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quarta-feira, 25 de agosto de 2021

O Amor É Cego


 Os filmes dos irmãos Peter e Bobby Farrelly sempre despertaram uma certa perplexidade da parte da crítica e do público (ao menos, a parcela um pouco mais sensata do público...). Seus trabalhos embora ostentassem alguma ocasional qualidade e noção de cinema –o que acabou eventualmente rendendo até um Oscar de Melhor Filme para um deles (para Peter, por “Green Book-O Guia”) –sempre tiveram por diretriz um viés fortemente politicamente incorreto em obras que oscilavam entre o francamente hilário e o espantosamente grosseiro.

O fato de serem comédias era o que justificava a existência de tais obras e, de repente, tornava tais impropérios mais apetecíveis ao público. Ao menos durante algum tempo.

Com a patrulha do politicamente correto em voga, as obras dos Irmãos Farelly perderam muito de sua razão de ser, de seu apelo junto ao seu público-alvo (adolescentes em sua maioria) e, nesses tempos de cancelamento virtual, passaram até a oferecer certo perigo aos seus realizadores.

O último trabalho deles nesse sentido é o divertidíssimo “Passe Livre”, num já distante 2011; observe como comédias, de um modo geral, simplesmente deixaram de ser feitas.

Exemplo de um cinema de humor que certamente jamais seria praticado hoje em dia, “O Amor É Cego” foi realizado pelos Irmãos Farrelly em 2001, um ano depois do engraçadíssimo e arrebatador “Eu, Eu Mesmo & Irene” (com Jim Carrey) e seguiu as mesmas orientações de outros trabalhos que eles entregaram naquele período. Assisti-lo hoje é constatar a espantosa liberdade criativa da qual alguns autores se beneficiavam, e que não mais existe. Difícil acreditar que um filme de tal proposta e execução passou em brancas nuvens, sem gerar polêmica ou repúdio.

Ele se revela, sobretudo, diante dos valores como hoje eles são, profundamente ofensivo, agressivo e até amoral –e nesse processo flui com uma naturalidade que torna tudo ainda mais chocante e inacreditável. Entretanto, conscientes do respaldo moral ao qual se prestam mesmo as mais ultrajantes premissas, os Farrelly reservam, ao fim de seu festival de bizarrices, preconceitos e ofensas, uma certa lição de moral e uma mensagem positivista –os detratores intolerantes de hoje em dia diriam, contudo, que seu filme vai longe demais mesmo que para justificar alguma boa intenção: Para os justiceiros sociais dos tempos atuais, contrariando Shakespeare, os fins não justificam os meios.

“O Amor É Cego” conta a história de Hal Larson (Jack Black que, após uma promissora participação em “Alta Fidelidade”, começava a alçar altos voos em Hollywood), rapaz que, ainda criança, teve um inusitado episódio quando despediu-se do próprio pai: Dopado com medicamentos que lhe entorpeciam o raciocínio devido à dor, o progenitor –que era reverendo –dá ao pequeno Hal o conselho para, quando crescer, procurar sempre as mulheres mais bonitas possíveis.

Apesar do humor de porta de banheiro desempenhado –um humor esse ao qual Jack Black se encaixa com a mesma espontaneidade que Jim Carrey –o filme dos Farrelly ostenta insuspeita sofisticação na sua carpintaria psicológica do protagonista ao apresentar esse prólogo. Pois eis que, ao crescer, Hal se torna assim, um solteiro compulsivo incapaz de aprofundar o relacionamento com uma mulher justamente devido à essa superficialidade com a qual encara a relação com o sexo oposto: Para ele e para seu amigo Mauricio (Jason Alexander, da série “Seinfield” e de “Uma Linda Mulher”), as baladas noturnas nas danceterias de Nova York consistem de procurar por mulheres de um padrão existencialmente inatingível –eles se deixam desanimar com mínimos detalhes que enxergam como imperfeições determinantes –ignorantes do fato de que, como indivíduos, também eles trazem seus próprios defeitos.

São personagens desenhados de modo a ir de encontro com a comédia assim proposta, mas não deixa ser nauseante ao expectador sensato em muitos momentos –e por razões bastante erradas.

A invariável guinada na trama vem quando Hal, por acaso, fica preso num elevador com o palestrante motivacional e programador neurológico Tony Robbins, interpretando a si mesmo. Ele identifica os revezes que a superficialidade crônica acarreta nas relações de Hal e resolve ajudá-lo: Lhe faz uma espécie de ‘hipnose’ por meio da qual ele só enxergará a ‘beleza interior’ das mulheres.

Assim, na linguagem visual estabelecida sem pudores pelos Farrelly, Hal vê mulheres deslumbrantes, maquiadas e penteadas como modelos de capa de revista, em pessoas que seriam tidas por feias, esquisitas ou exóticas, mas que têm um coração humilde e amável.

Logo, esse comportamento começa a chocar Mauricio –rendendo, no processo, uma série flagrante de comentários desrespeitosos –e piora ainda mais quando Hal acaba se enamorando de Rosemary.

Aos olhos de Hal, a simpática e bem-intencionada Rosemary é linda e magra –e mesmo que sempre bela e fotogênica, em nenhum filme antes ou depois deste, Gwyneth Paltrow esteve tão incrivelmente linda e sedutora –porém, aos olhos de todos os outros –e ocasionalmente em flagras fortuitos da própria narrativa –nota-se que Rosemary é uma garota que sofre de obesidade e tem uns quase duzentos quilos (!).

Em algum momento, essa curiosa condição de Hal será revertida pelo muy amigo Mauricio, no entanto, quando descobre a verdadeira aparência (e as reais dimensões) de Rosemary, ele já está genuinamente apaixonado –e então o protagonista se defronta com o dilema, nem tão bem esboçado assim, onde a vontade de estar com a garota que ama colide com o escrutínio da opinião alheia e com os próprios preconceitos mesquinhos então expostos.

