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quarta-feira, 21 de junho de 2023

Guardiões da Galáxia - Especial de Natal


 Pouco antes de sua última aparição nos cinemas –no excelente “Guardiões da Galáxia Vol. 3” –e depois de suas participações em “Vingadores-Ultimato” e em “Thor-Amor & Trovão”, a equipe de heróis espaciais tornados memoráveis graças ao talento do diretor e roteirista James Gunn deu o ar da graça neste média-metragem especial, exclusivo da plataforma Disney Plus. Esperto, James Gunn –uma verdadeira enciclopédia viva de referências à cultura pop –resgatou a lembrança, não tão honorável assim, do “Star Wars-Especial de Natal”, que George Lucas lançou em 1978, com toda a trupe de seu sucesso cinematográfico reunida para pagar um mico desgraçado. Varrido para debaixo do tapete pela vergonha dos fãs perante a mitologia vasta em longa-metragens, animações e afins, aquele filme televisivo é relembrado aqui, por James Gunn, com um certo carinho agridoce. Entretanto, se Gunn relembra sua existência, ele evita por completo seus equívocos: Este média-metragem é uma piscadela aos fãs feita para explorar o carisma de seus personagens, estender com muito bom humor um pouco mais sua mitologia e, lá no fundo, favorecer o conteúdo exclusivo do streaming da Disney, com um irresistível apelo aos inúmeros expectadores do MCU.

Instalados em Luganhenhum, a cabeça decepada de um Celestial, desde que o lugar fora devastado por Thanos, os Guardiões da Galáxia descobrem que na Terra, o planeta-natal de Peter Quill (Chris Pratt), está sendo comemorada a época do Natal –festividade completamente ignorada pelos outros membros, alienígenas. Todavia, como lembra Kraglin (Sean Gunn) na sequência animada que abre o filme (na qual figura o personagem de Michael Rooker, Yondu, em participação especial) os natais de Quill, passados durante sua infância entre os rudes Saqueadores Espaciais, não foram dos mais calorosos.

Para Manthis (Pom Klementieff) –que lembra do fato de que ela e Quill são meio-irmãos, já que foi criada por Ego, o pai dele –há uma certa importância em resgatar tal data, já que Quill anda desolado devido à perda de Gamora, ocorrida em “Vingadores-Guerra Infinita”. Com isso em mente –e com uma visão ligeiramente deturpada do quê é o Natal e sua troca de presentes –ela e Drax (Dave Bautista) veem até a Terra, na intenção de providenciar para Peter o melhor presente possível: O seu ídolo em pessoa, o ator Kevin Bacon –numa participação especial das mais hilárias!

Na Terra, confusões usuais se seguem –no humor recorrente e espontâneo da Marvel Studios –quando Manthis e Drax descem em plena Los Angeles, intoxicada pelo usual culto às celebridades: O que leva personagens tão exóticos quanto os dois a se misturar até que bem à fauna esquisita e alienada de pessoas que ganham dinheiro com a curiosidade dos turistas (!). Após um tumulto considerável na mansão de Kevin Bacon –onde, por razões óbvias, tiveram um atrito com a polícia (!!) –Manthis e Drax seguem de volta à Luganenhum para surpreender Peter. Ainda que a surpresa termine não sendo como eles esperavam.

Descontraído, mais espirituoso do que de fato divertido, este “Especial de Natal” é certamente recomendado aos fãs mais incondicionais dos Guardiões da Galáxia, que haverão de apreciar o filme pela sempre envolvente interação de seus personagens –um aspecto singular em suas criações do qual a Marvel Studios sempre soube se beneficiar. Aos expectadores mais casuais, ele é uma obra curta, ligeiramente vaga e sem muita razão de ser (exceto pelos pequenos detalhes de informação que acrescenta como a aproximação entre Manthis e Drax e entre Rocket Racoon e Nebula) que serve como uma modesta ponte entre os demais filmes e o derradeiro (e brilhante!) “Guardiões da Galáxia-Vol. 3”.

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Guardiões da Galáxia Volume 3


 Já dissera Tony Stark (Robert Downey Jr.) em “Vingadores-Ultimato”: O fim faz parte da jornada. Pois é exatamente isso que vem reiterar este terceiro volume da trilogia concebida por James Gunn, também ela dentro do Universo Marvel Cinematográfico, cujo mérito maior talvez seja o de ter provado, perante toda a indústria, que sim, personagens outrora obscuros e absolutamente desconhecidos, quando tratados com refinamento, talento e uma equipe competente à frente e atrás das câmeras podem converter-se em ícones pop de tanto ou mais sucesso que os personagens já famosos e estabelecidos. “Volume 3” representa, em inúmeros aspectos, o fim da jornada. É o fim dessa equipe que conduziu fãs e expectadores casuais pelos recônditos do espaço sideral do MCU, e é, acima de tudo, uma despedida do próprio James Gunn à esses personagens –aos quais ele não deixa de declarar em cada instante de filme um amor incondicional –prestes à assumir a importante função de chefe da DC Studios, concorrente da Marvel.

Para tanto, vindo todos esses personagens de dois longa-metragens anteriores –e da expressiva participação em pelo menos outros dois filmes dos “Vingadores” –“Volume 3” acaba tendo assim muitas pontas soltas para unir. Existe, por exemplo, a situação romanticamente incerta entre Peter Quill (Chris Pratt) e Gamorra (Zoe Saldana), ela assassinada por Thanos em “Vingadores-Guerra Infinita”, mas, tendo retornado como uma versão alternativa (e nada benigna) de si mesma de outra realidade –e, portanto, sem qualquer vínculo com a equipe que antes virou sua família e sem qualquer memória do romance que construiu, aos trancos e barrancos, com o apaixonado Quill; há também a situação de Adam Warlock (Will Poulter), ser poderoso ainda que ingênuo, criado pela alienígena Ayesha (Elizabeth Debicki), como nos foi mostrado numa das cenas pós-crédito do “Volume 2”, com o intuito inicial de vingança contra os Guardiões da Galáxia. Mas, acima de tudo, há Rocket Racoon (voz de Bradley Cooper), o guaxinim humanóide e cibernético que, ao lado do homem-árvore Groot (voz de Vin Diesel), é um dos personagens favoritos dos fãs desde o primeiro filme. James Gunn foi providencial ao reservar toda a triste e dolorosa história de origem de Rocket para este último capítulo: É seguro afirmar, Rocket é o coração de “Guardiões da Galáxia-Volume 3”.

Sua história –contada em pontuais flashbacks que revelam sua criação pelas mãos do cruel, detestável e poderoso Alto-Evolucionário (Chukwudi Iwuji, num dos mais odiosos vilões da Marvel) –é de uma tristeza, uma angústia e um desamparo que chega a espantar quem está habituado à galhofa e ao humor constante de James Gunn. Mal dá pra acreditar que um personagem praticamente gerado por computador em sua íntegra seja capaz de comover de tal maneira. Rocket precisa de ajuda. Para salvá-lo, os Guardiões da Galáxia –que, mais que um grupo, se consolidaram praticamente como uma família –formados por Quill, Nebula (Karen Gillan), Drax (Dave Bautista), Manthis (Pom Klementieff) e Groot, partem, de seu reduto em Luganenhum, para a Contra-Terra, planeta-laboratório onde o Alto-Evolucionário conduz seus experimentos atrozes brincando de Deus com a vida de incontáveis criaturas inocentes, tendo uma delas sido Rocket, no passado.

Contudo, o tempo mostrou que Rocket é mais do que um experimento imperfeito como seu criador acreditava: Sua inteligência evoluiu, diante da necessidade de viver e de sobreviver, tornando-o algo mais do que o Alto-Evolucionário almejava. Agora, porém, ele quer Rocket de volta, pois, na ânsia de trilhar o caminho de sonhou, apesar de todas as suas perdas e decepções, Rocket foi capaz de evoluir –e o Alto-Evolucionário não sabe como ele o fez, nem como repetir isso em suas outras criações; só sabe que irá dissecar cada fibra de Rocket para descobrir.

