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sexta-feira, 8 de julho de 2022

Thor - Amor & Trovão


 Se em “Thor-Ragnarok” o diretor Taika Waititi havia encontrado o que parecia ser enfim o tom certo para as aventuras de Thor –o de uma comédia do absurdo temperada com ação épica decalcada do “Flash Gordon” dos anos 1980 –em “Thor-Amor & Trovão” tais aspirações e, sobretudo, a necessidade muito mercadológica de superá-las, ameaçam ruir sob a pressão da própria narrativa.

Como em seu antecessor, “Amor & Trovão” pulsa espirituosidade, e até mesmo uma certa originalidade na maneira com que enxerga uma forma distinta de colocar seu herói mitológico num prisma diferenciado de graça, conflitos existenciais e visual arrojado, contudo, ao procurar ir um pouco mais longe do que foi “Ragnarok”, lhe aumentando o escopo e tudo o mais, este “Amor & Trovão” acaba também expondo as limitações de Waititi. Nota-se, agora, que ele perde um pouco a noção de seu humor a partir do momento em que se defronta com situações que perigam ser repetitivas, e que sua paciência para com as cenas de ação se esgota muito facilmente.

Experimentando uma crise existencial desde que deixou a Terra ao final de “Vingadores-Ultimato” acompanhado dos Guardiões da Galáxia, Thor Odinson (Chris Hemsworth, sempre formidável) revê sua identidade como super-herói –ele mal tem ânimo, ou motivação, para participar das injustificadas batalhas ao lado de seus novos companheiros. Ainda assim, seu caminho toma um novo rumo quando parte atrás do paradeiro de Lady Sif (Jamie Alexander, numa personagem que havia sido estranhamente esquecida em “Ragnarok”) e descobre que um certo Gorr, auto-intitulado Carniceiro dos Deuses, vem fazendo das suas. Vivido pela hábil concepção minimalista do sempre talentoso Christian Bale, Gorr é um personagem trágico como toca a todo bom vilão –suas incomensuráveis aflições sofreram tamanha indiferença da parte dos deuses para quem rogou ajuda que, uma vez dotado da famigerada Espada Necromante, ele decide dar cabo de todas as divindades universo afora.

Esses percalços levam Thor de volta à terra, onde se encontra a comunidade de Nova Asgard, remanescentes da destruição promovida em seu reino no último filme, e lá, em meio à uma batalha, ele reencontra Jane Foster, uma antiga ex-paixão –leia-se: A namoradinha do super-herói nos filmes “Thor 1” e “Thor 2”.

Interpretada por Natalie Portman, que na época havia acabado de levar o Oscar de Melhor Atriz por “Cisne Negro”, Jane Foster era, até então, algo entre uma donzela em perigo e um alívio cômico. Foi Taika Waititi quem convenceu a atriz a voltar ao papel prometendo-lhe um arco narrativo que parecia ser improvável de ganhar as telas de cinema: Nas HQs, Jane se torna digna de empunhar o Mjolnir –o martelo de Thor, feito em pedaços por Hela, a Deusa da Morte, em “Ragnarok” –e com isso adquire todos os poderes do Deus do Trovão convertendo-se numa versão feminina do herói e num dos tantos exemplos de empoderamento e emancipação que afloraram na cultura pop. Mais do que transpor essa trama para o audio-visual, o que Waititi faz aqui é finalmente mostrar porque uma atriz vencedora do Oscar está a desempenhar esta personagem: Se em “Ragnarok” ele remodelou Thor dando-lhe a ênfase de protagonista que outros diretores não souberam dar, em “Amor & Trovão”, ainda que ele mantenha o foco de seu enredo em Thor, ele transforma Jane numa heroína de fato, dando-lhe um propósito e, de certa maneira, um desfecho. Uma personagem numa jornada.

É claro que, no processo, muita galhofa é mostrada o que, na soma de seus elementos, quase converte “Amor & Trovão” numa comédia romântica: Lá está, afinal, o relacionamento cheio de altor e baixos entre dois personagens feitos um para o outro (ainda que os próprios sejam os únicos que não se deem conta disso); lá estão as piadinhas (algumas bem infames) que temperam as dores de amor com um aroma agridoce; e lá também está uma idealização muito cinematográfica das complicações românticas, onde elas ganham ares de conto de fadas. Se tudo isso é descoberto na moldura muito modernosa de um filme de super-herói, é porque trata-se aparentemente de uma das propostas da Marvel Studios nesta produção. Se “Viúva Negra” era um thriller de espionagem, “Shang Chi e A Lenda dos Dez Anéis” era um épico de artes marciais e “Dr. Estranho No Multiverso da Loucura”, um filme de terror, então, “Amor & Trovão” guardadas as devidas concessões com cenas de ação, batalhas e a profusão usual e incontornável de efeitos visuais, é deveras uma comédia romântica.

Desde os eventos bombásticos ocasionados em “Vingadores-Ultimato” muito se pergunta qual será o caminho trilhado pela Marvel daqui para frente. Ele ainda não ficou completamente claro, mas é visto, pelo que se observou até aqui, que o estúdio está disposto a pisar no freio: Afinal, é inconcebível entregar ano após ano um evento cinematográfico da estatura de “Ultimato”.

A saida, portanto, é experimentar com novas interpretações de gênero, daí a sensação de que, diferente de todos os longa-metragens que iniciaram seu festejado universo compartilhado, todos os filmes que integraram até agora a chamada Fase 4 parecem ser obras independentes, pouco ou nada ligadas umas às outras –ainda que, nas sutilezas, as ligações continuem todas lá.

