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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O Diabo Veste Prada 2


 Como (ou por que) fazer uma continuação de um filme que, em si, já era uma obra enxuta, fechada e redondinha? É essa pergunta que “O Diabo Veste Prada 2” tenta responder cerca de 20 anos depois do filme original observando um viés bastante pertinente nas circunstâncias atuais – e que representa uma espécie de desafio temático para muitos realizadores – o fato irreversível de que o mundo está mudando.

Sem um livro-fonte para adaptar desta vez (o primeiro filme adaptava o best-seller de Lauren Weisberger, que jamais ganhou continuações), o roteiro de Aline Brosh McKinna trabalha em duas frentes principais: Na primeira, evidentemente, contemplando os vinte anos que se passaram, os efeitos disso no mundo da moda registrado em 2006 e agora em 2026, e certamente, nos personagens principais e em suas vidas; na segunda, no elemento intrínseco que funcionou às mil maravilhas no original (e que representou um certo diferencial entre o livro e o filme que dele resultou), os próprios personagens, seus intérpretes e a rica variedade cômica de suas interações.

Agora uma jornalista premiada, Andy Sachs (Anne Hathaway) testemunha a contradição dolorosa dos tempos modernos e desfavoráveis: Na mesma noite em que é vencedora de um prestigiado prêmio de jornalismo, ela (junto de todos os seus colegas) acaba demitida; o jornal impresso para o qual trabalhava não bancará mais matérias jornalísticas ao estilo de antigamente – somente as pautas rápidas produzidas na internet, por influenciadores e youtubers parecem importar no meio.

Paralelamente, um problema parecido está sendo enfrentado na RunWay, a revista de moda para a qual ela trabalhou no passado: A editora-chefe, a toda-poderosa Miranda Priestly (Meryl Streep) pode estar com seu emprego ameaçado. A revista – que há tempos restringiu-se a ser digital – está passando por uma reformulação, fruto da influência cada vez maior do jovem Jay Ravitz (B.J. Novak, de “Bastardos Inglórios”) sobre o pai Irv Ravitz (Tibor Feldman), o presidente da RunWay, e também consequência do interesse cada vez maior do novo público por informação ágil.

Como se não bastasse, uma matéria desfavorável e equivocada publicada recentemente na revista afastou anunciantes, comprometendo a imagem de Miranda. A saída termina sendo contratar Andy como editora principal das reportagens da revista, buscando um tom mais sério, respeitável e que, ao mesmo tempo, alcance novos leitores.

O que vemos é, assim, um retorno às circunstâncias do primeiro filme – Andy trabalhando sob o crivo impiedoso de Miranda – desta vez, ligeiramente transfiguradas por características inerentes aos novos tempos: Ainda difícil de lidar (como atestam sucessivas situações envolvendo, sobretudo, a perplexa Andy), Miranda já não deflagra impunemente sua tirania; reclamações constantes feitas do setor de RH a obrigaram a ser mais moderada!

No entanto, é daí que o filme dirigido por David Frankel tira seu humor assim renovado – do fato de que as coisas são, agora, diferentes. O mesmo vale para alguns personagens, como Emily Charlton, vivida por Emily Blunt. Se no primeiro filme ela era uma das assistentes de Miranda, neste aqui, ela surge como uma executiva da Dior – uma das empresas que a RunWay almeja anunciar – e ganha inesperados rumos para sua personagem no terço final.

Os mais atentos notarão uma cadência quase similar e até simétrica com alguns dos acontecimentos do “Diabo Veste Prada” original – temos, mais uma vez, Nigel (Stanley Tucci) surgindo como mentor indireto de Andy; as sequências de golpe e contra-golpe se repetem na segunda metade; sem falar de todo o arco narrativo de Andy, de novo, dando a volta por cima profissionalmente; e uma repetição da clássica cena de diálogo dentro da limusine – contudo, este segundo filme acerta ao apostar num elemento que, no primeiro, já tinha sido evidentemente eficaz: A reafirmação de seus ótimos personagens, conduzidos por um elenco sensacional – desde o lançamento, há 20 anos, de “O Diabo Veste Prada” tornou-se lugar comum enaltecer a espetacular atuação de Meryl Streep (que, pra variar, está estupenda), no entanto, há que se falar dos maravilhosos trabalhos de Anne Hathaway (ela que em 2026 também esteve emA Odisseia”, de Christopher Nolan), de Emily Blunt (ela que em 2026 também esteve em “Dia D”, de Steven Spielberg) e de Stanley Tucci, aqui tão bons quanto no original, e das ótimas adições de Kenneth Branagh, Justin Theroux e Lucy Liu.

domingo, 14 de junho de 2026

Encontro de Amor


 O cinema do diretor Wayne Wang sempre foi fascinado por comunidades, não à toa, seu melhor e mais ressonante trabalho é o emocionante “Clube da Felicidade e da Sorte” – daí ser até natural que, ao ser contratado por um estúdio (a Columbia Pictures) para conduzir uma comédia romântica, não seja tanto o enredo e seu desenrolar cheio de encontros e desencontros que surgem com desenvolvimento mais apaixonado da parte direção, mas sim a caracterização e contextualização das circunstâncias que cercam a protagonista feminina da trama, vivida pela graciosa e radiante Jennifer Lopez – aqui, num dos sucessos de bilheteria responsáveis pela consolidação do status de estrela de sua carreira.

Lançado em 2002, “Encontro de Amor” – ou “Maid In Manhattan”, seu título original – não esconde, e nem conseguiria mesmo esconder, as semelhanças quase constrangedoras com “Um Lugar Chamado Notting Hill” (um grande sucesso do ano de 1999). Como naquele filme (mas, muito melhor realizado lá...), “Maid In Manhattan” busca unir num divertido, hesitante e cativante enlace amoroso dois indivíduos de mundos absolutamente distintos, sendo que um deles vem dos holofotes da fama, enquanto o outro do anonimato da plateia. Em “Notting Hill” havia a estrela de cinema e o plebeu desconhecido, vividos respectivamente por Julia Roberts e Hugh Grant; aqui, temos o candidato ao senado e a um só tempo sex-simbol das mulheres mais despachadas, Chris Marshall, interpretado por Ralph Fiennes (num papel bem mais leve e inesperado para os rumos usuais de sua carreira), e a camareira Marisa Ventura, vivida por Jennifer Lopez – que, num truque de inversão típico do demagógico cinema norte-americano, vem a ser, ela sim, um sex-simbol.

Mãe solteira, Marisa trabalha no ostensivo hotel de luxo Beresford, em Manhattan, no coração de Nova York, onde os procedimentos dos funcionários, visando o atendimento aos hóspedes ricaços, beira o rigor militar. Criando sozinha o pequeno Ty (Tyler Posey), Marisa almeja uma vaga disponibilizada para uma das gerências do hotel, contudo, tal cargo jamais foi ocupado antes por uma camareira – o que dificulta mais o objetivo de Marisa e faz das semanas seguintes decisivas para a avaliação de sua postura profissional (que, até então, era impecável).