No arco narrativo claro e bem definido que tece, “O Amor É Cego”, na evidente comédia romântica que se assume, deixa clara assim sua reflexão ao público. Todavia, lhe faltam (e muito) sutilezas para oferecer essa ideia ao longo do filme sem passar por momentos de ofensivo mau gosto e, se em seus outros trabalhos, esse mau gosto foi amenizado por uma capacidade  impecável para fazer rir, aqui, os Irmãos Farrelly trocam o humor irreprimível de “Quem Vai Ficar Com Mary?” por um nem sempre apropriado clima de romantismo.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Amantes

Na cena que abre o filme de James Gray, Leonard (Joaquin Phoenix) joga-se no mar no que parece ser (e certamente é) uma tentativa frustrada e gaiata de suicídio.
Os seus salvadores não entendem o ato. Suas explicações, quando muito, são hesitantes. Talvez, nem ele mesmo saiba a razão para o que tentou fazer.
Nos cem minutos seguintes, o filme tentará expor algumas dessas motivações quando Leonard retornar ao seio familiar a que pertence: Lá, ele amarga o fato de ter sido abandonado pela noiva, assim como convive com os efeitos de seu transtorno bipolar –e de toda sorte de piedade e comiseração das pessoas a sua volta.
Em família, Leonard é oprimido por escolhas que nunca tem a chance de tomar por livre e espontânea vontade.
O emprego é providenciado por seu pai, um comerciante do bairro do Brooklyn.
A vida afetiva já foi decidida pelo casamento previamente arranjado com a bela e passiva Cassandra (Vinessa Shaw). E todos à volta dele agem com tamanha naturalidade diante dessa coerção existencial que a Leonard sequer aparentam existirem razões para a angústia impronunciável que isso o faz sentir.
Hábil entendedor das mazelas psicológicas da mente humana –e encontrando em Joaquin Phoenix um intérprete afiado para cada uma dessas nuances –o diretor james Gray exercita, em “Amantes”, a verve pessoal e preciosa com a qual moldou uma das mais incomuns filmografia do cinema norte-americano moderno: Em cada um de seus trabalhos, versa uma observação sobre as inconstâncias do caráter no âmago de dilemas urbanos e pessoais que remetem à família, ao desejo e à necessidade humana de individualidade.
É por essa razão que Leonard resiste em ser aquilo que se espera que ele seja: Seu caso furtivo e sorrateiro com sua vizinha, a extraordinariamente tentadora Michelle (Gwyneth Paltrow, surpreendentemente sensual) é nem tanto uma travessura (embora seja com isso que pareça) e mais um esforço para reafirmar a si mesmo as escolhas que ele próprio almeja fazer.
Michelle representa assim um desejo inesperado, um capricho diferenciado, enquanto que Cassandra é a zona de conforto da qual ele se ressente, embora não consiga sair.
Notadamente enxuto, e tão mais espantoso pela forma com que consegue se fazer marcante na memória, “Amantes” é um conto pessimista sobre impulsos de insatisfação perante circunstâncias pré-estabelecidas. A atmosfera de suspense que a condução de Gray consegue impor em sua meia hora final é um elemento notável em meio a um filme que discorre quase todo em tom de drama –ele subverte o tempo, dilatando-o, para que o peso das escolhas presentes nesse entrecho tenham mais força do que o normal.
Tal manobra deixa certos tópicos para reflexão: Leonard, afinal, se rende à vida que planejaram para ele, porque existem possibilidades muito piores que sua insignificância de classe média não é capaz de supor; porque, afinal de contas, sua família o ama, e se confundem amor com opressão, ele nada pode fazer; e porque o que lhe pedem (desposar a bela a carinhosa Cassandra, prosseguir com o negócio da família) é infinitamente menos doloroso e árduo do que os sacrifícios que aguardam aqueles que decidem caminhar ao sabor das próprias vontades.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Contágio

Em tempos de Coronavírus, este filme lançado em 2011 (durante a comoção do H1N1, a gripe suína) voltou a ganhar relevância na lembrança dos expectadores. Trata-se de uma superprodução conduzida por Steve Sodenbergh com a mesma elegância que ele dedicou à sua obras menores e independentes.
Vitimada por um vírus desconhecido após uma viagem internacional, americana moradora de Minnesota (e interpretada por Gwyneth Paltrow) morre no leito hospitalar sem razões aparentes, logo seguida de seu filho de sete anos.
Ela deixa viúvo seu marido (Matt Damon, provavelmente o protagonista em meio à tantos astros) e os médicos com uma perturbadora interrogação acerca do quê a matou.
Nas cenas simultâneas mostradas por Sodenbergh fica claro que houve contágio: No aeroporto, uma estagiária em Londres, um assalariado de Hong Kong e um executivo do Japão também acabam infectados por ela.
O episódio em solo americano, imediatamente seguido de vários outros, aciona o Centro de Controle de Doenças dos EUA, cujos profissionais (entre eles, Laurence Fishburne, Kate Winslet, Bryan Cranston e Jennifer Ehle) correm para catalogar os efeitos da doença e conter seu rápido avanço identificando cada uma das pessoas contaminadas –que em poucos dias eles perceberão ser milhares.
Logo, um digital influencer (Jude Law) passa a valer-se do fato de ter sido um dos primeiros a noticiar o surto, e gera pânico com suas declarações bombásticas destituídas de embasamento e senso de responsabilidade.
São também enviados profissionais (Marion Cotillard e Chin Han) para investigar a origem do vírus (ao que tudo indica em Macau) enquanto equipes de geneticistas correm contra o tempo para criar uma vacina para o que logo se torna uma ameaça de nível global.
É curiosa a forma com que Sodenbergh aborda os desdobramentos humanos da crise –evidentemente acometida de características muito mais dramáticas do que os exemplos recentes da vida real –ostentando um elenco numeroso e estelar, mas, deixando claro em sua narrativa que essas presenças são, ainda assim, efêmeras diante das implicações ocasionadas de absurdo que se sucedem: A personagem de Marion é sequestrada por aldeões interessados em usá-la como refém para barganhar e tornarem-se os primeiros da fila quando houver uma vacina; o personagem de Jude Law, de olho em lucro pessoal, passa a coagir a população que segue suas orientações para não acreditar no Centro de Controle de Doenças, nem mesmo quando uma cura é finalmente processada; o vírus se alastra com mais intensidade devido à desorganização logística das autoridades locais que, a partir de determinado momento, têm de lidar até com uma greve de funcionários da área de saúde; todavia, nada gera mais caos do que o medo disseminado pela mídia sensacionalista (não dá uma sensação de déja-vú?), o que leva pessoas a estocar comida e o exército a fechar fronteiras; e a própria concepção da vacina (obtida no terço final do filme) se dá pela ação de personagens que desafiaram as normas e a burocracia (como o médico vivido por Elliott Gould e a sensacional personagem de Jennifer Ehle) para agilizar o salvamento de vidas humanas.
Com este filme austero e incisivo, Sodenbergh usa de seu talento para analisar os efeitos de uma epidemia, não tanto pelo aspecto científico e orgânico da doença em si, mas a partir das distintas ações e reações flagradas nos diferentes e diversos personagens que ele bota em cena que, de modo geral, representam os sentimentos cosmopolitas, evasivos e não raro egoístas do ser humano diante dessas situações.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

