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quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Perfume - A História de Um Assassino


 Para o diretor Tom Tykwer –assim como para qualquer diretor que se revela ao mundo com um filme prontamente excepcional –foi uma tarefa muito difícil igualar o impacto e a repercussão causados por seu criativo e palpitante “Corra, Lola, Corra”. Dentre toda a sua empenhada filmografia, o filme que mais chegou perto de se equiparar ao brilhantismo daquele trabalho foi certamente “Perfume-A História de Um Assassino”, que o tempo converteu num clássico incompreendido. Um cult-movie.

Como o hábil esteta que é, a exemplo de diversos realizadores de seu mesmo período (a transição dos anos 1990 para os anos 2000), Tykwer emprega a narrativa cinematográfica a serviço da concepção de uma experiência sensorial. O crítico, escritor e filósofo Gilles Deleuze escreveu que o cinema na primeira metade do Século XX era baseado na pantomina do cinema mudo e, portanto, sua dicotomia envolvia a imagem em movimento, já na segunda metade do século, até pelo menos meados da década de 1990 (período do falecimento de Deleuze, 1995), ele escreveu que o cinema havia ganhado uma nova percepção originada de novas tendências, novas tecnologias e da transformação dos comportamentos, ele chamou tal fenômeno de a imagem-tempo. Tivesse Deleuze vivido para acompanhar a evolução do cinema nas décadas seguintes, ele provavelmente apontaria as produções, boa parte delas, a partir dali, de imagem-sensação. Esta é, acima de tudo, a proposta deste filme de Tom Tykwer.

Se “Corra, Lola, Corra” já simulava uma experiência sensorial um tanto quanto inédita naquele cinema de então (1999) com sua narrativa incessante, sua linguagem emprestada dos videogames e seus truques visuais que aproximavam o expectador do frenesi sentido pela protagonista, “Perfume” propõe uma ideia similar voltada, entretanto, ao sentido do olfato: São os cheiros, a obsessão que norteia, do início ao fim, a trajetória de Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whishaw), o protagonista de “Perfume”, um jovem parisiense, nascido nas piores condições possíveis que, ao longo da vida, descobre a predisposição singular para perceber todos os odores à sua volta, e passa a fazer daquilo (captar a essência de um odor) um objetivo primordial.

A Paris à qual dá corpo a narrativa de Tykwer é a Paris do Século XVIII, quando noções modernas como higiene não haviam sido descobertas nem mesmo pela aristocracia –logo, a direção de fotografia, à cargo de Martin Fuhrer, se esforça para converter as percepções olfativas de toda a podridão ao redor do protagonista em percepções visuais –a saída era, portanto, refugiar-se do mau cheiro no embuste modista dos perfumes franceses. Para Jean-Baptiste, nascido numa feira de peixes, crescido no desamparo de um orfanato e instruído no trabalho escravo de um curtume, a arte da perfumaria é uma oportunidade para ascender socialmente e, principalmente, buscar pelo seu objetivo. É o produtor de perfumes Giuseppe Baldini (Dustin Hoffman) quem descobre o dom fora do comum de Jean-Baptiste e lhe dá sua grande chance vendo, ao mesmo tempo, sua loja adquirir sucesso, graças ao talento do novo pupilo.

Mas, para Jean-Baptiste produzir perfumes e fazer sucesso não basta. Ele quer encontrar um meio de capturar a essência num invólucro (para que o cheiro jamais se perca, diferente do que houve com a jovem que matou num beco em Paris, seu primeira assassinato) e para isso, conta-lhe Giuseppe, a única forma é indo para a província de Grasse, onde mestres da perfumaria ensinam a fina arte de preparar uma rara essência que reproduz os aromas mais improváveis e imperceptíveis da natureza.

Jean-Baptiste ruma para lá, decidido à extrair o odor feminino e condensá-lo numa essência preciosa e poderosa como nenhuma outra. E é assim que ele passa a procurar por mulheres que se prestem a deixá-lo besuntá-las com banha de porco, material que, ele aprende, pode capturar qualquer aroma. Como a primeira delas, uma prostituta, se recusa a colaborar, Jean-Baptiste a mata –com suas cobaias mortas, o procedimento se torna mais fácil (!) –dando origem, assim, à trilha de mortes que assombra a pequena Grasse.

As mulheres –sejam elas prostitutas, freiras, empregadas ou damas da sociedade –desaparecem para surgirem, logo depois, mortas, nuas e intactas (!), alarmando do povoado do lugar. O sensato Lorde Antoine Richis (o grande e saudoso Alan Rickman), pai da jovem Laura (Rachel Hurd-Wood, de “Peter Pan”), uma das presas em potencial de Jean-Baptiste, alerta as autoridades para necessidade de compreender o modus operandi do assassino, o que não impede novas mortes de se sucederem e, ao fim, a da própria Laura. Eventualmente, Jean-Baptiste acaba descoberto, preso e condenado à execução por tortura.

Longe de ser uma obra realista –embora até então, houvesse relativa plausibilidade no que vinha sendo contado –o filme de Tykwer assume ares apoteóticos no trecho final, quando seu melancólico serial-killer chega no instante de sua sentença, em praça pública, e vale-se dos poderes do perfume que concebeu às custas da morte de tantas jovens: Ele hipnotiza toda a multidão, levando-os ao delírio, nomeando-o um anjo inocente e, na sequência, perpetrando uma orgia à céu-aberto (!), na cena mais assombrosa de todo o filme.

Incategorizável e adaptado do romance “Das Parfum-die Geschichte eines Mörders”, de Patrick Süskind, tido por infilmável, “Perfume-A História de Um Assassino” não é necessariamente um suspense (pois, a despeito da trajetória de psicopata que relata, suas impressões de filme de arte se libertam dos grilhões de gênero), não é um drama (pois, não há em Jean-Baptiste muita humanidade para que o expectador venha a nutrir alguma emoção, não obstante a boa atuação de Ben Whishaw, e os outros personagens, Lorde Antoine e Laura, não ganham devido tempo de cena ou respaldo da narrativa) e também não é um filme de época (pois sua reconstituição é deveras arrojada demais, fantasiosa demais e peculiar demais para isso), é sim um grande trabalho de um grande diretor, voltado para as inconstâncias do ser humano, sua obsessão inapelável por elementos prosaicos e, ao fim, o quanto todas essas superficialidades o empurram para o vazio: No desfecho, tendo chego ao seu objetivo e diante da oportunidade literal de conquistar o mundo, nada mais resta à Jean-Baptiste senão encerrar deliberadamente seu destino, deixando-se devorar (!) por plebeus hipnotizados na mesma feira de peixes onde veio ao mundo.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet

Tim Burton é um autor cuja percepção de espetáculo vai na contra-mão do óbvio. Ainda que compreenda o que gere o cinema comercial –seus filmes mais acessíveis, como “Batman” ou a refilmagem de “O Planeta dos Macacos”, não se isentam de ação formulaica e formatos narrativos pré-estabelecidos –suas obras, sobretudo, as mais pessoais, trazem sempre os elementos nos quais ele enxerga particular fascínio; e que não correspondem a um paladar considerado convencional.
“Sweeney Todd” é, talvez, a obra na qual isso se percebe com mais radicalismo.
Baseado numa peça musical de autoria de Stephen Sondheim, inspirada por sua vez no livro homônimo publicado por Thomas Peckett Prest, em 1846, o filme é ambientado no Século XIX e inicia-se quando o soturno ex-barbeiro Benjamin Baker regressa à sua Londres-natal após quinze anos enclausurado na cadeia.
Baker é um personagem sombrio a quem o astro Johnny Depp (na sua quinta colaboração com o diretor) confere entusiasmo e interesse inquestionáveis –como Burton, ele é fascinado pelo bizarro, pelo tortuoso e pelo estranho, e ambos dedicaram muito de suas carreiras a perseguir personagens e histórias que refletissem essa fascinação.
Baker, descobrimos, é um alma torturada pelos rumos trágicos de seu passado: Outrora um barbeiro feliz, casado e apaixonado com esposa e filha pequena, Baker foi acusado de um crime que não cometeu e trancafiado numa prisão, apenas para que o autor de todo seu tormento, o invejoso Juiz Turpin (o saudoso Alan Rickman), pudesse desposar de sua esposa (Laura Michelle Kelly), seu objeto de desejo desde sempre.
Quinze anos depois, sua esposa está morta –envenenou-se, dizem –e sua filha, Johanna (Jayne Wisener), agora uma jovem mulher, é a protegida do Juiz, e a medida que sua formosura se consolida, torna-se também, ela própria, o novo objeto de desejo dele.
Munido assim de outra identidade –ele agora se chama Sweeney Todd –o desafortunado protagonista reabre seu salão de barbearia na miserável Rua Fleet, bem em acima da loja de tortas da Sra. Lovett (Helena Bonham Carter, esposa de Burton) que amarga a pobreza porque suas tortas não atraem freguesia.
Sweeney Todd, entretanto, não deseja meramente voltar a ser um barbeiro: Ele quer encontrar um meio para vingar-se do Juiz Turpin, e isso toma cada pensamento seu.
Esses desenlaces, explicações e motivações até ocupam certo espaço na narrativa de Burton, mas ele não lhes dá maior atenção: Todo seu empenho está dedicado nas engrenagens que transformarão Baker em Sweeney Todd, ou seja, em um autêntico arquétipo de um filme de terror: Com sua nova identidade, ele passa a assassinar sistematicamente seus clientes, cortando-lhes a garganta com suas navalhas afiadas. E a essa metamorfose, Burton não faz nem mesmo questão de acrescentar realismo –como na peça da qual se inspira, “Sweeney Todd” é, apesar de suas nada disfarçadas facetas macabras, um musical (!).
Canção após canção, “Sweeney Todd” conduz assim o público através dessa miscelânea disfuncional de gêneros: Acompanhamos um musical de fato –assolado, inclusive, pelo grande problema de muitos musicais, onde a narrativa praticamente é interrompida durante os números de música para só seguir em frente depois que eles acabam –com intervenções de uma sub-trama de romance –o jovem marinheiro Anthony (Jamie Campbell Bower) se apaixona por Johanna a ponto de querer livrá-la do juiz, seu captor –mas, o que confere textura ao filme é o sarcasmo rasgado presente nos desdobramentos que cercam Todd e a Sra. Lovett, seus personagens principais; Numa combinação que coloca claramente qualquer bom-senso de lado, o barbeiro ganha a cumplicidade de sua locatária para matar indiscriminadamente enquanto ela usa a carne fresca dos cadáveres de suas vítimas para rechear suas tortas. Condimento misterioso que transforma sua loja num súbito sucesso gastronômico.
Há esse viés de divertimento presente em toda obra de Burton, onde ele estranhamente compartilha um insuspeito prazer em acompanhar circunstâncias tão tenebrosas. E, com isso, está em jogo também o elemento mais diferencial de sua filmografia, algo que sempre impede suas obras de serem filmes de terror com todas as letras: Uma percepção artística, dotada de humor negro, pantomina, teatralidade e até certa idealização, na qual o horror, a escuridão e a morte ganham contornos quase lúdicos, como numa brincadeira infantil.
Burton é assim, a eterna criança que brinca com seus próprios pesadelos ao invés de nutrir medo deles.
É possível, no entanto, afirmar que, ao contrário de realizações singulares como “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, “Ed Wood”, “Os Fantasmas Se Divertem” e sua obra-prima “Edward-Mãos de Tesoura”, aqui Burton perdeu um pouco a mão: Os elementos violentos e sanguinolentos se intensificam tanto que é difícil afirmar a qual público “Sweeney Todd” se dirige –e tal público se torna mais difícil de ser encontrado diante do fato de que ele é também um musical.
A despeito do poder avassalador das imagens –a concepção visual é um fator no qual Burton só melhora –“Sweeney Todd” nunca tenta evitar os rumos profundamente fatalistas em sua trama que conduzem a um final amargo mesclando ironia, tragédia e esquartejamento.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Harry Potter e As Relíquias da Morte - Parte 2

Havia uma intenção bastante específica quando foi tomada a decisão de dividir o último livro da “Saga Harry Potter” em dois filmes: Traduzir o conteúdo da história, profundamente elucidativa para com todas as pontas soltas deixadas ao longo dos outros seis livros, da forma mais completa possível –essa prática chegou até a influenciar outras sagas adolescentes posteriores oriundas da literatura como “Crepúsculo” e "Jogos Vorazes”, cujo livro final também foi dividido em filmes Parte 1 e Parte 2.
Ironicamente, é nesse aspecto que o último filme dirigido por David Yates deixa a desejar –como veremos mais a frente.
“As Relíquias da Morte-Parte 2” retoma exatamente o ponto em que a “Parte 1” abandonou o público, quando Voldemort enfim pôs as mãos na poderosa ‘varinha das varinhas’ e Harry Potter, ainda perplexo, testemunhou o nobre sacrifício do elfo Dobby.
O filme prossegue daí quando Harry, Hermione e Rony almejam agora encontrar as outras horcruxes –os artefatos de magia negra imbuídos de fragmentos da alma de Voldemort: E só para constar, até este ponto da trama, dentre todas as sete horcruxes já foram mostradas três (o diário de Tom Riddle, destruído em “A Câmara Secreta”; um anel, destruído por Dumblodore à duras penas; e o medalhão do qual Harry e Rony deram cabo no filme anterior).
As quatro que ainda faltam, de certa maneira, determinam a narrativa do filme: A quarta, uma taça enfeitiçada, guardada no Banco Gringotes, regido por desconfiados duendes –e dentro do qual os três jovens vão audaciosamente tentar entrar com o pouco confiável auxílio do duende Grampo (o sensacional Warwick Davis, de “Willow-Na Terra da Magia”). E tome mais uma cena espetacular quando os três fogem do banco sobre as costas de um dragão!
A quinta, um lendário diadema roubado da Casa de Corvinal, obriga Harry e seus amigos a voltarem para Hogwarts, onde Severo Snape prevalece como diretor impondo os desmandos do Lorde das Trevas e submetendo os alunos a um regime ditatorial –é na busca por essa horcrux que Harry se depara com o fantasma de Helena Ravenclaw, vivido por Kelly MacDonald, a estrela de “The Girl In The Café”, também dirigido por Yates.
A sexta horcrux, numa manobra até bem óbvia vem a ser a fiel e mortífera cobra Nagini, sempre próxima de Voldemort, enquanto que a sétima e última, revelada no clímax, vem a ser o próprio Harry Potter (!), que deve ser sacrificado para que o Lorde das Trevas pereça.
Na esteira dessas revelações e acontecimentos –que, por sua proximidade fidedigna ao material literário, agrega um excesso de informações que pode confundir muitos expectadores –o diretor Yates escancara suas predisposições épicas, já perceptíveis na gradual elevação de escopo em seus filmes anteriores (especificamente iniciada em “O Enigma do Príncipe”), mas abraçadas por inteiro aqui na grandiloquente batalha do bem contra o mal que toma Hogwarts como cenário na última hora de filme, quando praticamente todos os personagens (alguns interpretados por atores famosos que surgem como pontas) comparecem deste ou daquele lado.
Não há dúvida de que a possibilidade de abreviar o mínimo possível os acontecimentos do livro beneficiou o filme. Contudo, se a “Parte 1” resulta primordial e empolgante por conta disso, a “Parte 2” sofre pequenas complicações: É maravilhoso poder ver muitos trechos do livro preservados na íntegra (e uma pena constatar que isso infelizmente não ocorre com tanta frequência em adaptações cinematográficas em geral), no entanto, é estranho que justamente a sequência do livro que melhor justifica a divisão em duas partes seja exatamente a que acaba negligenciada pela narrativa –trata-se do momento em que Harry Potter contempla as memórias de Severo Snape (Alan Rickman, certamente o grande ator de toda saga), até então tratado como um dos grandes vilões da história. Por meio desse momento brilhante, Harry (e o público junto com ele) descobre as reais motivações de Snape e o porque dele ser, sem que soubéssemos, um dos grandes heróis da saga!
Um momento revelador, emocional e surpreendente que merecia no filme o mesmo zelo e cuidado demandado no livro; do jeito como ficou –numa montagem de cenas simultâneas, quase a lembrar um videoclipe –pode até suscitar algumas emoções, mas está longe do impacto que poderia ter se ganhasse a mesma atenção de algumas cenas de ação.
Claro que essas são impressões menores: Do jeito como está, “As Relíquias da Morte-Parte 2” se mantêm como um final apoteótico, arrebatador e digno para uma das sagas cinematográficas mais marcantes dos últimos tempos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Harry Potter e As Relíquias da Morte - Parte 1

