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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Éden


 O diretor Ron Howard já experimentou a consagração com “Uma Mente Brilhante”, e o largo sucesso com “Código Da Vinci”, contudo, de uns anos pra cá, seu cinema tornou-se claudicante, oscilando entre uma técnica apurada, um profissionalismo nítido e um vazio de iniciativa, de inspiração que engessava seus trabalhos.

Embora seja uma obra relativamente interessante e pertinente (ainda mais inserida no panorama genérico atual do cinema norte-americano), “Éden” padece de alguns desses lapsos.

Baseado num fato real transcorrido no início do Século XX, “Éden” constrói uma narrativa a partir de indícios muitas vezes contraditórios em relação aos acontecimentos retratados. Na ânsia de concretizar os fatos sem assumir pontos de vistas unilaterais, o roteiro de Noah Pink, a partir de conceitos elaborados por ele e pelo diretor Ron Howard, oferece uma cadeia de acontecimentos que terminam não priorizando a postura, nem a índole de ninguém, o resultado é um filme onde pessoas torpes são ocasionalmente confrontadas com outras ainda piores, numa exposição algo involuntária da inerente maldade humana.

Após a Primeira Guerra Mundial, o médico e filósofo Friedrich Ritter (Jude Law) parte para a Ilha Floreana na distante região dos Galápagos, junto da colega Dore Strauch (Vanessa Kirby) a fim de se afastar da humanidade e de criar, ali, um conceito inédito de meio de vida, rompendo com as defasadas considerações sociais, e muito amparado no niilismo espartano de Friedrich Nietzsche. Todavia, uma fagulha de vaidade e de necessidade de ser enaltecido ainda queima dentro do Dr. Ritter, por isso, de tempos em tempos, nas visitas de algum navio errantes por aquelas águas longínquas, ele aproveita para enviar ao mundo exterior suas cartas, nas quais deposita sua retórica sobre essa nova forma alternativa de existência, que ele enxerga como um manifesto contra a tendência auto-destrutiva dos governos mundiais.

Com o tempo, suas cartas –publicadas em jornais e revistas da época –se tornam uma espécie de sensação, e o Dr. Ritter, um lenda em seu exotismo. Até que, no inverno de 1932, o exemplo de Ritter leva Heinz Wittmer (Daniel Brühl), sua esposa Margret (Sydney Sweeney) e seu filho (Jonathan Tittel), à Ilha de Floreana, a fim de partilhar dessa mesma vivência, esse rompimento com os grilhões de conveniência social.

O filho de Heinz sofre de tuberculose, então intratável, com péssimas perspectivas pela medicina da época, e a jovem esposa, Margret, está, ainda sem saber, grávida. Ao chegarem em Floreana, o Dr, Ritter e Dore, arredios, os recebem com inesperado desdém –a contundente utopia que eles planejavam ali não vinha atrelada à traquejo social, e nem tampouco era pensada para envolver outros além deles próprios.

Instalados, de início, numa das cavernas da região (!), Heinz e Margret vão se adaptando à duras penas, construindo uma casa e erguendo um lugar onde almejam, de fato, viver –esses percalços surgem registrados nas cartas que Marget, então com 23 anos, escreve e envia, de tempos em tempos para a mãe.

No entanto, algum tempo depois, chega em Floreana outra comitiva, aquela que, desta vez, realmente irá virar tudo de pernas pro ar: Os subalternos, criados e meros bajuladores da Baronesa Eloise Von Wagner de Bousquet (Ana De Armas, ligeiramente histriônica no retrato de uma das mais odiosas vilãs do cinema recente). Afirmando estar lá na ilha para a construção de um hotel exclusivo para turistas muito ricos, a Baronesa se instala, com seu séquito –entre os quais, o amante e capacho Lorenz (Felix Kammerer, de “Nada de Novo No Front”) e outro amante (!) e guarda-costas Phillipson (Toby Wallace) –numa interseção entre as moradas de Ritter e Dore, e de Heinz e Margret. Ela cria divergências –abre as correspondências de Ritter e tenta colocar a culpa em Heinz –protagoniza excessos e age com displicência –quando a comida que levou (e que consomem desordenadamente) acaba, envia seus lacaios para roubar de Heinz e Margret.

Não demora muito para que esse paraíso (que de paradisíaco, desde o começo, nunca teve nada!) se torne um inferno com os conflitos de ordem íntima criados por ela –na realidade, a própria Baronesa é, em si, um embuste: Uma golpista que singrou a Europa manipulando homens ricos com sua beleza, ela tenta sua última cartada ali, em Floreana, na tentativa de se estabelecer no que pode ser um empreendimento imobiliário legítimo, valendo-se de todos aqueles que sua lábia e sua capacidade de sedução arregimentarem em favor de seus interesses.

O que acontece, todavia, é um caldeirão de tensões que, eventualmente, irá explodir.

