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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Euphoria - 3ª Temporada


 A terceira temporada de “Euphoria” chega dividida entre dois pólos extremos. Vamos lá: nesses quatro anos que separam o segundo e o terceiro ano de “Euphoria”, os estrelatos tanto de Zendaya, quanto de Sydney Sweeney, se consolidaram – a ponto de muitos acreditarem que provavelmente não seria viável realizar uma terceira temporada, visto a apertada e disputada agenda das duas; isso e mais a louvável indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante recebida por Jacob Elordi no início deste ano! Contudo, o realizador, Sam Levinson, não economizou esforços a fim de materializar este terceiro ano, possivelmente, desesperado por contornar o quanto antes o fracasso retumbante da tentativa em emplacar a série “The Idol”, estrelada por The Weeknd e repudiada por público e crítica.

São esses caminhos um tanto tortos que nos levam a este terceiro e último ano de “Euphoria” que já chega ostentando duas distinções contundentes em relação aos dois primeiros anos da série: A primeira delas, sai a ambientação estudantil – os personagens já não são mais jovens estudantes (até porque alguns deles, como Alexa Demie e Maude Apatow, já não convenceriam nesse papel), e sim indivíduos dando seus primeiros passos na vida adulta. A segunda é que, desta vez, “Euphoria” já não é mais uma série tão plural, e o expectador deve estar ciente disso (e abraçar isso!), caso contrário, é melhor nem começar os oito episódios: Duas personagens se sobressaem a todas as outras, e obviamente são elas a Rue de Zendaya (que convenhamos já era protagonista desde o começo) e a Cassie Howard de Sydney Sweeney (reflexo do incontornável status que ela foi adquirindo junto ao público); todos os demais personagens, mesmo aqueles que até gozavam de alguma relevância nas temporadas anteriores acabam relegados à condição de coadjuvantes – isso aqueles que chegam à aparecer, visto que a personagem de Barbie Ferreira (de importância sensivelmente reduzida do primeiro para o segundo ano), aqui nem mesmo dá as caras, e sequer é mencionada pelas demais, consequência, segundo dizem as más línguas, de um desentendimento com Levinson.

Quando reencontramos Rue Bennett (Zendaya, também produtora), passados alguns anos, ela já desvencilhou-se da convivência com a mãe e a irmã para mergulhar numa rotina de vida que, dadas as suas predisposições para o  vício e para a infração, começa a flertar perigosamente com o crime: Trabalhando como mula para alguns traficantes, ela resolve escapulir das garras de seus empregadores – que estão prestes a matá-la, injuriados com uma dívida que ela não consegue quitar – indo trabalhar justamente para o grande rival e inimigo  declarado deles, o perverso e ameaçador Alamo Brown (Adewale Akinnuoye-Agbaje, de “Pompeia”), uma espécie de barão do crime, proprietário de uma boate onde desfilam jovens garotas capturadas no fluxo do tráfico sexual e onde a droga que ele comercializa ilegalmente chega até os usuários. Mal escapando de uma encrenca para envolver-se em outra (elementos que agregam, aqui, mais humor do que drama ao núcleo da personagem), a trajetória de Rue acaba levando-a inadvertidamente ao jugo dos agentes de DEA, que transformam ela numa informante – o que, claro, aproxima ainda mais a personagem do perigo de morte.

Por sua vez, Cassie (Sydney, abusando de seu sex-appeal) casou-se com Nate (Jacob Elordi) com quem estabeleceu um tumultuado namoro na segunda temporada. Assim sendo, com ele devendo uma vultuosa quantia em dinheiro para agiotas russos (que lhe arrancam uns dedos do pé toda a vez que surgem para cobrar a dívida!), Cassie precisa ganhar dinheiro exponencialmente rápido a fim de salvar a vida do marido, e a melhor saída é envolver-se com o Onlyfans, plataforma digital para a qual ela pode produzir conteúdo adulto (e, no processo, a série entregar a sucessão de cenas picantes que todos os fãs querem ver de Sydney Sweeney) e ganhar dinheiro o mais rápido possível. A pessoa mais indicada para gerenciá-la nessa empreitada assumindo papel de empresária, até por seu afiado tino comercial, é Maddie Perez (Alexa Demie), outrora melhor amiga de Cassie e outrora namorada de Nate (!?!)

E é isso. Esses são basicamente os arcos narrativos principais desta temporada, em torno dos quais todos os outros personagens orbitam: Há, por exemplo, Lexi Howard (Maude Apatow), irmã de Cassie, que tornou-se assistente de uma produtora de Hollywood (produtora esta vivida por Sharon Stone, em participação bastante decorativa) que na primeira temporada tinha até mais importância que a irmã dentro da trama, mas que aqui é sua coadjuvante. Caso ainda mais contundente é o de Jules Vaughn (Hunter Shaffer), a amiga trans e interesse romântico de Rue que, nesta nova temporada, é escanteada a ponto de virar quase uma participação especial. O mais curioso é que a própria relação entre as duas estrelas na vida real (Zendaya e Sydney Sweeney) pareceu interferir nos rumos de “Euphoria”: Conduzindo carreiras que ganharam rumos bastante distintos (a de Zendaya pareceu mirar numa consagrada carreira de atriz séria e respeitada, enquanto que Sydney caiu nas graças do público através de filmes de apelo muito comercial e não se furtou de sucessivas polêmicas), as duas estrelas evitaram contato durante a realização da série, e isso se nota perfeitamente na narrativa – por vezes, esta terceira temporada de “Euphoria” parece tratar-se de duas obras distintas (a comédia tragicômica a envolver Rue, e a farsa tresloucada, sórdida e sexual estrelada por Cassie) entre as quais um ou outro personagem acaba transitando. Para se ter uma ideia, na totalidade de episódios da temporada inteira, mesmo que compartilhem basicamente dos mesmos coadjuvantes, Rue e Cassie se encontram na mesma cena uma única vez – e é um momento um bocado constrangedor!

Não tão pertinente, em termos artísticos ou temáticos, quando sua temporada inaugural, mas certamente ainda bastante saborosa de se assistir, esta terceira temporada de “Euphoria” encontra um arremate perfeitamente adequado no personagem do ótimo Colman Domingo, que ganha súbita importância no episódio final para conduzir o público ao desfecho.

