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segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Ou Tudo Ou Nada


 Dentre os indicados ao Oscar 1998 –de onde saiu vitorioso um imbatível “Titanic” –chamava a atenção, justamente por sua simplicidade, um projeto britânico singelo, pequeno, autoral e humilde que, com todas essas características, conquistou o coração da crítica em sua época: A comédia “Ou Tudo Ou Nada”.

Sem astros, sem pirotecnia, sem megalomania ou situações grandiloquentes, restava a este filme, conduzido com serenidade pelo diretor Peter Cattaneo, abordar o homem comum em suas fraquezas e inseguranças cotidianas, e nessa proposta, ele encontrava o árduo caminho para divertir e, quem sabe, emocionar.

Iniciando sua narrativa com um documentário sobre a cidadezinha siderúrgica de Sheffield, na Inglaterra, “Ou Tudo Ou Nada” expõe, com ironia tipicamente inglesa, o otimismo depositado, na década de 1970 e 80, na produção de ferro e aço do lugar, negócio que trará prosperidade `região. No corte seguinte, quando o filme de fato se inicia, algumas décadas se passam e a realidade provou-se outra: Sheffield é uma cidadezinha desolada, suas fábricas já não produzem a contento e seus operários amargam a pobreza, a falta de ocupação e o desemprego. Entre eles está Gaz (Robert Carlyle, num personagem simpático, completamente diferente do tipo psicopata que o revelou, um ano antes, em “Trainspotting”), um proletário com filho para criar, sem saída para a necessidade de por comida na mesa sem qualquer esperança de ter dinheiro no bolso; a mesma situação é a de David (Mark Addy), cujo casamento com Mandy (Emily Woof) não vai tão bem, embora não lhe falte amor.

Desde o início, essa é a grande proposta da obra de Cattaneo: Um olhar carinhoso e circunspecto sobre o homem comum, suas aflições e carências –e esse olhar adquire mais particularidade quando entra nele um elemento de sarcasmo; na penúria, Gaz tem a ideia de juntar alguns amigos e realizar, para as freguesia feminina da região, um show de striptease. O detalhe: Enquanto que os strippers profissionais, sarados, bonitões e definidos realizam um striptease, digamos, parcial –eles tiram a roupa até ficarem só de cuecas (!) –o grupo de Gaz irá oferecer o diferencial de se despir completamente; o ‘tudo ou nada’, ou “The Full Monty”, de seu título original. Assim, o grupo de desesperados strippers de araque, montado por Gaz, inclue, além dele próprio e de David, o mal-humorado Gerald (Tom Wilkinson); o magrelo Guy (Hugo Speer), capaz, segundo ele próprio, de executar um salto mortal numa parede (pura bravata!); o tímido e retraído Lomper (Steve Huison) e o desamparado Horse (Paul Barber) que é aceito no grupo sobre a alegação de que suas partes baixas têm tamanho descomunal (outra bravata!).

No entanto, irão esses desengonçados e envergonhados indivíduos comuns levar essa ideia até o fim? Peter Cattaneo explora as nuances dessa premissa até o seu desfecho, colocando em foco justamente aquilo que, com frequência, falta nos blockbusters norte-americanos: A humanidade de seus protagonistas.

Se “Ou Tudo Ou Nada” não chega a ser uma comédia das mais hilárias, ele acaba sendo uma obra agridoce, ao dividir-se entre um riso mais tocante e a observação comovente das inseguranças de seus personagens –e nesse sentido, quem se sobressai é o personagem de Mark Addy, o mais humano e identificável, no complexo de inferioridade que rumina por seu físico rechonchudo –na contramão do humor habitualmente auto-depreciativo dos ingleses.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Entre Quatro Paredes


 Certos filmes independentes acabam superestimados diante do fato de que, de um certo tempo em diante, a Academia de Artes Cinematográficas passou a nomear, ano após ano, um representante, assim digamos, da parcela independente da produção cinematográfica norte-americana. Em 2002, quis o destino que esse representante fosse o dramático (quase melodramático!), árido e comiserativo “Entre Quatro Paredes” –a despeito da originalidade e da audácia narrativa de “Amnésia”, daquele mesmo ano.

“Entre Quatro Paredes” é sobre a família Fowler; sobre o pai, Matt (Tom Wilkinson), a mãe Ruth (Sissy Spacek), e o filho Frank (Nick Stahl, de “O Exterminador do Futuro 3-A Ascensão das Máquinas”); e é, de certa forma, sobre o romance deste com Natalie Strout (Marisa Tomei), uma sensual mulher madura. Dirigido pelo ator Todd Fields (participou de “Twister” e “De Olhos Bem Fechados”), “Entre Quatro Paredes” entrega de pronto essa procedência ao focar sua condução na postura de seu elenco, a ignorar, no processo, todo o resto: Ritmo, atmosfera, até mesmo uma certa lógica interna.

A primeira parte incumbe-se de um registro corriqueiro, de obstinada veracidade, da rotina do dia-a-dia suburbano: São almoços, churrascos de domingo, ou meras situações prosaicas capturadas com uma certa referência (involuntária ou não) ao cinema do britânico Mike Leigh: O indivíduo absolutamente comum tornado central em uma narrativa que o enaltece.

