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terça-feira, 8 de outubro de 2024

Ajuste Final


 Em seus primeiros projetos cinematográficos, os Irmãos Coen, Joel e Ethan, procuraram visitar distintos gêneros de cinema, a fim de testar suas aptidões e encontrar sua própria voz autoral dentro de expedientes já estabelecidos. É por isso que, em sua primeira fase, fomos brindados com obras como “Gosto de Sangue” (um neo-noir), “Arizona Nunca Mais” (comédia screwball) e “Barton Fink-Delírios de Hollywood” (drama de metalinguagem). À eles, soma-se este “Miller’s Crossing” com o qual os Coen levam um viés inusitado ao filme de gangster.

Ambientado numa cidade norte-americana indefinida (ainda que tenha sido filmado em Nova Orleans), e situado no ano de 1929 (o auge da Lei Seca), “Miller’s Crossing” possui um prólogo que parece um piscadela à “O Poderoso Chefão”, a referência-mor do gênero: Diante da câmera, um descendente de italianos (tal e qual no filme de Coppola) faz um monólogo quase que para a plateia –e para o poderoso ‘chefão’ deste filme, o irlandês Leo O’Bannon, vivido com ar supino por Albert Finney. O descendente de italianos, contudo, é outro gangster, Johnny Casper (Jon Polito, de “A Conquista da Honra”), e ele esboça seu descontentamento com um certo Bernie Bernbaum, um bookmaker clandestino que, apesar de sua insignificância, está incomodando a harmonia de seu negócio de apostas ilegais.

Casper quer Bernie morto. Leo recusa seu pedido. E está, assim, declarada a guerra.

Ouvindo tudo, está Tom Reagan (Gabriel Byrne), braço-direito de Leo e seu melhor amigo, o único aparentemente capaz de expor opiniões discordantes ao irascível Leo. Tom sabe que, ao negar um pedido relativamente sensato à Casper, Leo está pondo a paz de seu império mafioso à perder, mas, Leo se mantém irredutível e a resposta para isso não tarda à vir: Leo está enamorado  da charmosa vigarista Verna Bernbaum (Marcia Gay Harden, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Pollock”) que vem a ser irmã de Bernie Bernbaum (John Turturro). A pedido de Verna, portanto, Bernie goza da proteção indireta de Leo, e seus deslizes constantes, fonte de irritação de Casper, recebem vista-grossa do chefão. Tom, entretanto, sabe que essa paixonite de Leo pode levar à sua derrocada –e, para complicar ainda mais as coisas, Tom e Verna são amantes às escondidas de Leo (!),

Não obstante o requinte cinematográfica que pontua este filme –enfatizado na brilhante fotografia de Barry Sonnenfeld e na música climática, operística e lírica de Carter Burwell –a trama extremamente complexada e intrincada, abarrotada de informações ambíguas, traições, reviravoltas e alianças forjadas de última hora, é contada mesmo através de diálogos carregados de melindres entre os personagens. Nessa circunstância adornada de perfídia, não chega a ser inesperado quando, ao descobrir a traição do melhor amigo, Leo rompe com Tom e este passar para o lado de Casper –a fim de provar sua lealdade ao novo chefe, contudo, Tom é obrigado por seus capangas à levar o incauto Bernie para a floresta de Miller’s Crossing, local onde, pelo jeito, os mafiosos têm o hábito de levar para sacrificar suas incontáveis vítimas.

Amparados em seus valores cinematográficos à toda prova, os Coen dão uma grande contribuição ao conceito narrativo –difundido pela obra-prima de Francis Ford Coppola –no qual as intrigas e tramóias mafiosas, desenroladas num novelo elaborado de mortes e conchavos, ganham uma carregada aura de tragédia e ópera; exemplo disso, entre outras passagens tornadas memoráveis, é o ataque à mansão de Leo, cujo tratamento bastante estilizado e poético deixa um tanto quanto de lado as pretensões de realismo para ressaltar o ambiente em suas minúcias pictórias, como se todos os locais (a mansão, o escritório de Leo, o quarto de Tom, o Clube Shenandoah –olha a referência! –e a própria Miller’s Crossing) fossem palco dos desdobramentos irônicos de uma mitologia muito particular.

Essas considerações, envoltas numa rigidez acadêmica tanto técnica quanto artística, somadas ao inerente humor negro dos Coen, tornam pouco convincentes (ainda que sempre intrigantes) muitos dos desenlaces da trama –um pequenino lapso que, na maioria de seus excelentes trabalhos, os Coen souberam habilmente contornar.

domingo, 18 de setembro de 2022

Na Roda da Fortuna


 Desigual, como aliás, é desigual toda a filmografia dos Irmãos Coen, “Na Roda da Fortuna”, lançado em 1993, vinha na sequência de obras como “Barton Fink-Delírios de Hollywood”, “Ajuste Final” e “Arizona Nunca Mais”; isto é, os Coen chegavam num ponto da carreira em que, ao mesmo tempo que testavam novas formas de contar uma história abordando gêneros novos e desconhecidos, começavam a experimentar algum tipo de aclamação, com prêmios como a Palma de Ouro por “Barton Fink”.

“Na Roda da Fortuna” é a reafirmação dos Coen por um cinema instintivo onde construíam seus filmes a partir de impressões que, proposital ou não, pouca vontade tinham para ir de encontro às expectativas de público ou crítica. É também uma espécie de retorno às raízes ao firmarem aqui uma improvável colaboração com Ram Saimi que aparece como co-roteirista em numa participação especial (Raimi, ainda atrelado às trincheiras dos filmes de terror de baixo orçamento, havia escrito seu escatológico “Dois Heróis Bem Trapalhões” com a ajuda dos Coen), e uma referência e reverência ao cinema de Frank Capra, no qual, os esmagadores interesses industriais e corporativos estavam sempre fadados a serem sobrepujados pelo inocência e pelas boas intenções.

Como já tinham reputação de serem brilhantes cineastas (e isso, para minha profunda admiração, eles nunca deixaram de ser), os Coen já eram capazes de atrair grandes nomes para seu elenco: Aqui, na trinca de personagens principais, eles contam com Tim Robbins (então aclamado por “O Jogador”, de Robert Altman, e por “Bob Roberts”, também sua estréia como diretor), Jennifer Jason Leight (atriz talentosa que, a despeito de seus papéis sexualmente pesados, conseguira se impor como a grande intérprete que é) e o astro veterano Paul Newman (a cereja no topo do bolo, que coroava os Coen como realizadores capazes de despertar o interesse dos maiores de Hollywood).