A Força de Um Passado

Diretor de “Suzie e Os Baker Boys”, o também roteirista Steve Kloves não obteve aqui o mesmo equilíbrio de sua realização anterior, deixado transparecer uma indecisão de ritmo e de gênero a contaminar os elementos que poderiam fazer deste um bom trabalho.
Ele reúne os atores Dennis Quaid e Meg Ryan –então, casados na vida real –após ambos terem participado, anos antes, de “Viagem Insólita”, de joe Dante, e “Morto Ao Chegar”, de Rocky Morton e Annabel Jankel. Eles interpretam (sobretudo, Quaid) personagens intimistas que fazem a alegria de atores em geral, mas que encontram certa dificuldade em estabelecer empatia com o expectador –e é aí que começam os problemas de “A Força de Um Passado”.
No prólogo tenso e relativamente lento, vemos uma família abrigar, na calada da noite, um menino perdido. As intenções do garoto, no entanto, se revelam quando ele destranca a porta para o próprio pai, um bandido, poder roubar a casa.
Porém, uma tragédia acontece e o homem termina matando toda a família: O pai, a mãe e um menino, deixando vivo apenas o bebê.
Para uma cena que determinará os rumos dramático tomados pela trama e por seus personagens –o que, de fato, vem a acontecer –tal prólogo carece de impacto, revelando-se enfadonho.
Eventualmente, num salto no tempo reencontramos aquele garoto, Arliss (agora vivido por Dennis Quaid), vivendo como fornecedor de utensílios para máquinas de bar ao longo das pradarias do desolado centro-oeste norte-americano. E o diretor Kloves não encontra muito o que fazer senão transformar este em um road-movie.
E numa espécie de romance também: Arliss encontra-se com Kay (Meg Ryan, ainda ostentando uma seriedade que sua carreira perdeu quando virou ‘rainha das comédias românticas’), uma moça envolvida em alguns apuros: Teve seu dinheiro roubado, obrigando-se a fazer, bêbada, um show de strip-tease (!).
Com a ajuda relutante de Arliss, Kay consegue voltar para sua cidade apenas para terminar de uma vez o casamento catastrófico com o marido inconveniente e trapaceiro.
E, à medida que o relacionamento entre os dois se intensifica –sem que o filme deixe exatamente claro se é disso que ele quer falar –ficamos nos perguntando quando, afinal, a cena trágica do início, irá começar a interferir nos rumos da história.
Dá até para começar a pensar que a bebezinha sobrevivente pudesse ser a jovem Ginnie (Gwyneth Paltrow, num de seus primeiros papéis de cinema), com quem Arliss se cruza algumas vezes, e que vem a ser quem rouba o dinheiro de Kay.
Todavia, as pontas soltas começam a se juntar quando o pai de Arliss (o grande James Caan) reaparece, atrás da ajuda do filho. Ele e Ginnie formam agora uma dupla, diante da insistência do filho em seguir uma vida honesta depois de adulto.
E assim, o passado vem cobrar suas dívidas: Aos poucos, pai e filho descobrem que Kay, a mulher agora envolvida com Arliss, é na verdade aquele bebê que escapou com vida naquela noite. O que fez Arliss um dos cúmplices do assassinato de sua família e, certamente, um dos responsáveis pela guinada que sua vida deu –culpa que os discursos imorais de seu pai só vêm a potencializar ainda mais.
Embora pretensamente dramático, “A Força de Um Passado” não aprofunda completamente a circunstância de seus personagens justamente por preferir, em vez disso, esconder muitas das informações até a último instante acerca dos reais eventos a enlaça-los; e ainda que Quaid e Ryan sejam protagonistas carismáticos, eles depõem contra a própria simpatia que conseguem conquistar interpretando personagens fechados, taciturnos e circunspectos em suas dores internas.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Vingadores - Ultimato