As dinâmicas obtidas aí –o pai a assimilar, orgulhoso, o romance do filho com uma mulher mais velha; a mãe dividida entre o amor ainda apegado ao filho e a presença dessa nova mulher cheia de bagagens e histórias imprevistas trazidas para a simplicidade de seu núcleo familiar; a até mesmo a atração velada do próprio pai por essa nova namorada do filho –não se mantêm por muito tempo. Logo, o filme agrega elementos ásperos de tragédia.

Ex-marido de Natalie, o violento Richard (William Mapother, de “A Outra Terra”) num surto de cólera mata Frank! Contudo, filho de ricaços locais, ele não aparenta, nos dias que se seguem, receber punição por seu ato –Ruth se vê obrigada a vê-lo alegremente bebendo na rua com os amigos, todos os dias. Os efeitos de indignação, luto e expectativa por alguma justiça (venha ela de onde vir) passam a ser assim explorados pelo roteiro, pela direção e pelas atuações nesse casal de protagonistas.

Dessa forma, “Entre Quatro Paredes” faz da lentidão sua fonte de suspense, e a referência que o norteia quando já está a adentrar seu trecho final é, assim “Desejo de Matar”, com Charles Bronson, evocando de modo muito mais árduo e psicologicamente denso a trajetória do pai de família levado a praticar justiça com as próprias mãos.

É pena que, nesse contraste deliberado que o filme trabalha entre os blocos distintos que compõem seu todo, o filme de Todd Fields é menos imprevisível e inesperado, e mais incoerente e inconstante; características que, a despeito do trabalho majestoso de seu elenco (certamente, sua grande força) não o fazem corresponder ao enaltecimento prestado pela Academia no Oscar 2002, do qual, não à toa, ele saiu de mãos abanando.

domingo, 14 de junho de 2020

O Exótico Hotel Marigold

Pouco se identifica de um estilo mais marcante que relacione o oscarizado “Shakespeare Apaixonado” e o thriller “Armas Na Mesa”, embora eles tenham sido realizados pelo mesmo diretor.
Talvez, o que define o trabalho de John Madden seja afinal sua capacidade para migrar com o máximo possível de elegância aos mais diversos gêneros, embora isso acarrete uma atroz falta de profundidade a essa abordagem justamente pela fugacidade com que é feita.
“O Exótico Hotel Marigold” é um exemplo dessa desenvoltura e de como ela rende obras satisfatórias (chegou a ser indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme de Comédia ou Musical) e igualmente simplórias (pode se esquecer dele tão logo se acaba).
Sete personagens ingleses são flagrados às voltas com a rotina e os aborrecimentos da velhice: Evelyn (Judi Dench, fabulosa) cuja viuvez evidenciou ainda mais a dependência que tinha do marido; Graham (Tom Wilkinson), juiz da Suprema Corte desiludido com o marasmo de sua profissão; Douglas e Jean Ainslie (Bill Nigh e Penelope Wilton, que já formaram um casal em “Todo Mundo Quase Morto”), insatisfeitos com as circunstâncias modernas da avançada idade; Madge (Celia Imrie, de “Garotas do Calendário"), septuagenária já farta das incumbências domésticas relegadas a ela pela filha e pelo genro; Norman (Ronald Pickup, de “O Destino de Uma Nação” e “Evilenko”), um coroa ainda ávido por conquistas amorosas, cada vez mais escassas devido à sua condição; e a Sra. Donnelly (a sempre formidável Maggie Smith), senhora inglesa ranzinza e preconceituosa, confrontada com as falências do próprio corpo.
Todos eles, por razões distintas, acabam topando uma hospedagem gratuita em plena Índia oferecida gratuitamente num tal Hotel Marigold para turistas europeus –alguns com a possibilidade de lá ficar até o fim de seus dias: Evelyn porque nos quarenta anos de casada nunca fez nada sem a intervenção do marido (e agora quer se provar); Graham porque é homossexual, e numa viagem à Índia na juventude, conheceu o único homem que realmente amou (e, na intenção de encontrá-lo, convence todos os outros da viabilidade da viagem); Douglas e Jean porque uma aventura pode provar, para os outros e para si mesmos, que a idade não representa incapacidade (mesmo que tal mudança signifique perceber as fragilidades do próprio casamento); Madge porque acredita que ainda pode encontrar em algum lugar a chama do amor e do desejo (e sua intuição a leva a crer que a Índia possa ser esse lugar); Norman porque em Londres, na Inglaterra, ele praticamente já esgotou as possibilidades de se dar bem com as mulheres (e ser um inglês na Índia pode dar-lhe assim alguma vantagem); e a Sra. Donnelly porque a cirurgia de quadril que ela precisa imediatamente fazer será muito mais rápida e barata se for realizada em solo indiano (a despeito da forte discriminação que ela tem com o povo de lá, seja com seus hábitos e principalmente com sua comida).
São sete protagonistas que se dividem entre o humor, o drama, a reminiscência, o otimismo e o sarcasmo, para narrar suas distintas sub-tramas –beneficiados pela primazia particular do veterano elenco inglês –acrescidos ainda de mais outro: O jovem e irrequieto gerente do Hotel Marigold, Sonny Kapoor, vivido pelo carismático Dev Patel (de “Quem Quer Ser Um Milionário?”), que se equilibra entre a atrapalhada administração do hotel, uma herança da família, o cerco cerrado e a cobrança existencial da mãe (Lillete Dubey, de “Um Casamento À indiana”), o namoro afetuoso, porém, turbulento com a bela Sunaina (Tina Desai, da série “Sense 8”) e o trato cheio de negociações e artimanhas com os novos hóspedes.
Essa mistura obtida em “O Exótico Hotel Marigold” agrada porque a direção soube dar ao filme aquele sabor de comédia inglesa que sempre cai bem no paladar cinéfilo –e ali estão as interpretações notáveis (Maggie Smith é particularmente fenomenal) e o senso de humor auto-depreciativo característico para o deleite –embora seja mais um título que, na filmografia irregular de John Madden, mostre absoluta aleatoriedade na sua busca por histórias e personagens.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