O título original de “Na Roda da Fortuna”, “Hudsucker Proxy” –uma brincadeira referencial dos autores com um termo que aparece tanto em “Evil Dead”, de Saimi, como também em “Arizona Nunca Mais”, dos Coen –é, na verdade, o título de uma empresa fabricante da Nova York de 1958. Após o suicídio (mostrado com toda a galhofa pouco usual e o arrojo técnico e artístico que tornara os Coen notórios) de seu presidente-fundador, o executivo-chefe Sidney J. Mussberger (Paul Newman, se divertindo a valer) põe em prática um plano ardiloso: Nomear em seu lugar o substituto mais paspalho possível a fim de que o preço das ações despenque. O escolhido vem a ser o ingênuo e sonhador Norville Barnes (Tim Robbins), recém-chegado do interior à Grande Maçã. Entusiasmo com sua boa sorte, Norville promove a execução de suas ideias –inclusive a quase pueril iniciativa de produzir bambolês em larga escala (!) –enquanto a aguçada e destemida repórter Amy Archer (Jennifer Jason Leight, numa personagem que emula brilhantemente os trejeitos da Rosalind Russell de “Jejum de Amor”) fareja, nessa improvável história, um escândalo escondido, destinado a ilustrar as manchetes dos jornais.

Os rumos inesperados (mas, nem tanto) desse enredo são o sucesso repentino dos bambolês de Norville entre as crianças –o que gero um efeito inverso às expectativas vilanescas de Mussberger –e o enlace romântico entre Norville e Amy, fatores que levam Mussberger a revelar, por fim, suas facetas perversas e manipuladoras.

Na fábula que aqui concretizam, os Coen não se furtam de promover seu final feliz valendo-se das concessões indubitáveis e inevitáveis de Hollywood –esta produção, é bom lembrar, foi seu primeiro filme bancado com um orçamento mais vultuoso de um grande estúdio –mas, o fazem com um sinceridade imprevista e desconcertante: Os fatores sobrenaturais a determinar o rumo de sua conclusão são representados por um curioso e nada celestial anjo vivenciado pelo próprio suicida Waring Hudsucker (Charles Durning). Os Coen colocam na mesma salada Frank Capra e as mazelas da Grande Depressão sob um viés de humor negro, não sem antes, garantir também um molho especial com o sabor de seu próprio e inconfundível cinema.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Algumas previsões para o Oscar 2022...

 No dia 8 de fevereiro de 2022 serão anunciados os indicados aos Oscar, e no dia 27 de março, dentre esses indicados, serão anunciados, por fim, os vencedores, as obras nomeadas pela Academia de Artes Cinematográficas como as melhores do ano. Sendo assim, é justo afirmar que, neste presente momento em que você lê estas linhas, a temporada de prêmios já se iniciou. Como na temporada anterior, as circunstâncias da pandemia tornam mais nebulosas as chances de palpites certeiros, com filmes podendo serem adiados e/ou lançados a qualquer momento –inclusive nas plataformas de streaming, de onde obras muito premiadas dos últimos anos andaram saindo. A imprevisibilidade dessas novas condições torna mais desafiador apontar prováveis eleitos e favoritos reais, mas, vamos tentar.


 A Crônica Francesa

Cada nova obra de Wes Anderson é um deleite. Diretor desigual, de um estilo que se aprimora a cada projeto, ele acrescenta, neste “A Crônica Francesa” um tom engajado e reflexivo ao primor narrativo de sempre e à excelência técnica que seus filmes já costumam oferecer. O elenco extenso e estelar é um convite à premiações, e dificilmente a Academia deixará este filme passar despercebido.


 Não Olhe Para Cima

A maior produção da Netflix até então, “Não Olhe Para Cima” é extraordinariamente ambicioso: Além de colocar encabeçando seu fenomenal elenco a dupla Leonardo Dicaprio e Jennifer Lawrence (provavelmente os dois maiores astros da atualidade), o filme tem direção e roteiro do aclamado Adam McKay, autor de dois filmes audazes, perspicazes e inteligentes que causaram rebuliço nos últimos anos, “A Grande Aposta” e “Vice”. Não obstante, as primeira críticas apontam uma obra brilhantemente equilibrada entre a sátira política e a competência cinematográfica, um “Dr. Fantástico” dos novos tempos.


 Amor Sublime Amor

O simples fato de ser um filme de Steven Spielberg já lança imediata luz sobre este projeto, agendado para estrear no fim do ano passado, mas adiado em um ano, assim como tantos outros. No entanto, “Amor, Sublime Amor” é também a audaz refilmagem de um filme, em princípio, impossível de se refilmar: O clássico tido como intocável de 1961, dirigido por Robert Wise e Jerome Robbins, ganhador de nada menos do que 10 prêmios Oscar! Ao mesmo tempo, Spielberg realiza aqui um sonho: O de enfim dirigir um filme musical; desejo que ele só chegou perto de realizar na cena de abertura de “Indiana Jones e O Templo da Perdição”. Não apenas o nome de um dos maiores diretores de cinema da atualidade (senão O maior) destaca este filme, como o fato de que todos os trabalhos de Spielberg recebem grande atenção no Oscar –e, com efeito, são obras excelentes.


 Duna-Primeira Parte

O clássico literário “Duna”, de Frank Herbert, transcorreu um longo e tortuoso caminho até ganhar uma adaptação digna e satisfatória para cinema. “Duna”, de Denis Vileneuve –que se incumbe de transpor a primeira parte do livro para as telas –segue percalços muito semelhantes à “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel”, de Peter Jackson, passando inclusive pelo belo desempenho de bilheteria e pela aclamação praticamente unânime da crítica. Além disso, a Academia adora quando Vileneuve se aventura com êxito no terreno da ficção científica, vide o reconhecimento caloroso dado à seus projetos anteriores, “A Chegada” e “Blade Runner 2019”.


 Spencer

O diretor chileno, Pablo Larraín, parece ter se especializado em grandes biografias de figuras fundamentais do Século XX. Ele já havia colecionado elogios tremendos por seu excelente “Jackie”, e tudo indica que repetirá a dose com “Spencer” –e, de quebra, ainda pode obter a primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz para Kristen Stewart –que desvenda a intimidade da icônica Princesa Diana.


 Casa
Gucci

Outro diretor cujos trabalhos, adentrem o gênero que adentrarem, frequentemente monopolizam as atenções da Academia é Ridley Scott. Aqui, ele abandona os épicos de praxe para focar numa trama que remonta a história real do assassinato de um herdeiro da grife Gucci por sua ex-esposa, Patrizia Reggiani. Como a maioria dos filmes com fortes predisposições para competir ao Oscar, este tem um elenco estelar escolhido à dedo: Lady Gaga (uma atriz consumada após o sucesso de “Nasce Uma Estrela”), Adam Driver, Jared Leto, Al Pacino, Jeremy irons e Salma Hayek.


