Mostrando postagens com marcador Kevin Bacon. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Kevin Bacon. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de novembro de 2024

Um Tira da Pesada 4 - Axel Foley


 Não haviam dúvidas de que, em algum momento dessa onda de revivals que tomou Hollywood nos últimos anos (que incluiu sequências tardias de clássicos como “Top Gun” ou recentemente “Twister”), uma hora ou outra, eles chegariam no personagem de Axel Foley –protagonista de “Um Tira da Pesada”, lançado em 1984 –que redefiniu certos estereótipos dos policiais de ação do seu período (anos 1980), alavancou a carreira de Eddie Murphy (então com 23 anos) e tornou-se hoje um daqueles clássicos da ‘sessão da tarde’.

Dirigido por Martin Brest (que, depois, realizaria o indicado ao Oscar “Perfume de Mulher”, o drama “Encontro Marcado” e, com o vexaminoso “Contato de Risco”, desapareceria de Hollywood), o primeiro “Um Tira da Pesada” era uma obra notável na funcionalidade de suas propostas tão inéditas quanto descontraídas: Seu personagem principal –um policial de Detroit que acabava movendo uma investigação de homicídio por conta própria em Beverly Hills –Axel Foley unia o despojamento das ruas com o efetivo de um policial no curso de uma investigação; ele também oferecia ao seu intérprete, Eddie Murphy, um vasto leque para expor qualidades extraordinárias: Era um embusteiro compulsivo (ou seja, se fazia passar por diferentes tipos a cada coadjuvante a quem se apresentava), era espontâneo e carismático (exigia dele desenvoltura em comédia e em improviso) e ainda se impunha como herói de ação (ou seja, atrevia-se a questionar papéis estabelecidos, colocando um astro negro num patamar antes vislumbrado por brancos).

Sucesso de público (o filme, por sinal, foi indicado na categoria de Melhor Roteiro Original, perdendo para o dramático “Um Lugar No Coração”), “Um Tira da Pesada” –ou “Beverly Hills Cop” –logo foi sucedido por continuações; vieram, em 1987 (três anos depois) “Um Tira da Pesada 2” (dirigido pelo mesmo Tony Scott de “Top Gun” um filme que trocava a mescla inteligente de investigação policial, humor pulsante e ação súbita por mais violência, uma seriedade algo apática e sequências de visual publicitário) e em 1994, “Um Tira da Pesada 3” (uma bobagem realizada à toque de caixa por John Landis, que dirigiu Murphy em “Um Príncipe Em Nova York” e que foi apelidada pelos expectadores da época como “Duro de Matar” num parque de diversões!), cujo fracasso de público e crítica extinguiu as chances de continuidade da franquia.

Eis que agora, em 2024, a Netflix banca o retorno de Axel Foley e seu indissociável intérprete em grande estilo: Em “Um Tira da Pesada 4”, Foley, ainda um policial das ruas de Detroit (como fica evidente na entusiasmada cena de ação que abre o filme), agora tem uma filha advogada, Jane (vivida por Taylor Page, de “A Voz Suprema do Blues”) que, avessa ao contato com o pai, advoga em Los Angeles, Beverly Hills, onde suas tentativas estóicas de defender um réu acusado de tentar contra a vida de policiais a colocam na mira de perigosos assassinos: Jane está muito perto de desbaratar, através desse caso, um esquema de corrupção na polícia que alcança até esferas elevadas, onde manda o manipulador Capitão Grant (Kevin Bacon).

Dentre alguns dos últimos revivals flagrados no cinema ou no streaming –caso de “Os Fantasmas Ainda Se Divertem”, o já mencionado “Top Gun-Maverick” e “Star Wars-O Despertar da Força” –muitos deles caem naquela consequente crítica de que, entre um filme e outro, mesmo que com décadas de intervalo, o protagonista não evoluiu em absolutamente nada. No caso de Beetlejuice, ele é uma assombração, trinta anos para ele, portanto, nada significam; por sua vez, com Maverick, o roteiro espertamente faz dessa inércia do personagem um dos empuxos narrativos de sua trama; enquanto que com Luke Skywalker ocorreu, sim, uma modificação com o passar do tempo (ainda que público e crítica tenham se ressentido com o viés de amargura e desilusão que isso acrescentou ao personagem); o que nos leva à Axel Foley e do porque ele é o caso mais extremo dessa questão –é certamente incômoda a maneira indiferente com que o filme mostra um senhor do alto de seus 63 anos (e incluído em cenas de ação nas quais visivelmente está desconfortável) atuando como um policial ‘das ruas’ com a mesma ginga e a atitude dos anos 1980 ainda intocada. Até as mesmas roupas ele ainda usa!

Os expectadores que foram capazes de ignorar esse anacronismo sem noção (e ele faz parte, é bem verdade, da alta dose de nostalgia almejada nesta produção para os fãs do primeiro filme) conseguirão apreciar uma obra vibrante –o melhor exemplar dentre toda a franquia depois do filme original –cheia de ação, comédia e sacadas detetivescas inspiradas (muitas delas a cargo de um sempre afiado Eddie Murphy em plena execução de um personagem que ele conhece muito bem), e recheada para além do normal de muito saudosismo.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

O Mundo Depois de Nós


 Produtor, roteirista e diretor, Sam Esmail (da série “Mr. Robot”) é fascinado em teorias da conspiração; lendas urbanas nas quais o sistema vigente é visto por um prisma de fragilidade e suas fundações podem ruir levando nossa civilização ao colapso pelas razões mais mirabolantes. Se “Mr. Robot”, à sua maneira, versava em torno dessa paranóia (ao menos, a sua primeira temporada), o longa-metragem original da Netflix, “O Mundo Depois de Nós”, adaptado do livro de Rumaan Alam, pega emprestado o mote do seminal “O Sacrifício”, de Andrei Tarkovski (no qual um grupo reunido numa mansão isolada recebe a notícia do fim do mundo), para albergar em sua premissa, as considerações muito particulares (e muito instigantes) de Esmail, sua desenvoltura para narrativas carregadas de suspense e tensão, e seu estilo peculiar de direção (onde planos audazes de câmera exploram ambientes com palpitante virtuosismo) em conjugação com um roteiro sempre inconformista.