A Sombra e A Escuridão

Em meados da década de 1990, era comum no sistema hollywoodiano empregar uma mescla de conceitos para se vender um filme –na verdade, tal prática ainda persiste, nos dias de hoje –por exemplo, a ficção científica “Vida” (de 2017) era um conceito que unia “Gravidade” e “Alien-O 8º Passageiro”, ou “Velocidade Máxima” (daquele período) trazia o conceito de “Duro de Matar” a bordo de um ônibus.
Embora sua notável premissa tenha o respaldo de ser baseado num surpreendente episódio real (conhecido nos livros de história como Os Leões de Tsavo), o filme dirigido por Stephen Hopkins (de “O Predador 2”) não deixa de ser, por assim dizer, um conceito: Une o suspense visceral em torno de uma fera assassina de “Tubarão” com uma ambientação de cinema clássico e vistoso, nos moldes de “Lawrence da Arábia” ou “Gunga Dim”.
Com efeito, “A Sombra e A Escuridão” também remete inadvertidamente ao Eco-Horror (onde os animais normalmente se voltavam contra o homem), um sub-gênero do terror que deixou de ser realizado com o politicamente correto.
1898. O engenheiro inglês John Patterson (Val Kilmer) é enviado para a África, continente no qual a Inglaterra, a Alemanha e a França disputavam uma espécie de corrida na ânsia por colonizar suas regiões inexploradas. Uma vez lá, a tarefa de Patterson –como bem lembra tão rudemente seu superior, vivido por Tom Wilkinson –é construir uma ponte que permita aos ingleses transpor as corredeiras do Rio Tsavo e assim avançar na sua disputa com os alemães e os franceses.
Contudo, Patterson encontra um obstáculo inesperado: Dois grandes leões passam a aterrorizar os trabalhadores locais, demonstrando comportamento absolutamente incomum para leões; atacam seres humanos (e não presas animais) sistematicamente, aparentando fazê-lo por esporte e não por fome; invadem os acampamentos ignorando vestígios deixados para espantá-los; sobem em árvores e exibem força, resistência, ferocidade e atrevimento fora do normal.
Quando o número de mortos pelos leões atinge o número de quatro dezenas, essas características desiguais levam as feras predadoras a ganhar uma aura lendária entre os trabalhadores –são chamados de a Sombra e a Escuridão –que ameaçam rebelar-se contra Patterson em função do medo.
Para auxiliá-lo é chamado o mais próximo que se pode chegar de um especialista numa situação dessas: O caçador irlandês Charles Remington (Michael Douglas, no único personagem fictício do filme) cujo instinto e as técnica audazes de caçada podem dar cabo de feras tão imprevisíveis.
Esteta de reconhecido capricho visual, Stephen Hopkins não resiste à tentação de referenciar o cinema ostensivo e épico da Velha Hollywood, que tem em David Lean seu nome maior; na bela fotografia do especialista Vilmos Zsigmond, no vasto aparato técnico da produção e até mesmo na atuação rica em teatralidade de Michael Douglas que recria trejeitos de uma escola mais antiquada de interpretação (o que o destoa de seus pares em cena), o diretor transforma “A Sombra e A Escuridão” numa obra cheia de charme devido aos elementos inusitados que agrega.
Pena que nem tudo sejam flores: O roteiro do prestigiado William Goldman (de “Butch Cassidy”, “Todos Os Homens do Presidente” e “Chaplin”) não encontrou o escritor em seus melhores dias e as situações que ele constrói, bem como os diálogos que escreve oscilam entre o medíocre e o inspirado. Sem falar que há algo de muito errado com um filme quando percebemos que sua melhor cena é o breve trecho de um sonho (!).