Um filme amargo que opõe a sobrevivência à convivência (como se fossem fatores opostos) e que parece refletir sobre o quanto as celeumas humanas, como a ganância e a cobiça, são incapazes de serem evitadas pelo homem, por mais que ele queira, “Éden” se ressente justamente dessa sua contundente postura moral –não há personagens íntegros ou incorruptíveis aos quais a narrativa possa se ancorar, e dessa forma assim ambígua eles são interpretados pelo (ótimo) elenco: Jude Law ostenta, carrancudo, uma desilusão que só o empurra cada vez mais para o antagonismo e a violência, afastando-o da paz e da transcendência inicialmente pretendida; Vanessa Kirby vive uma mulher de um discurso altivo acerca de suas escolhas, mas cujo olhar entrega a insatisfação que é incapaz de admitir; Daniel Brühl na segunda colaboração com Ron Howard (a primeira foi o excelente “Rush”) se mostra preciso no registro minimalista de seu personagem; e Sydney Sweeney, talvez, a grande surpresa do filme, oblitera as impressões de símbolo sexual que, em geral, a perseguem para entregar aqui uma interpretação introspectiva orientada por uma metamorfose sutil e, ao fim do filme, desconcertante.

terça-feira, 9 de maio de 2023

Blonde


 A Academia de Artes Cinematográficas executou uma manobra de muita sabedoria ao indicar Ana de Armas ao Oscar de Melhor Atriz por “Blonde”, ainda que em todas as outras indicações, o filme de Andrew Dominik (de “O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford”) tenha prevalecido mesmo no nada honroso Framboesa de Ouro, que ‘premia’ os piores do ano. A dica está dada: É na atuação vulnerável, corajosa, minimalista e circunspecta de Ana de Armas que repousa o mais absoluto e brilhante mérito do filme.

“Blonde” –por sua vez, inspirado no livro de Joyce Carol Oates –é desrespeitoso como biografia (trechos da vida de Marilyn Monroe são omitidos e outros, fictícios, são acrescentados na maior cara de pau), irregular como narrativa (diversas passagens soam fragmentadas e inconclusas, algo incabível numa obra de duas horas e quarenta minutos de duração) e exasperante como cinema (o estilo imposto por Dominik, muitos foram os críticos a reparar, converte a vida de Marylin Monroe num pesadelo à la David Lynch, e as semelhanças com “Império dos Sonhos” não são nenhuma coincidência).

Nessa via crusis de desilusão e dissolução pessoal que Dominik faz parecer que foi a vida de Marilyn, adentramos sua jornada quando ainda era uma criança (interpretada pela pequena Lily Fisher) e atendia pelo nome Norma Jeane, sob os cuidados da mãe (Julianne Nicholson, de “Eu, Tonya”) que logo manifesta contundentes sinais de demência, o que leva Norma ao orfanato –não sem antes mostrar a ela um retrato carcomido de quem teria sido o pai que ela jamais conheceu. Esse detalhe (a figura paterna inexistente), a tentativa de afogamento numa banheira e o incêndio em Hollywood que ela foi forçada a testemunhar ainda pequena serão elementos que povoarão o subconsciente da personagem principal na forma de complementos visuais e cênicos de seus mais perenes tormentos.

Já crescida, e vivida com propriedade inquestionável pela belíssima e talentosa Ana de Armas, Norma Jeane, agora convertida quase que totalmente na persona artística que ela adota para si, Marilyn Monroe, vai galgando os degraus da fama hollywoodiana, não sem, vez ou outra, conhecer todo seu aspecto mais sórdido –como os ultrajantes ‘testes do sofá’, e as fotos de nudez em início de carreira que depois vieram à público.

A personalidade de Marilyn e, mais precisamente, as celeumas que acarretaram seus mais inapeláveis pesadelos são desvendados assim através de sucessivos lampejos que visitam, em ordem relativamente cronológica (e alternando cenas em preto & branco e em cores), certas etapas de sua vida, sem no entanto, proporcionar-lhes um encadeamento de lógica, presente num filme mais normal: Os testes psicologicamente exaustivos para obter o primeiro papel de importância (no suspense “Almas Desesperadas”); a gradual consolidação da fama e do mito sexual em “Torrentes de Paixão”, o que levou-a ao menage-à-trois quase desastroso para sua carreira com o filho de Chaplin e o filho de Edward G. Robinson (Xavier Samuel e Evan Williams), na primeira de suas inúmeras entregas sentimentais a homens imaturos, perniciosos e/ou abusivos; a gravidez interrompida por pressões externas durante a realização de “Os Homens Preferem As Loiras”; o casamento com Joe DiMaggio (Bobby Cannavale, de “Homem-Formiga”) cuja turbulência doméstica se intensificou durante a comoção por sua famosa cena do vestido esvoaçante em “O Pecado Mora Ao Lado”; a dependência emocional surgida em seu relacionamento com o dramaturgo Arthur Miller (Adrien Brody) e que levou aos surtos homéricos nos sets de filmagem de “Quanto Mais Quente Melhor”, onde ela passou a receber injeções de benzedrina; e, por fim, a relação extremamente abusiva e tóxica com o presidente John Kennedy (Caspar Phillipson), o que conduziu-a para um estado ainda mais irreversível de prejuízo emocional.