Numa das cenas que abrem esta continuação praticamente direta de “Vingadores-Guerra Infinita”, vemos Tony Stark gravar um melancólico monólogo diante do capacete da armadura com a qual ele foi o Homem de Ferro –cena esta vista e revista em diversos trailers.
A referência à Hamlet, de Shakespeare, é clara, bem como também é clara a similaridade entre a ambientação soturna da nave –Stark está à deriva no espaço –com a caverna onde ele construiu sua primeira armadura, dando o primeiro passo para o surgimento do que é hoje conhecido como o Universo Marvel dos cinemas.
A cena mostra assim os dois elementos primordiais que os diretores Anthony e Joe Russo tratarão de manter impecáveis ao longo das avassaladoras três horas de duração de “Vingadores-Ultimato”: A referência do mais altíssimo nível a que se pode chegar –em termos técnicos, dramáticos e artísticos, inclusive –e uma compreensão insolúvel de que o passado embutido em toda a cronologia cinematográfica da Marvel Studios deve não só ser recordado, mas também, levado em consideração, apreciado e, no fim, louvado.
Ao dar continuidade aos eventos arrebatadores de “Guerra Infinita”, “Ultimato” imbrica por um caminho que a Marvel e nenhum outro estúdio encontrou meios até então de trilhar: O de um legado composto ao longo de 11 anos de produções cinematográficas, em meio aos quais ele corajosamente percebe a importância de encontrar um fim.
Sim, porque, preservadas as surpresas que a obra reserva –e, meu Deus, elas são muitas! –“Ultimato” é, antes de mais nada, um encerramento. Um desfecho de uma história que num único empuxo narrativo se iniciou com o astro Robert Downey Jr. e seu encaixe absurdo com o personagem de Tony Stark/Homem de Ferro no primeiro filme do estúdio, e prosseguiu num expansão sem precedentes dessa mitologia nos filmes “Thor”, “Capitão América-O Primeiro Vingador” e, na junção audaciosa e vibrante dessas linhas narrativas em “Vingadores”; que, em sua cena pós-crédito, introduzia pela primeira vez o grande vilão Thanos, interpretado aqui com eficiência incontestável e empatia amedrontadora pelo ótimo Josh Brolin.
Foi em torno da promessa da vinda de Thanos que a Marvel Studios construiu assim o fio condutor a unir todos os trabalhos que se seguiram –e que oscilavam entre excelente entretenimento e diversão descompromissada –em meios aos quais não tardaram a destacar-se as obras assinadas pelos Irmãos Russo.
Pelas mãos deles, o Capitão América logo assumiu uma posição existencialmente central nesse Universo Marvel, no magnífico “Soldado Invernal” e depois no brilhante “Guerra Civil”.
A demonstração de habilidade incomum dos Russo prosseguiu com o espetacular “Guerra Infinita” e, por fim, a revelação de Thanos como o mais complexo vilão já concebido pelo estúdio. O que nos leva a este “Ultimato”.
Incapazes de lidar com o fato de que o vilão os derrotou e sobrepujou –agonia que os fãs também experimentaram durante o ano inteiro que separam estes dois filmes –os Vingadores remanescentes (e que correspondem, por sua vez, à formação original vista no primeiro filme) unem-se num plano derradeiro para tentar um contra-ataque; estimulados pela aquisição da poderosa Capitã Marvel (Brie Larson).
Este é o ponto de partida do filme e corresponde a tudo que dele se pode falar sem entrar no terreno pantanoso e arriscado das surpresas, pois sua trama é repleta de reviravoltas inesperadas, e ramificações que se mostram mais complexas do que poderia se supor num filme de orientação tão comercial, conduzindo o expectador a uma meia hora final que está entre os mais assombrosos e embasbacantes momentos do cinema comercial de todos os tempos.
O que importa, porém, é que por trás da expectativa absurda que a Marvel conseguiu gerar no público –e do filme emocionante e arrebatador que criou para correspondê-lo –“Ultimato” é, no fundo no fundo, uma declaração de amor.
Ao legado extraído de décadas de quadrinhos e transposto com apaixonada propriedade para a tela de cinema. Aos fãs, que converteram as produções da Marvel em sucessos simultâneos de bilheteria (e que certamente transformarão este num novo fenômeno). Aos personagens e seus intérpretes que se revelaram, em sua esmagadora maioria, de um acerto fenomenal –e aqui, apesar de todas as presenças esplêndidas que se seguem (com destaque para Chris Evans e Jeremy Renner) não dá para não chamar Robert Downey Jr. à frente.
Ele é o princípio de tudo. O marco zero. E é nele, mais uma vez, que se ampara a escolha para encerrar esta jornada de 22 filmes. Ele foi (e sempre será) Tony Stark, o personagem que acendeu o estopim para um legado sem precedentes no cinema comercial, e ele é aqui aquele que, num dos momentos mais superlativos e emocionantes, executa enfim sua manobra final.
“Ultimato” é cinema como aquilo que ele deveria ser: Emocional, visceral, divertido (mágico, até!), arrebatador e espantoso em níveis que a indústria (e a própria Marvel Studios) encontrarão dificuldades de igualar nestes anos por vir.
Tê-lo nas salas de cinema é um privilégio.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Emma

