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sábado, 8 de agosto de 2026

Vivo Ou Morto - Um Mistério de Entre Facas e Segredos


 Neste “Vivo Ou Morto” já chegou-se num ponto em que o ator Daniel Craig interpreta o personagem Benôit Blanc como alguém que ele conhece e compreende integralmente (processo que ele certamente também experimentou vivenciando o agente 007), em que o roteiro e a direção de Rian Johnson já se acostumaram de tal forma a manipular o intrincados elementos do gênero policial investigativo, que sua condução é instintiva, sua descoberta das reviravoltas pontuais (e até inevitáveis) em seu plot é tão orgânica quando a capacidade de dissimulação plantada habilmente em seus personagens.

Terceira parte de uma trilogia iniciada com “Entre Facas e Segredos” e continuada com “Glass Onion” – e adquirida, do segundo exemplar em diante, pela Netflix – este “Vivo Ou Morto” traz toda a habilidade para tramas articuladas com infindável ardil por seus personagens que Johnson tão bem soube esbanjar em praticamente todas as produções que assinou, sendo superior à “Glass Onion”, porém, ainda inferior ao primeiro filme, o melhor de todos.

Antes do protagonista Benôit Blanc dar as caras, somos apresentados aos demais protagonistas desta trama – até porque, Blanc, diferente dos outros personagens, prescinde de apresentações, funcionando agora quase como um mestre de cerimônias – a começar pelo principal de todos, o padre Jud Duplenticy (o carismático Josh O’Connor, de “Dia D”), um ex-boxeador que largou os rings para dedicar-se à batina após matar um oponentes à socos. Por seu temperamento (e por saber muito bem como usar seus punhos quando provocado), Padre Jud é enviado à longínqua paróquia de Nossa Senhora da Perpétua Fortaleza, comandada pelo Monsenhor Wicks (Josh Brolin), cujos métodos de pregação, Jud vai perceber com o passar dos dias, vão muito além do meramente não ortodoxo: Wicks possui uma oratória agressiva, egocêntrica e prepotente e mantém cativo um grupo muito específico de fiéis que aliena com sua pregação raivosa. Qualquer outra pessoa da fora (e isso inclui o próprio Jud) é excluída quase que imediatamente.

Os fiéis em questão: A serviçal da igreja Martha Delacroix (Glenn Close) e seu marido, Samson Holt (Thomas Adden Church), ambos habituados a surgirem repentinamente nos momentos mais inoportunos; o médico Dr. Nat Sharp (Jeremy Renner), um poço de amargura desde o abandono da ex-esposa; o escritor fracassado Lee Ross (Andrew Scott, de “1917”); a jovem violoncelista Simone Vivane (Cailee Spaeny, de “Alien-Romulus”) presa a uma cadeira de rodas que aguarda, resignada, por um milagre; a advogada Vera Draven (Kerry Washington) obrigada pelo pai a criar um irmão adotivo com quem nunca se acertou; e o próprio irmão adotivo Cy Draven (Daryl McCormack, de “Boa Sorte, Leo Grande”), rapaz indiferente e esnobe, obcecado em fazer sucesso como influencer do youtube.

Todas pessoas ostentando neuroses que deveriam ser curadas pela fé, mas que o Monsenhor Wicks tão somente manipulou para continuarem suas fanáticas devotas. Cada um deles tinha um motivo para dar cabo do Monsenhor Wicks – principalmente após uma reunião à portas fechadas que culminou num rompimento completo entre Wicks e todos eles – e Padre Jud, mais do que todos eles, chegou a exprimir suas intenções numa confissão.

O problema é que, numa homilia matutina, o Monsenhor Wicks acaba realmente morto, esfaqueado nas costas, num recinto apertado sem espaço para uma segunda pessoa e sem quaisquer meios de ser invadido.

Como tal crime foi perpetrado? E quem está por trás dele?

A comunidade logo aponta o dedo para o novato Padre Jud que, em desespero, recorre aos conhecimentos prodigiosos de dedução e investigação do detetive Benôit Blanc chamado à cidadezinha pela xerife local, Geraldine Scott (Mila Kunis).

Tendo conferido as duas obras anteriores, é fácil para o expectador antecipar o que encontrará nesta produção aqui: Como em “Entre Facas e Segredos” e “Glass Onion”, Rian Johnson reúne, em torno de seu protagonista Blanc, um time vasto de personagens excêntricos e com motivações obscuras, interpretado por um elenco repleto de estrelas do cinema hollywoodiano. E como nos outros filmes, está aqui também o enredo muito decalcado dos clássicos intrincados de Agatha Christie, onde o crime só termina elucidado após diversas pistas se revelarem falsas e toda uma teia de segredos a interligar as mais diversas e inesperadas atitudes for revelada.

Contudo, o quê não é tão fácil assim antecipar é como Rian Johnson haverá de manejar todos esses ingredientes, sobretudo, quando e quais serão as reviravoltas surpreendentes que arremessarão os acontecimentos para rumos totalmente inesperados. Seu roteiro até mesmo brinca com essa possibilidade, sugerindo certas surpresas iminentes só para subverter algumas expectativas e seguir surpreendendo. O uso imodesto e ininterrupto de tal recurso pode soar um pouco mirabolante e improvável para o público, mas Rian Johnson o faz com tanta convicção e com tanto conhecimento de causa que o resultado mais diverte do que confunde.

domingo, 7 de abril de 2024

10 Histórias em Quadrinhos que poderiam render grandes filmes - Parte 2


 Fun Home-Uma Tragicomédia Em Quadrinhos –As recordações um tanto dolorosas da quadrinista Alison Bechdel que cresceu numa família disfuncional onde seu próprio pai, Bruce Bechdel, era professor e homossexual enrustido. Centralizando a figura dele numa trama que oscila entre o humor e o drama, Bechdel reflete a descoberta de sua própria homossexualidade anos depois, numa trama construída de primor, personalidade e detalhes preciosos.