Na liberdade poética que adota para seu filme –abertamente uma fábula lúgubre sobre Marilyn Monroe e as espirais de decepção do showbuziness –o filme de Andrew Dominik não poupa ninguém, nem os parceiros de Marilyn ao longo da vida (Cass Jr. e Eddy Jr. são imorais e degenerados; DiMaggio é um homem truculento e incompreensivo; Miller, um marido ausente e egoísta; e Kennedy é retratado como um homem asqueroso e abjeto) nem sua estrela maior –mostrada na potencialidade irreprimível de suas carências e na totalidade de sua tristeza. Tanta desventura reflete, como muitos inclusive notaram, uma faceta um tanto questionável de misoginia da parte do diretor Dominik, uma vez que, tal e qual um certo Lars Von Trier, sua narrativa se abastece da sucessiva e constantemente revitalizada infelicidade de uma mulher, cujo sofrimento é reiterado sem tempo para se retomar o fôlego.

No fim, o que resta da tristeza irrestrita a qual somos expostos sem filtros neste comiserativo “Blonde” é a presença inigualável de Ana de Armas, numa atuação milagrosa capaz de trazer dignidade, vivacidade, excelência e encanto à sua protagonista.

Tudo que o filme de Andrew Dominik, para o bem e para o mal, não tem.

quinta-feira, 16 de março de 2023

007 - Sem Tempo Para Morrer


 Na última vez em que vimos o James Bond de Daniel Graig, em “007 Contra Spectre”, sua trajetória sinalizava uma espécie de desfecho para o personagem: A despeito disso jamais ter acontecido em qualquer outra versão, seja cinematográfica, seja literária, e mesmo que contra todas as probabilidades e até contra, digamos, o perfil do personagem, James Bond encontrava sua alma gêmea nas formas da forçadamente cativante Madeleine Swann (Lea Seydoux), abandonava o MI6 e partia em direção a um improvável final feliz de uma vida em família. Nesta nova produção, com intenções ainda mais contundentes de ser o capítulo derradeiro da Fase Daniel Craig, aquela pasmaceira familiar é descartada já no prólogo, uma longa cena de ação e perseguição na Itália (onde estaria o túmulo de Vesper, a bondgirl nº 1, morta em “Cassino Royale”), na qual Bond termina sentindo na pele os dissabores de se confiar demais e ser traído –ele deixa Madeleine (que julga tê-lo traído) numa estação de trem e garante à ela que nunca mais saberá dele. Entram os créditos iniciais, característicos e sensacionais desde o primeiro filme, com Sean Connery, e então “Sem Tempo Para Morrer” começa de verdade, com seu roteiro correndo contra o prejuízo e criando expedientes hábeis (uns muito bem bolados, outros nem tanto) para tentar trazer James Bond de volta ao seu status quo do qual algumas escolhas equivocadas do filme anterior ameaçaram removê-lo. Assim, passam-se cinco anos (!) e Bond, não mais um agente a serviço secreto de Vossa Majestade, é recrutado não pelo MI6, mas por seu grande amigo Felix Leiter (Jeffrey Wright), da CIA, que pede a Bond um favor: Recapturar um cientista russo sem escrúpulos, criador de um vírus a pedido do próprio MI6, que foi tirado de um laboratório secreto por um grupo obscuro que aparentemente é a Spectre.

A inusitada missão leva Bond à Cuba, na qual tem por ajudante a entusiasmada e divertida Paloma (a maravilhosa Ana de Armas, estabelecendo com Graig uma parceria um pouco diferente da que fizeram em “Entre Facas e Segredos”), talvez, a mais interessante e vívida personagem de todo o filme. Uma pena ela aparecer por tão pouco tempo...

O roteiro de “Sem Tempo Para Morrer” –assinado pelo diretor Cary Joji Fukunaga, Phoebe Waller-Bridge, Scott Z. Burns, Neal Purvis e Robert Wade, os dois últimos, roteiristas que, entre uma e outra colaboração, seguiram firme na franquia 007 desde os tempos de Pierce Brosnan, ou seja, conhecem (ou deveriam conhecer) toda a mitologia do personagem de cabo a rabo –lança mão de subterfúgios bastante sofisticados e expedientes objetivos de filmes de espionagem para desvencilhar-se da irrelevância e fazer-se surpreendente numa época em que expectadores não se surpreendem nem com reviravoltas-surpresas no melhor estilo M. Night Shyamalan. Não só isso, a produção também encara o desafio –inerente à todo filme de James Bond desde o fim dos anos 1980 –de fazer um personagem nascido das circunstâncias da Guerra Fria soar pertinente na atualidade, além de procurar se impor como uma válida obra cinematográfica tendo como objeto de comparação o fabuloso “007-Operação Skyfall”, com grande unanimidade tido como o melhor filme de Bond feito até hoje, e buscando fugir da proximidade qualitativa de obras que envergonharam a série, como “007 Contra O Foguete da Morte”.