Entretanto, eis que o Beresford recebe o candidato ao senado Chris Marshall que, junto de seu staff, liderado pelo inquieto e paranoico Jerry (Stanley Tucci, que décadas depois reuniu-se com Fiennes no elenco do fenomenal “Conclave”), se encontra num momento crítico da campanha – justamente quando as lentes dos paparazzi estão focadas nele, esperando qualquer deslize para virar manchete!

Numa série de mal-entendidos – daqueles típicos de uma comédia romântica – Marisa acaba sendo confundida por Chris como uma das hóspedes do hotel – ela e uma colega estavam numa travessura, experimentando o casaco Golce & Gabbana de uma hóspede real, a socialite Caroline Laine (a saudosa Natasha Richardson) quando o imbróglio acontece. Marisa aceita o convite para um passeio no parque, tentando se livrar da situação o mais rápido possível, mas, evidentemente, nesse meio tempo, a magia hollywoodiana se opera: Um interesse surge de ambas as partes e, agora, Chris quer saber quem é aquela maravilhosa mulher que ele conheceu – e tê-la como convidada para um importante jantar a ser realizado no próprio hotel!

Já, Marisa, também atraída por Chris, precisa se desvencilhar do cerco cerrado dos demais funcionários do hotel, incluindo superiores que podem farejar sua farsa, da inconveniente Caroline que pensa ser ela a convidada de Chris, e da própria situação em que se encontra, mentindo para o homem por quem está se apaixonando, e escondendo dele quem é.

“Maid In Manhattan” tem, portanto, todos os elementos narrativos de uma comédia romântica, organizados e apresentados com fidelidade formulaica – o desfecho descaradamente decalcado de “Notting Hil” é particularmente constrangedor...

Todavia, o que notamos saltar aos olhos ao longo do filme, é o amor com que o diretor Wayne Wang retrata o dia-a-dia de Marisa, sejam as regras rígidas, permeadas por subterfúgios de malandragem, que os funcionários precisam seguir em sua rotina de ‘agentes invisíveis’ dentro do hotel (que fazem lembrar o britânico “Coisas Belas e Sujas”), sejam os pequenos embates entre ela e a mãe (a cantora Priscilla Lopez, apesar do sobrenome, nenhum parentesco com Jennifer) carregados tanto de ternura quanto de ressentimento, sejam as relações amistosas, fraternais até, entre Marisa e suas colegas camareiras (talvez, os momentos mais divertidos do filme), ou os diálogos com o dedicado e minimalista mordomo Lionel (o saudoso Bob Hoskins, interpretando o personagem com dignidade e solidez). As manobras do roteiro (assinado por Kevin Wade) parecem menos importar ao diretor do que essas facetas da produção que dele recebem muito mais entusiasmo e cuidado.

Curiosidade: O argumento do filme foi idealizado pelo saudoso John Hughes (de “O Clube dos Cinco”) que não aparece creditado. No lugar de seu nome vemos um ‘Story by Edmond Dantes’, que vem a ser o herói fictício de “O Conde de Monte Cristo”!

quinta-feira, 29 de maio de 2025

A Fonte da Juventude


 Diretor peculiar e prolífico, Guy Ritchie já adentrou quase todos os gêneros desde que iniciou sua carreira com o cultuado “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”; e o mais impressionante é que ele mantém um ritmo de praticamente um filme por ano. Seria algo normal se fossem filmes ao estilo de Woody Allen (embora também nisso haja mérito), intimistas, dialogados e em baixa voltagem, no entanto, os filmes de Ritchie são cheios de energia, dinâmicos, atrevidos para com a narrativa e inconformistas para com a técnica cinematográfica.

“A Fonte da Juventude”, como tantos antes dele, vale-se da influência quintessencial de “Os Caçadores da Arca Perdida” em particular, e das aventuras de Indiana Jones em geral, para trazer uma produção elaborada em suas cenas de ação aventurescas e intrincada nas investigações arqueológicas que a norteiam. O casal de irmãos, Luke (John Krasinski, diretor e ator de “Um Lugar Silencioso”) e Charlotte Purdue (Natalie Portman) tem maneiras diferentes de honrar o legado do pai, um lendário caçador de relíquias: Enquanto Charlotte trabalha na curadoria de um museu de antiguidades –acomodação que lhe permite levar uma vida doméstica, mas não privada de aborrecimentos (como atesta seu iminente divórcio) –Luke viaja ao redor do mundo envolvendo-se em encrencas arriscadas para pôr a mão em tesouros inestimáveis em nome da História e da Ciência. O caminho dos dois se cruza quando o milionário Owen Carver (Doomnhall Gleeson) contrata Luke, sob a condição de ter também o gênio dedutivo de sua irmã, para encontrar a mítica fonte da juventude: Owen padece de câncer e a fonte, ele supõe, deve conter as propriedades curativas que haverão de salvá-lo. E Owen tem dinheiro de sobra pra financiar a empreitada com toda a sorte de bugiganga tecnológica à disposição.

E aí entra, nesse diferencial estilístico, outra característica que visa afastar um pouco a obra de Guy Ritchie da comparação um tanto constrangedora com a obra-prima de Steven Spielberg: Em “A Fonte da Juventude”, o fato da trama se situar no tempo presente está visível em cada detalhe, sobretudo, no vasto aparato digital do qual os protagonistas e seus genéricos coadjuvantes lançam mão para decifrar a quase indecifrável trilha de pistas dispostas ao redor do mundo, nas mais diversas preciosidades históricas, que levarão à dita fonte da juventude. E isso, consequentemente, aproxima o filme de “O Código Da Vinci” no desenrolar quase inverossímil de pistas absurdamente eruditas e elaboradas que se sucedem –inclusive, Luke, o protagonista vivido por John Krasinski tem, sim, muito de Indiana Jones (o desembaraço quase sobrehumano nas cenas de ação e –vá lá –o carisma do ator), mas tem muito de Robert Langdom também (o vasto conhecimento acadêmico em simbologias e relíquias antigas que convenientemente vem sempre a calhar).

Em algum momento, a fim de tornar mais interessante e conflituoso esse caminho, surge um grupo de mercenários instruídos a impedir qualquer avanço de investigadores ocasionais na aproximação da fonte da juventude, esses mercenários são liderados pela habilidosa Esme (Eiza González, de “Em Ritmo de Fuga”) que, ao longo das idas e vindas e dos percalços nada tranquilos de seu embate com Luke, vai estabelecendo com ele uma relação algo ambígua –e que já se vê posicionada para ser melhor desenvolvida nas potencialmente vindouras continuações do filme.

