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domingo, 25 de junho de 2023

Liga da Justiça de Zack Snyder


 As turbulências do Universo DC nos cinemas já são conhecidas, e todos sabem que a maioria delas culminou no irregular “Liga da Justiça” de 2017 que, embora tivesse o nome de Zack Snyder em seus créditos, era fruto do trabalho de Joss Whedon, chamado pelos executivos da Warner Bros. para finalizar o vasto material deixado por Snyder antes de seu afastamento em decorrência do trágico suicídio da filha. Havia algumas intenções bem nítidas no recrutamento de Joss Whedon que, é bom lembrar, dirigiu também “Os Vingadores” para a Marvel Studios cerca de seis anos antes: Harmonizar as muitas ideias ainda inacabadas (algumas bastante ambiciosas) que Zack Snyder deixara para “Liga da Justiça”, e dar um aspecto mais, digamos, semelhante às obras da Marvel para as ainda tão lúgubres realizações da DC –público e crítica pareciam concordar que “Batman Vs Superman” padecia, entre tantas outras coisas, de um tom sombrio que por vezes exacerbava e soava inadequado a um filme de superheróis.

Entretanto, Joss Whedon não revelou-se a escolha ideal para a tarefa: Além de simplificar todo o material de Snyder a fim de acomodá-lo numa duração curta de mais apelo comercial (tirando assim toda a relevância de muitas cenas), Whedon acrescentou cenas que só introduziam piadinhas desnecessárias (um elemento da Marvel do qual a DC não precisava), deixando a clara e desconfortável diferença de estilo visual e narrativo entre ele e Snyder (transformando o filme numa colcha de retalhos) e finalizou todo o material com um desleixo ainda mais incômodo: Ficou famosa (ou seria infame?), por exemplo, a boca em CGI de Henry Cavill, acrescentada para apagar o bigode que ele deixara crescer para as filmagens de “Missão Impossível-Efeito Fallout”.

Então, veio a pandemia em 2020 e os índices baixos (ou seria melhor inexistentes?) de bilheterias cinematográficas fez os executivos do estúdio voltarem sua atenção para sua plataforma de streaming, o HBO Max, e para as redes sociais, onde ganhava força um movimento chamado #snydercut no qual fãs fizeram petições pedindo pelo lançamento da versão de Zack Snyder de “Liga da Justiça” certamente melhor do que a lançada no cinema em 2017 –até porque, seria difícil conseguir fazer algo pior...

Eis que, uma vez mais tendo acesso às cenas gravadas, e com todo o arsenal de efeitos computadorizados para finalizar o filme à sua maneira, Zack Snyder pôde enfim satisfazer seus fãs e entregar sua própria versão de “Liga da Justiça” a ostentar a nada modesta metragem de quatro horas de duração (!).

Após os eventos dramáticos de “Batman Vs Superman” –revistos sobre outro e estilizado ângulo nas cenas iniciais –um novo desafio aos heróis, Batman (Ben Affleck) e Mulher-Maravilha (Gal Gadot) surge no horizonte: Sem o vasto poder de Superman para proteger a Terra, as preciosas ‘caixas maternas’ despertam sua energia, atraindo invasores alienígenas.

Outrora pivô de uma invasão alienígena ocorrida em tempos imemoriais, as ‘caixas maternas’ –divididas em três –ficaram na Terra, sob a proteção dos humanos, dos atlantes (o povo de Aquaman) e das amazonas (o povo de Diana, a Mulher-Maravilha). Agora, o conquistador tirânico Darkseid (Ray Porter) pretende recuperá-las e, para isso, envia seu mais poderoso lacaio, o Lobo da Estepe (Ciarán Hinds, um vilão muito mais elaborado esteticamente e melhor escrito do que no outro filme), desesperado por saciar a fome de conquista de seu senhor e assim, saldar a dívida que tem com ele, e voltar para seu mundo-natal.

A medida que se deparam com o poder incomensurável do Lobo da Estepe, Bruce Wayne (o Batman, caso alguém não saiba...) dá sequência ao seu plano de reunir os seres mais poderosos da Terra numa única equipe a fim de protegê-la. Com Diana ao seu lado –devidamente alertada do roubo da ‘caixa materna’ em poder das amazonas por sua mãe Hipólita (Connie Nielsen) –ele vai atrás do atlante Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa), do velocista Barry Allen, o Flash (Ezra Miller) e do indivíduo cibernético Victor Stone, o Cyborg (Ray Fisher), este, aliás, criado a partir de uma das ‘caixas maternas’.

No entanto, logo fica claro que, para fazer frente a esse poderoso inimigo, eles devem encontrar um meio de trazer de volta Kal-El, o Superman (Henry Cavill).

Para aqueles que viram o “Liga da Justiça” de Joss Whedon, este novo filme não terá uma trama das mais diferentes do que se viu naquele, ainda assim, devido ao tratamento muito mais épico e ambicioso planejado por Snyder, a sensação de acompanhar os mesmos acontecimentos é a de se assistir a um filme completamente novo. Muita coisa muda –sai completamente a abertura ao som de “Everybody Knows”, por exemplo –mas, curiosamente, muita coisa permanece a mesma nesta nova versão; consequência do fato claro de  que foi Snyder quem realmente filmou a maior parte de “Liga da Justiça”, a grande diferença foi que Joss Whedon enxugou, e muito o material, a fim de acomodá-lo em módicas duas horas, criando, aqui e ali, cenas que emendavam alguns blocos. Todavia, como é visível ao assistirmos as duas versões, Whedon prefere menções aos quadrinhos que remetem mais leveza, enquanto que Snyder enfatiza um certo peso dramático embutido naturalmente nessa mitologia. Preferir um ou outro é, deveras, uma questão de gosto, mas é bem nítido qual das duas versões é superior: Pela amplitude da trama preservada e concebida, a versão de Snyder é infinitamente mais concisa, satisfatória e coerente que o filme francamente falho de Whedon. As mesmas cenas, na concepção de Snyder, ganham uma duração maior, privilegiam mais a atmosfera e os pequenos detalhes (não somente a câmera lenta como muitos detratores quiseram alardear), aprofundam as relações e motivações de praticamente todos os personagens (alguns, como o Cyborg, são genuinamente melhorados) e conferem ao filme uma contundência que faz toda a diferença na última parte do filme, um clímax muito mais tenso, eficaz e vibrante.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Homem-Aranha - Sem Volta Para Casa


 Spoilers são um fenômeno curioso. Há quem odeie recebê-los, preferindo a surpresa de descobrir tudo o que o filme tem a oferecer... bem, durante o próprio filme! Há quem não se importe com eles. Há aqueles que têm tanto prazer em dar spoilers aos outros que o ato de assistir ao filme acaba sendo uma satisfação secundária; eles gostam mesmo é de poder, depois, contar os segredos do filme a quem ainda não o viu. No cinema moderno, com narrativas como as de M. Night Shyamalan e seus finais-surpresa e a acessibilidade de informação da internet, os spoilers se tornaram um perigo para quem almeja uma experiência cinematográfica absolutamente pura, despida de interferências.

