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sexta-feira, 10 de março de 2023

Os Banshees de Inisherin


 Certo dia, o simplório Padraic (o competente Colin Farrell), morador da ilha de Inisherin, na costa oeste irlandesa, vai à casa de seu melhor amigo Colm (Brendan Gleeson), a fim de convidá-lo para a habitual rodada de bebidas no bar local. Mas, por alguma razão, tudo está diferente. Colm não quer mais ser seu amigo, nem nunca mais falar com ele. Para Padraic, a perda dessa amizade –e ainda por razões que seu intelecto não consegue entender –será uma questão insuportável. É dessa circunstância curiosa e brilhantemente calcada em notáveis personagens que se abastece a narrativa de “Os Banshees de Inisherin”, realização que o audaz Martin McDonagh sucede ao seu premiado “Três Anúncios Para Um Crime”.

Diretor, roteirista e produtor de suas obras –o que lhe garante total autonomia e liberdade criativa para com seu resultado final –McDonagh é um autor atento às peculiaridades insondáveis de seu personagens e, em cada filme, encontra uma chance para lapidar ainda mais um talento nato para sublinhar as diversas dualidades humanas. Aqui, ele tem dois ótimos protagonistas –Padraic e Colm, aliás, interpretados pela mesma dupla que estrelou o primeiro longa-metragem de McDonagh, “Na Mira do Chefe” –e outros tantos excelentes coadjuvantes, como Siobhan (a sensacional Kerry Condon, de “A Última Estação”), irmã de Padraic, e das poucas pessoas letradas e sensatas da rude Inisherin; ou Dominic (Barry Keoghan, de “O Sacrifício do Cervo Sagrado”), jovem com uns parafusos a menos, filho de um pai abusivo e truculento. Esses e outros personagens, todos moradores da reclusa comunidade de Inisherin –tão enclausurada em si mesma que os vestígios da guerra que se sucede no continente resumem-se à explosões e tiros banais percebidos com certa indiferença ao longe –giram em torno da amizade entre os dois protagonistas que chega ao fim.

Para Padraic, cuja vida seguia numa marcha à qual ele não almejava promover mudanças, a atitude de Colm é uma reviravolta que ele não compreende –e tão mais incompreensível lhe é, que sua busca por motivações, nos dias que se seguem, acirra ainda mais o abismo que os separa. Já, para Colm, a amizade com Padraic era um empecilho para suas reais aptidões: Numa certa idade, ele se dá conta que as vicissitudes de casa até o bar que satisfaziam o amigo não têm o mesmo efeito sobre ele. Colm quer, nessa altura da vida, deixar um legado na forma de música, e para tanto, ele toma a decisão radical de remover a distração –ou seja, Padraic –de seu dia-a-dia.

Tão radical é essa decisão e a determinação para mantê-la, que Colm promete: Toda a vez que Padraic contrariar suas bem declaradas disposições para ficarem longe um do outro, Colm haverá de mutilar um dedo da própria, até não lhe restar nenhum (!).

Habilidoso na avaliação dramatúrgica dessa premissa, o filme de Martin McDonagh revela-se prodigioso ao abordar essa questão um tanto escorregadia sem obviedades; no roteiro cheio de equilíbrio e inspiração (sempre um ponto muito forte nos trabalhos de McDonagh), no elenco magistral e homogêneo que reúne, e na junção absolutamente sublime de gêneros que realiza –do humor reticente, agridoce e peculiar ao drama incisivo e minimalista –“Os Banshees de Inisherin” é uma fábula sobre a mutação imprevista dos sentimentos nas dinâmicas mais inusitadas, e a interessante reação de terceiros a essa circunstância (algo que pode ser visto como o cerne de toda obra de McDonagh). Um trabalho de insuspeita astúcia e irrestrita propriedade, inclusive, um passo cada vez mais longe da caricatura com a qual McDonagh já foi acusado de executar suas construções dramáticas.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Os Indicados Ao Oscar 2023