 The Tragedy Of
Macbeth

Vinte e um anos depois dos Irmãos Coen terem realizado “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, adaptando a obra de James Joyce, “Ulisses” para uma pitoresca ambientação norte-americana, eles, de certa forma, tentam algo parecido com “The Tragedy Of Macbeth”, dando sua visão ímpar, incomum e certamente magistral para a conhecida tragédia criada por William Shakespeare, contando com o magnífico par central interpretado por Denzel Washington e Frances McDormand –ela, esposa de Joel Coen, um dos diretores, e vencedora do Oscar de Melhor Atriz por “Nomadland” na última premiação.


 Cry
Macho

Já de avançada idade, cada novo filme dirigido e estrelado por Clint Eastwood parece soar como sua despedida, seu testamento. Assim pareceu ser o elogiado “A Mula”, e assim parece “Cry Macho” que, sob muitos aspectos lança uma circunspecta luz analítica sobre as facetas humanas da persona à qual o próprio Clint Eastwood foi muito relacionado em toda sua carreira. Não deixa de ser uma proposta que remete ao elogiado “Os Imperdoáveis” que deu a ele o Oscar 1992 de Melhor Filme.


 Noite Passada Em Soho

O diretor Edgar Wright é um dos mais originais e brilhantes estetas a surgir no cinema nos últimos anos. Trabalhos como “Todo Mundo Quase Morto”, “Scott Pilgrim Contra O Mundo” ou “Em Ritmo de Fuga” proporcionam experiências cinematográficas plenas e inquestionáveis  e uma sintonia fora do comum com o que há de mais arrojado na cultura pop. Há tempos pedindo por um reconhecimento, Wright entrega agora uma obra vibrante, desafiadora  e surpreendente ao acessar ecos subconscientes do elogiado cinema da década de 1970 –como o ‘giallo’ e o Novo Cinema Britânico –e ainda traz duas protagonistas maravilhosas: Thomasin McKensie (de “Jojo Rabbit”) e Anya Taylor-Joy (de “O Gambito da Rainha”).

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

O Grande Lebowski


 A premissa do “homem errado” rendeu alguns dos melhores filmes de Alfred Hitchcock, mas nas mãos dos Irmãos Coen ela representa o ponto de partida de uma de suas obras mais notáveis: O quê passa longe de ser pouca coisa.

Mais conhecido como Dude pelos amigos que, como ele, freqüentam o mesmo bar de boliche, Jeff Lebowski (Jeff Bridges, sensacional) descobre da pior maneira que tem um homônimo milionário: Enrascadas relacionadas a esse outro Lebowski vêem até ele atrapalhar sua tranqüilidade movida à maconha e ócio –a pra lá de jovem esposa desse velho magnata desapareceu (ou foi raptada) e os responsáveis por esse ocorrido não o deixam em paz.

De um lado, o outro Lebowski (David Huddleston, de “Banzé No Oeste”), milionário cadeirante e assoberbado, o quer como intermediário no momento de pagar o resgate –afinal, o Dude é o único capaz de dizer se os sequestradores e os homens violentos que inutilizaram seu precioso tapete da sala são as mesmas pessoas.

Para ajudá-lo (ou seria atrapalhá-lo?), Dude conta com o insano Walter (John Goodman, hilário), parceiro do torneio de boliche e completamente pinel devido à sua experiência na Guerra do Vietnam –reza a lenda que os Coen basearam esse personagem divertidíssimo, irredutível e impagável no diretor John Milius (de “Conan-O Bárbaro”).

Tentar descrever “O Grande Lebowski” é uma tarefa relativamente ingrata: Os Coen valeram-se de seu talento desigual para criar uma obra engraçadíssima, cuja natureza ligeiramente intrincada remete ao estilo detetivesco do autor Raymmond Chandler por pura graça, mas cuja trama a envolver crime e suspeita fica, por assim dizer, em segundo plano. O destaque quase sempre são exatamente seus personagens, um mais bizarro e idiossincrático que o outro, e as circunstâncias nas quais diferentes dinâmicas se estabelecem a partir de encontros movidos por distintos interesses, sempre com o personagem de Jeff Bridges como uma espécie de mestre de cerimônias.

Além de Dude e Walter, o velho milionário Lebowski e sua jovem e nada confiável esposa (Tara Reid, de “American Pie”), temos o braço-direito do velho rico, vivido com sofisticação caricata por Phillip Seymour Hoffman, o  pacato amigo do boliche Donnie (Steve Buscemi), o adversário do torneio Jesus Quintana (John Turturo, numa participação breve, irrequieta e antológica), o arremedo de ator pornô travestido de bandido de meia-tigela vivido por Peter Stormare (de “Fargo” e “Minority Report-A Nova Lei”), a artista plástica, excêntrica e egocêntrica, filha do Velho Lebowski (Julianne Moore), o gangster da pornografia interpretado com fleuma inacreditável por Ben Gazarra, e o cowboy –e também narrador do filme –que calmamente interfere vez ou outra na narrativa como quem não quer nada (Sam Elliot, formidável).

Originário de um culto quase sem precedentes no cinema –há relatos até mesmo de uma religião surgida a partir dos preceitos e da filosofia de vida do Dude (!?) –o filme dos Irmãos Coen foi um fracasso comercial na época de seu lançamento em 1998, mas foi redescoberto pelo público ao longo dos anos até se tornar um fenômeno cultural. Isso se deve, sem sombra de dúvidas, ao fato de que os expectadores de então não perceberam de imediato seu humor tão complexo quanto irresistível, sua abordagem desigual de comportamentos esquisitos (mas que depois ditaram moda) e na manutenção imprevista de uma trama tão carregada de nuances originais que foi precipitadamente tachada de non-sense.

Em resumo: Que filme sensacional os Coen fizeram!

segunda-feira, 18 de março de 2019

A Balada de Buster Scruggs

A fina ironia tão característica dos Irmãos Coen comparece com seu habitual primor nesta produção da Netflix que reúne alguns de seus mais idiossincráticos elementos.
Como em “Bravura Indômita”, estamos aqui diante de um western –e na abordagem do gênero que visitam, os Coen o evocam de forma tão romântica quanto sarcástica –como em “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, a narrativa se revela pontuada de música –que, no episódio inicial, ocasionalmente é cantada pelos próprios personagens –e como em praticamente todos os filmes sob sua assinatura, este aqui recebe dos Coen um tratamento primordial no qual a sina inapelável dos incautos seres humanos escolhidos para serem seus protagonistas ganha tanto em humor negro quanto em drama humano.