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

O Cavaleiro Solitário

A paixão pelo faroeste já aparecia em inúmeros trabalhos anteriores do diretor Gore Verbinski –no tratamento dado a algumas cenas muito referenciais em “Piratas do Caribe”, ou na animação “Rango” –todavia, foi aqui, nesta imodesta adaptação de um herói já famoso no rádio, em seriados de matinê e desenhos animados (e frequentemente confundido com o “Zorro”), que Verbinski pôde escancarar sua predileção realizando um faroeste legítimo.
De quebra, levou o astro Johnny Depp para incorporar o papel do índio Tonto –escalação que converteu o que seria apenas o ‘parceiro do herói’ num protagonista de tanto peso (ou até mais!) quanto o personagem-título.
E é Johnny Depp, ou melhor, Tonto quem de fato começa o filme, mostrado numa São Francisco dos anos 1930 –quando ainda era possível se cruzar, em pleno Século XX, com alguém que testemunhou os eventos do Velho Oeste. É isso que experimenta um garotinho ao deparar-se com um Tonto todo envelhecido –numa homenagem clara à “Pequeno Grande Homem” –que relata a ele o início de sua lendária parceria com o Cavaleiro Solitário.
Ou seria melhor dizer, John Reid (vivido com bastante competência e noção de seu papel secundário por Armie Hammer), um advogado que regressa para a Califórnia onde se estabeleceu seu irmão Dan Reid (James Bagde Dale) com quem pretende se juntar.
Dan é casado com a bela Rebecca (Ruth Wilson), que nutre uma paixão secreta por John (e que nutre uma paixão secreta por ela também), e eis aí outra homenagem de Verbinski: Ao clássico “Rastros de Ódio” cuja premissa é engatilhada também por um caso de amor não correspondido entre o protagonista e sua cunhada.
Assaltado o trem onde estão John e o índio Tonto –aprisionado pelos homens brancos –o homem da lei Dan, no encalço de criminosos de intenções ainda nebulosas acaba morrendo vítima de uma cilada.
A mesma cilada da qual John escapa com vida quase que por um milagre –na verdade, Tonto crê que foi um milagre mesmo, executado pelo lendário ‘Cavalo Espiritual’ que teria escolhido John para traze-lo de volta dos mortos e torna-lo seu justiceiro, ou algo assim...
A parceria (hesitante como rege a cartilha das produções hollywoodianas) é assim estabelecida e o filme de Verbinski segue, manhoso, por sua trama rocambolesca: Embora no final das contas sua estrutura seja definida pela luta básica do bem contra o mal, o roteiro (escrito por Ted Elliott e Terry Rossio, os mesmos de “Piratas do Caribe”) é tão cheio de desvios e ganchos subentendidos que as motivações e propósitos nele embutidos quase se perdem –especialmente devido à decisão bastante dispersa de desenvolver a trama a partir de dois núcleos diferentes de vilões.
Não ajuda também o fato das intenções do filme se mostrarem indecisas entre a racionalidade de uma crítica social histórica (com uma tentativa de denúncia da barbárie contra os indígenas em cenas mais violentas do que se poderia esperar) e o apelo comercial de uma produção escapista (onde entram, por sua vez, humor pastelão, piadinhas corriqueiras, sequências mirabolantes e aventura de desenho animado).
A arrematar essa mescla desigual temos o primor visual característico de Gore Verbinski (no qual ele é reconhecidamente craque) e duas espetaculares cenas de ação envolvendo trens –uma no começo, outra no final –tradição da Velha Hollywood que Verbinski faz questão de retomar com todos os efeitos especiais de última geração a que se tem direito.
Ao tentar mirar num sucesso de proporção e estilo similar ao seu “Piratas do Caribe”, Gore Verbinski e seu astro Johnny Depp fazem demais com seu faroeste referencial, deixando-o com uma identidade indefinida e um resultado incompleto ainda que tenha lá a sua diversão.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

O Sonho de Cassandra


Sempre envolvente, esta obra pertence àquela segunda vertente de filmes que Woody Allen logrou ao longo de sua carreira, em contraponto às suas comédias sobre neuroses e relacionamentos humanos –aquelas realizações mais sérias de orientação quase hitchcockiana das quais o exemplar recente mais cultuado é provavelmente “Match Point-Ponto Final”.
Dele, “O Sonho de Cassandra” empresta também sua ambientação e cenário, Londres.
Os Irmãos Blaime, Ian e Terry (Ewan McGregor e Colin Farrel, intérpretes adequados) surgem na primeira cena cobiçando um barco ao qual, depois da compra, dão o nome de “Sonho de Cassandra” –a cobiça é apenas o primeiro dos pecados capitais que pontuam a trajetória dos protagonistas.
Há a vaidade –na soberba da mãe quando continuamente elogia o sucesso do irmão Howard (Tom Wilkinson), sobretudo, em comparação à mediocridade crônica do resto da família –a luxúria –quando Ian, que trabalha num modesto restaurante com o pai, almeja ambições maiores e, num reflexo disso, se envolve com uma atriz inglesa (Hayley Atwell), o que o obriga a manter as aparências de um luxo ostensivo –e a inveja –por meio da qual, Terry cede ao vício da jogatina que, no início, lhe permite mais dinheiro do que tem, mas depois, o leva a contrair um dívida alta e perigosa com inescrupulosos agiotas para desespero de sua esposa (Sally Hawkins).
A ira, de uma certa maneira, surge na figura do próprio Tio Howard, enxergado muitas vezes como a solução para a maioria dos problemas da família, devido à sua riqueza. Howard só tem um empecilho: Se consome de ódio por uma testemunha que pode entrega-lo a justiça por ações ilícitas –e que pode colocá-lo atrás das grades!
O acordo, em princípio, é simples: Ian e Terry poderão dar cabo do indivíduo (no caso, mata-lo), e assim Howard quitará a dívida de Terry, e irá investir em todos os planos grandiosos de Ian.
Eis, pois, o thriller hitchcockiano que Woody Allen monta amparado em paradigmas das tragédias clássicas, e que ruma da direção da ilusão do crime perfeito, cujos detalhes insistem em provar o oposto. De modo desengonçado, mas obstinado, Ian e Terry cometem o homicídio, apesar de todos os percalços agonizantes de quem nunca experimentou algo assim. Nos dias que se seguem, entretanto, a reação dos irmãos é diferente: O ambicioso Ian procura seguir sua vida, adequando-se cada vez mais ao meio de vida da namorada, enquanto que o proletário Terry se descobre consumido pela culpa –a memória do crime não lhe abandona em momento algum, atormentando-o e até mesmo tirando-lhe a sanidade.
Quando Terry começa a se tornar perigoso demais para os planos de Ian e do próprio Howard, uma atitude drástica é cogitada –e Ian pode ter de executá-la num mero passeio ao lado do irmão, a bordo do próprio “Sonho de Cassandra”.
O desenvolvimento da premissa, orientado por influências literárias e culturais que Woody Allen trabalha desde o início de sua carreira, pode soar anacrônico aos expectadores habituados com as obras de suspense com características mais modernas, no entanto, há extremo profissionalismo no modo com que é narrado este conto moral sobre escolhas éticas tão sombrias quanto irreversíveis.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Moça Com Brinco de Pérola