O casal Amanda e Clay Sandford (Julia Roberts e Ethan Hawke) decide carregar os dois filhos para uma casa retirada em Hamptons, nas proximidades de uma praia. Ou melhor: É Amanda quem toma a decisão, levando o dócil e concordado marido, e os filhos Archie (o artista australiano Charlie Evans) e Rose (a garotinha Farrah Mackenzie) à reboque. A casa é elegante e requintada, alugada via internet por proprietários que Amanda sequer chegou a conhecer pessoalmente.

Por lá, a família se instala rapidamente, e tão efusiva é sua distração que nenhum deles, em princípio, nota indícios (inicialmente sutis) de que algo pode estar prestes a acontecer: O sinal de Wi-Fi começa a falhar, os celulares já não funcionam com a eficiência habitual, notícias em rádio e TV dão conta de misteriosos ataques cibernéticos, um homem em particular (vivido por Kevin Bacon) é avistado abarrotando de suprimentos sua pick-up no mercado local e a praia é invadida por um navio petrolífero desgovernado (!).

Sam Esmail vislumbra o cidadão de classe média-alta em geral, e o norte-americano em particular, na sua inabalável comodidade capitalista. Completamente ignorante dos elementos que conspiram contra ele no mundo lá fora. E é, portanto, do mundo lá fora que deve vir os agentes que haverão de arrancar os Sandford dessa absurda inércia: Na calada da noite (logo, despertando incontestes suspeitas) eis que bate à porta G.H. Scott (Mahershala Ali) e sua filha Ruth (Myha’la Herrold, da série “Industry”), vindos, de acordo com eles próprios, de Nova York, onde ouviram, em primeira mão, as primeiras notícias alarmantes da crise que se alastra.

G.H. é o dono da casa onde Amanda e Clay estão hospedados. Ele e a filha são negros, enquanto que os Sandford são brancos. É por isso, talvez, na visão ferina de Esmail, que Amanda desconfia com tanta intensidade deles –suas teorias, no início, vão na direção contrária, evitando crer no apocalypse, e travestindo seu preconceito arraigado como ceticismo diante do colapso da sociedade.

É mais fácil ter preconceito do que ter fé.

Na cartilha de ordem dramática elaborada aqui por Sam Esmail, na verdade, o preconceito e a fé surgem como empuxos antagônicos do ser humano: Um é a presunção do passado; o outro, a aceitação abnegada do futuro. Um demanda arrogância; outro demanda humildade.

Mais do que qualquer outra coisa, essa apatia que afasta uns dos outros provem do egocentrismo: Privados da internet (o primeiro item do qual dão pela falta, e que pelo qual os personagens mais padecem ao longo do filme), cada um deles se isola, a lamentar o vazio pessoal que isso proporciona a cada um –Inquieta por natureza, Amanda galga níveis de irritação a medida que não tem mais a conectividade instantânea do celular para atender prontamente seus anseios; Clay, cuja tolerância excessiva é admitida por ele próprio, vê nessa privação um abismo ainda maior de incompatibilidade a surgir entre ele a a esposa; G.H. que se instala na própria casa junto da filha, sabe, na condição de homem articulado e abastado, a situação nos seus devidos moldes, mas isso parece não bastar para tirá-lo do contexto em que, como os demais, se descobre indefeso; sua filha, Ruth, inconformada com a circunstância é a única a notar, com indignação, que ela e o pai acabam dormindo no porão da própria casa (um porão extremamente luxuoso, mas ainda sim, um porão), enquanto os brancos dormem na cama principal; o adolescente Archie, notadamente dependente de redes sociais e videogames, procura esconder sem muito sucesso a crescente vulnerabilidade que descobre quando começa a lhe restar somente a realidade com a qual lidar; e a pequena Rose (a personagem com a qual o filme de Esmail opta por deixar o expectador em seu desfecho) só sabe lamentar, não o fim da civilização, mas a incapacidade de acessar os últimos episódios da série “Friends” (!) que tornou-se para ela, nesse meio-tempo, uma obsessão.

quarta-feira, 21 de junho de 2023

Guardiões da Galáxia - Especial de Natal


 Pouco antes de sua última aparição nos cinemas –no excelente “Guardiões da Galáxia Vol. 3” –e depois de suas participações em “Vingadores-Ultimato” e em “Thor-Amor & Trovão”, a equipe de heróis espaciais tornados memoráveis graças ao talento do diretor e roteirista James Gunn deu o ar da graça neste média-metragem especial, exclusivo da plataforma Disney Plus. Esperto, James Gunn –uma verdadeira enciclopédia viva de referências à cultura pop –resgatou a lembrança, não tão honorável assim, do “Star Wars-Especial de Natal”, que George Lucas lançou em 1978, com toda a trupe de seu sucesso cinematográfico reunida para pagar um mico desgraçado. Varrido para debaixo do tapete pela vergonha dos fãs perante a mitologia vasta em longa-metragens, animações e afins, aquele filme televisivo é relembrado aqui, por James Gunn, com um certo carinho agridoce. Entretanto, se Gunn relembra sua existência, ele evita por completo seus equívocos: Este média-metragem é uma piscadela aos fãs feita para explorar o carisma de seus personagens, estender com muito bom humor um pouco mais sua mitologia e, lá no fundo, favorecer o conteúdo exclusivo do streaming da Disney, com um irresistível apelo aos inúmeros expectadores do MCU.