“A Fonte da Juventude” traz elementos de sobra para agradar aqueles que não se incomodarem tanto com sua falta de originalidade: Do início ao fim, vem adornado com o dinamismo característico de Guy Ritchie na direção, é uma produção farta na pirotecnia das cenas de ação, e seu elenco, no mais, dá conta do recado (sem falar que o foco principal em dois irmãos ao invés do usual casal romântico é bem curioso), contudo, ainda não foi dessa vez que o cinema conseguiu capturar aquela magia presente nas realizações espetaculares que Spielberg entregou nos anos 1980. E essa falha não é exclusividade dos imitadores: O próprio Indiana Jones, em sua produção mais recente, “Indiana Jones e A Relíquia do Destino”, não foi capaz de resgatar o mesmo encanto e fascínio com que fez nascer, no passado, todo um subgênero de aventura arqueológica à moda antiga.

terça-feira, 20 de maio de 2025

Conclave


 Adaptado do livro de Robert Harris, lançado em 2011, “Conclave” pode ser descrito como um filme onde, durante toda a sua totalidade, acompanhamos homens religiosos (cardeais, em sua maioria) a dialogar pelos cantos, ocupados com seus dilemas e com as conspirações internas de sua própria política –no entanto, apesar de aparentemente se restringir realmente a isso, o filme de Edward Berger (cuja obra anterior, “Nada de Novo No Front”, já havia deixado bem claro seu potencial) consegue envolver, surpreender e engajar amparado em alguns valores hiperlativos que o fazem cinema de altíssimo nível: O roteiro brilhantemente construído e conduzido (tanto que venceu a categoria de Melhor Roteiro Adaptado no Oscar 2025), o elenco primoroso que eleva a tensão e o suspense embutidos nas intrigas, e sua prodigiosa montagem, capaz de impor ritmo e atmosfera onde poderia não haver nada disso.

O Vaticano é abalado pelo notícia da morte do Papa. A fim de eleger um novo pontífice, os poderosos cardeais, proeminentes figuras de liderança da Igreja Católica ao redor de todo o mundo se reúnem para a execução de um conclave, por meio do qual, após dias de deliberação e votação, isolados de todo o mundo, devem chegar a um consenso e apontar o novo Papa entre um deles mesmos.

Para conduzir tal conclave com o máximo de parcimônia, harmonia e sensatez é escolhido o torturado Cardeal Lawrence (Ralph Fiennes, digno de um Oscar), cujas atribulações o levaram a uma tentativa de renunciar ao seu cargo religioso, a despeito de despontar como um dos possíveis candidatos a novo Papa. Outros a disputar o papado são: O cotadíssimo Cardeal Tremblay (John Lithgow), oculto atrás de segredos conspiratórios que logo revelam ser ele uma verdadeira serpente; o Cardeal Adeyemi (Lucian Msamati), da África, truculento e objetivo como seu ofício exige, mas dono de um passado comprometedor; o Cardeal Tedesco (Sergio Castellitto, de “O Último Beijo” e “Imensidão Azul”), cujas posturas ideológicas extremistas fazem dele um correspondente aos inquisidores da Idade Média nos tempos atuais (!); e o estratégico ainda que demasiado errático Cardeal Bellini (Stanley Tucci).

Esses personagens –e outros mais que se somam gradualmente à narrativa (como a Irmã Agnes, primorosamente interpretada por Isabella Rossellini) –correspondem, de certa forma, à algumas pautas em vigor no mundo, por meio das quais vislumbramos a gênese da intolerância, das divisões e até mesmo das guerras. Em última instância, “Conclave” é um trabalho fenomenal que, através desse fascinante e tremendamente misterioso e sigiloso micro-cosmos que retrata com minúcia assombrosa (somente o livro de Robert Harris, antes deste filme, atreveu-se a vislumbrar a reconstituição de como seria o desenrolar de um conclave real), observa cada uma das predisposições que nos afastam de um consenso e nos impelem, enquanto sociedade, ao atrito –nesse sentido, esta estupenda realização de Edward Berger dialoga com a série documental “Por Que Odiamos”, produzida por Steven Spielberg, na forma objetiva, transparente e cirúrgica com que se debruça sobre as celeumas morais, sociais e culturais dos seres humanos –mesmo que tais seres humanos sejam homens vistos do alto de uma pressuposta santidade.

domingo, 14 de janeiro de 2024

O Dossiê Pelicano


 A jovem estudante de Direito Darby Shaw (Julia Roberts) na ânsia de investigar o assassinato estranhamente simultâneo de dois juízes da Suprema Corte dos EUA em Washington (um deles interpretado pelo veterano Hume Cronyn, numa breve participação) deduz que esbarrou numa terrível verdade a ser encoberta de qualquer maneira por pessoas inescrupulosas e bem posicionadas nas esferas do poder: Na tentativa de silenciá-la, os criminosos, sem querer acabam matando o professor, enlace romântico e mentor dela, Thomas Callahan (Sam Shepard). Perseguida por pessoas dispostas a interromper suas investigações e neutralizar suas descobertas a qualquer custo, Darby se refugia nos subúrbios de Nova Orleans, e conta com a ajuda do jornalista investigativo Gray Grantham (Denzel Washington).

Na esteira do sucesso avassalador de “Uma Linda Mulher”, a estrela Julia Roberts seguiu fazendo o que se espera de jovens talentos em ascensão: Realizou filmes destinados a exclusivamente agradar seu público –se tais filmes tinham qualidade ou não, isso era uma questão que nunca pareceu prioridade nas decisões curiosas dos estúdios hollywoodianos. Ele protagonizou o suspense algo vulgar “Dormindo Com O Inimigo”, em 1991, e nesse mesmo ano, apareceu no meloso, romântico e superficial “Tudo Por Amor”. O passo seguinte era marcar presença num projeto mais ambicioso, capaz de colocar Julia sob as lentes de um diretor, senão grande, ao menos, renomado –Alan J. Pakula –e deixá-la, lado a lado, de outros grandes nomes do cinema, o que inclui, além do sempre eficiente Denzel, as presenças ocasionalmente aproveitadas de Sam Shepard, Stanley Tucci, John Heard, William Atherton, John Lithgow e Robert Culp (como Presidente dos EUA).

Embora protagonistas, Julia Roberts e Denzel Washington não formam um par romântico –a Hollywood implicitamente segregada de então dificilmente permitiria um casal formado por atores de etnias distintas (algo que seria aceito, e até encorajado, hoje). Assim, pode-se até pegar a dica: Composto de aspectos de dizem muito sobre o cinema comercial de seu tempo, “O Dossiê Pelicano” é feito de tendências específicas que visavam atender a demanda do público, termina sendo um veículo morno para a estrela em franca ascensão de Julia Roberts e um reaproveitamento requentado –ainda que com base no enredo original extraído do livro de John Grisham –da narrativa pulsante que o mesmo diretor Alan Pakula empregou em “A Trama” nos anos 1970; os ganchos e expedientes de roteiro são, senão os mesmos, muitíssimo parecidos!

A única diferença é o tempo em que foram realizados: Nos anos 1970, pela liberdade criativa com a qual realizadores mais jovens tateavam um novo cinema comercial (e pelas tendências autorais que emergiam na época), Pakula soube orquestrar em “A Trama” (além de outros longa-metragens) uma obra urgente e pulsante; já, em 1993, o mesmo diretor, do alto de uma carreira experiente e já sem fôlego para ousar, concebeu um trabalho com aspectos similares, sem no entanto qualquer indício de atrevimento ou inovação.

A única ousadia de “O Dossiê Pelicano”, se é que isso conta, é ser um filme mediano, quando tinha tudo para ser excelente.