 E foram anunciados então os indicados ao prêmio máximo do cinema (será que ainda é?). A premiação deste ano aparentemente parece tentar enaltecer as produções que trouxeram o público e as grandes bilheterias de volta às salas de cinema após o marasmo financeiro que foram os dois anos de pandemia. O que explica a presença de praticamente todos os grandes blockbusters do ano em muitas das categorias –com “The Batman” e “Pantera Negra-Wakanda Forever” recebendo muitas nomeações técnicas. Sem mais delongas, vamos à lista dos indicados:

FILME

“All Quiet on the Western Front”

“Avatar-The Way of Water”

“The Banshees of Inisherin”

“Elvis”

“Everything Everywhere All at Once”

“The Fabelmans”

“Tár”

“Top Gun-Maverick”

“Triangle of Sadness”

“Women Talking”

DIREÇÃO

Martin McDonagh por “The Banshees of Inisherin”

Daniel Kwan, Daniel Scheinert por “Everything Everywhere All at Once”

Steven Spielberg por “The Fabelmans”

Todd Field por “Tár”

Ruben Ostlund por “Triangle of Sadness”

A ausência de Spielberg e seu “The Fabelmans” nas indicações do SAG (o mais confiável dentre todos os termômetros do Oscar) lançou uma ligeira incerteza entre os favoritos, deixando margem para o crescimento vertiginoso do consagrado “The Banshees of Inisherin” e, sobretudo, do já icônico “Everything Everywhere All at Once” (o líder em indicações, com 11). Mas, essas considerações ficaram em segundo plano diante da inclusão de “Top Gun-Maverick” na categoria de Melhor Filme, seguindo uma tendência muito semelhante à de “Mad Max-Estrada da Fúria” em 2016: A continuação tardia de um clássico dos anos 1980, surpreendendo público e crítica com um nível assombroso e imprevisto de qualidade. Esperem por sua menção em várias categorias técnicas.

ATRIZ

Cate Blanchett por “Tár”

Ana de Armas por “Blonde”

Andrea Risenborough por "To Leslie"

Michelle Williams por “The Fabelmans”

Michelle Yeoh por “Everything Everywhere All at Once”

Um dia após “Blonde” receber uma leva considerável de indicações ao Framboesa de Ouro (os Piores do Ano), a Academia de Artes Cinematográficas decidiu honrar aquela que é, de longe, a maior qualidade do filme; sua atriz principal, a fabulosa Ana de Armas. Contudo, o nome a ser batido nesta categoria (sempre uma das mais disputadas da cerimônia) é Cate Blanchett que surge fortíssima e bem cotada por seu tour-de-force em “Tár” –há quem diga que, por conta disso, os prêmios ao filme podem se restringir apenas a esse. Ainda assim, pode haver alguma esperança para os belíssimos trabalhos das duas Michelles: a Williams, vivendo nada menos que a mãe de Steven Spielberg em “Fabelmans” e, em especial, a Yeoh, que encantou meio mundo, fazendo rir, chorar e vibrar em “Everything Everywhere All at Once”.

ATOR

Austin Butler por “Elvis”

Colin Farrell por “The Banshees of Inisherin”

Brendan Fraser por “The Whale”

Paul Mescal por “Aftersun”

Bill Nighy por “Living”

Desde antes de seu emocionante discurso quando ganhou o prêmio de Melhor Ator no Critics Choice Awards, Brendan Fraser já era certo nesta categoria, assim como seus mais fortes concorrentes, Colin Farrell e o jovem Austin Butler (arrebatando público e crítica no desafiador papel de Elvis Presley), todos eles, experimentando a primeira indicação ao Oscar de suas carreiras. Meu palpite é que a briga fique mesmo entre Brendan Fraser e Austin Butler.