No caso de “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, aqueles expectadores que não forem conferir o filme em seus primeiros dias de exibição nos cinemas (na verdade, até mesmo eles!) correm o risco de receber uma avalanche de spoilers. Terceiro longa-metragem da trilogia solo do Homem-Aranha desde que ele passou a ser interpretado por Tom Holland e a integrar o Universo Marvel Cinematográfico –além da participação em outros filmes –“Sem Volta Para Casa” chega tão carregado de novidades espantosas e eletrizantes, tão repleto de momentos planejados com o objetivo de serem inesquecíveis e, ao mesmo tempo, tão sensacional e embriagante em seu ineditismo e empolgação que representa um desafio para qualquer um chegar  às salas sem saber nada sobre ele.

Iniciando arrojadamente na cena pós-créditos com a qual encerrou (sem muito encerrar...) a trama de “Homem-Aranha Longe de Casa”, “Sem Volta Para Casa” segue seu protagonista Homem-Aranha\Peter Parker (Tom Holland) no momento em que foi revelada, em cadeia nacional pelo próprio J. Jonah Jameson em pessoa (J.K. Simmons), a identidade secreta do herói. Sendo esta a terceira personificação do personagem nos cinemas (as anteriores foram vividas por Tobey Maguire e por Andrew Garfield), por vezes o diretor Jon Watts se viu obrigado a adaptar arcos narrativos diferenciados dos quadrinhos a fim de não se repetir. No primeiro (“De Volta Ao Lar”), sob forte referência dos longas de John Hugues, ele acompanhou a rotina escolar de Peter e sua fase no ensino médio, lutando para desvencilhar-se das obviedades de uma trama (já contada) de origem. No segundo (o já citado “Longe de Casa”), ele contou uma aventura descompromissada a girar em torno de férias na Europa. Nos dois casos, a Marvel Studios enfrentou críticas justamente por fugir das características que definiam o Homem-Aranha enquanto personagem e que o atrelavam em demasia à heróis como o Homem-de-Ferro tirando-lhe certa individualidade –a despeito da ótima atuação de Tom Holland.

“Sem Volta Para Casa” vem para rebater cada um desses protestos: Ele é tão original, tão ágil e incisivo, tão consciente dos elementos icônicos que manuseia que provavelmente não tardará a se sagrar como um dos melhores (ou O melhor) filmes em live-action do Homem-Aranha –e Tom Holland, seu intérprete mais consistente e definitivo.

O fio narrativo que conduz a esse enredo tão cheio de surpresas começa quando Peter, farto de ver seus amigos, M.J. (a cada vez mais maravilhosa Zendaya) e Ned (Jacob Batalon) sofrerem por terem contato com o Homem-Aranha, resolve procurar a intervenção mística do Doutor Estranho (Benedict Cumberbath) para que, com um feitiço, ele apague da memória de todo o mundo que Peter é o Homem-Aranha. Contudo, algo dá errado, e o feitiço mexe com o conceito que, encerrada a Saga de Thanos com o magnífico “Vingadores-Ultimato”, deve nortear a próxima saga a conectar os filmes da Marvel: O Multiverso –já abordado na minissérie “Loki”, da plataforma Disney Plus. Resumindo: Agora, os vilões vindos de outras realidades alternativas –como Dr. Octopus e Duende Verde, vividos magistralmente por Alfred Molina e Willen Dafoe dos mesmos filmes com Tobey Maguire –aparecem na realidade do Universo Marvel, complicando a vida do herói e ameaçando vidas. São um total de cinco (já vistos nos trailers): Além de Dr. Octopus e Duende, também o Electro (Jamie Foxx, num personagem melhor desenvolvido do que foi em “O Espetacular Homem-Aranha 2”), o Lagarto (Rhys Ifans) e o Homem-Areia (Thomas Aden Church).

A união de todas essas pontas soltas é indicativa do brilhantismo do trabalho de Jon Watts que –se não agradou a gregos e troianos nos dois filmes anteriores –conseguiu superar-se neste daqui, entregando um trabalho onde honra seu personagem extinguindo qualquer margem para questionamentos quanto a sua fidelidade aos quadrinhos, fazendo deste terceiro filme o arco final onde, em retrospecto, podemos enxergar esta como uma ‘trilogia de origem’ do personagem, ao mesmo tempo que o coloca numa nova, inesperada e possivelmente promissora trajetória de vida adulta, sem evitar, desta vez, os momentos mais sombrios que coloquem à prova justamente sua fibra moral como super-herói.

É tentador, para qualquer resenhista deste filme, revelar as surpresas arrebatadoras que “Sem Volta Para Casa” entrega praticamente o tempo todo durante suas nada modestas duas horas e meia de duração (algumas ombreiam os momentos antológicos de “Ultimato”), entretanto, seria um pecado: Sua experiência é tão vívida, tão assombrosamente sensorial, emocional e mágica que todos merecem a chance que conferi-la nos cinemas livres de spoilers. No que depender de mim, está feito, no entanto, meu conselho é: Corra para vê-lo (e maravilhar-se) o quanto antes!

quarta-feira, 3 de março de 2021

Obrigado Por Fumar


 Filme que revelou o diretor Jason Reitman, de “Juno” e “Amor Sem Escalas”, e filho do também diretor Ivan Reitman, “Obrigado Por Fumar” deixa em bastante evidência o talento de seu jovem realizador e sua predisposição em trilhar caminhos nada usuais da narrativa, optando por exemplo, pela improvável escolha da loquacidade em detrimento da ação física, algo que, pelo bons resultados obtidos, já faz dele um cineasta mais talentoso que o pai.