No caminho para tentar salvar a vida de Rocket –infectado por uma espécie de vírus plantado nele por Adam Warlock num ataque –os Guardiões da Galáxia, obviamente, vão se cruzar com Gamorra, agora aliada aos Saqueadores, piratas espaciais liderados por Stakar (Sylvester Stallone, numa ponta de puxo), cujos laços com Quill (como namorada) e com Nebula (como irmã) podem, quem sabe, serem restaurados nesse percurso.

É claro que, sendo este o alardeado Volume Final, espera-se deste filme, sobretudo, em sua parte final, as imprevistas guinadas definitivas que haverão de selar o desfecho da maior parte dos personagens (e a Marvel Studios já se provou capaz de fazê-lo com emoção e contundência em “Ultimato”) e, possivelmente, até mesmo uma morte impactante a marcar este como o encerramento da história que começou no primeiro filme. Hábil, travesso e inteligente, James Gunn –em estado de graça, seja no roteiro, seja na direção –brinca, inclusive, com isso o tempo todo. Ele nos leva de uma emoção à outra, saltando com inédita e elevada habilidade do casual e confortável bom humor à emoção incontida e inebriante, e revela, neste terceiro trabalho com os Guardiões, uma nova faceta: A capacidade de realizar uma obra inesperadamente tensa.

Elaborado com a usual e reconhecida profusão de efeitos visuais que a Marvel Studios habitualmente entrega, e para tanto, dono de uma amplitude técnica invejável, “Guardiões da Galáxia-Volume 3” tem uma trama recheada de idas e vindas frenéticas, ora divertidas, ora atordoantes, e vale-se brilhantemente do fato –um trunfo sem igual para a Marvel –de que já conhecemos esses personagens, nos importamos com eles, sentimos com mais empatia e eficácia suas agruras e lamentamos com muito mais autenticidade suas tristezas, e isso faz com que sua última aventura seja, afinal, uma despedida nossa também. Uma emoção verdadeira, da qual partilhamos com imenso prazer.

Obrigado pela aventura, Guardiões.

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Thor - Amor & Trovão


 Se em “Thor-Ragnarok” o diretor Taika Waititi havia encontrado o que parecia ser enfim o tom certo para as aventuras de Thor –o de uma comédia do absurdo temperada com ação épica decalcada do “Flash Gordon” dos anos 1980 –em “Thor-Amor & Trovão” tais aspirações e, sobretudo, a necessidade muito mercadológica de superá-las, ameaçam ruir sob a pressão da própria narrativa.

Como em seu antecessor, “Amor & Trovão” pulsa espirituosidade, e até mesmo uma certa originalidade na maneira com que enxerga uma forma distinta de colocar seu herói mitológico num prisma diferenciado de graça, conflitos existenciais e visual arrojado, contudo, ao procurar ir um pouco mais longe do que foi “Ragnarok”, lhe aumentando o escopo e tudo o mais, este “Amor & Trovão” acaba também expondo as limitações de Waititi. Nota-se, agora, que ele perde um pouco a noção de seu humor a partir do momento em que se defronta com situações que perigam ser repetitivas, e que sua paciência para com as cenas de ação se esgota muito facilmente.

Experimentando uma crise existencial desde que deixou a Terra ao final de “Vingadores-Ultimato” acompanhado dos Guardiões da Galáxia, Thor Odinson (Chris Hemsworth, sempre formidável) revê sua identidade como super-herói –ele mal tem ânimo, ou motivação, para participar das injustificadas batalhas ao lado de seus novos companheiros. Ainda assim, seu caminho toma um novo rumo quando parte atrás do paradeiro de Lady Sif (Jamie Alexander, numa personagem que havia sido estranhamente esquecida em “Ragnarok”) e descobre que um certo Gorr, auto-intitulado Carniceiro dos Deuses, vem fazendo das suas. Vivido pela hábil concepção minimalista do sempre talentoso Christian Bale, Gorr é um personagem trágico como toca a todo bom vilão –suas incomensuráveis aflições sofreram tamanha indiferença da parte dos deuses para quem rogou ajuda que, uma vez dotado da famigerada Espada Necromante, ele decide dar cabo de todas as divindades universo afora.

Esses percalços levam Thor de volta à terra, onde se encontra a comunidade de Nova Asgard, remanescentes da destruição promovida em seu reino no último filme, e lá, em meio à uma batalha, ele reencontra Jane Foster, uma antiga ex-paixão –leia-se: A namoradinha do super-herói nos filmes “Thor 1” e “Thor 2”.

Interpretada por Natalie Portman, que na época havia acabado de levar o Oscar de Melhor Atriz por “Cisne Negro”, Jane Foster era, até então, algo entre uma donzela em perigo e um alívio cômico. Foi Taika Waititi quem convenceu a atriz a voltar ao papel prometendo-lhe um arco narrativo que parecia ser improvável de ganhar as telas de cinema: Nas HQs, Jane se torna digna de empunhar o Mjolnir –o martelo de Thor, feito em pedaços por Hela, a Deusa da Morte, em “Ragnarok” –e com isso adquire todos os poderes do Deus do Trovão convertendo-se numa versão feminina do herói e num dos tantos exemplos de empoderamento e emancipação que afloraram na cultura pop. Mais do que transpor essa trama para o audio-visual, o que Waititi faz aqui é finalmente mostrar porque uma atriz vencedora do Oscar está a desempenhar esta personagem: Se em “Ragnarok” ele remodelou Thor dando-lhe a ênfase de protagonista que outros diretores não souberam dar, em “Amor & Trovão”, ainda que ele mantenha o foco de seu enredo em Thor, ele transforma Jane numa heroína de fato, dando-lhe um propósito e, de certa maneira, um desfecho. Uma personagem numa jornada.

É claro que, no processo, muita galhofa é mostrada o que, na soma de seus elementos, quase converte “Amor & Trovão” numa comédia romântica: Lá está, afinal, o relacionamento cheio de altor e baixos entre dois personagens feitos um para o outro (ainda que os próprios sejam os únicos que não se deem conta disso); lá estão as piadinhas (algumas bem infames) que temperam as dores de amor com um aroma agridoce; e lá também está uma idealização muito cinematográfica das complicações românticas, onde elas ganham ares de conto de fadas. Se tudo isso é descoberto na moldura muito modernosa de um filme de super-herói, é porque trata-se aparentemente de uma das propostas da Marvel Studios nesta produção. Se “Viúva Negra” era um thriller de espionagem, “Shang Chi e A Lenda dos Dez Anéis” era um épico de artes marciais e “Dr. Estranho No Multiverso da Loucura”, um filme de terror, então, “Amor & Trovão” guardadas as devidas concessões com cenas de ação, batalhas e a profusão usual e incontornável de efeitos visuais, é deveras uma comédia romântica.

Desde os eventos bombásticos ocasionados em “Vingadores-Ultimato” muito se pergunta qual será o caminho trilhado pela Marvel daqui para frente. Ele ainda não ficou completamente claro, mas é visto, pelo que se observou até aqui, que o estúdio está disposto a pisar no freio: Afinal, é inconcebível entregar ano após ano um evento cinematográfico da estatura de “Ultimato”.

A saida, portanto, é experimentar com novas interpretações de gênero, daí a sensação de que, diferente de todos os longa-metragens que iniciaram seu festejado universo compartilhado, todos os filmes que integraram até agora a chamada Fase 4 parecem ser obras independentes, pouco ou nada ligadas umas às outras –ainda que, nas sutilezas, as ligações continuem todas lá.

Pela confiança depositada em Taika Waititi e pela natureza mais incomum do próprio protagonista, “Thor-Amor & Trovão” é a obra mais independente de todas as demais, narrativamente falando, o que significa que o expectador pode aproveitar seu humor claudicante (ora hilário, ora constrangedor), sua emoção ocasionalmente eficiente e o exuberante colorido de suas cenas por aquilo que realmente é: Um filme vibrante, ainda que imperfeito.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Uma Aventura Lego


 Existem projetos que escancaram a necessidade artística de ser realizado em animação pelo simples fato de que sua premissa –na fantasia irrestrita do processo criativo que a originou –se faz humanamente impossível. A Pixar tornou-se craque nisso; assim como o gênio Hayao Miyazaki. Seguindo essa herança, Christopher Miller e Phil Lord obedecem a mesma orientação em “Uma Aventura Lego”.