Em 2014, a narrativa de “Fun Home” foi convertida em uma peça musical na Broadway, recebendo fartos elogios, não muito tempo depois, foi noticiado que o astro Jake Gyllenhaal havia acertado para ser produtor e protagonista (no papel de Bruce) de uma adaptação cinematográfica –quem sabe um filme de “Fun Home” não esteja próximo?


Sgt. Rock –
Personagem extremamente realista, inserido num contexto também ele realista, o Sgt. Rock comanda um destacamento de soldados numa fria e inóspita missão na Europa durante a Segunda Guerra Mundial. O roteiro e os desenhos de Joe Kubert, responsável pela icônica graphic-novel “A Profecia”, com esse personagem, transformam o que tinha tudo para ser uma trama genérica num envolvente e brilhante drama de suspense, perfeita para ser traduzida numa versão cinematográfica.


A Casta dos Metabarões –
O diretor, escritor, poeta, dramaturgo e exotérico (!) Alejandro Jodorowsky demorou a se livrar do fantasma de “Duna”, a superprodução que planejou e jamais realizou. Dentre as obras que acabaram sendo realizadas com ideias inicialmente concebidas para “Duna”, Jodorowsky escreveu a HQ “O Incal”, até hoje uma das mais prestigiadas do segmento, e este derivado, “A Casta dos Metabarões”, focado num personagem secundário, mas, infinitamente fascinante que surge naquela trama. Num enredo épico, nos mais diversos sentidos, o texto complexo, simbolista e audacioso de Jodorowsky conta a história de várias gerações dos Metabarões e sua relação com outras casas de nobreza da galáxia a medida que se envolvem em guerras nas estrelas que não têm absolutamente nada da ingenuidade de George Lucas.


Nascido No Campo de Batalha –
Depois que os direitos autorais do personagem Conan, O Bárbaro foram para a editora Dark Horse (isso depois de pertencerem à Marvel Comics décadas antes), muitos dos clássicos contos de Robert E. Howard com esse personagem ganharam nova roupagem, porém, uma história de origem nunca havia sido devidamente contada, até o renomado roteirista Kurt Busiek arregaçar as mangas. Mesmo os filmes já realizados para cinema não chegavam a esboçar esse aspecto do personagem –o “Conan” de 1982, com Arnold Schwarzenegger, porque se diferenciava muito dos contos de Howard, e o “Conan” de 2011, com Jason Momoa, porque era, deveras, uma catástrofe! –sendo assim, Busiek e o artista Greg Ruth, com base em inúmeros elementos, menções, referências e pistas deixadas pelo próprio Robert E. Howard compuseram uma perfeita e incontestável (além de emocionante) história de origem que merece ser adaptada tão logo algum estúdio resolva levar novamente esse grande personagem para o cinema.


Ranxerox –
Uma das mais curiosas e pulsantes histórias em quadrinhos já concebidas, “Ranxerox”, do italiano Stefano Tamburini pegava carona na atitude raivosa do Movimento Punk dos anos 1980 para moldar um mundo escatológico, sensual e satírico de ficção científica. Alguns podem alegar que “Ranxerox” já ganhou uma espécie de adaptação cinematográfica: Muito se alardeou que “O Profissional”, de Luc Besson, era uma adaptação disfarçada de “Ranxerox”, contudo, trata-se de uma obra que, queira ou não, carecia de respaldo oficial dos criadores e também (por isso mesmo) modificava inúmeros aspectos da premissa e dos personagens –e os fãs de quadrinhos sempre querem fidelidade absoluta!

Dessa forma, seria sensacional ter, por exemplo, Ron Perlman (isso enquanto ele ainda tem idade, claro) interpretando o personagem principal, Ranxerox, um ciborgue de baixo custo num futuro caótico que procura servir às maluquices e caprichos de Lubna, uma ninfeta endiabrada.


Liberty Meadows –
Desenhar belas mulheres é uma especialidade do ilustrador Frank Cho, entretanto, ele quis provar, com a graphic novel “Liberty Meadows” que seu talento ia muito além disso. Embora seja protagonizado por uma veterinária extremamente deliciosa (a encantadora Brandy), a trama de “Liberty Meadows” foca mesmo no humor e na alegoria da crítica social ao trazer personagens que são bichinhos fofinhos –e lembram até alguns personagens da Disney num primeiro momento –mas que surgem assolados pelos mais variados vícios e neuroses muito humanos como a hipocondria, a ansiedade e o stress cotidiano.

E antes que você me pergunte se teria como fazer um longa-metragem real com tantos personagens animais, fique sabendo que isso não é nenhuma novidade, visto os avanços no campo da computação gráfica o que permitiu a realização de filmes como “Sonic” ou o live-action de “O Rei Leão".


Habibi –
Embora seja magistral, “Retalhos” –do qual eu falei na lista anterior –não é a obra-prima do escritor e ilustrador Craig Thompson; essa honra, por incrível que possa parecer, cabe ao seu trabalho seguinte, este arrebatador, doloroso e genial “Habibi”.