Pela confiança depositada em Taika Waititi e pela natureza mais incomum do próprio protagonista, “Thor-Amor & Trovão” é a obra mais independente de todas as demais, narrativamente falando, o que significa que o expectador pode aproveitar seu humor claudicante (ora hilário, ora constrangedor), sua emoção ocasionalmente eficiente e o exuberante colorido de suas cenas por aquilo que realmente é: Um filme vibrante, ainda que imperfeito.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Os Miseráveis

Apesar de Anne Hathaway ter levado (com méritos) o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2013 pela sua poderosa presença como a trágica Fantine na primeira parte da trama (e ela de fato interpreta com esforço e primazia), o prêmio mais merecido para o filme de Tom Hooper foi mesmo o Oscar de Melhor Mixagem de Som.
Explica-se: “Os Miseráveis” é uma espécie muito incomum de musical; ele foi rodado com gravação sincrônica dos atores cantando para a câmera, a exemplo de muitas outras obras pregressas, no entanto, num escopo técnico antes tido por inimaginável, daí ser extraordinariamente notável a capacidade dos técnicos em capturar as vozes dos atores, filtrá-las de toda infinidade de sons poluentes e eventuais da cena e emoldurá-las com a melodia da trilha sonora para dali obter as músicas que compõem e ajudam sistematicamente a contar a história antes imaginada pelo escritor Victor Hugo no romance literário, e depois adaptada por Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, na versão teatral e musical que tanto sucesso fez nos palcos para então aqui ser vertida para o cinema.
O ano é 1817. Conhecemos o protagonista, Jean Valjean (Hugh Jackman, maravilhoso) um francês condenado à escravidão por ceder à fome; roubou um pedaço de pão para si a para a própria irmã. Durante sua liberdade condicional (que chega depois de 19 longos anos), Valjean aproveita e foge. Logo ele descobre que precisa abandonar sua identidade se tiver alguma intenção de prosperar naquela França do Século XIX: A discriminação para com ex-prisioneiros, como é o caso dele, chega a ser intolerável.
Descobre outra coisa também: O valor da solidariedade e do apego à Deus.
Cerca de oito anos se passam, e então Valjean (chamado agora pela nobre alcunha de Monsieur Prefeito!) é um homem rico, dono de uma tecelagem. É lá que trabalha Fantine (Anne), moça virtuosa (busca sempre fugir do assédio insidioso do contramestre) que não tarda a ter sua própria cota de drama: Mandada embora do emprego graças às crueldades perpetradas por suas colegas, Fantine não tem dinheiro para sustentar sua filhinha Cosette, e por conta disso, vende seus cabelos, depois seus dentes e, por fim, sua honra (se prostitui) para então perecer. Em seu leito de morte, Valjean –que sente-se culpado por não ter tido a oportunidade de ampará-la –lhe promete que será um pai para Cosette dali para frente, e a tira de seus insensíveis e inescrupulosos tutores, o casal Thénardier (interpretado com histrionismo por Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter).
Os anos tornam a se passar com Valjean sempre sob a sombra da rancorosa perseguição do obstinado Inspetor Javert (Russell Crowe, equilibrando a truculência do personagem com uma inesperada desenvoltura como cantor).
Então vivida por Amanda Seyfried, Cosette se apaixona por Marius (Eddie Redmayne), um jovem abastado que engrossa as fileiras da Revolução Francesa na luta pelos direitos do povo oprimido. Cosette e Marius formam com a filha dos Thénardier, Eponine (Samantha Banks, única oriunda da montagem teatral), um triângulo amoroso a movimentar a trama.
Neste ponto, Valjean se vê num dilema entre tornar a fugir (e recomeçar a vida), mais uma vez longe do encalço de Javert, ou finalmente separar-se Cosette, que ele ama como filha, deixando-a tentar a felicidade ao lado de Marius.
Não faltam tristezas em profusão a se abater sobre os personagens neste trabalho de Tom Hooper no qual o expectador deve saber, de antemão, que todos os diálogos são cantados ao invés de declamados –com isso, “Os Miseráveis” é uma sucessão de canções ocasionalmente antológicas, tão famosas que muitos talvez nem saibam que provêem desta obra, como é o caso da sofrida e ritmada “Look Down”, da célebre e visceral “I Dreamed A Dream”, da envolvente “My Life, A Heart Full Of Love”, e de várias outras.
Nesse sentido, o trabalho do diretor Hooper (que antes havia levado o Oscar de Melhor Filme por “O Discurso do Rei”) não prima por modéstia: Em sua exuberância rasgada e seu romantismo intoxicante, ele por vezes pode exaurir o expectador. Entretanto, para aqueles dentre o público que forem capazes de lhe fazer a travessia, “Os Miseráveis” reserva uma experiência de arrebatamento insuspeito e emoção irrestrita.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Um Conto do Destino

A carreira de Akiva Goldsman tem vários altos e baixos: Se por um lado foi responsável pelo roteiro de “Batman & Robin”, de Joel Schumacher, um dos piores filmes já lançados na década de 1990, por outro, ele conquistou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por seu bom trabalho no elogiado “Uma Mente Brilhante”, de Ron Howard.
Os acertos de sua trajetória, certamente mais do que os erros, o encorajaram a estrear também como diretor neste filme cuja trama, baseada no livro de Mark Helprin, ele cultivou por muito tempo. Sua longeva experiência na indústria arregimentou cintilantes participações de famosos para a produção –presenças que saltam aos olhos ao longo do filme.
Num prólogo que já deixa claro o tráfego da história por distintas épocas, descobrimos que o jovem orfão Peter Lake (Colin Farrell) é um ladrão na Nova York de 1916.
Perseguido pelo gangster que fora seu antigo contratador, Pearly Soames (Russell Crowe, demoníaco), ele tem a vida salva de modo bastante surreal por um cavalo branco (!) –é necessário que o expectador aceite de antemão a atmosfera mágica que envolve os desdobramentos de todo o filme a partir daí, caso contrário, corre o risco de ficar muito irritado.
Em sua fuga de Nova York, o reduto de Pearly, Peter encontra a jovem Beverly Penn (Jessica Brown Findlay, tão embriagada pela natureza lúdica da personagem que parece interpretar sob efeito de alucinógenos) e por ela se apaixona.
Mas, Beverly está morrendo de tuberculose. Em sua esperança, Peter anseia por um milagre, no entanto, os recursos satânicos de Pearly –que negocia com o próprio Lúcifer interpretado por Will Smith –sabotam as chances de seu amor por Beverly acontecer.
Ela morre, o que mergulha Peter numa amnésia que o transforma num mendigo sem identidade em Nova York ao longo de quase 100 anos (!).
Até que suas memórias são reavivadas por uma garotinha que padece de câncer. A mãe dela, Virginia (Jennifer Connelly), uma jornalista, passa a ajudar Peter na tentativa de compreender as razões, um tanto incompreensíveis, do porque sua existência desafia o tempo –e do porque ele ainda tem uma tarefa a cumprir.
Munido de um produção requintada –na qual a passagem do tempo é registrada, sobretudo, numa direção de arte prodigiosa –Akiva Goldsman moldou um drama romântico de elementos fantásticos que nunca se harmonizam ou fazem sentido em algum momento. As referências para com a religião embutidas nas caracterizações de santos e demônios (nunca, porém, denominados assim) supostamente seriam o incremento da faceta sobrenatural da narrativa, mas nada disso, nem o capricho técnico, nem o ostensivo elenco, ajudam a tornar envolvente seu ritmo lento e monótono, culpa da completa limitação de seu diretor.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Boy Erased - Uma Verdade Anulada