É um encerramento curioso, anti-climático até, ainda que de acordo com o espírito inconformista que pareceu predominar na série como um todo – uma série que, podemos perceber, foi se moldando a partir das predisposições que se faziam possíveis.

Ao menos (e isso, para mim, é motivo de admiração), Sam Levinson soube que era hora de parar e deu um desenlace contundente, na medida do possível, para seus personagens; coisa que muita série que começou excelente não soube fazer...

sábado, 21 de outubro de 2023

Bobby


 Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático em 2006 –tendo perdido para “Babel” de Alejandro Gonzáles Iñarritu –“Bobby” é uma obra que reúne um elenco numeroso e respeitável, todos esses atores e atrizes dando vida a personagens periféricos em torno da figura maior, sobre a qual pairam as maiores reflexões que este trabalho almeja suscitar: O então candidato à presidência dos EUA, Bobby Kennedy, irmão do mesmo John F. Kennedy, morto à tiros em Dallas cinco anos antes, que, naqueles idos de 1968, era uma esperança para a América –os EUA começavam a enxergar com contestação a Guerra do Vietnam, e os conflitos raciais (o assassinato de Martin Luther King havia sido recente) geravam turbulência em todos os cantos do país. Idealista, jovem e carismático –e representante de uma estirpe política vista com ingênua adoração pelo povo americano –Bobby era um raro caso onde tinha a seu favor a simpatia de todas as classes sociais norte-americanas. Seus discursos enalteciam a união do povo, sua verve era inteligente, polida e esperançosa. Bobby, em suma, era a última esperança para os EUA que adentravam o período mais conturbado de sua História recente.

Todavia, Bobby Kennedy foi alvejado à tiros –um exemplo macabro que parecia repercutir, de alguma forma, a tragédia de seu irmão –ao sair de um discurso, em plena cozinha do Hotel Ambassador, onde foi para comemorar a vitória de sua candidatura para presidente, em eleições a serem disputadas contra Richard Nixon no ano seguinte. O filme surpreendentemente dirigido pelo ator Emilio Estevez (cujo pai, Martin Sheen, também se encontra no filme) não cede à tentação de escalar um ator para interpretar Bobby e converter este num recorte de suas últimas horas –ao invés disso, “Bobby” usa da tragédia notória deflagrada em seu cerne para observar os seres humanos que orbitavam Bobby  naquele momento, e quais teriam sido suas expectativas, e de que maneira seus futuros foram arremessados num turbilhão de perplexidade que, à sua maneira, resumiu o subconsciente norte-americano nas décadas seguintes.

A começar a trama naquele 6 de junho de 1968, temos o gerente do hotel, Paul (William H. Macy) ocupado em administrar todos os afazeres dos inúmeros funcionários para a recepção das comemorações do Partido Democrata, o que inclui a apresentação da cantora Virginia Fallon (Demi Moore) que traz à tira-colo seu marido Tim (o próprio diretor Emilio Estevez) e todos os problemas que seu alcoolismo vem acarretando ao seu casamento. De outro lado, há o porteiro John Casey (Anthony Hopkins), viúvo e aposentado, cuja solidão o leva a enxergar o Ambassador como seu segundo lar. Ele tem a ocasional companhia do igualmente desiludido e solitário Nelson (Harry Belafonte, de “O Diabo, A Carne e O Mundo”), junto de quem tece intermináveis conversas sobre o avanço da idade regadas à muito uísque. No staff de funcionários do Ambassador, o filme concebe um pequeno microcosmos da América: Na cozinha, regida pelo insensível Timmons (Christian Slater), o jovem imigrante José (Freddy Rodriguez, de “Garotas Sem Rumo”) se ressente da folga que lhe foi negada naquela noite, embora encontre relativo alento na serenidade contagiante do cozinheiro-chefe, Edward (Laurence Fishburne, extraordinário). No salão de beleza do lugar, a cabeleireira Miriam (Sharon Stone) tem de se desdobrar enquanto atende os caprichos de Virginia Fallon ao mesmo tempo em que prepara a jovem noiva Diane (Lindsay Lohan), disposta a casar com o jovem William (Elijah Wood) para livrá-lo do compromisso com o exército, e ainda descobre um inesperado adultério de seu marido –o gerente Paul, à propósito –com uma das telefonistas do hotel (Heather Graham). Entre os hóspedes, o casal Jack (Martin Sheen) e Samantha (Helen Hunt) se vê às voltas com a compulsão de compras (dela) e um resíduo de depressão (dele) enquanto lidam com as expectativas ao seu redor. E, em meio às deliberações do Partido Democrata, cujos delegados se encontram no hotel, os jovens estagiários Jimmy (Shia LaBeouf) e Cooper (Brian Geraghty) escapam de suas responsabilidades para descobrir os efeitos do LSD junto do fornecedor de drogas local (uma ponta de Ashton Kutcher).

O roteiro, escrito pelo próprio Emilio Estevez, une personagens reais e (muitos) fictícios para elaborar uma espécie de afresco que ganharia muito mais propriedade nas mãos de um diretor como Robert Altman –na verdade, parece ser o trabalho e o estilo dele que, em muitos momentos, “Bobby” busca emular, sem no entanto escapar de uma ligeira superficialidade. Felizmente, Emilio Estevez soube escolher realmente um elenco primoroso para honrar seus vários personagens (os embates interpretativos entre Sharon Stone e Demi Moore e entre Anthony Hopkins e Harry Belafonte são particular sensacionais de se assistir) e sua mescla de trama real com ficção dramatúrgica –bem como as emendas documentais com o filme propriamente dito –são executadas com primor e profissionalismo inquestionáveis.

São acertos assim que tornam “Bobby” um filme válido, e ampliam de fato a percepção dramática presente na reflexão em torno da tragédia que se sucede no desfecho –já com um considerável distanciamento de tempo em relação aos eventos traumáticos para o povo americano que reconstitui, o filme de Emilio Estevez vislumbra, sem muito ratificar, as possibilidades perdidas, os sonhos devastados e a esperanças à mingua que acontecimentos como aquele legaram ao país. No final, sua pouca inclinação ao sutil acaba tem um saldo positivo: Apesar dos pesares, não é um filme que confronta o expectador com a desesperança e a tristeza inerentes à sua época.