Instalados em Luganhenhum, a cabeça decepada de um Celestial, desde que o lugar fora devastado por Thanos, os Guardiões da Galáxia descobrem que na Terra, o planeta-natal de Peter Quill (Chris Pratt), está sendo comemorada a época do Natal –festividade completamente ignorada pelos outros membros, alienígenas. Todavia, como lembra Kraglin (Sean Gunn) na sequência animada que abre o filme (na qual figura o personagem de Michael Rooker, Yondu, em participação especial) os natais de Quill, passados durante sua infância entre os rudes Saqueadores Espaciais, não foram dos mais calorosos.

Para Manthis (Pom Klementieff) –que lembra do fato de que ela e Quill são meio-irmãos, já que foi criada por Ego, o pai dele –há uma certa importância em resgatar tal data, já que Quill anda desolado devido à perda de Gamora, ocorrida em “Vingadores-Guerra Infinita”. Com isso em mente –e com uma visão ligeiramente deturpada do quê é o Natal e sua troca de presentes –ela e Drax (Dave Bautista) veem até a Terra, na intenção de providenciar para Peter o melhor presente possível: O seu ídolo em pessoa, o ator Kevin Bacon –numa participação especial das mais hilárias!

Na Terra, confusões usuais se seguem –no humor recorrente e espontâneo da Marvel Studios –quando Manthis e Drax descem em plena Los Angeles, intoxicada pelo usual culto às celebridades: O que leva personagens tão exóticos quanto os dois a se misturar até que bem à fauna esquisita e alienada de pessoas que ganham dinheiro com a curiosidade dos turistas (!). Após um tumulto considerável na mansão de Kevin Bacon –onde, por razões óbvias, tiveram um atrito com a polícia (!!) –Manthis e Drax seguem de volta à Luganenhum para surpreender Peter. Ainda que a surpresa termine não sendo como eles esperavam.

Descontraído, mais espirituoso do que de fato divertido, este “Especial de Natal” é certamente recomendado aos fãs mais incondicionais dos Guardiões da Galáxia, que haverão de apreciar o filme pela sempre envolvente interação de seus personagens –um aspecto singular em suas criações do qual a Marvel Studios sempre soube se beneficiar. Aos expectadores mais casuais, ele é uma obra curta, ligeiramente vaga e sem muita razão de ser (exceto pelos pequenos detalhes de informação que acrescenta como a aproximação entre Manthis e Drax e entre Rocket Racoon e Nebula) que serve como uma modesta ponte entre os demais filmes e o derradeiro (e brilhante!) “Guardiões da Galáxia-Vol. 3”.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Linha Mortal


 Lançado bem no início da década de 1990, quando o diretor Joel Schumacher ainda se achava hábil o bastante para acrescentar elementos supostamente experimentais numa obra comercial –como luzes difusas, ângulos de câmera diferenciados e modismos do período que nada mais eram do que isso, modismos –este “Linha Mortal” trazia o requinte de ser produzido por Michael Douglas que, antes de alcançar o estrelato como ator, chegou a conquistar o Oscar de Melhor Filme como produtor em “Um Estranho No Ninho”. Isso jogava expectativas elevadas num filme que nunca chegava a ser uma obra-prima, mas conseguia sempre manter-se interessante.

Na trama, um grupo de alunos, residentes de medicina –entre os quais, os ainda jovens Kevin Bacon, Julia Roberts (antes do sucesso de “Um Linda Mulher”), Oliver Platt e William Baldwin –embarcam no arriscado plano de um colega vivido por Kiefer Sutherland: Instalados de madrugada, num porão das dependências do campus, eles irão parar o coração de um deles com um desfibrilador (o primeiro voluntário, é óbvio, será o personagem de Sutherland), e após um curto intervalo, ressuscitá-lo valendo-se dos recursos médicos.

O que eles testemunham nesse intervalo pós-morte é registrado através de depoimentos. A cada tentativa, o período com o coração parado –mostrado no monitor cardíaco com uma linha reta ininterrupta, o chamado “Flatlinners” do título original –é maior e cada vez mais perigosamente próximo dos cinco minutos (quando a morte pode se tornar cerebral), e por conta disso, cada vez mais difícil de trazer a ‘cobaia’ de volta à vida.

Contudo, eles não voltam sozinhos: Passada a empolgação dos primeiros testes relativamente bem sucedidos –afinal, trouxeram todos de volta sem maiores contratempos ou efeitos colaterais –eles passam a serem procurados pelo que parecem ser fantasmas, aparições que muito se parecem com lembranças que eles guardam da infância. São, na verdade, os pecados em vida que eles expiarão após a morte, mas que, pela circunstância da experiência, os estão castigando ainda vivos.

