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domingo, 19 de fevereiro de 2023

Donnie Brasco


 O filme “Donnie Brasco” foi indicado ao Oscar 1998 de Melhor Roteiro Adaptado, o qual ele perdeu para “Los Angeles-Cidade Proibida”. É bastante incisiva e elegante a forma com que o roteirista Paul Attanasio expõe os meandros e códigos de conduta mafiosos a medida que vai revelando motivações e temperamentos e seus personagens nesta adaptação de um famoso livro escrito por um ex-agente do FBI que trabalhou por anos infiltrado na Máfia de Nova York,

É final da década de 1970 quando o gangster Lefty Ruggiero (Al Pacino) acolhe o jovem joalheiro Donnie Brasco (Johnny Depp) em meio às fileiras de seu clã mafioso. Lefty, porém, a despeito de ser veterano e de gozar de relativo respeito entre os gangsters, não chega nem perto de ser um dos cabeças da Família Bonanno, que exerce poderoso controle sobre o crime organizado do Brooklyn. Ao receber Donnie e responsabilizar-se por ele, Lefty arrisca sua própria pele diante dos inclementes chefões. No entanto, Donnie Brasco é também o agente federal Joe Pistone, perito em infiltração cujo objetivo é reunir o máximo possível de provas judiciais contra a Máfia.

Enquanto ocupa seu lugar na quadrilha e ganha cada vez mais a confiança (e a amizade) de Lefty, Donnie testemunha a ascensão do violento Sonny Black (Michael Madsen) que galga meteoricamente os degraus da hierarquia rumo ao comando após a morte de um dos chefes. O trabalho, perigoso por si só, compromete o casamento do agente federal com Maggie (Anne Heche), assim como sua cada vez maior dificuldade em manter duas vidas paralelas (a de agente infiltrado e a de pai de família) sem colidirem-se. Além disso, a amizade genuína que acaba nutrindo por Lefty lhe coloca um dilema nas mãos; abandonar em definitivo seu disfarce entre os mafiosos significaria colocar deliberadamente a vida de Lefty em perigo.

Construído com austeridade à toda prova pelo diretor inglês Mike Newell –e excedendo-se justamente nessa seriedade ao fazer um filme não tão atrativo assim enquanto entretenimento –o filme não consegue fugir das comparações óbvias (e aqui até inevitáveis) com “O Poderoso Chefão” até mesmo pela reluzente presença de Al Pacino em seu elenco. Há, entretanto, que se reconhecer o belo desempenho de Pacino na composição desse personagem, longe de ser um ‘chefão’ como em seu trabalho mais icônico dentro do sub-gênero gangster, mas sim um subalterno do qual roteiro e direção têm notável inspiração em ressaltar as fragilidades e vulnerabilidades de sua ingrata posição. Ele e o jovem Johnny Depp compensam as poucas novidades que o filme de Newell oferece enquanto cinema, proporcionando um duelo de interpretações afiado no encontro de dois grandes intérpretes cinematográficos vindos de diferentes gerações.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Cry - Baby


 “Cry Baby” ocupa um lugar transitório na consideração que dele pode ser feito –não é suficientemente transgressivo para os padrões do diretor John Waters, mas é ácido o bastante para exacerbar o comportado circuito comercial norte-americano; como ele bem o fez em meados de 1990.

Fruto do encontro do diretor Waters (conhecido por suas alfinetadas contundentes e debochadas do american way of life em “Pink Flamingos”, “Polyester” e “Hairspray”) com o jovem astro Johnny Depp (então ídolo adloescente da série “Anjos da Lei”, disposto a cachoalhar sua carreira participando de produções pouco usuais que se distanciassem da imagem que aos poucos o público começava a fazer dele), “Cry Baby” é nítido em seu bem-humorado inconformismo: Ambientado na mesma Baltimore que sedia todas as tramas amalucadas de Waters, o filme parece uma subversão de “Grease-Nos Tempos da Brilhantina” e, como ele, é um musical (!). O subúrbio tipicamente norte-americano do final da década de 1950 que serve de cenário ao filme é palco de uma disputa entre facções jovens absolutamente antagônicas, os almofadinhas Squares e os desajustados Drapes.

Os Squares representam, pelo menos em sua superfície, os riquinhos da classe alta local, engomadinhos, esnobes e arrogantes. Os Drapes são seu oposto, uma gangue composta de enjeitados, renegados e párias nos mais diversos sentidos. E tal qual os Montecchio e Capuleto (de “Romeu e Julieta”), é de cada um desses grupos que sairão os dois integrantes do romance que centralizará o enredo.

Na cena que abre o filme –uma sessão de vacinação escolar bizarra e exorbitante –tanto a jovem Alisson dos Squares (Amy Locane, candidamente sensual), quanto o rebelde Wade “Cry-Baby” Walker (Johnny Depp) se descobrem almas gêmeas. Nas confusões que se seguem, Alisson alimenta a intenção de abandonar os Squares, assim como seu irritante noivo, Baldwin (Stephen Mailer, de “O Reverso da Fortuna”), para fugir na garupa da moto de Cry-Baby. Dessa forma, eles vão parar numa festa nos arredores da cidade onde o grupo muito peculiar de comparsas e familiares de Cry-Baby se reúne –um grupo que é praticamente uma versão mais amenizada das figuras desconcertantes de “Pink Flamingos”. Ainda assim, há bizarrice de sobra: Entre eles, está a avó de Cry-Baby (Susan Tyrrell, de “Conquista Sangrenta”), uma vendedora de armas ilegais, namorada de Belvedere (o insano rock-star Iggy Pop) um desleixado esquisitão; Pepper, a irmã de Cry-Baby (Ricki Lake, a mocinha de “Hairspray”), mãe solteira de duas crianças e grávida de uma terceira (!); a medonha Hatched Face (Kim McGuire) cuja expressão do rosto e maquiagem compõem um dos rostos mais caricaturais e tenebrosos da filmografia de Waters; além de Wanda (a estrela pornô Tracy Lords) cujos pais (David Nelson e a célebre sequestrada Patricia Hearst) estão por um fio de trocá-la por uma filha adotiva holandesa (!?!).

Após uma tremenda confusão provocada pelos Squares, a turma de Cry-Baby, sempre incompreendidos, acaba indo parar no tribunal, onde terminam recebendo suas sentenças, sobretudo, o protagonista que é enviado para uma cadeia pública. É em sua chegada lá que testemunhamos a breve participação (de uma única cena) de Willen Dafoe, a interpretar um guarda-carcerário com trejeitos inspirados em Jerry Lewis.

Logo, Cry-Baby fugirá do local –ou tentará fazê-lo, num plano muito mambembe e mal-fadado, a lembar também a fuga de “Daunbailó”, de Jim Jamursch, enquanto isso, entre intrigas e revelações, os Drapes se reagrupam e, junto de Alisson, seguem para a cadeia numa última tentativa de tirar Cry-Baby detrás das grades.

Toda essa narrativa caricata, afetada e exagerada –adjetivos que espelham a caracterização de cada um dos personagens –é impulsionada por uma percepção musical que contamina o filme e o adorna com ritmo e melodia deliberadamente kistch. Esse esforço de John Waters em se fazer mais acessível, ligeiramente afastado do underground que o fez notório, soa estranho, irregular e por vezes esquizofrênico, definitivamente um corpo estranho no cinema comercial daquele início dos anos 1990.

Ainda assim, há charme e nostalgia na curiosa evocação dessa linguagem tão aparentemente reconhecível de um cinema à moda antiga que comporta, aqui, uma exaltação do peculiar, do grosseiro e do marginal. Na medida do possível, Waters se adaptou ao mainstream para nele encontrar ferramentas cinematográficas mais arrojadas, orçamento palatável, distribuição e exposição midiática (todas regalias que seu cinema de guerrilha anteriormente não tinha), no entanto, sem deixar de lado a fidelidade arguta às suas próprias convicções. O resultado disso tudo é este filme incomum, desigual, debochado, inconsequente e brega –e extremamente saboroso enquanto tal!