EFEITOS VISUAIS

“All Quiet on the Western Front”

“Avatar: The Way of Water”

“The Batman”

“Black Panther: Wakanda Forever”

“Top Gun: Maverick”

FOTOGRAFIA

"All Quiet on the Western Front”James Friend

“Bardo-False Chronicle of a Handful of Truths” Darius Khondji

“Elvis” Mandy Walker

“Empire of Light” Roger Deakins

“Tár” Florian Hoffmeister

MONTAGEM

“The Banshees of Inisherin” Mikkel E.G. Nielsen

“Elvis” Jonathan Redmond, Matt Villa

“Everything Everywhere All at Once” Paul Rogers

“Tár” Monika Willi

“Top Gun-Maverick” Eddie Hamilton

DIREÇÃO DE ARTE

“All Quiet on the Western Front” Christian M. Goldbeck

"Avatar-The Way of Water” Dylan Cole, Ben Procter

"Babylon” Florencia Martin

"Elvis” Catherine Martin, Karen Murphy

"The Fabelmans” Rick Carter

MAQUIAGEM E CABELO

“All Quiet on the Western Front”

“The Batman”

“Black Panther-Wakanda Forever”

“Elvis”

“The Whale”

As premiações técnicas, este ano, tendem a ser mais democráticas –e não concentrarem-se num único ganhador, como ocorre em muitos outros anos –até para que a Academia possa honrar e consagrar os diversos campeões de bilheteria de 2022. Dito isso, os Efeitos Visuais provavelmente ficarão com “Avatar”; Fotografia e Montagem devem ficar com “Everything Everywhere All at Once” (mas, eu não me surpreenderia se “Top Gun-Maverick” levasse esse último); Direção de Arte parece já estar nas mãos da equipe de “Babylon” (a menos que “All Quiet on the Western Front” prove o contrário); e Maquiagem e Cabelo, embora eu aprecie também o trabalho realizado em “The Whale”, deve ficar mesmo com “The Batman”.

ANIMAÇÃO

“Guillermo del Toro’s Pinocchio”

“Marcel the Shell With Shoes On”

“Puss in Boots-The Last Wish” (DreamWorks Animation)

“Turning Red”

“The Sea Beast”

FILME INTERNACIONAL

“Argentina, 1985” (Argentina”

“Close” (Bélgica)

“All Quiet on the Western Front” (Alemanha)

“The Quiet Girl” (Irlanda)

“EO” (Polônia)

DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM

“The Elephant Whisperers”

“Haulout”

“How Do You Measure a Year?”

“The Martha Mitchell Effect”

“Stranger at the Gate”

DOCUMENTÁRIO

“All That Breathes”

“All the Beauty and the Bloodshed”

“Fire of Love”

“A House Made of Splinters”

“Navalny”

ATOR COADJUVANTE

Brendan Gleeson por “The Banshees of Inisherin”

Brian Tyree Henry por “Causeway”

Judd Hirsch por “The Fabelmans”

Barry Keoghan por “The Banshees of Inisherin”

Ke Huy Quan por “Everything Everywhere All at Once”

Não deixa de ser uma surpresa a presença de Brian Tyree Henry (de “Eternos”) entre os indicados a Coadjuvante pelo drama de guerra, “Causeway” –a atriz principal, Jennifer Lawrence, também estava cotada para concorrer na época do lançamento do filme, mas, com o tempo, perdeu consideravelmente a força. Não há dúvidas de que o grande favorito (e, de repente, o grande merecedor também) seja o extremamente carismático Ke Huy Quan que tem como grandes competidores o talento nato, exigindo reconhecimento, do jovem Barry Keoghan (que, veja só, também estava no elenco de “Eternos”) e as fortes presenças dos veteranos Brendan Gleeson e Judd Hirsch.