Percebe-se aqui e, sobretudo, em projetos que ele entregou nas décadas seguintes, que Joel Schumacher é bom em perfumaria: Seus filmes têm ritmo, visual relativamente elaborado e, não raro, são cercados de uma premissa sempre instigante e promissora, entretanto, Shcumacher não sabe enfatizar os predicados sublimes dessa premissa se eles já não vierem completamente organizados no roteiro. Sua direção é empenhada no aspecto técnico e rudimentar no aspecto instintivo e artístico –os atores particularmente se incumbe de tipos caracterizados mais do que de personagens necessariamente humanos; temos o protagonista ambíguo de Kiefer Sutherland, a mocinha padronizada de Julia Roberts, o personagem íntegro, estóico e sólido (e, como tal, enamorado da mocinha) vivido por Kevin Bacon, o conquistador barato (e bota barato nisso!) de William Baldwin, além do coadjuvante para fazer volume de Oliver Platt –um papel que, na verdade, ele interpretou em quase toda sua carreira.

Diante dessas simplificações conceituais, que reduzem a curiosa e reflexiva observação do roteiro dos percalços possíveis do pós-morte a um conto de terror cada vez mais convencional e previsível, o filme de Schumacher deixa de ser aquilo que poderia –e que é sugerido em sua envolvente e promissora hora inicial –para tornar-se, ao fim, um passatempo característico.

A comprovação de uma certa qualidade lhe surgiu com tempo: Em 2017, ele recebeu uma refilmagem, intitulada aqui no Brasil de “Além da Morte”, onde as ideias presentes em sua trama eram ainda mais pasteurizadas e banalizadas.

Se jamais chega a ser espetacular, “Linha Mortal”, de Joel Schumacher, ao menos, tem do início ao fim, uma aura de curiosidade e originalidade que lhe dá certa dignidade (além de argumentos fortes e convincentes para hoje ser considerado um cult-movie), mesmo diante do lamentável fato de que nunca cumpre suas promessas.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Apollo 13

Lançado em 1995, “Apollo 13”, de Ron Howard, dialoga diretamente com “Os Eleitos”, de Philip Kaufman, de 1983, e “O Primeiro Homem”, de Damien Chazelle, de 2018; embora sejam filmes de diferentes diretores (e, portanto, de diferentes estilos e propostas) e lançados em época consideravelmente afastadas de tempo, todos fornecem uma contribuição de esclarecimento ao público para notáveis episódios da emocionante Corrida Espacial Norte-Americana.
Dentre eles, pela natureza improvável e cheia de percalços em seus acontecimentos, “Apollo 13” é o mais notável: Em 1969, durante o Programa Discovery, a 13ª missão do projeto Apollo, destinado à lua, dá errado, ameaçando a vida de seus três astronautas tripulantes, Jim Lovell (Tom Hanks, em seu primeiro projeto após os Oscars consecutivos de Melhor Ator por “Philadelphia” e “Forrest Gump-O Contador de Histórias”), Fred Haise (Bill Paxton) e Jack Swigert (Kevin Bacon).
Imediatamente, a Nasa e seus técnicos passam a organizar uma missão de improviso para trazê-los da órbita da Terra até a segurança do solo, sem fazer idéia da integridade do funcionamento da nave, ou mesmo da extensão dos danos ocorridos nos aparelhos.
Nesta sensacional variação de filme catástrofe –o que torna “Apollo 13” uma espécie de precursor dos ótimos “Gravidade” e “Perdido Em Marte” –o diretor Ron Howard (então, mais conhecido por comédias descompromissadas como “Splash” com o próprio Tom Hanks) constrói uma belíssima narrativa, prodigiosa na capacidade de capturar o envolvimento do público mesmo diante de detalhes técnicos tão complexos quanto imprescindíveis à trama, ao revelar um fato histórico real que entrou para a história da Nasa como o seu "mais brilhante fracasso".
Muito bem representado por seu elenco (coadjuvantes particularmente brilhantes são Ed Harris, Kathleen Quinlan e Gary Sinise) e amparado por um trabalho técnico exemplar, o filme de Howard se vale, sobretudo, de um roteiro minimalista e equilibrado de William Broyles Jr. e Al Reinert (a partir do livro “Lost Moon”, do próprio Jim Lovell e de Jeffrey Kluger) no qual são balanceados com a mesma intensidade os dramas vivenciados pelas famílias dos astronautas em perigo –que funcionam como uma eficaz representação do público –as tensões sucessivas, repletas de desafios técnicos e questões logísticas experimentadas pelos engenheiros do centro de comando, e o temor impronunciável dos próprios astronautas diretamente envolvidos na calamidade, lutando contra o tempo e contra as probabilidades numa nave agonizante em gravidade zero na tentativa de retornar para casa.
Um resgate cinematográfico de valores muito norte-americanos, amparado numa grande história cujas circunstâncias absolutamente singulares não abrem margem para o cinismo.