Se fosse Robert Altman, o papo seria outro.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

As Minas do Rei Salomão


 É difícil explicar, aos cinéfilos mais jovens de hoje, o êxito avassalador conquistado por “Os Caçadores da Arca Perdida” na época de seu lançamento. Se não foi uma febre tão absoluta quanto “Star Wars” anos antes (cuja equipe técnica, em grande medida, eles compartilhavam), as aventuras de indiana Jones se tornaram logo um clássico moderno, ganhando lugar de honra e de destaque na cultura pop.

Com efeito, tal qual houve com “Star Wars”, não tardaram aparecer imitadores querendo fazer seu próprio “Caçadores...” e criar um novo Indiana Jones.

Uma das tentativas mais válidas e bem-humoradas, ironicamente, veio das fileiras de filmes B. Os produtores Yoram Globus e Menahem Golan (especialistas no cinema de ação e aventura barato dos anos 1980 a frente da produtora Cannon Filmes) adaptaram, em 1985, o clássico de H.R. Haggard e espertamente tiveram a ideia de dar-lhe uma roupagem totalmente similar àquela usada por Steven Spielberg, a de uma matinê de alto nível. Por sorte, os produtores contaram com um roteirista (Gene Quintano) que, se não era um prodígio de inteligência e originalidade, soube compreender exatamente a metodologia instintiva com as quais cenas tão memoráveis de ação eram criadas; um diretor (J. Lee Thompson, de “Os Canhões de Navarone” e “Murphy’s Law”) tão embriagado e admirado com o trabalho de Spielberg que se satisfez em não imprimir identidade alguma em seu trabalho desde que ele tivesse todas as impressões e características daquele sucesso; e um ator (Richard Chamberlain), cujo personagem, Alan Quatermain, decalcado na maior cara-de-pau dos elementos de Indiana Jones, se não chegava ao magnetismo popular do herói de Harrison Ford, ao menos, ostentava carisma o bastante.

A jovem Jesse Huston (Sharon Stone, belíssima no frescor da juventude) vai à África em busca do paradeiro do pai (Bernard Archard, de “Krull”), pesquisador envolvido numa expedição atrás da trilha de pistas que leva às lendárias minas do rei Salomão. Em seu auxílio, está o aventureiro Alan Quatermain que não tarda a concluir que o melhor meio para achar o doutor desaparecido é perseguir o próprio rastro de indícios históricos e arqueológicos que levam ao mítico tesouro. Entretanto, nesse percurso, inúmeros perigos se abatem sobre o casal: Os alemães (exatamente como em “Caçadores...”), liderados pelo caricato Coronel Bockner (Herbert Lom, de “A Pantera Cor-de-Rosa”) estão também interessados nas riquezas, assim como o perverso traficante de escravos Dogati (John Rhys-Davies, que também estava no elenco de “Caçadores...” e em “Indiana Jones e A Última Cruzada”).

No final das contas, “As Minas do Rei Salomão”, com seu ritmo frenético de aventura e seu desavergonhado esforço em simular a ‘grife’ Spielberg terminou se tornando um daqueles clássicos da “Sessão da Tarde” não obstante sua produção pobre, suas sequências de ação que, quando não eram mambembes deixavam evidentes a cópia descarada engendrada de produções melhores, e a canastrice que ocasionava seus coadjuvantes, seus vilões e, às vezes, até mesmo seu herói.

Numa coisa, porém, o trabalho de J.Lee Thompson, Yoram Globus e Menahem Golan quase ombreia a brilhante obra de Spielberg: A mocinha interpretada por Sharon Stone (anos antes da consagração pelo thriller erótico “Instinto Selvagem”), apesar de ocasionalmente mal-escrita, é tão espevitada e adorável quanto aquela vivida por Karen Allen na primeira aventura de Indiana Jones.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Formiguinhaz


 Nos anos de transição da década de 1990 para 2000, o estúdio Dreamworks, fundado por Steven Spielberg, Jeffrey Katzenberg e David Geffen, entrou numa série de projetos, disposto a fazer estardalhaço no cinema. Certamente, um desses projetos, “Formiguinhaz”, haveria de envolver animação, a grande especialidade do produtor Katzenberg –que esteve a frente da reformulação dos Estúdios Disney com “A Pequena Sereia” e “A Bela e A Fera”, dez anos antes. A ironia foi que “Formiguinhaz”, numa dessas coincidências inconvenientes que vez ou outra acontece em Hollywood, estreou na mesma temporada que outra animação, também ela tendo o mundo miniatura dos insetos como foco central, “Vida de Inseto”, da Pixar.

Na comparação com o divertido e descontraído trabalho da Pixar, “Formiguinhaz” é pleno de escolhas curiosas, indicativas do quanto os realizadores vão muito além de entregar uma obra para crianças, mas uma produção pontuada por detalhes que chamam a atenção dos adultos.

A começar pela escolha de Woody Allen para dar voz ao personagem principal, a formiga operária Z que, no início do filme, surge num divã, relatando suas neuroses num tom hesitante e tímido que Allen domina completamente. Com isso parece haver uma relação estabelecida pelos realizadores entre as formigas e o povo de Nova York –cosmopolitas, numerosos, incapazes de prestar atenção uns nos outros, colhidos numa série de ciclos viciosos e, como Z, sujeitos a ocasionais vazios existenciais.

Z se pergunta porque deve ser mais um dentre tantos. A mediocridade o incomoda quando parece não perturbar todos os outros, indiferentes e dóceis para com sua rotina.

Assim, Z propõe uma ligeira troca com seu melhor amigo, Weaver (voz de Sylvester Stallone): Ele, que é soldado, trocará de lugar com Z, e assim saberá como é o dia-a-dia de um operário –enquanto que Z poderá experimentar a emoção diferenciada de partir em batalha. Para o azar de Z, porém, o General Mandíbula (Gene Hackman) organiza uma ataque aos cupins, moradores de um formigueiro próximo –repare na cena em que Z encontra a cabeça decepada, mas ainda viva e falante, de um amigo no campo de batalha (!), exemplar do quanto a animação não ameniza em cenas até um tanto violentas.