A segunda incursão do ator Joel Edgerton na direção depois do suspense “O Presente” tem uma inclinação muito mais drástica ao drama.
Australiano, Edgerton trouxe para seu filme as presenças dos astros Nicole Kidman e Russel Crowe, também eles australianos, promovendo assim o primeiro encontro deles na tela.
Contudo, é o jovem Lucas Hedges (de “Lady Bird” e “Manchester À Beira-Mar”) que protagoniza o filme. Ele vive o jovem Jared Eamons, filho de pais fervorosamente religiosos (o casal formado por Nicole e Crowe).
Quando as tendências homossexuais de Jared começam a ficar mais evidentes após sua ida para a faculdade, o pai –que era pastor religioso –toma uma atitude radical, aconselhado pelos anciões de sua congregação: Interna Jared numa instituição que alardeia uma espécie de “cura gay”.
A ida para lá –aos cuidados do pregador Victor Sykes, vivido pelo próprio Joel Edgerton –e a rotina esmagadora da qual vai gradativamente se conscientizando é o cerne dramático em torno do qual o filme gira.
Não totalmente desprendido dos expedientes de gênero de seu trabalho anterior, Joel Edgerton ainda faz de seu filme, em alguns aspectos, um suspense: Ele lança mão de flashbacks, artimanhas e da construção de clima para tentar capturar a atenção do expectador.
Entre o talento genuíno do elenco notável que conseguiu reunir, o drama humano bastante válido ao qual tenta dar voz e sua tendência inconsciente de inclinar-se ao enfadonho, “Boy Erased” atinge um resultado dúbio: Quer ser contundente na medida em que quer ser também pretensamente comercial –duas facetas que se neutralizam o tempo todo –terminando nem muito lá, nem cá; seu retrato dos percalços angustiantes de aceitação do homossexualismo tem em Lucas Hedges um intérprete capaz e perspicaz, mas perde disparado, no todo, para as grandes obras que já versaram sobre esse mesmo tema.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2001

Um ano com algumas curiosidades como a dupla indicação à Melhor Diretor para Steven Sodenbergh por “Erin Brockovich-UmaMulher de Talento” e “Traffic” –culminando na vitória por esse último –e o reconhecimento inédito de um filme estrangeiro nas dez indicações para “O Tigre e O Dragão” (que acabou vencendo quatro merecidos prêmios).
Foi uma premiação bem distribuída, com o grande vencedor da noite sendo o magnífico “Gladiador”, de Ridley Scott, e embora seu astro, o ótimo Russell Crowe tenha levado também a estatueta de Melhor Ator, muitos acreditavam que esse prêmio seria mais justo nas mãos de Tom Hanks, por “Náufrago”.
Entre os cinco principais indicados, contudo, a grande pergunta era o quê “Chocolate” fazia ali, havendo grandes obras como “Quase Famosos”, “Garotos Incríveis”, “Contos Proibidos do Marquês De Sade”, “Billy Elliot” e até mesmo “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, dos Irmãos Coen, para figurar em seu lugar.

MELHOR FILME
"Gladiador"

MELHOR DIREÇÃO
"Traffic", Steven Sodenbergh

MELHOR ATRIZ
Julia Roberts, "Erin Brockovich-Uma Mulher de Talento"

MELHOR ATOR
Russell Crowe, "Gladiador"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Marcia Gay Harden, "Pollock"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro, "Traffic"

MELHOR FOTOGRAFIA
"O Tigre e O Dragão"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Into The Arms of Strangers-Stories of the Kindertransport"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Big Mama"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"O Tigre e O Dragão" (Taiwan)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"U-571 A Batalha do Atlântico"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Gladiador"

MELHOR MAQUIAGEM
"O Grinch"

MELHOR FIGURINO
"Gladiador"

MELHOR SOM
"Gladiador"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"O Tigre e O Dragão"

MELHOR TRILHA SONORA
“O Tigre e O Dragão"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Things Have Change", de "Garotos Incríveis"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Quase Famosos"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Traffic"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Father and Daughter"

MELHOR MONTAGEM
"Traffic"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Quiero Ser”

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Mestre dos Mares - O Lado Mais Distante do Mundo