A primeira animação para cinema a abordar o universo de pequenas peças infantis que conseguem montar qualquer coisa conta a história de Emmet (voz de Chris Pratt), um feliz e genérico cidadão arremessado subitamente numa Jornada tão insana quanto inesperada.

Ao avistar (e de lambuja, ainda se apaixonar!) por uma garota nas obras da construção em que trabalha como operário civil, Emmet acaba descobrindo uma tal de “peça de resistência”.

Colado à essa peça (!), Emmet é conduzido por essa garota, Megaestilo (voz de Elizabeth Banks) até outros mundos composto de peças lego, para muito além da cidade em que sempre viveu, onde os moradores são controlados (e idiotizados) pelo todo poderoso Presidente Negócios (voz de Will Ferrell).

Tal vilão, de posse de uma arma conhecida apenas como “gluca” pretende escravizar todos os mundos lego que existem –mesmo aqueles para além de seu alcance –a “peça de resistência”, ao que parece, é a única coisa capaz de impedi-lo, e o indivíduo preso a ela (o pobre Emmett) está predestinado a ser o “especial”, o único herói capaz de salvar a todos. Para isso, Emmett deve encontrar outros mentores em sua jornada –entre eles participações (na versão lego) de Gandalf (de “O Senhor dos Anéis”), Dumbledore (de “Harry Potter”), Batman (personagem tão sensacional que originou o longa-metragem derivado “Lego-Batman”) e até mesmo Han Solo e Chewbacca (de “Star Wars”) –e com eles aprender a ser um “mestre construdor”, ou seja, ter a habilidade de montar, com as pecinhas lego à disposição nos vastos mundos que visita, qualquer coisa que quiser.

Essa sinopse não dá conta de toda a inventividade de “Uma Aventura Lego”, uma vez que seus realizadores valem-se do formato para experimentar as mais variadas peripécias narrativas chegando, em seu clímax, a trazer seu protagonista para o nosso mundo real (!), onde ele é, deveras, um bonequinho lego, um brinquedo a fazer parte das brincadeiras imaginadas por um garotinho.

Uma gratificante aventura em animação cujas alternativas não parecem ter limites para seus intrépidos criadores.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Dois Irmãos - Uma Jornada Fantástica

O grande problema de “Dois Irmãos” é a excelência notória de seu estúdio, a Pixar.
Explica-se: Tão habituado seu público cativo ficou, a esperar deles sempre uma obra-prima –de preferência, capaz de arrancar lágrimas insuspeitas do expectador como o fazem sem esforços os maravilhosos “Wall-E”, “Up-Altas Aventuras”, “Divertida Mente” e “Viva-A Vida É Uma Festa” –que quando essa qualidade estratosférica não chega a ser atingida, a impressão que fica é a de decepção, mesmo que até lá seja entregue um trabalho criativo, atrativo e interessante.
Embora traga o primor visual que a cada realização se mostra mais aperfeiçoado e detalhista, e seja em si um entretenimento pleno de diversão, emoção, criatividade e graça, “Dois Irmãos” fica num inédito meio-termo entre os exemplares da Pixar: Está, nos mais diversos quesitos, bem acima de seus títulos mais esquecíveis (como “O Bom Dinossauro”, “Vida de Inseto”, “Carros 1, 2 e 3”, “Universidade de Monstros” e “Procurando Dory”), mas não ombreia a magia de suas diversas obras mais aclamadas (caso de “Procurando Nemo”, “Os Incríveis 1 e 2”, “Monstros S.A.”, “Ratatoille”, “Valente”, todos os “Toy Story” e os mencionados mais acima).
O que não significa, sobremaneira, que não haja muito nele a se apreciar.
Ambientado num mundo de fantasia –como também o era “Monstros S.A.” –“Dois Irmãos” se passa no que seria a era moderna correspondente das histórias do gênero ‘espada & feitiçaria’: Nele existem unicórnios, feiticeiros, dragões, centauros, elfos e toda sorte de criaturas místicas.
Entretanto, a magia ao que parece anda meio fora de moda, substituída pelo recurso mais conveniente da eletricidade (!); elfos e outras criaturas vivem assim numa sociedade onde usufruem de internet, aparelhos celulares e as mais diversas opções tecnológicas, tal e qual os seres humanos da atual vida real.
O protagonista Ian Lighfoot (voz de Tom Holland) é um elfo nascido nessas circunstâncias e, a exemplo de muitos jovens que cresceram rodeados das comodidades da modernidade, ele é inseguro, fato ressaltado por uma certa ausência do pai, que faleceu quando ainda era pequeno.
Dessa forma, sua família se resume ao irmão mais velho Barley (voz de Chris Pratt), um garotão imaturo cuja cabeça avoada está sempre nos jogos de magia e RPG, à sua carinhosa mãe (voz de Julia Louis-Dreyfuss) e, vá lá, seu padrasto, o centauro (!) Colt Bronco (voz de Mel Rodriguez).
No dia de seu aniversário de dezesseis anos, Ian recebe um presente de sua mãe: Uma instrução de seu pai para que pudessem, mesmo após sua morte, passar ao menos um dia inteiro com ele (!); trata-se de um cajado antigo, usado para magia.
Se na mão do irmão Barley, o cajado não surte efeito, na de Ian –que revela uma inesperada aptidão para magia herdada do pai –ele termina por produzir o feitiço que traz de volta o pai. Ao menos, em parte: Somente da cintura para baixo (!).
A ‘pedra-fênix’ usada para tal feitiço não havia sido o suficiente; para ter seu pai por inteiro, matar a saudade e (no caso de Ian) finalmente ter a carência de sua presença preenchida, os irmãos precisam obter uma outra ‘pedra-fênix’ em menos de 24 horas –pois o feitiço prevê apenas esse período para que possam ficar com ele.
Assim, Ian e Barley empreendem uma jornada –cujos avanços correspondem, em parte, aos jogos de tabuleiro e de aventura que parecem querer, muito ao seu jeito, homenagear –que é também uma aventura de descoberta (na qual os irmãos, tão diferentes entre si, perceberão o quanto são essenciais um para o outro) e de auto-afirmação (Ian adquire a coragem, a auto-confiança e a iniciativa que antes lhe faltavam).
É uma obra de apelo profundamente emocional, transcorrida no contexto de um ambiente mágico e fantástico, propício à imagens acachapantes, como só a Pixar sabe fazer; se o sabor que fica na boca ao final é de um prato que já foi melhor servido em outras ocasiões, isso muito se deve ao fato de grande parte de sua equipe técnica ter sido confiada a artesãos mais jovens das fileiras da Pixar, e não aos seus experientes gênios de praxe: O diretor é Dan Scanlon (que estreara na Pixar com “Universidade de Monstros”); a trilha sonora (incapaz de atingir os acordes comoventes de Michael Giachinno) é dos irmãos Mychael e Jeff Danna; o único nome mais gabaritado a surgir na linha de frente em meio aos realizadores desta animação é mesmo Pete Docter (diretor de “Up”), como produtor executivo.
No entanto, mesmo capitaneado por profissionais não tão habilidosos, mais vale um longa da Pixar na mão (ou na tela do cinema ou da TV), do que duas animações convencionais à disposição.

