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quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Gladiador II


 Diretor de prestígio, Ridley Scott, ao longo da carreira conseguiu emplacar exatamente dois filmes na almejada cerimônia do Oscar na categoria principal –foram eles, “Gladiador”, em 2001, e “Perdido Em Marte”, em 2016; “Falcão Negro em Perigo” não conta pois concorreu somente na categoria de Melhor Direção. Desses, o único a levar o prêmio foi o épico “Gladiador”. Essa talvez seja uma das justificativas para Scott, passados vinte e três anos depois, retomar a trama de um filme cujo desfecho era redondinho, tornando desnecessária qualquer continuação.

Embora saibamos muito do que se sucederá no filme bem antes da informação –fruto de uma era digital onde informações de bastidores, guinadas de roteiro e até detalhes da sinopse de um filme chegam ao público muito antes do filme propriamente dito –quando “Gladiador II” começa, pouca coisa do filme original em princípio nos é mostrada (salvo um breve resumo da trama nos créditos iniciais). Os elementos do aclamado filme original vão surgindo aos poucos, indicativos do diretor à moda antiga que Ridley Scott é –predicado que o torna a pessoa certa realmente para capitanear este tipo de épico.

O protagonista é Hanno (Paul Mescal, num esforço sobre-humano para igualar a imponência de Russell Crowe) que, ao começar o filme, encontramos na cidade de Numídia, no Norte da África, prestes a ser invadida pelo Império Romano. Com a cidade tomada –mérito das tropas sob o comando do General Acacius, vivido por Pedro Pascal –Hanno feito prisioneiro e sua esposa morta, todos os sobreviventes são levados à Roma, caindo nas mãos do negociante Macrinus (Denzel Washington, fantástico), fornecedor de gladiadores para a capital, Roma. O império, então governado pelos gêmeos Geta (Joseph Quinn, de “Um Lugar Silencioso-Dia Um”) e Caracalla (Fred Hechinger, da série “The White Lotus”) está longe do sonho de liberdade e igualdade almejado por Marco Aurélio no filme original: A ambição dos gêmeos sobrecarrega os exércitos na ânsia de conquistar mais e mais terras, o senado chafurda em corrupção e o povo, negligenciado, ganha como distração a violência do Coliseu para não provocar uma insurreição nas ruas.

Ladino e ávido nas maquinações políticas, Macrinus fareja as oportunidades de poder nesse cenário de inconstância e, mais que isso, identifica a capacidade para cativar a plateia como gladiador em Hanno. Ele compreende também, na mal disfarçada sofisticação de seus modos e nos indícios de uma apurada educação que podem haver segredos inesperados nas origens daquele prisioneiro raivoso. Errado não está: Hanno é, na verdade, Lucius  Verus Aurelius (que, no filme original, foi interpretado por Spencer Treat Clarke, de “Vidro”), filho de Lucilla (Connie Nielsen) e neto de Marco Aurélio, afastado de Roma pela própria mãe justamente pelo perigo que sua procedência real representava à sua vida. Mais que isso, numa manobra narrativa não tão original assim e que, pelo menos em “Gladiador”, sequer é mencionada (embora até faça algum sentido), é revelado que Lucius –ou Hanno, como queira –é, na realidade, filho de Maximus Decimus Meridius, o herói de guerra que sacrificou-se na arena do Coliseu em nome do sonho de Marco Aurélio, matando o então imperador Commodus.

Agora as coisas mudaram, embora nem tanto: Ainda governada por hedonistas inescrupulosos, Roma se encontra à beira de uma guerra civil, e o principal apoiador desse levante (ao menos, nas sombras) é o próprio Acacius que, agora, é casado com a própria Lucilla. Contudo, é nas artimanhas astuciosas de Macrinus que repousam as manobras que realmente fazem “Gladiador II” avançar –ele ganha fama e prestígio junto ao senado e aos imperadores graças ao surpreendente desempenho de seu novo gladiador Hanno –que curiosamente (veja só!) demonstra a mesma iniciativa e o mesmo carisma que Maximus demonstrou na arena, dezesseis anos antes –e vai escalando sua influência nas esferas mais altas do Império, visando o poderoso cargo de cônsul, enquanto promete para Hanno a única coisa que ele realmente deseja: A cabeça do General Acacius, que ele responsabiliza pela morte de sua esposa.

É muito provável que muito desse interessantíssimo arco narrativo do sensacional personagem de Denzel Washington tenha sido reaproveitado de ideias que Ridley Scott e os roteiristas puderam ter tido para o personagem de Oliver Reed no primeiro filme –Reed morreu de infarto durante as filmagens, faltando algumas semanas para terminar sua participação e é sabido, com isso, que a presença de seu personagem teve de ser improvisada (com modificações de roteiro e inserções de imagens digitalmente alteradas) , durante boa parte do último terço de filme.

Embora hajam mais personagens, e mais dinâmicas complexas a entrelaçá-los aqui do que no filme original, o roteiro de “Gladiador II” escrito por David Scarpa usa e abusa do fato de que todo o enredo estava estabelecido (e muito bem) já no primeiro filme, para em muitos aspectos ir direto ao ponto: São nas cenas de combate, predominantes a usar o Coliseu como palco, que todas as tramas e sub-tramas se desenrolam, entre elas, uma das primeiras, a cena da luta com o rinoceronte, incluída nesta continuação certamente por conta da lendária cena deletada do filme original em que haveria um rinoceronte também (essa cena deletada é um dos mais comentados easter-eggs da edição de colecionador do DVD de “Gladiador”) e a sequência onde uma batalha naval (!) é recriada em pleno Coliseu –ainda que o absurdo dessa reconstituição, com navios e a arena submersa em água, deixe dúvidas quanto à sua verossimilhança, esse tipo de batalha realmente foi encenada no Coliseu, reproduzindo o ambiente marítimo (!!).

Assim sendo, muito mais abertamente focado nesse senso de espetáculo (algo no qual Ridley Scott se tornou um especialista inquestionável), “Gladiador II” deixa um pouco de lado a relevância enquanto cinema e as reflexões de seriedade embutidas em seu filme original para se concentrar na satisfação comercial da plateia.

Resulta, com isso, numa obra envolvente, divertida e grandiosa, uma opção que certamente se revelava mais viável diante do desafio de dar continuidade à uma das mais reverenciadas produções cinematográficas do últimos trinta anos.

domingo, 25 de agosto de 2024

Alien - Romulus


 As críticas entusiasmadas a brotar pela internet estão corretas: “Alien-Romulus” é a melhor produção vinda da franquia dos últimos 38 anos, desde que Ridley Scott concebeu “Alien”, o brilhante filme inaugural e James realizou “Aliens-O Resgate”, a única continuação verdadeiramente válida e digna. Desde então, os exemplares da franquia –então, de propriedade da 20th Century Fox Studios –só fizeram minguar: Houve o problemático “Alien 3” dirigido por David Fincher sob pesada interferência dos executivos (cujo resultado final acabou sendo oscilante e claudicante em qualidade), o ainda pior “Alien-A Ressurreição”, de Jean-Pierre Jeneaut, um equívoco que pôs a série toda a perder. Após, dois crossovers com o alienígena de “Predador” relativamente festejados por alguns fãs, mas massacrados pela crítica, em 2012, o próprio Ridley Scott arregaçou as mangas para tentar restabelecer a dignidade da série com o pretensioso “Prometheus”, ambientado várias décadas antes dos eventos do filme original. À ele, seguiu-se logo depois “Alien-Covenant”, contudo, fracassos de público e de crítica, esses dois filmes traziam tanta ambição em seus roteiros (e tão pouca originalidade, ou mesmo, respeito pelos primeiros filmes) que também ameaçaram amargar a série por mais alguns anos.