O começo do fim. Desde os eventos irreversíveis do desfecho de “O Enigma do Príncipe” –isto é, a morte de Dumblodore e a opção definitiva (ou não) de Severo Snape em aliar-se ao mal –o clima obtido para este derradeiro filme era de urgência com uma notável atmosfera de inevitabilidade.
Ainda assim, os produtores não deixaram de fazer das suas para ficar um tempo a mais com a galinha dos ovos de ouro em mãos: Ao adaptar o último livro da saga, optou-se pela decisão de realizar não um, mas dois filmes extraídos do livro, com a desculpa (bastante razoável e bastante significativa para ambos os filmes) de que o máximo do material literário poderia ser mantido na adaptação.
Portanto, esta primeira parte de “As Relíquias da Morte” abrange cerca de 60% do livro, reservando os desenlaces mais contundentes para a segunda parte, o quê não impede este de ser, também ele, um trabalho muito bom.
Harry Potter está prestes a completar dezessete anos, e com isso, o feitiço de proteção que o mantinha a salvo na casa de seus tios irá se acabar. A fim de salvá-lo e levá-lo a um lugar seguro, já no início do filme, vários personagens (muitos introduzidos ao longo dos diversos filmes anteriores) unem-se para despistar os terríveis Comensais da Morte –e já nessa cena eletrizante, o diretor David Yates mostra que não está para brincadeiras. Ele exibe a escala de cenas de ação ampliada desde o memorável filme anterior, ostenta um domínio vertiginoso de narrativa que, mesmo sendo este seu terceiro filme na franquia, continua a surpreender, e não poupa o expectador e seus personagens de apuros ameaçadores de verdade; o conto de fadas pueril vislumbrado em “A Pedra Filosofal” há tempos não existe mais.
Após a breve e alentadora cena de casamento entre Gui (Doomhaal Gleeson), irmão de Rony, e Fleur (de “O Cálice de Fogo”) as circunstâncias imediatamente se complicam: O Ministério de Magia é invadido e dominado pelos Comensais da Morte. O Lorde das Trevas, Voldemort, passa a comandar então o mundo bruxo.
Harry, Rony e Hermione fogem e, ao longo de meses absolutamente angustiantes, passam a viver de maneira nômade, tentando encontrar uma forma de dar prosseguimento ao plano de Dumblodore –de achar as ‘horcruxes’, que contêm fragmentos da alma de Voldemort, para que possam assim matá-lo –sem, no entanto, nenhum recurso, nenhum auxílio e nenhuma informação.
E é a partir daí que Hermione tem a oportunidade de brilhar como nunca o fez antes, tanto pela imensa funcionalidade da personagem, como pelo talento e carisma da atriz que a interpreta, a bela Emma Watson.
Enquanto isso, e de maneira narrativamente sucinta (ainda que perspicaz), o filme mostra a extensão do mal no mundo bruxo, com Hogwarts sendo dominada por Comensais da Morte (Severo Snape é nomeado seu novo diretor), o Ministério da Magia trabalhando em função da obliteração de pessoas normais, destituídas de magia, e o nome de Harry Potter difundido como o “Indesejável Nº 1”.
São todas informações que ratificam a sensação de desamparo experimentada pelos jovens protagonistas, e que este filme é imensamente feliz em compartilhar com o público –em grande parte, auxiliado pela fácil identificação do expectador com personagens que ele já conhece há anos; e que, em muitos casos da plateia, cresceram junto com os próprios atores principais.
Como numa espécie de tradição que a série passou a adotar desde “O Cálice de Fogo”, os realizadores escolheram, como ponto de ruptura na narrativa do livro, a sequência fatídica e consternadora da morte de um querido personagem para encerrar este filme –uma jogada inteligente que dá a um filme originalmente concebido para prescindir de um desfecho um desenlace amargo, porém válido e certamente impactante.
Ao final desta “Parte 1”, as apostas na luta do bem contra o mal estão altas e o público, ávido para conferir das emoções derradeiras reservadas pela “Parte 2”.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Harry Potter e O Enigma do Príncipe

O diretor David Yates, tendo estreado em “Harry Potter” no filme anterior, chegou mesmo para agitar as coisas: Os primeiros minutos de “O Enigma do Príncipe” já deixam bem claro que, neste ponto, a saga já não tem qualquer interesse em temas infanto-juvenis –a paleta de cores é séria, monocromática, quase evocando um preto & branco interiorizado em muitos momentos; o clima de tensão é frequente e eficaz, aproximando esta obra, muitas vezes, de um filme de terror, e além de tudo, Yates impõe uma elegância à toda prova que eleva consideravelmente as apostas deste novo filme, onde são esboçados os ganchos narrativos que enfim conduzirão a saga ao seu desfecho.
Numa escala inédita nos filmes de “Harry Potter” até então, começamos o filme testemunhando o que parecem ser ataques terroristas sistemáticos em Londres de natureza mágica. Apesar do alvo ser o Beco Diagonal (visto em “A Pedra Filosofal” e “A Câmara Secreta”), podemos vislumbrar também a destruição da Ponte Millenium, de Londres. Os Comensais da Morte, pavorosos asseclas de Lorde Voldemort, atrevem-se a atacar e dar as caras no mundo normal (o chamado ‘mundo trouxa’).
Harry aparece no momento seguinte, quando o diretor Yates se dá ao luxo de fazer uma auto-referência: Impossível não lembrar de seu elogiado “The Girl in The Cafe”, quando vemos um Harry Potter aturdido com as notícias do jornal, dar um pequeno tempo e flertar com a garota que trabalha na cafeteria.
Logo, porém, a responsabilidade chama: Alvo Dumblodore requisita a companhia de Harry numa visita a um certo Horacio Slughorn (Jim Broadbent), alguém que, por razões muito especiais, o diretor de Hogwarts deseja para ser o novo professor de Poções –o professor anterior dessa matéria, Severo Snape, finalmente conseguiu a cadeira de professor de Defesa Contra A Arte das Trevas (cujas aulas mostradas no livro são omitidas no filme).
Apaixonado pela mitologia que cerca a trama como nenhum diretor antes dele, David Yates avança seu filme saboreando a evolução circunstancial presente em cada pequeno detalhe de sua história: Harry, Rony e Hermione são agora alunos dos últimos anos, o que faz deles veteranos acostumados aos meandros estudantis acrescidos da curiosidade da magia. Já a seis anos em Hogwarts, Harry agora é o capitão do time de quadribol de Grifinória, no qual seu amigo Rony e a irmã dele, Gina (Bonnie Wright), fazem teste para poder participar da equipe. E nas salas de aula, em especial, na matéria ministrada pelo Prof. Slughorn, Harry encontra um livro carcomido cheio de anotações de um certo ‘Príncipe Mestiço’ –o mistério que batiza este capítulo distraindo a atenção dos elementos realmente relevantes –e tais anotações feitas à mão ajudam Harry a tornar-se o melhor aluno da sala (!). Também o aspecto romântico se manifesta aqui com mais intensidade: Harry se descobre cada vez mais apaixonado por Gina, que no momento se envolve casualmente com Dino (Alfie Enoch), enquanto Hermione, em sua lenta e gradual aproximação com Rony tem seus planos interrompidos pela tietagem da deslumbrada Lila Brown (Jessie Cave).
Yates usa essas eventuais intrigas amorosas como pontuais atenuantes para uma trama sombria que ele engendra com zelo e critério ao longo da narrativa, sobretudo, na condução de dois núcleos distintos: Os breves, no entanto, significativos momentos em que flagramos o jovem Draco Malfoy (Tom Felton) e sua ‘missão’ por meio da qual os Comensais da Morte almejam finalmente invadir a tão segura Hogwarts; e, claro, a trajetória de Harry que o leva até o misterioso e escorregadio Horacio Slughorn –ele trás consigo um segredo (que ele recusa-se a compartilhar até mesmo com o próprio Dumblodore) sobre as razões ligadas a magia negra que fazem Voldemort ser imortal; e que, portanto, fornecem a pista para enfim matá-lo.
Como é habitual na construção narrativa de todos os “Harry Potter”, as numerosas pontas soltas a tratar de assuntos que aparentam serem tão diversos quanto dispersos, em dado momento, se unem revelando uma conexão intrínseca que os torna fragmentos complementares de uma mesma e sólida trama bem planejada –entretanto, neste filme até mais do que em “A Ordem da Fênix”, o diretor Yates se permite ir acima e além da fidelidade ao livro (que ele transfigura com convicção impecável) acrescentando impressões aos personagens e às suas motivações que só poderiam ser mesmo capturadas em cinema: É o caso da interpretação brilhantemente moldada do Prof. Slughorn que Jim Broadbent compõe com uma compreensão desigual do fascínio parasitário despertado nele por alunos de potencial fora do comum, primeiro o Tom Riddle ‘pré-Voldemort’ (interpretado em lembranças passadas por Frank Dillane e Hero Fiennes-Tiffin, este último, sobrinho de Ralph Fiennes), e depois o próprio Harry Potter. Os trinta minutos finais também revelam um domínio prodigioso dos elementos fantásticos, aqui empregados rumo a uma atmosfera genuinamente assustadora (palmas para a magnífica cena no lago dentro da caverna!).
Ao abraçar com uma serenidade contagiante um filme com facetas tão distintas (do romance ao terror, do suspense à comédia), o aspecto mais surpreendente do trabalho de David Yates acaba sendo a espantosa harmonia com a qual ele consegue manter tudo num mesmo tom, envolvendo o expectador num ritmo preciso e absorvente até a cena final que, neste filme em particular (talvez o de execução mais desafiadora de toda a saga) não encontra um ponto derradeiro que possa ser considerado um desfecho –e ainda assim, Yates o encerra extasiando o público com o filme espetacular que concebeu.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Harry Potter e A Ordem da Fêlix