São muitos, portanto, os desafios com os quais o diretor Cary Joji Fukunaga (da primeira temporada da série “True Detective”) se defronta aqui, e embora a crítica tenha sido muito rabugenta com seu trabalho (em certos quesitos até com alguma razão), ele consegue entregar um entretenimento válido, distante da sensação de desperdício que infelizmente contaminou “007 Contra Spectre”, ainda que longe de igualar a qualidade dos títulos mais honoráveis. Mesmo assim, “Sem Tempo Para Morrer” segue envolvente, eletrizante e reconhecível como um genuíno filme de 007.

Curioso, entretanto, é quando descobrimos, ao lado do próprio James Bond, que ele não é mais 007 (?!); seu codinome foi transferido, quando deixou o MI6, para outra agente, interpretada por Lashana Lynch (de “Capitã Marvel”). Contudo, será ao lado dela que Bond terá de trabalhar quando descobrir que, ao contrário do que acreditava, os planos malignos em gestação não são da Spectre (cujo líder, Blofeld, vivido por Christoph Waltz, está em uma prisão de segurança máxima), e sim de outro vilão megalomaníaco (vivido, por sua vez, por Rami Malek, recém-saído do Oscar de Melhor Ator por “Bohemian Rapsody”) dotado de planos intrincados que reintroduzem Madeleine Swann (personagem melhor desenvolvida aqui que no filme anterior) de volta à vida de Bond.

É fácil enxergar os elementos de “Sem Tempo Para Morrer” que desagradaram os puristas – a representatividade (um fator sempre redundante e secundário em encarnações anteriores do personagem) é poderosamente exercida no roteiro com a adição de uma mulher negra que detêm, durante boa parte do tempo, o título de 007 que antes pertencia ao herói, além das lembranças constantes da presumida irrelevância de James Bond, seja como um truculento agente de campo numa época dominada por tecnologia, sejam suas atitudes rotuladas machistas, e tudo isso sem contar a manobra final que certamente deixou descontente a maioria esmagadora de sua legião de fãs. Ainda assim, há que se notar também as qualidades do filme: A Fase Daniel Craig como um todo –e alguns de seus exemplares com mais evidência –foi a primeira a aproveitar integralmente todo o potencial cinematográfico que se poderia atingir nas obras de James Bond, não obstante o brilho nostálgico e a pulsante inovação da Fase Sean Connery, o divertimento irrestrito, ainda que ocasionalmente tolo, da Fase Roger Moore, a seriedade genérica da Fase TimothyDalton e o sopro de renovação técnica e artística da Fase Pierce Brosnan. Aqui, Cary Joji Fukunaga reitera muito do que funcionou antes, para potencializar o grande intérprete que Bond encontrou em Daniel Craig (embora sempre tenha sido notória a relação ‘amor e ódio’ que o ator sempre alimentou pelo personagem), cercando-o de formidáveis reafirmações da mitologia à qual pertenceu. É uma despedida digna, exuberante e adequada, imperfeita nas suas escolhas, razoável em relação à época a que pertence, enunciando certamente um recomeço no futuro, com outro ator, outra abordagem, e outra tentativa de se equiparar a tudo que veio antes.

Talvez o maior desafio seja encontrar um ator que se imponha no papel com a eficiência instintiva que Daniel Craig soube depositar em toda sua bela, ainda que oscilante, trajetória de cinco filmes.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Os Indicados Ao Oscar 2023


 E foram anunciados então os indicados ao prêmio máximo do cinema (será que ainda é?). A premiação deste ano aparentemente parece tentar enaltecer as produções que trouxeram o público e as grandes bilheterias de volta às salas de cinema após o marasmo financeiro que foram os dois anos de pandemia. O que explica a presença de praticamente todos os grandes blockbusters do ano em muitas das categorias –com “The Batman” e “Pantera Negra-Wakanda Forever” recebendo muitas nomeações técnicas. Sem mais delongas, vamos à lista dos indicados:

FILME

“All Quiet on the Western Front”

“Avatar-The Way of Water”

“The Banshees of Inisherin”

“Elvis”

“Everything Everywhere All at Once”

“The Fabelmans”

“Tár”

“Top Gun-Maverick”

“Triangle of Sadness”

“Women Talking”

DIREÇÃO

Martin McDonagh por “The Banshees of Inisherin”

Daniel Kwan, Daniel Scheinert por “Everything Everywhere All at Once”

Steven Spielberg por “The Fabelmans”

Todd Field por “Tár”

Ruben Ostlund por “Triangle of Sadness”

A ausência de Spielberg e seu “The Fabelmans” nas indicações do SAG (o mais confiável dentre todos os termômetros do Oscar) lançou uma ligeira incerteza entre os favoritos, deixando margem para o crescimento vertiginoso do consagrado “The Banshees of Inisherin” e, sobretudo, do já icônico “Everything Everywhere All at Once” (o líder em indicações, com 11). Mas, essas considerações ficaram em segundo plano diante da inclusão de “Top Gun-Maverick” na categoria de Melhor Filme, seguindo uma tendência muito semelhante à de “Mad Max-Estrada da Fúria” em 2016: A continuação tardia de um clássico dos anos 1980, surpreendendo público e crítica com um nível assombroso e imprevisto de qualidade. Esperem por sua menção em várias categorias técnicas.