O audaz roteiro de “Obrigado Por Fumar” contrapõe a habilidade verbal de seu protagonista a situações inicialmente ingratas e incontornáveis.

Prova disso é já sua cena inicial: Nick Naylor (o ótimo Aaron Eckhart no papel que habilitou-o para interpretar o Duas-Caras em “Batman-Cavaleiro das Trevas”) é um lobista. Sua função é tornar comercialmente viável um produto controverso, no caso, o cigarro, alvo de constantes campanhas contra o câncer de pulmão e outros males. Quando o filme começa, o vemos numa programa de auditório, confrontado por membros de organizações contrárias ao tabagismo e –pasmem! –junto de um garoto com câncer no pulmão (!).

Contra as probabilidades mais pessimistas, Naylor escapa dessa e de outras arapucas mais; sua lábia é, portanto, o fator que o torna inestimável em seu ofício, mesmo em face de um chefe invejoso e recalcado (J.K. Simmons), e de um senador (William H. Macy) dedicado a sabotar a indústria de tabaco norte-americana condenando seus malefícios em cadeia nacional.

Como rege aos conceitos de um arco narrativo que se preze existe, na trajetória de Naylor, elementos que desfraldarão seu lado humano –sobretudo, a relação com o filho (Cameron Bright, de “Reencarnação”), único indivíduo que alcança seu afeto; e o flerte esperançoso e tórrido com uma jovem e bela repórter (Katie Holmes, de "Batman Begins") –e, por meio deles, o diretor Reitman vislumbra também a derrocada de todas as suas certezas e convicções: O súbito esvaziar dos argumentos quando ele é colocado numa situação delicada, o que acarreta o desaparecimento dos cínicos que lhe davam tapinhas nas costas fingindo amizade.

Diante de sua queda, resta a Naylor somente os amigos verdadeiros e os laços genuínos que construiu, entre os quais, os amigos de mesa de bar –cujas cenas surgem quase como interseções na narrativa –interpretados por Maria Belo, de “Marcas da Violência” (ela uma lobista da indústria de bebidas alcoólicas), e por David Koechner, de “O Âncora-A Lenda de Ron Burgundy” (ele, lobista da indústria de armas de fogo).

Não há, no entanto, nesse arco assim esboçado, apesar das aparências, a intenção de se converter esses percalços em drama: Reitman é hábil no manuseio dos expedientes de comédia e ressalta, ao longo dessa espécie de via-crusis, o raciocínio ferino e rápido de seu protagonista, refletindo na narrativa sua propensão em enxergar pelo prisma da ironia e não da comiseração os revezes que sobre ele se abatem.

A construção plena de brilhantismo de “Obrigado Por Fumar” termina por sublinhar o auspicioso talento de todos os envolvidos, neste filme um tanto surpreendente.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Refém da Paixão

Uma história simples engrandecida pelo talento dos envolvidos. Esta certamente é uma forma honesta de se resumir em linhas gerais o filme de Jason Reitman.
“Refém da Paixão” é sobre uma situação modificada pelas impressões: Narrado em off pelo ator Tobey Maguire, acompanhamos a rotina um tanto melancólica do menino Henry (Gattlin Griffith) em plenos anos 1980. Separada de seu pai (com quem Henry se encontra nos fins de semana), sua mãe, Adele (Kate Winslet, maravilhosa) se encontra num manancial de amargura. Henry até tenta, em sua ingenuidade e boa vontade, preencher o que supõe ser um vazio na vida da mãe, mas a lacuna incomodamente vaga de uma figura masculina requer que anseios mais específicos sejam atendidos.
É dessa forma que, numa ida casual à um mercado, Henry e Adele são interpelados pelo fugitivo Frank Chambers (Josh Brolin sempre excelente). Ferido, Chambers coage mãe e filho para que o levem de carro para sua casa.
Tem-se a impressão que lá ele irá mantê-los como reféns... mas, não! Desconcertando as expectativas pessimistas de Adele, Frank se revela atencioso, educado e até prestativo: Ao longo dos dias em que se esconde naquela residência livre de suspeitas, ele conserta avarias da casa, eventualmente surgidas pela ausência de um marido; demonstra desenvoltura na cozinha (chegando a preparar uma emblemática e apetitosa torta de pêssego!); e mostra-se uma pontual e eficaz figura paterna para Henry.
Tantos predicados começam a abalar o coração carente de Adele e assim, a circunstância que era para ser um seqüestro se torna o improvável esboço de uma família: O injustiçado foragido de bom coração acaba sendo a peça que faltava para que Adele e Henry voltassem a experimentar uma sensação de viver em família outra vez.
Em meio à essa disfuncional convivência, o diretor Reitman lança mão de ocasionais lampejos de suspense a quebrar a tranqüilidade –porque, a despeito da tensão, ele parece achar isso muito divertido, e porque em sua destreza narrativa ele não quer que o expectador perca a perspectiva da situação como ela é.
Em meio à essa distorção da ‘Síndrome de Estocolmo’, o diretor insere, aqui e ali, flashbacks em princípio pouco ou nada elucidativos (imprecisos até mesmo na incerteza de serem flashbacks!), mas que, ao se somarem gradativamente vão esclarecendo melhor as razões que conduziram Frank à condenação por assassinato e Adele ao profundo desamparo.
Assim, o filme, em algum momento, parece mudar de foco e de rumo, estabilizando sua narrativa com novos propósitos; deixada em evidência a boa índole de Frank, a fonte de suspense agora vem a ser os planos dele, de Adele e de Henry, em constante ameaça por elementos vindos de fora, como o vizinho (J.K. Simmons) que despreocupadamente bate à porta sem saber a comoção de dúvida e perplexidade que despertou dentro da casa, ou o jovem policial (James Van Der Beek) que, ao impor sua disponibilidade à mãe e ao filho aparentemente sozinhos em casa, deixa todos com os nervos à flor da pele.
E deveras, se Jason Reitman, em outras obras, havia mostrado brilho inconteste na concepção de ironia (“Obrigado Por Fumar”), no manejo do humor (“Juno”) ou na arquitetura do drama (“Amor Sem Escalas”), aqui, com a ajuda de intérpretes primorosos, ele demonstra competência em frentes diversas –seja na construção improvável do romance, seja na prodigiosa elaboração de uma atmosfera de suspense –tudo isso trabalhando as inúmeras nuances de uma situação que poderia resultar até mesmo teatral nas mãos de um diretor menos perspicaz.