Tão influente e de predicados tão universais e atemporais é o livro “Emma”, de Jane Austen, que ele inspirou um dos filmes adolescentes que viraram mania entre os jovens nos anos 1990: O romance colegial “As Patricinhas de Beverly Hills”, com Alicia Silverstone, dirigido por Amy Heckerling é declaradamente uma versão adolescente, norte-americana e burguesa de “Emma”. Também na literatura “Emma” serviu de molde para um sucesso: “O Diário de Bridget Jones” –mais tarde, também ele tornado filme –de Helen Fielding era, também ele, uma versão modernizada (e nada disfarçada) de “Emma”.
Com o interesse despertado pela fabulosa adaptação de “Razão e Sensibilidade”, conduzida por Ang Lee, em 1995, era questão de tempo até que “Emma” ganhasse, também ele, sua própria versão cinematográfica.
O resultado, embora não possua a precisão e o requinte de acabamento de "Razão e Sensibilidade", é uma obra elegante, saborosa e competente, características que o diretor Douglas McGrath deve em grande parte devido à escolha de Gwyneth Paltrow para o papel: Ela está muito melhor e mais adorável aqui do que em seu oscarizado “Shakespeare Apaixonado”.
No interior da Inglaterra, na cidade de Highbury, a bela e juvenil Emma Woodhouse tem como principal diversão o hábito de bancar cupido. Ela dá conselhos, elabora estratagemas e faz esforços para unir casais e acaba criando algumas confusões devido à imprevisibilidade emotiva e romântica dos corações humanos. Isso e mais uma série de outros contratempos por vezes a indispõem com o Sr. Knightley (Jeremy Northam, bem mais jovial e galante do que é sugerido no livro), um grande amigo de sua família e sempre atento a lhe dar um puxão de orelha quando suas boas intenções extravasam o limite do decoro ou do bom senso. Mas o quê Emma parece não se dar conta é que há muita afetividade nesse modo do Sr. Knightley de se portar e se importar com ela.
No decurso de seu amadurecimento existem outras coisas que Emma irá perceber: Que por trás do amplo conhecimento nos assuntos amorosos que ostenta para os outros, há uma jovem insegura e sozinha que teme, ela própria, em ter de lidar com os revezes da paixão.
Embora seja um dos mais prestigiados livros de Jane Austen, a adaptação de “Emma”, no objetivo bastante singelo que parece buscar, passa longe de corresponder à “grande obra-prima da escritora”, resultando numa graciosa comédia romântica de época, cujo mérito maior é sua protagonista que comanda as cenas com graça e suavidade.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1999

Eis o ano no qual, para a maioria dos cinéfilos, a Academia cometeu os maiores absurdos de sua história recente, como premiar com o Oscar de Melhor Filme o romântico e singelo “Shakespeare Apaixonado” no lugar do poderoso épico de guerra “O Resgate do Soldado Ryan” e ainda por cima, dar três Oscars (!), para o filme do aloprado italiano Roberto Benigni, “A Vida É Bela” –incluindo o de Melhor Ator, cujo favorito era Tom Hanks!
É de se lamentar os bons trabalhos na disputa que, por conta dessa presepada, nada levaram: “Além da Linha Vermelha”, “O Showde Truman”, “Irresistível Paixão” e “Um Plano Simples” foram alguns deles.
Diante disso, nem dá para se chocar com a vitória da jovem Gwyneth Paltrow sobre a brasileira Fernanda Montenegro, indicada a Melhor Atriz por “Central do Brasil”.

MELHOR FILME
"Shakespeare Apaixonado"

MELHOR DIREÇÃO
"O Resgate do Soldado Ryan", Steven Spielberg

MELHOR ATRIZ
Gwyneth Paltrow, "Shakespeare Apaixonado"

MELHOR ATOR
Roberto Benigni, "A Vida É Bela"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Judi Dench, "Shakespeare Apaixonado"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
James Coburn, "Temporada de Caça"

MELHOR FOTOGRAFIA
"O Resgate do Soldado Ryan"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"The Last Days"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"The Personals-Improvisations on Romance in the Golden Years"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"A Vida É Bela" (Itália)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"O Resgate do Soldado Ryan"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Amor Além da Vida"

MELHOR MAQUIAGEM
"Elizabeth"

MELHOR FIGURINO
"Shakespeare Apaixonado"

MELHOR SOM
"O Resgate do Soldado Ryan"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Shakespeare Apaixonado"

MELHOR TRILHA SONORA - DRAMA
"A Vida É Bela"

MELHOR TRILHA SONORA – MUSICAL OU COMÉDIA
“Shakespeare Apaixonado"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"When You Believe", de "O Príncipe do Egito"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Shakespeare Apaixonado"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Deuses e Monstros"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Bunny"

MELHOR EDIÇÃO
"O Resgate do Soldado Ryan"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Election Night”

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Shakespeare Apaixonado

O trabalho do diretor John Madden –de um estilo que não se define com facilidade em meio aos filmes que realizou, tão díspares quanto este, o drama “Ethan Frome-Um Amor Para Sempre”, a comédia “O Exótico Hotel Marigold” e sua continuação, o thriller de espionagem “A Grande Mentira” e o suspense político “Armas Na Mesa” –ao que parece caiu nas graças da Academia de Artes Cinematográficas ávida que ela estava por enfim ver um filme que biografasse o tão aclamado bardo William Shakespeare.
Só isso mesmo para explicar o fato desta produção (que a rigor é uma mera comédia romântica de época) vencer o Oscar de Melhor Filme numa disputa que incluía o imbatível “O Resgate do Soldado Ryan”. Claro que, avaliando com mais calma, outro motivo aparece: Um dos produtores de “Shakespeare Apaixonado” era Harvey Weinstein que, durante anos, foi determinante para quem ganhava ou perdia as premiações do Oscar, até ele ser completamente afastado da indústria por acusações recentes de assédio sexual.
No filme mesmo, pouca explicação se encontra para as sete estatuetas que ele ganhou: Na trama que se desenrola por meio de farsa e galhofa conhecemos o jovem Shakespeare (Joseph Fiennes, irmão de Ralph que apesar dos esforços não vingou), um rapaz inspirado pela vida boêmia da Inglaterra do século XVI, a escrever peças de teatro para o povo, sua grande fonte de diversão.
O lugar mais freqüentado pela plebe para assistir as histórias que os envolviam era o teatro “The Rose”, de propriedade do endividado Hemslowe (Geoffrey Rush). Com os credores prestes a lhe arrancar o couro (literalmente!), ele deposita suas esperanças na próxima peça escrita por Shakespeare cujos trabalhos costumam ter boa aceitação de público, embora o rapaz esteja passando por uma crise criativa.
A outra peça do tabuleiro é a jovem Viola (Gwyneth Paltrow que absurdamente levou o Oscar de Melhor Atriz tendo como concorrentes Cate Blanchett, por “Elizabeth”, e Fernanda Montenegro, por “Central do Brasil”), filha de pai rico e com o casamento já arranjado com o Lorde Wessex (Colin Firth, numa época em que só era escolhido para papéis vilanescos). Viola, que leva o nome da mesma protagonista de Shakespeare para a farsa “Noite de Reis” e aqui, também ela pratica sua própria farsa, deseja conhecer o mundo antes de restringir a vida à um matrimônio opressor. Ela quer conhecer as peças de teatro encenadas no vilarejo e, se possível diante de seu maior atrevimento, atuar nelas –naquela época, a atuação era estritamente proibida às mulheres restando aos homens fazer os papéis femininos também.
Viola, assim, se disfarça de menino para participar dos ensaios no “The Rose” onde Shakespeare corre para entregar sua peça “Romeu & Ethel, A Filha do Pirata”. Em algum momento, o escritor, porém, perceberá que aquele menino tem uma feminilidade impossível de ser encenada e descobrirá a farsa de Viola –e por ela se apaixonará.
Tentando dar prosseguimento a esse romance da forma como podem e com uma data-limite certamente estipulada –o casamento de Viola e a apresentação da peça são marcados para o mesmo dia! –os dois amantes vêem sua história de amor ganhar a tumultuada rotina do teatro como pano de fundo enquanto os aspectos eufóricos, angustiantes e até frustrantes desse amor vão servindo de combustível para que Shakespeare transforme a peça na obra que, por fim, será chamada de “Romeu & Julieta”.
Certamente gracioso visivelmente feito com o propósito despretensioso de divertir e completamente sem compromissos com qualquer realidade que tivesse envolvido a vida de Shakespeare ou a criação de “Romeu e Julieta”, este “Shakespeare Apaixonado” até seria um filme interessante e simpático não tivesse ele sido superestimado a ponto de protagonizar a premiação mais eclética e questionável de toda a história recente do Oscar.