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

A Hora do Pesadelo


 Fala-se que Wes Craven teve várias inspirações para a composição de Freddy Krueger e a tenebrosa história que o cerca: Algumas afirmações se referem à episódios da juventude de Craven –e que vieram assim a moldar seu gosto pelo cinema de terror –e outros até citam certas histórias reais, referentes a pessoas que morreram dormindo, ou psicopatas verídicos queimados vivos por grupos de pessoas indignadas.

Verdade ou não, a fusão de todos esses elementos realmente resulta na trama básica que emoldura o icônico antagonista deste lendário filme de terror dos anos 1980, composto de características marcantes que o levaram a representar toda uma franquia surgida a partir daqui, e a ocupar –ao lado de outros ícones do terror –um lugar de respeito na cultura pop.

O estopim para tal fenômeno –esta obra dirigida por Wes Craven –é um filme de terror eficaz em tudo que se espera de uma produção nesses moldes: Climático, amedrontador, enxuto, cheio de inventividade e de pequenas definições oriundas de outros sub-gêneros nos quais o terror havia, nas últimas décadas, se ramificado.

Há, em “A Hora do Pesadelo”, códigos plantados pelo cinema de John Carpenter em geral (“Halloween” em particular) nos quais identifica-se o perfil previamente estabelecido dos personagens que irão morrer e os que viverão até o final, a dicotomia ‘promiscuidade/morte certa’ que norteia a contagem de corpos do ‘slasher’, os expedientes de atmosfera e sanguinolência descobertos pelo giallo italiano (do qual o ‘slasher’ pode ser visto como uma variação) e, acima de tudo, o aproveitamento criativo e original dos temores infantis acerca do monstro no sonho ruim dotado de poder para nos perseguir e nos fazer mal também na vida desperta.

Tal monstro, aqui, é Freddy Krueger, personagem ao qual o ator Robert Englund dá uma identidade e uma peculiaridade que extravasam o já bem elaborado background presente em sua origem.

Ele afronta, em sonhos, a jovem Nancy (Heather Langenkamp) que percebe a autenticidade incomum naqueles pesadelos –Freddy, ela não tarda a concluir, é capaz de fazer mal a qualquer pessoa na realidade também. Os outros personagens ao redor dela, como é de praxe em inúmeros filmes de terror, não acreditam nela –entre eles, o namoradinho vivido por Johnny Depp, ainda em início de carreira.

Há, ainda assim, um propósito nos atos torpes de Freddy, na qualidade da assombração que ele é: Os membros da Rua Elm estão na sua mira, as pessoas descendentes de todos aqueles que, quando ele era vivo e matador humano de crianças, o executaram queimando-o vivo.

Mescla hábil e crua de um terror físico –o assassino que persegue suas vítimas com a pura e selvagem promessa de carnificina –com expedientes sobrenaturais –o aproveitamento dos sonhos é, no mínimo, instigante –“A Hora do Pesadelo”, sem ser necessariamente original, marcou o panorama dos filmes de terror dos anos 1980 ao entregar uma obra distinta a partir da conciliação inesperada e esperta de várias facetas distintas desse gênero.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Do Inferno

No princípio da década de 2000, quando adaptações de histórias em quadrinhos eram fonte secundária de matéria-prima para Hollywood, alguns autores já começavam a chamar a atenção por sua genialidade insuspeita naquela indústria.
Certamente, um dos principais nomes era Alan Moore.
Autor daquela tida como a melhor graphic-novel de todos os tempos (“Watchmen”, adaptada em 2009 por Zack Snyder), Moore era avesso à badalações, purista para com sua arte (com o tempo até histórias em quadrinhos ele passou a repudiar, dando prioridade à literatura) e absolutamente contrário à versões de suas obras para outras mídias.
No entanto, a que se compreender que era difícil passar os olhos no compêndio extenso e primoroso em forma de narrativa chamado “Do Inferno” (sobre as enevoadas investigações e as mais mirabolantes teorias em torno das atrocidades cometidas por Jack, O Estripador) e não imaginar que filme sensacional ele não daria...
Se “Do Inferno”, o filme que por fim terminou sendo realizado, não chega ao patamar de obra-prima que a HQ facilmente adquiriu, pelo menos, resulta numa adaptação criativa e interessante, ainda que inevitavelmente inferior dada a grande qualidade e a vasta minúcia informativa do material original.
1888. Final da Era Vitoriana. Em Londres, prostitutas de um grupo no paupérrimo distrito de Whitechapel começam a aparecer sucessivamente vítimas de hediondos assassinatos que abalam a comunidade da época, ganhando o clamor popular e o status de lenda urbana. O maníaco que perpetra tais atrocidades se auto-intitula Jack, O Estripador.
Tudo começa quando as cinco prostitutas de Whitechapel, Mary Kelly (a maravilhosa Heather Grahan), Dark Annie (Katrin Cartlidge), Liz (Suzan Lynch), Martha (Samantha Spiro) e Kate (Lesley Sharp) testemunham o nebuloso sequestro de sua amiga Ann Crook (Joanna Page) em companhia de seu amado Albert (Mark Dexter), um ‘príncipe encantado’ segundo ela com quem tinha se casado em segredo (somente suas cinco amigas foram testemunhas do casamento), tivera uma filha e que prometera tirar-lhe das ruas.
O que as mulheres não sabiam era que Albert era nada menos que o príncipe da Inglaterra (!), e sua insistência no relacionamento com uma ex-prostituta levou a Família Real a acionar recursos um tanto... imprevisíveis.
Logo, Martha é encontrada morta, em circunstâncias absolutamente atrozes e cruéis. A Scotland Yard passa a investigar o crime designando para a tarefa o Inspetor Abberline (Johnny Depp, sempre muito bom), viciado em ópio e acometido de  lampejos de uma certa mediunidade.
Apesar das inúmeras dificuldades que parecem emergir o caso num miasma de suspeitos infindáveis e uma rede complexa de alianças e conspirações (além de novos crimes que se sucederem com as mortes de Dark Annie, Elizabeth e Catherine afunilando a situação), Abberline consegue descobrir as conexões dos crimes que vão desde a sociedade secreta Maçom até as revelações acerca da criança e do casamento de Albert que podem comprometer a Família Real, e que chegam no fanatismo psicopata então despercebido de um dos mais prestigiados médicos a serviço da realeza, Dr. William Gull (o saudoso Ian Holm).
A despeito de uma relativa displicência na direção dos Irmãos Albert e Allen Hugues (realizadores do posterior “O Livro de Eli”, com Denzel Washington), eles compensam seus lapsos com um acabamento visual digno de aplausos, e a trama fictícia idealizada por Alan Moore –e vertida para cinema com o máximo possível de dignidade pelos roteiristas Rafael Iglesias e Terry Hayes –preenche magnificamente bem as lacunas presentes na história real de uma das maiores lendas urbanas da história: Dessa maneira –e cabe avisar que a partir daqui haverão spoilers –a personagem Mary Kelly, a última das vítimas do Estripador (alçada aqui ao status de personagem principal), termina não morrendo (!), confundida, na verdade, com a desconhecida e desafortunada Ada (Estelle Skornik). O destino de Mary Kelly –bem mais feliz e reconfortante na ficção imaginada por Alan Moore –é fugir para longe de Londres, junto da filha de Ann e Albert, que passou a criar como sua.
Embora ostente todas as vibrantes características dos filmes de suspense e psicopatas que predominaram no período (como “Hannibal”, lançado no mesmo ano), o que realmente fascina em “Do inferno” são as brilhantes ramificações imaginadas por Alan Moore que evoluem a mera premissa de um serial-killer para a mais sórdida e envolvente das conspirações.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Anjos da Lei