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Transformers - O Último Cavaleiro


 Em seu quinto exemplar, a “Saga Transformers”, pode-se dizer, estava uma bagunça só: Na intenção de criar roteiros que fossem cada vez mais mirabolantes e surpreendentes em relação à sua mitologia, a franquia se contradizia convulsivamente. Se no primeiro filme, fica bastante clara a chegada dos Autobots na Terra como sendo seu primeiro contato com os seres humanos, logo, nos filmes subsequentes, essa ideia foi sendo deixada de lado, através de pequenas pistas que foram crescendo até chegarmos no radicalismo da proposta desta quinta produção: Os Transformers não só vieram para a Terra séculos antes, como participaram ativamente de inúmeros eventos fundamentais na história da Humanidade, e no caso dos Autobots, interagindo e colaborando diretamente com os seres humanos (!).

Se essa ideia –que parece muito agradar ao diretor Michael Bay, visto a forma com que ela veio ganhando força filme a filme –contraria muito do que foi estabelecido no começo, ao menos aqui, ela ganha respaldo total do roteiro.

Numa trama que os roteiristas insistem em tornar intrincada (mas, quando muito, é rasa, abilolada e pretensiosa), um planeta constituído de material cibernético –o assim chamado Unicron, elemento extraído do vibrante longa-metragem de animação “Transformers-O Filme” lançado em 1986 –está em deliberada rota de colisão com a Terra. A fim de impedir a destruição total de nosso planeta, os Autobots precisam da ajuda (por alguma razão que o filme não sabe bem explicar...) do humano Cade Yeager (Mark Wahlberg, regressando do filme anterior). Ao que tudo indica, os Autobots, desde sua imemorial interação com os seres humanos que remonta eras da Antiguidade (!?), sempre contaram com um Cavaleiro, portador de uma espada com poderes oriundos da tecnologia de Cybertron –e nessa salada indigesta de ficção científica descerebrada e mitologia de almanaque, sobram respingos até para a Lenda de Camelot e a espada Excalibur, supostamente entregue ao Rei Arthur por um dos Autobots (!?!) –é, a coisa fica bem esquisita mesmo...

Assim sendo, no percurso cada vez mais insano dessa premissa, os protagonistas –na verdade, o pra lá de perdido Cade Yeager e a historiadora inglesa Vivian Wembley (Laura Haddock, de “Guardiões da Galáxia”), um interesse amoroso dos mais aleatórios e despropositados –encontram o personagem de Sir Edmund Burton (Anthony Hopkins, coitado, manchando sua boa reputação), profundo conhecedor da história secreta dos Transformers e sua relação com a centenária linhagem dos cavaleiros –entre os quais, como nos é revelado em uma cena, Sam Witwick (Shia Labeouf) do filme original, que descobrimos estar morto (!!!) –da qual o último membro vem a ser o próprio Cade. Ou seja, Cade e a Dra. Wembley, em algum momento do turbilhão insano e caótico de tiros e explosões intermitentes que é a narrativa deste filme, devem encontrar as pistas do paradeiro da espada que seria Excalibur, uma vez que ela pode acionar uma ancestral nave alienígena localizada no fundo do Oceano Atlântico capaz de deter o avanço do Unicron.

Essa é a premissa do filme, mas, francamente, pouca história ou desenvolvimento de personagens ou de trama se consegue perceber neste filme barulhento, vertiginoso e ensurdecedor de Michael Bay –aqui, sua predisposição para sequências de ação está ligada no nível máximo e o filme não dá um minuto para o expectador tomar fôlego. Mais que isso: Ele não poupa nem sua própria narrativa; detalhes usuais como a elaborada investigação em busca do misterioso cajado de Merlin, por exemplo –que poderia remeter referências mais identificáveis como “Indiana Jones” ou "Código Da Vinci” –ou a manjada relação amor/implicância do casal central são completamente negligenciados pela direção que trata tudo como uma ferramenta à serviço da ação ininterrupta. Sua obra acaba sendo um atordoante teste de resistência aos expectadores que exigirem um mínimo de coerência em meio à essa sucessão apoteótica de pirotecnia.

A execração unânime da crítica e, principalmente, a indiferença maciça do público nas bilheterias referendaram “O Último Cavaleiro”, tal e qual seu irônico título, como o último capítulo dos filmes dos Transformers dirigidos por Michael Bay –ainda que ele tivesse se mantido por perto como produtor executivo –já no ano seguinte, 2018, uma espécie de reboot foi lançado (“Bumblebee”) visando resgatar um espírito mais contido, semelhante à cultuada série de animação, mas, essa é uma outra história...

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Transformers - A Era da Extinção


 Após “O Lado Oculto da Lua” e seus contratempos, um alerta vermelho acendeu nos corredores da Paramount Pictures e nos escritórios de Michael Bay: A franquia “Transformers” pedia por uma espécie de reboot e os realizadores precisavam compreender o momento certo de fazê-lo, se antecipando à reação negativa do público; que seriam bilheterias cada vez menores. Dessa forma, “A Era da Extinção” abriu mão de todo o núcleo de protagonistas humanos dos dois filmes anteriores –que, convenhamos, não serviam para muita coisa nos filmes e tinham ainda menos importância na série de desenhos de onde se inspiravam –focando em novos acréscimos ao elenco. Saia assim o histrionismo de Shia LaBeouf e entrava em seu lugar a seriedade apropriada e confiável de Mark Wahlberg, com quem Michael Bay havia trabalhado anteriormente no ótimo “Sem Dor Sem Ganho”.

É curioso notar como, dessa forma, “A Era da Extinção” apontou involuntariamente para um calcanhar de Aquiles que a franquia possuía desde seu início: A insistência dos roteiristas em privilegiar o ponto de vista dos personagens humanos (ainda que construídos com tanta rasura quanto os personagens não humanos...) e deixar num nada satisfatório segundo plano as verdadeiras estrelas do show, os robôs gigantes, Autobots e Decepticons, que se enfrentam numa guerra interminável.

Assim, entra em cena, Cade Yeager (Mark Wahlberg, recém-saído de uma indicação ao Oscar por “Os Infiltrados”), fazendeiro norte-americano com todas as características de herói involuntário de ação: É pai de uma jovem ávida por procurar encrenca (Nicola Peltz, de “Tempo”, uma candidata genérica à ‘nova Megan Fox’), é viúvo e solitário (gancho para o interesse amoroso, que veio no filme seguinte) e muito hábil em mecânica –conhecimento que vem a calhar quando acaba caindo em suas mãos a carcaça de um caminhão antigo pedindo para ser restaurado. Quando acontece de encaixar e ajustar as peças certas, Cade não apenas conserta o caminhão, mas restaura suas diretrizes, descobrindo assim que ele é Optimus Prime (!), o poderoso líder dos Autobots.

