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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Sonhos de Trem


 Quando começamos a achar que não se faz mais cinema assim (dotado de uma percepção artística toda lenta, introspectiva, melancólica), vem a própria Netflix (a mais popular dentre todas as plataformas de streaming) e lança “Sonhos de Trem” –ou “Train Dreams” no original –adaptação de um livro escrito por Denis Johnson em 2011, e carregado com ecos do cinema de Terence Malick (“Cinzas No Paraíso”, “Além da Linha Vermelha”, “Árvore da Vida”), contemplativo, abstrato, muito mais inclinado à reflexão do que à ação.

 "Sonhos de Trem" é a história de Robert Grainier (Joel Edgerton, irrepreensível) e, desde o início, o narrador (voz do ator Will Patton) nos informa que Grainier viveu até os 80 anos.

Filhos de pais que jamais chegou a conhecer, ele chega em Bonners Ferry, estado de Idaho, ainda criança e, desde cedo, desenvolve uma personalidade calada, introvertida, sempre dedicado ao cotidiano braçal das ocupações daquele fim do Século XIX início do Século XX.

Adulto, Grainier passa a trabalhar como lenhador, derrubando árvores por todo o país, muitas vezes para a construção de estradas de ferro, situação que o deixa sempre próximo do universo ferroviário norte-americano, e em contato com outros madeireiros, operários braçais que vem e vão ao longo dos anos, também eles com suas peculiares histórias.

Desse segmento, aqueles que se sobressaem na narrativa certamente são o chinês (Alfred Hsing, de “Jogador Nº1”) abruptamente descartados dos serviços junto a ferrovia por ser um imigrante ilegal (uma visão que passa a atormentar Grainier o resto da vida); o homem religioso e falastrão (Paul Schneider, de “A Garota Ideal”) inesperadamente morto por a tiros por um homem negro em busca de uma vingança pessoal; e o operário veterano vivido por William H. Macy, um curioso contador de histórias que se torna seu amigo e que parte de forma trágica.

Há também uma expressiva participação, já na segunda metade da atriz Kerry Condon (de “Banshees de Inisherin” e “F1”).

O cerne de sua trama, contudo, é a relação com Gladys (Felicity Jones), jovem por quem ele se apaixona, com quem casa e, logo depois, decide construir uma cabana na floresta à beira de um rio. Os anos não tardam a passar. Eles têm uma filha, a pequena Kate, e para sustentar sua família, Grainier passa a trabalhar temporadas inteiras bem longe do lar, cortando madeira nos mais diferentes recôncavos do país.

Seus retornos para casa são poéticos e carregados de felicidade, mas a falta de dinheiro sempre o obriga a voltar. E é justamente num desses retornos que ele é surpreendido por um terrível incêndio acometido na floresta onde moram, fazendo com que Gladys e Kate fiquem desaparecidas.

Seus 80 anos de vida não são definidos por acontecimentos extraordinários, muito pelo contrário, Robert Grainier não poderia ser um indivíduo mais comum. Ainda assim, essa trajetória de vida assim registrada não deixa de acompanhar de perto as notáveis transformações testemunhadas por esse mesmo homem comum durante os EUA da primeira metade do Século XX: “Train Dreams” vai até a segunda metade dos anos 1960, acompanhando nesse processo a modernização do sistema de transporte ferroviário norte-americano (mostrado sem qualquer viés didático) e chegando inclusive a trazer as notícias sobre a ida do Homem ao espaço.

Lançado originalmente no Festival de Sundance de 2025, onde o trabalho do diretor Clint Bentley e a atuação de Edgerton saíram aclamados pelos críticos, “Train Dreams” é uma obra cuja narrativa definida pela contemplação mantém sempre em foco a relação do Homem com a Natureza, não à toa, suas imagens deslumbrantes desde a primeira cena são o ponto forte: A direção de fotografia, concebida na janela de aspecto 1,46:1, é assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso (de “Tungstênio” e ‘Rodantes”).

Não espere sair feliz e saltitante do filme: É um trabalho que foca em agruras íntimas, em tristezas inapeláveis de uma vida árdua, fadada a não encontrar quaisquer outras alternativas para que árdua deixe de ser. Expectadores adeptos de narrativas comerciais certamente vão se ressentir dessa lentidão e dessa desesperança, no entanto, em muitos momentos a realização de Bentley revela-se uma obra sublime.

sábado, 11 de maio de 2024

Planeta dos Macacos - O Reinado


 Após a compra do Estúdio da 20th Century Fox pela Disney, eventualmente, toda a propriedade intelectual passou a pertencer à casa do Mickey Mouse, logo, era questão de tempo que surgissem novas versões de diversas franquias famosas vindas da Fox. E uma delas vem a ser, claro, “O Planeta dos Macacos”.

Inicialmente surgido no fim da década de 1960, com o filme clássico estrelado por Charlton Heston –e que a reboque trouxe várias outras produções, cada uma minguante em qualidade –a “Saga Planeta dos Macacos” se estendeu por diversos filmes ao longo da década de 1970, chegando à culminar numa série de TV e noutra de animação. Entretanto, em 2011, a saga foi revivida (sem contar com o longa de 2001, dirigido por Tim Burton, sem qualquer relação com os filmes antigos ou os novos): “Planeta dos Macacos-A Origem” retrocedia no tempo para vislumbrar a ascensão dos macacos enquanto espécie inteligente (liderados pelo primeiro símio consciente, o chipanzé criado pelos humanos Cesar) em paralelo à regressão da raça humana à estágios mais primitivos da fala e da inteligência. A saga prosseguiu sob a direção de Matt Reeves no ótimo “Planeta dos Macacos-O Confronto” e se encerrou em 2017, numa obra-prima do cinema moderno chamada “Planeta dos Macacos-A Guerra”; uma questão a envolver essa trilogia era que, se o grande chamariz de ordem técnica dos filmes antigos era o apelo de sua espantosa maquiagem a transformar um elenco humano em macacos, desta vez, a tecnologia de ponta fazia sua diferença –a nova trilogia trazia macacos hiper-realistas gerados por computação gráfica através da captura de performance, e para tanto, a presença do ator especializado nessa nova tecnologia, Andy Serkis, como o protagonista Cesar, era crucial.