No entanto, eis que, como quem não quer nada, o jovem diretor urugaio Fede Alvarez traz “Alien-Romulus”, ambientado cerca de vinte anos depois de “Alien” –ou seja, cronologicamente antes de “Aliens-O Resgate” –para revisitar a franquia e seus elementos icônicos, tão maltratados pelo pretenso atrevimento dos últimos filmes. “Romulus” já começa promissor: Numa nave onde os dejetos do famoso alienígena são evidentes, podemos constatar a mesma tecnologia algo retrofuturista que fazia o charme da obra de Scott e que, no entendimento particular e incomum de Alvarez, faz o charme deste filme aqui também. Como Ridley Scott vislumbrou no primeiro filme (e, ao que parece, esqueceu em “Prometheus” e “Covenant”), Alvarez entende que, naquele futuro, as viagens espaciais estão longe de serem eventos grandiosos ou eloquentes –os viajantes espaciais, exploradores e colonizadores do mundo de “Alien” são embrutecidos e práticos qual um motorista de caminhão, as naves possuem uma tecnologia básica, funcional e despreocupada com a elegância.

É nessas circunstâncias ingratas que vive Rain (Cailee Spaeny, a protagonista mais carismática desde Helen Ripley), moradora de uma colônia em outro planeta, revestido por uma névoa tão densa que não permite a entrada da luz solar, usado pelos humanos para ininterrupta mineração. Vivendo lá desde criança, tendo perdido os pais ainda pequena num acidente e criada, desde os doze anos pelo andróide humanóide Andy (David Jonsson), Rain conta as horas de trabalho que ainda deve para a Companhia, quando finalmente terá direito de embarcar numa nave e partir para outro lugar melhor que aquele. Porém, graças às políticas massacrantes e injustas da Companhia, o calendário de horas de serviço dos funcionários é constantemente atualizado, obrigando Rain a permanecer lá tal e qual os demais empregados que acabam passando a vida enfurnados naquele planeta.

A tão sonhada chance de escapatória de Rain e David surge de repente, e à princípio, exige certa maleabilidade moral: Chamada para junto de Navarro (Aileen Wo), Bjorn (Spike Fearn), Tyler (Archie Renaux, de “Viajantes-Instinto e Desejo”) e sua irmã Kay (Isabela Merced, de “Madame Teia”), que está grávida, Rain precisa ir com eles, numa nave clandestina até a órbita do planeta, onde eles descobriram uma estação espacial abandonada. O plano: Antes que seja descoberta por outros, esse grupo irá lá, e irá obter, entre os apetrechos que certamente estão à disposição, as preciosas cápsulas de criogenia.

A única coisa que, de fato, os aprisiona naquele planeta –a exatos 35 anos-luz de distância do Planeta Terra –é o fato de que as cápsulas de criogenia (que os permite dormir em animação suspensa por todos os anos em que a viagem interplanetária transcorre) só são disponibilizadas pela Companhia, que assim controla quem vai e quem fica no planeta. De posse dessas cápsulas, eles podem enfim partir para a Terra.

Dessa forma, o grupo precisa do auxílio de Rain e, principalmente, de Andy –sendo ele uma inteligência artificial, é o único capaz de acessar a cabine de comando do computador da nave (chamado Mãe, como no filme original). É claro que, uma vez lá dentro, os incautos membros do grupo irão tropeçar nos revezes mortais oferecidos pelas criaturas: Uma estação espacial da Companhia denominada Romulus & Remos (em alusão à lenda dos irmãos gêmeos criados por uma loba), o lugar outrora abrigou cientistas que tentaram (e conseguiram) procurar espécimes da mesma criatura que dizimou a tripulação da nave Nostromo, na intenção de estudar e controlar o xenomorfo. Entretanto, como todos os exemplares da franquia atestam, isso não é uma boa ideia –o lugar é encontrado todo destruído e seus ocupantes mortos, salvo um dos andróides, todo avariado, que responde por uma das participações (e referências) sensacionais do filme de Alvarez.

Embora a criatura Alien, em si, demore a dar as caras, e quando o faz não representa uma ameaça nos exatos moldes dos filmes anteriores, o trabalho que Fede Alvarez exerce é tão primoroso em seu suspense claustrofóbico, tão certeiro e empolgante nas referências inteligentes e bem administradas à praticamente todos os filmes anteriores da franquia, tão caprichado e atencioso na construção de bons personagens e de suas motivações (praticamente o calcanhar de Aquiles de todos os filmes que vieram após os dois primeiros) que é possível se deleitar com “Alien-Romulus” do início ao fim.

sábado, 30 de julho de 2022

Os Duelistas


 Antes de “Alien”, antes de “Blade Runner”, houve “Os Duelistas”: Com uma carreira já amplamente respeitada na área da publicidade, Ridley Scott resolveu lançar-se como diretor de cinema encomendando um roteiro que tivesse predicados de filme clássico.

O resultado acabou sendo este notável “Os Duelistas” que, embora não tenha sido uma obra de impacto ressonante como o foi o filme seguinte de Scott (um certo “Alien”), já indicava um diretor habilidoso sensível e competente; não apenas atento ao deslumbre visual inerente ao bom cinema (aspecto que, como publicitário, era até de se esperar dele), mas também zeloso para com os desdobramentos peculiares e singulares de uma boa história.

Durante as guerras napoleônicas, dois soldados franceses (um afável e pacífico, e outro de índole irascível e violenta) iniciam, por meio de uma discussão banal, um duelo que, por não se concluir, estende-se pelos próximos anos a prejudicar a vida de ambos.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Todo O Dinheiro do Mundo


 Sempre houve uma espécie de ênfase no materialismo presente no cinema de Ridley Scott; vindo da área da publicidade –onde a estética predominante sempre teve mesmo essa orientação –Scott vislumbrou, em filmes como “Alien”, “Blade Runner” ou “Gladiador”, os adereços visuais do mundo que cerca seus protagonistas, e que em grande medida os define. Claro que ele vislumbrava outras coisas também e, para aliviar sua barra, desde “Thelma & Louise”, Scott soube cada vez mais salientar as particularidades de uma bela história.

Em “Todo O Dinheiro do Mundo”, Ridley Scott, como quase todo bom autor de cinema, parece esforçar-se para fazer as pazes com mais essa inquietação, um exorcismo de seus demônios pessoais, e para efetuar tal gesto, Scott escolhe uma história real: A desastrosa e trágica trajetória da Família Getty. Girando em torno de seu patriarca, Jean Paul Getty (Christopher Plummer, soberbo), o filme coloca em foco a ambição e o conflito moral, ocasionado de raras e improváveis circunstâncias, entre o empuxo pessoal e ególatra que leva os homens à ascender e o discernimento ético do juízo de valor.

Se o livro original de John Pearson dedica um tempo desmedido para relatar a história de vida (e de riqueza) de Jean Paul Getty, sedimentando assim sua personalidade talhada em meio à rudeza das negociações bilionárias (algo como um William Randolph Hearst, de “Cidadão Kane”, filme que exerce tremenda influência espiritual neste daqui), o roteiro de David Scarpa é sucinto, indo com muito mais objetividade ao evento central da trama: O sequestro, em 1973 na itália, de Paolo Getty (Charlie Plummer, que NÃO tem nenhum parentesco real com Christopher!), o neto de J. Paul Getty, filho de Gail Harris (Michelle Williams, sempre maravilhosa) e de J.P. Getty Jr. (Andrew Buchan), filho de Getty.

Os sequestradores, um grupo comunista com desespero estampado no rosto, pedem 17 milhões de dólares como resgate à mãe de Paolo. Apesar da fama da família, Gail era uma mera dona de casa de classe média –o verdadeiro bilionário era seu sogro que relutava em dividir sua fortuna com qualquer um. Mesmo o próprio filho, J.P. Getty Jr., acabou trabalhando com o pai depois de adulto, após anos de indiferença, somente para viciar-se em drogas e virar uma marionete nas mãos do pai, servindo aos seus propósitos para tirar os netos da guarda de Gail.