Como tantos seriados de outrora, o policial juvenil dos anos 1980 criado por Stephen J. Cannell e Patrick Hasburgh, “Anjos da Lei”, teve sua eventual transposição para as telas de cinema em 2012.
Contudo, para aqueles que foram conferir o resultado embalados pela nostalgia de ver a mesma mescla de drama adolescente e intriga policial levada à sério na tela grande, a direção nada usual de Phil Lord e Christopher Miller (animadores de “Batman-Lego”) terminou abordando a premissa como aquilo que de fato hoje ela soaria: Uma comédia do absurdo.
Nos anos 1980 –como muitos casos de obras cinematográficas veem corroborar –era motivo de charme estruturar narrativas em torno do improvável das circunstâncias; logo, fazia todo o sentido junto ao período o conceito de policiais infiltrados que, devido à fisionomia juvenil, se passavam por estudantes, enquanto tentavam identificar criminosos em ação por detrás do sistema estudantil. Não à toa, fez muito sucesso –e ainda revelou o astro Johnny Depp que não tardou a migrar para o cinema.
Conscientes da singularidade temática que norteou a cultura pop da década de 1980, os diretores Lord e Miller pegam sua história atual e a ambientam no mesmo universo da série (com direito à uma alucinada participação especial de Depp e seu co-astro Peter DeLuise já perto do final), mas modificam completamente sua abordagem, tornando-a, de certa maneira a razão de ser do projeto: “Anjos da Lei”, o filme, se passa, afinal de contas, numa outra época de “Anjos da Lei”, a série, e é isso que termina por defini-lo.
Quando de fato experimentaram a adolescência nos anos 1980, Schimdt (Johah Hill) e Jenko (Channing Tatum) eram perfeitos opostos: O primeiro, gordinho, nerd e tímido (embora Hill tenha emagrecido consideravelmente em comparação aos seus filmes anteriores); o segundo, fortão, brucutu e sem-noção –e, por isso mesmo, popularíssimo na escola!
Adultos, se reencontraram na Academia de Polícia e descobriram que, em sua amizade recém-descoberta, eram complementares: Jenko passou a ajudar Schmidt nas atividades físicas; Schmidt passou a ajudar Jenko nas atividades intelectuais.
Formados policiais, e já inseparáveis melhores amigos, eles (que sempre foram meio atrapalhados...) acabam sendo enviados para o Programa de Policiais Infiltrados Anjos da Lei, sediado na mesma igreja de fachada da série, endereçada na Rua Jump, nº 21 –“21 Jump Street” título original da série e do filme.
(Repare, entre seus colegas de profissão, a presença de Dakota Johnson, futura estrela de “Cinquenta Tons de Cinza”)
A missão deles é infiltrar-se no círculo de amizade dos traficantes da escola local, entre os quais uma novíssima droga começa a circular, e a partir daí, descobrir quem é o fornecedor.
Contudo, Schimdt e Jenko percebem, já no primeiro dia, que as coisas mudaram bastante desde os tempos em que frequentaram o colégio: Os nerds não são mais os desprezados (alguns deles, pelo menos); os esportistas fortões e burros (dos quais Jenko é exemplo emblemático) já passam longe de serem os mais populares; e o politicamente correto transformou as relações estudantis com a inesperada chegada de uma forte aceitação (agora é inapropriado os alunos resolverem tudo na porrada como antes), as novas tribos (além dos nerds, dos góticos e dos esportistas, agora há também os emos, e os hipsters) e, como consequência disso, uma inversão de valores se acarreta entre os dois protagonistas: Outrora rei da popularidade, agora é Jenko quem tem de se sujeitar à andar com os rejeitados, e é o sensível e sensato Schmidt quem se sobressai na nova ‘cadeia alimentar’ integrando o grupo dos descolados da escola, entre os quais está o traficante local Eric (Dave Franco) e sua namoradinha Molly (uma ainda novinha Brie Larson).
Diante desse curioso paradoxo, os diretores Phil Lord e Chris Miller usam desse novo status quo para fazer graça: “Anjo da Lei” é todo chacota, num nível tão intenso e radical que pode até incomodar os puristas e apreciadores do tom ocasionalmente melodramático que a série original adotava. Eles não estão nem aí!
Essa opção tão irrestrita quanto à reinvenção cômica desse conceito rende alguns momentos hilariantes, e outros presunçosos onde o humor nem sempre soa apropriado ou espontâneo, comprometendo o resultado.
Curiosamente, não acaba sendo Jonah Hill, mais assíduo em obras de comédia, quem se destaca: É o normalmente sisudo Channing Tatum, demonstrando um incrível e inesperado timing cômico quem realmente faz “Anjos da Lei” funcionar.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet

Tim Burton é um autor cuja percepção de espetáculo vai na contra-mão do óbvio. Ainda que compreenda o que gere o cinema comercial –seus filmes mais acessíveis, como “Batman” ou a refilmagem de “O Planeta dos Macacos”, não se isentam de ação formulaica e formatos narrativos pré-estabelecidos –suas obras, sobretudo, as mais pessoais, trazem sempre os elementos nos quais ele enxerga particular fascínio; e que não correspondem a um paladar considerado convencional.
“Sweeney Todd” é, talvez, a obra na qual isso se percebe com mais radicalismo.
Baseado numa peça musical de autoria de Stephen Sondheim, inspirada por sua vez no livro homônimo publicado por Thomas Peckett Prest, em 1846, o filme é ambientado no Século XIX e inicia-se quando o soturno ex-barbeiro Benjamin Baker regressa à sua Londres-natal após quinze anos enclausurado na cadeia.
Baker é um personagem sombrio a quem o astro Johnny Depp (na sua quinta colaboração com o diretor) confere entusiasmo e interesse inquestionáveis –como Burton, ele é fascinado pelo bizarro, pelo tortuoso e pelo estranho, e ambos dedicaram muito de suas carreiras a perseguir personagens e histórias que refletissem essa fascinação.
Baker, descobrimos, é um alma torturada pelos rumos trágicos de seu passado: Outrora um barbeiro feliz, casado e apaixonado com esposa e filha pequena, Baker foi acusado de um crime que não cometeu e trancafiado numa prisão, apenas para que o autor de todo seu tormento, o invejoso Juiz Turpin (o saudoso Alan Rickman), pudesse desposar de sua esposa (Laura Michelle Kelly), seu objeto de desejo desde sempre.
Quinze anos depois, sua esposa está morta –envenenou-se, dizem –e sua filha, Johanna (Jayne Wisener), agora uma jovem mulher, é a protegida do Juiz, e a medida que sua formosura se consolida, torna-se também, ela própria, o novo objeto de desejo dele.
Munido assim de outra identidade –ele agora se chama Sweeney Todd –o desafortunado protagonista reabre seu salão de barbearia na miserável Rua Fleet, bem em acima da loja de tortas da Sra. Lovett (Helena Bonham Carter, esposa de Burton) que amarga a pobreza porque suas tortas não atraem freguesia.
Sweeney Todd, entretanto, não deseja meramente voltar a ser um barbeiro: Ele quer encontrar um meio para vingar-se do Juiz Turpin, e isso toma cada pensamento seu.
Esses desenlaces, explicações e motivações até ocupam certo espaço na narrativa de Burton, mas ele não lhes dá maior atenção: Todo seu empenho está dedicado nas engrenagens que transformarão Baker em Sweeney Todd, ou seja, em um autêntico arquétipo de um filme de terror: Com sua nova identidade, ele passa a assassinar sistematicamente seus clientes, cortando-lhes a garganta com suas navalhas afiadas. E a essa metamorfose, Burton não faz nem mesmo questão de acrescentar realismo –como na peça da qual se inspira, “Sweeney Todd” é, apesar de suas nada disfarçadas facetas macabras, um musical (!).
Canção após canção, “Sweeney Todd” conduz assim o público através dessa miscelânea disfuncional de gêneros: Acompanhamos um musical de fato –assolado, inclusive, pelo grande problema de muitos musicais, onde a narrativa praticamente é interrompida durante os números de música para só seguir em frente depois que eles acabam –com intervenções de uma sub-trama de romance –o jovem marinheiro Anthony (Jamie Campbell Bower) se apaixona por Johanna a ponto de querer livrá-la do juiz, seu captor –mas, o que confere textura ao filme é o sarcasmo rasgado presente nos desdobramentos que cercam Todd e a Sra. Lovett, seus personagens principais; Numa combinação que coloca claramente qualquer bom-senso de lado, o barbeiro ganha a cumplicidade de sua locatária para matar indiscriminadamente enquanto ela usa a carne fresca dos cadáveres de suas vítimas para rechear suas tortas. Condimento misterioso que transforma sua loja num súbito sucesso gastronômico.
Há esse viés de divertimento presente em toda obra de Burton, onde ele estranhamente compartilha um insuspeito prazer em acompanhar circunstâncias tão tenebrosas. E, com isso, está em jogo também o elemento mais diferencial de sua filmografia, algo que sempre impede suas obras de serem filmes de terror com todas as letras: Uma percepção artística, dotada de humor negro, pantomina, teatralidade e até certa idealização, na qual o horror, a escuridão e a morte ganham contornos quase lúdicos, como numa brincadeira infantil.
Burton é assim, a eterna criança que brinca com seus próprios pesadelos ao invés de nutrir medo deles.
É possível, no entanto, afirmar que, ao contrário de realizações singulares como “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, “Ed Wood”, “Os Fantasmas Se Divertem” e sua obra-prima “Edward-Mãos de Tesoura”, aqui Burton perdeu um pouco a mão: Os elementos violentos e sanguinolentos se intensificam tanto que é difícil afirmar a qual público “Sweeney Todd” se dirige –e tal público se torna mais difícil de ser encontrado diante do fato de que ele é também um musical.
A despeito do poder avassalador das imagens –a concepção visual é um fator no qual Burton só melhora –“Sweeney Todd” nunca tenta evitar os rumos profundamente fatalistas em sua trama que conduzem a um final amargo mesclando ironia, tragédia e esquartejamento.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Arizona Dream - Um Sonho Americano