Um épico avassalador e distinto que acompanha as trajetórias ora paralelas, ora cruzadas, da jovem Dodola e do garoto Zam, ambos órfãos numa inclemente sociedade do Oriente Médio. Oscilando entre os estágios de tempo em que a história de amor entre eles se desdobra –a fuga da vida de escravos, ainda quando eram crianças; o amadurecimento, quase lúdico, isolados num deserto, quando os primeiros choques com a dura realidade da vida começam a assombrar suas vidas; a separação e as reviravoltas imprevisíveis e inacreditáveis que ameaçam afastá-los para todo o sempre; e lá pelas tantas, uma improvável chance de reencontro –estão as histórias que Dodola, uma contadora de histórias nata, vai relatando e que transformam “Habibi” num monumento dos quadrinhos.

Até hoje nenhuma obra de Craig Thompson –nem mesmo o primordial “Retalhos” –foi adaptada para cinema. Certamente, “Habibi” com sua trama fortíssima de denúncia dos abusos sociais a que mulheres, crianças e pobres são submetidos em sociedades mais retrógradas renderia um trabalho que suscitaria muitos debates nas redes sociais de hoje.


Verão Índio –
Muito apreciado, sobretudo nos nichos de quadrinhos eróticos, o italiano Milo Manara foi um dos poucos que conseguiu vencer essa barreira graças à qualidade inconteste de sua arte –ele chegou até mesmo a desenhar uma revista dos “X-Men”! Para muitos, seu trabalho mais adulto e despido da pornografia redundante que fez sua fama (embora haja, sim, algum resquício de erotismo) é “Verão Índio” que mergulha principalmente na colonização européia das indomadas pradarias norte-americanas quando ainda eram de domínio de irredutíveis tribos nativas. A trama poderia até lembrar um faroeste dos anos 1940, mas Milo Manara e seu roteirista Hugo Pratt (criador do clássico “Corto Maltese”) proporcionam uma desmistificadora visão européia à esses elementos, transformando “Verão Índio” numa obra singular.


Camelot 3000 –
Uma das mais brilhantes sagas de quadrinhos dos anos 1980, “Camelot 3000” foi escrita por Mike W. Barr e desenhada por Brian Bolland (o mesmo de “Batman-A Piada Mortal”), autores ingleses que sabiam muito bem o que estavam fazendo quando retomaram a história da Lenda do Rei Arthur levando ele e todo seu séquito de lendários personagens coadjuvantes (o mago Merlin, o cavaleiro Lancelot, a rainha Guinevere e outros) a despertar em pleno Século XXI a fim de deter uma invasão alienígena ao planeta Terra comandada pela própria feiticeira Morgana Le Fay.

Desde o filmaço “Excalibur”, de John Boorman, também da década de 1980, nenhum diretor ou estúdio foi capaz de recontar com pompa e circunstância (e qualidade) a Lenda do Rei Arthur novamente, quem sabe não seja hora de alguém perceber o enorme potencial cinematográfico desta HQ?


Hard Boiled-À Queima Roupa –
Houve um tempo em que Frank Miller (assim como Alan Moore) era um autor incansável, criando uma obra memorável atrás da outra em ritmo de pasteleiro (!). Concebido no início dos anos 1990, “Hard Boiled” era uma ficção científica anárquica, similar ao que já vinha sendo feito nas página da audaciosa revista “Heavy Metal”, sua premissa se desenrolava na mente de Carl Seltz (personagem cuja aparência faz lembrar Daniel Graig), marido e pai exemplar no ano de 2029 (está quase perto...); ou seria na mente de Nixon, um cobrador às voltas com implantes de memória em seu cérebro que podem, ou não, serem responsáveis pelo surto homicida no qual ele converteu a cidade em um matadouro; ou mais, seria no banco de memória da Unidade Quatro, o mais avançado modelo de robô já feito, tão avançado que poderia ostentar simulações de lembranças humanas –ou seria, isso tudo, também um implante de memória do próprio Nixon? Ou do próprio Carl? Aliás, não seriam eles e Unidade Quatro um mesmo indivíduo cibernético?

Pegando carona no ebuliente gênero cyberpunk que havia tomada de assalto a literatura na década anterior, e antecipando muitas ousadias narrativas que os quadrinhos só viriam a assimilar anos mais tarde, Miller constrói uma sucessão de cenas de ação raivosas, surreais e inacreditáveis, cortesia da identidade visual singular do ilustrador Geof Darrow. Em 2007, em meio ao sucesso de “300”, “Hard Boiled” foi uma das inúmeras obras de Miller cogitadas para uma adaptação para cinemas, certamente, os realizadores logo esbarraram na complexidade incontornável de seu argumento.

terça-feira, 16 de maio de 2023

Glass Onion - Um Mistério de Entre Facas e Segredos


 Prova do poder abrangente conquistado pela Netflix, a medida que o já estabelecido formato de streaming ganha cada vez mais adesão do público, a plataforma comprou os direitos do sensacional “Entre Facas e Segredos”, de seu criador em pessoa, Rian Johnson, para ter exclusividade absoluta sobre sua continuação, este notável “Glass Onion” –e certamente sobre outras continuações mais que virão.