Getty rechaça publicamente o pedido de resgate afirmando que não irá pagar valor algum no sequestro, entretanto, por baixo dos panos, chama um de seus mais hábeis negociadores, o ex-agente secreto e especialista em segurança Fletcher Chase (Mark Wahlberg), para tentar resolver o mais rápido (e barato!) possível a situação na Itália, na qual a polícia local, a cannabieri, apenas exerce sua incompetência.

Inicialmente, as investigações de Chase esbarram na possibilidade de que o sequestro possa ter sido cogitado pelo próprio Paolo –e nessa esteira, as assombrosas richas e mesquinharias envolvidas nas relações de J. Paul Getty com seus familiares vão se descortinando –contudo, a medida que a situação vai se tornando mais alarmante –Paolo, refém real num caso de sequestro real, acaba vendido para um mafioso italiano (Marco Leonardi) quando os comunistas se fartam da situação de impasse, escapa num terminado momento, mas é devolvido aos seus algozes por policiais corruptos, até que tem sua orelha direita amputada –Chase vai se dando conta da posição aflitiva e desamparada de Gail e do inacreditável descaso do Velho Getty.

Um dado curioso a respeito do filme, realizado durante a celeuma de denúncias de abuso sexual que dominou Hollywood em meados de 2017, é que “Todo O Dinheiro do Mundo” tinha, em princípio, o ator Kevin Spacey escalado como J. Paul Getty. Acusado de assédio e com a carreira, até então, seriamente comprometida, Spacey foi afastado da produção, e substituído por Christopher Plummer que, como é de hábito, entregou um trabalho sublime –seja pela excelência de sua performance, seja para apoiar o gesto de cancelamento de um abusador em potencial, no qual foi necessário refazer grande parte do filme devido à troca de intérpretes, a Academia de Artes Cinematográficas indicou Plummer ao Oscar 2018 de Melhor Ator Coadjuvante. Plummer compõe um homem incapaz de confiar nos seres humanos à sua solta, paranóico, demasiadamente ciente do interesse geral em sua vasta fortuna, e seu excesso de preocupação o leva a atitudes tão excêntricas quanto amorais –e nesse sentido, Ridley Scott não se furta de emoldurá-lo, como o protagonista do já citado “Cidadão Kane”, num casulo de riqueza: Getty é sempre mostrado em sua mansão com paredes abarrotadas de obras de arte, vestindo ternos finos, e sempre exibindo, ostentando ou exprimindo um luxo abundante, em contrapartida ao fato existencial onde se revela incapaz de abrir mão de uma fração desse luxo, ou em última instância, de abrir mão de qualquer coisa.

“Todo O Dinheiro do Mundo” reúne então diversas facetas a serem contempladas: É um filme cujos bastidores refletiram, à sua maneira, as mudanças imprevistas desses novos tempos, e, do ponto de vista de seu realizador, oferece um oportunidade para resgatar suas inspiração, sua temática incomum e as referências de seu estilo. Apesar disso tudo, a conclusão pesarosa das inacreditáveis falhas morais que a ganância pode exercer no caráter humano (um mote que o relaciona, também, ao clássico “O Tesouro de Sierra Madre”) leva a uma obra que deixa uma impressão amarga no expectador.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Algumas previsões para o Oscar 2022...

 No dia 8 de fevereiro de 2022 serão anunciados os indicados aos Oscar, e no dia 27 de março, dentre esses indicados, serão anunciados, por fim, os vencedores, as obras nomeadas pela Academia de Artes Cinematográficas como as melhores do ano. Sendo assim, é justo afirmar que, neste presente momento em que você lê estas linhas, a temporada de prêmios já se iniciou. Como na temporada anterior, as circunstâncias da pandemia tornam mais nebulosas as chances de palpites certeiros, com filmes podendo serem adiados e/ou lançados a qualquer momento –inclusive nas plataformas de streaming, de onde obras muito premiadas dos últimos anos andaram saindo. A imprevisibilidade dessas novas condições torna mais desafiador apontar prováveis eleitos e favoritos reais, mas, vamos tentar.


 A Crônica Francesa

Cada nova obra de Wes Anderson é um deleite. Diretor desigual, de um estilo que se aprimora a cada projeto, ele acrescenta, neste “A Crônica Francesa” um tom engajado e reflexivo ao primor narrativo de sempre e à excelência técnica que seus filmes já costumam oferecer. O elenco extenso e estelar é um convite à premiações, e dificilmente a Academia deixará este filme passar despercebido.


 Não Olhe Para Cima

A maior produção da Netflix até então, “Não Olhe Para Cima” é extraordinariamente ambicioso: Além de colocar encabeçando seu fenomenal elenco a dupla Leonardo Dicaprio e Jennifer Lawrence (provavelmente os dois maiores astros da atualidade), o filme tem direção e roteiro do aclamado Adam McKay, autor de dois filmes audazes, perspicazes e inteligentes que causaram rebuliço nos últimos anos, “A Grande Aposta” e “Vice”. Não obstante, as primeira críticas apontam uma obra brilhantemente equilibrada entre a sátira política e a competência cinematográfica, um “Dr. Fantástico” dos novos tempos.


 Amor Sublime Amor

O simples fato de ser um filme de Steven Spielberg já lança imediata luz sobre este projeto, agendado para estrear no fim do ano passado, mas adiado em um ano, assim como tantos outros. No entanto, “Amor, Sublime Amor” é também a audaz refilmagem de um filme, em princípio, impossível de se refilmar: O clássico tido como intocável de 1961, dirigido por Robert Wise e Jerome Robbins, ganhador de nada menos do que 10 prêmios Oscar! Ao mesmo tempo, Spielberg realiza aqui um sonho: O de enfim dirigir um filme musical; desejo que ele só chegou perto de realizar na cena de abertura de “Indiana Jones e O Templo da Perdição”. Não apenas o nome de um dos maiores diretores de cinema da atualidade (senão O maior) destaca este filme, como o fato de que todos os trabalhos de Spielberg recebem grande atenção no Oscar –e, com efeito, são obras excelentes.


 Duna-Primeira Parte

O clássico literário “Duna”, de Frank Herbert, transcorreu um longo e tortuoso caminho até ganhar uma adaptação digna e satisfatória para cinema. “Duna”, de Denis Vileneuve –que se incumbe de transpor a primeira parte do livro para as telas –segue percalços muito semelhantes à “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel”, de Peter Jackson, passando inclusive pelo belo desempenho de bilheteria e pela aclamação praticamente unânime da crítica. Além disso, a Academia adora quando Vileneuve se aventura com êxito no terreno da ficção científica, vide o reconhecimento caloroso dado à seus projetos anteriores, “A Chegada” e “Blade Runner 2019”.


 Spencer

O diretor chileno, Pablo Larraín, parece ter se especializado em grandes biografias de figuras fundamentais do Século XX. Ele já havia colecionado elogios tremendos por seu excelente “Jackie”, e tudo indica que repetirá a dose com “Spencer” –e, de quebra, ainda pode obter a primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz para Kristen Stewart –que desvenda a intimidade da icônica Princesa Diana.


 Casa
Gucci

Outro diretor cujos trabalhos, adentrem o gênero que adentrarem, frequentemente monopolizam as atenções da Academia é Ridley Scott. Aqui, ele abandona os épicos de praxe para focar numa trama que remonta a história real do assassinato de um herdeiro da grife Gucci por sua ex-esposa, Patrizia Reggiani. Como a maioria dos filmes com fortes predisposições para competir ao Oscar, este tem um elenco estelar escolhido à dedo: Lady Gaga (uma atriz consumada após o sucesso de “Nasce Uma Estrela”), Adam Driver, Jared Leto, Al Pacino, Jeremy irons e Salma Hayek.


 The Tragedy Of
Macbeth

Vinte e um anos depois dos Irmãos Coen terem realizado “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, adaptando a obra de James Joyce, “Ulisses” para uma pitoresca ambientação norte-americana, eles, de certa forma, tentam algo parecido com “The Tragedy Of Macbeth”, dando sua visão ímpar, incomum e certamente magistral para a conhecida tragédia criada por William Shakespeare, contando com o magnífico par central interpretado por Denzel Washington e Frances McDormand –ela, esposa de Joel Coen, um dos diretores, e vencedora do Oscar de Melhor Atriz por “Nomadland” na última premiação.