terça-feira, 19 de março de 2019

De Repente Pai

Há que se prestigiar o esforço do ator Vince Vaughn para demonstrar versatilidade em sua filmografia: Entre tentativas muitas vezes válidas como intérprete sério (o competente “Confronto No Pavilhão 99” e a irregular 2ª temporada da série “True Detective”), ele normalmente cede ao gênero pelo qual ficou mais conhecido do grande público, a comédia.
“De Repente, Pai” é a inevitável refilmagem norte-americana do sucesso canadense “Meus 533 Filhos” que amparava-se na habilidade extraordinária e no timing cômico peculiar de Patrick Huard.
Na falta de uma presença tão catalisadora, a refilmagem investe um pouco menos no humor para encontrar assim os desdobramentos agridoces em sua premissa resultando assim numa comédia dramática.
David (Vince Vaughn) é um adulto incapaz de pôr ordem em sua vida. Em meio ao emprego que mal consegue manter como entregador de carne no açougue do próprio pai, o assédio constante de agiotas para quem deve dinheiro e ao namoro algo relutante que mantem com a policial Emma (a linda Cobie Smulders, de “Vingadores” e da série “How I Meet Your Mother”), ele descobre que, com a gravidez dela, será pai.
Entretanto, a revelação realmente bombástica vem logo depois: Em meados dos anos 1990, David foi fornecedor de uma clínica da inseminação artificial a fim de juntar um bom dinheiro para pagar uma viagem à família, e durante um tempo considerável, ele foi o único doador ativo –o que torna ele pai de centenas de jovens que atualmente entraram em conjunto na Justiça para saber sua identidade por trás da alcunha anônima de ‘Starbuck’ (!).
Lembrado a todo momento por seu advogado e amigo Brett (o divertido Chris Pratt, mais rechonchudo, antes de “Guardiões da Galáxia”) das complicações inerentes ao caso, David não resiste à vontade de conhecer pouco a pouco (e um a um) alguns desses ‘filhos’. E assim, de visita em visita, vai inadvertidamente intervindo em pequenos momentos da vida de todos eles –salva a vida da ex-viciada Kristen (Britt Robertson); auxilia o aspirante a ator Josh (Jack Raynor) a comparecer numa audição; enaltece as apresentações do músico de rua Adam (Dave Patten), proporciona companhia ao deficiente Ryan (Sébastien René); e até busca satisfazer a carência do intelectual Viggo (Adam Chanler-Berat) –tornando-se quase uma espécie de anjo da guarda. Até mesmo a caracterização de Vince Vaughn, trajando uma mesma combinação de roupas durante todo o filme, sugere nele uma espécie de ‘vestimenta de super-herói’.
Nem todas as manobras do filme funcionam –e ainda que seja dirigido pelo mesmo Ken Scott que realizou o original canadense, ele certamente perde de longe para sua flagrante espontaneidade –mas, é o tipo de produção que ganha o expectador pela simpatia da premissa básica e seus incomuns desenlaces familiares e pela despretensão natural que pulsa de um projeto assim.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Jurassic World - Reino Ameaçado


Realizador dos magistrais –e eficazes em amedrontar o expectador –“O Orfanato” e “O Impossível”, dava para presumir o tipo de filme que sairia nesta primeira continuação da reinvenção de “Jurassic Park” promovida por Colin Trevorrow quando foi anunciado como diretor o espanhol J.A. Bayona.
Este segundo “Jurassic World” potencializa assim todo o suspense e a tensão presentes nas mesmas cenas que anteriormente nos outros filmes ganhavam tratamento de aventura escapista. Aqui, porém, Bayona não desperdiça um único instante para gerar sobressaltos imprevistos por meio dos quais os dinossauros representam perigo de verdade –inclusive, porque agora, no critério com que são empregados os efeitos digitais, a encenação permite que os efeitos práticos –e infinitamente mais palpáveis e verossímeis –predominem.
A sensação, por vezes, é de que os dinossauros estão bem ali; se não próximos de nós, ao menos, realmente próximos dos atores.
Passaram-se três anos desde que o então bem-sucedido parque se converteu numa zona de guerra e de matança graças ao descontrole do Indominus Rex. O que antes era o Jurassic World agora está abandonado e livre da intervenção humana. Os dinossauros assumiriam o controle do lugar.
Pessoas como o Dr. Ian Malcolm (Jeff Goldblum),presente em “Jurassic Park” e “O Mundo Perdido” em brevíssima aparição, alegam que os dinossauros devem ser lá deixados e que a natureza siga seu curso, seja mantendo-os livres, seja condenado-os a uma nova extinção, contudo, a empresa por trás do procedimento de clonagem que os trouxeram de volta não pretendem fazer isso: Há intenções tanto altruístas (de grupos querendo preservar os animais) como corporativistas de olho nos dinossauros.
Tudo se acirra quando um vulcão localizado na ilha entra em atividade: O lar dos dinossauros está com os dias contados e se nada for feito, eles serão extintos mais uma vez.
Disposta a salvar as criaturas, Claire Dearing (Bryce Dallas Howard, mais serena e agradável que no filme anterior) organiza um grupo que regressa para lá –entre eles, Owen (Chris Pratt), seu ex-namorado que tem interesses quase pessoais: Ele quer encontrar Blue, a dinossauro que ele mesmo criou e que é a última espécime viva de velociraptor; e os novos personagens do filme, a jovem bióloga Zia (a carismática Daniella Pineda), o medroso Webb (Justice Smith, divertido em sua covardia) e o truculento vilão de ocasião vivido por Ted Levine (que foi o psicopata Buffalo Bill em “O Silênciodos Inocentes”).
Como se tornou quase um reflexo filosófico da série, em dado momento, os capitães da indústria que arcam com as operações sempre revelam seus objetivos escusos, que sempre visam a indiferença aos perigos da tecnologia, a corrupção absoluta do dinheiro e a tentação arrogante de usar o poder (no caso, a genética que permite brincar com a natureza) ao seu bel-prazer –e tal personagem, aqui ganha o rosto de Rafe Spall (de “AsAventuras de Pi”), que deseja fazer um leilão multimilionário com os espécimes resgatados da ilha.
São as maquinações desse personagem que promovem assim a grande reviravolta de ambientação da trama: Da eletrizante sequência na ilha em colapso vulcânico (a qual Bayona vale-se de sua desenvoltura com diferenciados gêneros para criar um filme infinitamente melhor que o de Colin Trevorrow, seu antecessor), somos arrebatados, juntos com os protagonistas para uma mansão isolada, onde Bayona explora ainda mais a inclinação que a série sempre teve –desde o primeiro filme de Spielberg –para o terror, mas nunca antes havia sido tão vislumbrada assim.
Ao mesmo tempo que ele oferece esse novo caminho (o de um gênero, e quem sabe até outros, ainda não explorado), ele brinca de refazer pegadas que já foram dadas –à princípio, sua manobra parece lembrar a mesma que Spielberg usou em “Mundo Perdido”, de trazer os dinossauros para o mundo civilizado; mas, isso logo se revela uma distração: Bayona, a partir da metade de seu filme, trás sim, seus personagens, seu perigos e sua premissa para o contexto do mundo sem o isolamento de uma ilha, mas não é para repetir o que outros fizeram; de novo, ele está sendo fiel à si mesmo –e toda a sorte de dinossauros apavorantes que sua narrativa pode materializar estão assim inseridos num contexto quase de casa mal-assombrada.
Essa é a forte impressão na cena mais emblemática deste filme: Quando a menina Isabella Sermon, se esconde em suas cobertas, não do monstro imaginário que toda criança teme, mas do assustador dinossauro que (como o Indominus na produção anterior) representa o grande antagonista da obra.
O filme de Bayona trás novas camadas à série e leva à um final corajoso e radical que pode mudar drasticamente as característicos do vindouro terceiro.
Ao menos, uma coisa ao que tudo indica ficou bem clara: Esta nova trilogia parece ser assim a história dos laços afetivos entre Owen e Blue.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Vingadores - Guerra Infinita