No primeiro dos seis formidáveis episódios que constituem este filme, acompanhamos a inusitada figura de Buster Scruggs que não somente dá nome ao filme, mas também oferece ao sensacional Tim Blake Nelson a chance de se mostrar um intérprete singular.
Scruggs singra o velho oeste americano ciente da fama de perigoso pistoleiro que construiu –e declamando essas circunstâncias em canções cantadas a céu aberto. Onde chega, porém, não é temor que Buster Scruggs suscita: Por seus trejeitos afáveis, seu modo de falar pitoresco e suas roupas caricatas e espalhafatosas –aspectos tornados impagáveis na atuação magnífica de Blake Nelson –ele só inspira petulância em seus desafetos; que ele enfileira, na forma de um cadáver após o outro!
Mas, como ele próprio canta na assombrosamente linda canção que encerra o episódio, há um final para tudo, e mesmo o pistoleiro mais ágil encontra, um dia, alguém com o gatilho mais rápido que o seu; e mesmo a voz mais bela, uma hora ou outra, há de encontrar uma cuja afinação a supere.

Interpretado por James Franco, o assaltante de bancos que protagoniza o segundo episódio experimenta uma sucessão de infortúnios tão bizarros que só poderiam vir mesmo da imaginação dos Coen: Capturado –por um estranho adversário revestido de panelas (?!) –ele é colocado à sombra de uma árvore para ser enforcado. Na hora H, seus algozes são mortos por índios que aparecem tão rapidamente quanto somem, deixando-o com a corda presa no pescoço, montado num cavalo que pode caminhar a qualquer momento –lembra muito a cena que inicia o filme “Maverick”, com Mel Gibson.

O terceiro episódio traz uma dose de intimismo e angústia com a qual volta e meia os Coen surpreendem o público. Liam Neeson é um dos dois membros de um pequeno espetáculo itinerante que singra os ambientes desolados do Oeste.
Entre aldeias gélidas –seja no clima, seja na receptividade social –e lugarejos angustiantes e angustiados, ele e um aleijado desprovido de braços e pernas (Harry Melling) apresentam sempre o mesmo monólogo –que a cada apresentação extrai menos moedas de seus expectadores.
O Velho Oeste mostrado não como o palco para tiroteios honrados e climáticos, mas como um mundo habitado por pessoas submetidas às mais terríveis e implacáveis privações, é o mote deste episódio: O personagem de Neeson aos poucos se ressente da situação de enfermeiro particular em circunstâncias para lá de adversas –e que chegam a lembrar um pouco “Monstros”, de Todd Browning –até que uma galinha adestrada o faz descobrir um modo mais simples de ganhar a vida; para azar do pobre aleijado...

Tom Waits é o protagonista do episódio seguinte, sobre um mineiro que se estabelece num vale até então harmonioso e livre da intervenção do homem. Seu objetivo é achar um veio de ouro puro que, por meio de seus metódicos conhecimentos de mineração, ele será capaz de encontrar através do rio local.
Os Coen, no entanto, reservam uma cruel e sarcástica guinada perto do final.

O quinto episódio acompanha a desafortunada vida da jovem Alice Longabaugh (a bela Zoe Kazan, na mais expressiva personagem feminina de todo o filme). Arrastada pelo malsucedido irmão para um iminente casamento arranjado como parte de seus negócios duvidosos, ela vai parar numa caravana –no melhor estilo “Cimarron” –em direção ao Oeste Selvagem. Entretanto, o irmão dele morre de cólera durante a penosa viagem deixando-a em maus lençóis: Sem ideia de como pagar o empregado contratado, de como cuidar do cachorrinho dele, o irritante Presidente Pierce (!), e basicamente sem ter onde ficar após terminada a longa viagem.
O destino sinaliza com alguma boa-venturança quando ela cai nas graças de Billy Knapp (Bill Heck), braço-direito do capitão da caravana (Grainger Hines).
A narrativa pitoresca e contida dos Coen constrói pacientemente um ensejo de relacionamento a brotar com espontaneidade entre a brutalidade que vinham retratando, só para desferir um soco na cara –recheado de ironia cruel –perto de seu desfecho.

O sexto e último episódio remete à “No Tempo das Diligências”, de John Ford, e de certa forma, também à “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino. Ele se ambienta quase todo dentro de uma diligência designada a não parar por nada até chegar ao seu destino –no que pode ser enxergada como uma metáfora aberta a inúmeras intepretações.
Os cinco ocupantes lá dentro são pessoas de classes sociais tão distintas quanto o são seus aspectos, suas prosas e suas personalidades: Há o matuto falastrão (Chelcie Ross) de tão pouca experiência na interação social que mal se dá conta do quão tediosa e inconveniente é sua conversa; a senhora abastada (Tyne Daily) de modos mais perdulários que sua condição financeira permite; e o apostador inveterado (Saul Rubinek, de “Os Imperdoáveis”) cujo cinismo só não é maior que a covardia.
Em meio à conversação desnorteada e com frequência desregrada, os três não se dão conta de que os outros dois passageiros (Jonjo O’ Neil e Brendan Gleeson), bem mais comedidos e calados, são na realidade assassinos de aluguel –e se há algo, na concepção dos Coen, que iguala todos os seres humanos numa mesma manada de indivíduos assombrados é o medo da morte.
Dando a cada um desses notáveis episódios uma unidade narrativa que os torna únicos, os Irmãos Coen constroem uma antologia brilhante, áspera, árida e bem-humorada (apesar de tudo) da difícil vida no Oeste.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Um Golpe Perfeito