sábado, 27 de julho de 2019

Contrabando

Embora deixe claro em seus créditos iniciais que se trata de uma refilmagem, “Contrabando” é uma incontornável referência ao cinema de Michael Mann.
O personagem de Mark Wahlberg, Chris Faraday, é aquela espécie de ‘criminoso limpo’, relativamente comum na obra de Mann: É honrado, nobre e dedicado à família e aos amigos. Honesto, até, não fosse o fato de ser um às estratégico em termos de contrabando nos EUA.
No entanto, Chris sossegou, motivado pelo casamento com Kate (Kate Beckinsale), os dois filhos que tiveram e a prisão do próprio pai pelo mesmo crime.
É claro que, para efeitos que consequência, o talento posto de lado de Faraday será necessário uma última vez: Seu cunhado, o descuidado Andy (Caleb Landry Jones) contrai uma dívida com um perigoso traficante de drogas (Giovanni Ribisi), e tal dívida, segundo o código pernicioso da criminalidade, se não for saldada por ela, é herdada pela família –Chris e Kate, portanto.
Para juntar todo o dinheiro, Chris deve contrabandear um carregamento de dinheiro da América Latina para o solo americano por meio de um navio, comandado pelo Capitão Camp (J.K. Simmons), conhecedor da fama de Faraday, e por isso mesmo, ávido em pegá-lo com a boca na butija.
No início, parece simples a tarefa do protagonista em resolver as confusões do cunhado, entretanto, o diretor disfarça muito bem as complicações palpitantes que virão: Ele planta personagens específicos que, em seu devido momento, fornecem guinadas pontuais à trama acrescentando a ela uma urgência e um suspense inesperados.
“Contrabando” continua aquém das grandes obras assinadas por Michael Mann, mas o resultado final de seus bem conduzidos desdobramentos criminais prima por oferecer ao expectador um entretenimento de primeira.

terça-feira, 23 de julho de 2019

O Dia do Atentado

Percebe-se um padrão nos três filmes realizados pelo diretor Peter Berg em colaboração com o astro Mark Wahlberg, o drama de guerra “O Grande Herói”, o filme-catástrofe “Horizonte Profundo-Desastre No Golfo”, e este “O Dia do Atentado: Todos eles reconstituem episódios reais centralizando os esforços extraordinários de homens ordinários.
Aqui, Berg volta a atenção de suas lentes para os acontecimentos deflagrados em abril de 2013, durante a Maratona de Boston, no estado de Massachussets.
Ele lança de mão de diversas linhas narrativas, mostrando os numerosos personagens do filme –o policial Sgt. Tommy Saunders (Mark Wahlberg) incumbido da segurança da maratona; o comissário Ed Davis (John Goodman); o chefe de polícia de Watertown, o município vizinho, Jeffrey Puglieses (J.K. Simmons); o estudante chinês de intercâmbio Dun Meng (Jimmy O. Yang); o jovem casal Patrick Downes e Jessica Kensky (Christopher O. Shea e Rachel Brosnahan); o jovem policial, oficial Sean Collier (Jake Picking); e os terroristas interpretados com deliberado desleixo por Themo Melikidze e Alex Wolf (de “Hereditário”) –todos são apresentados por Berg ao seu estilo de baixa voltagem nesse primeiro terço, para então, na cena do atentado, terem unidas as pontas soltas de suas narrativas, revelando que todos eles ocupam, de uma forma ou de outra, um papel nesse trágico acontecimento, elevando assim consideravelmente o nível de tensão e ansiedade no expectador.
É quase um filme de ação transfigurado numa fórmula narrativa diferenciada (ao invés de rompantes ocasionais, tudo vai num aumento gradual), mas que ao longo desses projetos citados, Peter Berg aprimorou a ponto de domina-la com maestria.
O atentado propriamente dito ocorre quase com meia hora de filme, abrilhantado por uma recriação visual que não deixa margens para dúvidas acerca da habilidade do diretor.
É chocante, angustiante e visceral, no entanto, sua qualidade mais flagrante, passada a intensa reação que provoca, é o controle absurdo de ritmo que Peter Berg impõe: Ele nunca se apressa nem se atrasa em relação a sua intenção de expor os fatos para então partir para os finalmentes –ele toma tempo com as devidas informações pertinentes a respeito dos eventos, enquanto sem o expectador notar eleva o nível de urgência e a sensação de ameaça da narrativa.
Quando as bombas explodem, uma perplexidade palpitante contamina muitos dos personagens. O primeiro a retomar o controle é Saunders que imediatamente orienta a chegada das ambulâncias e socorristas. Patrick e Jessica estão entre as vítimas –se encontravam praticamente ao lado de uma das bombas! Ao comissário Davis, no comando das investigações, logo de junta o agente do FBI DesLauriers (Kevin Bacon). Os terroristas, erráticos, acompanham os noticiários de seu sujo apartamento exibindo assustadora falta de empatia.
A medida que os dias vão passando, e a investigação vai se revelando frutífera –graças ao aparato tecnológico fenomenal do FBI na captura das imagens das telas de segurança –os terroristas se veem compelidos a prosseguir com seu plano, desta vez, roubando uma arma e um carro para irem à Nova York.
A arma, eles tiram do policial Collier, que matam; o carro, eles obtêm sequestrando o jovem Dun Meng.
É ele quem consegue escapar e alertar a polícia sobre os terroristas, a tempo para que sejam interceptados numa vizinhança suburbana de Watertown; onde um tiroteio espetacular coloca o policial Pugliese na história –e nesse detalhe, no de ter conferido um background prévio a cada personagem que contribui à narrativa, o filme de Berg se mostra astuto, bem lapidado e de um zelo pontual para com os personagens e os eventos que retrata.
Se há nele um porém é no excesso de enaltecimento aos valores norte-americanos –comum nos filmes de Peter Berg –que, a partir de algum momento, começa a soar xenófobo em algumas cenas, piegas em outras.
Nada que desfaça a constatação do grande filme que foi realizado.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