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

“The Boy, The Mole, The Fox and The Horse”

“The Flying Sailor”

“Ice Merchants”

“My Year of Dicks”

“An Ostrich Told Me the World Is Fake and I Think I Believe It”

CURTA-METRAGEM LIVE ACTION

“An Irish Goodbye”

“Ivalu”

“Le Pupille”

“Night Ride”

“The Red Suitcase”

ROTEIRO ORIGINAL

“The Banshees of Inisherin” de Martin McDonagh

“Everything Everywhere All at Once” de Daniel Kwan, Daniel Scheinert

“The Fabelmans” de Tony Kushner, Steven Spielberg

“Tár” de Todd Field

“Triangle of Sadness” de Ruben Östlund

ROTEIRO ADAPTADO

“All Quiet on the Western Front” de Edward Berger, Lesley Paterson, Ian Stokell

“Glass Onion-A Knives Out Mystery” de Rian Johnson

“Living” de Kazuo Ishiguro

“Top Gun-Maverick” de Christopher McQuarrie, Eric Warren Singer, Ehren Kruger

“Women Talking” de Sarah Polley

O fato de “Top Gun-Maverick” concorrer ao prêmio de Roteiro já é, em si, uma grata surpresa –e ainda por cima Roteiro Adaptado (segundo as normas da Academia, o fato de ser uma continuação o habilita para essa categoria) –numa disputa que tem como favorito o engajado “Women Talking”, além da excelência sempre premiável de Rian Johnson em “Glass Onion”. Já, entre os Roteiros Originais, a briga será feia: O dramaturgo Tony Kushner surge com ligeira vantagem na semi-biografia do próprio Spielberg, mas pode ficar para trás a medida que o magnífico trabalho dos ‘Daniels’, Kwan e Scheinert –“Everything Everywhere All at Once” –adquira mais favoritismo, e o mesmo vale para “The Banshees of Inisherin” (os trabalhos de Martin McDonagh têm no roteiro suas maiores forças).

CANÇÃO

“Lift Me Up” de “Black Panther-Wakanda Forever”

“This Is A Life” de “Everything Everywhere All at Once”

“Naatu Naatu” de “RRR”

“Applause” de “Tell It like a Woman”

“Hold My Hand” de “Top Gun-Maverick”

TRILHA SONORA

“All Quiet on the Western Front”

“Babylon”

“The Banshees of Inisherin”

“Everything Everywhere All at Once”

“The Fabelmans”

FIGURINOS

“Babylon” Mary Zophres

“Black Panther-Wakanda Forever” Ruth E. Carter

“Elvis” Catherine Martin

“Everything Everywhere All at Once” Shirley Kurata

“Mrs. Harris Goes to Paris” Jenny Beavan

Parece ter tido larga aprovação a inclusão do descontraído épico indiano “RRR” na categoria de Melhor Canção –bem como o premiação deste no Globo de Ouro –o que pode roubar de “Top Gun-Maverick” uma antecipada vantagem na busca por essa estatueta. Seja como for, o prêmio de Trilha Sonora deve ficar entre “Fabelmans” –John Williams já nem deve saber mais quantos Oscars já tem na prateleira! –e “Babylon”, o favorito na categoria de Figurinos, prêmio que ele disputa diretamente com “Wakanda Foverer”, cuja figurinista, Ruth E. Carter, já levou um Oscar pelo primeiro “Pantera Negra”

SOM

“All Quiet on the Western Front”

“Avatar-The Way of Water”

“The Batman”

“Elvis”

“Top Gun-Maverick”

ATRIZ COADJUVANTE

Angela Bassett por “Black Panther-Wakanda Forever”

Hong Chau por “The Whale”

Kerry Condon por “The Banshees of Inisherin”

Jamie Lee Curtis por “Everything Everywhere All at Once”

Stephanie Hsu por “Everything Everywhere All at Once”

É interessante que a mais cotada para ganhar seja a magnífica veterana Angela Bassett, justamente por seu papel num filme da Marvel Studios –ela que já amedalhou o Globo de Ouro. Entretanto, há que se prestar atenção nos trabalhos de Hong Chau (de “Pequena Grande Vida”) em “The Whale” e na forte dobradinha das coadjuvantes de “Everything Everywhere All at Once”, Stephanie Hsu e Jamie Lee Curtis, em especial, essa última.