É menos um filme de guerra e mais uma aventura sobre o mundo dos navegadores daquele período (1805) este elogiado filme no qual o diretor australiano Peter Weir realiza um épico de forte inclinação anacrônica, com narrativa, vocabulário e melodia de um filme feito na Velha Hollywood –e que, por isso mesmo, pouco acessível parece ser à platéias mais jovens.
Com efeito, ele conta a história de como, durante as Guerras Napoleônicas, o Capitão Jack Aubbrey (Russell Crowe, em seu auge) conduz sua eclética tripulação pelos sete mares, enfrentando problemas de convívio e atribulações comuns a um grande navio, enquanto experimentam a tensão de um possível e iminente combate com os espectrais navios da frota francesa. A partir dessa premissa –que a maior parte dos diretores usaria como ponto de partida para um filme cheio de cenas de ação –Weir enfatiza a minúcia, a dinâmica e a condição humana: Interessa a sua narrativa as relações que camaradagem ou não que se estabelece entre os indivíduos que dividem o convés, às vezes ao longo dos anos, as histórias que relatam uns aos outros, a impressão furtiva dos novatos, a hierarquia que vez ou outra sofre alguma torção em função das circunstâncias, e as reações profundamente humanas.
Ele começa e termina com duas prodigiosas cenas de batalha, contudo, excetuando-se isso, o filme de Weir não ação. A guerra, quando muito, é mencionada como um fator estratégico pelos personagens, e mais se fala dela do que se vê de fato. Ela surge na apreensão que toma os marujos, nas constantes deliberações do capitão. Na atmosfera preocupante que de vez em quando aflige a tripulação.
Após ter o navio H.M.S. Surprise avariado em um conflito inesperado, o Capitão Aubrey, da Marinha Britânica, conduz sua embarcação e seus homens pela costa da América do Sul numa tensa caçada ao navio francês que o emboscou.
Seu melhor amigo e conselheiro, é o médico do navio, Dr. Stephen Maturin (Paul Bettany, excelente) com quem compartilha as incertezas de ver sua tripulação passar por revezes de fome e exaustão na busca por superar seu adversário.
Tudo no filme de Weir depõe a favor de seu retrato elaborado e meticuloso da vida marítima: A fotografia de Russell Boyd (ganhadora do Oscar) se esmera em cenas que ilustram a recriação brilhante do dia-a-dia no Surprise, ao mesmo tempo em que captura instantes de grande beleza na paisagem natural; o elenco –que além de Crowe e Bettany, inclui James D’ Arcy, Billy Boyd (de “O Senhor dos Anéis”) e Richard McCabe –dedica-se a uma interpretação coletiva de posturas formais e estudadas com imensa atenção na reconstituição comportamental; e a direção de arte impõe um nível de preciosismo e detalhamento que chega às raias do documental.

Esse esforço traz uma autenticidade vívida e perceptível à encenação e à reconstituição, mas são muitos os que observam a maneira com que a direção de Peter Weir se opõe à dar uma estrutura mais comercial ao seu épico, valorizando mais a contemplação da natureza praticada por Maturin, as interações entre ele e Aubrey, e a rotina marítima como um todo.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A Múmia

O cinema comercial vive de tendências. Pode até parecer difícil de acreditar que no passado os filmes não eram concebidos para terem continuações –eram histórias fechadinhas com começo, meio e fim –essa foi apenas uma das primeiras tendências. Outras vieram como recentemente, a mania de gerar trilogias –lançada com o sucesso esmagador de “Senhor dos Anéis” –agora, a mais nova tendência do cinema hollywoodiano são os “universos compartilhados”.
Conceito inaugurado pela Marvel Studios –e que faz sentido em seu contexto, já que todos os personagens adaptados para tela grande, de fato, habitam o mesmo universo nos quadrinhos –ele foi seguido pela DC Comics (que, pelos estúdios da Warner, tenta à duras penas repetir o mesmo êxito), e por todos os estúdios com franquias em potencial: A Fox e seus “X-Men”, a Paramount com “Transformers” (reza a lenda que o filme mais recente irá gerar diversos derivados), a própria Warner (com o universo de monstros, “Kong” e “Godzilla”) e a Disney, já proprietária da Marvel, mas que também dispõe da franquia “Star Wars”.
Dentre esses, é curiosa a iniciativa da Universal, estúdio que abrigou muitos monstros clássicos do cinema –os chamados “Monstros da Universal” –como o “Frankenstein”, de James Whale, “A Múmia”, com Boris Karloff, “Drácula”, de Todd Browning, e outros.
É essa mesma Universal, munida dessas criaturas clássicas, que segue agora os passos da Marvel com a implementação de seu assim chamado “Dark Universe” –um universo dentro do qual seus monstros ganharão filmes solo (contando suas histórias numa vibração ao estilo ‘super-herói’) para então se reunir numa provável mega-produção (tal e qual foi “Os Vingadores”). O filme a representar o ponto de partida para essa iniciativa é este “A Múmia”, com Tom Cruise. Justamente por todo esse novo objetivo mercadológico, este é um filme muito diferente da famosa produção estrelada por Boris Karloff nos anos 1930, ou mesmo da diversão escapista que rendeu três filmes protagonizados por Brendan Fraser em 1999, 2001 e 2008.
Tom Cruise é Nick Mortom, uma espécie de soldado da fortuna, que persegue a pista de um achado arqueológico no Iraque, com a intenção de obter dinheiro fácil. Ao lado da especialista Jenny Halsey (Annabelle Wallis, linda, carismática e a melhor coisa do filme), ele desenterra o sarcórfago onde jaz os restos mortais da princesa Ahmanet (a bela e atlética Sofia Boutella, de notáveis interpretações físicas como em “Kingsman-Serviço Secreto” e “Star Trek-Sem Fronteiras”) e desperta, junto com ela, uma maldição: Compactuada com Seth, o deus egípcio da morte, Ahmanet adquire poderes sobrenaturais (com os quais ela pode se regenerar sugando a vida de outros desavisados e criar uma legião de zumbis) e deve selecionar um escolhido para receber a entidade do próprio Seth para vir ao mundo.
E esse escolhido é Nick!
Para ajudá-los, mas nem tanto, surge o misterioso personagem do Dr. Henry Jeckyll (Russell Crowe, numa piscadela referencial, interpretando o protagonista de “O Médico e O Monstro”), a frente da organização Prodigium que deve significar o elo principal entre os demais personagens desse Dark Universe.
Pouco se vê, afinal, de ‘múmia’ aqui: O monstro envolto em bandagens, eternizado no filme antigo é, quando muito, uma sutil referência. Toda a premissa –que, em outro caso, renderia um filme soturno de terror –é manipulada pelo diretor Alex Kurtzman (roteirista de longa carreira em Hollywood, tendo estreado na direção com “Bem-Vindo À Vida”) que dela extrai uma aventura exuberante no acabamento dos efeitos visuais e algo irregular no fôlego constantemente renovado de suas cenas de ação, o quê termina refletindo de fato a personalidade de seu astro: O personagem de Tom Cruise, no início retratado como um protagonista aventureiro de presença cuidadosamente descuidada dentro da trama, após uma série de manobras mirabolantes do roteiro acaba se tornando o centro de todas as questões sobrenaturais que se empilham com certo exagero no clímax.
É bem provável então que seja o personagem de Tom Cruise –e não a ‘múmia’ propriamente dita, o personagem de Sofia Boutella –quem vai marcar presença novamente nas vindouras produções do Dark Universe.
Mas, quer saber? Quem realmente valeria a pena ser vista de novo é a charmosa e irresistível mocinha vivida por Annabelle Wallis.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Los Angeles - Cidade Proibida