Estréia do diretor sérvio Emir Kusturica no cinema norte-americano, “Arizona Dream” não perde nem um pouco da melodia onírica, do tom imaginário que já inebriavam seus aclamados trabalhos realizados na Europa –isso se deve pelo fato da equipe técnica  ser majoritariamente composta pelos mesmos artesãos que o acompanharam nos delírios de “Vida Cigana” ou “Quando Papai Saiu Em Viagem de Negócios”.
A espelhar o cinema lúdico e desconcertante de Fellini, o cinema de Kusturica (e este seu primeiro filme em língua inglesa, portanto) evoca uma atmosfera imediata de fábula: Uma família de esquimós aparece nas cenas iniciais. O pai quase morre no gelo, mas acaba salvo por seus fiéis cães. Do peixe que ele consegue trazer para casa, ele retira o estômago e com ele faz um balão inflável (!) para que seu filho possa brincar. O balão voa e acaba indo parar em Nova York onde encontramos o protagonista do filme, Axel (Johnny Depp), um jovem desajustado e solitário; a sequência com os esquimós será uma espécie de sonho que o perseguirá por todo o restante do filme..
Axel é visitado por seu primo, Paul (Vincent Gallo, de “Os Chefões”) que deve levá-lo para o casamento de seu tio, embora Axel relute, preferindo ficar ali.
Paul o embebeda e, quando Axel dá por si, está no Arizona (!).
Seu tio, Leo (um já envelhecido Jerry Lewis) irá casar-se com uma moça muito mais jovem, Millie (a bela Paulina Porizkova, de “Anna” e “Adorável Sedutora”) e deseja Axel perto dele, não apenas pela ocasião de seu casamento –isso, na verdade, era um mero pretexto –mas, trabalhando em sua loja onde passou a vida vendendo cadillacs, crente de que poderia empilhar carros o suficiente para chegar até a lua!
Sem saber muito o rumo a tomar com sua vida. Axel conhece uma dupla desvairada de mãe e filha –ou seria melhor dizer, madrasta e enteada –Elaine (Faye Duanaway) e Grace (Lili Taylor, de “O Vício”); a primeira é obcecada por voar, e passa o filme a tentar alcançar esse objetivo através das mais diversas máquinas voadoras; a segunda, toca acordeão para espairecer as maluquices da outra, enquanto se mostra fascinada por tartarugas.
Personagens plenos de delírio por si só que encontram na encenação orgânica e desvairada de Kusturica um combustível ainda mais inflamável para sua loucura: No primeiro jantar na casa de Elaine, ela e Grace iniciam uma discussão diante dos convidados, Axel e Paul.
Grace tenta se suicidar com um meia-calça amarrada no teto, mas, só consegue ficar indo e vindo pendurada pelo pescoço como um io-iô (!), enquanto Paul –que, como todo o resto, tem uns parafusos a menos –começa a alucinar recitando frases de “Touro Indomável”.
Axel e Elaine, por sua vez, se tornam um casal e, no transcorrer dos dias, o rapaz passa a morar com ela e a enteada, conforme cada personagem nutre o próprio sonho da forma como pode: Elaine tenta voar; Grace faz planos (concretizados no desfecho ligeiramente amargo) para reencarnar como tartaruga; Paul almeja fugir da mediocridade virando ator (hilária a cena em que ele tenta imitar a icônica perseguição de Cary Grant por um avião em “Intriga Internacional”); e Tio Lee busca pela juventude perdida, menos casando com Millie (que tem idade para ser sua filha) e mais garantindo a presença de Axel por perto.
Colhido nesse turbilhão de anseios e carências, Axel parece deixar seus próprios sonhos em suspense: Obcecado por peixes, como fica claro em sua narração em off, e nas histórias que conta e reconta, Axel tem pesadelos com um peixe que representa uma espécie de mau agouro ao longo do filme, e passa quase toda a trama a flutuar por sobre os dramas de outrem.
Diretor de percepções extremamente incomuns, Emir Kusturica não engessa seu filme em construções dramáticas previsíveis, nem estabelece qualquer arco narrativo que o expectador consiga acompanhar com tranquilidade ou segurança do que pode ou não acontecer na cena seguinte; sua obra é uma surreal sucessão de acontecimentos inesperados cujos desenlaces são impossíveis de serem previstos justamente por sua natureza singular e insólita.

sábado, 18 de abril de 2020

O Turista

A celebrada parceria entre Johnny Depp e Angelina Jolie não chega a explodir em cena nesta refilmagem do francês "Anthony Zimmer-A Caçada", que tinha a seu favor, além da beleza da francesa Sophie Marceau, a naturalidade que normalmente a obra original tem em comparação à estrutura invariavelmente engessada de sua refilmagem.
A história é seguida à risca. Nela, um professor norte-americano (vivido com a perplexidade minimalista de sempre por Johnny Depp), em viagem pela Europa, é colhido numa trama mirabolante: Vigiada de perto pela Interpol, mulher sedutora ao estilo femme fatale (vivida com a auto-consciência de sua própria persona por Angelina Jolie), deve desviar a atenção das autoridades da nova identidade de seu marido criminoso, que fez uma cirurgia plástica e tem, segundo consta, um novo rosto que ninguém conhece.
Para tanto, ela seduz o tal professor de modos a fazê-lo parecer o próprio homem procurado aos olhos dos policiais. Em visita turística à cidade de Veneza (que substitui com pompa e circunstância a ambientação européia mais aleatória do filme original) pobre homem terá muitas dores de cabeça, ainda que a atração por ela talvez seja grande o suficiente para ele manter propositadamente o embuste.
O diretor alemão Florian Henckel Von Donnersmarck (do oscarizado “A Vida dos Outros”) parece ligeiramente consciente do lapso inevitável de sua narrativa: Calcada em sucessivas reviravoltas (que já soavam mirabolantes do filme francês!), a produção hollywoodiana encontra dificuldade em trabalhar essas expectativas, sobretudo, diante do fato de que, no outro filme, tais revelações foram sendo acrescentadas na trama ao sabor dos improvisos e da realização, enquanto que aqui baseia-se somente no filme já feito, para dele extrair uma obra norte-americana.
A velha preguiça de ler legendas...
A direção assim opta pelo incremento do visual, das imagens de cartão-postal (é, afinal, Veneza!), dos valores de produção e da ênfase em seu casal protagonista estelar, afastando-se bastante do tom despretensioso do filme anterior.
É, assim, uma oportunidade para conferir as diferenças abissais que podem acometer dois projetos inspirados praticamente na mesma premissa, mas, tratados de forma completamente distinta.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Animais Fantásticos - Os Crimes de Grindelwald