Com essa trilogia consagrada e finalizada de forma tão redondinha (e desta vez, sem Andy Serkis e sem Matt Reeves) poucos eram os que especulavam um novo recomeço assim tão cedo, mas, o diretor Wes Ball (da “Trilogia Maze Runner”) teve seu projeto de uma retomada de “Planeta dos Macacos” aprovado pela Disney que produziu o filme sob o novo selo 20th Century Studios. Dando continuidade ao desfecho da nova trilogia –a cena inicial é ainda durante o cortejo fúnebre de Cesar –“O Reinado” começa de fato num salto temporal para o futuro (“Muitas gerações depois” diz a legenda) e encontramos uma comunidade de macacos inteligentes vivendo em circunstâncias feudais, desenvolvendo a habilidade de adestrar pássaros. Lá, vive Noah (personificado pelos movimentos do ator Owen Teague, de “It-A Coisa”) um jovem macaco ciente do mistério em torno do perigo que espreita para além de suas fronteiras. Os humanos, vistos por eles como animais selvagens e primitivos que servem apenas para roubar as montarias, são chamados Ecos, e deles nada se espera a não ser selvageria e grunhidos. Contudo, numa noite um ataque acaba chegando ao povoado de Noah, porém, na forma de outros macacos –afirmando serem seguidores de Cesar (de quem Noah e seu clã nunca ouviram falar), os macacos invasores têm uma vaga noção superior de tecnologia e valem-se disso para subjugar e escravizar o grupo de Noah, numa distorção do discurso pacifista promovido por Cesar décadas ou talvez até séculos antes.

Deixado para trás para morrer, Noah procura ir ao encalço dos captores de seu clã e, nesse percurso, encontra-se com o orangotango Raka (Peter Macon), este sim um verdadeiro e sensato seguidor dos preceitos de Cesar. Os dois acabam se deparando com a humana May (a carismática Freya Allan, da série “The Witcher”) que em princípio aparenta ser só mais um indivíduo da manada pré-histórica de humanos com os quais eles se acostumaram, mas que, em dado momento sensacional da trama, revela uma grande surpresa.

“Planeta dos Macacos-O Reinado” é, pois, uma obra costurada com bastante habilidade pelo diretor Wes Ball: Ele trabalha maravilhosamente bem a miscelânea de suspense, drama, ação e ficção científica que sempre constituiu os melhores exemplares da saga; estabelece bons personagens para assumirem a dianteira da narrativa na falta de absolutamente todos os anteriores (ainda que alguns arquétipos se repitam); reaproveita com ainda mais ênfase e entusiasmo o aparato digital com o qual os membros do elenco são convertidos em símios ultra-realistas dotados ainda de expressões faciais; planta uma nova premissa (mas não completamente distante das premissas que deram certo) para que toda uma nova e promissora trilogia venha a ganhar corpo; e traz uma reflexão bastante pertinente e relevante na qual o messianismo de Cesar oriundo dos filmes anteriores é adotado e deturpado pelo grande vilão deste filme (vivido por Kevin Durand, de “Gigantes de Aço”), numa forma de realizar uma massa de manobra e disfarçar, com palavras de efeito moral, a perversidade de sua ideologia –um recado importante e interessante a ser levado em conta nos dias de hoje.

quarta-feira, 13 de março de 2024

Ricky Stanicky


 Os amigos Dean (Zac Efron), J.T. (Andrew Santino, de “O Artista do Desastre”) e Wes (Jermaine Fowler, de “Judas e O Messias Negro”), como qualquer ser humano, desde criança alimentaram o hábito de cometerem, vez ou outra, alguma besteira. Contudo, numa noite de Halloween, quando sem querer colocando fogo inadvertidamente na casa de um vizinho antipático, os três têm uma ideia que definiria suas vidas a partir dali: A fim de livrarem-se das consequências inevitáveis das encrencas que arrumaram, eles bolaram um amigo fictício, um certo Ricky Stanicky que, por ser um bon-vivant, adepto de viver a vida ao máximo (segundo eles, foi ao mesmo tempo viciado em drogas, viajante contumaz e ativista ecológico!), termina sendo o personagem central de todas as presepadas nas quais os três se envolviam –desde a adolescência até a vida adulta, diga-se!

Mesmo depois de casados –e com, pelo menos, um deles, T.J., se tornado pai –eles ainda recorrem à Ricky Stanicky como forma de justificar pequenas escapulidas dos compromissos e responsabilidades.

Entretanto, durante a celebração do batismo judeu do filho recém-nascido de J.T., ele, Dean e Wes são pressionados por seus cônjuges e familiares a finalmente convidar Ricky Stanick a fim de que todos os conheçam; até porque, aqui e ali, já existem alguns que começam a suspeitar, de sua real existência.