Seguindo a linha e estilo investigativo de Agatha Christie (as história de Hercule Poirot, como “O Assassino No Expresso do Oriente”) e Arthur Conan Doyle (as histórias de Sherlock Holmes), os filmes dessa nova série centralizam-se no detetive Benôit Blanc (vivido com entusiasmo fulgurante por Daniel Craig), um gênio da dedução prática e do raciocínio rápido que leva, sobre suas influências ancestrais e literárias já citadas, a vantagem de pertencer ao presente, e portanto, à um mundo onde as tramas rocambolescas e intrincadas de investigação veem adornadas com as usuais peculiaridades da vida moderna, como as mídias digitais, o comportamento das pseudo-celebridades e, neste caso em questão, as circunstâncias muito particulares da pandemia: Em seu arrojo, “Glass Onion” é uma das primeiras produções hollywoodianas a ambientar sua trama –ainda que vagamente –dentro do período característico e lastimável do lockdown iniciado em 2020, no qual Benôit Blanc, dono de uma mente brilhante e inquieta –e, por isso mesmo, ávida por desafios ao seu intelecto –está quase a enlouquecer dentro da segurança de seu apartamento.

Contudo, um inesperado caso a ser resolvido vem atender seus anseios: Um convite inusitado para um fim-de-semana junto de vários amigos pessoais do excêntrico bilionário Miles Bron (Edward Norton) em sua luxuosa ilha particular, a fim de participar de uma estranha brincadeira na qual o mistério a ser desvendado vem a ser o de seu iminente assassinato (!). No entanto, há um outro mistério pairando no ar: Ninguém conhece Benôit Balnc (salvo sua alardeada fama, claro), e Benôit Blanc não conhece ninguém. Quem, então, enviou-lhe o convite para que participasse da reunião?

Tal convite, diga-se, é entregue no prólogo, aos demais convidados, na forma de uma caixa enigmática e elaborada a qual eles devem decifrar vários enigmas até abrí-la por completo (no melhor estilo “Código Da Vinci”) para então encontrar o cartão de convite; e tais convidados são: A candidata à senadora Claire Debella (Kathryn Hahn, de “Um Amor A Cada Esquina” e da série “WandaVision”); a fútil modelo Birdie Jay (Kate Hudson) em vias de chegar à precoce aposentadoria da profissão; o cientista Lionel Toussaint (Leslie Odom Jr.), o digital influencer Duke Cody (Dave Bautista), junto de sua ostensiva namorada Whiskey (Madelyn Cline, de “Boy Erased”) e a maior responsável pela fortuna de Miles, Cassandra Brand (Janelle Monáe, de “Estrelas Além do Tempo”) e, por conta de um golpe aplicado no passado pelo próprio Miles, tida pelos demais como persona non grata na ilha.

Todos –talvez, com a exceção de Cassandra e do próprio Benôit –se encontram lá, menos pela forte amizade por Miles Bron, e mais porque cada um, por diferentes razões, depende dele e de seu dinheiro para manter o elevado status de vida, e todos se tornam suspeitos quando, em determinado momento, mortes começam a acontecer –e nenhuma se trata da morte de Miles, veja só!

Como todo o bom suspense que se preza –e que parece fazer muito o gosto do diretor e roteirista Rian Johnson, apaixonado por tramas complexas –nada é o que parece ser, e revelações pontuais acabam não apenas modificando por completo as relações inicialmente presumidas entre os personagens, como também dando rumo completamente inesperado ao próprio filme. Está aqui, pois, um verdadeiro desafio aos expectadores que se acreditam capazes de tentar antecipar e adivinhar as vindouras guinadas de um argumento.

Além de urgir com rara concisão uma trama cheia de admiráveis reviravoltas –algumas tão radicais que podem soar em princípio implausíveis –e contar com um elenco absolutamente estelar e bem calibrado na composição dos integrantes dessa intriga (além dos já citados, também Hugh Grant, Angela Lansbury e Ethan Hawke fazem pequenas participações), Rian Johnson conduz tudo com um vibrante bom humor, conferindo fina ironia à ocasional morbidez e charme irrestrito ao andamento investigativo. Se continuar nesse elevado nível de qualidade, o personagem Benôit Blanc haverá de se consagrar como o protagonista da melhor sequência de filmes de detetive nos tempos atuais.

quinta-feira, 16 de março de 2023

007 - Sem Tempo Para Morrer


 Na última vez em que vimos o James Bond de Daniel Graig, em “007 Contra Spectre”, sua trajetória sinalizava uma espécie de desfecho para o personagem: A despeito disso jamais ter acontecido em qualquer outra versão, seja cinematográfica, seja literária, e mesmo que contra todas as probabilidades e até contra, digamos, o perfil do personagem, James Bond encontrava sua alma gêmea nas formas da forçadamente cativante Madeleine Swann (Lea Seydoux), abandonava o MI6 e partia em direção a um improvável final feliz de uma vida em família. Nesta nova produção, com intenções ainda mais contundentes de ser o capítulo derradeiro da Fase Daniel Craig, aquela pasmaceira familiar é descartada já no prólogo, uma longa cena de ação e perseguição na Itália (onde estaria o túmulo de Vesper, a bondgirl nº 1, morta em “Cassino Royale”), na qual Bond termina sentindo na pele os dissabores de se confiar demais e ser traído –ele deixa Madeleine (que julga tê-lo traído) numa estação de trem e garante à ela que nunca mais saberá dele. Entram os créditos iniciais, característicos e sensacionais desde o primeiro filme, com Sean Connery, e então “Sem Tempo Para Morrer” começa de verdade, com seu roteiro correndo contra o prejuízo e criando expedientes hábeis (uns muito bem bolados, outros nem tanto) para tentar trazer James Bond de volta ao seu status quo do qual algumas escolhas equivocadas do filme anterior ameaçaram removê-lo. Assim, passam-se cinco anos (!) e Bond, não mais um agente a serviço secreto de Vossa Majestade, é recrutado não pelo MI6, mas por seu grande amigo Felix Leiter (Jeffrey Wright), da CIA, que pede a Bond um favor: Recapturar um cientista russo sem escrúpulos, criador de um vírus a pedido do próprio MI6, que foi tirado de um laboratório secreto por um grupo obscuro que aparentemente é a Spectre.