 Cry
Macho

Já de avançada idade, cada novo filme dirigido e estrelado por Clint Eastwood parece soar como sua despedida, seu testamento. Assim pareceu ser o elogiado “A Mula”, e assim parece “Cry Macho” que, sob muitos aspectos lança uma circunspecta luz analítica sobre as facetas humanas da persona à qual o próprio Clint Eastwood foi muito relacionado em toda sua carreira. Não deixa de ser uma proposta que remete ao elogiado “Os Imperdoáveis” que deu a ele o Oscar 1992 de Melhor Filme.


 Noite Passada Em Soho

O diretor Edgar Wright é um dos mais originais e brilhantes estetas a surgir no cinema nos últimos anos. Trabalhos como “Todo Mundo Quase Morto”, “Scott Pilgrim Contra O Mundo” ou “Em Ritmo de Fuga” proporcionam experiências cinematográficas plenas e inquestionáveis  e uma sintonia fora do comum com o que há de mais arrojado na cultura pop. Há tempos pedindo por um reconhecimento, Wright entrega agora uma obra vibrante, desafiadora  e surpreendente ao acessar ecos subconscientes do elogiado cinema da década de 1970 –como o ‘giallo’ e o Novo Cinema Britânico –e ainda traz duas protagonistas maravilhosas: Thomasin McKensie (de “Jojo Rabbit”) e Anya Taylor-Joy (de “O Gambito da Rainha”).

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Êxodo - Deuses e Reis

Apesar da lembrança ainda poderosa do épico clássico de Cecil B. De Mille, o diretor Ridley Scott arriscou em 2014, uma nova versão de “Os Dez Mandamentos”.
Vindo de uma tentativa controversa de retomar a série “Alien” (“Prometheus”), Scott moldou um projeto com deliberada aparência de Oscar: História mítica e grandiosa; diretor e equipe técnica renomados; elenco de astros talentosos; até mesmo a data de lançamento nos cinemas era estrategicamente propícia –meados de dezembro, fácil, portanto, de ser lembrado pelos votantes da Academia.
Deveras, Scott também tinha um objetivo bem claro em relação a essa nova repaginação: Abordar a jornada de Moisés (Christian Bale), o filho adotivo do Faraó que descobre ser o prometido libertador do povo hebreu, com um realismo táctil e desmistificador que ia de encontro aos tratamentos anteriores dados à história.
É razoável então que o retrato de Moisés, aqui, seja tão distinto da famosa personificação messiânica de Charlton Heston –Moisés quase ganha um viés de líder terrorista, enfatizado nas manifestações alucinatórias que ele alegadamente tem de Deus (que, na narrativa de Scott, adquirem a possibilidade de ser um mero surto).
E, dessa forma, são também abordados os outros momentos vultuosos da trama: As sete pragas do Egito (cujo respaldo científico de cada uma delas fornecido pelo roteiro faz lembrar o terror “A Colheita do Mal”, lançado pouco antes); a travessia do Mar Vermelho (da qual é removido o teor milagroso de que o mar se abriu, substituído por uma alternação ocasionada por maré alta e maré baixa); a concepção dos 10 mandamentos (mostrados como tendo sido esculpidos pelo próprio Moisés).
No raciocínio dos realizadores, essa é uma ideia que agrega audácia e originalidade à produção (e ainda uma chance de dar à história de Moisés toda uma reflexão ambígua), mas, no final das contas, isso resulta, em grande parte, frustrante.
Há, por exemplo, um premeditado clima de preparação quando o filme adentra seu último terço, no qual se cria expectativa para uma inédita batalha entre os oprimidos hebreus e os opressores egípcios.
Nada, porém, acontece: Scottt, apesar dos lampejos pouco contundentes de subverter a história conhecida, termina por segui-la com proximidade.
“Êxodo” é assim uma superprodução indefinida entre a intenção reverente de manter-se algo fiel ao filme clássico (almejando com alguma pretensão o reconhecimento que ele desfruta) e o ímpeto transgressivo (mais na teoria que na prática...) de oferecer um viés inesperado do famoso episódio bíblico.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Cruzada


Embora seja encarado, na opulenta filmografia do diretor Ridley Scott, como uma obra menor, o épico “Cruzada” é um belo exemplo das amplas capacidades dele como realizador; é, também, um exemplo de como se construir um épico de maneira satisfatória: Sua narrativa é tensa, intensa, romântica, grandiosa, lírica e violenta. E razoavelmente pontuada por referências históricas pertinentes.
Seguindo o mesmo procedimento criativo adotado por ele e por seus roteiristas ao criar “Gladiador”, Scott se detêm sobre um momento notável da História Antiga –neste caso, a transição entre a segunda e a terceira Cruzada de Jerusalém –criando um roteiro hábil em pairar sobre os eventos fundamentais daquele momento, centralizando tudo isso em torno de um protagonista fictício –talvez, o único personagem que não é real na trama.
Esse personagem vem a ser Ballian de Ibelin (papel que Orlando Bloom agarra com unhas e dentes a fim de se livrar da imagem de Legolas em “O Senhor dos Anéis”), viúvo e renegado ferreiro francês na aldeia em que vive devido ao suicídio da esposa.
Ballian junta-se ao grupo de cavaleiros templários de seu recém-conhecido pai (Liam Neeson) que o conduz até Jerusalém, então um pólo de interesses religiosos e intrigas palacianas por conta da tomada dos árabes, o que pode ser breve, pois Saladino (o ótimo Ghassan Massoud), o líder militar dos muçulmanos espia a frágil trégua mantida a duras penas pelo leproso rei de Israel (Edward Norton, irreconhecível atrás de bandagens e maquiagem).
O possível sucessor do rei, Guy de Lousigniam (Marton Csokas), é um homem selvagem e hostil que anseia por uma guerra contra os muçulmanos. É essa oportunidade que Saladino espera para arremessar suas tropas sobre a cidade e retomar Jerusalém. Nessa cruzada, o papel de Ballian poderá ser fundamental.
Ainda que ocupe um ingrato lugar intermediário e transitório na filmografia de Ridley Scott (não atinge o auge qualitativo e artístico que ele demonstrou, em mais que uma vez, que é plenamente capaz de alcançar; mas, está longe de ser uma de suas obras inferiores), “Cruzada” é um épico belíssimo com magníficas e bem realizadas cenas de batalha, além de um notável e variado elenco; acima de tudo, uma demonstração da técnica sólida e admirável de um especialista no gênero.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Hannibal