Por suas dimensões reduzidas para um soldado, Z acaba sendo o único sobreviventes da batalha –o que coloca  certo imprevisto nos planos do General Mandíbula. Quando seu embuste é descoberto, contudo, resta a Z improvisar e, com isso, ele escapa para fora do formigueiro junto da Princesa Bala a quem tentou fazer, muito atrapalhadamente, de refém.

Paralelamente, a animação acompanha então a aventura de Z e da Princesa Bala às voltas com os perigos do agigantado mundo exterior –onde testemunhamos mais cenas intensamente violentas, como a cauterização de uma formiga com o raio solar de uma lupa; ou a morte de um inseto fêmea esmagada por meio de um mata-moscas –e a crescente fama de Z entre seus pares do formigueiro, em meio aos quais corre a história da audácia do operário em decidir ocupar o lugar de um soldado, e tornar-se herói de guerra com isso.

Vai ficando também claro o plano maligno do General Mandíbula, e nele, a mensagem de individualismo difundida nas peripécias de Z entre as demais formigas acaba sendo prejudicial.

Surpreendente devido ao seu sucesso de bilheteria na época de seu lançamento, “Formiguinhaz” não aparenta obter uma conciliação na preferência de público; sua trama ostenta complexidades demais para crianças pequenas, seu senso estético (ainda que obedeça os padrões da animações em geral) constrói cenas um tanto quanto particulares em seu realismo, seu elenco inacreditável (onde, é bom lembrar, somente as vozes são de fato aproveitadas) sinalizam a vontade de impressionar a parte mais crescida da plateia, a flagrante humanização dos personagens insetos proporciona certa estranheza, mais comum em animações europeias, e sua mensagem final –na sofisticação de sua abordagem –parece inacessível ao seu suposto público-alvo.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Nico - Acima da Lei

Steve Segal ainda era um ex-guarda-costas quando tentou carreira no cinema como mais um dos muitos heróis de ação que buscaram seguir o caminho traçado por Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone.
Nos anos 1980 –onde a cultura pop de então era um terreno fértil para astros inexpressivos, mas bons de briga –Segal se tornou um especialista de médio porte do gênero: Não chegava nem perto do estrelato conquistado por Schwarzenegger ou Stallone, mas seus filmes rendiam bem no nicho a que se dirigiam, mais ou menos como ocorria com Jean Claude Van Damme.
Dentre as dezenas de produções rasteiras e esquecíveis estreladas por Segal na época, “Nico” se sobressai apontada como uma das melhores.
A razão para isso é o diretor Andrew Davis que anos depois entregaria o formidável “O Fugitivo”. Competente, Davis é um diretor que sabe dosar com sensatez as deficiências inevitáveis desse tipo de produção e consegue conjuga-las sabiamente com as qualidades técnicas de que dispõe.
O roteiro de “Nico” não é e nem quer ser um primor de escrita –todo o objetivo do prólogo capenga é, quando muito, contextualizar o herói do filme (intenção que atende mais ao ego de seu ator principal do que às demandas da narrativa): Nico Toscani é um italo-americano. Apesar dessas raízes, porém, ele é fascinado na cultura oriental, razão pela qual especializou-se em artes marciais. Logo sabemos que ele serviu como agente da CIA em plena guerra do Vietnam –repare como esse protagonista meio agente secreto, meio “Rambo”, obedece todas as características absolutamente implausíveis que compõem um herói daqueles tempos: No Vietnam, uma espécie de desilusão para com seus superiores o leva a abandonar o ofício (!) e, alguns anos depois, Nico está em Chicago onde trabalha como policial (!).
No entanto, a desilusão com os superiores (e com o próprio sistema) vai tornar a ser um problema, quando Nico esbarra por acaso numa venda ilegal de explosivos C4.
Ele mal tem tempo de prender os meliantes –numa cena de tiroteio e perseguição que só não esbarra no desleixo de sua execução porque o diretor Davis soube dar a ela a devida urgência na sala de montagem –e o FBI aparece para tomar-lhes os prisioneiros e a investigação.
Os criminosos são liberados, o caso é arquivado e os policiais outrora envolvidos, como Nico e sua parceira Delores Jackson (Pam Grier, sensacional como sempre), são silenciados.
Trocando em miúdos: Alguém com as costas largas no FBI está envolvido nas atividades criminosas.
Nem chega a ser um grande mistério. Não demora para descobrirmos que é Zagon (Henry Silva), o mesmo detestável oficial que se indispôs com Nico no Vietnam.
Dessa maneira, sem os recursos policiais a sua disposição, Nico deve navegar por uma trama nebulosa que envolve um grupo de refugiados da América do Sul e um senador americano devidamente marcado para morrer.
Segundo consta, o roteiro de “Nico-Acima da Lei”, escrito por Andrew Davis e pelo próprio Steve Segal, inspirou-se em notícias do período que davam conta de executivos da CIA e do FBI que utilizavam o tráfego de drogas para manipular as guerras deflagradas em países de terceiro mundo.
A despeito dessa forçosa tentativa de pedigree, a trama é rasa feito um pires e seus objetivos não vão além do genérico: Tiros, bordoadas, perseguições. Tudo manuseado para enfatizar o dinamismo e a desenvoltura física de Segal nessas ocasiões.
No que se espera dele (a presença física exuberante), Segal se sai bem, contornando até mesmo a evidente incapacidade interpretativa devido à astúcia de seu diretor.
O curioso mesmo é notar que neste filme –e em vários outros que vieram depois –prevalece uma estranha personalidade da parte de seu astro principal, que insiste em usar jaquetas de couro, e adotar uma mesma postura diante das situações (características humanas como medo, vulnerabilidade ou dúvida passam longe dele), além de um estilo marrento perceptível até mesmo nas coreografias de luta.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Lovelace