Como é perfeitamente previsível, isso arremessa Cade diretamente no centro da guerra entre as duas facções de robôs, sobretudo, depois que sua filha acaba indo parar numa nave pertencente aos alienígenas (!), o que leva Cade a ter de aturar o namoradinho metido à besta dela (Jack Reynor, de “Midsommar-O Mal Não Espera A Noite”) para poder salvá-la, indo parar do outro lado do mundo, na China (uma nada aleatória escolha de ambientação, visto a China abrigar um dos mais numerosos públicos do planeta), onde as batalhas demolidoras e barulhentas de praxe se seguem.

Mais do que a satisfação do público (ainda que, no geral, a cotação deste quarto longa-metragem tenha sido melhor que as dos dois últimos), e mais do que a aprovação da crítica (esta cada vez mais injuriada com os vícios de linguagem e as redundâncias da narrativa de Michael Bay), “A Era da Extinção” é considerado um exemplar bem-sucedido dentro da saga por ser um orçamento consideravelmente menor que os filmes anteriores (algo que Bay havia prometido já durante a pré-produção) e, mesmo assim, manter o bom desempenho nas bilheterias, o que proporcionou à “Franquia Transformers” uma sobrevida.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Por Trás Daquele Beijo

 


Devido à sua fama de ‘rainha das comédias românticas’, sobretudo durante a década de 1990, a presença de Meg Ryan em inúmeros projetos ao longo de sua carreira costumava enganar os expectadores, levando-os a crer que a produção na qual ela comparecia se tratava sempre de um filme romântico agridoce com altas doses de humor, sentimentalismo e previsibilidade –e a própria Meg contribuía com isso fazendo filmes e mais filmes sem parar dentro desse sub-gênero.

“Por Trás Daquele Beijo” até guarda elementos que poderiam aproximá-lo de uma comédia romântica, embora já em sua campanha de marketing, lá pelos idos de 1992, tenha ficado claro tratar-se de algo diferenciado, instigante até. Adaptado de uma peça teatral de Craig Lucas, roteirizado por ele próprio (o que garante ao filme similaridades criativas incontestes com sua versão original), o filme dirigido por Norman René (realizador do célebre drama homossexual “Meu Querido Companheiro”, também escrito por Lucas) tem lá sua parcela de sacarose, sobretudo no clima de romance que prevalece no primeiro ato, mas possui propósitos bastante sólidos para as escolhas que toma e, se não chega a ser um grande filme, tem pelo menos o mérito de, ao lado do excelente “Cidade dos Anjos”, ser um título desigual e notável na filmografia de Meg Ryan.

Repetindo o mesmo papel que interpretou (e muito bem) nos palcos, Alec Baldwin vive Peter, jovem editor que, numa noite qualquer, conhece a garçonete Rita, personagem de Meg. Insone, beberrona, algo niilista, mas certamente encantadora, ela se revela fascinante o bastante para que ele a procure nos dias seguintes. Logo, eles engatam um namoro sério. Ele conhece os pais dela (vividos por Ned Beatty e Patty Duke), e marcam casamento.

A despeito desse trecho inicial enfadonho e longo –ainda que preenchido de informações que serão relevantes ao plot mais tarde –é durante o casamento de Peter e Rita que “Por Trás Daquele Beijo” oferece sua grande guinada: Durante a cerimônia, um velho penetra aparece (vivido por Sydney Walker). Ninguém o conhece e, antes de ser expulso da festa, ele pede apenas oportunidade de dar um beijo na noiva.

Eis que ao beijá-la, o velho troca de mente com Rita, que vai parar no corpo do idoso. Agora, a mente do homem velho habita o corpo da garota jovem e recém-casada com lua-de-mel marcada para a Jamaica. Entretanto, ao longo dos dias, Peter vai percebendo que a pessoa que está agora casada com ele, não é a mesma que ele namorou esse tempo todo: Rita não bebe mais, não tem mais problemas para dormir, agora quer ter filhos quando antes não queria, não possui mais as mesmas inclinações socialistas de antes, nem fala e age da forma como fazia (!). Embora o corpo ainda seja o mesmo, é outra pessoa quem agora o habita.

Um elemento curioso do roteiro é justamente não entregar isso de imediato, deixando que o expectador acompanhe a gradual e perplexa constatação do mesmo ponto de vista de Peter –o que desde já torna a minúcia desta resenha um emaranhado de spoilers; ainda que o filme já seja bastante antigo. O roteiro de Craig Lucas, com essa opção, valoriza assim os pequenos detalhes, as peculiaridades dos diálogos e a capacidade de seus intérpretes, como é usual numa peça de teatro.

Se há algo de sublime no fato do diretor René optar por uma narrativa menos cômica e mais dramática, por outro lado, o filme padece de uma preocupante lentidão, acarretada devido à expansão da trama em cenas que se alternam em diferentes ambientes a fim de agregar uma mobilidade cinematográfica à narrativa e não engessar a história nas restrições inerentes ao formato teatral.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

A Honra do Poderoso Prizzi

Quando se fala em filme sobre máfia todo mundo lembra de “O Poderoso Chefão”, mas o público em geral desconhece uma série de obras-primas que coexistem nessa categoria ao lado da trilogia de Francis Ford Coppola.
“A Honra do Poderoso Prizzi” é um desses exemplares não tão aclamados, embora consiga destacar-se dentre os demais pela habilidade com que o diretor John Huston subverte algumas características de gênero para introduzir humor negro.
Sua realização esbanja uma atmosfera cômica que, nas mãos de outro diretor, ou encenada por outro elenco poderia render algo inadequado.
Não aqui.
Tarimbado desde a década de 1930 –gênese dos paradigmas do gênero que executa –era de se supor que não sairia nada de ruim quando o veterano John Huston enveredasse pelo terreno dos filmes de máfia, no qual o bem mais jovem Coppola obteve tão larga aprovação: E certamente, exige admirável reconhecimento a obra que este grande mestre terminou concebendo.
Sua magnífica contribuição ao gênero vem abrilhantada por um senso de humor primoroso e pontual, carregado de comentários irônicos acerca das atividades que rondam a vida de um mafioso (num de seus momentos mais inspirados, podemos ver, durante a cena da festa de despedida, o retrato de Marlon Brando, como Don Vito Corleone!), para tanto, não lhe faltam qualidades notáveis no elenco escolhido para essa personificação: Um Jack Nicholson absurdamente hilário, uma Kathleen Turner explosiva, uma Anjelica Huston –filha do diretor, e ganhadora do Oscar 1986 de Melhor Atriz Coadjuvante –austera e dentro do tom.
Rapaz apadrinhado desde muito jovem pelo mafioso Don Corrado Prizzi (William Hickey, de “O Nome da Rosa” e “Vítimas de Uma Paixão”), o protagonista Charley Partanna (Nicholson) vive um ligeiro dilema quando se envolve e resolve se casar com a sensual Irene Walker (Turner). Ela moradora de Los Angeles, ele, em Nova York –as idas e vindas hilárias entre a Costa Leste e Oeste ocasionadas pelo romance entre os dois e pelas próprias circunstâncias da história que eles deflagram são uma das divertidas e espirituosas observações lançadas pelo diretor Huston.
Contudo, Irene é uma requisitada assassina de aluguel –atividade que Partanna desconhece por completo –e esse matrimônio não apenas desagrada a inquieta sobrinha de Don Corrado, Maerose Prizzi (Anjelica), outrora noiva de Partanna que largou-o para fugir pro México, como também deixa alarmado todo o Clã Prizzi, o quê arruma para o pobre Partanna consideráveis encrencas com a força policial, com gangsteres rivais e com membros da própria ‘famiglia’.
Escrito com primazia (por Janet Roach, ao lado de Richard Condon, autor do livro no qual se baseia), dirigido com excelência e interpretado com perfeição, “A Honra do Poderoso Prizzi” é uma pérola que, do jeito como está, leva o expectador a transitar pelas mais diferentes sensações: Ri nervoso de suas piadas quase sempre envolvendo truculência e trágicas ironias; deixa-se envolver pelo romance eficaz e bem conduzido a transcorrer numa improvável circunstância; e, ao fim, emociona-se com brilhantismo com que partes tão incompatíveis se encaixam num todo austero e adulto, mas não desprovido de gracejo e diversão.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