Discussão a um só tempo interessante e superficial sobre os meandros mesmerizantes da arte, “Moça Com Brinco de Pérola”, em sua relevância artística, corresponde àquela conversa ocasional que se tem com um amigo no balcão de um café: Nos argumentos dispostos pode até haver pretensões de inteligência e de um senso de observação de fato, mas pela simples falta de seriedade dedicada, nada mais é do que passatempo.
No século retrasado no auge de seu reconhecimento artístico o metódico pintor holandês Veemer (Colin Firth, numa caracterização algo cabotina) contrata como criada uma jovem de origem humilde. Logo identifica nela uma beleza incomum e uma presença quase que magnética. Intrigado, ele a acolhe como sua assistente particular em seu atelier e passa a usá-la como modelo dando início a uma complexa relação de amor e atração platônicos, que não passam despercebidos aos olhos perplexos e magoados de sua mulher (Miranda Richardson).
Essa relação originará o quadro que é tido como a obra-prima de Veemer, "A Moça Com Brinco de Pérola", conhecido como a "Mona Lisa" holandesa.
A despeito do detalhe indisfarçável de que o par central não possui muita química –e nesse sentido, os rumos austeros e realistas tomados pela trama acabam sendo apropriados –este filme romântico de enorme beleza visual conduzido pelo diretor Peter Webber (que depois realizaria o também satisfatória “Hannibal-A Origem do Mal”) conta com a inebriante beleza de Scarlett Johansonn (no mesmo ano em que foi revelada no fabuloso “Encontros e Desencontros”), perfeita no enigmático e importante papel da criada Grete.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Operação Valquíria

Lançado no mesmo ano de “Bastardos Inglórios” –e, por uma série de motivos, menos exultante, empolgante e imprevisível que aquele filme –este “Operação Valquíria” viu-se meio que ofuscado pela obra de Quentin Tarantino, ainda que alguns críticos lhe tenham chamado a atenção para suas qualidades.
Reunindo uma vez mais o diretor Bryan Singer e o roteirista Christopher McQuarrie (que juntos realizaram o aclamado “Os Suspeitos”) –isso sem falar no astro Tom Cruise –o filme busca fazer uma reconstituição da famosa tentativa real de assassinar Adolf Hitler, aquela que mais próxima chegou de se concretizar; o mesmo episódio já havia sido adaptado em diversos outros filmes sendo o mais famoso até então o oitentista “O Plano Para Matar Hitler”, com Brad Davis, de “O Expresso da Meia-Noite”.
A Segunda Guerra Mundial segue tensa e conflituosa quando a narrativa do filme, já em seu princípio, trata de revelar que existiam sim dissidentes ocultos entre os oficiais de confiança de Adolf Hitler (David Bamber, numa recriação minimalista, mas sem muito brilho). Homens que acreditavam que o melhor para a Alemanha seria a morte do Füher e o encerramento daquela guerra. Um desses homens, vivido por Kenneth Brannagh, é um oficial nazista com especialidade em explosivos, mas cujas condições precárias das poucas bombas que consegue colocar próximas a Hitler sempre resultam em falha de seus planos.
As chances de sucesso, dele e de outros militares do alto escalão da Alemanha unidos na intenção de acabar com o ditador aumentam quando conseguem aliciar para suas fileiras a liderança do Coronel Claus Von Staunffenberg (Tom Cruise).
Oficial condecorado –e privado de um olho e da mão direita durante um bombardeio, anos antes –Von Staunffenberg trás um objetivo bem mais sólido e incisivo para o desamparado grupo de oposição silenciosa ao nazismo: Não somente planejar um atentado contra a vida de Adolf Hitler, e por um fim a guerra, mas também garantir que seja imediatamente instaurado o protocolo da ‘operação valquíria’, um documento ao qual pouca atenção era concedida, devido ao mito de superioridade (e de imortalidade) que rondava Hitler, mas que vinha a presumir um caminho caso o Füher viesse a morrer. O plano deles é instaurar um novo sistema de governo imediatamente após a morte do Füher, segundo instrui esses documentos oficiais, e trazer a paz propondo uma rendição aos aliados logo em seguida.
Os elementos e as circunstâncias que cercam a execução do plano são tão arriscados e mirabolantes quanto os pequenos detalhes que o fizeram dar errado; da mesma forma, a direção meticulosa de Bryan Singer, o roteiro competente e o bom elenco não conseguem contornar o fato de que o filme busca criar suspense em torno de uma trama que todos conhecem o desfecho.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Conduta de Risco