Tanto J.K. Rowling (autora e, aqui, roteirista do próprio projeto) quanto o diretor David Yates não se acomodaram em completar a “”Saga Harry Potter”; passado um tempo, enveredaram por esta nova franquia que lança um pouco mais de luz ao rico universo mágico criado para ambientar aquela história –desta vez, com a atenção voltada para o passado daquele mundo bruxo. Se o primeiro, “Animais Fantásticos e Onde Habitam” se ambientava em Nova York, este segundo, passeia por Londres e Paris, dando continuidade aos eventos lá mostrados.
O ano é 1927 e, portanto, faz pouco menos de um ano que o perigoso bruxo Grindelwald (Johnny Depp, um vilão no meio do caminho entre o memorável e o medíocre) foi capturado naquele episódio turbulento nos EUA. Sua fuga, contudo, transcorre já no prólogo.
Grindelwald é terrivelmente perigoso e poderoso –tanto que o Ministério Britânico de Magia está convencido de que apenas um bruxo no mundo tem poder o bastante para enfrentá-lo: O famoso professor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Alvo Dumblodore, aqui vivido em uma versão mais jovem (ainda que igualmente excelente) por Jude Law. Contudo, Dumblodore tem uma espécie de ligação com Grindelwald que os impede de atacar um ao outro –uma manobra fundamental à história que, de certa forma, ratifica uma afirmação já antiga acerca da homossexualidade de Dumblodore.
Cientes de que são adversários e de que um deve encontrar um meio de neutralizar o outro, tanto o bruxo do bem quanto o bruxo do mal já têm lá seus estratagemas para driblar esse obstáculo: Para Grindelwald, o único indivíduo dotado de poder o bastante para sobrepujar Dumblodore é o jovem Credence (Ezra Miller) que, no filme anterior, revelou-se um obscurus –uma entidade de extremo poder destrutivo originado de uma vida de rancor –e havia sido dado como morto; não morreu, Credence ainda vive e está em Paris à procura de respostas sobre seu passado orfão, ao lado da bela Nagini (Claudia Kim), uma garota transmorfa condenada a assumir em breve a forma permanente de uma serpente gigante –certamente, a mesma serpente que aparece nos filmes de “Harry Potter” a servir o maligno Voldemort.
Já, Dumblodore enxerga no arredio Newt Scamander (Eddie Redmayne, ainda duvidoso como protagonista) a única alternativa confiável para confrontar Grindelwald sem que ele próprio se envolva; e com isso, arremessa Newt novamente na trama deste filme, primeiramente procurando pela americana Tina Goldstein (Katherine Waterston) nas ruas de Paris, ao lado do não-bruxo Jacob (Dan Fogler) e da irmã dela, Queenie (Alison Sudol), duas das presenças mais radiantes e carismáticas do filme anterior, cujas trajetórias ganham aqui grande importância junto ao plot central, além de um viés bem mais sombrio e fatalista em comparação ao seu despreocupado romance do primeiro filme.
Essa descrição não chega a esboçar por completo a trama algo rocambolesca urgida para esta obra que multiplica ainda mais seu núcleo de personagens pertinentes, em especial, ao mostrar a sempre desolada Leta Lestrange (Zoe Kravitz), personagem mencionada brevemente no filme anterior, cujo sobrenome é o mesmo da personagem Belatriz, de “Harry Potter e A Ordem da Fênix”; e o irmão do protagonista, Teseu Scamander (Callum Turner, de “Rainha & País”), sugerindo formar (ou ter formado) com Newt e Leta um relutante triângulo amoroso.
Também as auto-referências aqui se amontoam em profusão (a mais descarada delas, além da participação de Dumblodore, que deve ser maior nos próximos filmes, é a ponta até divertida de Nicolau Flameu, citado num momento de “Harry Potter e A Pedra Filosofal”), só não comprometendo o resultado final graças à aprofundada experiência que Yates e Rowling possuem junto a esse universo, fazendo a narrativa passear com suavidade pelas diversas circunstâncias mágicas desse mundo ao qual eles tornam sempre um prazer poder regressar.
“Os Crimes de Grindelwald” guarda em si a maior parte das características dos filmes de transição da “Saga Harry Potter” –sobretudo, “O Enigma do Príncipe” –nas quais seus acontecimentos obedecem uma orientação que presume-se instintivamente só terá desfecho em filmes futuros, onde nada encontra um desenlace de fato, e tudo se mantém em suspense ou em mistério (ou em ambos), e apesar de tudo isso, dessa ambígua predisposição para negar respostas, ele ainda se mostra um filme envolvente e fluido, prazeroso de ser visto.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

O Cavaleiro Solitário

A paixão pelo faroeste já aparecia em inúmeros trabalhos anteriores do diretor Gore Verbinski –no tratamento dado a algumas cenas muito referenciais em “Piratas do Caribe”, ou na animação “Rango” –todavia, foi aqui, nesta imodesta adaptação de um herói já famoso no rádio, em seriados de matinê e desenhos animados (e frequentemente confundido com o “Zorro”), que Verbinski pôde escancarar sua predileção realizando um faroeste legítimo.
De quebra, levou o astro Johnny Depp para incorporar o papel do índio Tonto –escalação que converteu o que seria apenas o ‘parceiro do herói’ num protagonista de tanto peso (ou até mais!) quanto o personagem-título.
E é Johnny Depp, ou melhor, Tonto quem de fato começa o filme, mostrado numa São Francisco dos anos 1930 –quando ainda era possível se cruzar, em pleno Século XX, com alguém que testemunhou os eventos do Velho Oeste. É isso que experimenta um garotinho ao deparar-se com um Tonto todo envelhecido –numa homenagem clara à “Pequeno Grande Homem” –que relata a ele o início de sua lendária parceria com o Cavaleiro Solitário.
Ou seria melhor dizer, John Reid (vivido com bastante competência e noção de seu papel secundário por Armie Hammer), um advogado que regressa para a Califórnia onde se estabeleceu seu irmão Dan Reid (James Bagde Dale) com quem pretende se juntar.
Dan é casado com a bela Rebecca (Ruth Wilson), que nutre uma paixão secreta por John (e que nutre uma paixão secreta por ela também), e eis aí outra homenagem de Verbinski: Ao clássico “Rastros de Ódio” cuja premissa é engatilhada também por um caso de amor não correspondido entre o protagonista e sua cunhada.
Assaltado o trem onde estão John e o índio Tonto –aprisionado pelos homens brancos –o homem da lei Dan, no encalço de criminosos de intenções ainda nebulosas acaba morrendo vítima de uma cilada.
A mesma cilada da qual John escapa com vida quase que por um milagre –na verdade, Tonto crê que foi um milagre mesmo, executado pelo lendário ‘Cavalo Espiritual’ que teria escolhido John para traze-lo de volta dos mortos e torna-lo seu justiceiro, ou algo assim...
A parceria (hesitante como rege a cartilha das produções hollywoodianas) é assim estabelecida e o filme de Verbinski segue, manhoso, por sua trama rocambolesca: Embora no final das contas sua estrutura seja definida pela luta básica do bem contra o mal, o roteiro (escrito por Ted Elliott e Terry Rossio, os mesmos de “Piratas do Caribe”) é tão cheio de desvios e ganchos subentendidos que as motivações e propósitos nele embutidos quase se perdem –especialmente devido à decisão bastante dispersa de desenvolver a trama a partir de dois núcleos diferentes de vilões.
Não ajuda também o fato das intenções do filme se mostrarem indecisas entre a racionalidade de uma crítica social histórica (com uma tentativa de denúncia da barbárie contra os indígenas em cenas mais violentas do que se poderia esperar) e o apelo comercial de uma produção escapista (onde entram, por sua vez, humor pastelão, piadinhas corriqueiras, sequências mirabolantes e aventura de desenho animado).
A arrematar essa mescla desigual temos o primor visual característico de Gore Verbinski (no qual ele é reconhecidamente craque) e duas espetaculares cenas de ação envolvendo trens –uma no começo, outra no final –tradição da Velha Hollywood que Verbinski faz questão de retomar com todos os efeitos especiais de última geração a que se tem direito.
Ao tentar mirar num sucesso de proporção e estilo similar ao seu “Piratas do Caribe”, Gore Verbinski e seu astro Johnny Depp fazem demais com seu faroeste referencial, deixando-o com uma identidade indefinida e um resultado incompleto ainda que tenha lá a sua diversão.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Gilbert Grape - Aprendiz de Sonhador