Refilmagem de “Como Possuir Lissu”, que tinha o atrativo de reunir em cena os astros Michael Caine e Shirley MacLaine, este “Um Golpe Perfeito”, dirigido por Michael Hoffman (diretor de “O Outro Lado da Nobreza”, “Um Dia Especial” ou “A Última Estação”, filmes distintos sem maiores elos estilísticos), encontra seu maior trunfo no roteiro assinado pelos Irmãos Coen –a estrutura narrativa cheia de vitalidade e criatividade, marcada por situações de ácida observação e humor negro só não é melhor porque deixa no ar a promessa de uma produção imperdível caso eles tivessem também dirigido o material.
Se “Como Possuir Lissu” contrapunha o charme encantador de Shirley MacLaine e um timing cômico absurdamente perfeito revelado por Michael Caine, “Um Golpe Perfeito” os substitui por Cameron Diaz e Colin Firth.
É injusto comparar o carisma intocado de astros do passado –vistos por muitos, às vezes, com razão, como ‘monstros sagrados’ –com o que os astros de hoje podem fazer (daí a situação tão complicada de refilmagens em geral), mas, há de se reconhecer os acertos que aqui se sucedem.
Sex-symbol estonteante nos anos 1990, e ainda uma bela mulher nos anos 2000, Cameron Diaz espertamente compensa a desfavorável comparação com os atributos de MacLaine entregando uma ótima atuação; enquanto Colin Firth contribui com seu minimalismo, sua fleuma britânica e seu talento inquestionável para dar vida à Harry Deane, um desprezado especialista em arte a serviço do prepotente e arrogante Lionel Shabandar (cuja intratabilidade o maravilhoso Alan Rickman tira de letra).
Lionel tem uma acarinhada coleção de arte, da qual a menina dos olhos vem a ser “Montes de Feno Ao Amanhecer”, de Monet. Harry sabe, portanto, ser uma espécie de meta para Lionel obter assim o quadro-gêmeo, “Montes de Feno Ao Entardecer”, pintado pelo mesmo Monet.
Daí, no plano que ele engendra para passar a perna em seu detestável empregador, a habilidade de seu grande amigo Major (Tom Courtenay, o ótimo narrador de toda a trama) em falsificar obras de arte de modo impecável e a presença sedutora da texana PJ Puznowski (Cameron) para se passar pela proprietária de tal obra.
Isso, claro, na ideia fluente, certeira e sem atropelos que passa pela mente de Harry Deane minutos antes dele propor tal estratagema à PJ em um bar do Texas –no roteiro hábil dos Irmãos Coen, essa cena (uma espécie de ‘Expectativa X Realidade’ ao contrapor essa passagem a todo o resto do filme) ganha uma sequência genial, que surpreende o expectador além de criar um inusitado background para a personagem de Cameron –que não diz um palavra –quando ela por fim fala na ‘realidade’ seu sotaque texano pronunciado (uma característica que agrada bastante os Coen) resulta hilário!
A partir daí o mesmo plano que vislumbramos ao lado de Harry naquela notável cena segue com todos os imprevistos que, em sua ingenuidade disfarçada de divertida convicção, ele não antecipou, ressaltando a desenvoltura de Cameron para pairar entre o sensualmente adorável e o funcionalmente engraçado bem como a capacidade surpreendente (e até então não aproveitada) de Colin Firth para a comédia.
Em algum momento do tortuoso e imperfeito golpe que eles aplicam aos improvisos, vai surgindo uma química que flerta com a possibilidade do romance, entretanto, o roteiro dos Coen é bom demais para permitir que o filme se refugie nessa perspectiva redundante e “Um Golpe Perfeito” segue notável até a última cena, um desenlace algo em aberto (Harry e PJ, afinal, não terminaram juntos e Shabandar é um ótimo vilão em potencial para um segundo filme) que sugere a possibilidade de uma continuação que jamais veio.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?

Os Irmãos Coen já fizeram de quase tudo: Homenagens ao cinema (“Barton Fink-Delírios de Hollywood” e recentemente “Ave, César”); homenagens à gêneros muito específicos (o filme gangster com “Acerto Final”, o film noir com “Gosto de Sangue”, o faroeste com “Bravura Indômita”); cult-movies (“O Grande Lebowski”); ganhadores do Oscar (“Fargo” e, sobretudo “Onde Os Fracos Não Têm Vez”) e até mesmo obras inclassificáveis (“Queime Depois de Ler” e “Um Homem Sério”).
Mas, eis que nessa ânsia por renovação e por jamais se prender numa fórmula, eles decidiram fazer também uma versão moderna do clássico conto da Grécia Antiga “A Odisséia”, assim como também uma produção musical: Tudo num só filme!
Além de ser isso tudo, “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?” é, de certa maneira, também uma homenagem ao cinema, como será possível perceber mais a frente.
Durante o período da Grande Depressão norte-americana (década de 1930), o presidiário Everett Ulisses McGill (George Clooney, em espetacular paródia do astro antigo Clark Gable), junto de seus dois amigos, Delmar (Tim Blake Nelson, sensacional) e Pete (John Turturro), resolve fugir dos trabalhos forçados da prisão estadual e toma a longa estrada para casa, disposto a voltar para os braços de sua relutante mulher, Penny (Holly Hunter) –no quê já fica perfeitamente perceptível a transposição de “A Odisséia” de Omero (cujo protagonista se chama Ulisses!) para esta versão bem-humorada e deliciosamente desmiolada que se vale dessa ambientação inusitadamente norte-americana dessa saga mitológica para fazer uma esperta sondagem das raízes provincianas em muitas das características, positivas e negativas, dos EUA.
Como vem a afirmar as palavras proféticas de um senhor no começo do filme, a viagem dos três será repleta de contratempos e distrações, além da constante perseguição da polícia –na forma de uma presença espectral e diabólica que parece ter um dom sobrenatural para encontrá-los.
Eles encontrarão Tommy Johnson (Chris Thomas King), um jovem tocador de banjo –numa referência ao filme “A Encruzilhada”, talvez? –que afirma ter vendido a alma ao diabo em troca de talento ao dedilhar o instrumento (junto dele, eles cantam uma música numa rádio local que, no percurso de sua fuga, vai se tornar uma das mais tocadas da estação!); como o próprio Ulisses, encontrarão sereias –ou melhor, lavadeiras de rio! –cuja voz melodiosa será capaz de enfeitiçá-los; além de um ciclope (John Goodman) que os conduzirá à encrencas envolvendo a Ku Klux Khan (numa seqüência musical que se atreve a estabelecer analogias propositais ou não entre as manifestações nazistas e os grandes musicais da Antiga Hollywood) e até mesmo a folclórica e torturada figura do ladrão de bancos Baby Face Nelson (Michael Badalucco).
Tirando de letra a difícil tarefa estabelecida pelo conceito desafiador de conceber um musical em termos tão inusitados (não só a trilha sonora é inebriante como o elenco arrasa nas seqüências cantadas), este belo trabalho dos sempre talentosos irmãos Coen marca a primeira dentre as inúmeras colaborações frutíferas com o igualmente talentoso astro George Clooney, que se mostra extremamente à vontade (ele chegou a ganhar o Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical) trabalhando ao lado de seus já habituais colaboradores: Holly Hunter, John Goodman, John Turturro e Charles Durning, todos já fizeram filmes com os Coen antes.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Fargo