A Marvel Studios tinha um plano. Ele começou, mais ou menos em 2012, quando o vilão Thanos fez sua primeira e breve aparição na cena pós-créditos de "Vingadores".
Imaginou-se, na época, que aquele seria o gancho para uma continuação (que veio três anos depois, “A Era de Ultron”), mas o plano da Marvel Studios –e de seu competente presidente, Kevin Feigi –revelou-se muito mais complexo e ambicioso: Com o tempo e os inúmeros filmes que vieram depois (que variavam entre o divertido e o excelente), a Marvel construiu todo um universo de personagens e narrativas compartilhadas no cinema, repetindo uma linguagem que predominava nos quadrinhos originais, cujas direções apontavam para um único desenlace; a chegada de Thanos e sua conseqüente reunião das seis jóias do infinito.
Quem leu os quadrinhos sabe do quê se trata. As Jóias do Infinito são poderosas gemas de poder cósmico que reunidas proporcionam a onipotência. São elas, a jóia do espaço (o Tesseract visto em “Capitão América-O Primeiro Vingador” e em “Vingadores), da realidade (o Aether, mostrado em “Thor-O Mundo Sombrio”), do poder (o Orbe revelado no primeiro “Guardiões da Galáxia”), da mente (a jóia que terminou constituindo parte do andróide Visão em “A Era de Ultron”), do tempo (o Olho de Agamoto, em “Doutor Estranho”) e da alma (jamais revelada até então, mas que ocupa uma parte essencial da trama neste filme).
Não é a toa, também que por meio deste filme, então, a Marvel Studios sinalize um desfecho para muitas das premissas que ela mesma iniciou nesses últimos dez anos.
Claro que ninguém é ingênuo de achar que eles deixarão de investir em seus filmes e em seus heróis, mas o trabalho dos Irmãos Russo (diretores primorosos de “Capitão América-Soldado Invernal” e “Capitão América-Guerra Civil”) é tão contundente e corajoso que o filme consegue passar uma amarga impressão oposta –independente do rumo que seja tomado em outros filmes vindouros (e, sim, eles virão) a sensação que “Guerra Infinita” nos passa é, de fato, a de um encerramento.
A medida que Thanos (numa trabalho brilhante de Josh Brolin em captura de performance) vai tentando reunir as seis jóias, a história se reveza em três eletrizantes linhas narrativas: Na primeira (e que já havia sido devidamente esboçada no final de “Thor-Ragnarok”) acompanhamos o Deus do Trovão que, destituído de seu martelo, sua nave e seu povo, encontra os Guardiões da Galáxia –ao lado dos quais tentará obter um novo martelo para ter uma chance de se equiparar a Thanos na batalha final. Na segunda linha, vemos Tony Stark, o Homem de Ferro, unir-se ao mago Doutor Estranho e ao jovem Homem-Aranha para ainda no espaço sideral tentar deter a ameaça de Thanos. Na terceira linha, somos testemunhas dos esforços do Capitão América e seu grupo, Viúva Negra. Falcão, Feiticeira Escarlate e Visão, aliados ao Pantera Negra para tentar impedir uma invasão alienígena à Terra, na preparação para uma das mais espetaculares e gigantescas batalhas que o cinema já viu.
Três linhas narrativas. E nas três, a Marvel cuidou para que os protagonistas de cada um dos núcleos fossem os membros de sua Trindade Principal: Homem de Ferro, Capitão América e Thor que, vividos respectivamente por Robert Downey Jr., Chris Evans e Chris Hemsworth, são assim as mais perfeitas traduções cinematográficas desses personagens.
É a Thanos, contudo, que “Guerra Infinita” de fato pertence.
Indo de encontro a uma das críticas mais contumazes de seus filmes (de que seus vilões são genéricos), a Marvel Studios faz de Thanos o grande protagonista de seu filme –e isso significa que suas motivações são esboçadas com um brilho e um zelo que ultrapassa o registro dos quadrinhos.
Significa outra coisa também: Não há nenhum personagem mais implacável que Thanos, e em seu propósito não entram as predileções do público –um dos assuntos mais discutidos pelos expectadores antes da estréia era quem morre ou não em “Guerra Infinita”, e dá pra dizer (sem entregar surpresas) que os Irmãos Russos foram inclementes: personagens absolutamente queridos e inesperados (e num número muito maior do que se pode supor) ganham um fim trágico em inúmeros momentos deste filme, o quê torna seu encerramento –o primeiro da Marvel a ter um aspecto de ‘final’ de fato –um tanto amargo.
Uma junção habilidosa e singular entre o escopo narrativo de “OSenhor dos Anéis-O Retorno do Rei” e o impacto emocional de “StarWars-O Império Contra-Ataca”.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Ela

Há todo um diálogo que este “Ela” estabelece com o maravilhoso “Encontros e Desencontros” por uma razão muito pessoal: Spike Jonze foi casado com a diretora e roteirista daquele filme, Sofia Coppola –pode-se ouvir a voz de Spike Jonze em determinado momento, enquanto ele manuseia a câmera no making-of do filme que acompanha o DVD.
Sendo assim “Encontros e Desencontros” um roteiro fruto de percepções muito pessoais da parte de Sofia –e nesse sentido, a personagem de Scarlett Johansson funciona como seu alter-ego –então, podemos presumir que o personagem do marido, vivido por Geovanni Ribisi, corresponde à Spike Jonze.
E, como se pode perceber, no filme de Sofia, a protagonista sofre por uma despercebida indiferença do marido, que a ama, mas a deixa de lado.
Compreender o papel ingrato que exerceu para Sofia, durante o período em que foram casados, foi o que levou Spike Jonze a transformar este projeto numa espécie de pedido de desculpas: Nos enquadramentos de câmera (que priorizam janelas e vidraças amplas) e na referência visual inconfundível, na presença (ou quase...) de Scarlett Johansson em ambos os trabalhos, e na própria premissa que adota –e, sobretudo, nos rumos que ela toma –“Ela” é um filme que se reflete de maneira expiatória na dramaturgia íntima da obra-prima de Sofia Coppola.
É, portanto, indiscutível o quanto representa o próprio Spike Jonze o protagonista Theodore (o sempre bom Joaquim Phoenix), um rapaz que, num futuro algo próximo, trabalha elaborando cartas de amor. Contudo, transcrever em palavras quase nunca significa ser desenvolto nas ações e Theodore se vê ainda angustiado por seu último relacionamento que não deu certo.
Parece ser propício então quando ele é apresentado a uma nova tecnologia que promete contornar a solidão do mundo moderno e as insatisfações do relacionamento a dois: Um sistema operacional dotado de inteligência e personalidade ao qual ele passa a chamar de Samantha (Scarlett Johansson que valendo-se apenas de sua voz cria uma das personagens mais cativantes do ano).
Theodore cria com Samantha –uma homenagem a atriz Samantha Morton, a primeira opção para dar voz à personagem –um relacionamento que, durante algum tempo, lhe parece mais vivaz e compensador que as outras relações que tivera. Mas aos poucos, Samantha começa a evoluir e junto com ela, a própria relação que tinham se transforma.
Talvez pela sinceridade e emoção absolutamente genuínas que pulsam de seu trabalho, esta profunda e terna discussão sobre o amor e os relacionamentos nos tempos atuais é o melhor filme da carreira incomum de Spike Jonze (ele venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original), tão pontuada de filmes de caráter inusitado e desafiador. Entretanto, seu pequeno e pessoal inventário dos lapsos que sofreu e principalmente infligiu em seu relacionamento deve muito do resultado tocante e esclarecedor que alcança ao fabuloso trabalho vocal da atriz Scarlett Johansson –uma pena a campanha para indicá-la ao Oscar de Melhor Atriz não ter dado certo.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Para Maiores