E é isso. Os vencedores nós descobriremos no domingo, dia 12 de março de 2023, quando a entrega de todos esses prêmios for realizada.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Os Vencedores do Globo de Ouro 2023


 Assim como quem não quer nada, foi realizada a entrega do Globo de Ouro 2023 –em meio à outros acontecimentos nacionais e internacionais, foi algo que passou quase batido já que nenhum canal brasileiro transmitiu o evento –segue, portanto, a lista dos vencedores nas categorias cinematográficas:

MELHOR FILME DE DRAMA

 Os Fabelmans

MELHOR FILME DE COMÉDIA/MUSICAL

 Os Banshees de Inisherin

Na categoria drama, se de um lado havia os sucessos de bilheteria incontestes dos aclamados “Top Gun-Maverick” e “Avatar-O Caminho da Água”, do outro, havia a extraordinária aceitação de crítica dos elogiadíssimos “Elvis” e “Tár”, entretanto, nada disso foi mais impactante para o membros da Impressa Estrangeira de Hollywood do que a produção autobiográfica de Steven Spielberg.

Já entre os filmes de comédia e musical, o forte favoritismo de “Tudo Em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” –o qual se expressa na sua presença em todas as premiações até aqui –acabou dando espaço para o primor discreto ainda que indelével de “Os Banshees de Inisherin”. No cômputo geral, as duas obras têm mais chance no Oscar?

Sim e não.

Já faz algum tempo que o Golden Globe não reflete com tanta exatidão as predisposições da Academia de Artes Cinematográficas –esse mérito pertence mais aos prêmios dos Sindicatos –contudo, a premiação revelou sensata e criteriosa, laureando duas obras (sobretudo, a de Spielberg) que trazem muitas razões para seu reconhecimento, e esta é uma posição que o Oscar não deve deixar de adotar.

MELHOR ATOR DE DRAMA

 Austin Butler (Elvis)

MELHOR ATRIZ DE DRAMA

 Cate Blanchett (TÁR)

MELHOR ATOR DE COMÉDIA/MUSICAL

 Colin Farrell (Os Banshees de Inisherin)

MELHOR ATRIZ DE COMÉDIA/MUSICAL

 Michelle Yeoh (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

 Ke Huy Quan (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

 Angela Bassett (Pantera Negra-Wakanda Para Sempre)

O jovem Austin Butler confirmou o que muitas previsões vinham indicando e, após esta vitória, segue fortíssimo ao Oscar, ainda que a presença, na mesma categoria de Brendan Fraser por “The Whale” não deva ser ignorada; e Colin Farrell vence pela segunda vez um Globo de Ouro de Melhor Ator num filme de Martin McDonagh (a primeira foi por “Na Mira do Chefe” em 2009).

Entre as atrizes, a competição, embora acirrada, permanece se afunilando entre as agora premiadas no Golden Globes Cate Balnchett e Michelle Yeoh –ao que tudo indica, com certa vantagem para a primeira. Concorrentes capazes de ombreá-las seriam Viola Davis (por “A Mulher-Rei”) e Michelle Williams (por “The Fabelmans”); embora esteja perdendo rapidamente sua força, eu ainda torço por uma lembrança de Ana De Armas e sua corajosa composição em “Blonde”.

É entre os coadjuvantes que a coisa fica curiosa: Se Ke Huy Quan já vinha a muito sendo prestigiado por seu trabalho –e penso que ele e seus outros concorrentes na categoria não devem encontrar dificuldades em chegar ao Oscar, em especiel Brendan Gleeson e Barry Keoghan, ambos por “Banshees de Inisherin” –a vencedora entre as atrizes foi uma relativa surpresa; é a primeira vez que um prêmio principal, de relativa expressão, contempla um filme da Marvel Studios, premiando a literalmente majestosa Angela Basset quando todas as apostas pareciam se inclinar para a disputa entre Jamie Lee Curtis (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo) e Kerry Condon (Banshees de Inisherin).

MELHOR DIREÇÃO

 Steven Spielberg (Os Fabelmans)

MELHOR ROTEIRO

 Os Banshees de Inisherin (Martin McDonagh)

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

 Babilônia (Justin Hurwitz)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

 RRR: Revolta, Rebelião, Revolução ("Naatu Naatu") de M.M. Keeravani, Kaala Bhairava e Rahul Sipligunj.