A inusitada missão leva Bond à Cuba, na qual tem por ajudante a entusiasmada e divertida Paloma (a maravilhosa Ana de Armas, estabelecendo com Graig uma parceria um pouco diferente da que fizeram em “Entre Facas e Segredos”), talvez, a mais interessante e vívida personagem de todo o filme. Uma pena ela aparecer por tão pouco tempo...

O roteiro de “Sem Tempo Para Morrer” –assinado pelo diretor Cary Joji Fukunaga, Phoebe Waller-Bridge, Scott Z. Burns, Neal Purvis e Robert Wade, os dois últimos, roteiristas que, entre uma e outra colaboração, seguiram firme na franquia 007 desde os tempos de Pierce Brosnan, ou seja, conhecem (ou deveriam conhecer) toda a mitologia do personagem de cabo a rabo –lança mão de subterfúgios bastante sofisticados e expedientes objetivos de filmes de espionagem para desvencilhar-se da irrelevância e fazer-se surpreendente numa época em que expectadores não se surpreendem nem com reviravoltas-surpresas no melhor estilo M. Night Shyamalan. Não só isso, a produção também encara o desafio –inerente à todo filme de James Bond desde o fim dos anos 1980 –de fazer um personagem nascido das circunstâncias da Guerra Fria soar pertinente na atualidade, além de procurar se impor como uma válida obra cinematográfica tendo como objeto de comparação o fabuloso “007-Operação Skyfall”, com grande unanimidade tido como o melhor filme de Bond feito até hoje, e buscando fugir da proximidade qualitativa de obras que envergonharam a série, como “007 Contra O Foguete da Morte”.

São muitos, portanto, os desafios com os quais o diretor Cary Joji Fukunaga (da primeira temporada da série “True Detective”) se defronta aqui, e embora a crítica tenha sido muito rabugenta com seu trabalho (em certos quesitos até com alguma razão), ele consegue entregar um entretenimento válido, distante da sensação de desperdício que infelizmente contaminou “007 Contra Spectre”, ainda que longe de igualar a qualidade dos títulos mais honoráveis. Mesmo assim, “Sem Tempo Para Morrer” segue envolvente, eletrizante e reconhecível como um genuíno filme de 007.

Curioso, entretanto, é quando descobrimos, ao lado do próprio James Bond, que ele não é mais 007 (?!); seu codinome foi transferido, quando deixou o MI6, para outra agente, interpretada por Lashana Lynch (de “Capitã Marvel”). Contudo, será ao lado dela que Bond terá de trabalhar quando descobrir que, ao contrário do que acreditava, os planos malignos em gestação não são da Spectre (cujo líder, Blofeld, vivido por Christoph Waltz, está em uma prisão de segurança máxima), e sim de outro vilão megalomaníaco (vivido, por sua vez, por Rami Malek, recém-saído do Oscar de Melhor Ator por “Bohemian Rapsody”) dotado de planos intrincados que reintroduzem Madeleine Swann (personagem melhor desenvolvida aqui que no filme anterior) de volta à vida de Bond.

É fácil enxergar os elementos de “Sem Tempo Para Morrer” que desagradaram os puristas – a representatividade (um fator sempre redundante e secundário em encarnações anteriores do personagem) é poderosamente exercida no roteiro com a adição de uma mulher negra que detêm, durante boa parte do tempo, o título de 007 que antes pertencia ao herói, além das lembranças constantes da presumida irrelevância de James Bond, seja como um truculento agente de campo numa época dominada por tecnologia, sejam suas atitudes rotuladas machistas, e tudo isso sem contar a manobra final que certamente deixou descontente a maioria esmagadora de sua legião de fãs. Ainda assim, há que se notar também as qualidades do filme: A Fase Daniel Craig como um todo –e alguns de seus exemplares com mais evidência –foi a primeira a aproveitar integralmente todo o potencial cinematográfico que se poderia atingir nas obras de James Bond, não obstante o brilho nostálgico e a pulsante inovação da Fase Sean Connery, o divertimento irrestrito, ainda que ocasionalmente tolo, da Fase Roger Moore, a seriedade genérica da Fase TimothyDalton e o sopro de renovação técnica e artística da Fase Pierce Brosnan. Aqui, Cary Joji Fukunaga reitera muito do que funcionou antes, para potencializar o grande intérprete que Bond encontrou em Daniel Craig (embora sempre tenha sido notória a relação ‘amor e ódio’ que o ator sempre alimentou pelo personagem), cercando-o de formidáveis reafirmações da mitologia à qual pertenceu. É uma despedida digna, exuberante e adequada, imperfeita nas suas escolhas, razoável em relação à época a que pertence, enunciando certamente um recomeço no futuro, com outro ator, outra abordagem, e outra tentativa de se equiparar a tudo que veio antes.