terça-feira, 23 de julho de 2019

O Dia do Atentado

Percebe-se um padrão nos três filmes realizados pelo diretor Peter Berg em colaboração com o astro Mark Wahlberg, o drama de guerra “O Grande Herói”, o filme-catástrofe “Horizonte Profundo-Desastre No Golfo”, e este “O Dia do Atentado: Todos eles reconstituem episódios reais centralizando os esforços extraordinários de homens ordinários.
Aqui, Berg volta a atenção de suas lentes para os acontecimentos deflagrados em abril de 2013, durante a Maratona de Boston, no estado de Massachussets.
Ele lança de mão de diversas linhas narrativas, mostrando os numerosos personagens do filme –o policial Sgt. Tommy Saunders (Mark Wahlberg) incumbido da segurança da maratona; o comissário Ed Davis (John Goodman); o chefe de polícia de Watertown, o município vizinho, Jeffrey Puglieses (J.K. Simmons); o estudante chinês de intercâmbio Dun Meng (Jimmy O. Yang); o jovem casal Patrick Downes e Jessica Kensky (Christopher O. Shea e Rachel Brosnahan); o jovem policial, oficial Sean Collier (Jake Picking); e os terroristas interpretados com deliberado desleixo por Themo Melikidze e Alex Wolf (de “Hereditário”) –todos são apresentados por Berg ao seu estilo de baixa voltagem nesse primeiro terço, para então, na cena do atentado, terem unidas as pontas soltas de suas narrativas, revelando que todos eles ocupam, de uma forma ou de outra, um papel nesse trágico acontecimento, elevando assim consideravelmente o nível de tensão e ansiedade no expectador.
É quase um filme de ação transfigurado numa fórmula narrativa diferenciada (ao invés de rompantes ocasionais, tudo vai num aumento gradual), mas que ao longo desses projetos citados, Peter Berg aprimorou a ponto de domina-la com maestria.
O atentado propriamente dito ocorre quase com meia hora de filme, abrilhantado por uma recriação visual que não deixa margens para dúvidas acerca da habilidade do diretor.
É chocante, angustiante e visceral, no entanto, sua qualidade mais flagrante, passada a intensa reação que provoca, é o controle absurdo de ritmo que Peter Berg impõe: Ele nunca se apressa nem se atrasa em relação a sua intenção de expor os fatos para então partir para os finalmentes –ele toma tempo com as devidas informações pertinentes a respeito dos eventos, enquanto sem o expectador notar eleva o nível de urgência e a sensação de ameaça da narrativa.
Quando as bombas explodem, uma perplexidade palpitante contamina muitos dos personagens. O primeiro a retomar o controle é Saunders que imediatamente orienta a chegada das ambulâncias e socorristas. Patrick e Jessica estão entre as vítimas –se encontravam praticamente ao lado de uma das bombas! Ao comissário Davis, no comando das investigações, logo de junta o agente do FBI DesLauriers (Kevin Bacon). Os terroristas, erráticos, acompanham os noticiários de seu sujo apartamento exibindo assustadora falta de empatia.
A medida que os dias vão passando, e a investigação vai se revelando frutífera –graças ao aparato tecnológico fenomenal do FBI na captura das imagens das telas de segurança –os terroristas se veem compelidos a prosseguir com seu plano, desta vez, roubando uma arma e um carro para irem à Nova York.
A arma, eles tiram do policial Collier, que matam; o carro, eles obtêm sequestrando o jovem Dun Meng.
É ele quem consegue escapar e alertar a polícia sobre os terroristas, a tempo para que sejam interceptados numa vizinhança suburbana de Watertown; onde um tiroteio espetacular coloca o policial Pugliese na história –e nesse detalhe, no de ter conferido um background prévio a cada personagem que contribui à narrativa, o filme de Berg se mostra astuto, bem lapidado e de um zelo pontual para com os personagens e os eventos que retrata.
Se há nele um porém é no excesso de enaltecimento aos valores norte-americanos –comum nos filmes de Peter Berg –que, a partir de algum momento, começa a soar xenófobo em algumas cenas, piegas em outras.
Nada que desfaça a constatação do grande filme que foi realizado.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A Viatura

Em alguma cidadezinha do desolado meio-oeste dos EUA, dois garotinhos (os expressivos James Freedson-Jackson e Hays Wellford) encontram um carro de polícia aparentemente abandonado no meio do mato.
Fazem assim o que qualquer criança faria: Jogam pedras numa travessa provocação, depois aproximam-se lentamente, testando a coragem um do outro. Logo, concluem que não existem policiais por perto. E então, entram no veículo e saem a dirigi-lo.
O filme independente que revelou o diretor Jon Watts –levando-o a ser recrutado pela Marvel Studios para dirigir “Homem-Aranha De Volta Ao Lar” –parte de uma premissa das mais simples para mostrar seu ótimo domínio de ritmo e de atmosfera.
Guardadas as devidas proporções, sua narrativa evoca o primor básico de “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, dos Coen –sua estrutura se constrói a partir de situações que evoluem integrando o fio narrativo do filme. Sendo assim, das cenas envolvendo os dois garotos e o carro de polícia, saltamos para o xerife vivido primorosamente por Kevin Bacon (também produtor executivo) que descobrimos ser o protagonista do outro lado da situação: O policial dono do carro inadvertidamente levado.
Entretanto, o policial deixou o carro por motivos nem um pouco lícitos –foi dar sumiço à um corpo que jazia em seu porta-malas (!), para piorar as coisas, além de um veículo de trabalho levado sem maiores justificativas debaixo de seu nariz, havia mais um corpo a ser desovado no porta-malas (!), e o dito cujo em questão (interpretado por Shea Whigham, de “O Abrigo”) não está morto (!!).
Habilmente as cenas se intercalam entre os personagens (a caçada do perplexo policial; o divertimento dos dois garotos que evolui para uma aterradora conclusão da encrenca em que se meteram), revelando informações de modo econômico e quase sempre inspirado, ostentando uma junção peculiar e brilhante de drama e humor negro, e levando seus personagens num crescendo violento de tensão e sordidez –não é à toa que uma das cenas mais elogiadas e bem realizadas de “Homem-Aranha De Volta Ao Lar” seja a tensa cena entre herói e vilão dentro de um carro; aqui, em “A Viatura” podemos perceber que situações tensas são a especialidade de Jon Watts.
Surpreende, sobretudo, a posição do filme em relação ao gênero que deseja adotar (um suspense policial com o mais ácido sarcasmo) mesmo tendo duas crianças como protagonistas.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O Homem Sem Sombra