MELHOR FILME INTERNACIONAL

 Argentina, 1985 (Argentina)

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO

 Pinóquio (Guillermo del Toro e Mark Gustafson)

Os prêmios de Direção e Roteiro enfatizaram a predileção de “Fabelmans” e “Inisherin” certamente fortes competidores daqui para frente –embora hajam filmes que devem ser lembrados por outras premiações –surpreendeu a vitória do épico indiano “RRR” na categoria de Melhor Canção onde o favorito era “Top Gun” e a música composta por Lady Gaga.

Houve algo de inesperado em alguns dos escolhidos do Golden Globe 2023, não há dúvida, mas é muito provável que essas surpresas acabem se tornando atitude isoladas do que tendências as serem adotadas na temporada de premiações que ainda virá.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Na Mira do Chefe

Após conquistar o Oscar 2006 de Melhor Curta-Metragem com “Six Shooter” (que também contava com Brendan Gleeson em seu elenco), o diretor e roteirista Martin McDonagh arregaçou as mangas e estreou em longa-metragens neste “In Bruges”, um trabalho fervilhante de humor negro que, com o tempo, ficou bem claro, era bastante sintomático de seu estilo e de suas nada usuais inquietações –nele, enxergamos seu fascínio por matadores de aluguel (foco de “Sete Psicopatas e Um Shi-Tzu”) e uma estranha obsessão por anões (!) (também é um anão um dos personagens fundamentais de “Três Anúncios Para Um Crime”).
“In Bruges” prova também que, como contador de histórias, McDonagh se presta a jamais desempenhar numa zona de conforto: Tão logo concluem um assassinato encomendado, o veterano Ken (Gleeson) e o novato Ray (Colin Farrel, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia) são incumbidos de refugiar-se na cidade de Bruges, na Bélgica, por duas semanas e lá esperar por notícias.
E assim, durante boa parte de sua primeira metade, o filme de McDonagh se propõe a discorrer sobre o nada (!): Embora paisagística e de apelo turístico, Bruges é uma cidade bucólica e modorrenta, despertando reações diferentes nos dois assassinos de aluguel.
Disposto a acatar as ordens de cima, Ken aceita a incumbência e tenta distrair-se com o roteiro de visitas proposto pelo hotel onde se hospedam.
Porém, mais jovem e inquieto, Ray não recebe tão bem assim a designação; Bruges é um lugar onde deveras ele não gostaria de estar –e um trágico contratempo acarretado durante sua última missão o corrói de remorso deixando-o ainda mais agitado.
Enquanto aguardam as instruções do que fazer, Ken e Ray perambulam pelo lugar, trocam ideias e vivenciam experiências corriqueiras: Ray observa as filmagens de um longa-metragem local, e fica intrigado pela presença de um anão (Jordan Prentice) no que parece ser uma espécie de referência à “Inverno de Sangue Em Veneza”.
É ali que ele conhece Chloe (Clémence Poésy, de “Harry Potter e O Cálice de Fogo”), jovem traficante local com quem acaba se envolvendo, e que lhe atrai ainda mais confusão, sobretudo, quando o violento namorado dela (Jérémie Renier, de “O Amante Duplo”) tenta roubá-lo.
O roteiro de McDonagh parece justapor exatamente isso, essa escalada da violência (do namoradinho de Chloe a coisa degringola para o próprio chefe deles, vivido por um ameaçador ainda que engraçado Ralph Fiennes) num ambiente hermético; e a partir desses desdobramentos, ele não poupa ninguém: A meia hora final submete seus protagonistas a revezes violentos e sangrentos que orgulhariam Quentin Tarantino.
Mais que isso, “In Bruges” se faz notável pelo seu encadeamento notadamente acadêmico, mas atenciosamente assimétrico e equilibrado: Os eventos que compõem seu desfecho são de uma harmonia dramática que se equaciona com os acontecimentos presentes em seu ponto de partida; curioso é o estranho contraste que a violência algo desmesurada (ainda que homeopática) e a ausência de zelo para com a integridade de seus personagens acarreta ao público quando o filme nos confronta com seu clímax: McDonagh promove um misto destemido de drama agridoce e intriga policial sangrenta, brindado com uma das mais incomuns e convictas interpretações de Colin Farrel.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Três Anúncios Para Um Crime