O Dom da Premonição

Perto do fim da década de 1990, após um hiato de tempo sem filmar, o diretor Sam Raimi pareceu enveredar por um cinema mais sério, sinalizando uma espécie de amadurecimento como cineasta. Exemplificando essa fase, o suspense “Um Plano Simples” surpreendia pela austeridade e pela solidez narrativa mesmo guardando, nas entrelinhas, elementos que ainda agregavam o estilo de Raimi –ele parecia enfim estar tomando o rumo que seus grandes amigos, os Irmãos Coen, também tomaram.
Insistindo nesse caminho, ele deu prosseguimento a realização de obras mais adultas com este “O Dom da Premonição” que, de fato, na filmografia de Raimi, só encontra similaridades mesmo com “Um Plano Simples”.
Todavia, “O Dom...” já recupera os elementos sobrenaturais do início de sua carreira.
Numa variação de sua colaboração em “Um Plano Simples”, o roteiro é escrito pelo ator Billy Bob Thornton (que a maioria lembra de seus trabalhos como ator, mas, vale lembrar, ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado em 1997, por “Na Corda Bamba”).
É, pois, uma notável reunião de talentos: Além de Raimi e Thornton atrás das câmeras, o elenco reúne a espetacular Cate Blanchett, a oscarizada Hillary Swank (ela tinha acabado de ganhar o Oscar de Melhor Atriz por “Meninos Não Choram” e ainda ganharia outro, anos depois, por “Menina de Ouro”), o badalado astro de “Matrix” (lançado um ano antes), Keanu Reeves, o ótimo Gregg Kinnear e a jovem Katie Holmes (que, neste filme, tem uma cena de nudez!).
Na trama –que remete a uma ambientação do sul da Flórida muito similar à “Na Corda Bamba”, de Thornton –acompanha Annie Wilson (a sempre excelente Cate Blanchett), uma moradora de uma pitoresca cidade sulista e, nas características que a definem, amplamente inspirada na mãe do próprio Billy Bob: Annie é mãe solteira e cria os filhos valendo-se de clientes interessados em suas habilidades premonitórias como uma espécie de vidente.
Em sua inata experiência para elaborar um bom suspense, o diretor Sam Raimi, muito à vontade no gênero, cerca essa protagonista de personagens coadjuvantes pitorescos e peculiares que justificam plenamente esse elenco estelar (que normalmente um diretor gabaritado como Raimi atrai) e que constituem uma galeria de suspeitos para a colcha de retalhos que a premissa costura: Há o limitado e infantil mecânico Buddy (Giovanni Ribisi), a dona de casa Valerie (Hillary), completamente displicente e passiva em relação à violência que sofre do marido (Keanu Reeves, inesperadamente assustador, é talvez a melhor presença do elenco) e até mesmo o diretor da escola (Gregg Kinnear), por quem Annie nutre uma simpatia especial embora ele seja noivo de Jessica King (Katie), uma garota promiscua que se envolveu co quase todos os homens da cidade.
As habilidades paranormais de Annie tornam-se uma maldição quando suas visões começam a revelar para ela assassinatos iminentes, ou que podem até já ter acontecido –relacionados, inclusive ao súbito desaparecimento de Jessica.
“O Dom da Premonição” é assim quase um meio termo entre a sutileza brilhante de "Um Plano Simples" e as desconcertantes inserções sobrenaturais de "Evil Dead" –com uma nítida inclinação de Raimi para com a seriedade do primeiro, certamente, visando alguma aclamação por esse esforço em amadurecer (“Um Plano Simples”, é bom lembrar teve duas indicações ao Oscar).
Entretanto, como logo ficou claro, Raimi não conseguiu deixar de lado suas paixões de juventude: Ao contrário dos Coen, que souberam conduzir tramas e atmosferas de cunho adulto com o mesmo brilho e entusiasmo de suas obras frenéticas do início da carreira, Raimi não sustentou por muito tempo essa sua tentativa de reinvenção (e este trabalho realmente se ressente de tentar emular o mesmo tipo de narrativa de “Um Plano Simples”) e voltou para os filmes mais fantasiosos com os quais se identificava –logo em seguida, ele assinou contrato para dirigir a aguardada adaptação de “Homem-Aranha” (cujo sucesso desdobrou-se numa trilogia que o ocupou por quase uma década) e realizou um filme de terror nos moldes mirabolantes de “Evil Dead”; o divertido “Arraste-Me Para O Inferno”.
Lá no fundo, o diretor Sam Raimi não queria mesmo crescer.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Liga da Justiça