Uma prova do quão tardio foi o Oscar de Melhor Ator vencido por Leonardo Dicaprio por “O Regresso” é sua atuação neste “Gilbert Grape-Aprendiz de Sonhador” que lhe valeu sua primeira indicação ao Oscar, como Melhor Ator Coadjuvante, aos quatorze anos –um trabalho surpreendente e inquestionavelmente digno do prêmio.
No papel do personagem-título, por sua vez, Johnny depp ostenta aquele carisma alternativo que fez dele um astro tão incomum nos anos 1990.
Gilbert vive numa cidadezinha chamada Endora capturada numa percepção tão intrínseca dos pormenores americanos que chega a surpreender o fato de que este é só o segundo filme feito pelo diretor sueco Lasse Halstrom nos EUA (o primeiro foi “Meu Querido Intruso”).
A família de Gilbert é uma coleção de figuras tão bizarras quanto deprimentes: Além de Arnie (Dicaprio) seu irmão deficiente mental, há também sua mãe (a inacreditável e comovente Darlene Cates) que uma série de desilusões transformou numa mulher tão obesa que sequer consegue (ou quer...) sair de dentro de casa. Sua irmã mais velha (Mary Kate Schellhardt) vive para cozinhar indefinidamente para ela, e sua irmã mais nova (Laura Harrington), na agressividade hormonal da adolescência, encena todos os clichês da apatia.
Gilbert tem relativa consciência de estar cercado por mediocridade por todos os lados, e disso não consegue escapar. Tem um caso desengonçado e nada frutífero com uma mulher casada (Mary Steenburgen, surpreendentemente sensual) e seus dois amigos (John C. Reilly e Crispin Glover) sonham cada qual em obter trabalho em uma rede de fast-food (melhor isso que os serviços redundantes a disposição) e com novas mortes entre os cidadãos (esse é funcionário na única e desolada funerária local).
O contraponto a essa falta de perspectiva do protagonista parece ser o relacionamento que aos poucos ele constrói com uma jovem forasteira (Juliette Lewis) que surge na cidade.
Mesmo isso, contudo, tem seus dias contados –seu romance só irá durar até que a avó dela encontre a peça defeituosa que fez seu trailer enguiçar para então seguir viagem.
“Gilbert Grape” nesse leque de frivolidade da vida contidiana fala sobre impressões tão universais quanto singulares; contrapõe a vergonha de Gilbert pela figura folclórica da mãe com seus esforços –quase convertidos em sacrifício –para ser um bom filho; e observa sua perplexidade contida pelo cenário idílico que o aprisiona.
Tão dispersas e volúveis parecem as temáticas do filme que se torna difícil palpitar sobre o quê Halstrom quer falar com exatidão; ele captura a rotina e os pequenos dramas familiares de Gilbert enumerando-os numa narrativa sedutora apesar de aparentar não levá-la a algum lugar –ainda que seu desfecho tenha uma concisão que amarra maravilhosamente bem os aspectos de sua premissa.
Ainda assim, é essa característica –a de ser notável, interessante e envolvente mesmo diante de imensa banalidade que ocupa seu cerne –o grande mérito deste filme.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Assassinato No Expresso Do Oriente

Os méritos de Kenneth Brannagh como diretor são oscilantes: Ele começou bem, com indicação ao Oscar e tudo, em “Henrique V” –que transformou-o numa espécie de Laurence Olivier moderno, o primeiro nome em adaptações cinematográficas de Shakespeare –e, dando incentivo a essa alcunha lançou “Muito Barulho Por Nada”, a suntuosa versão de “Hamlet” e até uma versão musical de “Amores Perdidos” (com Alicia Silverstone, mal lançado por aqui) ao longo da década de 1990. Em meio à eles, alguns filmes menores como o suspense “Voltar A Morrer”, o drama “Para O Resto de Nossas Vidas” e o metalinguístico “Sonhos de Uma Noite de Inverno” entre outros.
Nos anos recentes, Brannagh investiu em projetos de orientação mais comercial: O primeiro “Thor”, da Marvel Studios, a versão em live-action de “Cinderella” para a mesma Disney que produziu a animação, e “Operação Sombra” (uma das muitas tentativas de reiniciar a franquia Jack Ryan) –os quais deixaram mais visíveis suas limitações enquanto realizador.
Como ator, as coisas melhoram um pouco: Criado com base no teatro inglês, Brannagh é, e sempre foi, talentoso, conseguindo quase sempre uma emocionante conciliação de sua verve com o âmago do personagem (um exemplo claro disso é sua belíssima interpretação como –vejam só! –Laurence Olivier, em “Sete Dias Com Marilyn”).
Pois, nessa nova versão de “Assassinato No Expresso Do Oriente” (na versão antiga de 1974, o título não tinha o ‘Do’...), é tanto o Kenneth Brannagh diretor quanto o ator que vemos atuar no filme. E claro que, como ator, Brannagh é de uma precisão exemplar: No papel do famoso detetive Hercule Poirot (que antes foi maravilhosamente vivido por Albert Finney), Brannagh pontua cada peculiaridade do personagem com exuberância –ao contrário do filme de Sidney Lumet, no qual Poirot vai se impondo aos poucos como protagonista, neste aqui, a narrativa já se inicia com uma postura subjetiva, nomeando Poirot quase como os olhos da platéia.
O filme já começa afastando-se de comparações com a produção antiga em sua abertura, sem qualquer menção à sensacionalista introdução do filme anterior, preferindo detalhar o exotismo do Muro das Lamentações em Jerusalém, onde a trama se inicia, numa manobra muito mais condizente com Agatha Christie –inclusive, o detalhe do bigode de Poirot, como descrito no livro, é seguido à risca pelo filme.
Célebre por seu raciocínio rápido, Poirot deixa Jerusalém a fim de prolongar suas férias depois da elucidação prodigiosa de mais um caso (registrado na frenética cena inicial). Com a ajuda de seu grande amigo Bouc (Tom Bateman), ele obtém um leito para viajar no lotado Expresso do Oriente com destino à França. Entre os passageiros, está o milionário Ratchett (Johnny Depp, no papel que foi de Richard Widmark) que, paranóico, propõe a Poirot o cargo de guarda-costas. Poirot nega só para descobrir Ratchett assassinado na manhã seguinte, quando o trem (junto com todos os seus ocupantes) se vê temporariamente detido nos trilhos pelas neves das montanhas.
Com o tempo contando contra ele (afinal, em poucas horas, o trem será liberado, chegará na estação e o assassino, quem quer que seja, ficará livre), Poirot inicia uma investigação através da qual descobre que cada passageiro tem algum segredo a esconder.
No que diz respeito à direção, Brannagh parece ocasionalmente querer afastar-se das comparações com Lumet ao impor um ritmo e um estilo de filmagens que ressaltam as tomadas virtuosas de câmeras, recusando a rendição a um formato teatral tão propício ao enredo (até algumas cenas de ação algo deslocadas ele chega a encaixar na narrativa) –mas, é claro que, sendo ele um profissional formado no teatro, Brannagh não resiste e lá pelas tantas, o filme abre margem para momentos que sugerem entradas e saídas de cenas –disfarçadas com os floreios da edição –e até monólogos intensos, sobretudo, no trecho final onde eles são reservados ao protagonista.
O quê parece de fato tornar este “Assassinato No Expresso Do Oriente” um passatempo interessante é a modificação que a troca de intérpretes promove à percepção do filme em relação à obra de 1974: O elenco que Brannagh reuniu não poderia deixar de ser estelar. No lugar de Sean Connery, por exemplo, temos agora Leslie Odom Jr. (que confere uma atitude mais vulnerável e hesitante ao personagem) e, em vez de Vanessa Redgrave como seu par romântico, a sensacional Daisy Ridley (de “Star Wars”); no papel que foi de Anthony Perkins, o menos irrequieto e mais contido Josh Gad; a grande Judi Dench confere mais humanidade e primor do que Wendy Hiller à sua Princesa Dragomiroff; no papel do mordomo, Derek Jacobi (presença constante nos filmes de Brannagh) substitui John Gielgud; Manuel Garcia-Rulfo (da versão recente de “Sete Homens e Um Destino”) se sai bem num papel que faz as vezes do personagem de Denis Quilley; o enigmático casal de aristocratas, antes interpretados por Michael York e Jacqueline Bisset (bem mais afáveis), são aqui personificados com agressividade por Sergei Polunin e Lucy Boynton; o magnífico Willen Dafoe substitui muito bem Colin Blakely; a ótima Michelle Pfeifer oferece um belo e diferenciado trabalho no papel que foi de Lauren Bacall; e Penélope Cruz compõe com solidez (ainda que menos tempo de cena), a mesma personagem vivida por Ingrid Bergman (e que deu a ela o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante).
A cereja no todo do bolo é o gancho explícito de indisfarçável sanha mercadológica para uma possível continuação –que, em termos literários veio a ser “Morte Sobre O Nilo”; em termos cinematográficos, houve uma adaptação em 1978, com Peter Ustinov substituindo Finney como Poirot de forma um pouco decepcionante. Este pode não ser um filme tão marcante assim, mas até que não seria má idéia ver Kenneth Brannagh novamente como Poirot decifrando outros crimes no Egito.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Ed Wood