O Terminal

Tão espetaculares foram as colaborações entre o diretor Steven Spielberg e o astro Tom Hanks (“O Resgate do Soldado Ryan”, “Prenda-Me Se For Capaz”, “Ponte de Espiões” e “The Post-A Guerra Secreta”, além da minissérie “Band Of Brothers” que produziram juntos) que, em meio à elas, o descompromissado “O Terminal” parece ter sido realizado por outra pessoa.
Spielberg deixou um pouco de lado o cinema adulto que tem predominado em suas obras nas últimas duas décadas para experimentar um gênero de difícil manejo, cujas complicações de ordem narrativa não costumam ser levadas em conta por público e crítica: A comédia.
A situação que envolve o personagem de Tom Hanks, Viktor Navorski, e que define do início ao fim o filme que ele protagoniza, não deixa de representar uma sutil referência às mazelas geopolíticas ocasionadas no Leste Europeu –mas, sua abordagem não poderia ser mais breve; Spielberg, aqui, quer fazer rir e entreter.
Ao chegar ao Aeroporto Internacional John F. Kennedy, em Nova York, local de trânsito constante e ininterrupto de turistas vindos do mundo todo, Viktor se depara com uma circunstância insólita: Durante seu voo, o país ao qual ele pertence, Krakozhia, sofreu um golpe de estado deixando, portanto, de existir como nação reconhecida aos olhos da ONU.
O que isso significa para Viktor? Que seu passaporte se tornou assim inválido (ele não pode cruzar os portões do aeroporto e pisar oficialmente em solo americano), bem como também se tornou uma espécie de expatriado (sem voos de retorno para Krakozhia, ele também não pode voltar para casa).
Dessa forma, Viktor não tem escolha a não ser viver no ambiente do terminal do aeroporto, o único lugar onde sua incomum situação permite que ele fique.
E o cenário predominante no filme –que quase se torna um dos seus personagens –é uma façanha da parte dos técnicos de direção de arte: O terminal é um local diversificado, preenchido de uma pluralidade demográfica espantosa, de um movimento e uma atmosfera orgânica e viva. É muito fácil ser iludido e presumir que Spielberg capturou aquelas cenas num terminal verdadeiro ao invés de ter recriado tudo em estúdio (que foi o que aconteceu). A magia do cinema só deixa evidente a artificialidade da encenação quando notamos que Spielberg lança mão de movimentos de câmera sofisticados e elaborados demais para uma filmagem feita em locação.
Uma crítica comum a “O Terminal” é que Spielberg já havia chegado num ponto em que era um diretor arrojado demais, cinematográfico demais, para tão modesta premissa –e esse argumento se reflete, sobretudo, no fato de que ele não consegue impedir o filme (bem longo) de extrapolar as duas horas de duração –no entanto, o diretor conduz com autêntica satisfação essa trama cheia de galhofa sobre um homem jogado numa cilada cujos tons absurdistas remetem à algumas obras dos anos 1980, seja em sua ingenuidade, seja em seu non-sense.
Com seu talento sem igual para o humor, Tom Hanks explora magnificamente as possibilidades cômicas que se constroem, numa oportunidade rara para divertir o público, tão constantes foram os projetos dramáticos que ele assumiu nos últimos anos.
E de fato, o protagonista e o ator que o interpreta respondem pelo que de mais genuíno e eficiente o filme tem: Como é inerente à camaradagem com a qual Spielberg enxerga seus personagens, Viktor logo encontra grandes amigos e aliados em meio à fauna de funcionários do terminal, como Enrique (Diego Luna), que lhe fornece comida desde que obtenha algumas informações sobre a bela mocinha do guichê de imigração por quem é enamorado (Zoe Saldana, antes dos sucessos de “Avatar” e “Guardiões da Galáxia”); e o desaforado zelador indiano Gupta (Kumar Pallana); além de alguns inimigos, sobretudo, o chefe de segurança do aeroporto (Stanley Tucci) que o vê como uma pedra no sapato.
Na narrativa que compõe, Spielberg não demora a enxergar o terminal como um microcosmos do mundo e da vida onde tudo nele acontece –não chega a ser surpreendente, assim, que por lá Viktor também encontra o amor nas formas da comissária de bordo vivida por Catherine Zeta-Jones (que demonstra menos química com Tom Hanks do que se poderia esperar).
No cômputo geral, “O Terminal” é um filme agradável e correto, o quê para o que se espera de um filme dirigido por Spielberg e estrelado por Hanks é quase uma frustração.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Um Golpe Perfeito


