A terceira temporada de “Euphoria” chega dividida entre dois pólos extremos. Vamos lá: nesses quatro anos que separam o segundo e o terceiro ano de “Euphoria”, os estrelatos tanto de Zendaya, quanto de Sydney Sweeney, se consolidaram – a ponto de muitos acreditarem que provavelmente não seria viável realizar uma terceira temporada, visto a apertada e disputada agenda das duas; isso e mais a louvável indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante recebida por Jacob Elordi no início deste ano! Contudo, o realizador, Sam Levinson, não economizou esforços a fim de materializar este terceiro ano, possivelmente, desesperado por contornar o quanto antes o fracasso retumbante da tentativa em emplacar a série “The Idol”, estrelada por The Weeknd e repudiada por público e crítica.
São esses caminhos um tanto tortos que nos
levam a este terceiro e último ano de “Euphoria” que já chega ostentando duas
distinções contundentes em relação aos dois primeiros anos da série: A primeira
delas, sai a ambientação estudantil – os personagens já não são mais jovens
estudantes (até porque alguns deles, como Alexa Demie e Maude Apatow, já não
convenceriam nesse papel), e sim indivíduos dando seus primeiros passos na vida
adulta. A segunda é que, desta vez, “Euphoria” já não é mais uma série tão
plural, e o expectador deve estar ciente disso (e abraçar isso!), caso
contrário, é melhor nem começar os oito episódios: Duas personagens se
sobressaem a todas as outras, e obviamente são elas a Rue de Zendaya (que
convenhamos já era protagonista desde o começo) e a Cassie Howard de Sydney
Sweeney (reflexo do incontornável status que ela foi adquirindo junto ao
público); todos os demais personagens, mesmo aqueles que até gozavam de alguma
relevância nas temporadas anteriores acabam relegados à condição de
coadjuvantes – isso aqueles que chegam à aparecer, visto que a personagem de
Barbie Ferreira (de importância sensivelmente reduzida do primeiro para o
segundo ano), aqui nem mesmo dá as caras, e sequer é mencionada pelas demais,
consequência, segundo dizem as más línguas, de um desentendimento com Levinson.
Quando reencontramos Rue Bennett (Zendaya,
também produtora), passados alguns anos, ela já desvencilhou-se da convivência
com a mãe e a irmã para mergulhar numa rotina de vida que, dadas as suas predisposições
para o vício e para a infração, começa a
flertar perigosamente com o crime: Trabalhando como mula para alguns traficantes, ela resolve escapulir das garras de
seus empregadores – que estão prestes a matá-la, injuriados com uma dívida que
ela não consegue quitar – indo trabalhar justamente para o grande rival e
inimigo declarado deles, o perverso e
ameaçador Alamo Brown (Adewale Akinnuoye-Agbaje, de “Pompeia”), uma espécie de
barão do crime, proprietário de uma boate onde desfilam jovens garotas
capturadas no fluxo do tráfico sexual e onde a droga que ele comercializa
ilegalmente chega até os usuários. Mal escapando de uma encrenca para
envolver-se em outra (elementos que agregam, aqui, mais humor do que drama ao
núcleo da personagem), a trajetória de Rue acaba levando-a inadvertidamente ao
jugo dos agentes de DEA, que transformam ela numa informante – o que, claro,
aproxima ainda mais a personagem do perigo de morte.
Por sua vez, Cassie (Sydney, abusando de seu sex-appeal) casou-se com Nate (Jacob
Elordi) com quem estabeleceu um tumultuado namoro na segunda temporada. Assim
sendo, com ele devendo uma vultuosa quantia em dinheiro para agiotas russos
(que lhe arrancam uns dedos do pé toda a vez que surgem para cobrar a dívida!),
Cassie precisa ganhar dinheiro exponencialmente rápido a fim de salvar a vida
do marido, e a melhor saída é envolver-se com o Onlyfans, plataforma digital para a qual ela pode produzir conteúdo
adulto (e, no processo, a série entregar a sucessão de cenas picantes que todos
os fãs querem ver de Sydney Sweeney) e ganhar dinheiro o mais rápido possível.
A pessoa mais indicada para gerenciá-la nessa empreitada assumindo papel de
empresária, até por seu afiado tino comercial, é Maddie Perez (Alexa Demie),
outrora melhor amiga de Cassie e outrora namorada de Nate (!?!)
E é isso. Esses são basicamente os arcos
narrativos principais desta temporada, em torno dos quais todos os outros
personagens orbitam: Há, por exemplo, Lexi Howard (Maude Apatow), irmã de
Cassie, que tornou-se assistente de uma produtora de Hollywood (produtora esta
vivida por Sharon Stone, em participação bastante decorativa) que na primeira
temporada tinha até mais importância que a irmã dentro da trama, mas que aqui é
sua coadjuvante. Caso ainda mais contundente é o de Jules Vaughn (Hunter
Shaffer), a amiga trans e interesse romântico de Rue que, nesta nova temporada,
é escanteada a ponto de virar quase uma participação especial. O mais curioso é
que a própria relação entre as duas estrelas na vida real (Zendaya e Sydney
Sweeney) pareceu interferir nos rumos de “Euphoria”: Conduzindo carreiras que
ganharam rumos bastante distintos (a de Zendaya pareceu mirar numa consagrada
carreira de atriz séria e respeitada, enquanto que Sydney caiu nas graças do
público através de filmes de apelo muito comercial e não se furtou de
sucessivas polêmicas), as duas estrelas evitaram contato durante a realização
da série, e isso se nota perfeitamente na narrativa – por vezes, esta terceira
temporada de “Euphoria” parece tratar-se de duas obras distintas (a comédia
tragicômica a envolver Rue, e a farsa tresloucada, sórdida e sexual estrelada
por Cassie) entre as quais um ou outro personagem acaba transitando. Para se
ter uma ideia, na totalidade de episódios da temporada inteira, mesmo que
compartilhem basicamente dos mesmos coadjuvantes, Rue e Cassie se encontram na
mesma cena uma única vez – e é um momento um bocado constrangedor!
Não tão pertinente, em termos artísticos ou
temáticos, quando sua temporada inaugural, mas certamente ainda bastante
saborosa de se assistir, esta terceira temporada de “Euphoria” encontra um
arremate perfeitamente adequado no personagem do ótimo Colman Domingo, que
ganha súbita importância no episódio final para conduzir o público ao desfecho.
É um encerramento curioso, anti-climático até,
ainda que de acordo com o espírito inconformista que pareceu predominar na
série como um todo – uma série que, podemos perceber, foi se moldando a partir
das predisposições que se faziam possíveis.

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