No que diz respeito à obra-prima “O Silênciodos Inocentes”, público e crítica durante muito tempo aguardaram por uma continuação, visto que essa continuação já existia nos livros escritos por Thomas Harris –dos quais “O Silêncio...” sequer é a primeira história...
A despeito do sucesso daquela obra, de sua inclusão perene no subconsciente da cultura cinematográfico e de sua consagração junto ao Oscar (de onde “Silêncio dos Inocentes” saiu com um número espantoso de cinco prêmios principais), demorou um pouco mais do que o ideal, e quando tal continuação veio, o público teve de se satisfazer com o mero fato do ator Anthony Hopkins voltar a dar vida a Hannibal Lecter; tudo o mais que fazia daquele filme uma experiência inigualável foi substituído: O diretor Jonathan Demme foi trocado pelo especialista em épicos Ridley Scott (recém-saído, por sinal, de “Gladiador”) e –talvez, o detalhe que mais incomodou os expectadores –a espetacular Jodie Foster (que pelo filme original arrebatou o Oscar de Melhor Atriz) não aceitou reprisar o papel da agente do FBI Clarice Starling, sendo substituída por Julianne Moore, uma atriz interessante e competente que não merecia essa ingrata tarefa.
Dez anos depois de ter fugido de seu cárcere, o brilhante e psicótico Dr. Hannibal Lecter reaparece em Veneza usufruindo da boa vida de homem culto que é.
Torna-se alvo de um plano vingativo movido por uma de suas vítimas do passado, Mason Verger, um raro caso de sobrevivente de um encontro com Lecter –todavia, ele foi terrivelmente desfigurado (o quê torna irreconhecível o ator Gary Oldman, ou qualquer outro que tivesse sido posto neste papel) –ao mesmo tempo, notamos que pouco a pouco o destino torna a colocá-lo no caminho da agente do FBI, Clarice Staling, então num ponto algo decadente de sua carreira –ela encontra particular obstrução do promotor Paul Krendler, personagem de Ray Liotta que, perto do fim, protagoniza a cena mais assombrosa e absurda da produção.
Após uma década ninguém duvidava de que seria difícil para o Ridley Scott (ou qualquer diretor que viesse a assumir essa tarefa) recriar a mesma atmosfera impressionante do filme de Jonathan Demme, ainda mais que, para essa empreitada, ele contava apenas com Anthony Hopkins no papel-título e não com sua notável antagonista, Jodie Foster, como a agente Starling –consequência disso, Scott cede à tentação de amplificar –ou explicitar –tudo o quê no filme anterior era pleno de sutileza.
O resultado: O palpitante suspense psicológico que elevava aquele filme é convertido aqui, sobretudo, nos trinta minutos finais, num festival de bizarrices travestido de registro psicótico com intenção de chocar; a elegância mórbida dá lugar à vulgaridade do terror gore.
Não que tais elementos não façam de “Hannibal”, no fim das contas, um filme divertido, mas ele está se metendo a dar continuidade a uma das grandes obras do cinema.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Blade Runner 2049

Incrível como o roteiro escrito por Michael Green e Hampton Fancher (este último, um dos roteiristas do primeiro filme) consegue dar continuidade louvável à trama do cultuado “Blade Runner-O Caçadorde Andróides” sem, no entanto, cair na fácil armadilha de esclarecer alguns dos mistérios que fizeram a fama tão perene do filme original.
Dirigido por Denis Villeneuve que substitui Ridley Scott com perícia e propriedade, “Blade Runner 2049” mergulha nas questões profundas que enriqueciam e engrandeciam o filme anterior: O limite entre o que é sintético e o que é orgânico, entre o artificial e o natural, e a capacidade assombrosa e quantitativa que a tecnologia tem para apagar essas fronteiras.
Se a capacidade de sentir emoções era a diferença entre humanos e máquinas em 9 entre 10 filmes de ficção científica com esse enredo, não é no primoroso trabalho de Villeneuve: Os replicantes –andróides feitos de carne e osso que no filme original, passado em 2019, trinta anos antes deste, se rebelaram contra os criadores –já a muito desenvolveram capacidade para sentir; como é explicitado na relação de afetuosidade doméstica entre o personagem de Ryan Gosling e a inteligência artificial vivida pela absurdamente deliciosa Ana De Armas (de “Bata Antes de Entrar”), e já era mostrado também no filme original, no relacionamento relutante, porém intenso entre Deckard (Harrison Ford) e Rachel (Sean Young).
A grande diferença –ao menos, muitos presumiam –era o fato de que humanos, como todas as outras formas de vida orgânica, podem procriar.
Contudo, quando o Oficial K (Ryan Gosling, extraordinário) descobre os restos mortais de Rachel e, numa autópsia minuciosamente futurística, fica evidente que a replicante do filme anterior morreu ao dar a luz (!), descobre-se a abertura de um precedente para colocar os replicantes em pé de igualdade com os humanos (e sendo assim, confrontá-los, na possibilidade de uma devastadora guerra civil). As ordens de K dadas por sua chefe (Robin Wright) são então para consumir com todas as provas e testemunhas, incluindo aí encontrar o paradeiro do ex-blade runner Deckard, pai do filho desaparecido de Rachel.
É uma corrida contra o tempo: Atrás de Deckard e de seu segredo, por inúmeras razões existenciais e políticas, está também o inventor e milionário Niander Wallace (Jared Leto), uma espécie de herdeiro do legado da Tyrell Corporation, que coloca, no encalço de K, a fria e implacável Luv (Sylvia Hoeks, uma das grandes antagonistas do ano).
E dizer mais entra no perigoso terreno em que se entrega demais a trama cujas reviravoltas são tão geniais e inesperadas quanto a força do cinema de Villeneuve.
Eram poucos, hoje, os cineastas verdadeiramente capazes de criar uma continuidade válida para o seminal trabalho que Scott entregou em 1982 (nem o próprio Ridley Scott foi capaz de fazê-lo, pré-sequenciando seu “Alien” de maneira vulgar e insatisfatória com “Prometheus” e “Alien-Covenant”), certamente, muitos foram os que temeram o resultado.
Entretanto, Villeneuve abraça o material com a mesma tenacidade com a qual moldou em “A Chegada” uma das melhores ficções dos últimos anos: “Blade Runner 2049” amplia o escopo do fabuloso e caótico mundo futurista visto no original (agora, não só Los Angeles é vista –numa recriação e ampliação fenomenal dos cenários do primeiro filme –como também vemos os inacreditáveis escombros a perder de vista em Detroit, e o deserto radioativo e abandonado de Las Vegas), dá uma seqüência natural, inteligente e reflexiva à sua trama, honra todas as suas questões mostrando-se tão fascinante quanto e deixa, ao fim, ainda mais perguntas do que respostas –é, pois, um espécime raro no mainstream hollywoodiano, um filme que instiga, impõe questionamentos e reflexões, e nos leva a pensar acerca de nossa humanidade e de suas mais ínfimas imbricações.
Ele supera ainda o original, numa questão bastante inesperada: No afeto que Villeneuve e sua técnica prodigiosa capturam entre seus diversos personagens, nos flagrantes de vínculos que os fazem humanos e lembram, em pormenores poderosos, a importância fundamental da vida e o poder inigualável do amor.

sábado, 2 de setembro de 2017

Alien - Covenant

Desde que se aventurou a revisitar (e a pré-sequenciar) sua obra-prima “Alien”, de 1979, com “Prometheus”, de 2012, e este “Alien-Covenant”, Ridley Scott tem buscado nas mais altas inspirações uma forma de ramificar sua criação com exemplares à altura do inspirado trabalho que ele mesmo entregou.
Até agora, porém, isso não deu certo.
Se “Prometheus” e seu roteiro multifacetado e equivocadamente desconexo se aproveitavam de elementos extraídos do livro “As Montanhas da Loucura”, de H.P. Lovecraft (que sem dúvida, também inspirou o próprio “Alien”), este novo trabalho parece ser influenciado diretamente por “A Ilha do Dr. Moreau”, de H.G. Wells.
É quase como numa versão do Dr. Moreau daquele livro –alguém que, na concepção de grandeza que atribui a si mesmo e na disponibilidade de recursos que obteve, tenta brincar de Deus –que reencontramos o andróide David, interpretado por Michael Fassbender, remanescente de “Prometheus” e a maior conexão, por assim dizer, deste filme com aquele.
O outro andróide da trama, Walter, é também ele vivido por Michael Fassbender e integra, por sua vez, a tripulação da nave Covenant, destinada a cruzar o espaço sideral até um planeta a ser colonizado.
Algo, porém, muda os rumos da missão de maneira trágica –complicações que terminam tirando a vida de seu capitão (uma ponta não creditada de James Franco) e despertando o restante da tripulação (que inclui nomes como Demien Bichir e Danny McBride) do hipersono do qual só acordariam em uns sete anos.
E o filme, assim, já começa errado: Dando uma justificativa cheia de meandros desnecessariamente complicados para o seu ponto de partida e estabelecendo uma motivação (a morte de seu marido, o personagem de Franco) para a protagonista Daniels (Katherine Waterston, de “Vício Inerente” e “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, chorona e apática) que pouco afeta o público ainda nesse início.
A liderança da nave Covenant passa assim para Oram (Billy Crudup, canastrão) que deixa-se intrigar pelas mensagens de rádio vindas de outro planeta desconhecido e toma a precipitada decisão de rumar para lá averiguar.
É a partir daí que o filme de Scott introduz o personagem do andróide David, retomando-o uma década depois dos acontecimentos do filme anterior, desta vez, tentando atrelar a si mesmo o papel de criador, e não de criatura, enquanto se vale das circunstâncias a disposição para dar vida à monstros, iniciando assim as conexões narrativas deste “Covenant” com “Prometheus” e, na intenção vaga dos realizadores, com o restante da franquia “Alien” –isso porque, sim, o monstrengo aparece aqui, indo de encontro a uma das questões frustrantes do filme anterior, mas ele não faz muito mais do que isso (simplesmente aparecer) no que diz respeito a honrar toda mitologia que se criou em torno daquele grande filme.
Marcado por cacoetes de filmes de terror –entre os quais a criação de personagens estabanados, condenados a tomar sempre a decisão errada que sela seu destino, e outros visivelmente feitos somente para morrer, diálogos constrangedores e cenas gratuitas que precedem mortes sangrentas, como o providencial banho no chuveiro com nudez –o difícil é ignorar o fato de que o próprio Ridley Scott está vulgarizando o conceito que ele mesmo criou.
Mas, claro, há uma produção milionária que garante excelência e beleza a todo o aparato técnico.
Ridley Scott tentou consertar, é verdade, os equívocos de “Prometheus” conseguindo, no processo tão somente cometer equívocos novos e se distanciando ainda mais daquele primor que em “Alien” ele pareceu executar com tanta facilidade.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Thelma & Louise