Pode-se afirmar que foi um verdadeiro parto conseguir este filme da “Liga da Justiça”.
Há muito tempo esperado e alardeado –antes mesmo da realização bem-sucedida de “Os Vingadores” pela Marvel Studios, o quê já foi há cinco anos –o projeto enfrentou, entre outras coisas, um cancelamento provocado pela então greve dos roteiristas em 2007, quando o plano ainda era que fosse dirigido por George Miller e com um elenco totalmente diferente.
De lá para cá, muita coisa mudou.
A Marvel estabeleceu um formato para que um universo de narrativas e personagens dos quadrinhos fosse transposto para o cinema, e a DC Comics, sua rival, naturalmente procurou seguir esse caminho. A jornada, entretanto, foi tortuosa: Sem o humor e a descontração de sua concorrente, a DC buscou um ponto de partida para o seu próprio universo numa reformulação de Superman, seu mais icônico personagem (“O Homem de Aço”), em seguida deu continuidade com um filme até hoje controverso que não agradou a crítica (“Batman Vs Superman” do qual sob muitos aspectos, este filme é uma continuação direta), e uma produção equivocada e problemática (“Esquadrão Suicida”), para finalmente acertar com o filme solo de sua principal heroína (“Mulher Maravilha”).
Diretor de “Batman Vs Superman”, Zack Snyder era inicialmente o diretor deste projeto –e ele de fato responde por pelo menos uns 80 % do material que se assiste no filme –mas, devido à uma tragédia pessoal, desligou-se da produção, dando lugar para Joss Whedon (diretor de “Os Vingadores”) terminar o trabalho.
Algumas coisas ficam claras desde o início: Os realizadores têm consciência de seus erros e os corrigem paulatinamente aqui –o tom sombrio (e tido diversas vezes como inadequado) foi equilibrado, agora a DC compreende que superheróis são motivo de celebração e não de introspecção (há espaço até para piadinhas!); a trama já não se dispersa em subterfúgios banais ou motivações pretensiosas, o roteiro é objetivo e busca ir direto ao ponto (prerrogativa principal para que um filme com tantos protagonistas funcione corretamente).
Como foi visto ao fim de “Batman Vs Superman”, o mundo está de luto pela morte do Superman. Contudo, como foi também visto lá, ameaças muito maiores do que as mundanas começam a contemplar o planeta Terra: O poderoso alienígena Lobo da Estepe (voz do ator Ciaran Hinds, o quê não quer dizer muito...) vem para o nosso planeta atrás de três ‘caixas maternas’ aqui deixadas. Quando reunidas elas despertarão uma entidade de nome ‘unidade’ que consumirá todo o nosso mundo.
Identificando com antecedência o perigo, o vigilante Batman (Ben Affleck, tão esmerado quanto no filme anterior, porém, menos sisudo) põe então em prática o plano com o qual já flertava antes: O de reunir, ao lado da poderosa Diana Prince, a Mulher Maravilha (Gal Gadot, que consegue ser, com facilidade, uma das melhores coisas do filme), os poucos superpoderosos identificados do mundo, que no caso seriam Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa, da mal-fadada reformulação de “Conan-O Bárbaro”), Barry Allen, o Flash (o talentoso e divertido Ezra Miller) e Victor Stone, o Cyborg (Ray Fisher, o intérprete mais fraco do grupo).
Juntos, como a Liga da Justiça, eles buscarão se opor aos vilões que desejam a destruição. Não só eles, diga-se: Num daqueles casos tão óbvios que até uma criança de colo perceberia, é lógico que o Superman (vivido por Henry Cavill) haverá de ressuscitar para compor o time dos heróis no grande clímax –e apesar disso ser evidente, a narrativa parece tratar a manobra como um das grandes surpresas do roteiro!
No fim das contas, o aspecto que poderia prejudicar o filme –a substituição de diretor com as filmagens em andamento, e antes mesmo da pós-produção –acabou beneficiando-o: “Liga da Justiça” encontra uma harmonia agradável, fluida e plausível entre o estilo lúgubre, amargo até de Zack Snyder e o tom mais ameno, escapista e otimista do experiente Joss Whedon (que até mesmo já roteirizou histórias em quadrinhos).
Seus problemas acabam ficam assim à sombra de seus acertos, especialmente diante do fato de que, comparado ao inconstante “Batman Vs Superman”, este “Liga da Justiça” é um bem-vindo salto de equilíbrio e entendimento narrativo –ainda que ele fique um pouco aquém das qualidades do amplamente satisfatório “Mulher Maravilha”.
É bom saber que a DC Comics está no caminho certo.

sábado, 16 de setembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2015

(Todo o sábado, agora, haverá uma retrospectiva das cerimônias do Oscar de anos pregressos em ordem regressiva. Vamos ver até onde vai...)
Foi um ano que não teve grandes surpresas, exceto pela larga consagração nas categorias técnicas prestadas por “O GrandeHotel Budapeste” quando muitos acreditavam que os prêmios poderiam ir para Nolan e seu “Interestelar” –prestigiado apenas com o prêmio de Melhores Efeitos Visuais.
Como é habitual no Oscar, os prêmios principais foram previsíveis e sem maiores surpresas (uma pena, pois, Michael Keaton merecia ter arrebatado o prêmio de Melhor Ator das mãos de Eddie Redmayne), levando à consagração de “Birdman” (e lá se vão três anos consecutivos sem que um americano ganhe o Oscar de Melhor Diretor), ao pleno merecimento de J.K. Simmons e ao talvez tardio reconhecimento de Julianne Moore (afinal, houveram tantos grandes filmes pelo qual ela podia ter ganhado...), e ao prêmio para Patricia Arquette, a única menção à “Boyhood”, de Richard Linklatter, tido até então como um dos favoritos da noite.
Na categoria de Filme Estrangeiro foi uma pena não ver o argentino “Relatos Selvagens” ser premiado.
Menos mal que a justiça se fez com a conquista de três estatuetas para o primoroso “Whiplash”, talvez, o melhor dentre todos os indicados.

MELHOR FILME
"Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)"

MELHOR DIREÇÃO
"Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)", Alejandro Gonzales Iñarritu

MELHOR ATRIZ
Julianne Moore, "Para Sempre Alice"

MELHOR ATOR
Eddie Redmayne, "A Teoria de Tudo"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Patricia Arquette, "Boyhood-Da Infância À Juventude"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
J.K. Simmons, "Whiplash-Em Busca da Perfeição"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Citizen Four"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Crisis Hotline-Veterans Press 1"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Ida" (Polônia)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"Whiplash-Em Busca da Perfeição"

MELHORES EFEITOS VISUAIS

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
"O Grande Hotel Budapeste"

MELHOR FIGURINO
"O Grande Hotel Budapeste"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"Sniper Americano"

MELHOR DESIGNER DE PRODUÇÃO
"O Grande Hotel Budapeste"

MELHOR TRILHA SONORA
“O Grande Hotel Budapeste"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Glory", de "Selma"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"O Banquete"

MELHOR EDIÇÃO
"Whiplash-Em Busca da Perfeição"

MELHOR CURTA-METRAGEM


"The Phone Call”