Um novo filme. Uma nova troca de diretor. Todavia, este “A Ordem da Fênix” recebeu aquele que viria a ser o diretor fixo e definitivo da série até seu desfecho: O inglês David Yates, ironicamente reconhecido por trabalhos austeros, realistas e politizados feitos para a TV, como o filme “The Girl In The Café” e a minissérie (mais tarde convertida em filme) “Intrigas de Estado”.
Apesar de nada em sua filmografia pregressa sinalizar isso, Yates mostrou um fascínio inesgotável pelo material, um manuseio prodigioso dos elementos que configuravam a fantasia (como os onipresentes efeitos visuais), e um fôlego louvável que –ao contrário de Chris Columbus, cujo cansaço já se expressava no segundo filme –o levou a ostentar a mesma empolgação, o mesmo zelo para com o ritmo e a caracterização, e o mesmo patamar considerável de qualidade que ele conseguiu manter daqui até o último filme; totalizando quatro longa-metragens sob sua assinatura.
O começo de “A Ordem da Fênix” é brilhante e essencialmente cinematográfico –fruto, na opinião de muitos, do fato de ser o primeiro livro da saga escrito depois que ela já havia começado a ser adaptada para cinema. Nele, Harry surge num parquinho suburbano, contemplando memórias já distantes de infância e outras memórias, não tão distantes, mas terríveis, de quando testemunhou a morte de Cedrico no filme anterior.
Ao lado de seu primo Duda, agora à beira da deliquência, Harry é surpreendido pela aparição de dois Dementadores –numa sequência maravilhosa que deixa explícita a homenagem à “Alien”.
Por conta de usar o feitiço ‘patronum’ para proteger-se e a seu primo nesse prólogo, Harry corre assim o risco de ser expulso de Hogwarts –é sumariamente proibido que alunos pratiquem magia fora da escola.
Segue-se, logo depois, uma cena no até então muito falado, mas pouco mostrado, Ministério da Magia. Lá, o Ministro da Magia em pessoa, Cornélio Fudge (Robert Hardy), se revela hostil à Harry Potter e avesso à alegação dele e de Dumblodore de que Lorde Voldemort finalmente retornou.
E aí estão, pois, as características politizadas que justificam a escolha de David Yates como diretor –e que só se intensificarão daqui para frente –há todo um conflito de interesses ideológicos a incrementar as considerações acerca do conflito básico do bem contra o mal; para o Ministro Fudge, refutar a volta de Voldemort significa mais opor-se a Dumblodore como seu adversário político do que reconhecer o regresso do mal –e nessa teimosia, ele abre amplo espaço para a paranóia que, neste filme, contamina todo o mundo bruxo.
Isso, claro, se reflete na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts: A nova professora de Defesa Contra a Arte das Trevas, a insidiosa Dolores Humbridge (Imelda Stanton, compondo com primor a grande vilã do filme), é uma ferrenha apoiadora das facetas mais rígidas e autoritárias do governo de Fudge, e com essa postura, ela aproveita-se da ausência eventual de Dumblodore para dominar gradualmente toda a escola: Começa impondo a regra de que alunos não devem praticar magia –apenas inteirar-se da teoria –fazendo-os indefesos e deixando a capacidade para se defender reservada às forças do ministério; logo, ela se vale da proximidade com o ministro para colocar-se no direito de vetar aulas que julga desnecessárias (como as de clarividência); impõe normas de conduta abusivas e, com o tempo, táticas de punição ainda mais intoleráveis, chegando a arregimentar os alunos mais suscetíveis e corruptíveis (como Draco Malfoy) para a chamada Ordem Inquisitória destinada a policiar e denunciar as menores contravenções.
É natural que, em um ambiente assim tão repressivo, os esforços revolucionários acabem insurgindo: Dispostos a garantir um conhecimento contra as forças das trevas que se ensaiam no horizonte, Harry, Rony, Hermione e seus outros amigos –como Gina (Bonnie Wright), Chang (Katie Leung) ou Luna Lovegood (a sensacional Evanna Lynch) –resolvem integrar um grupo que reedita a Ordem da Fênix –outrora formada por seus pais, Sirius Black e outros quando jovens –e criam assim a Armada Dumblodore, para treinar às escondidas feitiços de proteção.
É impressionante perceber, por meio dessa premissa e do modo com que ela é tratada, o quanto a saga “Harry Potter” evoluiu: De aventuras infanto-juvenis investigativas, a série passou para uma contundente e eficiente alegoria sobre os excessos perniciosos do poder e da autocracia, mais próximo dos formidáveis “V de Vingança” e “1984 de Orwell” que de “Scooby-Doo”. Essa impressão é reforçada pelo evidente e notável amadurecimento do elenco, sobretudo, os protagonistas, Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson que cresceram literalmente em frente às câmeras.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Harry Potter e O Cálice de Fogo