Kevin Bacon não tinha noção de encrenca em que se meteu ao aceitar protagonizar este projeto que atualizava os conceitos de “O Homem Invisível” de H.G. Wells.
Em princípio, era de se imaginar que a equipe de efeitos especiais se encarregaria de tudo, entretanto, o que o diretor Paul Verhoeven tinha em mente era uma aplicação inédita e arrojada de efeitos visuais que tornassem invisíveis um ser humano em cena.
Para tanto, a presença física e o tempo todo palpável de Kevin Bacon, embora sempre em cena é apagada através de truques digitais inéditos (que só não levaram o Oscar de Efeitos Visuais na cerimônia de 2001 porque a Academia tinha em mais alta conta a reconstituição visual do Coliseu realizada em “Gladiador”): Para que isso fosse possível o ator precisou submeter-se a uma das mais dolorosas experiências de sua carreira, onde teve o corpo nu (pois era assim que ele precisava estar em cena) todo pintado de azul ou verde (cores que poderiam ser apagadas no kroma-key) inclusive seus orgãos genitais e seus olhos que eram cobertos por imensas lentes de contato.
Como resultado desse esforço, o filme de Verhoeven revela-se sensacional.
Arrogante e presunçoso, o cientista Sebastian Caine (Kevin Bacon, que ainda por cima entrega uma atuação formidável) lidera uma equipe de técnicos empenhados em buscar o segredo da invisibilidade: Numa das primeiras cenas vemos a surpreendente experiência ser submetida num gorila.
Uma série de incertezas científicas emperra o projeto, mas Sebastian está convicto de que um teste em seres humanos deve ser feito. Desejoso do reconhecimento, o egocêntrico Sebastian decide ser, ele próprio, cobaia da própria experiência e sujeita-se a ser o primeiro ser humano tornado virtualmente invisível –e a sequência em que a invisibilidade se torna possível, onde testemunhamos o corpo do protagonista desaparecer, camada após camada, é digna de palmas!
Contudo, efeitos colaterais inesperados acontecem (e se intensificam quando o procedimento se revela irreversível): A solidão completamente de sua condição, bem como as inúmeras posssibilidades morais e imorais à sua disposição levam Sebastian a abandonar seus escrúpulos –o que não se vê, afinal, não convém à punição –e ele gradativamente se torna mais perigoso, traiçoeiro e implacável.
E certamente isso se mostra particular arriscado para sua ex-namorada Linda McKay (Elisabeth Shue), membro de sua própria equipe, que agora namora às escondidas, o pesquisador e amigo de Sebastian, Dr. Matthew Kensington (Josh Brolin).
A despeito dos efeitos especiais inquestionavelmente espetaculares e da fantástica presença de Kevin Bacon, “O Homem Sem Sombra”, ainda assim, se torna o filme memorável que é graças ao tom de imprevisibilidade conferido pela narrativa de Paul Verhoeven que corajosamente agrega à premissa deste filme comercial elementos como violência, nudez e sexo (comuns à sua filmografia, mas certamente transgressivos em uma obra hollywoodiana como esta). E olha que os produtores ainda pressionaram para que fosse deletada uma infame cena de estupro que faria parte essencial do roteiro.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Antes Só Do Que Mal Acompanhado


Exemplo perfeito da capacidade do produtor (e roteirista, e diretor!) John Hugues em capturar na simplicidade de um enredo óbvio, quase clichê, os elementos que fazem uma comédia de adornos clássicos –em parte graças aos talentos cômicos muito bem explorados de Steve Martin e do falecido John Candy.
Fugindo do habitual retrato da angústia adolescente que tão bem pintou nos anos 1980 em filmes bem-sucedidos (e hoje cultuados) como “Curtindo A Vida Adoidado”, “O Clube dos Cinco” e “A Garota de Rosa Shocking”, Hugues opta aqui por um ponto de partida tão objetivo que poderia pertencer a um desenho animado (outra característica de Hugues como contador de histórias): O atarefado Neal Page (Steve Martin) tem pouco tempo para voltar para casa e passar o feriado de Ação de Graças junto da família. Mas, ele está quase do outro lado do país! A chance de pegar um vôo que lhe deixasse convenientemente a tempo na cidade onde mora foi perdida graças a um transeunte mais esperto que ele (vivido por Kevin Bacon, numa rápida participação) que tomou o táxi que o levaria ao aeroporto.
O caminho para casa, dessa forma, precisa ser traçado por rotas mais árduas: De trem, de carro e de carona, através das rodovias e ferrovias norte-americanas. Entretanto, tudo complica ainda mais quando Neal percebe que tem um companheiro em potencial para a jornada: O espaçoso, destrambelhado e atrapalhado vendedor itinerante vivido brilhantemente por John Candy. Neal enxerga nele a encrenca ambulante que é, e em princípio, faz o possível para em vão evitar sua presença –e a ficção é cheia de estraga-prazeres assim; personagens que não querem estar onde todos sabem que a premissa os levará.
Formando uma dupla afiada, os dois protagonizam assim, talvez, o mais hilariante e cartunesco road-movie já realizado –nunca um exemplar desse sub-gênero se dedicou tanto à comédia quanto este. Ainda que seu desfecho –tornado memorável pela melodiosa música do grupo Power To Believe –traga ao filme um pitada imprevista de tristeza e emoção.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