Um primoroso e brutal registro do medíocre perpetrado pelos Irmãos Coen, “Fargo” começa com um take no qual o magnífico William H. Macy é enquadrado.
Sua expressão define tudo aquilo de que os Coen querem, e irão, falar: O ser humano medíocre e humilhado que, em seu desespero é capaz de atitudes imputáveis a ele.
Afirmam os créditos que este é um fato real e, embora isso tenha convencido o público em 1996, quando este filme foi lançado, hoje, sabe-se que foi mais uma inusitada manobra de seus realizadores.
Contudo, há mesmo um verniz de espantoso realismo a pairar sobre a trama.
O personagem de Macy, Jerry é um gerente de uma revendedora de carros. A falta de dignidade com que é tratado na empresa (que pertence ao seu sogro) lhe é tão insuportável quanto o desconforto da neve que cai durante todo o filme.
Assim, munido da crença de que pode lucrar de forma ilícita por meio de um crime supostamente perfeito, ele contrata dois meliantes (o irrequieto Steve Buscemi e o truculento Peter Stormare) para seqüestrar sua esposa fazendo assim com que seu sogro sovina e rabugento lhe pague o resgate.
Inicialmente aparentando profissionalismo, os bandidos contratados vão encontrando pequenos e imprevistos percalços pelo caminho (elementos que parecem fazer a farra dos Coen enquanto contadores de história) e terminam inadvertidamente criando um verdadeiro rastro de cadáveres. Atrás de todos, na pista dos crimes cometidos está Marge (Frances McDormand) uma xerife grávida, cuja serenidade lhe aproxima cada vez mais dos culpados.
Engenhosamente, o roteiro dos Coen flerta com essa veracidade (contestada) dos acontecimentos expondo o espectador a tipos inusitados, típicos de sua filmografia, liderados pela memorável personagem de McDormand (Vencedora do Oscar de Melhor Atriz), neste painel eles ilustram diversos momentos flagrantes, onde evidenciam uma espécie de sordidez cotidiana do ser humano. As cenas que se seguem são irônicas para com os aspectos de dissimulada encenação (o amigo de longa data de Marge com quem ela se encontra e que mais tarde se revela um farsante), de desconcertante banalidade (o ‘durante’ e o ‘depois’ contrastantes da transa dos dois bandidos com duas prostitutas anônimas), de franca repulsa (a seqüência em que a câmera explora a mesa de um restaurante por quilo) e de enrustida selvageria (quando um dos assassinos, na maior calma, usa uma máquina para moer o corpo de uma de suas vítimas). Ainda que pontuado de uma ocasional graciosidade, este é um suspense de humor negro, e isso certamente pode incomodar certos públicos.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Gosto de Sangue

Já em sua estréia no cinema, os irmãos Joel e Ethan Coen deixaram bem claro o quanto de originalidade estavam dispostos a injetar na indústria hollywodiana: Como em muitos de seus trabalhos, “Gosto de Sangue”, de uma maneira ou de outra, remete ao cinema do passado (neste caso, o film noir), tanto para homenageá-lo, como para redefinir muitos de seus conceitos.
Julian (Dan Hedaya), o rude e violento texano dono de um bar, ao descobrir estar sendo traído pela esposa, Abby (Frances McDormand, casada, na vida real, com Joel Coen, um dos realizadores) com Ray (John Getz), um de seus funcionários, encomenda o assassinato dos dois a um detetive particular (M. Emmet Walsh, numa interpretação carregada de cacoetes repulsivos).
Mas, o detetive tem outros planos: ele assassina o marido traído e planta pistas que incriminam o casal adultero.
O amante, entretanto, descobre o cadáver, e consome com o corpo, crendo que foi a mulher quem cometeu o crime. Quando começam a surgir indícios que podem lhe denunciar, o detetive começa a planejar eliminar o casal também.
A versão lançada para o DVD deste thriller envolvente e impactante é ligeiramente diferente da versão para cinema, datada de um longínquo 1988. Os Irmãos Coen julgavam a versão original muito lenta e enrolada e, ao invés de acrescentar cenas inéditas (o mais comum em "versões especiais") enxugaram ainda mais a narrativa; isso enfatiza ainda mais as intenções revisionistas deste trabalho para com o gênero noir, na forma com que os personagens se apresentam (a femme fatale de utilidade ambígua na narrativa é, aqui, um homem, enquanto que o anti-herói, é uma anti-heroína, na perplexa personagem de McDormand), no nível inédito de sordidez e violência que a modernidade de sua obra lhes permite, e na característica bastante única de seu cinema (os desdobramentos da seqüência final são tão inacreditáveis quanto desconcertantes) que os Coen, desde este trabalho inaugural, já eram capazes de ostentar.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Bravura Indômita

O cinema da Era de Ouro de Hollywood exerce um encanto fenomenal nos Irmãos Coen. Para tanto, eles criaram alguns de seus mais notáveis trabalhos debruçando-se sobre os valores, as circunstâncias e a mentalidade daquela época e como esses fatores foram, em grande medida, decisivos na concepção de obras fundamentais à sétima arte.
É um pouco desse fascínio que eles parecem resgatar nesta maravilhosa adaptação do livro de Charles Portis, e que, em sua recriação cheia de talento e personalidade, não faz nada feio se comparado com o clássico de 1970, estrelado por John Wayne –o único filme, diga-se, que chegou a dar, à essa lenda do cinema, a chance que concorrer e ganhar o Oscar de Melhor Ator.
A versão dos Coen não tem pretensão de substituir, no imaginário do público, o filme clássico, mas sim de oferecer uma visão diferenciada sobre o mesmo argumento; em muitos aspectos os Coen tornam este um filme bastante diferente, infundindo nele suas percepções mais atualizadas, uma espécie de ambigüidade moral na caracterização dos personagens e do ambiente, e um nível de detalhamento que escapava às produções antigas.
Velho Oeste. Ao chegar num típico vilarejo ao Norte dos EUA, a jovem Mattie Ross (Hailee Stanfield, fabulosa) tem um único objetivo: mobilizar uma caçada implacável ao homem vil (Josh Brolin) que matou seu pai.
Aos seus 14 anos, porém, Mattie, mesmo que obstinada e astuta, obtém pouco crédito das autoridades locais, que invariavelmente ignoram seus apelos. A única ajuda que ela consegue é o beberrão, mal-humorado e caolho Rooster Cogburn (Jeff Bridges, numa atuação brilhante em postura e observação), junto do relutante oficial LaBoeuf (Matt Damon, também ele muito bem aproveitado).
Juntos, muitíssimo à contra-gosto, essas três pessoas de irredutível caráter, mas, completamente incompatíveis entre si empreenderão a tal caçada humana pelas longínquas e inóspitas pradarias americanas.
Absolutamente livres de auto-censura e de qualquer necessidade politicamente correta, os Coen, astuciosos, pontuam seu filme com observações que jamais surgiriam em uma produção dos tempos da Velha Hollywood, em especial o tratamento indigno e cruel reservado aos índios pelo homem branco.
Eles homenageiam o passado com a auto-consciência crítica de quem sabe pertencer ao futuro.
Nem por isso, contudo, os Coen enaltecem atos de anti-heroísmo da parte de seus personagens tão humanos e idiossicráticos: Espirituosos, os Coen expõe as facetas dúbias, emocionais e irreversíveis de sua jornada até o seu desolado fim, permitindo, por meio de intérpretes de grandeza maior, que o público se enamora de todos eles apesar de tudo, e compartilhe uma pontinha de lamento quando chega a hora da despedida.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Barton Fink - Delírios de Hollywood