Para o quarto filme de saga, o diretor do ótimo trabalho anterior, Alfonso Cuarón, recusou a oferta para retornar à direção. Foi chamado então o realizador Mike Newell, de “Quatro Casamentos e Um Funeral” –o primeiro inglês, por sinal, a assumir o comando da saga –o quê proporcionou aos filmes da série uma chance do público experimentar as obras que se sucediam acrescidas das sensibilidades particulares de diferentes cineastas. Chris Columbus deu aos dois primeiros um viés envolvente de aventura juvenil; Cuarón agregou ao terceiro valores cinematográficos e artísticos mais sólidos; enquanto que Newell, valendo-se da ampla experiência nos distintos gêneros que trabalhou, contribuiu com o bombástico humor inglês ao que a saga tinha de comédia, e uma refinada depuração entre o drama e o suspense para o que ela tinha de tragédia.
O resultado é que “O Cálice de Fogo” disputa, com qualquer um dos outros títulos, o posto de melhor filme de toda a saga.
No quarto ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry Potter já não é mais tão perplexo ao mundo mágico que o cerca. Suas inseguranças são agora angústias inerentes a um adolescente quase normal, que tem a peculiaridade de viver num ambiente regido por magia. Toda Hogwarts se encontra, nesse ano, em polvorosa: A escola será sede de um Torneio Tribruxo –onde Hogwarts e duas outras escolas de magia disputarão a almejada Taça dos Campeões.
Tais campeões serão selecionados pelo poderoso Cálice de Fogo cuja magia impede bruxos menores de dezessete anos de participar. Ou seja, Harry, Rony e Hermione –do alto de seus catorze anos –não podem competir. Contudo, no dia em que os competidores são anunciados, junto do nome dos usuais representantes de cada escola –Viktor Krum (Stanislav Ianevski) a representar o Instituto Durmstrang; Fleur Delacour (Clémence Poésy, de “127 Horas”) representando a Academia de Magia Beauxbatons; e Cedrico Diggory (Robert Pattinson, revelado aqui antes da “Saga Crepúsculo”) como representante de Hogwarts –o Cálice de Fogo cospe também o nome de Harry Potter (!).
Ele é aceito como competidor já que, segundo as regras do Torneio Tribruxo, os desígnios do Cálice de Fogo são onipotentes –o que significa que, na qualidade de perdedor certo, Harry terá alunos de magia mais velhos como adversários, em provas perigosas que podem perfeitamente lhe representar perigo mortal.
Ciente de que tem material de sobra para trabalhar –o livro que é aqui adaptado é um dos mais ricos e extensos de toda série –o diretor Mike Newell é admiravelmente criterioso na seleção dos momentos vultuosos e intensos que são aproveitados: Apenas aqueles que levam a história a avançar. O que sobra em “O Cálice de Fogo” é a aventura mais perfeitamente ajustada, até aqui, nas idas e vindas aflitivas de seu protagonista, absolutamente afiada nos meandros que conduzem, sem que fique claro até o instante fatídico, ao acontecimento divisor de águas para com toda a saga –é aqui, em “O Cálice de Fogo” que testemunhamos o retorno tão alardeado de Lorde Voldemort em toda sua ameaça; e ao interpretá-lo, na intensa cena do cemitério, Ralph Fiennes entrega um dos mais hipnóticos vilões dos últimos tempos, numa atuação raivosa e eletrizante que consegue fazer jus a toda preparação para sua chegada feita pelos filmes anteriores.
Por tudo isso, “Harry Potter e O Cálice de Fogo” marca uma contundente transformação na saga: A partir daqui, nada no mundo de Harry Potter será como antes –e trazer como clímax a primeira e verdadeiramente dolorosa morte de um personagem é só uma faceta dessa constatação –isso é inclusive sentido pelos próprios protagonistas na agridoce e reflexiva cena final, um sutil indício de tudo que está por vir nos excelentes filmes vindouros.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Harry Potter e O Prisioneiro de Askaban

O anúncio do afastamento do diretor Chris Columbus em meio aos preparativos para este terceiro filme da saga pegou muitos de surpresa –ainda que ele tenha permanecido próximo como produtor.
Corria o boato de que Columbus dava brecha para que fosse assim contratado Steven Spielberg, que antes do lançamento de “Harry Potter e A Pedra Filosofal” já manifestava sua intenção de dirigir a produção (e americanizar o material). Os produtores, no entanto, foram sensatos optando por uma escolha inusitada que revelou-se certeira: O magistral e premiado diretor mexicano Alfonso Cuarón, até então conhecido apenas pelos prodigiosos “A Princesinha” e “E Sua Mãe Também” –ao adaptar aquele que muitos consideravam o melhor livro de toda a saga, Cuaron estabeleceu um diálogo autoral com suas duas belíssimas obras pregressas; do primeiro, ele extrai um enternecedor senso de fábula, uma paleta de cores sedutora (com predominância do elegante verde-musgo) e uma audaz capacidade de conjurar os elementos infantis oriundos dos filmes anteriores com uma aura transgressiva, sombria e que jamais subestima seu público; do segundo, ele aproveita o retrato honesto, orgânico e incomum dos humores inconstantes da juventude, obtendo do jovem elenco suas melhores interpretações até então.
De quebra, sua habilidade cinematográfica molda uma cena memorável atrás da outra. A começar por aquela que abre o filme, como sempre, com Harry às voltas com a tirania doméstica de seus tios –mais até: Desta vez, uma intratável irmã de tio Vernon que Harry, sem querer, transforma em balão (!). Essa cena já deixa bem claro que Harry Potter está crescendo: Ele já não se mostra tão passivo e intimidado quanto outrora e ensaia até uma espécie de fuga de casa, indo parar num tal hotel ‘Caldeirão Furado’.
É lá, antes mesmo de ir para Hogwarts, que Harry descobre que um prisioneiro escapou de Askaban, a famosa prisão dos bruxos –trata-se de Sirius Black (o sempre sensacional Gary Oldman) considerado o traidor que entregou seus pais ao próprio Voldemort. Por conta disso, muitos são os que acreditam que o alvo de Sirius, agora, é o próprio Harry Potter, o quê leva Dumblodore a requisitar para a Escola de Magia e seus alunos a ambígua proteção dos Dementadores –criaturas sobrenaturais capazes de sugar a energia, a felicidade e a vida das pessoas e que em sua periculosidade não distinguem aqueles que deveriam defender dos que deveriam atacar.
Entre outras sacadas geniais da parte de Cuarón enquanto contador de histórias –e nos inúmeros detalhes que ele consegue acrescentar em relação ao livro –algo que pode passar despercebido aos expectadores mais jovens é o quanto foi inspirada a escalação do ótimo Gary Oldman para viver Sirius Black –Oldman vinha de uma série de filmes (sobretudo, nos anos 1990) em que havia se popularizado em Hollywood como um dos mais assíduos vilões do cinema comercial, em obras como “O Profissional”, “O Quinto Elemento” e “Força Aérea Um” (estereótipo ao qual, pelo menos até aquele período, ele parecia estar restrito). Os rumos presentes na trama de “O Prisioneiro de Askaban” terminam por subverter completamente essa expectativa, mas apenas porque o ator escolhido conduz o público a essa surpresa.
Por falar em atores, “O Prisioneiro de Askaban” marca a estréia de Michael Gambon no papel de Dumblodore, em substituição ao falecido Richard Harris –um trabalho tão acertado e digno que pode passar despercebido dos expectadores que não tiverem essa informação.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Harry Potter e A Câmara Secreta