Para Dean, o principal defensor da ilusão de Ricky Stanicky, a manutenção da mentira é essencial para terem sempre uma válvula de escape para suas vidas estressantes. E com isso, os três têm a ideia de contratar Rod Rimestead (John Cena, em perfeita sintonia com o humor grosseiro do filme), um ator decadente e cheio da lábia, especializado em apresentar-se com versões humorísticas (pra não dizer vexaminosas) de músicas famosas.

Sem muita alternativa –sua vida se resume a apresentações mambembes, bebedeiras e passar a perna em terceiros para não passar fome! –Rod topa o trabalho e, no dia da celebração, sua dedicação ao papel de Ricky Stanicky se revela tão esmerada que ele não só convence a todos, como provoca um verdadeiro abalo sísmico nas vidas de Dean, J.T. e Wes.

A comédia politicamente incorreta –que praticamente desapareceu das telas de cinema nos últimos anos –havia sido uma especialidade do diretor Peter Farrelly, quando ainda dirigia em parceria com seu irmão Bobby, em décadas passadas. Após alguns filmes de menor expressão na experimentação de gêneros mais distintos e de uma inesperada vitória do Oscar (com o elogiado “Green Book-O Guia”), Peter Farrelly ensaia este retorno às raízes que, se denota uma perda até natural da desenvoltura para comédia que antes ostentava, representa, sem sombra de dúvidas, um respiro de ar fresco em meio ao circuito comercial, numa época em que o público não se surpreende com absolutamente nada e se ofende com absolutamente tudo; assim como o foi “Que Horas Eu Te Pego?” no ano passado.

“Ricky Stanicky” passa longe de ser um filme perfeito –ele não está nem mesmo entre os melhores trabalhos dos Farrelly –e a insistência de Peter em piadas referentes à pênis e a masturbação (!) é, no mínimo, incômoda, mas, a construção relativamente esmerada na estrutura de seu enredo (ainda que essa minúcia possa passar despercebida em meio ao seu intenso humor chulo) e as presenças significativas de seu elenco (Zac Efron já havia trabalho com Peter em “Operação Cerveja”, e além de John Cena, com sua persona desesperada, patética e algo comovente, o veterano William H. Macy está particularmente sensacional) apontam um diretor sempre disposto a se manter acima da média.

Ao fim, apesar da incessante inclinação ao humor inconsequente (embora as piadas não sejam tão simultâneas nem tão certeiras quanto os Farrelly fizeram ser um dia), “Ricky Stanicky” traz até algumas lições de valores: A mentira, ele reafirma, é sempre um assunto pendente que retorna para cobrar sua dívida ao mentiroso.

sábado, 21 de outubro de 2023

Bobby


 Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático em 2006 –tendo perdido para “Babel” de Alejandro Gonzáles Iñarritu –“Bobby” é uma obra que reúne um elenco numeroso e respeitável, todos esses atores e atrizes dando vida a personagens periféricos em torno da figura maior, sobre a qual pairam as maiores reflexões que este trabalho almeja suscitar: O então candidato à presidência dos EUA, Bobby Kennedy, irmão do mesmo John F. Kennedy, morto à tiros em Dallas cinco anos antes, que, naqueles idos de 1968, era uma esperança para a América –os EUA começavam a enxergar com contestação a Guerra do Vietnam, e os conflitos raciais (o assassinato de Martin Luther King havia sido recente) geravam turbulência em todos os cantos do país. Idealista, jovem e carismático –e representante de uma estirpe política vista com ingênua adoração pelo povo americano –Bobby era um raro caso onde tinha a seu favor a simpatia de todas as classes sociais norte-americanas. Seus discursos enalteciam a união do povo, sua verve era inteligente, polida e esperançosa. Bobby, em suma, era a última esperança para os EUA que adentravam o período mais conturbado de sua História recente.

Todavia, Bobby Kennedy foi alvejado à tiros –um exemplo macabro que parecia repercutir, de alguma forma, a tragédia de seu irmão –ao sair de um discurso, em plena cozinha do Hotel Ambassador, onde foi para comemorar a vitória de sua candidatura para presidente, em eleições a serem disputadas contra Richard Nixon no ano seguinte. O filme surpreendentemente dirigido pelo ator Emilio Estevez (cujo pai, Martin Sheen, também se encontra no filme) não cede à tentação de escalar um ator para interpretar Bobby e converter este num recorte de suas últimas horas –ao invés disso, “Bobby” usa da tragédia notória deflagrada em seu cerne para observar os seres humanos que orbitavam Bobby  naquele momento, e quais teriam sido suas expectativas, e de que maneira seus futuros foram arremessados num turbilhão de perplexidade que, à sua maneira, resumiu o subconsciente norte-americano nas décadas seguintes.