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 1993, trata-se de uma das mais desafiadoras metalinguagens já elaboradas do cinema, abordando um período que sempre fascinou seus realizadores: Eles fariam, mais tarde, outros e distintos filmes sobre a Velha Hollywood.
Barton Fink, é o nome de um dramaturgo nova-iorquino alçado à posição de roteirista de Hollywood em meio aos anos 1940. E, na interpretação cheia de angústia de John Turturro, ele é também um prato cheio para que os irmãos Joel e Ethan Coen explorem a dicotomia entre os fantasmas da criação artística em oposição às circunstâncias opressivas da realidade.
Quando sua trajetória começa, Barton é celebrado em Nova York pela primorosa peça de cunho social que escreveu –e que coleciona elogios da crítica desde então.
Não demora muito para que um flerte inevitável para com a indústria cinematográfica aconteça e, quando Barton menos espera (assim como a platéia), ele já está num quarto alugado de um hotel na Califórnia, incumbido de escrever um roteiro no qual seu eufórico produtor (Michael Lerner) deposita imodesta expectativa.
É nesse ponto que os Coen se revelam, confrontando o quase sempre perplexo Barton Fink com toda a sorte de ironias possíveis (e até mesmo impossíveis!) do mundo real.
Acometido por um súbito (e até compreensível) bloqueio criativo, Barton constrói de maneira um pouco relutante uma amizade com seu vizinho de quarto, Charlie, o caixeiro viajante bonachão e misterioso vivido magnificamente por John Goodman.
As conversas com ele quebram um pouco da rotina acachapante que Barton descobre entre aquelas quatro sufocantes e escaldantes paredes (a onda de calor registrada em Los Angeles faz até com que seus papéis de parede descolem!).
Há, pelo menos, outra breve visita do mundo exterior, por assim dizer: Audrey Taylor, a esposa e secretária (Judy Davis) de um roteirista alcoólatra (John Maroney) muito admirado por Barton.
Cada um desses personagens lhe expõe uma faceta cruel e sarcástica das coisas como elas são: Charlie é procurado pela polícia sob suspeita de ser um serial killer, o quê não parece encaixar na visão que Barton tem dele; Audrey sofre, resignada, a injustiça de ser a real autora dos trabalhos aclamados de seu marido, no entanto, essa indignação pode ser (ou não) o estopim de uma possível tragédia.
As reviravoltas que ocorrem a partir daí ratificam a capacidade dos Coen em trabalhar a ambivalência moral de seus personagens, assim como de adotar uma narrativa que poderia soar acadêmica em seu formato, mas que subverte toda e qualquer expectativa em sua essência.
São instantes que os Coen sugerem sem nunca, de fato, esclarecer, deixando inúmeros plots e ganchos narrativos numa dúvida que persiste depois que o filme se acabou.
A ironia torna a martirizar a vida de Barton Fink quando, após vencer o bloqueio criativo depois de muitos percalços até inacreditáveis, ele entrega (depois de uma cena de um incêndio desconcertante onde os Coen descartam o cenário opressor do filme) o roteiro finalizado com a alma e a poesia que pretendia fazer, e ele é, curiosamente, rejeitado por seu produtor –agora com a personalidade toda transformada pelos novos tempos –o quê reflete muito da esquizofrenia criativa dos grandes estúdios (com a qual, é provável, os Coen já tiveram de lidar) na ânsia de tentar atender as vontades do público.
Num rumo inverso ao dos contos morais a que estamos acostumados, os Coen pegam seu protagonista e o fazem regressar ao lúdico (ao invés de sair dele) numa cena calma e serena em uma praia quase deserta. Uma jovem (que remete em muito à garota de pureza plena que aparece na cena final de “A Doce Vida”) lhe pergunta a respeito da caixa que carrega (que remete, por sua vez, à uma acidez ao estilo Luis Buñuel), um enigma perene do filme.
Ele pergunta a ela se ela trabalha com cinema.
“Não seja bobo...” é a resposta que ele recebe, para então perceber que a imagem da moça à sua frente é a fotografia que ele olhava em seu quarto de apartamento, durante toda a aflitiva experiência em agradar os engravatados de Hollywood –e o quê é o cinema, senão uma fotografia em movimento?

quinta-feira, 9 de março de 2017

Queime Depois de Ler

Joel e Ethan Coen realizaram este filme logo na seqüência de sua obra-prima, “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, talvez para tirar, o quanto antes, qualquer expectativa em torno de sua produção subseqüente e continuar fazendo os filmes pouco usuais que sempre fizeram.
Sob esse prisma, este trabalho surge assim como um esforço dos Coen em busca de si mesmos, e em busca do tipo de cinema sarcástico, enganosamente caricato, pontuado por um humor peculiar e um drama intrínseco que sempre os definiu.
Passa longe (e isso provavelmente é deliberado) de ter o vigor narrativo de seu trabalho anterior. No lugar disso, os Coen esmiúçam a comédia humana, na forma da existência de almas perplexas, mesquinhas e desesperadas que são muitos de seus personagens, e da propensão irreprimível que essa comédia tem em converter-se em tragédia.
Despedido do FBI por alcoolismo, ex-agente (John Malkovich) resolve escrever um livro de memórias que, supõe ele, será bombástico. Enquanto sua mulher adultera planeja o divórcio para viver com seu amante, um disquete com essas memórias extravia-se e vai parar numa academia de ginástica onde dois funcionários (uma mulher frustrada que quer dinheiro para uma série de cirurgias plásticas –Frances McDormand –e um personal trainer dos mais estabanados –Brad Pitt) fazem planos de devolvê-lo em troca de uma recompensa em dinheiro, mas o problema de comunicação entre as partes é tamanho que o ex-agente toma tudo como chantagem. Uma grande confusão inicia-se envolvendo esses personagens e mais alguns outros.
Nesta fusão de comédia de humor negro, suspense e drama perpetrada pelos Coen, eles mostram-se sempre afeitos a filmes de natureza muitas vezes incategorizável como este, o que resgata ligeiramente a memória de muitos dos seus trabalhos pregressos, como o áspero e ácido “Gosto de Sangue”, o cômico e irônico “Arizona Nunca Mais”, o desconcertante “Fargo” e o caricato e ridiculamente genial “O Grande Lebowski”.
Mais do que um grande filme, portanto, os Coen desejam aqui fazer um tratado minucioso e específico destinado ao seu público (se é que eles têm um) a respeito do tipo de filme que eles planejam fazer.
O tratamento por eles reservado aos personagens oscila com desenvoltura e imprevisibilidade entre o carinhoso e o perverso, e no objetivo de tornar tudo ainda mais peculiar eles dão à essas figuras rostos famosos de um elenco estelar (além dos já citados, aparecem também George Clooney, Richard Jenkins, J.K. Simmons e Tilda Swinton).

sábado, 17 de setembro de 2016

Ave, César!