A Verdade Nua


Inspirado no que alguns dizem tratar-se de eventos que remetem à dupla Jerry Lewis e Dean Martin (cuja caracterização de Kevin Bacon e Colin Firth, ambos excelentes, guarda aspetos tantos deliberadamente estudados como propositadamente diferenciados), o diretor canadense Atom Egoyan compõe uma charmosa narrativa a partir de cenas entrecruzadas cronologicamente e múltiplas narrações, bem ao seu gosto fragmentado e elusivo.
“Where The Truth Lies” –a ironia contraditória do título original também já dá sinais da natureza reflexiva do filme –começa com Karen O’ Connor (Alison Lohman), uma jovem jornalista especulando sobre a possibilidade de escrever uma espécie de biografia sobre a celebradíssima dupla de humoristas Lanny Morris (Kevin Bacon) e Vince Collins (Colin Firth). Juntos, eles fizeram grande sucesso no showbizz, inclusive apresentando por muitos anos o indefectível Teleton –campanha televisiva profundamente relacionada aos valores familiares e à caridade.
Ao colher uma série de depoimentos, ela esbarra num nebuloso caso, ocorrido a quinze anos, no auge da carreira dos dois, que, por razões nunca antes esclarecidas, resultou no irreversível rompimento deles, em um punhado de suspeitas e acusações sórdidas, e sobretudo, na morte sem solução (homicídio ou suicídio?) de uma jovem camareira.
Quando chega no ponto em que a verdade do que se passou se descortina para ela, Karen (que num dado momento envolve-se numa sensacional cena erótica!), contudo, já singrou um certo ponto de não retorno referente às posturas morais que parecem separar as pessoas comuns (entre os quais ela antes se incluía) e os indivíduos de postura, índole e caráter volúvel que habitam aquele pernicioso mundo de fama.
Se a história –carregada de facetas de film noir onde os meandros dos acontecimentos servem, em sua riqueza de detalhes, à elucidação da trama (ou à complicação caudalosa dela) –já não fosse suficientemente complexa e elaborada, o diretor Egoyan exercita também uma veia mais pop sem deixar de lado seu fascínio pelas impressões metafísicas de uma narrativa intrincada, com elementos que vão se somando extraídos de diferentes pontos ao longo de uma cronologia que se embaralha e de eventos narrados numa montagem simultânea que se revela desafiadora.
Sua experiência com esse tipo de enredo jamais deixa que o filme se torne confuso ou pedante –naquela que é sua mais salutar característica –e ainda permite abrir espaço para reflexões que só um grande realizador pode suscitar: Até que ponto a busca pela verdade é um objetivo de fato válido? Qual é a dicotomia (explorada a fundo pelo cinema noir mais nunca realmente esclarecida) entre a fama, a promiscuidade e a mentira? Qual a diferença entre os comportamentos dúbios que nos tornam excluídos e aqueles que nos tornam especiais?
Um ótimo filme visto com certa obscuridade já que aquilo que o faz charmoso (sua narrativa entrecortada, fragmentada e auto-consciente) é justamente o que, para algumas platéias, o torna melindroso de se compreender.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

JFK - A Pergunta Que Não Quer Calar

A década de 1960 não foi somente um período marcante de mudanças e transformações para os EUA e o mundo; foi também uma época a qual aparentemente, o diretor Oliver Stone custou a conseguir deixar de lado. A maior parte dos grandes títulos de sua filmografia, ao menos durante as suas duas primeiras décadas de atividade como cineasta, se dedicam a falar sobre episódios essenciais desse trecho da história americana.
Se a Guerra do Vietnam é uma parte indissociável do contexto de “Platoon” e “Nascido em 4 de Julho”, em “JFK”, ele lança seu olhar parcial, paranóico e imbuído de uma tendenciosa maestria cinematográfica sobre os percalços e conseqüências do assassinato do então presidente americano John F. Kennedy, cometido –acredita-se –pelo atirador Lee Oswald (aqui interpretado com peculiaridade por Gary Oldman). A base para esse olhar, Stone encontra na teoria controversa do promotor Jim Garrison –personificado com segundas intenções da parte de seu diretor pelo astro Kevin Costner: Na época, devido à sua participação no aclamado épico “Dança Com Lobos” e em outros sucessos de bilheteria como “Robin Hood-O Príncipe dos Ladrões”, Costner era enxergado como uma espécie de herói americano, o tipo de intérprete escolhido a dedo para se colocar num personagem do qual o diretor não deseja que a platéia duvide.
Desde a utilização brilhante do famoso e vídeo amador de Zapruder –uma prática habitual no cinema de Oliver Stone –ao emprego de uma riqueza documental e informativa incomum para qualquer superprodução (por tais valores, “JFK” levou os Oscars de Melhor Fotografia e Montagem) e o uso pontual de participações notáveis de um elenco diverso e estelar, todas as exuberantes facetas deste filme são administradas por seu diretor na imposição demagógica de sua própria ideologia e ponto de vista –provavelmente a grande ressalva em toda a filmografia fascinante de Stone.
Garrison acreditava numa possibilidade bem diferente daquela ventilada pela imprensa. Para ele, Oswald era um mero bode expiatório para toda uma conspiração que envolvia inúmeros interessados em dar cabo de Kennedy –e para tanto, um de seus argumentos é de que a sucessão de tiros obtida unicamente por Oswald naquele atentado seria humanamente impossível para um atirador sozinho executar.
A partir daí, subjetivada nas investigações de Garrison, a narrativa de Stone desfralda uma conspiração que ganha ares assombrosos e aterradores ao longo das três horas de duração do filme.
E Stone o faz com uma mescla assombrosa de tensão e intensidade, deixando entrever, apenas em alguns rápidos momentos de seu último terço a pecaminosa tendência do diretor em alterar obviedades históricas apenas para salientar seu próprio ponto de vista.
Um grande filme de um diretor tendencioso que soube empregar como poucos as ferramentas do cinema com perversa astúcia.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Sobre Meninos e Lobos