O grande trabalho de Martin McDonagh promove a convergência de diversos gêneros harmonizados pela boa condução de um elenco primoroso: Passeia-se do drama genuíno e não raro pesado à comédia de intenções satíricas para com as autoridades e os discursos de empostação intransigente, chegando até o suspense e o gênero policial de investigação.
Dessa maneira, muitos foram os críticos que enxergaram nessa largueza de detalhes uma caricatura que contradizia as propostas sérias que a premissa inicialmente cultivava.
Quando um filme é bom demais, ele padece pelas prerrogativas exigentes de alguns expectadores para que ele seja, de fato, bom; esse problema se dá, com mais freqüência, com as obras indicadas ao Oscar, caso de “Três Anúncios Para Um Crime”, cujos prêmios de Melhor Ator Coadjuvante (para Sam Rockwell) e Melhor Atriz (para Frances McDormand), ele venceu.
Frances é Mildred Hayes, mãe de uma filha estuprada e morta na cidadezinha de Ebbing, no Missouri, cujo crime ainda não se solucionou: Depois de sete meses, o caso emperrou na incapacidade da polícia local.
Mildred, então, toma uma decisão radical: Resolve alugar três outdoors –localizados num trecho pouco movimentado da rodovia –e neles divulga três mensagens contundentes de apelo crítico à polícia.
A repercussão é fervorosa, em grande parte, porque o xerife, Will Willoughby (Woody Harrelson), além de ser uma figura querida na cidade, está padecendo de câncer no pâncreas. Ninguém se mostra favorável à Mildred; nem seu filho Robbie (Lucas Hedge, de “Manchester ÀBeira-Mar”) que trata o luto pela irmã silenciosamente; nem seu violento ex-marido, Charlie (John Hawkes); nem mesmo Welby, o jovem que lhe alugou os outdoors (interpretado por Caleb Landry Jones) e que, com isso, ganhou a antipatia de toda força policial; e muito menos do racista, impulsivo e irresponsável policial Dixon (Sam Rockwell), cujas atitudes encrenqueiras passam longe de espelhar o que se espera de um policial.
Se há, na trama que centraliza Mildred, algum potencial para o melodrama e para a comiseração, o roteiro primoroso de McDonagh e, em especial, a atuação estupenda, implacável e poderosa de Frances McDormand não permitem que aconteça: Essencial em uma galeria de ótimos e magníficos personagens, Mildred é a força que movimenta todos os núcleos, mesmo àqueles aos quais ela não parece incluída.
E o filme de McDonagh ainda esbanja perspicácia e inteligência ao brindar o expectador com sucessivas dinâmicas distintas e deliciosas de se acompanhar: A camaradagem cheia de graça, perplexidade e alguma tensão entre Dixon e Willoughby; a dor impronunciável que intoxica os momentos entre Mildred e Robbie; a violência ridícula que pontua os encontros entre Mildred e Charlie; a implicância potencialmente letal que surge quando Dixon se encontra com Welby e que, aos poucos, adquire inesperado afeto.
Nenhuma delas, contudo, supera, a relação de distância, antagonismo e incompreensão abissal que define os momentos que Mildred e Dixon dividem juntos, mas que, paulatinamente vão se modificando para uma das parcerias mais sensacionais do cinema recente, e que promove, no personagem de Sam Rockwell, uma sutil e brilhante metamorfose.
Diante de um filme tão bom, tão singularmente interessante e notável, parece irrelevante a discussão do quão realista ele se mostra em relação a ideologias de posturas políticas –o quê parte da crítica até andou fazendo –mas, mesmo assim, Martin McDonagh soube manter a sensatez com seu corajoso final, no qual se arrisca a contrariar as expectativas do público com um desfecho transitório onde ele se atreve a espelhar os anseios que cada expectador haverá de ter, em seus próprios termos.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Sete Psicopatas e Um Shih Tzu