ATRIZ

Cate Blanchett por “Tár”

Ana de Armas por “Blonde”

Andrea Risenborough por "To Leslie"

Michelle Williams por “The Fabelmans”

Michelle Yeoh por “Everything Everywhere All at Once”

Um dia após “Blonde” receber uma leva considerável de indicações ao Framboesa de Ouro (os Piores do Ano), a Academia de Artes Cinematográficas decidiu honrar aquela que é, de longe, a maior qualidade do filme; sua atriz principal, a fabulosa Ana de Armas. Contudo, o nome a ser batido nesta categoria (sempre uma das mais disputadas da cerimônia) é Cate Blanchett que surge fortíssima e bem cotada por seu tour-de-force em “Tár” –há quem diga que, por conta disso, os prêmios ao filme podem se restringir apenas a esse. Ainda assim, pode haver alguma esperança para os belíssimos trabalhos das duas Michelles: a Williams, vivendo nada menos que a mãe de Steven Spielberg em “Fabelmans” e, em especial, a Yeoh, que encantou meio mundo, fazendo rir, chorar e vibrar em “Everything Everywhere All at Once”.

ATOR

Austin Butler por “Elvis”

Colin Farrell por “The Banshees of Inisherin”

Brendan Fraser por “The Whale”

Paul Mescal por “Aftersun”

Bill Nighy por “Living”

Desde antes de seu emocionante discurso quando ganhou o prêmio de Melhor Ator no Critics Choice Awards, Brendan Fraser já era certo nesta categoria, assim como seus mais fortes concorrentes, Colin Farrell e o jovem Austin Butler (arrebatando público e crítica no desafiador papel de Elvis Presley), todos eles, experimentando a primeira indicação ao Oscar de suas carreiras. Meu palpite é que a briga fique mesmo entre Brendan Fraser e Austin Butler.

EFEITOS VISUAIS

“All Quiet on the Western Front”

“Avatar: The Way of Water”

“The Batman”

“Black Panther: Wakanda Forever”

“Top Gun: Maverick”

FOTOGRAFIA

"All Quiet on the Western Front”James Friend

“Bardo-False Chronicle of a Handful of Truths” Darius Khondji

“Elvis” Mandy Walker

“Empire of Light” Roger Deakins

“Tár” Florian Hoffmeister

MONTAGEM

“The Banshees of Inisherin” Mikkel E.G. Nielsen

“Elvis” Jonathan Redmond, Matt Villa

“Everything Everywhere All at Once” Paul Rogers

“Tár” Monika Willi

“Top Gun-Maverick” Eddie Hamilton

DIREÇÃO DE ARTE

“All Quiet on the Western Front” Christian M. Goldbeck

"Avatar-The Way of Water” Dylan Cole, Ben Procter

"Babylon” Florencia Martin

"Elvis” Catherine Martin, Karen Murphy

"The Fabelmans” Rick Carter

MAQUIAGEM E CABELO

“All Quiet on the Western Front”

“The Batman”

“Black Panther-Wakanda Forever”

“Elvis”

“The Whale”

As premiações técnicas, este ano, tendem a ser mais democráticas –e não concentrarem-se num único ganhador, como ocorre em muitos outros anos –até para que a Academia possa honrar e consagrar os diversos campeões de bilheteria de 2022. Dito isso, os Efeitos Visuais provavelmente ficarão com “Avatar”; Fotografia e Montagem devem ficar com “Everything Everywhere All at Once” (mas, eu não me surpreenderia se “Top Gun-Maverick” levasse esse último); Direção de Arte parece já estar nas mãos da equipe de “Babylon” (a menos que “All Quiet on the Western Front” prove o contrário); e Maquiagem e Cabelo, embora eu aprecie também o trabalho realizado em “The Whale”, deve ficar mesmo com “The Batman”.

ANIMAÇÃO

“Guillermo del Toro’s Pinocchio”

“Marcel the Shell With Shoes On”

“Puss in Boots-The Last Wish” (DreamWorks Animation)

“Turning Red”

“The Sea Beast”

FILME INTERNACIONAL

“Argentina, 1985” (Argentina”

“Close” (Bélgica)

“All Quiet on the Western Front” (Alemanha)

“The Quiet Girl” (Irlanda)

“EO” (Polônia)

DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM

“The Elephant Whisperers”

“Haulout”

“How Do You Measure a Year?”

“The Martha Mitchell Effect”

“Stranger at the Gate”

DOCUMENTÁRIO

“All That Breathes”

“All the Beauty and the Bloodshed”

“Fire of Love”

“A House Made of Splinters”

“Navalny”

ATOR COADJUVANTE

Brendan Gleeson por “The Banshees of Inisherin”

Brian Tyree Henry por “Causeway”

Judd Hirsch por “The Fabelmans”

Barry Keoghan por “The Banshees of Inisherin”

Ke Huy Quan por “Everything Everywhere All at Once”

Não deixa de ser uma surpresa a presença de Brian Tyree Henry (de “Eternos”) entre os indicados a Coadjuvante pelo drama de guerra, “Causeway” –a atriz principal, Jennifer Lawrence, também estava cotada para concorrer na época do lançamento do filme, mas, com o tempo, perdeu consideravelmente a força. Não há dúvidas de que o grande favorito (e, de repente, o grande merecedor também) seja o extremamente carismático Ke Huy Quan que tem como grandes competidores o talento nato, exigindo reconhecimento, do jovem Barry Keoghan (que, veja só, também estava no elenco de “Eternos”) e as fortes presenças dos veteranos Brendan Gleeson e Judd Hirsch.