Aclamado pelos ágeis e magníficos roteiros da “Trilogia Bourne”, que adaptavam com urgência as obras de Robert Ludlum para a atualidade, Tony Gilroy migrou para a função de diretor preservando uma série de características que definiam seu estilo como roteirista: O gosto por tramas rocambolescas imbricando constantemente em códigos sedutores que às vezes representam alternativas enganosas aos seus personagens e à própria construção da expectativa pelo público.
Em “Conduta de Risco” –que no título original leva o nome de seu protagonista “Michael Clayton” –Gilroy trabalha, portanto, com aquilo que faz melhor: É um filme sobre um mundo onde ninguém é exatamente confiável.
Calejado nas percepções do público, Gilroy trata logo de deixar claro que nem mesmo seu personagem principal se isenta dessa pouca confiabilidade: Michael Clayton (interpretado magnificamente por George Clooney) é um especialista em varrer a sujeira para baixo do tapete na poderosa firma de advocacia em que trabalha. Todas as revelações escabrosas que podem comprometer a integridade de seus associados são habilmente acobertadas por ele.
Suas habilidades são mais que necessárias quando um dos mais prestigiados advogados de sua firma (o excelente Tom Wilkinson) surta durante um importante processo acerca de uma mega-empresa e os moradores de uma cidade afetados por materiais tóxicos. Mas o caso é mais complexo do que as aparências sugerem, envolvendo segredos, interesses profissionais, princípios e espionagem industrial, representados na tentacular e calculista personagem da sensacional Tilda Swinton (vencedora do Oscar 2008 de Melhor Atriz Coadjuvante)
Aos poucos, Michael se dá conta da podridão e da falta de escrúpulos envolvidos no caso, e será mais precisamente esse seu reencontro com a ética que poderá dar um novo rumo ao processo.
Tão incrivelmente pernicioso e sórdido é o mundo corrupto concebido no roteiro de Tony Gilroy que, no entrecho em que a narrativa precisa e necessita de alguma possibilidade de redenção, ele só pode apelar mesmo para a pureza indefectível da família: Quando tudo o mais depõem contra Michael Clayton –inclusive suas próprias escolhas –é ao seu irmão, providencialmente um detetive da polícia, a quem ele vai recorrer.
Uma concessão inevitável que o próprio filme, em seu retrato impecável e implacável da sordidez humana, se obrigou a fazer.
Não tira, contudo, o brilho resplandecente de todos os envolvidos na realização.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Missão Impossível - Protocolo Fantasma

Tendo mostrado o caminho a ser seguido em “Missão Impossível 3” –e assumido a co-produção dos filmes posteriores –o diretor J.J. Abrahams deixou caminho livre para que a série pudesse crescer. E foi o que de fato ocorreu, aliás, num momento bem propício para Tom Cruise: A época do lançamento deste quarto filme da série coincidiu com um dos períodos de mais baixa popularidade de sua carreira devido à uma bizarra entrevista no programa de Oprah Winfrey e à sua ligação com a cientologia.
Sorte para ele que Brad Bird, um aclamado diretor de animação (dos espetaculares "Os Incríveis" e "Ratatouile") resolveu fazer, com este trabalho, sua estréia em filmes live-action e realizou um filmaço de ação e espionagem.
Após a explosão de uma bomba no Kremlin, a tensão entre os EUA e a Rússia chega às vias de uma iminente guerra nuclear, uma vez que esse atentado terrorista recai sobre a equipe da IMF (Impossible Mission Force) que estava no local.
Ao ser instaurado o "protocolo fantasma", toda a IMF é desativada inclusive a equipe renegada, cujo líder –o agente Ethan Hunt, quem mais? –deve agora inocentar seu time que inclui, além dele, a linda agente Carter (Paula Patton, de “Preciosa” e “Idlewild”), o analista-chefe Brandt (Jeremy Renner, de “Vingadores” e “Guerra Ao Terror”) e o agente de campo Benji (Simon Pegg), para juntos deterem uma conspiração que tem por finalidade a Terceira Guerra Mundial.
Se o filme anterior, de JJ. Abrahams, começava a colocar as coisas em ordem dando relevantes características humanas a Ethan Hunt, este novo filme o coloca como um grande personagem de ação, equivalendo-o às figuras icônicas do gênero como Jason Bourne e James Bond; e o astro Tom Cruise, que já não é nenhum garoto, não nega fogo nas espetaculares cenas de ação.
Foi durante a realização deste filme que o astro Tom Cruise começou uma parceria com o roteirista e diretor Christopher McQuarrie –aqui contratado para aperfeiçoar o roteiro, uma prática na qual ele é especialista –protagonizando um projeto seu, o ótimo “Jack Reacher-O Último Tiro” e depois chamando-o para dirigir “Missão Impossível-Nação Secreta”, até então o melhor filme da série.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Emma