Hoje ele é visto como um filme mediano que tirou prêmios significativos de grandes obras que mereciam mais.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Os Excêntricos Tenenbaums

Mais uma ode à estranheza, aos marginalizados, aos tipos bizarros que Wes Anderson tanto aprecia enaltecer. Entretanto, há sempre uma particularidade nas singulares criaturas que o diretor gosta de transformar em centros de suas narrativas: Deles parte um ímpeto irreprimível para criar.
Assim é Max Fischer, o aluno fracassado, porém, entusiasta e incansável de “Rushmore”; ou o pesquisador de moral duvidosa, mas de inabalável gosto pelo desconhecido em “A Vida Marinha de Steve Sizou”.
Todos –e outros mais –buscam no intelecto uma fuga para as limitações da vida.
Assim, como os Tenenbauns.
Realizado logo após “Rushmore” ter surpreendido o mundo, “Os Excêntricos Tenenbauns” fala sobre uma família de crianças superdotadas e de como essa condição se transfigurou, na idade adulta, mais como uma sina do que como um dom. A figura paterna –aqui representada pelo espetacular personagem de Royal Tenenbaun, majestosamente vivido por Gene Hackman –surge como o catalisador principal das mazelas, mas a exemplo dos outros protagonistas de Anderson, ele é também um amálgama carinhoso, carismático e encantador de inúmeras falhas e defeitos humanos.
Longe da família por motivos que não tardam a ficar evidentes –como suas recorrentes falhas de caráter –Royal descobriu que tem câncer, ele deseja então reunir-se com sua ex-esposa (Angélica Hunston), agora de casamento marcado com o novo namorado (Danny Glover, hilário), e com seus filhos, o metódico Chas (Ben Stiller) cuja obsessão minimalista por segurança contamina seus filhos pequenos; a escritora prodígio Margot (Gwyneth Paltron), mesmerizada num casamento completamente apático com seu ex-professor (Bill Murray); e Richie (Luke Wilson) que exilou-se numa longa viagem de cargueiro pelo mar devido à atração incestuosa que nutre desde sempre por Margot (!).
Além deles, há também a ocasional presença de Eli Cash (Owen Wilson), amigo inseparável dos Tenenbauns desde a infância.
A reunião de familiares tão idiossincráticos rende um filme em si incomum, como é do agrado de seu realizador, um perspicaz observador das peculiaridades insignificantes que o olhar ordinário deixa passar.
Ao justapor duas facetas completamente diferentes da família –uma usina de neuroses e, ao mesmo tempo, um refúgio de empatia e amor –e vislumbrar por meio disso uma obra cinematográfica de notável ressonância emocional, o diretor Wes Anderson corrobora também com uma premissa que pareceu não conseguir deixar de lado: A família, e os esforços de seus membros em continuar encontrando um laço e uma unidade. Afinal de contas, vem a ser este enredo mais uma vez o foco de Wes Anderson no irregular e perdido “Viagem À Darjeling”, também ele com Angélica Huston.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Homem de Ferro 3