Um dos melhores filmes de Ridley Scott (o quê não é pouco, se lembrarmos que esse é o mesmo diretor que nos deu “Blade Runner-O Caçador de Andróides” e “Alien”), e também um dos mais sensacionais, expressivos e competentes libelos do feminismo, lançado numa época em que esse tipo de manifestação, fosse numa obra de arte, fosse num filme comercial, era considerado muito incomum. Não apenas isso, o trabalho de Scott conseguiu também o feito improvável de ter suas duas protagonistas (Suzan Saradon e Geena Davis, ambas geniais) indicadas ao mesmo Oscar de Melhor Atriz em 1991 –vencido por Jodie Foster, por “O Silêncio dos Inocentes”; o filme de Scott acabou vitorioso na categoria de Melhor Roteiro Original para Callie Khouri.
Em todos os aspectos possíveis, “Thelma & Louise” é uma realização extraordinária.
Thelma Yvonne Dickinson (Geena, absolutamente brilhante em sua evolução de jovem vulnerável à mulher confiante) e Louise Elizabeth Sawyer (Suzan, esplêndida em suas nuances dramáticas, engraçadas e tensas) são amigas de longa data: A primeira amarga uma vida de dona de casa ao lado de um marido rabugento e negligente (Christopher McDonald), e a segunda vive à beira da insatisfação com seu emprego de garçonete e seu namoro pouco frutífero com um saxofonista (Michael Madsen). Dando um intervalo ocasional nessa vida medíocre, as duas saem para uma inocente viagem de fim de semana, que logo se converte numa situação mais aflitiva: Durante a parada num bar de beira de estrada, Thelma é quase estuprada por um caminhoneiro. Louise impede o ato, mas não consegue evitar de matá-lo com um tiro à queima-roupa. Agora, as duas são fugitivas da lei em potencial.
A possibilidade se torna fato depois que, ao terem todo seu dinheiro roubado por um vigarista caroneiro (estréia de Brad Pitt no cinemão), elas enveredam, por fim, ao crime.
Deste ponto em diante, o filme de Scott se torna uma espécie de libelo feminista –quando esse tipo de movimento representativo ainda estava longe de virar moda na cultura pop –e as sensacionais protagonistas incorporam versões femininas pontuais e caprichosamente remodeladas de arquétipos cinematográficos normalmente relacionados aos homens: Thelma engendrando uma atrevida tentativa de assalto à um posto de gasolina, numa cena que remete ao clássico primeiro assalto registrado em “Bonnie & Clyde-Uma Rajada de Balas”, ou a arrepiante seqüência final quando, encurraladas, as duas heroínas acabam reproduzindo o mesmo desfecho icônico de “Butch Cassidy”, naquela que deve ser uma das grandes cenas de toda a filmografia de Ridley Scott –e, meu Deus, que trilha sonora espetacular é aquela!
Um dos mais fenomenais filmes a retratar as mulheres no cinema, munido não de discursos planfetários ou ideológicos, mas, de pura e simples maestria.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Prometheus

A idéia até que não era ruim: Dar um prólogo ao clássico “Alien” que explicasse as eternamente nebulosas circunstâncias em que a tripulação da nave Nostromo encontrou aquela nave alienígena destruída (com sua própria tripulação aparentemente aniquilada) e apinhada por ovas de alguma forma de vida alienígena –forma de vida esta que revela-se, mais tarde, o grande pesadelo dos personagens a medida que vai se metamorfoseando em uma máquina orgânica de matar. Melhor ainda se tal prólogo tiver também o mesmo diretor do filme original, Ridley Scott, cujo refinamento técnico fez falta, pelo menos, no último filme da série, o equivocado “Alien-A Ressureição”.
Deveras, a idéia era muito boa –e teria ela rendido um filme também muito bom se tivesse continuado nesse rumo. Porém, em algum momento da realização de “Prometheus”, essa premissa básica sofreu uma ligeira transformação; e penso que grande responsável por isso seja o roteirista, Damon Lindelof (famoso pelos intrincados roteiros da série “Lost”), chamado para trabalhar a versão final do roteiro: A sugestão de Lindelof para Scott foi alterar bruscamente o esboço básico da trama –que deveria terminar rigorosamente no ponto em que o “Alien”, de 1979, começava, tendo unido todas as pontas soltas –e, a partir daí, dar início a uma nova série de filmes, uma nova franquia. Por isso, elementos (oriundos certamente da primeira versão do roteiro) que parecem levar o filme a encaixar tão bem numa explicação de detalhes vistos no “Alien” original, são deixados gradativamente de lado conforme “Prometheus” vai enveredando por um novo (e estranho) caminho, afastando-se de sua proposta e adotando princípios que soam tão pretensiosos e ambiciosos (um das características negativas do trabalho de Lindelof) quanto equivocados e lamentáveis.
Após um prólogo solene no qual Scott sugere que a origem da vida na Terra pode ter sido a conseqüência acidental de uma tentativa de suicídio alienígena (pretensão, como se pode ver...), passamos então a acompanhar, já no ano 2093, a nave Prometheus cuja tripulação cruza o espaço em busca da pista para a origem da vida.
A bordo dela, um seleto grupo de pesquisadores –entre os quais a cientista Elizabeth Shaw (a sueca Noomi Rapace, da versão original de “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”), além de outros personagens interpretados por um elenco que só um grande diretor como Scott é capaz de reunir –ruma a um planeta cujas coordenadas são achadas em diversos quadros arqueológicos encontrados na Terra. Eles crêem que a pista pode levá-los à raça alienígena (denominada ‘Engenheiros’) que originou a humanidade. Ao chegar no planeta, porém, e ao iniciar suas investigações, eles deparam-se com perigos que não puderam prever: Especialmente o andróide David (um bom trabalho de Michael Fassbender) revela-se de uma cruel ambigüidade moral para com seus colegas humanos –ele dá início às ocorrências trágicas ao tentar inocular um dos tripulantes com um hospedeiro alienígena para ser levado à Terra; sem falar que, a partir de determinado ponto, quando o roteiro já tiver se perdido em suas pretensões, David se mostrará também o gancho de um inesperado plot que, além de não acrescentar absolutamente nada ao filme, lhe tira muito da credibilidade.
Assim, o retorno de Ridley Scott ao gênero de ficção científica neste prelúdio de "Alien" (ambientando a trama cerca de 30 anos antes do filme original) confere à produção grande esplendor visual, mas, sua inclinação algo autoral e pouco disposta a arremates narrativos acaba deixando o filme até com mais perguntas do que respostas.
Falta à “Prometheus”, sobretudo, a coerência e a simplicidade que faziam de "Alien" uma experiência única.