Talvez o maior desafio seja encontrar um ator que se imponha no papel com a eficiência instintiva que Daniel Craig soube depositar em toda sua bela, ainda que oscilante, trajetória de cinco filmes.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Entre Facas e Segredos


 Após a polêmica recepção de “Star Wars-OsÚltimos Jedi” –que apesar de suas elevadas qualidades, dividiu os fãs –o roteirista e diretor Rian Johnson dedicou-se a um projeto capaz de acomodar sem estranhezas suas qualidades como realizador: Um suspense pontuado de enigmas a serem desvendados, no melhor estilo Aghata Christie.

Nele podemos, portanto, notar a grande especialidade de Johnson: Compor uma história cheia de mistérios e guinadas súbitas, onde cada elemento contribui para a manutenção de um suspense ferino, irônico e eficiente.

Uma semana depois que o escritor de best-sellers Harlan Thrombey (Christopher Plummer, sempre maravilhoso) é encontrado morto, sua jovem e dedicada enfermeira, Marta (Ana De Armas, sensacional) é chamada à mansão da família para uma nova rodada de interrogatórios. Desta vez, quem presta consultoria à polícia –já ávida por encerrar o caso dando a morte como suicídio –é o detetive particular Benoit Blanc (Daniel Craig, magnífico com um estudado sotaque do Kentuchi) que fora contratado por um misterioso cliente anônimo.

De imediato, Blanc identifica o ninho de cobras (e a coleção de suspeitos em potencial) que é a família do falecido: A indulgente filha mais velha, Linda (Jamie Lee Curtis), além de casada com o infiel Richard (Don Johnson), tem como filho o almofadinha Ramson (Chris Evans); o filho caçula, Walt (Michael Shannon), despido de qualquer talento, nada mais faz do que gerenciar de modo medíocre a fortuna produzida pelo pai; e a nora, Joni (Toni Collete), viúva do filho do meio, é uma socialite que procura extorquir dinheiro do milionário usando a faculdade da filha (Katherina Langford) como justificativa.

Na noite em que Harlan apareceu morto, todos tiveram seu tapete puxado pelo patriarca –e todos, portanto, tinham razões para matá-lo.

Contudo, o detetive Blanc identifica na humilde Marta uma peculiaridade que pode ajudá-lo em sua investigação: Por uma curiosa condição fisiológica, Marta vomita toda a vez que tenta mentir –entretanto, ainda assim, ela tem lá seus segredos à esconder!

A trama de “Entre Facas e Segredos” é um novelo que o roteiro não se furta de tornar ainda mais intrincado a medida que vai avançando sua narrativa (ou regressando, visto que muito dela se abastece de flashbacks que revitalizam algumas informações e, não raro, oferecem percepções opostas de informações previamente fornecidas); o que só denuncia o talento inquestionável de Johnson no equilíbrio de inúmeros elementos que regem o gênero, e no manejo hábil e esperto de detalhes que num momento parecem meros adereços, para no instante seguinte revelarem-se peças cruciais de suas imprevistas reviravoltas.

Um corpo inusitado no cinema norte-americano por sua inteligência e sagacidade, “Entre Facas e Segredos” faz o expectador vibrar de tempos em tempos com as guinadas magistrais de sua premissa, e com o teor incrivelmente envolvente de sua investigação, além de brindar o público com um elenco vasto, talentoso e estelar.

Um filmaço.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2020

Nem bem a CCXP acabou e eis que a Imprensa Estrangeira divulgou hoje os indicados ao Globo de Ouro. Segue a lista:

MELHOR FILME: DRAMA
1917
O Irlandês
Coringa
História de Um Casamento
Dois Papas

MELHOR FILME: MUSICAL OU COMÉDIA
Meu Nome É Dolemite
Jojo Rabbit
Entre Facas e Segredos
Rocketman

Curiosa e até irônica a inclusão da nova obra de Quentin Tarantino entre as comédias; mas, “Era Uma Vez... Em Hollywood” está disputando com títulos elogiadíssimos, em especial, “Meu Nome É Dolemite” e “Jojo Rabbit”, todos exigindo respeito e reconhecimento.
Na categoria drama as coisas estão ainda mais acirradas: Se “O Irlandês” e “Coringa” chegam com a força do sucesso simultâneo de público e crítica, tanto o épico de guerra “1917” quanto “História de Um Casamento”, em seus recentes lançamentos, demonstraram vigor suficiente para atingirem status de favoritos!
Como no ano passado, uma predominância de títulos oriundos de streaming se percebe entre as obras exclusivamente cinematográficas: “O Irlandês”, “História de Um Casamento”, "Dois Papas" e “Meu Nome É Dolemite” são da NetFlix.

MELHOR DIRETOR
Bong Joon-Ho, Parasita
Sam Mendes, 1917
Todd Phillips, Coringa
Martin Scorsese, O Irlandês
Quentin Tarantino, Era Uma Vez… Em Hollywood

Uma maravilha poder testemunhar o reconhecimento sem precedentes ao cinema sul-coreano até então. Está certo que o magistral “Parasita” pode acabar ficando só nas indicações –afinal, ele concorre com a técnica impecável e implacável de Sam Mendes (que alguns estão comparando com o virtuosismo já lendário de “O Resgate do Soldado Ryan”); com a aclamada realização de Todd Philips (a quem o Globo de Ouro já premiou em 2009 por “Se Beber Não Case”); e os trabalhos maiúsculos dos gênios Martin Scorsese e Tarantino –mas é um deleite ver o nome de Bong Joon-Ho (de obras como “O Expresso do Amanhã” e “O Hospedeiro”) ao lado de medalhões do cinema hollywoodiano.