Uma pena que na cerimônia do Oscar de 1997, este espetacular “Los Angeles-Cidade Proibida” tenha batido de frente com um rolo compressor chamado “Titanic”, que acabou levando 11 estatuetas. “Los Angeles...” terminou a cerimônia com duas estatuetas (de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz Coadjuvante para Kim Basinger), o quê não basta para premiar sua excelência: Em outros anos certamente seria esta produção requintadíssima a grande vencedora da noite.
Três detetives de polícia na Los Angeles dos anos 1930, o truculento e determinado Bud White (Russell Crowe, tão formidável quanto em seu filme seguinte, “Gladiador”), o recém-formado e meticuloso Ed Exley (Guy Pierce) e o ponderado e bom vivant Jack Vincennes (Kevin Spacey), se vêem, de diferentes formas, às voltas com uma conspiração criminosa que se estende até os núcleos de liderança do departamento de polícia.
Uma dissertação sobre a corrupção moldada pelo diretor Curtis Henson, travestida do mais charmoso cinema que a generosidade de um estúdio pode produzir, mas ainda assim preservada em todas as suas inflexões de intimismo e questionamento –seu protagonistas são tragados por aquilo que crêem enfrentar, como Bud White, notoriamente violento com homens que agridem mulheres, mas cujos meandros tentaculares e insidiosos da intriga em que está envolvido irão levá-lo a agredir Lynn (a personagem de Kim Basinger) por quem se apaixona.
Uma referência e uma reverência ao gênero film noir, concebida por Curtis Henson, que urge aqui sua mais perfeita obra: Em tudo e por tudo, este é um trabalho de absoluto primor cinematográfico, onde a perfeição de seu ritmo e de sua condução serve aos propósitos de um roteiro (elaborado em minúcias rocambolescas por Brian Helgeland e pelo próprio diretor Hanson) escrito com equilíbrio, desenvoltura e plena noção de atmosfera, mostrando também uma das mais prodigiosas utilizações do campo e contracampo vistas no cinema.

domingo, 16 de abril de 2017

Uma Mente Brilhante

"Você é minha razão de existir. Você é todas as minhas razões."
Embora brilhante, John Nash (Russell Crowe, em estado de graça) não conseguia se adaptar nem mesmo ao ambiente intelectual e culto da rigorosa academia à qual estudava.
Seu único amigo parecia mesmo ser o prestativo e descontraído Charles (Paul Bettany).
Apenas de uma coisa Nash era absolutamente convicto: A do quão genial ele era, e de que, em algum momento, tal genialidade o conduziria também à grandeza.
Até lá, ele dividiu-se, depois de formado, entre a vida matrimonial com sua bela esposa Alicia (a maravilhosa Jennifer Connelly), as ocasionais e cada vez mais dispersas aparições de Charles, e um trabalho ultra-secreto para o governo, na forma do ameaçador agente Parcher (Ed Harris).
Mas, havia algo de errado.
E isso pode alterar toda a percepção da realidade que Nash (e o expectador) possuía até então –a partir da extraordinária história de John Nash, um gênio da matemática cujo grave problema de esquizofrenia passou despercebido boa parte da sua vida, inclusive da própria esposa, o diretor Ron Howard constrói seu melhor e mais maduro trabalho, amparado num roteiro magnificamente bem organizado e estruturado por Akiva Goldsman.
Quando quase sucumbiu a doença, Nash decidiu contra todos os conselhos e probabilidades médicas evitar os pesados medicamentos que poderiam destroçar sua mente, para em vez disso simplesmente encontrar uma maneira de aprender a conviver com a doença.
Conseguiu viver e se recuperar para ganhar o prêmio nobel de economia em 1994.
Essa surpreendente história real (e transposta para as telas de cinema de modo a realmente preservar-se surpreendente) é o temo deste filme que, em 2001, surpreendeu público e crítica ao ganhar o Oscar de Melhor Filme, superando o favorito "Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel".
Qual produção é, de fato, merecedora do prêmio (e, para tanto, marcante na história do cinema) é passível de discussão, mas não a qualidade do trabalho de Ron Howard que entregou um filme pontuado por aspecto notáveis e momentos comoventes.

sábado, 1 de abril de 2017

Robin Hood no cinema



Os mais distintos personagens e personalidades já povoaram as obras de cinema desde que a sétima arte foi concebida e adquiriu seu status de entretenimento popular. Drácula. Sherlock Holmes. Jesus Cristo. Entre eles, certamente está também o galante fora-da-lei que vive para atazanar a vida do xerife de Nothingham e maneja arco e flecha como ninguém.
As diferentes personificações de suas aventuras vão do humor assumido à mais comercial das aventuras, da descontração ao compromisso sério e respeitoso com a lenda, passando por reinvenções que visitam os mais diferentes gêneros e propostas.
Aqui, alguns deles:
As Aventuras de Robin Hood (1938)
Inicialmente dirigido por Willian Keighley, mas depois substituído por Michael Curtiz (de “Casablanca”) sob pretexto de que as cenas de ação, sem um realizador experiente, careciam de brilho, este clássico do capa & espada conta a história do fora-da-lei Robin de Locsley (um vistoso e fotogênico Errol Flynn, por muito tempo o grande astro desse gênero) que, escondido na floresta de Sherwood, roubava dos ricos para dar aos pobres desafiando assim o xerife de Nothingham, e ajudando os oprimidos camponeses, durante um período de opressão em que o perverso Rei João substituiu Ricardo Coração de Leão quando este havia partido para lutar nas Cruzadas em Jerusalém.
O conto de Walter Scott ganha aquela que, na opinião de muitos puristas, é sua versão definitiva, ganhadora do Oscar de Melhor Trilha Sonora.