domingo, 16 de abril de 2017

1492 - A Conquista do Paraíso

Em 1992, a façanha de Cristovão Colombo ao encontrar as terras do Novo Mundo completou seus cinco séculos.
Para aproveitar tal data, naquele ano, dois filmes lançados versavam em torno desse tema: Um, “Cristovão Colombo-A Aventura do Descobrimento”, de John Glenn, chamava a atenção por seu elenco estelar (tinha Marlon Brando e uma ainda iniciante Catherine Zeta-Jones) e por ter um roteiro escrito por Mario Puzo.
Já o outro, este “1492-A Conquista do Paraíso”, de Ridley Scott, chamava de pronto a atenção por ser um projeto grandioso e arriscado, sem financiamento de quaisquer grandes estúdios norte-americanos –o quê fez dele a maior produção independente da história até então.
Um diretor conhecido pela audácia de seus projetos, Scott abraçou a megalomania inerente a este tipo de obra e concebeu um trabalho pulsante repleto de momentos extraordinários e inspirados (como o ataque de índios promovido à fortificação na parte final) e outros tantos claudicantes e irregulares.
Embora ostente uma quase sempre imponente identidade visual, o trabalho de Scott ao oscilar entre um conformismo clássico e um ocasional arrojo estético, se revela um trabalho aquém do nível qualitativo a que ele havia acostumado seu público: Ele vinha do sucesso de “Thelma & Louise” e, apesar do reconhecimento por “Alien” e “Blade Runner”, a década de 1990 representaria um período de declínio criativo que ele só viria a superar em 2001, com “Gladiador”.
Voltemos, contudo, a este filme: Ridley Scott nos narra a vida e o idealismo de Cristovão Colombo (Gerard Depardieu, soberbo), filho de tecelão genovês, navegador e o notório descobridor da América, que para singrar o mundo e provar que a Terra era redonda (!), desafiou a Coroa Espanhola (personificada na Rainha Isabel, a Católica, vivida com classe por Sigourney Weaver e no Tesoureiro Sanchez, interpretado astutamente por Armand Assante) e o Vaticano (Padre Antônio de Marchena, vivida por Fernando Rey, ator de diversos filmes de Buñuel), e acabou por descobrir um novo continente enquanto tentava encontrar uma nova rota para as Índias, via Ocidente.
Apesar disso, ele terminou esquecido pelos nobres da época.
Ridley Scott resgata a lembrança de seu legado neste filme envolto em todas as qualidades intrínsecas dele como cineasta (visual bem trabalhado e acachapante, competente direção de atores, rigor cênico, vigor histórico narrativo), mas prejudicado por um roteiro redundante que perde força a medida que deixa o momentos vultuosos da jornada de seu protagonista para trás.

Não está entre as maiores obras de Scott, mas não é, de maneira alguma, uma produção digna de indiferença. 

sábado, 1 de abril de 2017

Robin Hood no cinema



Os mais distintos personagens e personalidades já povoaram as obras de cinema desde que a sétima arte foi concebida e adquiriu seu status de entretenimento popular. Drácula. Sherlock Holmes. Jesus Cristo. Entre eles, certamente está também o galante fora-da-lei que vive para atazanar a vida do xerife de Nothingham e maneja arco e flecha como ninguém.
As diferentes personificações de suas aventuras vão do humor assumido à mais comercial das aventuras, da descontração ao compromisso sério e respeitoso com a lenda, passando por reinvenções que visitam os mais diferentes gêneros e propostas.
Aqui, alguns deles:
As Aventuras de Robin Hood (1938)
Inicialmente dirigido por Willian Keighley, mas depois substituído por Michael Curtiz (de “Casablanca”) sob pretexto de que as cenas de ação, sem um realizador experiente, careciam de brilho, este clássico do capa & espada conta a história do fora-da-lei Robin de Locsley (um vistoso e fotogênico Errol Flynn, por muito tempo o grande astro desse gênero) que, escondido na floresta de Sherwood, roubava dos ricos para dar aos pobres desafiando assim o xerife de Nothingham, e ajudando os oprimidos camponeses, durante um período de opressão em que o perverso Rei João substituiu Ricardo Coração de Leão quando este havia partido para lutar nas Cruzadas em Jerusalém.
O conto de Walter Scott ganha aquela que, na opinião de muitos puristas, é sua versão definitiva, ganhadora do Oscar de Melhor Trilha Sonora.

Robin Hood-O Invencível (1960)
Longe de seu habitat natural –os filmes de terror dos estúdios Hammer –o diretor Terence Fisher trouxe a tiracolo um de seus astros recorrentes (Peter Cushing), e fez uma versão muita particular da lenda, concebendo uma trama que desvia-se dos acontecimentos mais conhecidos que cercam os personagens.
Nesta produção curiosa, Robin é interpretado com uma ponta de astúcia e ambigüidade –oriundas da formação artística do diretor Fisher, certamente –por Richard Greene, e trás consigo uma Lady Marian surpreendente num registro muito mais sensual do que pudico, personificada por Sarah Branch.

Robin Hood (1973)
Durante muito tempo tido como uma das referências da clássica história, o desenho da Disney –no qual Robin Hood ganha as formas e expressões ladinas de uma raposa –pode até frustrar quem espera por uma animação no patamar de qualidade do estúdio: A Disney enfrentava na época um período de reestruturação interna que prejudicou bastante o resultado final.
Robin Hood é um fora-da-lei que vive a perturbar as autoridades de Nothingham, sobretudo seu xerife, em função de sua luta para "roubar os ricos e dar aos pobres". Seu charme ousado e galante conquista inclusive o coração de Lady Marion, e a ira do Rei João. Lembrado sempre como um dos mais insatisfatórios desenhos da Disney, provavelmente por ter sido produzido num período em que os estúdios passavam por uma transformação profissional, logística e conceitual, é de fato, equivocado, na decisão de transformar a história de Robin Hood num emaranhado de cenas cômicas e dispersas que não dão unidade alguma à história e, sobretudo, ao colocar animais interpretando personagens humanos.

Robin Hood-O Trapalhão da Floresta (1974)
Pouco depois à animação da Disney, foi a vez dos Trapalhões lançarem a sua própria versão da lenda. No entanto, os Trapalhões, como eles passaram a ser conhecidos, não haviam sido formados ainda naquele ano de 1974 –os integrantes que vemos aqui se resumem a Didi (Renato Aragão, que neste filme leva o nome de Zé Grilo) e Dedé Santana (chamado aqui de Willian), e próprio humor feito por eles aqui não é tão inofensivo e dirigido às crianças como, aos poucos passou a ser feito, mas a história, em sua tentativa algo satírica de transpor a lenda de Robin Hood para o contexto brasileiro –inclusive com um sutil subtexto a falar sobre os latifundiários e sua opressão ao proletariado –revela-se tão notável quanto curiosa, responsabilidade certamente da condução do diretor J.B. Tanko, realizador dos melhores filmes dos Trapalhões.
Na trama, Rei João é João Climério e Ricardo Coração de Leão é seu meio-irmão Ricardo que vai fazer um safári na África (!), deixando sua fazenda à mercê dos ditames tirânicos do vilão.
O grupo de foras-da-lei é, assim, um bando de aldeões que resolve perturbar o fazendeiro e seus capangas, lembrando um pouco o movimento sem terra –ainda que muito de suas caracterizações pareçam remeter à Revolta dos Farroupilhas.
Robin Hood (interpretado pelo galã Mário Cardoso que também participou de “Os Saltimbancos Trapalhões”) sofre um ferimento e, enquanto se recupera, é substituído em suas peripécias –no melhor estilo “Kagemusha”, de Akira Kurosawa!! –pelo personagem de Renato Aragão que, como sempre, apronta poucas e boas.
Décadas mais tarde, em 1990, Renato Aragão e seus companheiros (já compondo o grupo consagrado dos Trapalhões) voltaram a trabalhar numa nova trama envolvendo o personagem em “O Mistério de Robin Hood”, mas sem qualquer relação de história ou de essência com a lenda clássica –sem falar que era uma porcaria!

Robin & Marian (1976)
Eis que o diretor Richard Lester –normalmente um operário padrão dos estúdios tendo entregado ao longo da carreira inúmeras obras de encomenda, ainda que de qualidade, como “A Vingança de Milady”, “Viagem Fantástica” e até mesmo “Superman 3” –realiza um de seus melhores trabalhos.
Sua visão sobre a lenda ousa imaginar Robin Hood e sua trupe de coadjuvantes, não no início, como normalmente o cinema faz, enaltecendo a juventude, mas no seu apogeu.
Quando a história começa, já contam duas décadas dos famosos feitos de Robin, agora tornado um valoroso guerreiro de confiança de Ricardo Coração de Leão –e, por conta de qual mérito, todo esse tempo transcorrido, ele passou lutando nas Cruzadas (o quê a história contada fez parecer ser uma obsessão para Coração de Leão).
Com a morte do Rei Ricardo, Robin regressa para a Inglaterra almejando enfim uma vida de paz, mas as intrigas de seus arquiinimigos, o Xerife de Nothingham e o Rei João, não cessaram, e ele se vê obrigado a reunir o antigo bando de foras-da-lei em Sherwood, bem como retomar a relação com Lady Marian, que ficou todo esse tempo em um convento.
Veteranos de talento a toda à prova surgem assim interpretando os personagens já num momento crepuscular como Sean Connery (Robin Hood), Audrey Hepburn (Lady Marian), Nicol Willianson (Pequeno John), Ronnie Barker (Frei Tuck), Robert Shaw (o xerife de Nothinghan), Ian Holm (Rei João) e Richard Harris (Ricardo Coração de Leão), contribuindo para fazer desta uma das mais desiguais e primorosas versões do conto de Walter Scott.

Robin Hood-O Príncipe dos Ladrões (1991)
Talvez o mais famoso dentre todos os filmes, muito por conta do enorme prestígio junto ao público que o astro Kevin Costner (recém-saído do oscarizado “Dança Com Lobos”) gozava à época. Ele e o diretor Kevin Reynolds tiveram uma longa e oscilante colaboração ao longo dos anos entregando trabalhos como o juvenil e divertido “Fandango”, o catastrófico “Waterworld-O Segredo das Águas” e a aclamada minissérie “Hatfields & McCoys”.
A trama vivenciada por Robin Hood aqui já era um indicativo das reinvenções nem sempre inspiradas que histórias clássicas como esta viriam a sofrer no futuro, nas mãos de produtores de Hollywood.
Neste filme, por exemplo, Robin Hood encontra os foras-da-lei de Sherwood já como um bando completo –nas outras versões, é o próprio Robin quem monta o grupo –o romance com Lady Marian (Mary Elizabeth Mastrantonio, uma das jovens atrizes em alta na época) tem elementos modernos de implicância, relutância e sensualidade; o vilão (Alan Rickman, divertido e caricato) não poderia ser mais pueril; o personagem inédito de Morgan Freeman (um mouro), de suma importância à trama, foi introduzido como forma de ilustrar esse objetivo de reinvenção (além de antecipar um processo de representatividade que hoje é via de regra entre filmes de estúdio); e as cenas com arco e flecha são turbinadas por efeitos visuais que especulam enquadramentos antes impossíveis.
Curiosidade: Sean Connery aparece aqui (numa ponta ao final) como Ricardo Coração de Leão, pelo que, à época, foi um cachê recorde por uma participação tão pequena.

Robin Hood-O Herói dos Ladrões (1991)
Este filme muito mais obscuro, além de ter a má sorte de ser lançado no mesmo ano do retumbante sucesso estrelado por Kevin Costner, também era prejudicado pelo fato de trazer uma série de escolhas equivocadas, a começar pela presença de Patrick Bergin como o Robin Hood mais desprovido de carisma da história (seu filme mais famoso é “Dormindo Com O Inimigo” onde ele faz o marido violento de Julia Roberts, e ele de fato serve mais para fazer vilões mesmo...).
Como se não bastasse, o diretor John Irvin se mostra pouco empolgado nas cenas de ação que quando não se desenrolam de maneira formulaica e mecânica apresentam uma sucessão de incoerências. Se há algum detalhe digno realmente de nota é uma jovem e sensual Uma Thurman interpretando uma Lady Marian carregada de presença e magnetismo.

A Louca! Louca História de Robin Hood (1993)
Inevitavelmente uma paródia. Entretanto, assinada por um dos grandes comediantes americanos dos anos 1970 e 80, o veterano Mel Brooks, mas que já mostrava sinais de cansaço nos anos 1990.
O galã Cary Elwes (de “Tempo de Glória” e que fez algum sucesso como uma versão moderna de Errol Flynn na fantasia “A Princesa Prometida”) é o Robin Hood nesta reencenação cômica e musical (!) da lenda –certamente, pegando carona do imenso êxito da produção com Kevin Costner, lançada anos antes –onde pouco se consegue achar de relevância: Mesmo as piadas parecem não ter maiores propósitos junto à narrativa, o quê é no mínimo frustrante quando se pensa que este é um filme do cara que fez “Banzé No Oeste” ou “Primavera Para Hitler”.
Para se ter uma idéia, este Robin Hood cômico é tão insípido que fica a dever (e muito!) à versão debochada e maliciosa do personagem que aparece, por brevíssimos minutos, na animação “Shrek”, de 2001.

Robin Hood (2009)
Já quase no fim da década de 2000, o diretor Ridley Scott e o astro Russell Crowe, vindos de uma longa e produtiva parceria (mas, cujo maior êxito foi indiscutivelmente “Gladiador”) resolveram revisitar a lenda a fim de conceber um projeto que, em suas tintas épicas e em sua ambientação medieval, resgatasse as mesmas características de seu grande sucesso.
O resultado foi uma reinterpretação bastante audaciosa da lenda que, além de tudo, almejava não apenas dar um inédito subtexto de realismo histórico, mas que também nascia com um esqueleto de saga: Este teria sido só o primeiro capítulo, firmando-se como uma espécie de “origem” de Robin Hood e não uma versão moderna de suas famosas aventuras –essas teriam vindo numa eventual continuação, se o filme tivesse feito sucesso suficiente de público.
Não fez.
Durante a incursão do Rei Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra, em Jerusalém, no Século 12, um grupo de seus arqueiros, liderados por Robin Longstride (Crowe, já um bocado velho para interpretar um herói no princípio de sua jornada), abandona as trincheiras na França, para retornar a sua terra natal. No caminho, Ricardo é morto, e os arqueiros se vêem no meio de uma conspiração para minar a coroa inglesa, agora sob o comando do irascível Rei João (Oscar Isaacs, muito mais jovem do que as versões anteriores). Levado pelas circunstâncias, Robin assume a identidade do cavaleiro morto, Robert Loxley, e assim apresenta-se no palácio real e, mais tarde, ao pai e à esposa do verdadeiro Loxley, em Notthinghan, onde vai a fim de devolver a espada do filho ao pai –neste filme, Lady Marian (interpretada pela sempre eficiente Cate Blanchett) não é filha do Rei João, numa das inúmeras licenças poéticas que se acotovelam no roteiro excessivamente rocambolesco e cheio de desdobramentos de Brian Helgeland (co-roteirista de “Los Angeles-Cidade Proibida”).
Mas o Rei João, em parte influenciado pelo traiçoeiro Godfrey (Mark Strong), colocará toda a Inglaterra ante uma invasão de tropas francesas, obrigando Robin a tornar-se líder de um bando de foras-da-lei.