, e ainda realizou o longa “Inferno”, parte da “Trilogia Paraíso/Inferno/Purgatório” imaginada por Krzysztof Kieslowski –e jamais completada por ocasião de sua morte.
Ambas as produções contêm elementos que moldam a estrutura básica deste “Testemunhas de Uma Guerra”: Como no primeiro caso, Tanovic revisita o cenários das zonas de conflito (lá, o leste europeu, aqui, o Oriente Médio), tomando como protagonista o fotógrafo de guerra Mark, vivido por Colin Farrell.
Como no segundo caso, Tanovic põe, no centro das questões de sua premissa, a memória traumática e a forma com que ela transfigura relações humanas.
O melhor amigo de Mark é David (Jamie Sives, de “O Guerreiro Silencioso”), também ele fotógrafo. Contudo, se antes os dois compartilhavam do mesmo sangue-frio nas incursões aos campos de batalhas, agora, algo está diferente: A relação entre Mark e a namorada Elena (a espanhola Paz Vega) segue normal, mas, David e sua esposa Diane (Kelly Reilly, de “Sra Henderson Apresenta” e “Sherlock Holmes”) estão esperando um filho.
O perigo à espreita em cada sombra de seu ofício já não empolga David como antes, e bastam alguns dias em meio ao Curdistão assolado por ataques do Afeganistão para ele compreender isso.
Ele deseja voltar.
Mark concorda não sem estranhar a relutância do amigo.
Após um acidente mal-fadado e mal-explicado, Mark volta para casa, porém, David, que deveria ter chegado antes dele não deu notícias –ou assim a montagem nos leva a crer.
O comportamento de Mark, percebido por Elena, parece indicar que algo muito pior aconteceu, e ele aparentemente bloqueou as memórias do ocorrido.
Elena apela então para o seu tio-avô, Joaquim (o grande Christopher Lee), outrora um psiquiatra espanhol especializado nos indivíduos com stress pós-traumático durante a Ditadura de Franco, para que ele penetre nos tormentos particulares de Mark e dele extraia a verdade.
Perseguir a expiação parece ser o mote em torno do qual as obras de Danis Tanovic giram, aqui, ainda que longe do primor demonstrado em outros trabalhos, ele exibe uma habilidosa capacidade de harmonizar os elementos cinematográficos principais (bom elenco, bom roteiro, boa direção) numa narrativa que expõe, aos trancos e barrancos, sua visão humanista e engajada de cinema e de mundo.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Um Conto do Destino

A carreira de Akiva Goldsman tem vários altos e baixos: Se por um lado foi responsável pelo roteiro de “Batman & Robin”, de Joel Schumacher, um dos piores filmes já lançados na década de 1990, por outro, ele conquistou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por seu bom trabalho no elogiado “Uma Mente Brilhante”, de Ron Howard.
Os acertos de sua trajetória, certamente mais do que os erros, o encorajaram a estrear também como diretor neste filme cuja trama, baseada no livro de Mark Helprin, ele cultivou por muito tempo. Sua longeva experiência na indústria arregimentou cintilantes participações de famosos para a produção –presenças que saltam aos olhos ao longo do filme.
Num prólogo que já deixa claro o tráfego da história por distintas épocas, descobrimos que o jovem orfão Peter Lake (Colin Farrell) é um ladrão na Nova York de 1916.
Perseguido pelo gangster que fora seu antigo contratador, Pearly Soames (Russell Crowe, demoníaco), ele tem a vida salva de modo bastante surreal por um cavalo branco (!) –é necessário que o expectador aceite de antemão a atmosfera mágica que envolve os desdobramentos de todo o filme a partir daí, caso contrário, corre o risco de ficar muito irritado.
Em sua fuga de Nova York, o reduto de Pearly, Peter encontra a jovem Beverly Penn (Jessica Brown Findlay, tão embriagada pela natureza lúdica da personagem que parece interpretar sob efeito de alucinógenos) e por ela se apaixona.
Mas, Beverly está morrendo de tuberculose. Em sua esperança, Peter anseia por um milagre, no entanto, os recursos satânicos de Pearly –que negocia com o próprio Lúcifer interpretado por Will Smith –sabotam as chances de seu amor por Beverly acontecer.
Ela morre, o que mergulha Peter numa amnésia que o transforma num mendigo sem identidade em Nova York ao longo de quase 100 anos (!).
Até que suas memórias são reavivadas por uma garotinha que padece de câncer. A mãe dela, Virginia (Jennifer Connelly), uma jornalista, passa a ajudar Peter na tentativa de compreender as razões, um tanto incompreensíveis, do porque sua existência desafia o tempo –e do porque ele ainda tem uma tarefa a cumprir.
Munido de um produção requintada –na qual a passagem do tempo é registrada, sobretudo, numa direção de arte prodigiosa –Akiva Goldsman moldou um drama romântico de elementos fantásticos que nunca se harmonizam ou fazem sentido em algum momento. As referências para com a religião embutidas nas caracterizações de santos e demônios (nunca, porém, denominados assim) supostamente seriam o incremento da faceta sobrenatural da narrativa, mas nada disso, nem o capricho técnico, nem o ostensivo elenco, ajudam a tornar envolvente seu ritmo lento e monótono, culpa da completa limitação de seu diretor.