Diretor de “Três Anúncios Para Um Crime”, um dos grandes favoritos ao Oscar 2018, Martin McDonagh tem, como se pode constatar por este trabalho, um apreço pelo humor negro. E como todo autor a lidar com um estilo que aprecia, ele o exerce com habilidade insuspeita: “Sete Psicoapatas e Um Shih Tzu” une comédia e sordidez humana num viés de cinismo que dá sabor à narrativa algo multifacetada que ele oferece.
Seu protagonista numa brincadeira de metalinguagem que aos poucos vai ficando clara é Marty, um reflexo do próprio Martin McDonagh, diretor e roteirista (interpretado por Colin Farrel, chapa do diretor com quem antes fez “Na Mira do Chefe”). Envolvido com a bela e impaciente Kaya (Abbie Cornish), Marty é um roteirista hesitante –tem uma idéia para um roteiro que vai pouco além do título –“Seven Psychopaths”, o título original –e aos poucos vai elaborando os personagens: O 1º é uma mulher que, na cena indicativa e significativa que abre o filme, extermina a sangue frio dois assassinos de aluguel; o 2º é um quacre (Harry Dean Stanton), pai desolado de uma garota morta que persegue o assassino dela mesmo depois que este paga uma sentença de anos e se regenera após a prisão.
Aos poucos a realidade vai invadindo a premissa fictícia: O melhor amigo de Marty, o destrambelhado Billy (o ótimo Sam Rockwell que está no elenco de “Três Anúncios Para Um Crime”) trabalha num negócio ilícito e picareta com Hans (Christopher Walken); eles ‘sequestram’ cães de pessoas ricas e os devolvem depois que é anunciada uma recompensa, para assim dividirem o dinheiro; pois o 3º psicopata é justamente Charlie Costello (Woody Harrelson, também ele presente em “Três Anúncios...”), o gangster irascível dono do cachorrinho que a perplexa Sharice (uma breve ponta de Gaborey Sidibe, de “Preciosa”) perdeu –cachorro este levado pelos ‘seqüestradores’.
O 4º psicopata é um vietnamita que tem por obsessão vestir-se de padre e chacinar norte-americanos (!) e que terá apenas um sentido reflexivo no final.
O 5º psicopata, que se apresenta à Marty respondendo a um anúncio colocado num jornal por Billy, é Zach (o lendário Tom Waits) e sua namorada Maggie –seria ela então o 6º psicopata –que juntos resolveram viajar os EUA matando serial killers (deram cabo, inclusive do Zodíaco!), mas vieram a se separar.
O caldo da trama elaborada por McDonagh engrossa quando as pontas soltas começam surpreendentemente a se juntar: O rastro de vingança de Charlie em busca de seu cachorro seqüestrado (da raça shih tzu) leva a morte da esposa de Hans e, por conta disso, Billy –revelando-se o 7º psicopata –mata sua namorada Angela (a linda Olga Kurylenko) que, à propósito, era o 1º psicopata mencionado no início.
À medida que a narrativa se afunila em seus quarenta minutos finais (que se estendem desnecessariamente), a metaliguagem proposta pelo diretor se mostra ainda mais intensa e notável, bem como algumas surpresas que ele guarda na manga e a influência nítida de Tarantino e seu “Pulp Fiction” –algo inevitável em toda uma geração de cineastas americanos.
“Sete Psicopatas e Um Shih Tzu” é uma obra de um jovem autor habilidoso e antenado com as características contumazes do cinema urgente feito na atualidade, tem suas fragilidades, é bem verdade (e elas respondem, sobretudo, pela sua incapacidade em ser mais objetivo com seu enredo, resultando numa primeira metade sensacional e numa segunda enrolada), mas é revelador de um talento que, cedo ou tarde, entregaria algo realmente extraordinário.