Robin Hood-O Invencível (1960)
Longe de seu habitat natural –os filmes de terror dos estúdios Hammer –o diretor Terence Fisher trouxe a tiracolo um de seus astros recorrentes (Peter Cushing), e fez uma versão muita particular da lenda, concebendo uma trama que desvia-se dos acontecimentos mais conhecidos que cercam os personagens.
Nesta produção curiosa, Robin é interpretado com uma ponta de astúcia e ambigüidade –oriundas da formação artística do diretor Fisher, certamente –por Richard Greene, e trás consigo uma Lady Marian surpreendente num registro muito mais sensual do que pudico, personificada por Sarah Branch.

Robin Hood (1973)
Durante muito tempo tido como uma das referências da clássica história, o desenho da Disney –no qual Robin Hood ganha as formas e expressões ladinas de uma raposa –pode até frustrar quem espera por uma animação no patamar de qualidade do estúdio: A Disney enfrentava na época um período de reestruturação interna que prejudicou bastante o resultado final.
Robin Hood é um fora-da-lei que vive a perturbar as autoridades de Nothingham, sobretudo seu xerife, em função de sua luta para "roubar os ricos e dar aos pobres". Seu charme ousado e galante conquista inclusive o coração de Lady Marion, e a ira do Rei João. Lembrado sempre como um dos mais insatisfatórios desenhos da Disney, provavelmente por ter sido produzido num período em que os estúdios passavam por uma transformação profissional, logística e conceitual, é de fato, equivocado, na decisão de transformar a história de Robin Hood num emaranhado de cenas cômicas e dispersas que não dão unidade alguma à história e, sobretudo, ao colocar animais interpretando personagens humanos.

Robin Hood-O Trapalhão da Floresta (1974)
Pouco depois à animação da Disney, foi a vez dos Trapalhões lançarem a sua própria versão da lenda. No entanto, os Trapalhões, como eles passaram a ser conhecidos, não haviam sido formados ainda naquele ano de 1974 –os integrantes que vemos aqui se resumem a Didi (Renato Aragão, que neste filme leva o nome de Zé Grilo) e Dedé Santana (chamado aqui de Willian), e próprio humor feito por eles aqui não é tão inofensivo e dirigido às crianças como, aos poucos passou a ser feito, mas a história, em sua tentativa algo satírica de transpor a lenda de Robin Hood para o contexto brasileiro –inclusive com um sutil subtexto a falar sobre os latifundiários e sua opressão ao proletariado –revela-se tão notável quanto curiosa, responsabilidade certamente da condução do diretor J.B. Tanko, realizador dos melhores filmes dos Trapalhões.
Na trama, Rei João é João Climério e Ricardo Coração de Leão é seu meio-irmão Ricardo que vai fazer um safári na África (!), deixando sua fazenda à mercê dos ditames tirânicos do vilão.
O grupo de foras-da-lei é, assim, um bando de aldeões que resolve perturbar o fazendeiro e seus capangas, lembrando um pouco o movimento sem terra –ainda que muito de suas caracterizações pareçam remeter à Revolta dos Farroupilhas.
Robin Hood (interpretado pelo galã Mário Cardoso que também participou de “Os Saltimbancos Trapalhões”) sofre um ferimento e, enquanto se recupera, é substituído em suas peripécias –no melhor estilo “Kagemusha”, de Akira Kurosawa!! –pelo personagem de Renato Aragão que, como sempre, apronta poucas e boas.
Décadas mais tarde, em 1990, Renato Aragão e seus companheiros (já compondo o grupo consagrado dos Trapalhões) voltaram a trabalhar numa nova trama envolvendo o personagem em “O Mistério de Robin Hood”, mas sem qualquer relação de história ou de essência com a lenda clássica –sem falar que era uma porcaria!

Robin & Marian (1976)
Eis que o diretor Richard Lester –normalmente um operário padrão dos estúdios tendo entregado ao longo da carreira inúmeras obras de encomenda, ainda que de qualidade, como “A Vingança de Milady”, “Viagem Fantástica” e até mesmo “Superman 3” –realiza um de seus melhores trabalhos.
Sua visão sobre a lenda ousa imaginar Robin Hood e sua trupe de coadjuvantes, não no início, como normalmente o cinema faz, enaltecendo a juventude, mas no seu apogeu.
Quando a história começa, já contam duas décadas dos famosos feitos de Robin, agora tornado um valoroso guerreiro de confiança de Ricardo Coração de Leão –e, por conta de qual mérito, todo esse tempo transcorrido, ele passou lutando nas Cruzadas (o quê a história contada fez parecer ser uma obsessão para Coração de Leão).
Com a morte do Rei Ricardo, Robin regressa para a Inglaterra almejando enfim uma vida de paz, mas as intrigas de seus arquiinimigos, o Xerife de Nothingham e o Rei João, não cessaram, e ele se vê obrigado a reunir o antigo bando de foras-da-lei em Sherwood, bem como retomar a relação com Lady Marian, que ficou todo esse tempo em um convento.
Veteranos de talento a toda à prova surgem assim interpretando os personagens já num momento crepuscular como Sean Connery (Robin Hood), Audrey Hepburn (Lady Marian), Nicol Willianson (Pequeno John), Ronnie Barker (Frei Tuck), Robert Shaw (o xerife de Nothinghan), Ian Holm (Rei João) e Richard Harris (Ricardo Coração de Leão), contribuindo para fazer desta uma das mais desiguais e primorosas versões do conto de Walter Scott.