Eis um filme que, em sua incontornável ruindade, é um caso para estudo. Afinal de contas, ainda assim, foi reunido, ao longo de seus esquetes, não só um elenco de fazer inveja a qualquer superprodução, mas também um time de diretores que se responsabilizam por cada, digamos, episódio que vai de nomes notáveis como Peter Farrelly (aqui arriscando a direção sem seu irmão Bobby), James Gun (de “Guardiões da Galáxia”), Steve Carr (de “Segurança de Shopping”), Griffin Dunne (astro de “Depois de Horas”, de Scorsese e diretor de “Da Magia À Sedução”), Bret Ratner (de “A Hora do Rush” e “X-Men O Confronto Final”) e outros! –e todos, sem exceção, passam uma tremenda vergonha em todas as seqüências deste filme cujo nível de mau gosto chega às raias do inacreditável.
Reza a lenda, que o produtor Charles B. Wessler (realizador dos filmes dos Irmãos Farrelly) conseguiu arregimentar tantos atores graças à sua influência e a um curta-metragem previamente gravado em 2009 com Hugh Jackman e Kate Winslet –quando o filme foi lançado em 2013, tal curta, por sinal, foi incluído como o trecho que inicia esta sucessão de absurdos intermináveis!
É uma antologia cômica calcada nas características pesadíssimas da comédia vulgar juvenil que aflorou nos anos 1980 e que ganhou, com as décadas que vieram, mais e mais escatologia. Uma exaltação do politicamente incorreto.
Sua trama une engenhosidade e grosseria de forma desconcertante: A fim de pregar uma peça de 1º de abril num garotinho metido a hacker, dois adolescentes pra lá de imbecis lhe distraem com a missão de procurar um filme na internet, difícil de achar por ter sido banido, cujo conteúdo é um mistério –o "Movie 43", que dá o título original à produção.
O problema é que durante a busca o tal filme revela-se real, e nos sucessivos vídeos que eles vão descobrindo surgem tramas curtas que, de uma maneira geral, destroem com o modo de vida norte-americano com um humor politicamente incorreto radical até mesmo para os padrões extremos que o gênero tem tomado atualmente (como "Ted").
No primeiro esquete –supostamente aquele que iniciou tudo! –uma moça (Kate Winslet) vai jantar em um restaurante com um solteirão charmoso e boa-pinta (Hugh Jackman), para descobrir, do pior jeito possível, porque ele continua solteiro: De alguma forma ridícula e mirabolante, ele possui os testículos no pescoço (acredite, isso já dá uma boa idéia do nível extremo de absurdo, escracho e nojeira que se seguirá a partir daqui!).
Noutro, o casal na vida real Naomi Watts e Liev Schreiber vive a mãe e o pai de um rapaz educado em casa –como é costume em alguns locais do EUA –entretanto, a fim de proporcionar ao filho uma educação com todas as variações de uma experiência escolar completa, eles decidem submeter seu filho até mesmo ao bullying impiedoso que seus colegas praticariam: Eles organizam festas e não o convidam (!), seu pai exerce forte tortura psicológica nas aulas de educação física (!), e sua mãe, na falta de outra, flerta com ele para ensinar-lhe as minúcias da rejeição (!!). O resultado é ultrajante.
Numa adaptação mambembe e debochada da “Liga daJustiça”, anos antes do filme de Zack Snyder e Joss Whedon, vemos em um restaurante, Robin (Justin Long) tentar se dar bem num encontro com a Supergirl (Kristen Bell), apesar das constrangedoras intromissões do inconveniente Batman (Jason Sudeikis) e, mais tarde, da espalhafatosa Mulher Maravilha (Leslie Bibb) e de uma neurótica Lois Lane (Uma Thurman).
Já, o casal formado por Chris Pratt e Anna Faris resolve temperar sua vida sexual quando a esposa faz uma inesperada proposta ao marido: Defecar nela (!!!).
A preparação para esse momento tão... especial (!) envolve o uso de um laxante poderoso que vai colocar o marido numa situação aflitiva.
Também em um encontro marcado num restaurante, Halle Berry e o comediante Stephen Merchant resolvem brincar de ‘desafio ou conseqüência’, o quê os leva a atitudes inacreditáveis.
Richard Gere faz o executivo de uma empresa cujo produto mais rentável, o I-Babe (um dispositivo que grava músicas em tamanho real e formato de uma mulher nua!) está levando compradores adolescentes à mutilação (!) por uma razão bem peculiar: No lugar onde seria a vagina fica uma hélice para ventilação (!!!).
Num dos episódios mais estranhos e non-sense, Emma Stone faz uma namorada impaciente e incompreensível disposta a discutir a relação com o namorado (Kieran Culkin), mesmo que seja na caixa de supermercado onde ele trabalha (!).
Um encontro catastrófico é o que experimenta a jovem Chloe Grace Moretz ao ir à casa do namoradinho e lá passar pela infelicidade de ter sua primeira menstruação (!), para o pânico de seu irmão mais velho, Christopher Mintz-Plasse.
Numa cabana, Johnny Knoxville e Seann William Scott encontram um ‘leprechaum’ –num registro deliberadamente destoante de efeitos visuais, do ator Gerard Butler –que não é exatamente aquilo que eles esperavam.
Um time de basquete composto por negros recebe de seu treinador, Terrence Howard, uma instrução bastante simples (e racista) para conseguir ganhar do time composto por brancos.
E por fim, no episódio escondido nos créditos finais, Elizabeth Banks tenta manter a harmonia de seu relacionamento com o namorado dos sonhos, Josh Duhamel, mas isso é perturbado pelo gato dele (um CG ainda mais porco que o do ‘leprechaum’), uma versão distorcida, psicopata e homossexual de Garfield (!!).

É bem provável que hajam até mesmo outros episódios além desses que consegui lembrar, mas a experiência de passar por este filme é tão desconcertante e perturbadora que vou ficar só nestes mesmos!

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Passageiros

A carreira de Jennifer Lawrence nesta sua quase primeira década desde que se consolidou como inquestionável estrela de Hollywood esteve sempre em uma zona de conforto.
Explica-se: Desde sua, digamos, revelação quando foi indicada pela primeira vez ao Oscar de Melhor Atriz por “Inverno da Alma” em 2011, ela basicamente oscilava, sempre com sucesso espetacular de público e crítica, entre três diferentes projetos: No primeiro, ela era a heroína Katniss Everden da saga “Jogos Vorazes” –um dos principais responsáveis por seu estrelato –que durou nada menos do que quatro filmes; no segundo, ela era a coadjuvante Mística (mas, ocasionalmente alçada à circunstância de protagonista, como os últimos filmes atestam) da saga “X-Men” desde sua reformulação em “Primeira Classe” –até então eles contam três filmes –já, no terceiro caso, ela intercalou esses dois trabalhos com a frutífera (e premiada) colaboração com o diretor David O’ Russel, de onde saíram, até aqui, as produções “O Lado Bom da Vida” (seu primeiro Oscar), “Trapaça” e “Joy-O Nome do Sucesso” (por ambos ela conquistou indicações).
A carreira de Jennifer, portanto, não era pautada por escolhas sistematicamente bem feitas e surpreendentes, como ocorre, por exemplo, com Jessica Chastain. Agora que “Jogos Vorazes” terminou e seu contrato com “X-Men” não deve ser renovado, restando a ela os filmes com O’ Russel, é que teremos alguma idéia do quão apurado é o faro de Jennifer para escolher projetos e administrar a própria carreira: O único filme que ela fez fora desse sistema, o mediano “Serena”, mostrou-se frustrante.
E agora temos este “Passageiros”.
Uma ficção científica bonita e vistosa, claramente uma produção onde os estúdios da Sony não pouparam despesas (além de Jennifer, chamaram também o promissor Chris Pratt, de “Guardiões da Galáxia” e o diretor indicado ao Oscar por “Jogo da Imitação”, o sueco Morten Tyldun), este é um daqueles blockbusters bastante típicos, onde todas as escolhas visam sucesso de bilheteria, mas voltado para uma platéia menos adolescente e mais seletiva, como se pode notar pela elegante direção de arte e a condução sempre requintada do diretor.
Daí as pertinentes intenções dramáticas que se revelam na história de Jim (Pratt, revelando aqui uma inclinação maior para o drama), um ser humano comum, dentre milhares a hibernar em uma nave espacial cujo destino é uma colônia interestelar na qual chegará em 120 anos. Por um erro técnico e uma casualidade do destino, a cápsula de Jim inicia os procedimentos de despertá-lo com 30 anos após a partida. Ou seja: Ele tem 90 anos para perambular sozinho na gigantesca nave, até envelhecer e morrer antes de chegar ao seu destino.
Durante um ano, ele suporta as variações radicais da solidão –angústia, resignação, euforia, inquietude, desilusão, desespero –até que uma idéia súbita dá lugar a um sentimento novo: Empolgação.
E se ele acordasse outro passageiro?
E a escolha de Jim mostra que ele não é nada bobo –trata-se da linda escritora Aurora (Jennifer, numa personagem que leva, para fins de referência, o mesmo nome da “Bela Adormecida”). Após um breve tempo, no qual ele se martiriza pelo fato de estar colocando outro ser humano na mesma enrascada que ele, Jim a desperta, e aí o filme começa pouco a pouco a mostrar traços do romance espacial que deseja ser.
Há uma série de razões que levam essa primeira metade (que vai do perplexo despertar de Jim, passando pelo despertar de Aurora e culminando na construção da relação entre eles) a ser consideravelmente melhor do que a segunda, quando o roteiro arbitrariamente cria um perigo iminente que sozinho trata de amarrar de maneira pouco verossímil todas as pontas anteriormente soltas: Resolve os conflitos entre o casal protagonista, dá uma explicação relativamente plausível para o que lhes ocorreu, cria uma situação cheia de adrenalina proporcionando o intenso clímax e ainda dá um respiro na presença predominante de Jennifer e Pratt introduzindo por algum tempo um novo personagem na trama (Laurence Fishburne, que merecia papéis muito melhores do que este daqui) –se bem que, há também a participação algo alívio cômico de Michael Sheen como um andróide.
Mas, tudo isso são só considerações, os fãs de Jennifer Lawrence vão ficar satisfeitos com sua interpretação (que é muito boa, sim, e ela arrisca as cenas mais sensuais de sua carreira até então), seu carisma se provando autêntico numa produção refinada e cheia de classe, assim como também é satisfatória a presença de Chris Pratt.
Agora, frustrados de verdade ficarão os fãs do ator Andy Garcia que por ventura forem assistir este filme na intenção de vê-lo –ele aparece por alguns segundos num dos trailers: Sua aparição é tão rápida, instantânea e pífia que é de se perguntar o quê ele faz lá!

