Em 1977, o diretor Steven Spielberg lançou o filme “Contatos Imediatos do 3º Grau”, uma obra que sob muitos aspectos define sua carreira – as inquietações acerca da existência de vida extraterrestre são tópicos que Spielberg jamais foi capaz de deixar de lado, levando à produções como "E.T. O Extraterrestre” e outras que indiretamente abordavam tal tema. O ponto fora da curva pode ser considerado “Guerra dos Mundos”, no qual Spielberg faz nada mais que um pastiche cinematograficamente requintado de “Independence Day” – isso porque Spielberg sempre enxergou de uma maneira esperançosa a possibilidade de co-existência entre humanos e alienígenas.
Agora, do alto de uma carreira de 50 anos,
Spielberg volta a focar suas lentes sobre o tema, numa obra que resgata toda a
dúvida insolúvel e o interesse instigante que o levaram até “Contatos
Imediatos...” – este “Dia D” é, em si, uma obra que traz Spielberg se
reencontrando consigo mesmo, revendo tópicos que sempre lhe foram tão caros ao
seu cinema, à luz de uma imponderável modernidade, resvalando em teorias da
conspiração que soariam alarmantes nas mãos de outros realizadores, e provando,
uma vez mais, o cineasta sem par que ele é.
A trama – concebida pelo roteirista David
Koepp, a partir de um argumento do próprio Spielberg – se inicia audaz, sem
tempo para tomar o fôlego: Daniel Kellner (o carismático Josh O’Connor, de
“Rivais”) já está em fuga. Ao que parece ele roubou arquivos importantes de uma
agência ultrasecreta governamental (isso e outra coisa, ainda mais importante e
inconcebível!). Tal agência, denominada Wardex, sequestrou sua namorada Jane
(Eve Hewson, filha de Bono Vox, o vocalista do “U2”) e agora exigem uma troca
ocorrida nas dependências de um ring de luta livre lotado – e é nessas
circunstâncias, com todo o intrincado enredo já em curso, que o filme começa.
Paralelo à trajetória de fuga de Daniel e Eve –
na qual tentam à todo custo escapar da Wardex, controlada com mão de ferro pelo
implacável Noah Scanlon (Colin Firth, sempre fantástico) – vemos também a
história de Margaret Fairchild (Emily Blunt, magnífica), garota do tempo de uma
emissora de TV em Kansas City que, certo dia, sem a menor explicação, começa a
falar numa língua extraterrestre em pleno noticiário matutino, ao vivo!
O caso chama a atenção da Wardex que, tal e
qual o fazem com Daniel, almejam agora encontrar e capturar Margaret à todo
custo, enquanto um certo Dr. Hugo Wakefield (o ótimo Colman Domingo) procura
estar um passo à frente de Scanlon e sua tentacular agência, a fim de
driblá-los e fazer aquilo que eles tentam evitar há décadas: Revelar ao público
toda a verdade.
Assim como em “Contatos Imediatos...” – cujo plot, de um ponto em diante,
centralizava sua atenção no encontro iminente entre os protagonistas Roy e
Jillian – em “Dia D” somos conduzidos por Spielberg na expectativa de
testemunhar Daniel e Margaret se encontrarem, e descobrir o que, a partir daí,
acontecerá.
Não restam dúvidas de que há muito de Spielberg
em “Dia D” – não apenas o foco central no tema dos extraterrestres e da
incomensurável mudança que a sua revelação causaria no mundo e nos rumos da
Humanidade perpassa toda sua filmografia, como também as pertinentes
referências à Segunda Guerra Mundial (o próprio título em alusão ao Dia D, na
Normandia; a iminência da Terceira Guerra Mundial servindo como um pano de
fundo político aos acontecimentos), a gênese de todos os mais profundos
questionamentos encontrada nas memórias de infância (como é o caso dos dois
protagonistas), e a própria insistência na intervenção irredutível de uma
influente figura paterna (que aqui são duas, o autoritário ainda que munido de
supostas boas intenções Scanlon, de Colin Firth, e o manipulador, ainda que
bondoso, Wakefield, de Colman Domingo, dois atores que, diga-se, sob a direção
de Spielberg, brilham como nunca).

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