MELHOR ATRIZ EM FILME: DRAMA
Cynthia Erivo, Harriet
Scarlett Johansson, História de Um Casamento
Saoirse Ronan, Adoráveis Mulheres
Charlize Theron, O Escândalo
Renée Zellweger, Judy

MELHOR ATOR EM FILME: DRAMA
Christian Bale, Ford vs. Ferrari
Antonio Banderas, Dor & Glória
Adam Driver, História de Um Casamento
Joaquin Phoenix, Coringa
Jonathan Pryce, Dois Papas

Os intérpretes de drama surgem com alguns favoritismos aparentes: Entre as atrizes, o trabalho que goza, por ora, de maior aclamação junto à crítica é o de Renée Zellweger, onde ela traz Judy Garland à vida, mas há de se lembrar de Scarlett Johansson, uma atriz sempre capaz, talentosa e relevante, dona de poucas indicações ao longo de sua carreira (e nenhuma indicação ao Oscar!) num trabalho que parece ser o ponto de virada para essa injustiça.
Já, entre os atores, a ausência de Robert De Niro (por "O Irlandês") e de Adam Sandler (pelo premiado “Uncut Gems”) e o encaixe de Leonardo DiCaprio e Taron Egerton entre os intérpretes de comédia ou musical deixa a situação bastante propícia para a consagração de Joaquin Phoenix e sua ovacionada atuação em “Coringa”, seu maior competidor é, quando muito, a excelência de Adam Driver em “História de Um Casamento”.

MELHOR ATRIZ EM FILME: MUSICAL OU COMÉDIA
Ana de Armas, Entre Facas e Segredos
Awkwafina, The Farewell
Cate Blanchett, Cadê Você, Bernadette?
Beanie Feldstein, Fora de Série
Emma Thompson, Late Night

MELHOR ATOR EM FILME: MUSICAL OU COMÉDIA
Daniel Craig, Entre Facas e Segredos
Roman Griffin Davis, Jojo Rabbit
Leonardo DiCaprio, Era Uma Vez… Em Hollywood
Taron Egerton, Rocketman
Eddie Murphy, Meu Nome É Dolemite

O grande problema na categoria das atrizes em comédia ou musical é a completa ausência de um nome que tenha se destacado nas bolsas de apostas até então: Emma Thompson e Cate Blanchett levam vantagem pela consagração da carreira pregressa, mas as jovens Ana de Armas e Awkwafina chegam apresentando trabalhos surpreendentes em obras que prontamente conquistaram a crítica.
Com os atores, meu gosto pessoal me leva a torcer pela performance brilhante de DiCaprio, embora os críticos tenham se rendido ao talento de Eddie Murphy que, de tempos em tempos, encontra um filme capaz de evidenciar o grande ator que é (como ocorreu em meados de 2006 com “Dreamgirls”).
De resto, é muito bom ver o reconhecimento prestado ao grande ator que Daniel Craig consegue ser quando sai de sua zona de conforto; à sensibilidade precoce do pequeno e notável Roman Griffin Davis (lembrando ser ele uma das poucas menções ao grande trabalho de Taika Waititi, “Jojo Rabbit”); e ao desempenho louvável de Taron Egerton como Elton John –cujos planos de repetir a trilha vitoriosa de Rami Malek no ano passado esbarraram na concorrência bem mais pesada deste ano!

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Kathy Bates, O Caso Richard Jewell
Annette Bening, O Relatório
Laura Dern, História de Um Casamento
Jennifer Lopez, As Golpistas
Margot Robbie, O Escândalo

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Tom Hanks, Um Lindo Dia na Vizinhança
Anthony Hopkins, Dois Papas
Al Pacino, O Irlandês
Joe Pesci, O Irlandês
Brad Pitt, Era Uma Vez… Em Hollywood

Por mais que a presença de Brad Pitt entre os indicados a Melhor Coadjuvante me encha de felicidade, é preciso admitir que Al Pacino e Joe Pesci, por “O Irlandês”, formam uma dobradinha difícil de ser superada –com a possível predileção dos votantes para o segundo.
A categoria de atrizes coadjuvantes foi uma oportunidade para o Globo de Ouro incluir grandes trabalhos esquecidos nas categorias principais, como “As Golpistas”, filme-sensação no Festival de Toronto, cuja indicação para Jennifer Lopez causou estranhamento por não ser entre as atrizes principais –é exatamente esse detalhe que pode fazer dela a favorita da categoria.
Contudo, as esplêndidas presenças de Margot Robbie e de Laura Dern não devem ser subestimadas.

MELHOR ROTEIRO
História de Um Casamento
Parasita
Dois Papas
Era Uma Vez… Em Hollywood
O Irlandês

MELHOR ANIMAÇÃO
Frozen II
Como Treinar Seu Dragão 3
O Elo Perdido

Causou surpresa a ausência de “Entre Facas e Segredos” entre os indicados à Melhor Roteiro –justamente esse que era apontado como um dos quesitos mais fascinantes do filme de Rian Johnson –o que deve deixar a disputa mais equilibrada, visto que todos são obras magistrais que primam pela mágica de uma história bem contada.
Por incrível que possa parecer, é aqui que “O Irlandês” ostenta menos favoritismo (mas, ele pode levar conforme sua premiação seja indulgente demais), deixando margem para praticamente todos os concorrentes: A sensibilidade singular de “História de Um Casamento”; a energia cinematográfica incomum de “Parasita”; o refinamento inquestionável de “Era Uma Vez... Em Hollywood”; e a primazia dramática de “Dois Papas”.
Entre as animações a briga certamente será de cachorro grande com as sequências de duas das mais bem-sucedidas animações de todos os tempos (“Frozen” e “Toy Story”) disputando diretamente.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Beautiful Ghosts”, Cats
“I’m Gonna Love Me Again”, Rocketman
“Into the Unknown”, Frozen II
“Spirit”, O Rei Leão
“Stand Up”, Harriet