Dando continuidade ao seu propósito como cineasta de enaltecer o obscuro e o indesejado, Tim Burton optou, nesta segunda colaboração com Johnny Depp (o primeiro foi o sensacional “Edward-Mãos de Tesouras”) uma fonte inesperada: Nada de criaturas fantásticas ou seres macabros, nada de histórias fantasiosas ou tramas sobrenaturais, o tema deste filme é a vida e a carreira daquele considerado o “pior diretor de todos os tempos”, Ed Wood –isso, pelo menos, até Tommy Wiseau tirar o posto de Pior Filme de Todos os Tempos de seu “Plan 9 From The Other Space” com “The Room”, mas essa é outra história...
Edward Davis Wood Jr. (vivido com maneirismo e brilho por Depp) é, como todo profissional apaixonado por seu ofício, um entusiasta. Tamanha é sua paixão que, nos percalços para conseguir realizar um filme, Wood não se dá conta da qualidade rasteira do que produz –isso para ele parece ser o de menos. E é o de menos também para o diretor Burton e para o roteiro escrito por Scott Alexander e Larry Karaszewski (que depois escreveriam também o ótimo “O Povo Contra Larry Flint”): Em seu relato, ganha destaque a fauna exótica e notável –e plenamente identificável com as criaturas estranhas pelas quais Burton nutre admiração –de colaboradores que Ed Wood reúne ao seu redor, que contribuem à frente e atrás das câmeras para realizar seus filmes, mas também agem como uma família disfuncional com suas peculiaridades e manias.
Entre eles, está o outrora astro Bela Lugosi, em fase decadente (personificado com irônica sensibilidade por Martin Landau, ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), que se torna uma presença constante em alguns dos trabalhos de Wood.
Acima de tudo, o filme é uma oportunidade para observar Burton, cujo registro cinematográfico quase sempre prima pelo fantasioso, narrar acontecimentos reais e ainda mais impregnados pela afeição em comum da metalinguagem –nesse sentido, apesar do inusitado da afirmação, “Ed Wood” é como se fosse o seu “8 e ½“: São hilárias as cenas em que Ed Wood executa suas filmagens displicentes (como quando um ator, atacado em cena pelo que deveria ser um monstro tentacular, tem de movimentar os tentáculos com suas próprias mãos), ou os erros crassos que entravam mesmo assim nos filmes (quando George Steele, um de seus atores, muito grande para interpretar um morto-vivo que sai do túmulo, entala no caixão; ele pede ajuda e dois contra-regras vão lá segurar seus braços enquanto Wood ordena ao câmera que “Continue filmando! Continue filmando!”), as descobertas das manias cada vez mais excêntricas (o hábito de vestir-se de mulher que culminou na realização de “Glenn Or Glenda”, e a resignada aceitação da esposa, vivida por Patrícia Arquette, a mais esse desvio) e até a breve cena em que ele troca uma idéia com Orson Welles (Vincent D’Onofrio), o que lhe dá motivação e inspiração para fazer o seu próprio “Cidadão Kane”; justamente o Pior Filme de Todos Os Tempos, “Plan 9 From The Outher Space” –que Wood realizou com energia e fôlego, completamente ignorante da ruindade atroz de sua produção.
Bem no fundo, Tim Burton parece se identificar com Ed Wood exatamente nisso: No fato incontornável de que o criador apaixonado não consegue quantificar o amor de seus expectadores, somente o seu próprio, durante o ato de criação.

Daí o fato de “Ed Wood” ser filmado em um belíssimo preto & branco –não há, afinal, meio-termo na concepção de uma arte como o cinema, cujo combustível é, quase sempre, o amor incondicional de seus artesões.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