Jon Favreau, o diretor dos dois primeiros filmes do Homem de Ferro sentia-se esgotado em lidar por tanto tempo com aquele mesmo material –e seu cansaço na condução de “Homem de Ferro 2” é particularmente visível.
Tendo ele então recusado a direção do terceiro filme de Tony Stark, e antes disso, também recusado a direção do filmes dos Vingadores, a Marvel Studios foi em busca de um novo diretor (essa prática passou a ser bastante benéfica para o estúdio e suas produções, não deixando que um mesmo diretor se sobrecarregasse com sucessivos filmes).
Foi o astro Robert Downey Jr. quem interveio, sugerindo para o cargo seu grande amigo Shane Black, realizador do ótimo “Beijos e Tiros”, provavelmente a obra inicial do retorno de Downey Jr. ao estrelato.
Também ator (participou de “O Predador”), além de conceituado roteirista (criou a premissa e escreveu o roteiro dos dois primeiros filmes da série “Máquina Mortífera”), Shane Black contribuiu com seu senso de espetáculo, seu humor pontual e seu gosto por ramificações rocambolescas na trama, proporcionando ao personagem de Tony Stark um filme interessante que dá continuidade aos eventos de "Os Vingadores", mas que gerou uma controvérsia entre o público. Certamente, a maior dentre todos os filmes da Marvel: Os expectadores basicamente se dividem entre aqueles que o consideraram ótimo, tão bom quando os filmes anteriores, e aqueles que repudiaram completamente as escolhas (polêmicas é bem verdade) da história, cujas reviravoltas mostram-se desafiadoras no que tange a alguns elementos canônicos dos quadrinhos, além do humor afiado, incisivo e constante que fizeram muitos imaginar que este era um filme que não se levava a sério –e isso é tema para infindáveis debates.
Quando “Homem de Ferro 3” começa, portanto, Tony Stark (Downey Jr como sempre dando o seu melhor), o Homem de Ferro em pessoa, goza de seu status de celebridade na Costa Oeste após a Batalha de Nova York –ocorrida na segunda metade de “Vingadores” –torná-lo  famoso no mundo inteiro, junto com os outros heróis. Enquanto mantém um relacionamento relativamente sólido com Peper Potts (Gwyneth Paltrow), Tony lida, ao seu jeito, com o stress pós-traumático provocado por aquele conflito: Constrói novas armaduras sem parar!
Já, seu melhor amigo, James Rhodes (o ótimo Don Cheadle), que em “Homem de Ferro 2” assumiu a alcunha de Máquina de Combate, segue atuando agora como Patriota de Ferro. Entretanto, quando um certo Aldrich Killian (Guy Pearce) aparece, Tony começa a suspeitar de seu envolvimento em uma série de atentados relacionados a uma droga experimental, a Extremis, e que levam diretamente a um terrorista disposto a ameaçar a vida do próprio presidente dos EUA: o misterioso Mandarim (Ben Kingsley, numa atuação soberba).
Gozando do privilégio de ser o primeiro filme a iniciar a "fase 2" da Marvel Studios, ou seja, todos os planos envolvendo o Universo Marvel após o estrondoso filme dos Vingadores, “Homem de Ferro 3” foi audacioso nos rumos inventivos que buscou dar para personagens já estabelecidos –ao mesmo tempo que ele reinventou por completo o celebradíssimo arco “Extremis”, dos quadrinhos, o roteiro não se intimidou de subverter a lógica e a origem do vilão Mandarim (um personagem muito aguardado pelos fãs), dando a ele um background metalingüístico inesperado (para não dizer desconcertante!) que chocou o público, frustrando alguns expectadores e surpreendendo outros tantos.
O filme de Shane Black também mostra audácia na maneira com que amarra pontas soltas dos filmes anteriores do Homem de Ferro, firmando-se como um “final de trilogia” –ainda que todos sabiam, a trajetória de Tony Stark não tenha se acabado.
O mais controverso filme da Marvel Studios, o sarcástico e espetacular “Homem de Ferro 3” mostrou, pelo menos, que o estúdio tinha muita lenha pra queimar, mesmo depois de “Vingadores”.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Homem de Ferro 2

Em time que está ganhando, não se mexe, certo?
Com essa idéia em mente, a Marvel Studios, após o estrondoso sucesso de público e crítica de “Homem de Ferro” optou por lançar, dois anos depois, a continuação desse trabalho.
Alternativas não faltavam –na época, exceto pelo Incrível Hulk que ganhou uma nova versão com Edward Norton em 2008, nem Capitão América, nem Thor tinham seus próprios filmes –mas, a Marvel resolveu não arriscar e chamou mais uma vez Jon Favreau para a direção. Liderando o elenco, retornava Robert Downey Jr. garantindo ao filme sua interpretação irrepreensível como o protagonista Tony Stark.
Uma curiosidade: O intérprete de James Rhodes do filme anterior, Terence Howard, não voltou para a seqüência, e em seu lugar foi chamado o ótimo Don Cheaddle que assumiu o personagem e, até o momento, já viveu Rhodes em quatro filmes.
Após ter revelado sua identidade secreta como Homem de Ferro no final do filme anterior, o milionário Tony Stark enfrenta diversos tipos de pressões: Alçado à condição de celebridade ele é pressionado pelo governo à compartilhar a arrojada tecnologia da armadura, no que são apoiados pelo melhor amigo de Stark, o Coronel James Rodhes; ao mesmo tempo, seu ferimento no coração, herdado do ataque do primeiro filme requer uma fonte de energia constante para não matá-lo.
Enquanto isso, um rancoroso inimigo nutre planos de vingança contra o Homem de Ferro: ele é Ivan Danko (Mickey Rourke, uma presença luxuosa), cientista russo que, aliado ao inescrupuloso empresário Justin Hammer (Sam Rockwell), planeja recriar a armadura usando-a para o mal.
Fica perceptível, em muitos momentos, um relativo cansaço do diretor Favreau, pelo fato de estar mais uma vez lidando com os mesmos elementos que tão bem empregou no primeiro filme: Muitas cenas soam quase como uma repetição disfarçada de algo que ele já havia feito antes, embora não faltem momentos bastante divertidos a este trabalho, amparado num roteiro ocasionalmente cômico de Justin Theroux –com quem Downey Jr. havia trabalho em “Trovão Tropical”. Mais do que dar uma continuidade de fato à história de Tony Stark, este filme tem por objetivo, enquanto narrativa, estender os detalhes acerca do Universo Marvel. Para tanto, sua riqueza de detalhes diversas vezes relega a trama a um segundo plano –o quê é fonte de críticas para este filme em especial até hoje –enquanto exibe um gancho explícito para o vindouro filme do Thor (habilmente retomado nessa produção) na forma do personagem do Agente Coulson (Clark Gregg), bem como a aparição bem mais estendida e intensa de Nick Fury (Samuel L. Jackson, que no filme anterior surgiu somente numa cena pós-créditos) e, sobretudo, a esplêndida presença da Viúva Negra (Scarlet Johansson).