Se o segundo filme de saga é, com frequência, apontado por público e crítica como um dos mais desinteressantes da série, ele é também um dos que mais cresce numa revisão.
O primeiro dos filmes a experimentar a consequência notável de como a série registrou, entre outras coisas, o efeito do tempo sobre seu elenco jovem –o ano que separa este de “A Pedra Filosofal” já é perceptível no amadurecimento das crianças –“A Câmara Secreta” dá início ao processo no qual a narrativa lúdica na história de Harry Potter agrega mais e mais elementos sombrios e, por que não, adultos, à sua trama, embora se note que Chris Columbus não pareça muito à vontade com esse teor do material. Ainda assim, ele realiza um belo trabalho valendo-se de diversas cenas (sobretudo de enquadramentos nos diálogos) onde procura empregar de um desigual prologamento de tempo, muito parecido com o usado por Peter Jackson um ano antes em “OSenhor dos Anéis-A Sociedade do Anel”.
Ávido por iniciar seu segundo ano escolar na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry amarga uma angústia ocasionada pelas últimas férias –durante todo o verão, não recebeu uma única carta de seus amigos, Rony e Hermione. Esse é um dos mistérios –dentre os muitos que aqui se somam –que logo ganha uma explicação: Doby, um elfo doméstico dotado de poderes mágicos (e concebido por meio de um primoroso processo de computação gráfica) cismou que Harry não deve, de forma alguma voltar para Hogwarts, caso contrário, coisas terríveis acontecerão.
Assim, Doby dá o estopim a muitas confusões que definem “A Câmara Secreta”: Deixa Harry em maus lençóis com seus tios, o que lhe acarreta um castigo, trancado dentro de seu quarto; em seu resgate vem Rony e seus irmãos que, à bordo de um carro voador, o levam na calada da noite. É Doby também que frustra os planos de Harry e Rony em pegar o Expresso Para Hogwarts –obrigando os dois a lançar mão, mais uma vez, do carro voador –numa das sequências mais sensacionais do filme.
Finalmente na escola, Harry, a medida que o tempo desse segundo ano passa, eventualmente descobre as razões dos temores do elfo: Uma pixação numa das paredes do lugar evidencia a ameaça –“A câmara secreta foi aberta... inimigos do herdeiro, preparem-se!”
Na esteira desse mistério, personagens começam a aparecer petrificados (primeiro a gata do zelador Filty, depois alguns dos alunos), indicando que um terrível monstro –até então preso na tal câmara –está agora à solta em Hogwarts.
Além disso, Harry descobre que seu poder de comunicar-se com cobras (como foi visto numa das primeiras cenas de “A Pedra Filosofal”) não é algo comum aos bruxos; na verdade, é uma particularidade atribuída quase exclusivamente ao tenebroso Lorde Voldemort.
Todos esses fatores têm o mérito de parecer aleatórios num primeiro momento, mas vão se unindo aos poucos, como pontas soltas numa bem elaborada e detalhada costura.
Seguindo uma fórmula similar ao do filme anterior –fato que incomoda, inclusive, porque a direção de Columbus se revela bastante exaurida em muitos momentos –este segundo filme deixa enfatizado, acima de tudo, que Hogwarts não é um local tão seguro quanto se presumia; tudo o mais que ele poderia fazer, deixa em aberto para os filmes vindouros, estes sim, responsáveis por iniciar a trama propriamente dita do embate das forças do bem contra o mal.
“Harry Potter e A Câmara Secreta” marca também a despedida do saudoso Richard Harris no papel de Alvo Dumblodore, personagem que, neste filme, ele fez questão de interpretar até o fim, em algumas cenas, necessitando de aparelhos para se manter em pé e respirando –nada disso se percebe em cena, claro, resultado da competência da equipe técnica e da brilhante tenacidade desse grande ator.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Harry Potter e A Pedra Filosofal

Um fenômeno literário, a série “Harry Potter” conseguiu o feito de repetir tal fenômeno ao ser vertido para cinema, graças à excelência de sua realização (que materializou com propriedade as inúmeras facetas do mundo mágico imaginado pela escritora J.K. Rowling), ao carisma de seu elenco escolhido com perfeição, e ao talento de seus distintos diretores que se alternaram nos filmes que se seguiram.
Para o primeiro deles, “A Pedra Filosofal” a escolha dos produtores recaiu sobre o americano Chris Columbus.
Um diretor essencialmente comercial, acostumado a moldar sucessos obtidos em parcerias (roteirizou para Steven Spielberg “Os Gremlins”, “Os Goonies” e “O Enigma da Pirâmide” e dirigiu “Esqueceram de Mim”, produzido por John Hugues) ou individualmente (“Uma Noite de Aventuras” e “Uma Babá Quase Perfeita”), Columbus fez o que poderia, afinal, dele se esperar: Narrou com noção criteriosa de ritmo (e auxiliado de maneira inestimável pela trilha sonora de John Williams) a história do jovem Harry (Daniel Radcliffe, ótima escolha), orfão inglês maltratado desde sempre pelos tios Vernon e Petûnia (Richard Griffiths e Fiona Shaw, ela de “Meu Pé Esquerdo”) e pelo mimado primo Duda (Harry Melling) com quem morou a vida toda.
No entanto, nas vésperas do décimo primeiro aniversário de Harry, coisas estranhas começam a acontecer: Corujas sobrevoam sua casa trazendo cartas que seu tio se esforça em esconder dele. Além disso, um mirabolante incidente no zoológico com uma cobra deixa Harry intrigado.
Quando o gigante Hagrid (Robbie Coltrane) apresenta-se a ele, Harry descobre a verdade: Que ele é um bruxo, parte de um mundo que vive oculto através de várias regras dos olhos de pessoas normais –e os meios pelos quais esse mundo se esconde é um dos aspectos fascinantes vistos neste primeiro filme.
Harry, na realidade, é uma celebridade no mundo bruxo: Há muitos anos, na noite fatídica em que perdeu o pai e a mãe, ele, ainda bebê, deu cabo, de alguma forma, do famoso e maldoso bruxo Voldemort (o grande vilão da saga) ganhando a cicatriz em forma de raio que tem na testa –e se tornando orfão no processo.
Com seus onze anos completos, é hora, portanto, de Harry ingressar na conceituada Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts: E assim, “Harry Potter e A Pedra Filosofal” se ocupa de definir algumas características do mundo mágico, mostrar algumas regras que devem serem seguidas (ou não) conforme testemunhamos o emprego da magia recém-descoberta pelo protagonista e apresentar os demais personagens (todos numerosos) que participarão da trama –alguns, de suma importância, aparecem neste capítulo inaugural em uma única cena como é o caso da Sra, Weasley (Julie Walters).
Este primeiro filme gira em torno de um trama, que ganha até mesmo ares secundários, a respeito da mítica pedra filosofal –cuja importância só começa a ser trabalhada de fato quase a partir da sua metade –e de sua possível capacidade de trazer Voldemort de volta à vida, entretanto, o que parece contar de fato para a narrativa é a moldura onde todos os elementos do mundo da bruxaria (ou, ao menos, da Escola de Bruxaria) são evidenciados em ricos detalhes, sobretudo, da radiante introdução de personagens como Rony Weasley (Rupert Grint, fantástico), Hermione Granger (a maravilhosa Emma Watson), o diretor Alvo Dumblodore (Richard Harris), os professores Minerva (Maggie Smith) e Severo Snape (Alan Rickman, fabuloso) e tantos outros.
Embora desfrute de imodestos cento e cinquenta e dois minutos de duração, “Harry Potter e A Pedra Filosofal” é, no frigir dos ovos, um prólogo, um história de tom deliberadamente infantil que apresenta com transparência e puerícia esse complexo contexto dentro do qual os filmes seguintes irão se passar.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Um Golpe Perfeito