Refilmagem de “Como Possuir Lissu”, que tinha o atrativo de reunir em cena os astros Michael Caine e Shirley MacLaine, este “Um Golpe Perfeito”, dirigido por Michael Hoffman (diretor de “O Outro Lado da Nobreza”, “Um Dia Especial” ou “A Última Estação”, filmes distintos sem maiores elos estilísticos), encontra seu maior trunfo no roteiro assinado pelos Irmãos Coen –a estrutura narrativa cheia de vitalidade e criatividade, marcada por situações de ácida observação e humor negro só não é melhor porque deixa no ar a promessa de uma produção imperdível caso eles tivessem também dirigido o material.
Se “Como Possuir Lissu” contrapunha o charme encantador de Shirley MacLaine e um timing cômico absurdamente perfeito revelado por Michael Caine, “Um Golpe Perfeito” os substitui por Cameron Diaz e Colin Firth.
É injusto comparar o carisma intocado de astros do passado –vistos por muitos, às vezes, com razão, como ‘monstros sagrados’ –com o que os astros de hoje podem fazer (daí a situação tão complicada de refilmagens em geral), mas, há de se reconhecer os acertos que aqui se sucedem.
Sex-symbol estonteante nos anos 1990, e ainda uma bela mulher nos anos 2000, Cameron Diaz espertamente compensa a desfavorável comparação com os atributos de MacLaine entregando uma ótima atuação; enquanto Colin Firth contribui com seu minimalismo, sua fleuma britânica e seu talento inquestionável para dar vida à Harry Deane, um desprezado especialista em arte a serviço do prepotente e arrogante Lionel Shabandar (cuja intratabilidade o maravilhoso Alan Rickman tira de letra).
Lionel tem uma acarinhada coleção de arte, da qual a menina dos olhos vem a ser “Montes de Feno Ao Amanhecer”, de Monet. Harry sabe, portanto, ser uma espécie de meta para Lionel obter assim o quadro-gêmeo, “Montes de Feno Ao Entardecer”, pintado pelo mesmo Monet.
Daí, no plano que ele engendra para passar a perna em seu detestável empregador, a habilidade de seu grande amigo Major (Tom Courtenay, o ótimo narrador de toda a trama) em falsificar obras de arte de modo impecável e a presença sedutora da texana PJ Puznowski (Cameron) para se passar pela proprietária de tal obra.
Isso, claro, na ideia fluente, certeira e sem atropelos que passa pela mente de Harry Deane minutos antes dele propor tal estratagema à PJ em um bar do Texas –no roteiro hábil dos Irmãos Coen, essa cena (uma espécie de ‘Expectativa X Realidade’ ao contrapor essa passagem a todo o resto do filme) ganha uma sequência genial, que surpreende o expectador além de criar um inusitado background para a personagem de Cameron –que não diz um palavra –quando ela por fim fala na ‘realidade’ seu sotaque texano pronunciado (uma característica que agrada bastante os Coen) resulta hilário!
A partir daí o mesmo plano que vislumbramos ao lado de Harry naquela notável cena segue com todos os imprevistos que, em sua ingenuidade disfarçada de divertida convicção, ele não antecipou, ressaltando a desenvoltura de Cameron para pairar entre o sensualmente adorável e o funcionalmente engraçado bem como a capacidade surpreendente (e até então não aproveitada) de Colin Firth para a comédia.
Em algum momento do tortuoso e imperfeito golpe que eles aplicam aos improvisos, vai surgindo uma química que flerta com a possibilidade do romance, entretanto, o roteiro dos Coen é bom demais para permitir que o filme se refugie nessa perspectiva redundante e “Um Golpe Perfeito” segue notável até a última cena, um desenlace algo em aberto (Harry e PJ, afinal, não terminaram juntos e Shabandar é um ótimo vilão em potencial para um segundo filme) que sugere a possibilidade de uma continuação que jamais veio.

sábado, 9 de setembro de 2017

Margin Call - O Dia Antes do Fim

O cinema de J.C. Chandlor propositadamente não se revela um cinema fácil. Os poucos, mas incisivamente relevantes títulos de sua filmografia são esforços talentosos e implacáveis de radiografar, em suas tintas mais antropológicas, os lampejos selvagens do homem civilizado quando confrontado com uma situação à beira do desespero.
Nesse contexto, “Margin Call”, o filme que o revelou, é o mais perfeito exemplo dessa postura.
Seus personagens transitam num mundo asséptico, frio, quase mecânico e, dentro desses parâmetros de impressão, supostamente imutável. É isso, contudo, que a premissa, tão interessante ao seu diretor, revelará que eles perderão.
É um firma de corretores de Manhatan, e os executivos engravatados disputam entre si pela supremacia profissional. São meados de 2008 e, como sabe o expectador bem informado, é iminente a quebra na bolsa de valores que chacoalhou o sistema econômico mundial.
Os personagens que integram a fauna de “Margin Call”, entretanto, ainda não sabem disso. Ou melhor: A maior parte deles ainda não sabe; executivo júnior, dos muitos pressionados a demonstrar capacidade e eficiência em seu trabalho, Peter Sullivan (o ótimo Zachary Quinto, o Spok da nova versão de “Star Trek”), descobre, durante um extra no expediente, que alguns números nas estatísticas apontam algo incomum. Ou eles estão improvavelmente errados, ou eles sinalizam uma catástrofe em andamento. Algo que, por enquanto, só foi percebido por acaso: Em 24 horas, as ações imobiliárias que no dia anterior tinham preço elevado não terão valor algum. É madrugada, faltam algumas horas para o dia começar e, portanto, para que se inicie a jornada profissional em meio à qual todo o resto do mundo descobrirá aquilo que Sullivan antecipou.
Uma vantagem terrível da qual o executivo sênior Sam Rogers (o grande Kevin Spacey) tem lá seus escrúpulos em tirar proveito. Mas, não o executivo de alto escalão John Tuld (Jeremy Irons, brilhante e ameaçador), para ele a utilidade de tal dádiva é bastante clara: Os corretores têm cerca de oito horas para se desfazer das ações antes que a bolha na economia estoure. Em resumo, eles irão vendar os próprios olhos para o prejuízo alheio e garantir que escapem incólume à catástrofe, agindo como os predadores que são; se essa catástrofe é uma força irreprimível da natureza, então, eles irão se valer dos recursos que lhe caem a mão para sobreviver da única forma que a escola da vida, e o sistema capitalista lhes mostrou possível: A seleção natural.
É pois como uma grande, circunspecta e impiedosa análise comportamental e antropológica que o grande filme de Chandlor então se sustenta.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O Diabo Veste Prada

Talvez, o mais saboroso retrato do mundo da moda do cinema. E os responsáveis por isso são, em grande medida, o tino acurado da atriz Meryl Streep e sua lendária capacidade em capturar o tom exato de personagens não raro difíceis como a editora de moda e chefe infernal; o roteiro equilibrado, gracioso e leve de Aline Brosh McKenna, que soube traduzir para o cinema o Best-seller de Lauren Weisberger com bastante bom senso; e a direção perspicaz e austera de David Frankel (diretor mais habituado a trabalhos televisivos, como a série “Band Of Brothers”, cuja desenvoltura adquirida nesse meio deve ter sido fundamental para saber modular as diferentes impressões surgidas no processo de adaptação do livro). Isso tudo aliado a inúmeros acasos felizes que cercaram a produção e ajudaram “O Diabo Veste Prada” a consagrar-se como um dos melhores filmes de 2006, quando normalmente é muito difícil para comédias em geral integrar a lista de ‘melhores do ano’.
Outra grata surpresa do filme é Anne Hathaway. Então, conhecida pelo filme “O Diário da Princesa” e sua continuação (nos quais parecia que o papel de ‘princesinha Disney’ lhe cabia tão bem que nele ficaria por toda a carreira), Anne começou a revelar, por este filme, que tinha crescido e que, dentro do projeto certo, era capaz de ser uma atriz convincente, elegante e até sensual, chegando a confrontar a própria Meryl Streep numa das cenas finais e essenciais do filme.
Anne é Andy Sachs, uma jovem algo idealista que arruma emprego no último lugar provável: Ela se torna assistente pessoal da tirânica Miranda Priestly (Meryl, numa das mais sensacionais atuações de sua grande carreira), a famigerada editora da revista RunWay (uma substituta, no filme, para a prestigiada Vogue). Contudo, Andy é tudo, menos alguém antenada com a moda, o quê sua desdenhosa colega de trabalho (Emily Blunt, um daqueles acasos felizes de que falei) lhe joga o tempo todo na cara.