Clint Eastwood não dá ponto sem nó. Seus filmes, sejam os estrelados por ele e, sobretudo, os dirigidos por ele, trazem sempre uma postura técnica, artística e moral de tal maneira firme e convicta que não restam qualquer espaço para ambigüidades em relação à reflexão que ele deseja passar.
Sob esse prisma é fascinante contemplar tudo o que se percebe em “Sobre Meninos e Lobos”.
Embora tenha conquistado o Oscar (num já longínquo 1992), por “Os Imperdoáveis”, ainda assim, ele passou a década seguinte relegado ao segundo escalão de diretores norte-americanos, mesmo que vez ou outra entregasse bons trabalhos como o divertido “Cowboys do Espaço”.
Foi necessário uma prova inconteste de talento e competência para Hollywood reconhecê-lo em definitivo como o grande diretor que é, e essa prova se deu na forma de sucessivas indicações ao Oscar entre 2004 e 2006, com grandes obras como “Sobre Meninos e Lobos”, “Menina de Ouro” (que lhe agraciou com o segundo Oscar da carreira) e o drama de guerra “Cartas de Iwo Jima”.
Essa fase extremamente frutífera e aclamada de sua carreira começou com este filme, um brilhante drama de inúmeras ressonâncias morais que só um grande diretor poderia mesmo conceber.
O grande roteiro, ganhador do Oscar, de Brian Helgeland (de “Los Angeles-Cidade Proibida”) inicia-se com um traumático acontecimento sucedido na infância envolvendo três amigos Jimmy, Sean e Dave: Um deles, Dave, é levado por um grupo de homens inescrupulosos e somente encontrado algum tempo depois, quando ficam claros os abusos que sofreu.
Agora adultos, os três vêem-se mais uma vez lado a lado ante um crime hediondo, desta vez, o assassinato brutal da filha (Emmy Rossum) de Jimmy (Sean Penn, ganhador do Oscar de Melhor Ator), um comerciante muito conhecido no bairro em que cresceram. Sean (Kevin Bacon) é também o policial agora encarregado das investigações desse mesmo crime, enquanto que Dave (Tim Robbins, ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), que nunca mais foi o mesmo após ter sido abusado no episódio passado passa a demonstrar um comportamento estranho, chegando a despertar as suspeitas de sua esposa Celeste (Márcia Gay Harden), irmã de Jimmy. Quando começa a ficar claro que a polícia pode não encontrar os culpados, o pai, junto de seus amigos, decide procurar o responsável por conta própria, levando todas as histórias paralelas a um desfecho trágico.

O aspecto verdadeiramente notável deste poderoso filme de trama policial –e que torna fascinante o fato de ser dirigido justamente por Clint Eastwood, famoso pelo personagem reacionário de Dirty Harry, de “Perseguidor Implacável” –é, portanto, a maneira poderosamente incisiva e contundente com a qual faz uma severa e instigante crítica ao ato de justiça com as próprias mãos.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

X-Men Primeira Classe

Ao se conhecerem, o jovem sobrevivente dos campos de concentração Erik Lensherr e o aristocrata Charles Xavier imediatamente percebem uma conexão que os torna melhores amigos, unidos no ideal de encontrar e recrutar as pessoas oriundas da proeminente raça dos mutantes (pessoas que nascem com assombrosos e diferenciados poderes, o que os tornam vítimas de discriminação por parte dos humanos comuns) que surgem no mundo em meados dos anos 1960 de então. Mas um inimigo poderoso surgirá na forma de Sebastian Shaw, que usará desses mesmos mutantes para arremessar o mundo numa Terceira Guerra Mundial, valendo-se do episódio da Crise dos Mísseis de Cuba, o quê, entre outras coisas, levará Erik e Charles a um rompimento irreversível.
Após o fiasco não só em termos de bilheteria, mas de crítica também, do filme solo do Wolverine as coisas rapidamente mudaram nos estúdios da Fox: Um novo projeto envolvendo os mutantes rapidamente foi iniciado, com toda a cara de reformulação da série (um elenco de novos atores –Michael Fassbender, James MacAvoy e Jennifer Lawrence, em destaque –incorporando uma versão mais jovem dos personagens Magneto, Charles Xavier e Mística, e um retrocesso no tempo para contar o início da história), e mais uma vez Bryan Singer estava envolvido (agora como roteirista e produtor), além da bem-vinda euforia cinética que o novo diretor, o talentoso Matthew Vaughn (de “Kick Ass”), trouxe para a narrativa.
O resultado foi “X-Men Primeira Classe”, um filme vibrante que excedeu expectativas e não apenas devolveu o brilho aos mutantes no cinema, resgatando a profundidade de suas histórias e do pertinente estudo sobre o preconceito, mas cuja qualidade cinematográfica obtida praticamente em todas as áreas técnicas e artísticas logo o colocou como o melhor filme da série (posto que ele ocupa até hoje).
Um novo e promissor futuro aguardava os mutantes, mas a grande questão era: Será que a saga sofreria uma reinvenção, ou este era tão somente o passado dos filmes originais?