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

“The Boy, The Mole, The Fox and The Horse”

“The Flying Sailor”

“Ice Merchants”

“My Year of Dicks”

“An Ostrich Told Me the World Is Fake and I Think I Believe It”

CURTA-METRAGEM LIVE ACTION

“An Irish Goodbye”

“Ivalu”

“Le Pupille”

“Night Ride”

“The Red Suitcase”

ROTEIRO ORIGINAL

“The Banshees of Inisherin” de Martin McDonagh

“Everything Everywhere All at Once” de Daniel Kwan, Daniel Scheinert

“The Fabelmans” de Tony Kushner, Steven Spielberg

“Tár” de Todd Field

“Triangle of Sadness” de Ruben Östlund

ROTEIRO ADAPTADO

“All Quiet on the Western Front” de Edward Berger, Lesley Paterson, Ian Stokell

“Glass Onion-A Knives Out Mystery” de Rian Johnson

“Living” de Kazuo Ishiguro

“Top Gun-Maverick” de Christopher McQuarrie, Eric Warren Singer, Ehren Kruger

“Women Talking” de Sarah Polley

O fato de “Top Gun-Maverick” concorrer ao prêmio de Roteiro já é, em si, uma grata surpresa –e ainda por cima Roteiro Adaptado (segundo as normas da Academia, o fato de ser uma continuação o habilita para essa categoria) –numa disputa que tem como favorito o engajado “Women Talking”, além da excelência sempre premiável de Rian Johnson em “Glass Onion”. Já, entre os Roteiros Originais, a briga será feia: O dramaturgo Tony Kushner surge com ligeira vantagem na semi-biografia do próprio Spielberg, mas pode ficar para trás a medida que o magnífico trabalho dos ‘Daniels’, Kwan e Scheinert –“Everything Everywhere All at Once” –adquira mais favoritismo, e o mesmo vale para “The Banshees of Inisherin” (os trabalhos de Martin McDonagh têm no roteiro suas maiores forças).

CANÇÃO

“Lift Me Up” de “Black Panther-Wakanda Forever”

“This Is A Life” de “Everything Everywhere All at Once”

“Naatu Naatu” de “RRR”

“Applause” de “Tell It like a Woman”

“Hold My Hand” de “Top Gun-Maverick”

TRILHA SONORA

“All Quiet on the Western Front”

“Babylon”

“The Banshees of Inisherin”

“Everything Everywhere All at Once”

“The Fabelmans”

FIGURINOS

“Babylon” Mary Zophres

“Black Panther-Wakanda Forever” Ruth E. Carter

“Elvis” Catherine Martin

“Everything Everywhere All at Once” Shirley Kurata

“Mrs. Harris Goes to Paris” Jenny Beavan

Parece ter tido larga aprovação a inclusão do descontraído épico indiano “RRR” na categoria de Melhor Canção –bem como o premiação deste no Globo de Ouro –o que pode roubar de “Top Gun-Maverick” uma antecipada vantagem na busca por essa estatueta. Seja como for, o prêmio de Trilha Sonora deve ficar entre “Fabelmans” –John Williams já nem deve saber mais quantos Oscars já tem na prateleira! –e “Babylon”, o favorito na categoria de Figurinos, prêmio que ele disputa diretamente com “Wakanda Foverer”, cuja figurinista, Ruth E. Carter, já levou um Oscar pelo primeiro “Pantera Negra”

SOM

“All Quiet on the Western Front”

“Avatar-The Way of Water”

“The Batman”

“Elvis”

“Top Gun-Maverick”

ATRIZ COADJUVANTE

Angela Bassett por “Black Panther-Wakanda Forever”

Hong Chau por “The Whale”

Kerry Condon por “The Banshees of Inisherin”

Jamie Lee Curtis por “Everything Everywhere All at Once”

Stephanie Hsu por “Everything Everywhere All at Once”

É interessante que a mais cotada para ganhar seja a magnífica veterana Angela Bassett, justamente por seu papel num filme da Marvel Studios –ela que já amedalhou o Globo de Ouro. Entretanto, há que se prestar atenção nos trabalhos de Hong Chau (de “Pequena Grande Vida”) em “The Whale” e na forte dobradinha das coadjuvantes de “Everything Everywhere All at Once”, Stephanie Hsu e Jamie Lee Curtis, em especial, essa última.

E é isso. Os vencedores nós descobriremos no domingo, dia 12 de março de 2023, quando a entrega de todos esses prêmios for realizada.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Entre Facas e Segredos


 Após a polêmica recepção de “Star Wars-OsÚltimos Jedi” –que apesar de suas elevadas qualidades, dividiu os fãs –o roteirista e diretor Rian Johnson dedicou-se a um projeto capaz de acomodar sem estranhezas suas qualidades como realizador: Um suspense pontuado de enigmas a serem desvendados, no melhor estilo Aghata Christie.