Costuma-se dizer que a história por trás de alguns filmes é tão turbulenta e interessante quanto o próprio filme em questão.
É essa máxima que vem nortear esta produção que coloca a jovem, bela e talentosa Amanda Seyfried como a garota que, nos anos 1970, protagonizou para o bem e para o mal o filme pornográfico que rompeu pela primeira vez a restrição do circuito específico para essas obras, virando um verdadeiro sucesso, “Garganta Profunda”.
É com ironia que descobrimos a quão pudica é Linda Boreman (Amanda), sobretudo, em comparação com sua melhor atrevida e ousada amiga Patsy (Juno Temple).
Crescida numa família rigorosa e áspera (seus pais são vividos por Sharon Stone e Robert Patrick), Linda ainda teve o infortúnio de engravidar com vinte anos –a criança foi entregue à adoção. O quê levou seus pais a educarem-na com rédea curta.
Tão curta que ela se sentia sufocada.
Quando o galante Chuck Traynor (Peter Sarsgaard) surge em sua vida, portanto, ele não deixa de aparentar ser o príncipe encantado que a salvará daquela prisão. No entanto, Chuck tem lá seus demônios. Enquanto estão juntos, ele deixa Linda (agora, Linda Traynor) compreender sua opinião algo maleável sobre a prostituição –para ele, não há problemas em suas funcionárias fazerem programas com seus clientes –além de outros assuntos mais escusos.
Com a corda no pescoço de tantas dívidas, ele gradativamente convence Linda –que tinha lá seus sonhos para com a vida artística –a fazer um filme. Logo fica claro, porém, que esse filme não é convencional; trata-se de um pornô.
Do modo como a narrativa se apresenta, nem é tanto Linda quem se assombra com os indícios do que terá de fazer, é o próprio expectador: Para a biografia que se assume, ele é um pouco nebuloso na questão do quanto Linda sabia sobre a natureza do projeto de “Garganta Profunda” –e o roteiro ainda usa um artifício para, mais tarde, regressar algumas cenas, e mostrar que Chuck prostituía Linda, aliciando-a com violência e imposições brutais.
Com o sucesso de “Garganta Profunda” –a famosa obra pornô sobre uma garota que tem o clitóris localizado na garganta (!), pretexto que enfileira assim uma sucessão de cenas de sexo oral a cargo de Linda (então, batizada com o sobrenome Lovelace, o mesmo da personagem) –ela se torna assim uma espécie de ícone, um símbolo sexual a representar a ponte entre a então obscura indústria pornográfica e a produção hollywoodiana; significativa, nesse sentido, é a participação de James Franco vivendo ninguém menos que Hugh Hefner, o dono da Playboy.
Mas, a fachada de glamour e êxito esconde um matrimônio de abuso: Disposto a transformar a própria esposa numa espécie de marca que pode explorar até o último centavo, Chuck submete Linda à todo tipo de submissão, desde o uso indevido de sua imagem para produtos de sex-shop à orgias programas com dezenas de clientes.
Ela custa a livrar-se dessa influência perniciosa de Chuck e abandonar esse meio para então reinventar-se, desta vez casada e com o sobrenome Marchiano, como escritora de um livro onde expõe todas as circunstâncias que a levaram a estrelar “Garganta Profunda”, bem como o casamento tóxico que viveu com Chuck –livro este que serve de inspiração ao filme dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman com uma indecisão quase bipolar: Seu trabalho flutua entre a intenção de expor despojadamente os elementos do universo pornô (como Milos Forman o fez em “O Povo Contra Larry Flint”) e o zelo ocasional e condescendente para com sua protagonista retratada.
Com isso perde muito da ousadia que se poderia esperar de um projeto assim.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Amante À Domicílio


Um ator brilhante normalmente mais associado a coadjuvantes –mas, tendo seu momento de brilho em pelo menos uma ocasião, no magnífico “Barton Fink-Delírios de Hollywood” –John Turturro arrisca-se na direção reservando para si um personagem que representa, em geral, uma massagem de ego para qualquer intérprete que se preze: Altivo, solene e inabalável.
Fioravante tem todas essas características e ainda divide muitas cenas com o notável elenco feminino que para este filme foi arregimentado.
De humor tipicamente nova-iorquino, Turturro já escancara sua referência mais óbvia colocando Woody Allen como seu co-astro –e amplificando ao máximo a sensação de déja vu ainda estamos numa comédia de raízes profunda e culturalmente judaicas!
Murray Schwartz, personagem de Allen, desfez-se a pouco da livraria que pertenceu a sua família por gerações. Ao mesmo tempo, seu funcionário e amigo de longa data, o próprio Fioravante, terminou na dependência de bicos ocasionais como encanador e eletricista.
Mas, Murray tem um plano impronunciável: Ofertou –meio que à revelia dele –os serviços viris de Fioravante a sua médica (Sharon Stone) que, curiosa por realizar um ménage à trois ao lado da amiga (Sofia Vergara), encontrou em Fioravante, proposto por Murray, uma saída para seu anseio.
Relutante mas, de certa maneira passivo, ele concorda com a situação imediatamente criada por Murray que vira, no frigir dos ovos, seu cafetão. Ele, com a sucessão de serviços bem prestados (!), eles iniciam um novo negócio que bate de frente com a rigidez da comunidade judaica do bairro onde moram quando Murray resolve atrair como cliente a viúva Avigal (a francesa Vanessa Paradis), o objeto do desejo, por sua vez, do patrulheiro do bairro Dovi (Liev Schreiber) que passa a vigiar a dupla de perto.
Há um humor contido e pretensamente elegante neste filme bem menos atrevido e malicioso que sua premissa é capaz de sugerir.
Ele revela um bom diretor de cenas em John Turturro certamente mais voltado para as sutilezas da atuação do elenco –como era de se esperar –do que para aspectos mais técnicos como montagem e ritmo. No final, ele próprio parece bastante consciente de que, se existem acertos em seu filme, eles ocorrem pelas inspiradas escolhas de seus atores e atrizes.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A Musa