Na terceira parceria do incomum ator Johnny Depp com o estiloso diretor Tim Burton (antecedida por “Edward-Mãos de Tesouras” e “Ed Wood”), o foco do projeto foi uma antiga história de terror norte-americana, muito mais lembrada pelo público por um irregular curta-metragem da Disney exibido com freqüência durante o Halloween.
Todavia, o que o roteiro de Andrew Kevin Walker (de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”) propunha, era uma quase reinvenção da trama conhecida, para fins mais práticos: Nele, o famoso protagonista Ichabod Crane (Johnny Depp, deitando e rolando com o papel) é um astuto, porém covarde oficial de policia de Nova York –enquanto que na animação, fidelíssima à história clássica, Crane é um mero professor.
Se a ocupação muda, de certa maneira o personagem não: Na atuação minimalista e de trejeitos estudados de Depp, Ichabod Crane é, acima de tudo, um homem da ciência, daí o fato até plausível de suas investigações, mergulhadas em métodos científicos, irritarem seus superiores de arcaica mentalidade do final do Século XVIII. Como forma de propor-lhe um verdadeiro teste a fim de constatar a eficiência dos métodos de Crane, ele é então enviado à Província de Sleepy Hollow. Lá, várias mortes ocorridas (inclusive a que abre o filme numa breve participação de Martin Landau) são atribuídas a um fantasmagórico cavaleiro sem cabeça (interpretado pelo ator Christopher Walken, mas incorporado, na maior parte das cenas físicas pelo habilidoso dublê Ray Park).
Descrente, ainda que assustado (e a covardia é uma característica que, por vezes o define), o oficial Crane conduz sua investigação disposto a esclarecer o caso munido de lógica e ciência. Mas, ele cai nas malhas de uma trama rocambolesca que vai muito além da simples premissa de assombração embutida no conto e se alastra até conluios realizados entre membros da alta sociedade de Sleepy Hollow e descobre, estarrecido, que o cavaleiro sem cabeça é real, embora no final das contas, seja usado como executor de outro, e ainda misterioso, vilão.
Como ocorre em todos os exemplares de sua filmografia, Tim Burton usa seu senso formal para a construção de cenas primorosas e captura aqui uma essência específica de um elemento do seu passado responsável pela sua formação como cineasta: Em “Cavaleiro Sem Cabeça”, esse elemento responde pelos filmes sofisticados e ligeiramente irreais concebidos pelos estúdios da Hammer (Christopher Lee, um dos grandes astros desse estúdio, aparece numa ilustre ponta no início, tendo, a partir deste filme, marcado presença em praticamente todos os trabalhos de Burton). Um dos muitos aspectos aos quais Burton paga tributo –e esta obra é repleta de maravilhosos elementos visuais –é a característica peculiar daqueles filmes onde a direção de arte e a iluminação criavam uma atmosfera de tal forma etérea que não se podia distinguir o dia da noite. Ao lado de seus competentes colaboradores, Tim Burton realiza assim um filme de encher os olhos –a fotografia de Emmanuel Lubezki, o desenho de produção de Rick Heinrichs, bem como a trilha sonora de Danny Elfman, todos aspectos impecáveis que transformam este filme numa gratificante experiência cinematográfica.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Em Busca da Terra do Nunca

A despeito da irregularidade que demonstrou ao longo da carreira, o diretor Marc Foster, quando acertava entregava obras muito boas. Depõe a seu favor o contundente “A Última Ceia” e, em especial, este inebriante “Em Busca da Terra do Nunca”.
Ele conta a história real de James Barry (Johnny Depp, uma escolha notável) e sua relação com a jovem viúva Sylvia Llewelyn Davies (vivida por Kate Winslet) e seus quatro filhos pequenos na Inglaterra do século XVIII: George (Nick Roud), Jack (Joe Prospero), o caçula Michael (Luke Spill) e o amargurado Peter (o surpreendente Freddie Highmore).
Barry enxerga no desamparo afetivo dessa família um desalento que reflete a agonia de seu próprio casamento com Mary (Radha Mitchell), então entrando numa crise irreversível. Junto deles, encontra assim uma jovialidade e uma satisfação que lhe reacendem sua capacidade criativa, cujo bloqueio começava então a ser cobrado por seu produtor (Dustin Hoffman), sequioso de um novo e rentável trabalho: A última obra de Barry não havia tido lá muito boas críticas.
Contudo, o que surge a partir dali será, em tudo e por tudo, especial –Teatrólogo, Barry vale-se das experiências lúdicas e sentimentais vividas ao lado daquela família para criar e elaborar os elementos com os quais irá compor uma obra imortal sobre a infância e a imaginação: o clássico “Peter Pan”.
A meia hora final, na qual assistimos cheios de expectativa a primeira e mágica apresentação de “Peter Pan” para uma platéia maravilhada e boquiaberta, está entre as cenas mais cativantes e encantadoras do cinema.
Longe da intenção restritiva de fazer exatamente uma biografia, este belíssimo trabalho prefere se enveredar pelos meandros ora lúdicos, ora reais através dos quais se constrói uma obra-prima, imerso em inevitável emoção, em parte graças à brilhante atuação de Johnny Depp, que no papel de James Barry encara um dos mais difíceis trabalhos de sua carreira, e dele extrai uma emoção única e insuspeita.

“É o crocodilo tic-tac, não? O tempo persegue a todos nós!”

Simplesmente fantástico.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Piratas do Caribe - A Vingança de Salazar

Há diversos méritos que sobrepõem este filme acima do anterior, “Navegando Em Águas Misteriosas”, em termos de qualidade: O roteiro que encontra meios até inventivos de relacionar sua trama à história contada nos três primeiros filmes da franquia; a mocinha com muito mais carisma e motivação vivida por Kaya Scodelario (na verdade, nesse detalhe este filme supera todos os demais!); e a duração, mais curta e enxuta (embora o filme ainda se estenda para além das duas horas de metragem).
Infelizmente, este filme também tem lá seus deméritos, oriundos principalmente dos trejeitos indissociáveis que a saga adquiriu desde seu início, e que se repetem com impressão deliberada neste quinto exemplar.
O Capitão Jack Sparrow (Johnny Depp, cujo personagem perdeu um pouco do protagonismo devido aos abalos pessoais na carreira) agora é procurado por Henry Turner (Brenton Thwaites, de “Deuses doEgito”), rapaz determinado à quebrar a maldição que impede seu pai de regressar para terra firme e viver em família –sim, ele é filho de Will Turner (Orlando Bloom) transformado no capitão imortal do navio “Holandês Voador” ao final de “No Fim do Mundo”!
O único meio de quebrar a maldição (na verdade, de quebrar todas as maldições) é encontrando o Tridente de Poseidon –e é aí que torna-se necessário encontrar Jack Sparrow, ou melhor, sua bússola mágica com a qual é possível achar tal artefato.
Três personagens irão cruzar-se com eles no percurso de sua aventura: A jovem e bela Carina Smith (Kaya), dedicada estudiosa de astronomia (e sintomaticamente confundida com uma bruxa pelos numerosos ignorantes da época); o capitão Barbosa (Geoffrey Rush, com freqüência tão bom, ou melhor, que o próprio Johnny Depp em cena), que desde “AMaldição do Pérola Negra” vive uma relação de inimizade e aliança constante com Sparrow; e o fantasmagórico Capitão Salazar (o espanhol Javier Barden), o providencial vilão sobrenatural deste filme cuja origem é profundamente relacionada à do próprio Jack Sparrow –o qual, à propósito, ele anseia encontrar para concretizar sua vingança.
E ainda no terreno das participações luxuosas, temos uma breve (e consideravelmente aleatória) aparição de Paul McCartney como tio de Jack Sparrow, espelhando a participação especial (bem melhor) de Keith Richards em alguns dos filmes anteriores.
Os diretores Joachim Rønning e Espen Sandberg (realizadores de “A Aventura de Kon-Tiki”, produção norueguesa indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2012) buscam, portanto, uma sutil diferenciação de seu trabalho em relação ao de Gore Verbinski (diretor dos três primeiros) e de Rob Marshall (do quarto), no que são, em sua maior parte do tempo, mau sucedidos, esmagados pela convenção de fazer desta uma obra tão homogênea quanto as outras. Eles ocasionalmente introduzem novas e inventivas percepções acerca de uma aventura em alto-mar, traduzidas em enquadramentos inesperados, numa fluidez quase de desenho animado (mais perceptível na primeira metade, debilitada na segunda) e numa identidade visual peculiar em relação aos demais filmes, embora não consigam evitar nem o fato de que as mesmas repetições de premissa e artimanhas rocambolescas permanecem todas lá, nem a falta de traquejo deles próprios para conduzir o humor das cenas cômicas ou a falta de experiência para administrar o ritmo e a continuidade de uma superprodução.

No frigir dos ovos é um trabalho superior ao último filme, o mais fraco da série até então, mas está longe de ter frescor e o sabor de novidade dos três primeiros exemplares, uma tendência que infelizmente deve se tornar o principal calcanhar de Aquiles da franquia daqui para frente.