Refilmagem de “Como Possuir Lissu”, que tinha o atrativo de reunir em cena os astros Michael Caine e Shirley MacLaine, este “Um Golpe Perfeito”, dirigido por Michael Hoffman (diretor de “O Outro Lado da Nobreza”, “Um Dia Especial” ou “A Última Estação”, filmes distintos sem maiores elos estilísticos), encontra seu maior trunfo no roteiro assinado pelos Irmãos Coen –a estrutura narrativa cheia de vitalidade e criatividade, marcada por situações de ácida observação e humor negro só não é melhor porque deixa no ar a promessa de uma produção imperdível caso eles tivessem também dirigido o material.
Se “Como Possuir Lissu” contrapunha o charme encantador de Shirley MacLaine e um timing cômico absurdamente perfeito revelado por Michael Caine, “Um Golpe Perfeito” os substitui por Cameron Diaz e Colin Firth.
É injusto comparar o carisma intocado de astros do passado –vistos por muitos, às vezes, com razão, como ‘monstros sagrados’ –com o que os astros de hoje podem fazer (daí a situação tão complicada de refilmagens em geral), mas, há de se reconhecer os acertos que aqui se sucedem.
Sex-symbol estonteante nos anos 1990, e ainda uma bela mulher nos anos 2000, Cameron Diaz espertamente compensa a desfavorável comparação com os atributos de MacLaine entregando uma ótima atuação; enquanto Colin Firth contribui com seu minimalismo, sua fleuma britânica e seu talento inquestionável para dar vida à Harry Deane, um desprezado especialista em arte a serviço do prepotente e arrogante Lionel Shabandar (cuja intratabilidade o maravilhoso Alan Rickman tira de letra).
Lionel tem uma acarinhada coleção de arte, da qual a menina dos olhos vem a ser “Montes de Feno Ao Amanhecer”, de Monet. Harry sabe, portanto, ser uma espécie de meta para Lionel obter assim o quadro-gêmeo, “Montes de Feno Ao Entardecer”, pintado pelo mesmo Monet.
Daí, no plano que ele engendra para passar a perna em seu detestável empregador, a habilidade de seu grande amigo Major (Tom Courtenay, o ótimo narrador de toda a trama) em falsificar obras de arte de modo impecável e a presença sedutora da texana PJ Puznowski (Cameron) para se passar pela proprietária de tal obra.
Isso, claro, na ideia fluente, certeira e sem atropelos que passa pela mente de Harry Deane minutos antes dele propor tal estratagema à PJ em um bar do Texas –no roteiro hábil dos Irmãos Coen, essa cena (uma espécie de ‘Expectativa X Realidade’ ao contrapor essa passagem a todo o resto do filme) ganha uma sequência genial, que surpreende o expectador além de criar um inusitado background para a personagem de Cameron –que não diz um palavra –quando ela por fim fala na ‘realidade’ seu sotaque texano pronunciado (uma característica que agrada bastante os Coen) resulta hilário!
A partir daí o mesmo plano que vislumbramos ao lado de Harry naquela notável cena segue com todos os imprevistos que, em sua ingenuidade disfarçada de divertida convicção, ele não antecipou, ressaltando a desenvoltura de Cameron para pairar entre o sensualmente adorável e o funcionalmente engraçado bem como a capacidade surpreendente (e até então não aproveitada) de Colin Firth para a comédia.
Em algum momento do tortuoso e imperfeito golpe que eles aplicam aos improvisos, vai surgindo uma química que flerta com a possibilidade do romance, entretanto, o roteiro dos Coen é bom demais para permitir que o filme se refugie nessa perspectiva redundante e “Um Golpe Perfeito” segue notável até a última cena, um desenlace algo em aberto (Harry e PJ, afinal, não terminaram juntos e Shabandar é um ótimo vilão em potencial para um segundo filme) que sugere a possibilidade de uma continuação que jamais veio.

domingo, 13 de maio de 2018

Duro de Matar



Vindo de um filme muito bem-sucedido (“O Predador”, com Arnold Schwarzenegger), o diretor John McTiernam –que, depois deste trabalho passou a ser considerado, com méritos, um especialista –conseguiu entregar, neste projeto seguinte, um filme de apelo irresistível, onde o gênero de ação encontra um de seus mais perfeitos (e mais imitados) exemplares.
Para tanto, inúmeras coisas deram certo em “Duro de Matar” –a começar pela imprevista escolha de Bruce Willis, cujo carisma segura o filme maravilhosamente bem, no lugar do inicialmente cotado Schwarzenegger; Willis (na crista da onda com o sucesso da série “A Gata e O Rato”) termina introduzindo o elemento que mais distingue e define seu personagem –o policial John McClane –e o próprio filme que ele protagoniza: A sua vulnerabilidade.
Os anos 1980 estavam abarrotados –e talvez até defasados –de protagonistas durões, fortes e invencíveis; entre os quais muitos deles vividos pelo próprio Arnold Schwarzenegger e por Sylvester Stallone (como “Rambo”).
“Duro de Matar” como quem não quer nada estabeleceu uma nova equação: O filme de McTiernam testa o expectador. Até mesmo provocando-o com a possibilidade de um filme mais contido em sua primeira meia hora: Vemos o policial nova-iorquino John McClane chegando em Los Angeles, para visitar a família no feriado de Natal.
Em plena véspera, ele acaba indo parar numa festa em um edifício luxuoso onde sua esposa Holly (Bonnie Bedelia) trabalha ambiciosamente como uma das executivas –fato que deixou seu casamento abalado; e nesse breve trecho notamos o quão indispensável é a versatilidade dramática de Willis em dar facetas humanas ao personagem (coisa que Schwarzenegger e Stallone possivelmente não seriam capazes de fazer).
Esses elementos serão essenciais mais a frente.
Colidindo com as expectativas do público ao deixar de entregar cenas de ação ocasionais –e, em vez disso, deixando que a narrativa se torne tensa, eletrizante e épica aos poucos, McTiernam monta o cenário devagarzinho: Subitamente, bandidos altamente organizados tomam o local. Isolam o prédio e fazem todos de refém no único andar ocupado (o da festa). Eles e seu líder (interpretado primorosamente por Alan Rickman) têm um propósito que se mantém misterioso (e que, no fim das contas, não importa muito).
Durante o tumulto, o policial McClane passa despercebido e consegue se refugiar nos outros andares do edifício, vazio em função do feriado.
E está assim armada a circunstância sensacional em torno da qual a narrativa de “Duro de Matar” irá girar –e que irá explorar em todos os desdobramentos explosivos. McClane acaba por se tornar a única esperança para os reféns, e uma dor de cabeça gradualmente alarmante para os bandidos –e nesse crescendo, o diretor McTiernam amplia o suspense e o assombro do público amparando-se na autenticidade de seu protagonista. Ao ver McClane sangrar, sentir medo, apreensão e até frustração (na contínua incapacidade de encontrar algo para vestir seus pés descalços) o diretor aproxima um herói de ação de seu público de forma até então inédita e ainda se dá ao luxo, quando “Duro de Matar” diz a que veio e se torna o filmaço que é, de entregar uma cena de ação memorável atrás da outra. Cito duas: A luta brutal e (à época) impressionante entre McClane e o brutamontes vivido por Alexander Godunov (de “Um Dia A Casa Cai”); e aquela que talvez seja a grande cena clássica do filme –McClane encurralado numa cobertura prestes a explodir se amarra numa reles mangueira de incêndio para saltar do edifício num dos momentos mais vertiginosos do cinema comercial dos anos 1980.
Tão envolvente e vibrante foi a simplicidade e a objetividade de sua premissa que “Duro de Matar” virou nas décadas seguintes, uma espécie de conceito: Os filmes de ação produzidos passaram a ser variações de “Duro de Matar” com seus heróis confinados em porta-aviões (“A Força Em Alerta”, com Steve Segal), em estádios de hóquei (“Morte Súbita”, com Jean Claude Van Damme), e até em um ônibus (“Velocidade Máxima”, com Keanu Reeves)! Mesmo hoje esse conceito ainda perdura (caso do recente “Invasão À Casa Branca”, com Gerard Butler).
O próprio “Duro de Matar” rendeu até então quatro continuações (todas com Bruce Millis em boa forma), mas nem elas nem seus imitadores foram capazes de capturar a genialidade deste primeiro filme.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A Saga Harry Potter - A Quarta e Última Parte


Harry Potter e As Relíquias da Morte-Parte 1
   O início do fim. Talvez por razões mercadológicas, talvez na intenção de preservar a integridade da obra (ou talvez por ambas as razões), o último livro foi dividido em dois filmes, sob o pretexto de todas as revelações contidas na obra serem mantidas, sem a necessidade de resumos ou abreviações. Esse mesmo pretexto foi adotado, mais tarde, em outras sagas como “Jogos Vorazes” e no já citado “Crepúsculo”, com resultados bastante díspares. A verdade é que, pelo menos nesta primeira parte, o recurso foi bastante interessante, possibilitando que passagens inteiras (e muito reveladoras) do livro ficassem intactas.
   No sétimo ano (em que completa sua maioridade), o jovem Harry Potter toma a decisão de percorrer o mundo em busca das horcruxes; objetos descobertos no filme anterior, e que são os fragmentos extraviados da alma do perverso Voldemort, portanto, a única maneira de matá-lo. A decisão de Harry vem numa hora crucial, já que o Ministério da Magia é tomado pelos Comensais da Morte, que impõem uma perseguição mortal aos trouxas, e Hogwars, a até então segura Escola de Magia, é controlada pelo agora diretor Severo Snape (o grande Alan Rickman), o frio assassino de Alvo Dumbledore.
   Junto de Harry, estão seus amigos Ron Weasley e Hermione Granger, as únicas companhias que Harry terá nessa angustiante cruzada.