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Homem de Ferro

Marco zero do projeto sem precedentes movido pela Marvel Studios, que consistia em levar ao cinema todas narrativas entrecruzadas de seus personagens nos quadrinhos, habitantes de um mesmo universo coeso e interativo.
É curioso lembrar que poucos tinham muita certeza acerca do futuro da Marvel, especialmente porque eles tiveram o atrevimento de iniciar tudo com um personagem então absolutamente desconhecido do grande público que não tinha intimidade com os quadrinhos.
A seu favor, além da presença de um talentoso ator –Robert Downey Jr. –que rendia boas atuações quando não estava bêbado ou na cadeia, eles tinham a liberdade criativa plena propiciada pelo fato deste ser sua primeira investida no ramo cinematográfico.
E mais nada.
O diretor? Jon Favreau que havia realizado dois filmes pequenos e simpáticos, “Zathura” –uma continuação informal de “Jumanji” –e a aventura “Um Elfo Em Nova York”.
Mas a Marvel, como estúdio, foi sábia ao administrar magnificamente bem os elementos que tinha a disposição, e possuir o bom senso de fazer um filme objetivamente bom.
É por esse princípio que somos apresentados à Tony Stark (Downey Jr.), um gênio inventor e multimilionário da indústria armamentista que, durante uma apresentação no oriente médio, é seqüestrado por terroristas que o obrigam a construir uma arma em seu cativeiro.
Entretanto, de posse das parafernálias que dispõe, Stark cria uma armadura absurdamente poderosa que possibilita sua fuga. De volta à civilização, e à sua vida de playboy, Stark decide reconstruir a armadura com aprimoramentos e usá-la para proteger os inocentes sob a identidade do herói conhecido como Homem de Ferro.
A questão é que desde o princípio se percebe a iniciativa da Marvel em realizar um produto de cinema, com todos os predicados necessários para se manter sozinho –uma história eficiente e bem lapidada, uma condução dinâmica, espirituosa e bem humorada do diretor Jon Favreau, um roteiro econômico, sucinto e sem firulas, e uma série de personagens bem escolhidos, bem interpretados e bem distribuídos e suas várias contribuições aos avanços da narrativa.
E, ao centro de tudo, a interpretação vistosa, descontraída e convicta de Robert Downey Jr. finalmente deixando a imagem de ator problemático para trás e abraçando a promessa de estrelato que seu imenso talento há muito tempo sinalizava.
Tudo isso, em 2008, funcionou como uma máquina das mais bem azeitadas, transformando “Homem de Ferro” numa das aventuras mais bem acolhidas pelo público de que se tem notícia: Era comum ouvir comentários afirmando o quanto Downey Jr. era surpreendentemente perfeito para o papel, ou como suas cenas de ação acrescentavam (e não se sobrepunham) à história.
Construído da mais apurada fusão de carisma, ação de alta voltagem e cuidado narrativo, “Homem de Ferro” pavimentou o início de um longo caminho que possibilitou a consolidação do verdadeiro gigante das telonas que a Marvel Studios é hoje.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Seven - Os Sete Crimes Capitais

Neste que é, até hoje, um de seus trabalhos mais primorosos, David Fincher enreda os seus personagens num mundo de chuva e escuridão que é, ele próprio, um reflexo da alma negra do misterioso psicopata que os protagonistas perseguem.
Como no refrão da eletrizante música de David Bowie que encerra a obra, a psicose é, assim sendo, “algo dentro de nós mesmos” (Something In Ourselfs).
Desde o início este é, portanto, um jogo perdido, ainda que até seu desfecho, não faltem surpresas.
O extraordinário Morgan Freeman e o astro Brad Pitt (na primeira de, até então, três colaborações com Fincher) são dois detetives, um veterano e um novato, de natureza e estilos antagônicos, trabalhando juntos num caso assustador onde um psicopata desconhecido parece matar suas vítimas com base nos sete pecados capitais.
A encenação, concebida por Fincher para cada morte que se segue é um primor macabro que até hoje desafia os parâmetros dos fãs do gênero: Temos o homem obeso sufocado num prato de comida (gula); um advogado obrigado a dilacerar um pedaço da própria carne numa recriação macabra de “O Mercador de Veneza” (avareza); uma garota de programa morta por um hediondo instrumento sexual (luxúria); um mendigo confinado por meses em uma cama (preguiça); e a modelo que se suicida após a mutilação de seu rosto (vaidade).
As coisas se complicam de verdade quando o psicopata começa a jogar com os próprios detetives e se apresenta disposto a levar os dois policiais ao local fatídico de seus dois derradeiros crimes (a inveja e a ira).
Nesse momento, Fincher remove seus personagens do ambiente lúgubre e urbano, levando os dois protagonistas e seu desafiador antagonista (um magnífico Kevin Spacey) ao inusitado cenário de um campo aberto com sol, no qual ele parece sugerir subconscientemente ao expectador uma quebra nas pessimistas expectativas, mas o que ele fará é algo de uma ousadia e transgressão tamanhas que fez com que o final deste filme fosse um dos tópicos mais discutidos daqueles anos.
A excelência alcançada por “Seven” através da direção espetacular de Fincher –voltada muito para o esmero no quesito visual, no que encontra fabuloso respaldo na direção de fotografia de Darius Khonji –fez dele um marco do cinema independente dos anos 1990 que redefiniu o conceito de filmes sobre serial-killers e a percepção dos estúdios sobre trabalhos pesados e claustrofóbicos.