Tão influente e de predicados tão universais e atemporais é o livro “Emma”, de Jane Austen, que ele inspirou um dos filmes adolescentes que viraram mania entre os jovens nos anos 1990: O romance colegial “As Patricinhas de Beverly Hills”, com Alicia Silverstone, dirigido por Amy Heckerling é declaradamente uma versão adolescente, norte-americana e burguesa de “Emma”. Também na literatura “Emma” serviu de molde para um sucesso: “O Diário de Bridget Jones” –mais tarde, também ele tornado filme –de Helen Fielding era, também ele, uma versão modernizada (e nada disfarçada) de “Emma”.
Com o interesse despertado pela fabulosa adaptação de “Razão e Sensibilidade”, conduzida por Ang Lee, em 1995, era questão de tempo até que “Emma” ganhasse, também ele, sua própria versão cinematográfica.
O resultado, embora não possua a precisão e o requinte de acabamento de "Razão e Sensibilidade", é uma obra elegante, saborosa e competente, características que o diretor Douglas McGrath deve em grande parte devido à escolha de Gwyneth Paltrow para o papel: Ela está muito melhor e mais adorável aqui do que em seu oscarizado “Shakespeare Apaixonado”.
No interior da Inglaterra, na cidade de Highbury, a bela e juvenil Emma Woodhouse tem como principal diversão o hábito de bancar cupido. Ela dá conselhos, elabora estratagemas e faz esforços para unir casais e acaba criando algumas confusões devido à imprevisibilidade emotiva e romântica dos corações humanos. Isso e mais uma série de outros contratempos por vezes a indispõem com o Sr. Knightley (Jeremy Northam, bem mais jovial e galante do que é sugerido no livro), um grande amigo de sua família e sempre atento a lhe dar um puxão de orelha quando suas boas intenções extravasam o limite do decoro ou do bom senso. Mas o quê Emma parece não se dar conta é que há muita afetividade nesse modo do Sr. Knightley de se portar e se importar com ela.
No decurso de seu amadurecimento existem outras coisas que Emma irá perceber: Que por trás do amplo conhecimento nos assuntos amorosos que ostenta para os outros, há uma jovem insegura e sozinha que teme, ela própria, em ter de lidar com os revezes da paixão.
Embora seja um dos mais prestigiados livros de Jane Austen, a adaptação de “Emma”, no objetivo bastante singelo que parece buscar, passa longe de corresponder à “grande obra-prima da escritora”, resultando numa graciosa comédia romântica de época, cujo mérito maior é sua protagonista que comanda as cenas com graça e suavidade.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Casamento de Verdade

Katherine Heigl é uma atriz tão atrelada ao gênero de comédia romântica (ela quase sagrou-se como uma espécie de substituta de Meg Ryan e Sandra Bullock) que corremos o risco, bastante justificável, de que é disso que se trata este filme. Mas, o registro de “Casamento de Verdade” é muito mais dramático.
Talvez um pouco de humor até fizesse bem à mistura.
Katherine é Jenny, uma jovem assistente social há anos envolvida com Kitty, interpretada por Alexis Blender –e não há dúvidas de que as duas belas atrizes escolhidas para ser o casal central são um fetiche à parte, mas, falemos do filme...
Com a data do aniversário de casamento de seus pais (Tom Wilkinson, pontual em sua rabugentice, e Linda Emond) se aproximando, Jenny se aproxima cada vez mais de contar toda verdade a eles, de que é homossexual, e que deseja casar e ter filhos com Kitty.

É, portanto um daqueles filmes que exala sensibilidade e discorre sobre a mensagem de aceitação de gêneros. Curiosamente, ele soa um bocado conservador, no tratamento extremamente convencional que dá ao material, dando a entender que, guardados os devidos ajustes, roteiro e direção falam de algo que não compreendem, ou do qual são incapazes de expressar sua devida compreensão. A personagem de Alexis Blender é completamente ausente da maior parte da trama e de seus desdobramentos, e essa é uma decisão que incomoda, evidenciando certa superficialidade no filme e minando a espontaneidade na interação dos personagens –e, por conseguinte, de seus atores.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

A Grande Mentira

1997. Ex-agente do Mossad, a polícia secreta de Israel, Rachel Singer (Helen Mirren) é chamada por seu ex-marido (Tom Wilkinson), diretor do Serviço Secreto Israelense, para retomar clandestinamente uma missão executada 30 anos atrás, pela qual ambos, e mais o agente David Peretz (Ciaran Hinds), são reconhecidos até hoje: a captura e morte do criminoso de guerra conhecido como "Cirurgião de Birkenau". Mas remexer neste assunto envolve tocar num grande segredo que os três (interpretados em sua juventude por Jessica Chastain, Marton Csokas e Sam Worthington) juraram esconder e que pode afetar suas vidas.
Refilmando um thriller israelense rodado em 1997, o diretor John Madden (de “Shakespeare Apaixonado”) realiza um bom e envolvente trabalho que extrai muito do charme da narrativa –tal e qual alguns clássicos do gênero –oscilando entre passado e presente, alternando os três personagens com os diferentes atores que os interpretam, observando as dicotomias ficcionais em favor de uma agradável atmosfera de suspense. Dentre seus intérpretes (e esta obra ampara-se particularmente sobre eles), Helen Mirren se encontra soberana como a protagonista enquanto sua contraparte jovem, a fabulosa Jessica Chastain, esfacela seus companheiros a cada sequencia.
Inesperadamente fraco está Sam Worthington, que foi um protagonista tão bom e eficaz em “Avatar”, mas nesta obra surge absolutamente apático e perdido em cena.