Harry Potter e As Relíquias da Morte-Parte 2
   E foi assim que David Yates –o diretor mais longevo a lidar com a saga “Harry Potter” –chegou a este oitavo filme, o quarto sob sua direção.
   A divisão do livro derradeiro em dois filmes, que funcionou tão bem no filme anterior, não se revela tão harmônica neste último, sobretudo porque eles insistiram (mesmo adaptando somente os 40 % finais do livro) em resumir à uma montagem rápida, quase videoclipe, o grande momento do filme (a história de Severo Snape), enquanto deram mais espaço à segmentos mais desnecessários, como a batalha final propriamente dita, cheia de inserções novas que estendem a trama sem razão.
   Essas decisões tiraram a possibilidade de concretizar um filme perfeito no sentido de adaptação, mas Yates ainda sim realizou um trabalho magnífico (e que continua espetacular, anos depois, especialmente em comparação com as sagas juvenis que o precederam).
   Neste capítulo final faltam relativamente poucas horcruxes para Harry, Ron e Hermione reunirem. Muitos sacrifícios já foram realizados. Outros tantos estão por vir. E os itens que restam certamente serão encontrados na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, local onde agora os Comensais da Morte se apinham, orientados pelo soturno Severo Snape.
   O retorno a Hogwarts fará, portanto, Harry Potter confrontar seu maior inimigo que assassinou seus pais e lhe relegou o pesado destino de "salvador", assim como o próprio Severo Snape e o grande segredo que ele guardou durante toda a saga.

terça-feira, 12 de julho de 2016

A Saga Harry Potter - Terceira Parte


Harry Potter e A Ordem da Fênix
   Uma nova troca de diretores. Desta vez, os produtores tiveram relativa sorte ao encontrar David Yates (até então um diretor televisivo, mas de insuspeita qualidade, com obras como “Intrigas de Estado” e “The Girl In The Café”), que demonstrou não apenas um nível de sensibilidade e qualidade artísticas na mesma proporção dos talentosos realizadores anteriores, mas também se enamorou de tal forma com o material oriundo dos livros de J.K. Rowling que terminou sendo o seu diretor oficial até o fim da série.
   Neste capítulo, descobrimos que, infelizmente, Harry Potter foi a única testemunha do retorno de Voldemort visto no filme anterior. É por isso que ao iniciar seu quinto ano na escola de Hogwarts, Harry é recebido com certa descrença. Pior que isso, agora com as constantes mudanças políticas, quem assume a diretoria da escola é uma mulher repressora, a ardilosa Dolores Umbridge (a sensacional Imelda Stanton), que tira a liberdade dos alunos.
   Para obter a verdade, e poder se preparar contra o mal que se aproxima, o próprio Harry cria um grupo revolucionário chamado Armada de Dumbledore (inspirado pelo gesto de seus pais e Sirius Black que, no passado, compuseram a Ordem da Fênix), e passa a treinar magia escondido com outros alunos, começando o que poderia vir a ser uma revolução.


Harry Potter e O Enigma do Príncipe
   David Yates retoma à direção neste sexto filme, mas ao contrário de Columbus que, lá no início, demonstrou desgaste e cansaço já em sua segunda produção, Yates mostra fôlego redobrado neste extraordinário episódio: Seu refinamento narrativo –já evidente no trabalho anterior, onde ele adotou inesperadas referências, como “V de Vingança”, para uma série do porte de “Harry Potter” –é ainda mais aprimorado aqui, onde ele emprega uma encenação sofisticada, em perfeita sintonia com o trabalho exemplar do diretor de fotografia Bruno Delbonnel.

   No seu sexto ano como aluno na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry Potter testemunha a tensão constante que paira no ar em função do medo despertado pelo onipresente Lord Voldemort e seus Comensais da Morte. Paralelamente, Harry e seus amigos, Ronny e Hermione, vivem as agruras dos primeiros amores da adolescência, principalmente quando Harry começa a perceber que está se enamorando de Gina, a irmã de seu melhor amigo. Entretanto, todos esses acontecimentos podem se interromper se Harry não cumprir uma certa missão da qual foi incumbido por Dumblodore: Obter as memórias do novo professor de Poções (o ótimo Jim Broadbent), memórias estas que estão diretamente relacionadas a Voldemort, e que escondem um horripilante segredo.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

A Saga Harry Potter - Segunda Parte


Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban
   A saída de Chris Columbus exigiu evidentes mudanças na saga, e a primeira delas foi um intervalo de tempo maior entre o segundo e este novo filme; provavelmente para uma melhor aclimatação no novo diretor, o talentoso Alfonso Cuarón (então conhecido por duas pérolas, os ótimos “A Princesinha” e “E Sua Mãe Também”).
   Essa notícia deixou os fãs da série eufóricos. Não foi à toa: Empregando seu talento desigual, seu lirismo e seu estilo infinitamente mais hábil do que o genérico Columbus, Cuáron concebeu o melhor filme da série.
   A evolução, não apenas no crescimento natural do elenco infantil, ficou evidente neste filme que agregava valores cinematográficos à narrativa, aprimorando os eventos relatados e levando Harry Potter, bem como seu fiel público, à outros e inesperados níveis. À sua maneira, Cuáron capturou em filme a essência do fascínio despertado pelos livros.
   Prestes a iniciar seu terceiro ano em Hogwarts, Harry Potter descobre que está ameaçado: O perigoso Sirius Black (o fantástico Gary Oldman), acusado de traição, e considerado um dos responsáveis pelos eventos que levaram os pais de Harry à morte, escapou da prisão de Askaban (uma espécie de penitenciária para bruxos), onde estivera nos últimos 13 anos. Assim sendo, a escola de Hogwarts passa a ser vigiada pelos perigosos Dementadores (guardas fantasmagóricos que roubam a energia dos vivos). Além disso, Harry tem que descobrir por que tem visões de um cão sinistro, por qual razão os Dementadores o afetam tanto, e quais são os segredos de seu novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas: O misterioso, ainda que amigável, Remo Lupin (David Thewlis, um dos muitos e magistrais atores britânicos a integrar o elenco dos filmes).
   Este terceiro filme também marcou a entrada do grande Michael Gambon no elenco, substituindo o magnífico Richard Harris no papel de Dumbledore (que infelizmente veio a falecer logo após as filmagens do filme anterior).


Harry Potter e O Cálice de Fogo
   No filme anterior, Alfonso Cuaron havia estabelecido um patamar de qualidade técnica e artística muito maior que as duas obras inaugurais. Como o talentoso mexicano não aceitou voltar para a direção do quarto filme (que adaptaria o que alguns fãs consideram o melhor livro), os produtores recorreram a uma escolha ao mesmo tempo audaciosa e refinada: Mike Newell, realizador inglês do indicado ao Oscar “Quatro Casamentos e Um Funeral”.
   O humor britânico de Newell, aliado à sua ampla experiência como artesão cinematográfico, foram muito apropriados para este quarto filme, igualando assim o deleite do ótimo produto anterior.
   Na trama esboçada aqui, Harry inicia seu quarto ano na escola após as reviravoltas do ano anterior. Há uma euforia geral do ar em função de um torneio tribruxo envolvendo outras três escolas de magia e bruxaria de outros cantos do mundo. Misteriosamente, o onipotente cálice de fogo seleciona Harry Potter para representar Hogwarts durante o árduo torneio. Mas nada é o que parece ser, e Harry verá que o perigo está muito mais próximo do que todos supõem, na forma do eminente retorno daquele que todos temem: Lorde Voldemort.
  Várias coisas notáveis se sucedem neste capítulo: A primeira morte realmente brutal de um personagem (no caso, Cedrico Digori, interpretado por Robert Pattinson, que viria a se tornar astro com a infame série “Crepúsculo”), ressaltando o tom cada vez mais sombrio e amadurecido da história, e a introdução de inúmeros personagens importantes para o futuro da saga, sobretudo a assustadora e admirável inclusão de Ralph Fiennes, como Voldemort (o quê o coloca, talvez, como o segundo melhor intérprete de toda a saga, atrás somente do fenomenal Alan Rickman como Severo Snape), além da chegada de elementos que deixam, em definitivo, a infância dos personagens para trás, como as primeiras experiências amorosas.