domingo, 30 de abril de 2017

Guardiões da Galáxia Volume 2

O primeiro filme dos Guardiões da Galáxia já aparece com freqüência nas listas de melhores filmes da Marvel Studios, e é bem provável que esta sua continuação direta passe, também ela, a integrar o apanhado de filmes mais prestigiados dessa editora tornada estúdio de cinema.
A razão é simples: James Gunn, roteirista e diretor do primeiro filme e deste também, retoma a trama e seus personagens com uma espontaneidade que poucas continuações têm.
Se no filme anterior, o terráqueo Peter Quill (Chris Pratt) auto-denominado Senhor das Estrelas, havia assumido para si a tarefa de gerenciar o grupo improvável formado por ele, a guerreira Gamorra (Zoe Saldana), o mercenário Drax (Dave Bautista), o guaximin Rockett (voz de Bradley Cooper) e a árvore ambulante Groot (que, nesta seqüência, é uma hilária e adorável versão bebê do personagem adulto com voz de Vin Diesel), nesta nova trama, esse objetivo se revela mais complicado do que parecia: Rockett, num ímpeto habitual, resolve roubar baterias alienígenas de um povo conhecido como Soberanos –baterias estas que deveriam salvaguardar de uma criatura.
Perseguidos pelos Soberanos, os Guardiões da Galáxia terminam encontrando Ego (Kurt Russell, sempre sensacional), um ser cósmico que se revela o verdadeiro pai de Peter (que ele procura desde o filme anterior), e o leva até seu planeta –na verdade, ele próprio É o planeta! –para lhe elucidar sua origem (e do porque, na realidade, ele é uma ameaça para todo o universo!).
Ao mesmo tempo, Rockett e Groot envolvem-se numa enrascada ao lado de Yondu (Michael Rooker, num dos melhores personagens deste novo filme), quando este sofre um motim promovido por seus piratas espaciais ao lado de Nebulosa (Karen Gillan), a vingativa irmã de Gamorra.
Entre os novos personagens que marcam presença estão a empara Manthis (Pom Klementieff), que os leitores de quadrinhos sabem que passará a integrar a equipe –e já demonstra aqui uma química hilariante com Dave Bautista –e rápidas aparições de Starhwak (Sylvester Stallone, que infelizmente não divide nenhuma cena com Kurt Russell para reeditar a parceria de “Tango & Cash”) e de outros saqueadores espaciais (vividos por Wing Rhames, Michelle Yeoh e Michael Rosenbaun), personagens que podem vir sem sombra de dúvidas a integrar uma nova equipe de heróis cósmicos da Marvel no futuro.
Ainda mais engraçado, vibrante e pontual em suas referências à cultura pop (assim como na primeira produção a seleção de canções da trilha sonora, com clássicos dos anos 1970, é de uma deleite espetacular) do que o filme anterior, este roteiro de Gunn volta seu olhar aos laços afetivos e familiares que unem seus interessantes personagens e explora maravilhosamente bem suas dinâmicas, obtendo sucessivas cenas que flutuam com naturalidade entre o humor, o drama, a tensão e a ação.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Hora Mais Escura

“Kill Bin Laden” era um projeto iniciado pela diretora Kathryn Bigelow quando o famigerado terrorista ainda era um alvo escorregadio para o FBI. Recém-saída da consagração de “Guerra Ao Terror”, ela retomava a parceria com o premiado roteirista Mark Boal para lançar um olhar algo irônico sobre uma missão fracassada que visava a morte do procurado terrorista.
O elenco contava com Joel Edgerton e Chris Pratt –uns anos antes de virar astro com “Guardiões da Galáxia” e “Jurassic World” –e deveria ter uma pegada muito parecida com “Guerra Ao Terror” onde as relações entre os soldados eram esmiuçadas em meio à cenas de ação e de tensão.
Em algum momento durante a gestação do projeto porém, um lance inesperado do destino interveio: A Casa Branca anunciou a morte de Osama Bin Laden pelas mãos do Team 6 numa bem-sucedida incursão em uma residência do Paquistão.
De uma hora para outra, o filme de Bigelow se tornava inesperadamente datado. A saída: Valer-se do orçamento, das cenas já filmadas, do trabalho de pré-produção em andamento e criar um filme praticamente novo, desta vez, bem mais ambicioso (como toca a uma diretora ganhadora do Oscar), que envolvia a caçada à Bin Laden e culminava em sua morte ocorrida em maio de 2011.
Dessa forma, “Zero Dark Thirty” –o novo título da produção –deixa de lado os soldados liderados por Edgerton e Pratt (eles agora interpretam o Team 6 e aparecem apenas na explosiva meia hora final do filme) e se concentra numa das analistas recrutadas pela CIA, a jovem agente Maya –vivida com espetacular vigor por Jessica Chastain –que, após os estarrecedores atentados de 11 de setembro de 2001, e o início da árdua operação de rastrear e eliminar o autor dos ataques, o líder terrorista Osama Bin Laden, toma para si a missão de encontrá-lo custe o que custar.
Ao longo de uma década, a obstinação dela, somado aos esforços de outros personagens que vão e vêm com o passar dos anos (e que expõe o sensacional elenco que Bigelow conseguiu atrair para sua produção, como Jason Clarke, Mark Strong, Jennifer Ehle, Edgar Ramirez, Kyle Chandler, Frank Grillo e James Gandolfini), vão levar as tensas investigações à uma casa no centro de Abbottabad, no Paquistão onde o terrorista finalmente é morto.
O roteiro de Boal surpreende por manter a excelência mesmo em face da alteração de sua proposta e, mais ainda, pela magnífica maneira com que parece abordar de forma precisa e minuciosa os fatos supostamente reais –que, mesmo correspondentes à realidade jamais poderiam ser comprovados pelo governo –onde executa uma reconstituição primorosa e vigorosa da extensiva caçada a Bin Laden, pontuada por riquíssimos detalhes logísticos, técnicos, circunstanciais e humanos.
Apagando quaisquer dúvidas acerca de seu talento, a diretora Kathryn Bigelow sobe um degrau além de seu "Guerra Ao Terror" entregando um trabalho ainda mais adulto e austero, orquestrado com perícia e precisão insuspeitas.
E abrilhantado, ainda por cima, por uma forte e convicta atuação de Jessica Chastain: Só Deus sabe o que levou-a a perder o Oscar de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence em seu “O Lado Bom da Vida”!