Robin Hood-O Príncipe dos Ladrões (1991)
Talvez o mais famoso dentre todos os filmes, muito por conta do enorme prestígio junto ao público que o astro Kevin Costner (recém-saído do oscarizado “Dança Com Lobos”) gozava à época. Ele e o diretor Kevin Reynolds tiveram uma longa e oscilante colaboração ao longo dos anos entregando trabalhos como o juvenil e divertido “Fandango”, o catastrófico “Waterworld-O Segredo das Águas” e a aclamada minissérie “Hatfields & McCoys”.
A trama vivenciada por Robin Hood aqui já era um indicativo das reinvenções nem sempre inspiradas que histórias clássicas como esta viriam a sofrer no futuro, nas mãos de produtores de Hollywood.
Neste filme, por exemplo, Robin Hood encontra os foras-da-lei de Sherwood já como um bando completo –nas outras versões, é o próprio Robin quem monta o grupo –o romance com Lady Marian (Mary Elizabeth Mastrantonio, uma das jovens atrizes em alta na época) tem elementos modernos de implicância, relutância e sensualidade; o vilão (Alan Rickman, divertido e caricato) não poderia ser mais pueril; o personagem inédito de Morgan Freeman (um mouro), de suma importância à trama, foi introduzido como forma de ilustrar esse objetivo de reinvenção (além de antecipar um processo de representatividade que hoje é via de regra entre filmes de estúdio); e as cenas com arco e flecha são turbinadas por efeitos visuais que especulam enquadramentos antes impossíveis.
Curiosidade: Sean Connery aparece aqui (numa ponta ao final) como Ricardo Coração de Leão, pelo que, à época, foi um cachê recorde por uma participação tão pequena.

Robin Hood-O Herói dos Ladrões (1991)
Este filme muito mais obscuro, além de ter a má sorte de ser lançado no mesmo ano do retumbante sucesso estrelado por Kevin Costner, também era prejudicado pelo fato de trazer uma série de escolhas equivocadas, a começar pela presença de Patrick Bergin como o Robin Hood mais desprovido de carisma da história (seu filme mais famoso é “Dormindo Com O Inimigo” onde ele faz o marido violento de Julia Roberts, e ele de fato serve mais para fazer vilões mesmo...).
Como se não bastasse, o diretor John Irvin se mostra pouco empolgado nas cenas de ação que quando não se desenrolam de maneira formulaica e mecânica apresentam uma sucessão de incoerências. Se há algum detalhe digno realmente de nota é uma jovem e sensual Uma Thurman interpretando uma Lady Marian carregada de presença e magnetismo.

A Louca! Louca História de Robin Hood (1993)
Inevitavelmente uma paródia. Entretanto, assinada por um dos grandes comediantes americanos dos anos 1970 e 80, o veterano Mel Brooks, mas que já mostrava sinais de cansaço nos anos 1990.
O galã Cary Elwes (de “Tempo de Glória” e que fez algum sucesso como uma versão moderna de Errol Flynn na fantasia “A Princesa Prometida”) é o Robin Hood nesta reencenação cômica e musical (!) da lenda –certamente, pegando carona do imenso êxito da produção com Kevin Costner, lançada anos antes –onde pouco se consegue achar de relevância: Mesmo as piadas parecem não ter maiores propósitos junto à narrativa, o quê é no mínimo frustrante quando se pensa que este é um filme do cara que fez “Banzé No Oeste” ou “Primavera Para Hitler”.
Para se ter uma idéia, este Robin Hood cômico é tão insípido que fica a dever (e muito!) à versão debochada e maliciosa do personagem que aparece, por brevíssimos minutos, na animação “Shrek”, de 2001.

Robin Hood (2009)
Já quase no fim da década de 2000, o diretor Ridley Scott e o astro Russell Crowe, vindos de uma longa e produtiva parceria (mas, cujo maior êxito foi indiscutivelmente “Gladiador”) resolveram revisitar a lenda a fim de conceber um projeto que, em suas tintas épicas e em sua ambientação medieval, resgatasse as mesmas características de seu grande sucesso.
O resultado foi uma reinterpretação bastante audaciosa da lenda que, além de tudo, almejava não apenas dar um inédito subtexto de realismo histórico, mas que também nascia com um esqueleto de saga: Este teria sido só o primeiro capítulo, firmando-se como uma espécie de “origem” de Robin Hood e não uma versão moderna de suas famosas aventuras –essas teriam vindo numa eventual continuação, se o filme tivesse feito sucesso suficiente de público.
Não fez.
Durante a incursão do Rei Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra, em Jerusalém, no Século 12, um grupo de seus arqueiros, liderados por Robin Longstride (Crowe, já um bocado velho para interpretar um herói no princípio de sua jornada), abandona as trincheiras na França, para retornar a sua terra natal. No caminho, Ricardo é morto, e os arqueiros se vêem no meio de uma conspiração para minar a coroa inglesa, agora sob o comando do irascível Rei João (Oscar Isaacs, muito mais jovem do que as versões anteriores). Levado pelas circunstâncias, Robin assume a identidade do cavaleiro morto, Robert Loxley, e assim apresenta-se no palácio real e, mais tarde, ao pai e à esposa do verdadeiro Loxley, em Notthinghan, onde vai a fim de devolver a espada do filho ao pai –neste filme, Lady Marian (interpretada pela sempre eficiente Cate Blanchett) não é filha do Rei João, numa das inúmeras licenças poéticas que se acotovelam no roteiro excessivamente rocambolesco e cheio de desdobramentos de Brian Helgeland (co-roteirista de “Los Angeles-Cidade Proibida”).
Mas o Rei João, em parte influenciado pelo traiçoeiro Godfrey (Mark Strong), colocará toda a Inglaterra ante uma invasão de tropas francesas, obrigando Robin a tornar-se líder de um bando de foras-da-lei.

