quinta-feira, 11 de junho de 2026

A Empregada


 Usualmente um realizador de comédias (são dele o remake feminista “As Caça-Fantasmas”, “Missão Madrinha de Casamento” e “As Bem-Armadas” entre outros) Paul Feig se esforça aqui em busca de uma guinada comercial em sua carreira ao abraçar um projeto orientado pelo refinado gênero do suspense. Contudo, já em seus primeiros momentos, “The Housemaid” entrega uma série de lapsos que apontam o desconforto de seu diretor, como um descuidado (em alguns momentos até descabido!) desenho de som, e uma montagem indecisa que demora além do tempo habitual para encontrar o ritmo correto, acelerando demais a narrativa em alguns momentos e dilatando desnecessariamente certas passagens em outros.

Best-seller da escritora Freida McFadden, “The Housemail” era uma bem-sucedida série literária (agora, sinalizando o surgimento de uma bem-sucedida série cinematográfica) cujo enredo, se não era um primor de acabamento e dramaturgia, mostrava-se certeiro e envolvente no manejo dos plot-twists que se seguiam com revelações pontuais sobre seus interessantes personagens.

A protagonista é Millie Calloway, vivida pela belíssima Sydney Sweeney –e, no status de estrela em ascensão que evoca, Sydney surge como uma escolha apropriada e pontual, nem tanto por suas capacidades interpretativas (que ora satisfazem, ora deixam a desejar) mas, sim, pelo magnetismo imediato, pela instantânea empatia que ela, uma vez dentro da personagem, consegue despertar no público. E isso será muito importante como veremos a frente.

Millie precisa obter um emprego. Recém-saída da prisão (a despeito de ser jovem), ele precisa de um lugar para morar (até então, dorme dentro de seu carro em estacionamentos), de um emprego que sossegue a vigilância dos oficiais da condicional sobre seus passos e de dinheiro para se manter. Tudo isso parece vir num mesmo pacote quando ela presta uma entrevista de emprego à ricaça Nina Winchester (Amanda Seyried, menos carismática do que Sydney, mas bem mais competente como atriz, numa personagem desafiadora e cheia de camadas). Acontece que Nina está grávida (seu marido, afirma ela, ainda não sabe) e ela precisa imediatamente de uma empregada para dar conta de sua filha mais velha de 11 anos, Cecelia (Indiana Elle) e das atividades domésticas da mansão luxuosa onde moram.

Como empregada particular, Millie poderá morar dentro da casa, num quarto localizado no sótão e, embora haja certa suspeita no fato de Millie possuir credenciais demais para candidatar-se a uma vaga de empregada, Nina a quer o quanto antes.

Uma vez trabalhando para o casal –que, além de Nina inclui certamente também seu marido, Andrew (Brandon Sklenar, de “Drop-Ameaça Anônima”) –Millie vai descobrindo que o emprego, que aparentava ser um paraíso durante a entrevista, não é tão maravilhoso assim: Bipolar, Nina confronta Millie com situações complicadas, tentando incriminá-la de erros que não cometeu e tecendo uma ardilosa a aparentemente inexplicada teia de intrigas e acusações que só não comprometem ainda mais a situação de Millie graças à intervenção de Andrew.

Por conta dessa circunstância, pouco a pouco, Millie e Andrew vão estabelecendo uma proximidade que, diante da cada vez mais real possibilidade de um adultério assim consumado, pode desembocar em alguma tragédia. Contudo, na narrativa urgida pela escritora Freida McFadden, nada é o que parece ser. E é exatamente aí (nas informações omitidas ao expectador) que “The Housemaid” guarda seus trunfos.

Toda essa explicação à seguir, conterá spoilers (!): Nina não é o que parece ser, uma vez que, ao contrário da megera intratável que se mostrava durante todos os dois primeiros terços de filme, ela era na realidade uma vítima da situação, presa num casamento abusivo e tóxico, e portanto, desesperada para encontrar um meio de fuga. E tal meio, terminou sendo Millie.

Com efeito, Andrew também não é o príncipe encantado que parecia ser, revelando-se o vilão sádico, psicótico e abusador de fato.

Contudo, outra grande manobra da premissa de Freida McFadden é que a própria Millie, toda doce, desprotegida e indefesa, também não é o que  parece ser: As razões para ela ter sido presa (e encontrar-se, agora, em liberdade condicional) não reveladas antes, são elementos diretamente influentes no desfecho e no porque, agora, foi o perverso Andrew quem meteu-se com a pessoa errada –e é por isso que a escalação de Sydney Sweeney ajuda muito o filme nesse sentido: Uma vez que só saberemos de toda a verdade sobre Millie no momento quase clímax de sua reviravolta, tudo o que sabemos sobre ela é vago, ainda que seja essa a protagonista. No entanto, com Sydney Sweeney interpretando-a, Millie conquista o público já nos primeiros minutos. Mesmo que não saibamos quem ela é, ou o que ela fez, o encanto natural de Sydney faz todo o trabalho nos levando a torcer pela heroína que descobrimos, ao fim, ser bem diferente de quem supúnhamos ser.

“The Housemaid” pode ter falhas homéricas na direção, pode ter um roteiro equivocado e impreciso (as mudanças na adaptação particularmente reforçam o tom exagerado do filme), mas foi um acerto muito feliz na escalação de suas duas protagonistas: Enquanto Sydney é uma ótima presença emprestando magnetismo e simpatia genuínos à Millie; Amanda reforça a grande atriz que é interpretando uma personagem que também está interpretando na maior parte do tempo (e de forma deliberadamente histriônica ainda!) só revelando suas intenções mais humanas quando o filme já estiver em seu ápice.

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