A começar a trama naquele 6 de junho de 1968, temos o gerente do hotel, Paul (William H. Macy) ocupado em administrar todos os afazeres dos inúmeros funcionários para a recepção das comemorações do Partido Democrata, o que inclui a apresentação da cantora Virginia Fallon (Demi Moore) que traz à tira-colo seu marido Tim (o próprio diretor Emilio Estevez) e todos os problemas que seu alcoolismo vem acarretando ao seu casamento. De outro lado, há o porteiro John Casey (Anthony Hopkins), viúvo e aposentado, cuja solidão o leva a enxergar o Ambassador como seu segundo lar. Ele tem a ocasional companhia do igualmente desiludido e solitário Nelson (Harry Belafonte, de “O Diabo, A Carne e O Mundo”), junto de quem tece intermináveis conversas sobre o avanço da idade regadas à muito uísque. No staff de funcionários do Ambassador, o filme concebe um pequeno microcosmos da América: Na cozinha, regida pelo insensível Timmons (Christian Slater), o jovem imigrante José (Freddy Rodriguez, de “Garotas Sem Rumo”) se ressente da folga que lhe foi negada naquela noite, embora encontre relativo alento na serenidade contagiante do cozinheiro-chefe, Edward (Laurence Fishburne, extraordinário). No salão de beleza do lugar, a cabeleireira Miriam (Sharon Stone) tem de se desdobrar enquanto atende os caprichos de Virginia Fallon ao mesmo tempo em que prepara a jovem noiva Diane (Lindsay Lohan), disposta a casar com o jovem William (Elijah Wood) para livrá-lo do compromisso com o exército, e ainda descobre um inesperado adultério de seu marido –o gerente Paul, à propósito –com uma das telefonistas do hotel (Heather Graham). Entre os hóspedes, o casal Jack (Martin Sheen) e Samantha (Helen Hunt) se vê às voltas com a compulsão de compras (dela) e um resíduo de depressão (dele) enquanto lidam com as expectativas ao seu redor. E, em meio às deliberações do Partido Democrata, cujos delegados se encontram no hotel, os jovens estagiários Jimmy (Shia LaBeouf) e Cooper (Brian Geraghty) escapam de suas responsabilidades para descobrir os efeitos do LSD junto do fornecedor de drogas local (uma ponta de Ashton Kutcher).

O roteiro, escrito pelo próprio Emilio Estevez, une personagens reais e (muitos) fictícios para elaborar uma espécie de afresco que ganharia muito mais propriedade nas mãos de um diretor como Robert Altman –na verdade, parece ser o trabalho e o estilo dele que, em muitos momentos, “Bobby” busca emular, sem no entanto escapar de uma ligeira superficialidade. Felizmente, Emilio Estevez soube escolher realmente um elenco primoroso para honrar seus vários personagens (os embates interpretativos entre Sharon Stone e Demi Moore e entre Anthony Hopkins e Harry Belafonte são particular sensacionais de se assistir) e sua mescla de trama real com ficção dramatúrgica –bem como as emendas documentais com o filme propriamente dito –são executadas com primor e profissionalismo inquestionáveis.

São acertos assim que tornam “Bobby” um filme válido, e ampliam de fato a percepção dramática presente na reflexão em torno da tragédia que se sucede no desfecho –já com um considerável distanciamento de tempo em relação aos eventos traumáticos para o povo americano que reconstitui, o filme de Emilio Estevez vislumbra, sem muito ratificar, as possibilidades perdidas, os sonhos devastados e a esperanças à mingua que acontecimentos como aquele legaram ao país. No final, sua pouca inclinação ao sutil acaba tem um saldo positivo: Apesar dos pesares, não é um filme que confronta o expectador com a desesperança e a tristeza inerentes à sua época.

Se fosse Robert Altman, o papo seria outro.

quarta-feira, 31 de março de 2021

O Poder e A Lei


 É curioso que este “The Lincoln Lawyer” seja, para muitos, o marco zero da chamada ‘McConassence’ –o processo pelo qual, através de um punhado de filmes, Matthew McConaughey provou que não era um mero galã de filmes românticos, mas sim um ator capaz, competente e destemido –uma vez que ele é consideravelmente menos reconhecido do que os demais títulos que pavimentaram o caminho do astro rumo ao Oscar de Melhor Ator, tais como “Magic Mike”, “Killer Joe”, a primeira temporada de “True Detective”, o próprio “Clube de Compras Dallas” e “Interestelar.

Em termos cronológicos, no entanto, não restam muitas dúvidas de que foi aqui onde tudo começou.

McConaughey vive Michael Haller, um advogado de Los Angeles tarimbado em achar os atalhos em meio às tortuosas cirandas de crimes, flagrantes, delitos e audiências que compõem a rotina judicial. Também é um tanto quanto hábil em ignorar a ressaca moral originada do fato de defender clientes que quase nunca são tão inocentes assim.

No roteiro de John Romano meticulosamente bem inserido nos meandros e expedientes de filmes de tribunal –embora “The Lincoln Lawyer” custe um pouco a se revelar como um –a dualidade a que se presta a atividade do protagonista está esboçada em diversos aspectos de sua vida, inclusive a pessoal: Haller é ex-marido de Maggie McPherson (Marisa Tomei), com quem tem uma filha, e que, por ironia, é justamente promotora de justiça; a ex-esposa, com quem Haller, portanto, precisa manter uma convivência senão dotada de harmonia, ao menos, dotada de camaradagem, tem por ofício exatamente a oposição ao que ele faz, lançar mão de argumentos para incriminar os mesmos meliantes que Haller liberta.

Entretanto, a premissa caminha mesmo em direção ao pulo do gato quando Haller é chamado para defender um réu num julgamento enganosamente simples: Um ricaço (Ryan Phillipe)  foi acusado de espancar uma jovem prostituta. Haller deve inocentá-lo evidenciando o fato de que ela talvez tenha armado para extorquir dinheiro dele.

Se no início tudo parece transcorrer como mais um caso, dos tantos que ocupam, sem maiores preocupações, os dias do desprendido advogado, logo, porém, um detalhe banal acende um alerta em Haller. O caso parece, subitamente, adquirir ligação com outro, sucedido anos atrás, e que resultou na condenação do cliente de Haller.