sábado, 11 de março de 2017

Dois Caras Legais

O roteirista e diretor Shane Black (de “Beijos e Tiros” e “Homem de Ferro 3”) é fascinado por tramas rocambolescas, nada mais natural que investir num filme com ares detetivescos. E se ele vem acrescido de uma ambientação estilosa e sedutora como os anos 1970, tanto melhor.
Dito isso, há muitos elementos irresistíveis em “Dois Caras Legais”, a começar pela ótima dupla de protagonistas, os detetives particulares de diferentes índoles interpretados por Ryan Gosling (hilário) e Russel Crowe (ótimo como sempre). O primeiro tem lá seus princípios, mas eles batem de frente com o fato de que, no ramo competitivo em que está, sua má sorte pode, e deve, levá-lo à praticar atitudes questionáveis. O segundo, em sua truculência, está mais para leão-de-chácara do que para investigador, e isso se reflete na natureza dos casos que constantemente recebe.
Quando o personagem de Gosling é contratado para achar o misterioso paradeiro de uma garota chamada Amélia, e o de Crowe é incumbido de descobrir o quê se passou com uma atriz pornô conhecida como Misty Mountain, a trajetória dos dois colide e, aos trancos e barrancos, eles percebem que têm de se unir para elucidar um mistério que poderá esclarecer ambos os casos.
Curioso lembrar que Shane Black foi também o criador do conceito da série “Máquina Mortífera”, e realmente a exploração da dicotomia entre parcerias disfuncionais é uma constante em seus filmes, tão mais prazerosa quando se tem dois atores fantásticos como Golsing e Crowe. O filme de Black, no entanto, reserva outras maravilhas ao público: Por exemplo, a aparição de Kim Basinger, que se reencontra em cena, com Crowe, vinte anos depois de  terem protagonizado o primoroso “Los Angeles-Cidade Proibida” (uma homenagem, talvez?). E o quê dizer da jovem Angourine Rice, no papel da filha adolescente de Gosling, e que rouba praticamente todas as cenas em que aparece?
Compartilhando a ambientação e certa similaridade conceitual com um filme lançado em 2015, o bem mais autoral e denso “Vício Inerente”, de Paul Thomas Anderson, este divertido, acelerado e inquieto “Dois Caras Legais” se sobressai em meios às obras comerciais como a pequena gema que é.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Gladiador

Em face do clássico moderno (e atemporal) que este brilhante trabalho do diretor Ridley Scott se transformou, é um pouco difícil enxergar, hoje, um de seus mais notáveis méritos.
Em meados do ano 2000, era algo muito improvável ver passando nas telas de cinema um épico sobre a Roma Antiga, especialmente materializado pelos arrojados recursos de efeitos visuais da atualidade.
Já faziam décadas desde os últimos exemplares de tal gênero, outrora tão popular na Antiga Hollywood –sendo, talvez, o épico “Spartacus”, de Stanley Kubrick, o últimos de seus grandes exemplares.
Coube ao gênio criativo e à incisiva concepção estética de Scott a tarefa de recriar todo esse gênero nesta superprodução cheia de personalidade e fôlego.
Durante o império romano, Marco Aurélio (Richard Harris), o imperador, declara a seu filho e sucessor Commodus (Joaquim Phoenix) sua intenção de passar  seus poderes de comando a seu primeiro general Maximus (Russell Crowe), dando os primeiros passos em direção à dissolução do império e à restauração da república. Mas Commodus, ambicioso, assassina o próprio pai e assume seu império, fazendo com que Maximus após quase ser morto, tenha que fugir como escravo. Vendido a Proximo, um treinador de gladiadores (Oliver Reed, falecido durante as filmagens), Maximus aos poucos arquiteta seu retorno a Roma, como mais um dos gladiadores a entreter a plebe nas areias do Coliseu. Nada o impedirá de vingar-se de Commodus, e fazer justiça a Marco Aurélio.
Tão sensacional em sua audácia técnica quanto o foi “Blade Runner”, nos anos 1980, “Gladiador” representa um marco sem igual na carreira de Ridley Scott –o diretor cujo trabalho de maior expressão havia sido o premiado “Thelma & Louise”, num longínquo 1991, vinha de um período periclitante, onde contava quase uma década sem entregar um grande trabalho.

Com “Gladiador” ele provou que, ao contrário do que alguns detratores alardeavam, seu ímpeto narrativo tinha muito ainda a oferecer ao cinema: Este épico majestoso, empolgante e formidável foi o primeiro exemplar de uma nova fase magnífica, talvez a melhor de sua carreira, onde Scott entregou sucessivos trabalhos que , se não eram todos completamente espetaculares, pelo menos muitos deles vinha providos de ocasional brilhantismo e excelência, como “Falcão Negro em Perigo”, “Cruzada”, “O Gângster”, “Perdido Em Marte” e outros.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Noé

Descendentes dos filhos de Matusalém (Anthony Hopkins), Noé (Russel Crowe) e sua família singran por um mundo vasto e assolado pelas hordas de Tubal-Caim (Ray Winstone), orgulhoso descendente de Caim, o filho de Adão.
Preocupado com as possibilidades nefastas das visões que tem tido, Noé procura pelas sábias instruções de Matusalém, e descobre que o Criador pretende varrer a terra –e, por conseqüência, os erros da humanidade –com um dilúvio previstos para os anos vindouros.
O papel de Noé e sua família seria de construir uma arca que viesse a abrigar um casal de cada ser animal da criação.
Mas, Tubal-Caim não deseja aceitar com tanta irrestrição os desígnios do Senhor, e quer que seu povo esteja em peso dentro daquela arca quando o dilúvio chegar.
Autor de um poema, ainda durante sua vida escolar, sobre o episódio bíblico de Noé, o diretor Daren Aronofski conseguiu dar corpo e propósito a este projeto especialmente pessoal, onde ele lança ênfases bastante particulares a muitas passagens do conhecido com que, transfiguradas pelas justaposições e pela própria concepção de Aronofsky, ganham um novo viés, que certamente foi responsável por algumas controvérsias que rondaram o projeto.
“Noé” fala sobre sensos de responsabilidade, bem como da pérfida condição humana diante da inexistência absolutas deles; sobre obsessões auto-justificadas pela devoção (aliás, um temo especialmente caro em todo o cinema de Aronofsky); sobre as transformações que o homem inflige ao mundo, e que o mundo inflige ao homem.
São questionamentos, estes, sempre presentes em “Cisne Negro”, “Pi”, “Fonte da Vida”, filmes de Darren Aronofsky cuja diferenciação atroz de tema e ambientação só não desconcerta mais que a percepção catártica de que, em seu cerne, eles dizem uma coisa só.
 Russel Crowe mostra por que é um dos grandes astros de hoje; Jennifer Connelly brilha depois de tanto tempo sem fazer um filme bom de verdade; e Emma Watson começava a provar que há muito mais ali do que Hermione Granger.
Quando parecia que Aronofsky estava conduzindo o filme primorosamente para seu final, ele estava tão somente trilhando um caminho inesperado para torná-lo ainda melhor!

Um trabalho que divide opiniões, não há dúvida, mas cujo engajamento de seu audaz e arrojado realizador o impede de ser uma obra passível de ser ignorada.