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Sete Homens e Um Destino

Péssimo sinal acerca da pouca criatividade que acomete Hollywood: Agora temos até mesmo a refilmagem da refilmagem!
Ainda que a maioria dos envolvidos, na produção e no marketing, tenham agido como se o “Sete Homens e Um Destino” de 1960 fosse uma obra original e não uma adaptação para o gênero de faroeste da mesma premissa básica do quintessencial “Os Sete Samurais”, de Akira Kurosawa, entretanto, se repararmos, ainda ali, havia uma faísca de inventividade (transpor a mesma trama para outra época, outro lugar e outro contexto permitindo, quem sabe, a alteração de toda sua percepção), todavia, o quê se tem aqui é, à princípio, uma repaginação passo a passo.
Contudo, em cerca de vinte minutos, o novo filme já está a oferecer elementos de sobra para a satisfação do expectador, tão escanteada por produções de péssima qualidade lançadas nesse ano de 2016 (e, talvez, por ser também um remake, quando penso nisso, é o catastrófico “Ben-Hur”, de Timur Bekmanbetov, que me vem a mente).
O gênero do faroeste já oferece um grande repertório de clássicos inestimáveis, conduzidos por verdadeiros mestres. Tais filmes são exemplares o suficiente para que o diretor Antoine Fuqua (aqui em sua terceira colaboração com o astro Denzel Washington) assista e observe como se faz. Ele ainda tem a seu favor um roteiro composto por minúcias astutas escrito por Nic Pizzollato (criador da série “True Detective”) que reinventa situações e constrói sólidos e distintos personagens.
Entre eles, Sam Chisolm (Washington, ótimo, dando continuidade à tradição dos faroestes de Quentin Tarantino, herdada dos exemplares dos anos 1970, com protagonistas negros), um honrado caçador de recompensas que coloca sua pistola a serviço dos apelos de uma viúva (a bela Haley Bennett) cuja aldeia precisa se ver livre da opressão provocada por um hostil comprador de terras (Peter Sarsgaard, esbaldando-se como vilão) que deseja vê-los despossuídos.
E aí, nesse ponto de partida, já se vê a pertinente referência que o roteiro deste filme faz com a atualidade: Não apenas é lembrada a questão da representatividade (não somente com o gesto de nomear o majestoso Denzel Washington como protagonista, mas ao dar grande peso e sentido na trama à uma personagem feminina que Não se torna interesse amoroso de nenhum dos heróis), como também o mote central –que nas versões pregressas resumia-se à tentativa dos oprimidos em livrar-se dos opressores –gira em torno da posse de terras,  e do monopólio do poder refletindo muitos aspectos da crise econômica que tem afligido os EUA e o mundo.
É lógico que, no percurso para cumprir a tarefa que resolve aceitar, Chisolm irá recrutar outros pistoleiros de aluguel como ele: O hábil Josh Faraday (Chris Pratt, de “Guardiões da Galáxia”, uma boa presença); o lendário atirador Goodnight Robicheaux (Ethan Hawke, fantástico nessa reunião com o astro Washington e o diretor Antoine Fuqua, quinze anos depois dos três realizarem “Dia de Treinamento”); assim como seu braço direito, o oriental manuseador de facas Billy Rocks (Lee Byung-Hun); o fora-da-lei mexicano Vasquez (Manuel Garcia-Rulfo); o truculento e implacável eremita Jack Horne (Vincent D’ Onofrio, tão sensacional quanto em sua personificação como Rei do Crime na série do “Demolidor”); e o pele-vermelha honrado e habilidoso no arco e flecha Red Harvest (Martin Sensmeier). Um conjunto de carismáticos personagens (como se pode ver) quase tão cativante quanto os divertidos e impetuosos cowboys do filme de John Sturgess, porém composto por toda a diversidade que os tempos politicamente corretos exigem numa produção deste escopo.
É esse grupo que, conduzido pela boa direção de Fuqua (talvez, seu melhor trabalho até então), ruma de encontro ao apocalíptico confronto final, uma junção hábil de ritmo, atmosfera, efeitos especiais, fotografia, montagem e trilha sonora (com um aproveitamento digno e nada vulgar da trilha clássica de Elmer Bernstein) cuja exuberância o cinemão hollywoodiano adora poder ostentar.

domingo, 25 de setembro de 2016

Guardiões da Galáxia

Até 2014, podia-se dizer que o Universo Marvel Cinematográfico vivia em sua zona de conforto: Os filmes individuais de seus heróis, fizeram sucesso e tiveram muito êxito em estabelecer os fundamentos desse universo, refletindo a mesma estrutura dos quadrinhos, culminando no filme “Os Vingadores”, onde todos se juntaram. A partir daí, eles podiam investir em intermináveis continuações, como pôde ser conferido com os divertidos, mas relativamente reciclados “Homem de Ferro 3” e “Thor-O Mundo Sombrio”, lançados em 2013.
No ano seguinte, contudo, a Marvel Studios mostrou que não estava para brincadeiras, e lançou dois projetos que estabeleciam muito bem os planos de aprimoramentos e melhoramentos almejados pelo estúdio –o espetacular “Capitão América-Soldado Invernal” e este “Guardiões da Galáxia”.
De longe, o projeto mais ousado já executado pela Marvel, “Guardiões...” não apenas era baseado em personagens completamente desconhecidos do grande público, como também –devido ao fato de ser uma aventura nos confins do espaço sideral –não oferecia muitas oportunidades para construir uma conexão imediata com os heróis mais famosos, além do detalhe desafiador de que dois de seus personagens principais eram um guaxinim falante e uma árvore ambulante (!).
O escolhido para capitanear a empreitada (e que recebeu relativa liberdade criativa da Marvel para tal) foi o diretor e roteirista James Gunn (de filmes díspares, independentes e inusitados como a ficção “Seres Rastejantes” e a comédia “Super”) que soube acrescentar à bem-sucedida receita de bons filmes da Marvel uma salutar irreverência.
A trama se inicia no ano de 1988 quando, ainda criança, o terráqueo Peter Quill é abduzido por uma nave alienígena que o leva da terra na mesma noite em que perde sua mãe. Vinte e seis anos depois, ele é um caçador de recompensas em outra galáxia auto-denominado ‘Senhor das Estrelas’ (personificado com excelência e bom humor por Chris Pratt), cujas atividades ilícitas o fazem prisioneiro ao lado de outras figuras inusitadas como a assassina verde Gamorra (Zoe Saldana, ótima), o tal guaxinim falante citado acima, Rocket (na voz de Bradley Cooper), seu melhor amigo Groot (por sua vez, a arvora ambulante, cuja voz de Vin Diesel diz apenas uma frase todo o filme: “Eu sou Groot!”), e o anti-social Drax (o ex-lutador Dave Bautista). Juntos pelo acaso, eles acabam compondo uma equipe que deverá salvar toda a galáxia do maligno Ronan, o Acusador (Lee Pace), cujos planos de grandeza envolvem apoderar-se do Orbe, uma das Jóias do Infinito, cobiçadas também pelo poderoso Thanos (Josh Brolin, afiando as garras para um personagem que deve ser um dos grandes antagonistas de um filme vindouro dos Vingadores).
O resultado foi um sucesso estrondoso, prova de que a Marvel tinha plena consciência de que haviam limites ainda não testados para a evolução (e direção) na qual os filmes adaptados de quadrinhos poderiam seguir, e muito desse êxito se deve ao tom contagiante e descontraído adotado pelo ótimo elenco.