sábado, 6 de maio de 2017

Homem-Aranha, por Sam Raimi

Homem-Aranha
Tinha uma aura irresistível de sonho realizado quando foi anunciada, aproximadamente no fim da década de 1990, a primeira adaptação do herói das histórias em quadrinhos, Homem-Aranha, para o cinema sob a direção de Sam Raimi, que anos antes tinha entregado uma obra tão satisfatória no quesito de “linguagem dos quadrinhos transposta para a tela de cinema”: O sensacional “Darkman-Vingança Sem Rosto”.
A visão de Raimi do herói primava pela aproximação carinhosa dos conceitos clássicos do personagem, aproveitando muito do material oriundo dos quinze primeiros anos de revistas publicadas, a fase considerada a melhor de todas pelos fãs, escrita pelo próprio criador Stan Lee. Apesar de algumas liberdades criativas bastante discutíveis (os lançadores de teia orgânicos eram, e ainda são, uma sacada difícil de engolir), público e crítica estavam tão extasiados em finalmente poder conferir um filme do Homem-Aranha –inclusive com um prodigioso trabalho de efeitos especiais onde eram concretizadas as então inacreditáveis cenas do herói se balançando em prédios –que todos os possíveis deslizes foram perdoados.
Partindo com prudência e propriedade do princípio básico da origem, o filme mostra o jovem e nerd Peter Parker (Tobey Maguire, na época uma escolha perfeita) que vai a um laboratório onde é mordido por uma aranha geneticamente modificada, ganhando assim poderes similares aos de um aracnídeo como a capacidade de escalar paredes, saltar cerca de 6 metros, força proporcional a de uma aranha, e um sensacional sentido contra o perigo.
Inicialmente, decidido a usar esses dons para conseguir dinheiro e impressionar seu amor não correspondido, a garota da casa ao lado Mary Jane Watson (Kirsten Dunst), Peter assiste a uma sucessão de eventos resultarem no assassinato de seu tio Ben (Cliff Robertson), pelas mãos do mesmo bandido que ele deixara escapar minutos antes.
À sombra da morte de seu querido tio, Peter faz uma promessa (jamais permitir que criminoso algum escape) assumindo assim a identidade do herói mascarado Homem-Aranha.
A escolha desse caminho leva Peter assim a colidir com o mal-feitor mascarado Duende Verde, na verdade, a identidade inconseqüente, inescrupulosa e imprevisível de Norman Osborn (Willen Dafoe, magistral no personagem a despeito da infeliz escolha visual de sua armadura), pai de seu melhor amigo, Harry (James Franco).
Preenchendo todas as lacunas possíveis da expectativa do público –o filme tinha ação, aventura, comédia, drama e romance –o primeiro “Homem-Aranha” arrastou multidões aos cinemas, mesmo em um período monopolizado por um fenômeno como “O Senhor dos Anéis”.

Homem-Aranha 2
Uma continuação era inevitável depois do grande sucesso do filme de 2002 e, para seguir a mesma trilha de sucesso, a equipe original foi mantida, com o diretor Sam Raimi comandando o mesmo elenco.
Ele aproveitou essa nova chance para aprofundar as questões envolvendo a dicotomia entre o desafortunado Peter Parker e as responsabilidades acarretadas por sua contra-parte, o Homem-Aranha, que o impedem de organizar os problemas de sua própria vida –uma dinâmica genial originada dos quadrinhos e que Raimi soube compreender com perícia tratar-se da grande razão para o sucesso do personagem.
Ele também foi beneficiado pela escolha de um antagonista muito mais carismático e interessante do que o Duende Verde, o Doutor Octopus, que encontrou no exuberante e sensível ator Alfred Molina, um intérprete ideal.
Identidade secreta do Homem-Aranha, Peter Parker (Maguire, cujos problemas físicos durante as filmagens acabaram virando lenda) descobre as impossibilidades de conciliar sua vida de super-herói com a rotina de uma pessoa normal que inclui manter seu emprego como fotógrafo no Clarim Diário, cuidar de sua tia May (Rosemary Harris), já idosa, e resolver seus problemas amorosos com Mary Jane (Dunst, prejudicada pela irritabilidade de sua personagem), que acabou noivando com o filho de seu chefe.
Tamanha tensão resulta num súbito stress cujos sintomas são a perda de seus poderes (!), e a possibilidade do Homem-Aranha não mais existir. Entretanto, surge também um novo vilão, o Doutor Octopus (Molina, escolhido após sua belíssima participação em “Frida”), que com seus planos megalomaníacos pode por em risco toda a cidade de Nova York. Uma tragédia que só o Homem-Aranha poderá impedir.
Tomando como base narrativa para esta continuação justamente alguns desdobramentos narrativos de “Superman 2” (o primeiro “Homem-Aranha” já se inspirava em muita coisa de “Superman-O Filme”), Sam Raimi tratou de fazer seu dever de casa aprimorando os efeitos especiais que, do filme anterior para este, sofrem uma espantosa evolução, e emoldurando todos esses detalhes com uma trama sólida, detalhada e inesperadamente humana –fruto do esforço conjunto de quatro competentes roteiristas: Alfred Gough, Miles Millar (ambos da antiga série “Smalville”), Michael Chabon (“Garotos Incríveis” e “Harry Potter”) –estes três creditados como argumentistas –e Alvin Sargent (ganhador do Oscar de Roteiro Adaptado por “Gente Como A Gente”).
Saldado como o melhor filme de super-heróis realizado até então (e o melhor filme do Homem-Aranha até hoje!), “Homem-Aranha 2” ainda se deu ao luxo de encerrar-se com ganchos contundentes para uma promissora e aguardada parte três.

Homem-Aranha 3
Todavia, as coisas mudaram no terceiro filme (e não foram para melhor...).
Apaixonado pelas HQs clássicas do personagem, e desejoso de manter essa orientação ao nomear como antagonista da vez o Homem-Areia (Thomas Alden Church, de “Sideways-Entre Umas e Outras”), vilão conhecido dos fãs antigos, mas pouco popular entre os fãs mais novos, Sam Raimi recebeu uma espécie de incumbência do estúdio da Sony: Atender à demanda dos fãs mais jovens e incluir em seu filme um vilão mais recente, surgido ainda na década de 1990, o truculento Venon.
Raimi, que assumiu o roteiro junto de seu irmão, Ivan Raimi, teve de ordenar uma narrativa que exigia três necessidades: A primeira, dar o devido tempo, atenção e importância dramática ao seu vilão escolhido, Homem-Areia; a segunda, dar igualmente atenção e importância dramática ao vilão que lhe foi imposto, o Venom (e é desagradavelmente perceptível na narrativa o desprezo que Raimi nutre por ele); e a terceira, dar o devido respaldo e conclusão a uma série de pontas soltas de narrativa deixadas como mote no fim do segundo filme.
O resultado foi um roteiro equivocado, enfadonho, excessivamente longo e pouco interessante onde os personagens (inclusive seu protagonista) eram apresentados com motivações mesquinhas, prejudicando a identificação do público.
Quando tudo começa, Peter Parker (Maguire, aqui num registro mais desleixado que do outros dois filmes) sente-se nas nuvens finalmente junto de Mary Jane, seu grande amor (Kirsten Dunst, também ela aparentemente afetada), mas nem tudo é festa na vida do Homem-Aranha; seu outrora melhor amigo Harry Osborn (James Franco, o pior de todos), sabendo do segredo de sua identidade secreta torna-se o novo Duende e parte para a vingança; além dele surge o poderoso Homem-Areia (Alden Church, fazendo o possível num personagem completamente perdido na trama), então um dos suspeitos da morte do tio Ben ocorrida no primeiro filme; e a bela loira Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard, belíssima, porém sub-aproveitada numa personagem icônica dos quadrinhos, mas empregada aqui de maneira tola) aparece para introduzir ciúme e desconfiança em seu relacionamento com Mary Jane.
Quando os problemas parecem se acumular surge um uniforme negro, que lhe amplifica a força e parece ser de origem alienígena. Mal sabe Peter que ele será a semente do que talvez venha a ser o mais perigoso inimigo do Homem-Aranha: o maquiavélico Venon.
“Homem-Aranha 3” foi o ponto final em uma festejada trilogia de um personagem bastante aguardado no cinema, que começou muito bem, mas terminou revelando as conseqüências bastante prejudiciais do desgaste criativo de seu realizador.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Queime Depois de Ler