De alguma forma, os dois casos estão relacionados, e o cliente atual de Haller pode não ser tão inocente quanto afirma.

Contudo, na condição de advogado de defesa, suas mãos estão atadas: Cabe a Haller se esforçar em inocentar seu cliente, qualquer resultado diferente seria prejudicial para sua imagem e carreira, ainda que os indícios de que ele defende agora um sociopata, vão se acumulando.

O filme dirigido com bastante eficácia por Brad Furman lança assim uma pergunta ao expectador: Quais providências tomar quando se descobre, já na metade de um processo judiciário, que o seu cliente deveria, e merecia, ser condenado?

Não é tão simples a resposta, e nem mesmo o filme de Brad Furman pretende nela chegar por meio de um caminho simplista: Quando o julgamento finalmente toma conta da narrativa na absorvente segunda metade, as cartas já se encontram dispostas na mesa apenas para que a direção e o roteiro as trabalhem com perícia e minimalismo, atentos às minúcias de ordem dramática e às reviravoltas imprevistas.

Muito pouco disso funcionaria se a frente de tudo não estivesse um ator expressivo capaz de conduzir a plateia por uma trama pontuada de diálogos e termos complexos: Como um prestidigitador que engana o público com sua agilidade nas mãos, a atuação de McConaughey captura a atenção do expectador mesmo quando o filme, em seu mergulho sem ressalvas nas engrenagens jurídicas, não oferece razões para merecê-la.

Um truque e tanto num filme que termina fazendo jus a essa atenção recebida.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Obrigado Por Fumar


 Filme que revelou o diretor Jason Reitman, de “Juno” e “Amor Sem Escalas”, e filho do também diretor Ivan Reitman, “Obrigado Por Fumar” deixa em bastante evidência o talento de seu jovem realizador e sua predisposição em trilhar caminhos nada usuais da narrativa, optando por exemplo, pela improvável escolha da loquacidade em detrimento da ação física, algo que, pelo bons resultados obtidos, já faz dele um cineasta mais talentoso que o pai.

O audaz roteiro de “Obrigado Por Fumar” contrapõe a habilidade verbal de seu protagonista a situações inicialmente ingratas e incontornáveis.

Prova disso é já sua cena inicial: Nick Naylor (o ótimo Aaron Eckhart no papel que habilitou-o para interpretar o Duas-Caras em “Batman-Cavaleiro das Trevas”) é um lobista. Sua função é tornar comercialmente viável um produto controverso, no caso, o cigarro, alvo de constantes campanhas contra o câncer de pulmão e outros males. Quando o filme começa, o vemos numa programa de auditório, confrontado por membros de organizações contrárias ao tabagismo e –pasmem! –junto de um garoto com câncer no pulmão (!).

Contra as probabilidades mais pessimistas, Naylor escapa dessa e de outras arapucas mais; sua lábia é, portanto, o fator que o torna inestimável em seu ofício, mesmo em face de um chefe invejoso e recalcado (J.K. Simmons), e de um senador (William H. Macy) dedicado a sabotar a indústria de tabaco norte-americana condenando seus malefícios em cadeia nacional.

Como rege aos conceitos de um arco narrativo que se preze existe, na trajetória de Naylor, elementos que desfraldarão seu lado humano –sobretudo, a relação com o filho (Cameron Bright, de “Reencarnação”), único indivíduo que alcança seu afeto; e o flerte esperançoso e tórrido com uma jovem e bela repórter (Katie Holmes, de "Batman Begins") –e, por meio deles, o diretor Reitman vislumbra também a derrocada de todas as suas certezas e convicções: O súbito esvaziar dos argumentos quando ele é colocado numa situação delicada, o que acarreta o desaparecimento dos cínicos que lhe davam tapinhas nas costas fingindo amizade.

Diante de sua queda, resta a Naylor somente os amigos verdadeiros e os laços genuínos que construiu, entre os quais, os amigos de mesa de bar –cujas cenas surgem quase como interseções na narrativa –interpretados por Maria Belo, de “Marcas da Violência” (ela uma lobista da indústria de bebidas alcoólicas), e por David Koechner, de “O Âncora-A Lenda de Ron Burgundy” (ele, lobista da indústria de armas de fogo).

Não há, no entanto, nesse arco assim esboçado, apesar das aparências, a intenção de se converter esses percalços em drama: Reitman é hábil no manuseio dos expedientes de comédia e ressalta, ao longo dessa espécie de via-crusis, o raciocínio ferino e rápido de seu protagonista, refletindo na narrativa sua propensão em enxergar pelo prisma da ironia e não da comiseração os revezes que sobre ele se abatem.

A construção plena de brilhantismo de “Obrigado Por Fumar” termina por sublinhar o auspicioso talento de todos os envolvidos, neste filme um tanto surpreendente.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Psicose