Como toca aos filmes desse manancial desde os tempos de Frank Capra, a determinação fará com que Andy viva uma metamorfose e prevaleça nesse mundinho e aparência e vaidade, e aprenderá a conviver com a chefa demoníaca, até se ver numa situação que contraria seus princípios, mas aí já é revelar demais do filme. E as reviravoltas que ele reserva (ainda que inocentes, no final das contas) preservam-lhe um sabor delicioso.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Spotlight - Segredos Revelados

O gênero investigativo já rendeu grandes filmes. Talvez o maior exemplar do gênero seja “Todos Os Homens do Presidente”, contudo, nos últimos tempos tem sido uma categoria de filmes cada vez mais escassa, possivelmente devido ao pouco interesse do público, mais e mais voltado para obras de entretenimento vazio do que produções com conteúdo. 
É possível lembrar apenas de “O Informante” de Michael Mann, com Russel Crowe e Al Pacino, num já longínquo ano 2000... e mais nada. 
“Spotlight” vem para suprir essa lacuna. E o faz com pompa e circunstância. 
Desde o início é um tanto quanto admirável ver um projeto corajoso como esse ganhar a luz do sol, pois ele toca em temas escandalosos ao apontar o dedo para a Igreja Católica. Mais admirável ainda é a inesperada consagração que ele vem obtendo na temporada de prêmios, tirando ligeiramente um favoritismo que antes parecia ser apenas de “O Regresso”. Méritos para isso não lhe faltam. 
Em 2001, pouco antes do trágico atentado ao World Trade Center (que é mostrado em um determinado ponto da narrativa), o novo editor do The Globe, prestigiado jornal de Boston, propõe uma incisiva investigação aos casos de pedofilia envolvendo padres das paróquias da cidade, que ao que tudo indica estão sendo varridos para debaixo do tapete pela própria Igreja. Essa iniciativa, movida por uma equipe jornalística apelidada "Spotlight" acaba revelando, ao longo dos persistentes meses de investigação, que tais casos não são ocorrências corriqueiras, mas abusos que ocorrem em uma imenso número, em comunidades do mundo todo, e em  todos os casos, a atitude da Igreja é a de silenciar as vítimas e minimizar os danos à própria instituição.
Com base nesse argumento, primorosamente urgido como roteiro, e contando com um elenco fenomenal (no qual se faz impossível não destacar o brilho de Michael Keaton e de Mark Ruffalo), o diretor Tom McCarthy elabora uma intenso e urgente registro do jornalismo investigativo real -aquele que parece estar morrendo, em face dos blogs e sites de notícias superficiais da internet -ao mesmo tempo que aborda um tema, no mínimo espinhoso. Prova de sua perícia, e da qualidade estratosférica que alcançou, é o fato de que ninguém está se referindo a este magnífico longa-metragem como uma obra polêmica, mas sim como o grande filme que é.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Jogos Vorazes

Quero fazer uma recapitulação dessa saga, agora que a quarta e última parte se aproxima de sua estréia nos cinemas. 
Gosto muito da saga, não apenas porque sou fascinado pela trama dos livros, ou porque ela é bem-feita de fato, mas também porque a série onde conhecemos a personagem de Katniss Everdeen é onde o mundo descobriu também sua intérprete, a pra lá de fantástica Jennifer Lawrence (por mais que ela tivesse uma indicação ao Oscar pelo anterior “Inverno da Alma”). 
No futuro, Panem é a nação que outrora foi a América do Norte. Agora controlada pela Capital e dividida em doze distritos pobres, Panem é palco de um reality show mortal: os Jogos Vorazes. Cada ano, os doze distritos devem sortear um casal de adolescentes a serem enviados numa arena artificial a céu aberto onde devem lutar até que sobre só um, assistidos por todo o país. Em meio a essa opressão, a jovem Katniss Everdeen, de 16 anos, se oferece para tomar o lugar de sua irmã menor quando esta é sorteada. Katniss tem a seu favor o fato de saber manusear arco e flecha –forma com a qual provia sua família após a morte de seu pai –e a titubeante aliança do garoto Peeta. Contra ela, porém, estão todos os outros jovens competidores, que não irão hesitar em matar uns aos outros. 
Lembro até hoje do quanto fiquei fascinado com essa premissa muito antes de sair o filme: Quando ela ainda era somente o livro escrito por Suzanne Collins. Enérgico, brutal e sentimental, “Jogos Vorazes” era um sopro de ar fresco em meio às histórias tão batidas saídas de sagas infanto-juvenis: A melhor delas, “Harry Potter” já tinha se encerrado após sete livros (e oito filmes), e todos os que possuíam bom gosto ainda eram assombrados por um certo “Crepúsculo”. 
A promessa de “Jogos Vorazes” portanto era algo até meio inédito: Uma saga juvenil, mas com elementos políticos e distópicos, interessante e pertinente o suficiente para interessar a adultos também. 
Pena que o filme, quando por fim foi lançado, revelou-se mais fraco do que se supunha; algo normal em se tratando de adaptações literárias. 
A verdade era que o diretor, Gary Ross, embora não tenha feito um trabalho ruim, foi negligente com muitos dos elementos fundamentais do livro: Ele reduziu (para não dizer, removeu completamente!) a história de Peeta e do pão, o que deixou sem embasamento muito das motivações do personagem e até mesmo da própria Katniss. Alterou (ou amenizou) o comportamento de muitos personagens, como Haymitch e Effie, e no lugar disso, acrescentou coisas desnecessárias, como várias cenas mostrando a atuação de Seneca Crane, como idealizador dos Jogos. Essa idéia podia até ter rendido mais, mostrando desdobramentos da trama que a narrativa em primeira pessoa do livro não podia mostrar, mas do modo como foi feito, todas essas cenas ficaram simplesmente redundantes. 
Por sorte, haviam muitas coisas boas: O elenco, de modo geral, é fantástico (o quê dizer da interpretação de Jennifer Lawrence, na medida certa para viver Katniss!), o desenho de produção é deslumbrante nos mais diferentes aspectos e o filme conservou força suficiente da história do livro. 
E as coisas estavam prestes a melhorar (e muito) no segundo filme.

domingo, 25 de outubro de 2015

A Mentira

Olive é um tipo raro de garota: uma garota legal. Tanto que aceita ser difamada na escola para poder livrar do bullying um colega homossexual. Explica-se: para que ele não apanhe nas mãos dos valentões homofóbicos, ela consente que ele espalhe para todos do colégio que eles já fizeram sexo. A história se alastra, e logo nerds perseguidos, CDFs menosprezados e todos os tipos de párias estudantis vêm até Olive implorando a ela para que deixe um boato de uma transa imaginária correr pelos corredores. Logo, essa situação deixará a menina em maus lençóis. 
Comédia divertida, ágil, extremamente prazerosa, um alívio de inteligência crítica e satisfatório esmero narrativo num gênero (comédia adolescente) normalmente tão abarrotado por bobagens repetitivas e superficiais. Em grande parte, isso se deve à adorável Emma Stone (indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz de Comédia ou Musical) que no papel de protagonista demonstra equilíbrio, desenvoltura e um carisma incontestável. 
Espirituosa também a analogia do clássico "A Letra Escarlate".