Nele podemos, portanto, notar a grande especialidade de Johnson: Compor uma história cheia de mistérios e guinadas súbitas, onde cada elemento contribui para a manutenção de um suspense ferino, irônico e eficiente.

Uma semana depois que o escritor de best-sellers Harlan Thrombey (Christopher Plummer, sempre maravilhoso) é encontrado morto, sua jovem e dedicada enfermeira, Marta (Ana De Armas, sensacional) é chamada à mansão da família para uma nova rodada de interrogatórios. Desta vez, quem presta consultoria à polícia –já ávida por encerrar o caso dando a morte como suicídio –é o detetive particular Benoit Blanc (Daniel Craig, magnífico com um estudado sotaque do Kentuchi) que fora contratado por um misterioso cliente anônimo.

De imediato, Blanc identifica o ninho de cobras (e a coleção de suspeitos em potencial) que é a família do falecido: A indulgente filha mais velha, Linda (Jamie Lee Curtis), além de casada com o infiel Richard (Don Johnson), tem como filho o almofadinha Ramson (Chris Evans); o filho caçula, Walt (Michael Shannon), despido de qualquer talento, nada mais faz do que gerenciar de modo medíocre a fortuna produzida pelo pai; e a nora, Joni (Toni Collete), viúva do filho do meio, é uma socialite que procura extorquir dinheiro do milionário usando a faculdade da filha (Katherina Langford) como justificativa.

Na noite em que Harlan apareceu morto, todos tiveram seu tapete puxado pelo patriarca –e todos, portanto, tinham razões para matá-lo.

Contudo, o detetive Blanc identifica na humilde Marta uma peculiaridade que pode ajudá-lo em sua investigação: Por uma curiosa condição fisiológica, Marta vomita toda a vez que tenta mentir –entretanto, ainda assim, ela tem lá seus segredos à esconder!

A trama de “Entre Facas e Segredos” é um novelo que o roteiro não se furta de tornar ainda mais intrincado a medida que vai avançando sua narrativa (ou regressando, visto que muito dela se abastece de flashbacks que revitalizam algumas informações e, não raro, oferecem percepções opostas de informações previamente fornecidas); o que só denuncia o talento inquestionável de Johnson no equilíbrio de inúmeros elementos que regem o gênero, e no manejo hábil e esperto de detalhes que num momento parecem meros adereços, para no instante seguinte revelarem-se peças cruciais de suas imprevistas reviravoltas.

Um corpo inusitado no cinema norte-americano por sua inteligência e sagacidade, “Entre Facas e Segredos” faz o expectador vibrar de tempos em tempos com as guinadas magistrais de sua premissa, e com o teor incrivelmente envolvente de sua investigação, além de brindar o público com um elenco vasto, talentoso e estelar.

Um filmaço.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Blade Runner 2049