Hoje soa algo absurdo, mas em 1998, um estúdio de cinema, um produtor, uma equipe técnica e todo um elenco não chegaram a achar que a ideia do diretor Gus Van Sant em refilmar o clássico “Psicose”, de Alfred Hitchcock, fosse assim tão equivocado.
Mais: Van Sant não tinha em seus planos uma recriação, uma reinvenção ou mesmo uma repaginação (isso também foi feito, anos depois, na série “Bates Motel”), não, sua intenção era refazer a obra de Hitchcock frame a frame, repetindo os enquadramentos de câmera, mantendo a única iniciativa de acrescentar cores à fotografia outrora preto & branco.
Seu pretexto era a apresentação de uma obra fundamental à uma nova geração criada a base de MTV –e, ao qua parece, tão alienada que era incapaz de procurar um filme mais antigo em alguma locadora que o tivesse à disposição...
O filme até começa promissor, com um take de câmera ininterrupto (um traveling de helicóptero sobrevoa São Francisco e entra dentro da janela de um apartamento) que estava nos planos de Hitchcock, mas que na época as restrições técnicas não permitiram a ele sua viabilização. Assim, na personagem antes vivida por Janet Leigh, temos Anne Heche interpretando Marion Crane, a secretária prestes a passar a perna no próprio chefe; e destinada a pagar caro por isso. A fim de obter o mesmo resultado pretendido por Hitchcock (o de descartar em pleno filme a personagem que aparentava ser a principal), Van Sant tinha a intenção de escalar Nicole Kidmam para o papel (ela havia filmado com ele o ótimo “Um Sonho Sem Limites”), mas os conflitos de agenda não permitiram.
Durante sua fuga, de posse do dinheiro roubado do patrão, Marion chega no Bates Motel onde conhece seu estranho proprietário, Norman Bates.
Incorporado com tamanha adequação ao papel por Anthony Perkins que sua carreira custou a desvencilhar-se da sombra do personagem, Norman Bates é aqui vivido por Vince Vaughn que revela-se uma escolha bastante estranha: Grandalhão feito um jogador de basquete e inexpressivo, Vaughn em nada corresponde ao Norman de Perkins, cujas características errádicas, hesitantes e socialmente ineficazes escondem sua periculosidade sobre um verniz de timidez extrema.
Em vez disso, o Norman de Vaughn é claramente ameaçador, suspeito no sentido genérico do termo e lembra, por vezes, o capanga de um bandidão de fato.
Se você conhece “Psicose”, você sabe o que se sucederá –em nada o filme de Van Sant altera a ordem dos acontecimentos do filme de Hitchcock, revelando somente uma incapacidade mambembe de preservar a mesma maestria: A montagem magistral da cena da morte no chuveiro (estudada por alunos e professores de cursos de cinema) é recriada com cacoetes questionáveis e claudicantes; o desenho de som (responsável pela tensão de inúmeras passagens) é negligenciado a ponto de banalizar muitos momentos outrora antológicos; e o que resta do elenco –Julianne Moore, Viggo Mortensen (antes do “O Senhor dos Anéis”!) e William H. Macy –se esforça em vão para acrescentar credibilidade a um caso perdido.
Por conta de todos esses erros, quando chegamos ao trecho final –que na obra de Hitchcock abriga uma das mais eletrizantes e estarrecedoras reviravoltas do cinema –a reação do público ainda interessado aos acontecimentos é mais de chacota que de assombro.
Involuntariamente, a única serventia do “Psicose” de Gus Van Sant foi provar o quanto inestimável e inimitável era o “Psicose” de Alfred Hitchock e sua técnica então prodigiosa –pois, o enquadramento podia ser o mesmo, o roteiro, com suas sequências e diálogos, poderia ser o mesmo, até a mecânica das cenas poderia se repetir, mas havia uma magia na concepção daquela, e de outras obras-primas do cinema, que o mero e vazio esforço de reprodução não conseguiam replicar.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Motoqueiros Selvagens


Já na primeira cena a capacidade de fazer rir do filme de Walt Becker já fica bem clara: O grupo formado por John Travolta, Tim Allen, Martin Lawrence e William H. Macy percorre uma rua, todo supino, sob suas motos. É Macy quem acaba fazendo uma micagem qualquer e se dá mal; embora tenha dois comediantes notórios entre seus protagonistas (Allen e Lawrence) e um astro com timing cômico (Travolta), é o único ator de fato (Macy), quem consegue trazer para si os momentos mais hilários.
O mote de “Motoqueiros Selvagens” é a típica crise de meia idade que acomete os homens na faixa etária dos quatro grandes amigos.
Woody (Travolta) almeja uma sensação de liberdade que há tempos não experimentava, enredado pelos aborrecimentos da vida urbana e por um casamento sem ânimo.
Seus amigos, Doug (Allen), Bobby (Lawrence) e Dudley (Macy) podem até não compartilhar do mesmo grau de desespero, mas identificam-se com sua injúria pela vida comportada o suficiente para ir com ele em viagem pelo país a bordo de suas motos, planejada em cima da hora e na qual rege a regra do rompimento com os vínculos da sociedade; sem telefones celulares, Internet ou qualquer distração.
No entanto, na primeira tentativa que os quatro motoqueiros de araque engendram para confraternizar com motoqueiros reais –no caso, a gangue dos Del Fuegos, liderada por um ameaçador Ray Liotta –um contratempo acontece: Uma tentativa até inocente de retribuir a hostilidade sofrida leva Woody a, sem querer, botar fogo no bar que serve de moradia para os Del Fuegos! E agora, os quatro amigos têm toda uma gangue em seu encalço.
Esse detalhe gera menos tensão e mais uma oportunidade de arremate para a narrativa episódica: Quando os quatro pretensos motoqueiros chegam à uma cidadezinha hospitaleira às voltas com uma comemoração regional –e o personagem de Macy encontra uma divertida chance de romance nas curvas da personagem vivida por Marisa Tomei –é providencial que a gangue de motoqueiros malvadões apareça para oferecer o tempero de algum conflito na condução tão tranquila e descontraída que vinha se construindo; além da oportunidade para os urbanizadas e civilizados heróis demonstrarem lá ao seu jeito que têm coragem.
Serve para mais outra coisa também: A participação cheia de significado e enaltecimento do grande Peter Fonda, um grande ator a quem para sempre foi relacionado o clássico “Sem Destino” –não tê-lo num filme de motoqueiros seria como falar sobre pintura e não mencionar Leonardo Da Vinci.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Boogie Nights - Prazer Sem Limites