Embora situado na Costa Oeste americana –mais precisamente em L.A., Hollywood –e, por isso mesmo, uma oportunidade nem um pouco desperdiçada para uma sátira ao mundo do cinema, o humor realizado pelo ator e diretor Albert Brooks, em toda sua verve loquaz e sua observação auto-irônica, está fadado à injusta comparação com a obra de Woody Allen.
É bem verdade que ele não faz nada para ajudar: Numa série do que parecem ser reflexos condicionados, ele escala a si mesmo como protagonista; num personagem que ainda por cima, na reflexão sobre os dilemas da criação lhe é um perfeito alter-ego; cria diálogo intelectualizados em tom de galhofa; e discorre em seu roteiro um sem-fim de incertezas e neuroses acerca do processo criativo e, em última instância, da relação entre homens e mulheres.
Do jeito como está, Albert Brooks parece, portanto, clamar por ser visto como um herdeiro de Woody Allen.
Seu personagem é Steven Phillips, roteirista que acabou de receber um prêmio humanitário pela carreira em Hollywood –prêmio este apresentado por Cybill Sheperd.
Nem tudo, porém são flores: Já na manhã seguinte, Steven descobre o pouco interesse que seu nome desperta nos figurões de Hollywood. Seu último roteiro foi recusado por sua absoluta falta de graça e ele corre o risco de não conseguir mais emprego para sustentar sua mulher (Andie MacDowell) e seus filhos.
Ao procurar por um amigo (Jeff Bridges) para chorar suas pitangas, ele recebe uma sugestão improvável e estranha: Recorrer aos serviços de uma musa (!), uma mulher dotada de capacidades indescritíveis de inspirar outros indivíduos, descendente direta das nove musas da mitologia grega.
Interpretada por Sharon Stone com a exuberância de quem sabe ser a estrela do filme, a musa Sarah Little vai de encontro com o que se imagina dela: Já chega requisitando regalias como um luxuoso quarto de hotel, mordomias de superstar e extravagâncias culinárias dignas dos mais arrojados restaurantes.
Steven, que tem lá suas incredulidades em relação à musa sugerida pelo amigo, tem medo de que realmente sua inspiração não volte, e por isso submete sua predisposição a ser pão duro aos caprichos da musa –o que a leva, da suíte caríssima de hotel, a hospedar-se na casa dele próprio (!). Ironicamente, a presença da musa acaba inspirando a mulher de Steven que, incentivada pelos elogios aos seus biscoitos inicia uma bem-sucedida parceria com o chef de cozinha de um restaurante.
Acertando no gracioso quando mirava no ferino, o filme de Albert Brooks não destila a acidez contra o meio cinematográfico que ele gostaria (as pontas de Rob Reiner, James Cameron e Martin Scorsese são ilustrativas do deboche absolutamente inocente que ele faz), além de tratar a questão da “musa” de modo superficial, embora até guarde uma surpresa um pouco divertida em seu desfecho.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Benção Mortal


As características de um especialista em terror já surgem aqui, neste trabalho de Wes Craven, anterior a muitas das obras que depois o fizeram famoso: A construção ligeira e certeira de uma atmosfera imediatamente tensa –na qual a trilha sonora se revela de uma contribuição importantíssima; o sadismo latente para com a condução de inúmeros personagens, sobretudo, os mais relapsos; o manejo de circunstâncias até politicamente incorretas em prol de uma premissa que atende as demandas do gênero.
De maneira geral, “Benção Mortal” é uma ideia um tanto estapafúrdia que a habilidade de Wes Craven rapidamente consegue tornar palatável e envolvente.
Numa região afastada de uma cidade norte-americana vive os hititas, uma comunidade que replicada características dos amish (vistos, por exemplo, em “A Testemunha”), porém, com uma intolerância e uma irredutibilidade que chegam às raias da inverossimilhança –e que, deveras, só poderiam mesmo habitar o enredo de um filme de terror.
Ao lado da comunidade, está a fazenda de Jim (Douglas Barr), rapaz que outrora pertenceu ao grupo, mas foi expulso por seu pai intransigente, Isaiah (Ernest Bognine), por ter se envolvido com Martha (Mare Jensen) uma moça de fora da comunidade –e, como todas elas, vista pelos hititas como um mero instrumento da tentação.
Quando os personagens aqui e ali começam a morrer no melhor estilo slasher –com um uso hábil de câmera subjetiva do ponto de vista do assassino que lembra muito as sequências de “Halloween” –o diretor Craven oferece um vasto leque de suspeitos, entre eles, o próprio Isaiah, e o truculento William (interpretado por Michael Berryman, de “Quadrilha de Sádicos).
Ele oferece também um vasto leque de potenciais vítimas para o assassino: Aparecem na fazenda também as melhores amigas de Martha, as urbanizadas Lana (Sharon Stone, ainda em início de carreira) e Vick (Suzan Buckner) que vem a envolver-se com o outro filho de Isaiah, John (Jeff East, o jovem Clark Kent em “Superman-O Filme”).
Lançado em 1981 –três anos antes de “A Hora do Pesadelo” –“Benção Mortal” possui, inclusive, uma cena que já antecipa em execução, ideia e enquadramento a famosa cena da banheira; esse fato passou completamente despercebido do público porque injustamente “Benção Mortal” é um trabalho quase desconhecido, certamente composto de elementos que ele iria aprimorar em seus futuros filmes –embora a carreira de Craven tenha sido sempre definida por obras que jamais chegaram ao polimento completo.
Após visitar todas as definições do sub-gêneros slasher que começava a proliferar no cinema comercial –e sair-se relativamente bem nisso –o filme de Craven se encerra num desfecho inesperado e inusitado, algo raivoso, abraçando elementos sobrenaturais que até então ele não havia lançado mão.
Prova de que, além de fazer muito bem suas obras de terror, Craven se divertia a valer com elas.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O Vingador do Futuro 1990 e 2012