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
The Farewell
Os Miseráveis
Dor & Glória
Parasita
Retrato de Uma Jovem em Chamas

Dificilmente o prêmio de filme estrangeiro será tirado das mãos mais do que merecedoras dos realizadores de “Parasita” –e essa premiação deve ser uma compensação pelas demais indicações que permanecerão sendo indicações (embora surpresas desagradáveis dessa natureza sejam até um hábito do Globo de Ouro).
Entre as canções, apesar das prováveis esperanças de alguns fãs que “Rocketman” ou mesmo o incompreendido “Cats” levem alguma coisa, a nova canção clássica de “Frozen II” deve prevalecer; não acredito que a música inédita de Beyoncée para “O Rei Leão” tenha grandes chances.

Estes são, pois, os indicados (lembrando que só falei dos prêmios referentes à cinema), a entrega dos Golden Globes será dia 5 de Janeiro de 2020.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A Bússola de Ouro

Embevecida com o sucesso de público e crítica da Trilogia "Senhor dos Anéis", o estúdio New Line (que a produziu em conjunto com a Warner) buscou se consolidar como um criador de franquias extraídas da literatura começando por esta um tanto quanto ambiciosa adaptação da obra de fantasia infanto-juvenil de Philip Pullman.
Num mundo paralelo ao nosso, em que a alma das pessoas anda ao seu lado na forma de animais aleatórios, uma garotinha defronta-se com a oposição de um regime ditatorial que aprisiona crianças e que pode ter relação com sua mãe, que ela nem conhecia. Muitos estão atrás de uma bússola que tudo pode revelar e que, por motivos misteriosos, foi parar em suas mãos.
O diretor Chris Weitz (indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por "Um Grande Garoto") dedica-se de maneira comovente ao tratamento das cenas, e o trabalho da menina Dakota Blue Richards é admirável, assim como a presença poderosa de Nicole Kidman. Mas, os grandes problemas do filme são estruturais: O roteiro falha em compreender a dinâmica desigual da narrativa, mantendo do livro o básico enfadonho e desperdiçando muito de sua singularidade.
Acaba que, por conta disso, o filme peca por jamais conseguir capturar o interesse do espectador, e nunca deixar claro os propósitos da história, nem dos personagens. O público identificou de imediato essas fragilidades e não aprovou a obra que terminou com bilheterias irrisórias, podando os planos para novos filmes. Esse desempenho frouxo junto ao público não pareceu incomodar a Academia de Artes Cinematográficas que preferiu dar ao filme o Oscar de Melhores Efeitos Visuais, ao invés de premiar o sucesso “Transformers”.
Eu me recordo que mencionei, na resenha de “Maze Runner”, que essa era uma saga ameaçada a nunca terminar. Na realidade, é “A Bússola de Ouro”, cuja história é iniciada e esboçada neste primeiro filme que se encerra num ponto de indecisão e de inconclusão, que pode ser considerada como a saga cinematográfica que jamais se concluirá.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Munique

Esta produção de Steven Spielberg chegou como azarão na cerimônia do Oscar 2005, tão dominada ela estava pelo discurso de aceitação suscitado pelo elogiadíssimo romance homossexual “O Segredo de Brokeback Mountain” (que, por sinal, terminou a festa confirmando o preconceito já que perdeu o prêmio de Melhor Filme para o bem menos cotado “Crash-No Limite”. Mas, essa é outra história...).
Em “Munique” o quê se vê é a faceta de Spielberg como cineasta sério, de filmes que foram ganhando textura e profundidade à medida que ele foi envelhecendo: “A Cor Púrpura”. “Império do Sol”, “A Lista de Schindler”, “O Resgate do Soldado Ryan”, “Lincoln” e o recente “Ponte dos Espiões”.
Alías, “Lincoln”, de 2012, trazia uma nova colaboração com Tony Kushner, mesmo roteirista de “Munique”. Salta aos olhos, neste trabalho, a necessidade de Spielberg em compreender a lógica que norteia o panorama político do mundo, e as decisões dos líderes pertinentes à ele.
O diretor deposita toda sua técnica (um primor em termos de ritmo e posicionamento de câmera) a fim de desnudar as motivações por trás das cenas que registra.
Ele começa em 1972, no histórico atentado das Olimpíadas de Munique, onde atletas israelenses são seqüestrados e depois chacinados num catastrófico ato terrorista palestino. Após relatar este que é considerado o primeiro ato de terrorismo da Era Moderna, Spielberg coloca em cena Abner (o ótimo Eric Bana), membro do Mossad, a polícia secreta de Israel, que recebe de Golda Meir em pessoa (a Primeira-Ministra israelense, interpretada com brilho por Lynn Cohen), a sigilosa e nunca confirmada missão de rastrear e eliminar os responsáveis pelo atentado. No percurso dessas sequências de tirar o fôlego, Spielberg esmiúça seus personagens colocando em foco suas dúvidas e ideologias, e como alguns deles não conseguem encontrar convicção ao se verem perpetrando atos tão brutais quando aquele do qual estão se vingando.
Um grande trabalho de Spielberg, talvez o menos conhecido de sua magnífica filmografia.