Em seus três primeiros filmes, Paul Thomas Anderson criou distorções perturbadoras de um mesmo tema: Um grupo de marginais, ora em atrito, ora em paralelo com o difícil fato de existir no contexto em que estão inseridos.
Se em seu primeiro trabalho, “Hard Eight”, seus personagens eram a fauna de caóticos habitantes de um cassino, e em seu terceiro, “Magnólia”, eles eram seres peculiares arremessados num pesadelo urbano da vida real, em seu segundo trabalho –aquele no qual a indústria e a crítica especializada começou a reparar nele –o exuberante “Boogie Nights-Prazer Sem Limites”, esses personagens eram personificações de bizarros seres humanos que vivem no universo do cinema pornô.
Apesar do grande número de personagens (característica em muitos dos filmes de Anderson), o centro do filme é o jovem aspirante a ator, Eddie Adams que, ao adotar o pseudônimo artístico de Dirk Diggler (Mark Whalberg, numa das primeiras chances em sua carreira de demonstrar talento real) mostra-se inicialmente deslumbrado com o fato de se tornar um astro pornô: Ele é apadrinhado pelo diretor Jack Horner (vivido com euforia renovada e genuína pelo veterano Burt Reynolds) que graças ao seu pênis descomunal (!) o coloca como astros em uma profusão de produções feitas por sua equipe que, ao lado do elenco regular de beldades (que inclui Julianne Moore e Heather Graham) e outras pessoas formavam todos uma espécie de família.
Aos poucos, Diggler se deixa levar pelos excessos daquele período, inclusive pelas drogas, numa clara referência ao ator John Holmes, ícone do gênero falecido na década de 1980, vítima da AIDS.

“Boogie Nights” é então um mosaico colorido e disforme, riquíssimo em dramaturgia e observação, um retrato meio cômico meio dramático da indústria pornô dos anos 1970 (trecho mais radiante e animado do flme) e início dos anos 1980 (sua parte mais sombria) quando a transição para as novas mídias de então (o Betamax e o VHS) trouxe a decadência aos astros daquele gênero.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Fargo

Um primoroso e brutal registro do medíocre perpetrado pelos Irmãos Coen, “Fargo” começa com um take no qual o magnífico William H. Macy é enquadrado.
Sua expressão define tudo aquilo de que os Coen querem, e irão, falar: O ser humano medíocre e humilhado que, em seu desespero é capaz de atitudes imputáveis a ele.
Afirmam os créditos que este é um fato real e, embora isso tenha convencido o público em 1996, quando este filme foi lançado, hoje, sabe-se que foi mais uma inusitada manobra de seus realizadores.
Contudo, há mesmo um verniz de espantoso realismo a pairar sobre a trama.
O personagem de Macy, Jerry é um gerente de uma revendedora de carros. A falta de dignidade com que é tratado na empresa (que pertence ao seu sogro) lhe é tão insuportável quanto o desconforto da neve que cai durante todo o filme.
Assim, munido da crença de que pode lucrar de forma ilícita por meio de um crime supostamente perfeito, ele contrata dois meliantes (o irrequieto Steve Buscemi e o truculento Peter Stormare) para seqüestrar sua esposa fazendo assim com que seu sogro sovina e rabugento lhe pague o resgate.
Inicialmente aparentando profissionalismo, os bandidos contratados vão encontrando pequenos e imprevistos percalços pelo caminho (elementos que parecem fazer a farra dos Coen enquanto contadores de história) e terminam inadvertidamente criando um verdadeiro rastro de cadáveres. Atrás de todos, na pista dos crimes cometidos está Marge (Frances McDormand) uma xerife grávida, cuja serenidade lhe aproxima cada vez mais dos culpados.
Engenhosamente, o roteiro dos Coen flerta com essa veracidade (contestada) dos acontecimentos expondo o espectador a tipos inusitados, típicos de sua filmografia, liderados pela memorável personagem de McDormand (Vencedora do Oscar de Melhor Atriz), neste painel eles ilustram diversos momentos flagrantes, onde evidenciam uma espécie de sordidez cotidiana do ser humano. As cenas que se seguem são irônicas para com os aspectos de dissimulada encenação (o amigo de longa data de Marge com quem ela se encontra e que mais tarde se revela um farsante), de desconcertante banalidade (o ‘durante’ e o ‘depois’ contrastantes da transa dos dois bandidos com duas prostitutas anônimas), de franca repulsa (a seqüência em que a câmera explora a mesa de um restaurante por quilo) e de enrustida selvageria (quando um dos assassinos, na maior calma, usa uma máquina para moer o corpo de uma de suas vítimas). Ainda que pontuado de uma ocasional graciosidade, este é um suspense de humor negro, e isso certamente pode incomodar certos públicos.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Magnólia