Já, Marton Csokas nunca foi muito carismático mesmo, embora ao longo de sua carreira tenha feito quase todo o tipo de filme (ele aparece, para se ter uma idéia, até em “Senhor dos Anéis”).

domingo, 17 de abril de 2016

Batman Begins

Cada filme da trilogia do Cavaleiro das Trevas baseava sua história num elemento diferente, representado de uma certa forma no antagonista que o Batman enfrenta ao longo da trama. Uma das muitas sacadas geniais de Christopher Nolan ao longo dos três filmes.
No inaugural “Batman Begins”, o tema é o medo. O medo de ver seus pais sendo mortos por um bandido, ainda criança, e de ficar preso a essa lembrança para sempre. E medo é aquilo que, mais tarde, Bruce Wayne (Christian Bale, excelente) almeja incutir nos criminosos de Gothan usando assim o Batman. Não a toa, seus vilões aqui são o Espantalho (interpretado por Cillian Murphy, cujo poder é gerar o medo através de seu gás alucinógeno), e Rhas Al-Gul (Liam Neeson, ou Ken Watanabe, depende do enfoque...), um terrorista (!) e que, a propósito, serve como fonte para as plantas que provêm ao Espantalho sua arma secreta.
É fácil admirar a maestria com que Nolan conduziu essa reinvenção do Homem-Morcego, o quê talvez não seja tão fácil, é perceber que não foi algo simples chegar até ela.
Naquele ano, 2005, já contavam oito anos que o personagem tinha ganhado o que é considerado por unanimidade como o seu pior filme (e um dos piores filmes já realizados de todo o cinema!), o psicodélico, inadequado e inconveniente “Batman & Robin” de Joel Schumacher. O medo do estúdio em fazer outra bobagem só não era maior que o medo de perder o imenso lucro que um personagem como Batman proporcionou no passado, e assim, carregados de cautela, chamaram Christopher Nolan, recém-saído da aclamação por dois longa-metragens pouco usuais e primorosos: Os neo-noir “Amnésia” e “Insônia”.

Amparado num conceito de realismo (que, a rigor, sempre definiu sua filmografia) e munido de um elenco espetacular (Michael Caine, Morgan Freeman, Gary Oldman, além dos já citados), ele deu início à criação de uma trilogia ímpar tida por muitos como o auge da tradução de uma história em quadrinhos para o cinema.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

Joel sofre copiosamente. A razão é uma só: Clementine, sua ex-namorada não só terminou com ele, como também fez uma lavagem cerebral que apagou Joel de sua memória e, por conseguinte, todo o relacionamento que tiveram juntos. Quando se encontram ela nem mesmo o reconhece. 
Inconformado, Joel decide se submeter à mesma experiência e apagar Clementine da sua mente. Entretanto, no meio do processo ele encontra lembranças de Clementine, e da relação que teve com ela, das quais ele não quer se desfazer. Joel então se arrepende e inicia uma fuga desesperada dentro de sua própria mente na vã tentativa de manter uma mínima recordação de Clementine. 
Um roteiro primoroso norteia este filme emocionante, mas que nunca se torna refém das emoções que consegue provocar: Sem a menor sombra de dúvida, o melhor trabalho do diretor Michel Gondri, no qual até mesmo suas duvidosas escolhas cênicas, que muitas vezes remetem a orientação circense de Terry Gillian, surgem significativas para os efeitos propostos pelas cenas lindas de recordação que materializam-se na tela. 
A memória surge como um catalizador das próprias definições humanas. 
Há que se louvar, com insistência, o mérito do roteiro. Escrito pelo quase sempre transgressor Charlie Kaufman, a trama tem toda sua falta de conformismo, toda sua ânsia de não se prender às convenções de narrativa cinematográfica que engessam, em particular, o gênero no qual ele parece pairar: o romance. Todavia, “Brilho Eterno...” é também uma ficção científica, e de uma certa maneira uma comédia, e muitas vezes um drama. É, no fim das contas, um daqueles trabalhos incategorizáveis tal a fluidez com que vai de um gênero à outro, e com a qual se vale, justamente disso, para contar sua história. 
Á frente do elenco, Jim Carrey é surpreendente, mostrando-se muito mais que o primoroso comediante que é: Ele expões suas dores de amor, em cenas de insuspeita sensibilidade, ainda mais arrojadas em termos de interpretação, do que o trabalho magistral que entregou em “O Show de Truman”. 
Kate Winslet, por sua vez, faz uma personagem espalhafatosa, petulante. carregada de histrionismos e talvez, por isso mesmo, cativante. Ela não só interpreta essa personagem, se você reparar, mas também o conceito de idealização dessa personagem, nas memórias do ex-namorado, e por isso mesmo, um registro distinto do que é feito nas cenas que se passam na realidade. É necessário uma intérprete de brilhantismo irrestrito para um trabalho assim. 
Minha cena predileta (embora apontá-la seja de uma grande injustiça para com a maravilhosas outra cenas que se apresentam) é a última lembrança na casa da praia, uma espécie de despedida, onde o filme suscita sentimentos muitos universais acerca do receio e das dúvidas que o sentimento desperta em todos nós. E dos inúmeros motivos porque as lembranças que mantemos são (e devem sempre ser) indeletáveis. 
As repercussões e consequências desse gesto contrário e do amor que Joel por Clementine estão entre as muitas surpresas desta história.