O cinema da Velha Hollywood já estava presente há algum tempo nos trabalhos dos Irmãos Coen: Prova disso é o enigmático “Barton Fink-Delírios de Hollywood” e o divertidíssimo “E Aí, Meu Irmão Cadê Você?” (cujo título foi tirado do filme dentro do filme da trama do clássico “Contrastes Humanos”).
Nunca porém eles haviam emergido de forma tão abrangente nesse retrato como o fazem aqui, e sua especulação a respeito daquela Hollywood, hoje já folclórica, vem todo permeada por sua ironia típica, não raro cruel, e seu senso de observação intrínseco de uma genial simplicidade.
As várias e absurdas tramas que passeiam por todo o filme têm como elo de ligação o produtor Fred Mannix (Josh Brolin, colaborador freqüente dos Coen em trabalhos como o antológico “Onde Os Fracos Não Têm Vez” e o excelente “Bravura Indômita”, mas tão arraigado no papel que você nem lembrará disso). O trabalho dele, além de coordenar os aspectos da produção dos simultâneos filmes realizados pela Capital Pictures Studios, é também conter os egos –e as encrencas quase surreais –que surgem da relação nem sempre profissional entre os astros fúteis e mimados e os diretores e vários técnicos envolvidos nos filmes.
Há o astro de faroestes (Alden Ehrenreich, hilariante) que, após consolidar sua carreira nos papéis exclusivamente físicos de cowboy, migra para os filmes mais dramáticos, com resultados catastróficos, para desespero de seu afeminado diretor (Ralph Fiennes); a atriz especializada em filmes aquáticos (Scarlett Johansson, linda como sempre em papel claramente inspirado em Esther Williams), que precisa providenciar um rápido casamento arranjado a fim de atenuar o possível escândalo por uma gravidez inesperada; e –dentre todos o quê toma mais tempo da narrativa –o astro de um proeminente épico bíblico (George Clooney, interpretando o que deve ser uma caricatura de Richard Burton), que acaba seqüestrado por um grupo de lesados intelectuais comunistas, na verdade, todos roteiristas amargurados com o sistema hollywoodiano de então, que não lhes dava o devido valor.
Todas essas questões, tramas paralelas e personagens ganham uma estranha abordagem na qual os Coen enfatizam o humor nonsense na mesma proporção que o drama humano embutidos nas circunstâncias.
O resultado é de uma sofisticação que beira a inacessibilidade, um problema que, se pararmos para avaliar, sempre ronda as obras desiguais desses talentosos realizadores.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Inside Llewyn Davis - Balada de Um Homem Comum

Os Irmãos Coen são donos de um talento sem igual. Seus trabalhos são mergulhos indeléveis na complexidade humana dos personagens, desafortunados habitantes dos universos que abordam. Do sério ao caricato, do brutal ao gaiato, eles registram as peculiaridades de seus percalços com doses de ironia e simetria visual que poucos autores são capazes, hoje, de equiparar.
“Inside Llewyn Davis” é, dessa forma, um de seus flertes com o musical. Engana-se, porém, quem pensar tratar-se de uma sondagem ao estilo e prosa de “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, com suas coreografias, seu verniz de irrealidade e sua roupagem à moda dos anos 1950 da “Odisséia” de Ulisses. Em verdade, o tom adotado aqui aproxima-se um pouco (mas muito pouco) da profunda melancolia, e por que não, inevitabilidade que pulsa de “Um Homem Sério”, um trabalho que os Coen, em seu talento primoroso para a caracterização, transformaram numa das mais genuínas e deprimentes experiências do cinema.
Llewyn Davis é um cantor de música folk tentando conquistar um lugar ao sol em Nova York. Não lhe faltam talento, nem apego ao seu estilo musical. Como também não lhe faltam complicações e infortúnios que sempre o impedem de deixar de ser um ninguém para se tornar alguém. O fracasso é um fantasma que paira em sua história a cada momento.
Numa forma de diversificar essa desventura (e, no processo, fazê-la ainda mais agridoce), os Coen fazem com que cruzem seu caminho toda sorte de almas desiludidas, desamparadas e tituradas pela melancolia e ironia da vida: O casal infeliz no amor, mas realizado na música composto por Justin Timberlake e Carey Mulligan; o senhor intratável (John Goodman) que dá carona a Llewyn durante uma viagem, e cujo destino vem de encontro à dissolução moral que ele demonstrou em vida; o empresário obtuso e beligerante de F. Murray Abrahams; e tantos outros.

Assim como em “Um Homem Sério” é difícil definir se o quê mais interessa os Coen é o carinho que sentem por seu protagonista (o magnífico Oscar Isaac) ou os percalços cruéis que eles fazem questão de impor ao seu caminho.

sábado, 10 de outubro de 2015

Onde Os Fracos Não Têm Vez

A violência é um elemento por meio do qual os personagens nos filmes dos Irmãos Coen definem e determinam o mundo ao qual tentam se adaptar.
Dentre todos os seus filmes, talvez, aquele que recebe uma maior ênfase na violência é este “Onde Os Fracos Não Têm Vez” –ela aparece intensa e incontornável como eles não o faziam desde “Gosto de Sangue”, e este é só um dos principais elementos notáveis nesta primorosa adaptação de Cormack McCarthy.
Pouco a pouco percebemos que no meio-oeste norte-americano, um texano comum encontra por acaso uma mala cheia de dinheiro entre vários cadáveres do que parece ter sido uma negociação de drogas que deu errado. Ingenuamente ele resolve esconder o dinheiro, mas logo surgem pessoas atrás dele. Em seu encalço está um frio assassino de aluguel que deixa um rastro de morte por onde passa. Atrás de todos eles e buscando encontrar um significado por trás de tudo, está um xerife veterano em vias de se aposentar. Vencedor de 6 Oscars em 2007, incluindo os prêmios de Melhor Filme e Melhor Direção, este poderoso trabalho reafirma o talento hiperlativo dos Irmãos Coen, sua condução da trama é um dos muitos fatores que mantém um insuspeito fascínio no filme: Não acompanhamos exatamente uma história, mas uma sucessão de cenas que nos obrigam, sistematicamente, a "pescar" a história em meio ao que vai se passando.
Nesse contexto, o trabalho do elenco é de uma importância inqualificável: Josh Brolin é uma grata surpresa, e Tommy Lee Jones parece ter nascido para interpretar o veterano xerife. Porém, é necessário separar um parágrafo inclusivo para o terceiro protagonista.
No papel de Anton Chigurt, o espanhol Javier Barden compõe uma figura assustadora, ligeiramente irreal com aquele corte de cabelo que tanto remete à outras maluquices dos Coen, e que no fim serve a propósitos mais alegóricos do filme. Sendo o personagem menos humanizado é totalmente irônico que tenha sido o único premiado do elenco (Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2007, além de uma penca de outros prêmios), e algo ainda mais indicativo da imensa perícia dos Irmãos Coen que realizam aqui um estudo sobre a violência e suas sérias implicações no mundo e na sociedade, por meio do olhar cansado daquele velho xerife, numa vã tentativa de entender a inospicidade dos novos tempos.