Em uma determinada cena deste filme, todos os personagens, nos mais diversos lugares, param o que estão fazendo para (veja só) cantar! Um momento inebriante.
Ponto para o diretor Paul Thomas Anderson que criou um filme repleto de cenas mágicas, inusitadas e inesperadas que, ao longo de suas três horas de duração tem como tema... a rotina.
“Magnólia” é uma ciranda de dramas humanos que se revezam perante o olhar do expectador, com suas qualidades intrigantes muitas vezes ressaltadas pela observação essencialmente cinematográfica de seu diretor. Todas elas transcorrem na cidade de Los Angeles, e todas têm como elemento intrínseco uma espécie de absurdo que parece perseguir os percalços dos personagens, seja em sua comédia ou em sua tragédia.
Como não poderia deixar de ser, seu elenco é espetacular. Há o grande Jason Robards, como um milionário em seus momentos finais –e durante os quais se dá conta das verdadeiras importâncias de sua vida –acompanhado e auxiliado por seu solícito enfermeiro (Phillip Seymour Hoffman). Ele se esforça para tentar realizar um desejo de seu paciente: Reencontrar o filho com quem não mais tem contato (personagem, no caso, de Tom Cruise, que surge aqui com uma interpretação fantástica). Paralelamente, a atual esposa do milionário (Julianne Moore), que devido à diferença de idade fica claro que casou-se por dinheiro, dá-se conta, só então, que ama de fato seu marido.
A medida que “Magnólia” avança outras tramas vão surgindo e se ramificando: John C. Reilly aparece como um policial solitário lidando com sua insegurança; William H. Macy interpreta um homem assolado por uma poderosa crise de identidade; e muitos outros mais.
Anderson usa cada um desses expedientes para a construção de cenas memoráveis, mas, perto do final, ele entrega uma sequência que desperta, até hoje, a dúvida de seus fãs: Afinal, o quê ele quis dizer com aquela surreal chuva de sapos?!
Uma metáfora da ausência de sentido de muitas das trajetórias humanas? Um comentário em tom de sarcasmo da banalidade que nos cerca? Um atrevimento autoral feito com o único propósito de surpreender? Um lampejo de realismo mágico a brotar em um filme pretensamente realista?

O diretor, evasivo, nunca chegou a dar uma resposta e, talvez, a beleza dessa cena (e de todo o filme) esteja em não sabê-lo.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O Quarto de Jack

Um filme lindo. Há uns dois anos atrás, quando li a obra de Emma Donohue, intitulada aqui no Brasil, “Quarto”, me ocorreu o filme fantástico que o material poderia gerar. Eu não sabia que já haviam engrenagens se movimentando para que o filme se tornasse real. E eis que aí está ele, concorrendo à Oscar e tudo o mais. Provavelmente não vai ganhar, não pelo menos o de Melhor Filme, que está disputado por outras produções mais peso pesado. 
Mas nem precisa. 
É bem provável que “O Quarto de Jack” seja o melhor dentre todos os indicados. Tenso, intenso e impactante, é um daqueles filmes muito especiais que é impossível não amar. E dois nomes são fundamentais para esse resultado, essa incrível empatia que consegue despertar no público: Brie Larson (plenamente merecedora dos prêmios que vem ganhando ao longo da temporada) e Jacob Tremblay. Ele faz o pequeno Jack que durante boa parte da trama conta sua própria história. 
E que história: Jack nasceu e cresceu dentro de um quarto que é todo o seu mundo. Os personagens que protagonizam sua vida lhe são limitados e preciosos. A Mãe (Brie Larson, sensacional). A Cama. A Pia. A Carabóia. O Armário. A Mesa. A Banheira. A TV. Aos cinco anos de idade, a vida de Jack se restringe à essas quatro confinadas paredes de não mais que três metros quadrados. E viver, para ele, significa acordar, tomar banho, comer sucrilhos, gritar por algumas horas para a Clarabóia (“Para ver se alguém ouve” diz a Mãe), ver a TV, e voltar a dormir. 
De vez em quando, Jack tem que ir dormir no Armário, nas ocasiões em que o único intruso vindo do mundo lá fora, o Velho Nick, aparece para deitar na Cama com sua Mãe. Tudo o quê, porventura, quebra essa rotina intransformável de Jack ganha aos olhos dele uma luz extraordinária e aterradora. Como quando um pequeno camundongo entra no Quarto; ou uma folha seca cai no vidro da Clarabóia; ou o assustador Velho Nick deixa com a Mãe um novo brinquedo (um carrinho vermelho) no dia do aniversário de cinco anos de Jack. 
Logo percebemos: A Mãe é uma jovem de não mais que vinte anos, e o Quarto é seu cativeiro. O Velho Nick, um dia a capturou (como ela mesma diz à Jack mais tarde) há sete anos atrás, e Jack vem a ser o fruto dos abusos que ela sofreu desde então. Mas agora, com cinco anos, Jack já é capaz de compreender, diz ela, que há todo um mundo lá fora, um mundo que, visto pela TV, ele julgava ser irreal.
“O Mundo... você vai amá-lo!” diz ela, num dos inúmeros momentos emocionantes do filme.
Para isso, porém, Jack tem de vencer o medo estarrecedor que sente de tudo que tem lá fora, pois ele é parte fundamental do plano que a Mãe elaborou para que os dois consigam finalmente se ver livres.

Um das coisas mais incríveis sobre “O Quarto de Jack” é que ele não padece daquele velho problema no qual ao ter lido de antemão o livro que o inspirou, toda a graça e a surpresa do filme adaptado (ou, pelo menos, boa parte dela) se esvai, como ocorre um pouquinho com “Perdido Em Marte”. Mesmo tendo lido o livro, e sabendo das reviravoltas da trama, o filme é envolvente e surpreendente, graças ao trabalho brilhante do diretor Lenny Abrahamson, e de seus dois intérpretes centrais, os brilhantes Brie Larson e Jacob Tremblay. 

Á eles, meu muito obrigado.