Incrível como o roteiro escrito por Michael Green e Hampton Fancher (este último, um dos roteiristas do primeiro filme) consegue dar continuidade louvável à trama do cultuado “Blade Runner-O Caçadorde Andróides” sem, no entanto, cair na fácil armadilha de esclarecer alguns dos mistérios que fizeram a fama tão perene do filme original.
Dirigido por Denis Villeneuve que substitui Ridley Scott com perícia e propriedade, “Blade Runner 2049” mergulha nas questões profundas que enriqueciam e engrandeciam o filme anterior: O limite entre o que é sintético e o que é orgânico, entre o artificial e o natural, e a capacidade assombrosa e quantitativa que a tecnologia tem para apagar essas fronteiras.
Se a capacidade de sentir emoções era a diferença entre humanos e máquinas em 9 entre 10 filmes de ficção científica com esse enredo, não é no primoroso trabalho de Villeneuve: Os replicantes –andróides feitos de carne e osso que no filme original, passado em 2019, trinta anos antes deste, se rebelaram contra os criadores –já a muito desenvolveram capacidade para sentir; como é explicitado na relação de afetuosidade doméstica entre o personagem de Ryan Gosling e a inteligência artificial vivida pela absurdamente deliciosa Ana De Armas (de “Bata Antes de Entrar”), e já era mostrado também no filme original, no relacionamento relutante, porém intenso entre Deckard (Harrison Ford) e Rachel (Sean Young).
A grande diferença –ao menos, muitos presumiam –era o fato de que humanos, como todas as outras formas de vida orgânica, podem procriar.
Contudo, quando o Oficial K (Ryan Gosling, extraordinário) descobre os restos mortais de Rachel e, numa autópsia minuciosamente futurística, fica evidente que a replicante do filme anterior morreu ao dar a luz (!), descobre-se a abertura de um precedente para colocar os replicantes em pé de igualdade com os humanos (e sendo assim, confrontá-los, na possibilidade de uma devastadora guerra civil). As ordens de K dadas por sua chefe (Robin Wright) são então para consumir com todas as provas e testemunhas, incluindo aí encontrar o paradeiro do ex-blade runner Deckard, pai do filho desaparecido de Rachel.
É uma corrida contra o tempo: Atrás de Deckard e de seu segredo, por inúmeras razões existenciais e políticas, está também o inventor e milionário Niander Wallace (Jared Leto), uma espécie de herdeiro do legado da Tyrell Corporation, que coloca, no encalço de K, a fria e implacável Luv (Sylvia Hoeks, uma das grandes antagonistas do ano).
E dizer mais entra no perigoso terreno em que se entrega demais a trama cujas reviravoltas são tão geniais e inesperadas quanto a força do cinema de Villeneuve.
Eram poucos, hoje, os cineastas verdadeiramente capazes de criar uma continuidade válida para o seminal trabalho que Scott entregou em 1982 (nem o próprio Ridley Scott foi capaz de fazê-lo, pré-sequenciando seu “Alien” de maneira vulgar e insatisfatória com “Prometheus” e “Alien-Covenant”), certamente, muitos foram os que temeram o resultado.
Entretanto, Villeneuve abraça o material com a mesma tenacidade com a qual moldou em “A Chegada” uma das melhores ficções dos últimos anos: “Blade Runner 2049” amplia o escopo do fabuloso e caótico mundo futurista visto no original (agora, não só Los Angeles é vista –numa recriação e ampliação fenomenal dos cenários do primeiro filme –como também vemos os inacreditáveis escombros a perder de vista em Detroit, e o deserto radioativo e abandonado de Las Vegas), dá uma seqüência natural, inteligente e reflexiva à sua trama, honra todas as suas questões mostrando-se tão fascinante quanto e deixa, ao fim, ainda mais perguntas do que respostas –é, pois, um espécime raro no mainstream hollywoodiano, um filme que instiga, impõe questionamentos e reflexões, e nos leva a pensar acerca de nossa humanidade e de suas mais ínfimas imbricações.
Ele supera ainda o original, numa questão bastante inesperada: No afeto que Villeneuve e sua técnica prodigiosa capturam entre seus diversos personagens, nos flagrantes de vínculos que os fazem humanos e lembram, em pormenores poderosos, a importância fundamental da vida e o poder inigualável do amor.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Bata Antes de Entrar

Eli Roth tem lá o seu estilo. Seus filmes prestam homenagem aos paradigmas do terror e, não raro, pontuam suas tramas com elementos sexuais extraídos das fantasias masculinas mais corriqueiras.
"O Albergue" já era prova daquilo que "Bata Antes de Entrar" já ratifica.
O problema: O segundo filme vem a revelar a perda do sopro de renovação que Eli Roth demonstrava no primeiro.
Como em "Albergue", "Bata..." começa sugestivo, picante e sensual: Sozinho em casa em razão de uma viagem que sua esposa e seus filhos fizeram à praia, Evan (Keanu Reeves, também produtor executivo) não tarda a receber a inesperada visita de duas jovens espetaculares; a morena Lorenza Izzo e a loira Ana de Armas (a primeira, namorada do próprio Eli Roth; a segunda, a melhor coisa do filme!).
Elas se insinuam, como só personagens de cinema mesmo são capazes de se insinuar, e como ninguém é de ferro o protagonista tem uma noitada de sexo à três com elas. Mas, ao acordar na manhã seguinte tudo estará diferente e as duas jovens vão se revelar cada vez mais psicóticas, na medida em que transformam a vida do sujeito num inferno.
A partir desse ponto, Eli Roth instala os elementos-chave de filme de terror que ele conhece tão bem. Ou que conhecia: Tudo em "Bata Antes de Entrar" torna-se enfadonho, banal e repetitivo depois da sensacional cena em que vemos as duas garotas nuas (e que proporciona, portanto, a mudança de tom do filme).
Em última instância, a abordagem que Eli Roth vislumbra do filme depois da virada até bastante óbvia que a trama sofre, poderia ser semelhante ao enfoque dado por Michael Haneke em "Violência Gratuita", do qual "Bata..." herda muitas semelhanças. Mas, Eli Roth não tem o requinte de Haneke, e nem tampouco seu filme vem revestido por qualquer senso de observação de alguma falsa noção de segurança da classe burguesa, ou mesmo expedientes mais sofisticados.
O que Roth quer é tão somente fazer um conto de terror onde converte uma das mais notórias fantasias masculinas num pesadelo. E só. Não existe, por exemplo, motivação no comportamento das duas personagens: Ficamos a esperar por uma justificativa, de repente, alguma informação acerca do passado do personagem de Reeves que explique o porque daquilo estar lhe acontecendo, mas nada aparece.
Em outros filmes, com outros diretores, esse detalhe (a omissão estratégica de um porquê) poderia ser sugestivo, acrescentar camadas e ampliar o leque de possibilidades e ramificações do enredo. Mas, com Roth soa tão somente como uma omissão mesmo, deixando no ar os propósitos que engatilharam a narrativa de seu filme.
Não chega a ser uma catástrofe, mas ele dá aqui, passos significativos nessa direção.