Uma das mais sensacionais aventuras protagonizadas por Arnold Schwarzenegger, “Total Recall” talvez tenha sido o primeiro blockbuster a unir o kistch desavergonhado e charmoso dos anos 1980 com o cinismo (já típico no cinema do holandês Paul Verhoeven) que viria a definir uma certa postura da indústria nos anos 1990.
Como muitos filmes fantasiosos daquele período, “O Vingador do Futuro” exige certa cumplicidade dos expectadores de hoje, certo entendimento da maneira precariamente incisiva com que eram realizadas e compreendidas as coisas.
Só essa consideração já viabiliza em si a presença de Schwarzenegger interpretando um operário da construção civil no futuro –papel de homem comum que, em si, soaria incabível a alguém como ele, mas que o filme de Verhoeven faz com que seja uma das razões para a diversão.
Schwarzenegger é assim Douglas Quaid. Morador do planeta Terra do ano de 2048, casado com a bela e estranhamente condescendente Lori (Sharon Stone, pouco antes do sucesso de “Instinto Selvagem”, por sinal, do mesmo Verhoeven), ele começa a perceber estranhos indícios de que a vida que vive não lhe parece bastar.
Movido por essa despropositada indignação, Quaid decide encarar um inovador "pacote de férias" onde ao invés de uma dispendiosa viagem, a companhia encarregada lhe proporciona implantes de memória destinados a simular uma viagem para qualquer lugar do sistema solar.
Quaid escolhe ir para Marte, no entanto, algo sai errado e ele se vê perseguido por misteriosos agentes, muitos interessados em matá-lo de uma vez.
Ao que tudo indica, já haviam outros implantes de memória em sua mente, e ele nunca foi um mero operário. Em busca de respostas ele ruma para o planeta Marte de fato, onde um importante papel numa insurreição o aguarda.
Para os padrões de filmes que Schwarzenegger havia protagonizado –e mais ainda, para os padrões da platéia que ele construiu com esses filmes –a trama de “O Vingador do Futuro” é demasiada complexa e intrincada; e sendo ela baseada em livro de Phillip K. Dick, com seus costumeiros questionamentos sobre quem e o que somos, não poderia ser mesmo diferente.
A junção de facetas tão aparentemente incompatíveis (um roteiro melindroso cheio de ramificações e reviravoltas que confundem a elucidação e um filme de ação de aparência descerebrada, com um astro de filmes de ação notoriamente descerebrados) parece ser, contudo, o grande diferencial em torno do qual o diretor Paul Verhoeven revela de fato entusiasmo em trabalhar: A partir desses elementos absolutamente desconcertantes no que tange a um filme de intenções tão assumidamente comerciais, o holandês maluco entrega um filme sanguinolento, ágil, sensual e repleto de variados e à época realmente impressionantes efeitos especiais.


Ao orquestrar, em 2012, um corre-corre frenético abarrotado de efeitos especiais que buscava refilmar o sucesso dos anos 1990 com Schwarzenegger, o diretor Len Wiseman (de “Anjos da Noite”) realizou um produto comercial –exemplo perfeito do tipo de cinema que ele exerce –assombrado por diversas outras obras além daquela que ele tentou atualizar: Também oriundos da mente do escritor Phillip K. Dick, “Blade Runner” e “Minority Report” são talvez ainda mais determinantes para as opções visuais encontradas aqui, assim como a trama rocambolesca (ou talvez, pretensamente rocambolesca) costurada ao redor de mistérios nebulosos da mente que busca remeter à atmosfera hipnótica de “A Origem”.
Se Paul Verhoeven abraçou o inusitado de seu filme como uma escolha convicta de estilo, Wiseman quer optar vaidosamente pela elegância: No papel que antes soou tão desigual em Schwarzenegger aqui está o (bom) ator Colin Farrell que, justamente por sua adequação, nada acrescenta ao personagem.
A trama continua a se ambientar num futuro distante (e as maravilhas tecnológicas, agora materializadas por efeitos digitais de última geração, cuidam de distanciar ainda mais esse mundo da realidade). Nada de Marte desta vez: Por mais que a Terra encontre-se quase inabitável, as únicas regiões povoadas do planeta são a F.U.B. (a metrópole rica e elitizada) e a "Colônia" (uma espécie de favela high-tech), ambas conectadas por um grande elevador que atravessa o núcleo do planeta.
Em meio a uma dissidência entre o governo opressor que impõe subserviência ao proletariado e a resistência daqueles que buscam igualdade, o operário Doug Quaid (Farrell) descobre que as memórias que possuía até então lhe foram implantadas, e que sua real identidade é a de um importante agente da resistência, o quê pode explicar a violenta perseguição da qual ele passa a ser vítima.
A diferença mais pontual entre os dois filmes (e a que têm mais inspiração também) surge aí. A melhor sacada de Wiseman foi fundir dois personagens do filme anterior num só: O perseguidor vilanesco vivido por Michael Ironside e a esposa de embuste interpretada por Sharon Stone são combinados na personagem sarcástica, implacável e divertida de Kate Beckinsale (por sinal, esposa de Len Wiseman e também protagonista de “Anjos da Noite”).
Pena que, talvez como conseqüência disso, os outros personagens careçam tanto de brilho: A mocinha tão bem intencionada que dá sono de Jessica Biel (particularmente muito má empregada na reformulação de uma das cenas mais interessantes do filme original) e o líder dos perseguidores, um vilão completamente raso vivido pelo normalmente excelente Bryan Cranston.
Este novo “Total Recall” foge dos enigmas intrincados do filme anterior, optando por uma trama de perseguição que, em sua maior parte, soa mais inteligível e acessível. E todas as escolhas do diretor Wiseman vão, aos poucos, impondo uma atmosfera que de fato afasta-se do trabalho de Verhoeven.
Entretanto, chega um ponto em que Wiseman precisa e deve dizer a quê seu filme veio afinal –é quando o novo “Vingador do Futuro” dá suas mais espetaculares escorregadas: Se o tom kistch imposto pelo diretor Verhoeven funcionava muito bem no filme de 1990, aqui a seriedade de Len Wiseman lhe tira muito da graça que poderia ter tido.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Instinto Selvagem

O sexo sempre fez parte intrínseca das inquietações que moviam o ímpeto criativo do diretor holandês Paul Verhoeven. Obras como “Louca Paixão”, “O Amante de Kathy Typel” ou “O Quarto Homem” tinham por definição e princípio a maneira com que se debruçavam, sem pudores, a analisar as reações sexuais de seus personagens.
Tal postura, que chocava –e, provavelmente, enchia de admiração –os americanos, na verdade, refletia muito da mentalidade cultural de seu país, acrescido por um arrojo de sofisticação e uma predisposição para o atrevimento que era todo próprio de Verhoeven.
Era natural que, quando ele migrasse para Hollywood, ele levasse tal característica consigo.
E foi o quê ele fez! Ainda que no início, houvesse uma abordagem indireta, velada até, desses elementos: Trabalhos como “Robocop” e “O Vingador do Futuro”, no que diz respeito ao conteúdo sexual, estavam mais no terreno da sugestão que do fato –embora, seu magnífico “Conquista Sangrenta”, realizado de forma mais independente, tenha um erotismo todo acentuado.
Foi só com esta trama policial, escrita pelo roteirista Joe Ezsterhas –que, como Verhoeven, tinha lá suas obsessões com nudez e sexo! –que o “holandês maluco” pôde, por assim dizer, tirar suas garras de fora no cinemão hollywoodiano.
Já fica bem claro que não há nenhum traço de bom-mocismo no policial corrupto interpretado por Michael Douglas –e nessa manobra o filme irmana-se à todo o gênero noir, que comparece com inúmeros atributos e referências neste trabalho. Ele vê-se perplexo quando, ao investigar um hediondo assassinato com requintes sexuais, conhece uma das principais suspeitas: Catherine Trammell (Sharon Stone, absolutamente perfeita no papel que é o grande divisor de águas de sua carreira), uma extremamente sexy escritora de romances, que lhe abala as estruturas, nos mais diversificados sentidos.
Não demora a ficar claro que –seja ela culpada ou não do crime em questão –Catherine não é “flor que se cheire”; a seqüência de interrogatório dela pelos perplexos policiais –na qual Verhoeven obtém uma fortuita, reveladora e desconcertante tomada de suas partes íntimas! –deixa bastante evidente o poder até mesmo opressor que essa femme fatale exerce sobre os homens, incluindo o personagem de Douglas.
Ainda assim, sendo absurdamente atraente e linda, Catherine o seduz e faz dele seu amante –em uma cena de sexo que é indicativa não só do apelo sexual poderosíssimo que a atriz possui, como também do tarimbado traquejo técnico e artístico que o diretor tem para esse tipo de seqüência –para então mergulhá-lo num universo de libertinagem e masoquismo, que pode esconder uma série de pérfidos segredos.
Um dos mais marcantes filmes dos anos 1990, não apenas por seu largo êxito de público e crítica, mas porque também revelou o vulcânico símbolo sexual Sharon Stone (ela protagoniza cenas de nudez e sexo que são até hoje referências entre as produções mais erotizadas), “Instinto Selvagem” é acima de tudo um suspense eficiente e uma amostra muito mais peculiar e referencial do grande artesão que Paul Verhoeven é, do que o foi seus anteriores “Robocop” e “O Vingador do Futuro”.
Nos anos seguintes, seu cinema foi prejudicado por obras que pendiam com exagero para essas tendências à perversão que em muito o definem (sim, eu me refiro à “Showgirls”), e durante algum tempo, nem tentativas de retomar um cinema mais comercial –como “Tropas Estelares” ou “O Homem Sem Sombra” –foram capazes de trazê-lo à ribalta.
Pode-se afirmar então que “Instinto Selvagem” foi, até aqui, o momento mais brilhante de sua carreira.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Flores Partidas

Ao receber uma carta anônima de uma suposta ex-namorada do passado afirmando que ele tem um filho que nunca conheceu, homem de meia-idade, solteiro e bem de vida empreende, um pouco a contra gosto, uma busca, indo atrás das mulheres que amou, e que seriam então a possíveis mães de um filho seu. Alguns desses relacionamentos terminaram deixando uma sensação de estranhamento, outros acabaram de forma catastrófica.
Há um curioso quiproquó ao analisarmos este filme colocando-o lado a lado da obra-prima de Sofia Coppola, “Encontros e Desencontros”, que trazia o papel da vida de Bill Murray: O estilo alternativo de Sofia como diretora, feito de minúcias visuais e sonoras, amparado em sutilezas imperceptíveis aos blockbusters bebe, e muito, de uma fonte da qual o tarimbado Jim Jamursch é uma das principais vertentes.
É claro que ele mesmo tem suas próprias influências, e algumas remetem ao cinema francês, mas penso que esse assunto possa ser abordado na resenha de algum outro filme seu.
O próprio Jamursch, vindo de um intervalo considerável de tempo sem filmar, ao realizar este novo trabalho, apropriou-se do astro do filme de Sofia (Murray) permitindo que se estabelecesse entre as duas obras uma similaridade ainda mais nítida e flagrante. Jamursch exerce um cinema independente vago, disperso, sem maiores preocupações em corresponder às expectativas do público ou acelerar a lentidão da narrativa. E ele deixa perceptível uma certa desilusão de sua parte, refletido em um niilismo perene que pontua seu filme (embora haja aqueles que podem argumentar que ele estava lá na maioria de seus trabalhos), em contraponto à ânsia de observar e descobrir o cerne de todo o vazio que pulsa dos trabalhos de Sofia.

A jornada movida pelo personagem de Murray é pontuada pelos ecos de uma vida pregressa que se desconfigura a medida que as mulheres com quem viveu (Sharon Stone, Frances Conroy, Jéssica Lange, Julie Delpy, uma irreconhecível Tilda Swinton) aparecem para dar novo prisma à sua percepção daquilo que se passou (e por vezes, sua percepção de si mesmo), todavia a busca por respostas sempre se revela traiçoeira: Essas mulheres entram, elas próprias, em contradição. Como também parece entrar em contradição, por vezes, o próprio Jamursch, ao concluir a circularidade frustrante que representa ser o próprio fluxo da vida. Nessa plena capacidade de contagiar o expectador com esse desânimo existencial, sua trama ganha interesse graças a Bill Murray,sempre um ator notável, ainda que repetindo em muitos aspectos o personagem que havia interpretado no magistral "Encontros e Desencontros".