Joel e Ethan Coen realizaram este filme logo na seqüência de sua obra-prima, “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, talvez para tirar, o quanto antes, qualquer expectativa em torno de sua produção subseqüente e continuar fazendo os filmes pouco usuais que sempre fizeram.
Sob esse prisma, este trabalho surge assim como um esforço dos Coen em busca de si mesmos, e em busca do tipo de cinema sarcástico, enganosamente caricato, pontuado por um humor peculiar e um drama intrínseco que sempre os definiu.
Passa longe (e isso provavelmente é deliberado) de ter o vigor narrativo de seu trabalho anterior. No lugar disso, os Coen esmiúçam a comédia humana, na forma da existência de almas perplexas, mesquinhas e desesperadas que são muitos de seus personagens, e da propensão irreprimível que essa comédia tem em converter-se em tragédia.
Despedido do FBI por alcoolismo, ex-agente (John Malkovich) resolve escrever um livro de memórias que, supõe ele, será bombástico. Enquanto sua mulher adultera planeja o divórcio para viver com seu amante, um disquete com essas memórias extravia-se e vai parar numa academia de ginástica onde dois funcionários (uma mulher frustrada que quer dinheiro para uma série de cirurgias plásticas –Frances McDormand –e um personal trainer dos mais estabanados –Brad Pitt) fazem planos de devolvê-lo em troca de uma recompensa em dinheiro, mas o problema de comunicação entre as partes é tamanho que o ex-agente toma tudo como chantagem. Uma grande confusão inicia-se envolvendo esses personagens e mais alguns outros.
Nesta fusão de comédia de humor negro, suspense e drama perpetrada pelos Coen, eles mostram-se sempre afeitos a filmes de natureza muitas vezes incategorizável como este, o que resgata ligeiramente a memória de muitos dos seus trabalhos pregressos, como o áspero e ácido “Gosto de Sangue”, o cômico e irônico “Arizona Nunca Mais”, o desconcertante “Fargo” e o caricato e ridiculamente genial “O Grande Lebowski”.
Mais do que um grande filme, portanto, os Coen desejam aqui fazer um tratado minucioso e específico destinado ao seu público (se é que eles têm um) a respeito do tipo de filme que eles planejam fazer.
O tratamento por eles reservado aos personagens oscila com desenvoltura e imprevisibilidade entre o carinhoso e o perverso, e no objetivo de tornar tudo ainda mais peculiar eles dão à essas figuras rostos famosos de um elenco estelar (além dos já citados, aparecem também George Clooney, Richard Jenkins, J.K. Simmons e Tilda Swinton).

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Juno

Juno McGuff é uma adolescente do subúrbio norte-americano com um problema que não é tão incomum para garotas na sua idade: Juno engravidou de seu melhor amigo, e está prontamente decidida a entregar o bebê para a adoção já que percebeu (numa cena tão admirável quanto espirituosa) que é incapaz de realizar um aborto. Para tanto, Juno tem o apoio de seu pai, de sua compreensiva madrasta, sua melhor amiga e do jovem casal disposto a ficar com seu bebê. Mas as coisas nunca são tão simples.
Lançado em 2008, este filme independente virou mania entre os jovens norte-americanos, principalmente as meninas que se identificaram de imediato com a personagem Juno (interpretada com primor irreprimível pela ótima Ellen Page). Trata-se de uma comédia esperta com doses equilibradas de drama e seriedade, e um característico ar alternativo oriundo do cinema independente, mas cujos elementos que o compõem são maravilhosamente bem trabalhados pelo diretor Jason Reitman (filho de Ivan Reitman, o realizador de “Os Caça-Fantasmas”).

Não deixa de ser um exemplar cuja semelhança (e, por isso mesmo, uso da fórmula) com “Pequena Miss Sunshine”, lançado no ano anterior, acaba incomodando um pouco, embora certamente seja muito agradável de se assistir, como ele, “Juno” venceu, naquele ano, um merecidíssimo Oscar de Melhor Roteiro Original, entregue à Diablo Cody, sua roteirista que soube equilibrar personagens bem construídos, e situações –muitas extraídas de suas próprias memórias –entrelaçadas numa carpintaria narrativa que privilegia apenas o que de fato importa para a trama avançar.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Whiplash - Em Busca da Perfeição

Um dos filmes mais surpreendentes de 2015, este grande trabalho debruça-se sobre o bullying e faz uma análise expressiva sobre os desdobramentos psicológico do mau trato, sem jamais adotar os vícios do melodrama: À direção, interessa somente os elementos paradigmáticos da ação, ou do terror (!), empregados de maneira tão inusitada quanto brilhante nesta obra fantástica.
Obtendo uma vaga na prestigiada Escola de Música Shaffer, o obstinado baterista Andrew Neiman (Miles Teller) arruma também uma posição na banda do perfeccionista Terence Fletcher (J.K. Simmons, até então famoso como o J.J. Jameson da Trilogia “Homem-Aranha”, dirigida por Sam Raimi).
O problema é que para obter o mais impecável desempenho, Fletcher lança mão dos metodos mais cruéis, que deixam seus alunos em frangalhos, física e psicologicamente. Neiman está embarcando assim num verdadeiro pesadelo ao submeter-se a esse crivo esmagador para conseguir nada menos que a perfeição.
O desconhecido Damien Chazzelle dirige este trabalho brilhante com insuspeito primor, dando à narrativa a cadência e a força do instrumento que a simboliza: a bateria.
 No cerne desta obra sensacional, brilham as atuações magníficas de Miles Teller e do assustador e fantástico J.K. Simmons (Vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante).